As rémoras dos desgraçados


Paulo Sousa,

Como aqui disse há dias, existe uma enorme distância entre o que os apoiantes da causa palestiniana imaginam para esse país e o que este possa vir a ser na realidade. Mas, como acontece frequentemente, a projecção de um desejo turva a capacidade de análise e até ajuda a fingir que não se vê quem são ou o que fazem os demais parceiros de barricada.

Nesse postal referi o paralelo com o que se passou em 1979, durante a Revolução Islâmica no Irão. Antes de saber o que viria a ser o regime teocrático dos aiatolas, o intelectual de esquerda Michel Foucault afirmava que essa revolução era “a primeira grande insurreição contra os sistemas de poder globalizados”. Afirmou que o Islão político poderia expressar o desejo de uma forma diferente de modernidade, uma que não fosse simplesmente cópia do Ocidente e chamou a este movimento, que se formara, uma “espiritualidade política”, que revelava “a possibilidade de uma política diferente da que conhecemos no Ocidente”. O radar da esquerda está sempre sintonizado para algo que surja e que seja contrário ao mundo onde vive. Para alguns, como Foucault, o marxismo ortodoxo era demasiado autoritário e por isso o Irão Imaginário de então encaixava como uma luva no seu caderno de encargos. Logo depois, esse exotismo e aparente pureza moral do regime teocrático mostrou ao que vinha, os inimigos da revolução passaram a ser arbitrariamente enforcados em locais públicos, os direitos das mulheres regrediram vários séculos, a brutalidade e a violência vulgarizaram-se como ferramenta ao serviço do Estado. Perante isso, Foucault nunca se retractou. Não precisava porque na altura em que disse o que disse, estava cheio de boas intenções. E foram essas mesmas boas intenções, e virtude a rodos, que tripulou a dita flotilha. Se ouvirmos que os clérigos palestinianos pensam sobre as demais causas da colorida tripulação que desde Agosto anda a velejar pelo Mediterrâneo, é fácil encontrar mais paralelos com o caso do Irão Imaginário. 

Posso estar enganado, o que não é invulgar, mas o sucesso do acordo de paz agora proposto por Trump, a verificar-se (o que olhando para o passado da região tem sempre uma forte possibilidade de não acontecer), não será bem visto por essa esquerda que agora interrompe comboios e grafita monumentos. Para começar porque a paz, a paz possível, seria sempre e inequivocamente um sucesso político de Trump, personagem que representa tudo o que eles abominam. Por todos os motivos e mais esse, digo eu, seria uma coisa bonita de se ver. Longe de simpatizar com o actual Presidente dos EUA, juntar-me-ia, e sem vacilar, aos que aplaudiriam tal êxito alcançado. Uma paz viável deixaria a essa esquerda aziada também por assim perderem outra das suas bandeiras. O wokismo já mostrou mais saúde e agora uma paz alcançada por Trump seria outro duro golpe. Lá teriam de se voltar a justificar com as suas permanentes boas intenções e lá teriam de ir desencantar outros oprimidos quaisquer para, quais rémoras, se colarem a eles.

Muito provavelmente estarei a pronunciar-me demasiado cedo, mas, a confirmar-se, será caso para dizer que quando os “bem intencionados”, mesmo sem o admitirem, se arrepiam com uma possibilidade de paz, é nesse momento que o diabo morde a própria cauda e o círculo se fecha sobre si próprio. Aguardemos.

50 comentários em “As rémoras dos desgraçados”

  1. Excelente texto Paulo! 👏
    Resume basicamente o que penso sobre a flotilha, a questão palestiniana, e a esquerda. Aliás, os elementos da flotilha podem agradecer a Deus (e a Israel) o facto de não terem chegado a desembarcar a Gaza. Não seria bonito de ver…
    A única ressalva relativamente ao que escreveu é que eu, ao contrario do Paulo e da generalidade da elite bem pensante, nutro bastante simpatia por Trump (a minha costela de ser do contra). O plano para Palestina de Trump foi do melhor que já se pensou para a região (assim como já tinham sido os Acordos de Abraão, que na minha opinião valeriam por si só o prémio Nobel da Paz). A participação activa dos países Árabes, que sabem, melhor que o ninguém, lidar com o terrorismo religioso, e têm interesses em jogo, é a única esperança para a região.

