Autárquicas (9)


Patrícia Reis,

  

 

EM DEFESA DO PRINCÍPIO DA IGUALDADE

 

António Costa não voltará a acumular as condições de ‘comentador político’ na SIC Notícias e de candidato socialista à Câmara de Lisboa. Algo que muito boa gente, de José Pacheco Pereira a Eduardo Pitta, pelos vistos achava normalíssimo. Não ocorre a nenhuma destas ilustres mentes que a manutenção desse duplo estatuto, a escassas semanas de um teste eleitoral decisivo na capital do País, violava uma das mais elementares regras do jogo democrático, transformando o princípio da igualdade numa farsa. Preciso de explicar porquê? Pois aqui vai: nem Santana Lopes nem Ruben de Carvalho nem Luís Fazenda, qualquer deles também candidato ao município alfacinha, tinham acesso a uma tribuna semelhante. Que António Costa tenha tomado a iniciativa de retirar-se ainda antes da directiva da ERC, como Pacheco se apressou a explicar num post significativamente intitulado Um atentado à liberdade, funcionando como seu porta-voz, é algo que só o enobrece. Embora o devesse ter feito mais cedo, como em devida hora anotei aqui. Já agora, remeto uma sugestão para análise no outro programa que o ubíquo Pacheco Pereira – mandatário de uma candidatura autárquica do PSD no distrito de Santarém  – mantém na SIC N: na Quadratura do Círculo nunca teve assento qualquer representante do PCP e do BE, forças políticas que nas últimas europeias somaram 21% dos votos. É reconfortante saber que os ‘residentes’ no programa convivem bem com isto.

6 comentários em “Autárquicas (9)”

  1. É verdade que a Quadratura do Círculo nunca teve alguém do PCP mas também é verdade que a Quadratura do Círculo é nome reinventado para o Flashback da TSF. Donde, esteve no programa um dirigente da bancada do PCP – José Magalhães – e não foi por pouco tempo. Acontece que ele mudou de ideias mas continuou no programa tal como continuaria Pacheco Pereira mesmo que tivesse sido expulso do PSD como reivindicaram publicamente alguns.

  2. Estrela Serrano já se encarregou de explicar a Pacheco Pereira a directiva da ERC que este supostamente mal leu. Uma explicação completa e elevada que o endereçado se encarregará seguramente de afastar para o lado, a fim de continuar a bramir contra os seus moinhos de vento.

    Devo dizer que entendo perfeitamente