    1. Cada um tem o direito de ter a sua opinião. Trump é uma aberração envolto em crime e em interesses obscuros. O episódio de libertar todos os participantes no ataque ao Capitólio é claro e conciso na avaliação que faço.
      Quanto ao plano para Gaza é benéfico sim senhor, só que já vem do tempo de Biden. Cabe a Trump conseguir implementá-lo, algo que Biden não conseguiu fazer.
      Quanto à pandilha da flotilha, assim como condeno quem atacou o Capitólio não aceitando a derrota de Trump, também condeno a forma arruaceira e desordeira de exprimir ideias e defender causas.
      Atribuir o Nobel da Paz a Trump, espero que não aconteça, será a anedota do século. Não é a paz que interessa a Trump e sim os interesses económicos subjacentes às situações, que podem de ser de paz. Basta ver os paninhos quentes que tem com Putin sempre a pensar nos interesses económicos que lhe podem advir da Russia, sem descurar o negócio de armas pagas pela Europa e o acordo de terras raras da Ucrania. Em resumo, a Ucrania e a Europa que lixem, velha de lá o meu.

    2. Numa coisa tem toda a razão, Susana. A adesão dos países árabes é um activo da maior relevância no acordo de paz que venha a ser firmado. É sintomático o afastamento de boa parte do mundo árabe dos palestinianos, começando pelo facto de nunca se terem voluntariado a albergar refugiados oriundos daquelas paragens, tal é a consideração que lhes merecem. Quanto à flotilha, é o desespero de uma pretensa intelectualidade que navega à deriva na busca de causas que justifiquem a sua existência.

      1. “É sintomático o afastamento de boa parte do mundo árabe dos palestinianos, começando pelo facto de nunca se terem voluntariado a albergar refugiados oriundos daquelas paragens, tal é a consideração que lhes merecem”

        Talvez porque viram o que ia acontecendo à Jordânia não fosse o célebre setembro negro ou o que acabou por acontecer ao Líbano que serviu de derradeiro refúgio de muitos grupos armados e movimentos de resistência palestinianos expulsos de países árabes vizinhos como a Síria, o Egipto e a Jordânia. Digamos que já sabem “o que a casa gasta”.

        1. Tem toda a razão Lopes. Seja qual for o País onde os Palestinianos se quiseram instalar, não tardaram a surgir conflitos que não só perturbaram o País de acolhimento como extravasaram a sua perniciosa actividade para além das fronteiras. Mas a Palestina existe? Nómadas, que se arrogam o direito de onde montam a barraca já é território seu por direito divino. Povo sem terra, que não a tem mas também nunca a quiz ter.

  2. Millor: ‘Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos’.
    Foucault « tinha uma tensa relação com seu pai, que chegou a interná-lo aos 22 anos de idade acusando-o de ser louco, após tentativa de suicídio.[4).
    «Depois de vários anos como diplomata cultural no exterior, ele retornou à França e publicou seu primeiro grande livro, A História da Loucura. »
    ‘ salut mon pote, ça Biche’

        1. https://www.jeuneafrique.com/1147268/politique/tunisie-michel-foucault-netait-pas-pedophile-mais-il-etait-seduit-par-les-jeunes-ephebes/
          Moncef Ben Abbes, véritable mémoire du village, est catégorique : « Foucault n’était pas pédophile mais était séduit par les jeunes éphèbes. Des gars de 17 ou 18 ans qu’il retrouvait brièvement dans les bosquets sous le phare voisin du cimetière. » La majorité civile est alors fixée à 20 ans. Une précision proche de celle de Jean Daniel qui rapportait dans un portrait de Michel Foucault à Sidi Bou Saïd qu’« il était, le plus discrètement du monde, homosexuel. Sans les rumeurs des petits voyous du village, personne ne s’en serait douté ».

  3. Será que as inúteis que se atrevem a defender o
    t e r r o nismo com actos desprezíveis como a flotilha
    da vergonha e com as bandeiras da barbaridade
    vão festejar o dia de hoje?
    Na minha modesta opinião tinha autorizado esses ignorantes
    a acostar em G a z a para verificar o quanto são heróicas perante
    tão civilizadas criaturas.
    Proponho o Nobel da vergonha às valentonas que apoiam quem
    tão maltratam as mulheres. É obra !
    Ignoram o quanto são ignorantes. ( esta frase paga direitos de autor ).

    1. A busca desesperada por causas que ainda consigam fazer umas quantas cabecinhas incautas tem destas coisas. Depois ainda está por descobrir quem pagou os custos da flotilha e se não houve também uns quantos “flotilheiros” a ficarem com as mãozinhas bem “besuntadas” em troca da sua disponibilidade. Só já enganam quem quer ou gosta mesmo de ser enganado ou quem já nem tem um tico e um teco sequer.

      1. Não é muito difícil de perceber quem
        alinha os €€ e quem sempre financiou
        estes grupos da r.e.l.i.g.i.ão. da paz.
        e quem está na sombra no que diz respeito
        á invasão da Europa.
        Como dizia o outro façanhudo isso iria acontecer sem que
        fosse necessário disparar um único tiro.
        Missão cumprida.

        1. ( A flotilha das duquesas de Tiago Moreira de Sá no
          Observador deu-me um enorme prazer , absolutamente brilhante).

  4. FLAVIUS JOSÈPHE in Guerre des juifs.
    1- La guerre que les Juifs engagèrent contre les Romains
    est la plus considérable, non seulement de ce siècle,
    mais, peu s’en faut, de toutes celles qui, au rapport de la
    tradition, ont surgi soit entre cités. soit entre nations.
    Cependant parmi ceux qui en ont écrit l’histoire, les uns,
    n’ayant pas assisté aux événements, ont rassemblé par
    oui dire des renseignements fortuits et contradictoires,
    qu’ils ont mis en oeuvre a la façon des sophistes; les
    autres, témoins des faits, les ont altérés par flatterie
    envers les Romains ou par haine envers les Juifs,

  5. Trump e Paz na mesma frase é um oxímoro.

    E se ela, a Paz, eventualmente resultar – há sempre que considerar essa remota hipótese, apesar de todos os conflitos transactos e tensões existentes -, não seria então mais um caso em que os fins justificam os meios?

    A Pax Omo, que tudo branqueria, no manicómio a ceú aberto que é o Médio Oriente.

    Sugestão cultural: https://caglecartoons.com/cartoon/300309

  6. Realmente a esquerda é só uma cambada de burros “bem-intencionados” a projectar desejos. Claro, porque quem está a torcer para que o Trump faça a paz só para ver os outros “aziados”, é o supra-sumo da análise desinteressada. A paz é bonita, desde que lixe a vida a quem não se gosta.
    Não há dúvida que bela virtude. Temos a paz pela provocação e não pela paz.

  7. Gostei muito do seu postal e é nesse espírito que comento e, talvez, acrescente uma homenagem improvável.
    Sobre a possibilidade do plano de paz falhar, o coronel José do Carmo, no Observador, tem um artigo notável, escalpelizando os pontos fortes e fracos do plano. Eu apenas acrescento que não são possíveis previsões sem saber o que até agora se manteve secreto e poderá estar agora a ser discutido no Egipto.
    Não tenho a menor dúvida que, libertados os reféns, ainda que passem anos, os chefes do Hamas ainda vivos, serão caçados e eliminados um a um, como aconteceu a seguir ao massacre de Munique em 1972. Os serviços de informações, Mossad, Shin Bet e AMAN, foram humilhados no 7 de Outubro e isso transcende governos e políticas. Além disso, há uma enorme diferença para 1972, pois desta vez, algumas chefias árabes vão protestar ruidosamente mas auxiliar silenciosamente. Esta a primeira incógnita: que garantias serão dadas às chefias do Hamas para que a rendição não seja igual a um suicídio.
    A segunda questão é que o plano, sendo mais do que isso é também um ultimato. O Hamas tinha 72 horas para concordar e, aparentemente já concordou na libertação dos reféns e na entrega do governo de Gaza mas falta a questão crucial da desmilitarização ou seja da deposição de armas, que será para o Hamas uma rendição total. Mas não se sabe qual a ameaça que foi avançada caso o Hamas não aceitasse. Trump declarou depois que o Hamas seria totalmente destruído mas isso, de Trump, pouco vale e nada diz. Seja o que for, corte total da ajuda humanitária, intervenção de tropas internacionais com a participação da Liga Árabe, intervenção directa americana, tudo parece difícil, improvável e excessivo, mas só algo de muito substancial levará o Hamas a entregar as armas.
    Como “fait-divers” os acordos Abraão, foram o mais notável feito americano Médio-Oriente em todo o tempo. Mas se Trump pode merecer o Nobel da Paz, apenas por ter acabado com a guerra entre o Ruanda e a R.D. Congo, ele não foi pessoalmente determinante e até estragou oo resto do que se seguiria aos acordos, com declaração públicas prematuras típicas do seu egocentrismo quase narcisista. O grande executor foi o genro Jared Kushner, um judeu ortodoxo que negociou a venda de 1,1 milhões de dólares de armas à Arábia Saudita e a maior parte dos contactos para oos acordos. O mesmo Kushner que, diz-se, foi um dos principais executores do actual plano de paz. Claro que não é radical mas, mesmo assim, um judeu ortodoxo interlocutor de árabes, até do país do wahabismo, é surpreendente para não dizer mais. E foi este negociador de excepção que teve feroz oposição do partido democrata quando Trump o indigitou para embaixador em Paris (graças a Deus que temos Trump e não Kamala).
    Também apreciei a referência a Foucault, que com outros tem andado esquecido, causando alguma desinformação. O neomarxismo começa com Gramsci, depois com Foucault, depois ainda com Marcuse, este último com Adorno e Horkheimer na chamada Escola de Frankfurt. Foi esta (ou estas para os puristas) ideologias, que passaram às universidades inglesas e americanas de topo. Nestas últimas, por um conjunto de fenómenos de que já há muitas análises, tiveram forte adesão, desenvolveram-se exponencialmente e foram depois reexportadas para a Europa.
    Talvez isto ajude alguns – fraca esperança minha – a perceber que a aparente hostilidade à Europa, por parte de Trump e de quem o rodeia e influencia, não deriva apenas de motivos de investimento em defesa e de desequilíbrios comerciais.

    1. Espero que tenha razão e a hostilidade à Europa se fique pela aparência, porque cada vez mais aparenta que a prova dos nove vai ser necessária, e nesse caso convém dar certo.

    2. Veremos daqui a algum tempo se temos, tenho, de reclassificar a passagem de Trump pela presidência dos EUA. A aparente hostilidade à Europa pode ser motivada por interesses comerciais, nacionalistas ou apenas narcisicos, o que não deixa de ter piada é a sua fixação num prémio, o Nobel da Paz, atribuído pelos europeus.

      1. Os americanos são hostis à Europa. Trump vocaliza. Uma cambada de comuno socialistas com as suas greves, saúde gratuita, que vivem à conta do american taxpayer. Bem ditas as coisas, eles sao hostis a tudo e todos. Inclusive outros americanos. A panca por muros não é à toa

  8. Com prévias desculpas por não ser o tema do postal mas apenas com ele estar relacionado, quero prestar a minha homenagem aos tão vilipendiados heróis das IDF.

    A 1ª Guerra Mundial foi a última grande guerra quase exclusivamente militar, com combates em campo aberto e trincheiras. A 2ª foi já mais territorial do que militar e, se teve igualmente batalhas em campo aberto teve-os também em povoações e cidades. Isto traduz-se cruamente em estatística. Na 1ª GG morreu um civil em cada cinco baixas; na 2ª GG morreu um militar em cada cinco baixas.
    A ONU afinou esta estatística, baseada em conflitos reais desde a sua fundação. Em povoamento rarefeito, morria um combatente em três baixas; em ambiente urbano, morria um combatente em nove baixas.
    Gaza é essencialmente urbana mas, tem agravantes. É sobrepovoada, os combatentes dispunham de abrigos em túneis, a população não tinha nenhuma espécie de abrigos (nem acesso aos túneis nem as estações de metro doutras geografias) e era por vezes utilizada como cobertura de instalações e actividades militares. Nestas condições, numa previsão cautelosa e certamente por baixo, seria de esperar um combatente morto em cada doze baixas.
    Segundo números do ministério da Saúde (do Hamas) de há pouco mais de uma semana, morreram em Gaza 65 mil pessoas. Numa população de mais de 2 milhões, novamente por baixo, 20 mil mortos seriam por causas naturais (em Portugal em 2 anos 200 mil mas há que ter em conta que as pirâmides etárias de Gaza e Portugal são invertidas). Ficariam assim 45 mil mortos devido à guerra.
    Fontes das IDF referem ter morto 25 mil combatentes do Hamas mas estimativas dos serviços de informação do exército americano apontam apenas para 15 mil (O Hamas nunca admitiu a morte de combatentes). Utilizando o valor americano temos 1 combatente em cada 3 baixas, quatro vezes menos do que o esperado em estimativa por baixo.
    O principal motivo, terá sido os avisos prévios de Israel sobre as zonas onde ia intensificar as operações mas, sem uma forte cultura de evitar baixas civis em todos os cenários, este resultado não seria possível.
    Fui combatente na Guiné e tive cerca de 40 experiências de combate, muitas com responsabilidade de comando. Sei bem o difícil que era executar o que se chamava a “psico” acção psico-social programada nos gabinetes e que implicava sempre um risco acrescido. Isto foi bem patente em Moçambique, no massacre de Wiryamu, uma vingança descontrolada e descomandada, por reacção a várias mortes numa emboscada dentro da localidade, durante uma dessas acções de “psico”. Não me é por isso difícil imaginar a disciplina e a contenção necessárias às IDF para cumprir a determinação política de avisar previamente onde iriam actuar. Têm toda a minha admiração.

    1. A ideia que tenho não está muito fora do que aqui apresenta, mas vindo de si, com a experiência que teve, tem uma importância reforçada. A treta do genocídio baseia-se nas técnicas de propaganda do Goebbels, repetir uma mentira 1000 vezes até que se torne verdade. Para eliminar os palestinianos da faixa de Gaza, uma manhã seria suficiente. Além de que os árabes israelitas, palestinianos que aceitam a existência de Israel, podem votar, formar partidos e até estão presentes no Parlamento. Em que detalhe é que isso encaixa na práctica de genocídio contra um povo?

      1. A treta do “‘genocidio”. Ao menos assuma logo que é um negacionista do quie se passa em Gaza e que apoia o regime sionista,

        1. O que ali se passa é terrível. É um péssimo lugar para se viver. Dizer o óbvio, é um genocidio sim, mas um genocidio da variedade em que a população alvo aumentou 5 vezes desde 1967, não me faz aplaudir o PM de Israel, mas muito menos me permite entender como é que os líderes do Hamas sujeitam o seu próprio povo a tais provações. Porque é que não entregaram ainda os reféns?
          Extremar posições não ajuda a resolver nada e chamar genocidio ao que ali se passa é alinhar nisso.
          O que acha do plano de paz de Trump? Estou certo que o aplaudirá.

            1. Tenho pena de Tony Blair. Não duvido que decidiu no que entendia ser o maior interesse do Reino Unido e do mundo ocidental Mas, tendo-se comprometido, não podia por em causa a patranha das armas de destruição maciça e, mais tarde, chamado a explicar-se ao Parlamento, não podia de forma alguma divulgar o motivo porque escolhera apoiar a deposição de Saddam. Fez uma figura triste, mas creio que não tinha mais opções.
              Para mim, o maior crime da invasão do Iraque, ocorre depois da vitória militar e Tony Blair não tinha condições políticas nem militares para se opor.
              Não simpatizo nem um pouco com o partido Trabalhista mas acho que é um tipo decente. Admirei a sua coragem e postura, quando soube da morte da princesa Diana, a atitude que tomou publicamente diferente da reacção da casa real e a coragem de depois pedir para ser recebido pela Rainha e quase certamente ter sido quem a levou à mudança de atitude posterior.

  9. Nao totalmente ao lado : Há momentos, a Petição ( já desactualizada, infelizmente…) para a não devolução do erro biológico totalizava 64560 assinaturas…
    JSP

  10. O que vale é que não é preciso muito esforço para “desencantar oprimidos”, como diz, a dificuldade até estará na escolha, já que há em grande abundância, de todas as cores, feitios, sexos, religiões – e até capacidades económicas, porque nem sempre o oprimido é miserável ou sequer pobre, pode até ser milionário, veja-se apenas como exemplo o das bem veladas e aperreadas damas de classe penthouse na Arábia Saudita.
    Mas foram talvez esses oprimidos minoritários que lhe trouxeram à mente a associação com as rémoras – bichos que se acoplam a criaturas que produzam excessos, de cujos restos se alimentem; e nunca a pobres coitados que vão para a fila das lentilhas com um alguidar para ver se enganam a concha. Daí que as rémoras prefiram servir e servir-se de grandes potentados dos mares como as baleias e os tubarões, e não de arraia-miúda como as fanecas ou as petingas. E para as rémoras que se arrepiem pela possibilidade de Paz, pois também possibilidades de guerra é o que também há mais com fartura.

    Defendida a honra das rémoras, passo à das boas intenções, de que tem de estar de facto o inferno cheio. Mas isso é das cínicas; porque as boas, boas mesmo, foram o que levou Cristo a convidar o ladrão crucificado à sua direita para se encontrar com ele no Paraíso nesse mesmo dia. Ou será que alguém acredita que de más intenções esteja o Céu cheio?

    Podem as intenções resultar ou não; mas se forem realmente bem intencionadas… E quem pode em consciência julgar com absoluta certeza e superioridade moral sobre isso, as intenções dos outros?

    Veja-se o caso do Trump, por exemplo. Se conseguisse a Paz, eu estava até disposta a acreditar que é um sujeito cheio de excelentes intenções e eu uma míope que nunca as vi. Talvez só lhe perguntasse, como a Bela Adormecida ao Príncipe que a ressuscitou, “porque tardaste tanto?”. Uma ingrata.

      1. Agora fez-me rir, só de pensar numa rémora atracada a uma petinga… Talvez com uma palhinha? Tarada petingófila, só pode, eheheh.

  11. “Quanto à flotilha, é o desespero de uma pretensa intelectualidade que navega à deriva na busca de causas que justifiquem a sua existência.”

    Concordo com esta afirmação do Carlos Arnault lá mais acima, mas, e flotilhas à parte, isso também não invalida a minha convicção de que o Estado de Israel, sobretudo a mando da figura de Netanyahu, tem vindo a perpetrar um efectivo genocídio na Faixa de Gaza, contra os cidadãos Palestinianos, muitos deles sem qualquer relação com o Hamas.

    Netanyahu e o Hamas não prestam para nada e partilham, no fundo, a mesma natureza assassina, primando ambos pela cobardia, pelo fanatismo e pela desumanidade. A morte de muitos cidadãos israelitas e palestinianos é da inteira responsabilidade dessas figuras sinistras e hediondas.

    Por alguns comentários aqui presentes, pergunto:

    Afinal, que valor se dá à vida humana? A vida humana só é importante quando se trata de entes queridos, como familiares ou amigos, ou será um valor universal, tão relevante aqui como em qualquer outra parte do Mundo?

    As referências “apontam apenas para 15 mil” (Francisco Almeida) e “a treta do genocídio” (Paulo Sousa) deixam-me verdadeiramente perplexa e mal-disposta.

    “Apenas”??? A sério???
    Genocídio qualificado como “treta”, como se fosse algo sem qualquer importância???

    Enquanto o cheiro da morte estiver lá muito longe, não há motivos para grandes preocupações, não é verdade?

      1. Segundo a Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio da ONU:

        “De acordo com o artigo II da Convenção, genocídio significa qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso:

        (a) Matar membros do grupo.

        (b) Causar sérios danos físicos ou mentais a membros do grupo.

        (c) Submeter intencionalmente o grupo a condições de vida destinadas a causar a sua destruição física, no todo ou em parte.

        d) Imposição de medidas destinadas a impedir o nascimento de crianças dentro do grupo.

        (e) Transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.”

        Agora é só conseguir provar que o que se tem estado a passar na Faixa de Gaza não é genocídio… Boa sorte com isso.

        1. (a) Matar membros do grupo.???
          De acordo com essa definição não haverá conflito armado que não seja genocidio. E será caso para perguntar, então o 7 de Outubro então foi o quê? Em que rubrica se enquadra “matar bebés dentro de fornos e obrigar os pais a assistir?”

          1. Em primeiro lugar, Carlos, se não concorda com esta definição de genocídio, tem um bom remédio para isso: reclame junto da ONU, que eu limitei-me a citar a definição dada por essa entidade, justamente por me parecer a mais consensual, uma vez que terá sido determinada por vários Estados e não apenas por um.

            Em segundo lugar, registo que o Carlos “chutou para canto”, tentando deturpar as minhas palavras, fazendo de conta que eu não tinha escrito o que escrevi. Repito aqui este parágrafo, retirado do meu anterior comentário:

            Netanyahu e o Hamas não prestam para nada e partilham, no fundo, a mesma natureza assassina, primando ambos pela cobardia, pelo fanatismo e pela desumanidade. A morte de muitos cidadãos israelitas e palestinianos é da inteira responsabilidade dessas figuras sinistras e hediondas.

            Portanto, digo o quê acerca do Hamas? Que são uns santos? Que não cometeram actos de extrema violência? Em algum momento do meu comentário escamoteei a barbárie ocorrida em 7 de Outubro, apesar de não ter referido expressamente essa data?

            Friso novamente: Netanyahu e o Hamas são iguais, têm a mesma natureza assassina.

            Com franqueza, o Carlos mais parece um daqueles Comunistas, com quem já desisti de discutir, absolutamente dogmáticos, por exemplo em relação a Putin e à guerra na Ucrânia, ou em relação à pretensa “democracia Cubana”.

            O “branqueamento” que o Carlos pretende fazer das acções empreendidas por Netanyahu contra muitos cidadãos palestinianos que nada têm a ver com o Hamas parece-me o paradigma de tentar “justificar o injustificável”.

            Mas isso será um problema para a sua consciência resolver…

            1. A Paula viu o discurso do Filipe de Espanha na ONU, nesta última Assembleia Geral? Se não, recomendo vivamente, está no YouTube. E também o do rei da Jordânia, já agora.
              Não estamos sós, como dizia o outro; e para mais, em insuspeita companhia…

            2. Cara Zebra, ainda bem que não estamos sós. Querem lá ver que, afinal, há outros “tontinhos”, que defendem o mesmo que nós? Devo, ainda assim, dizer que, mesmo que estivéssemos sós, isso não me faria mudar de opinião relativamente ao tema em apreço…

            3. Mas é sempre bom estar bem acompanhado, não é verdade? Ou até muito bem acompanhado, de preferência.

              Nesse sentido, até aproveito para juntar outro insuspeito de “tontice” ou quiçá de anti-semitismo, para mais sendo produto nacional: o Francisco Rodrigues dos Santos, sim, o “Chicão”, ex-Presidente do CDS, que declarou ao vivo na televisão, falando concretamente sobre a flotilha: “De um lado, temos assassinos que estão a provocar um genocídio. Do outro, temos activistas políticos. Não tenho dúvidas de que lado estou.” Assim mesmo, frontalmente, sem deixar espaço a interpretações.
              O que não o impediu de cascar forte e feio naquilo que ele entende ser o “oportunismo” do Bloco ou a irrelevância da flotilha – mas não confundindo realidades de grau de gravidade e urgência completamente diferentes, ou a evidência de se estar perante genocídio.

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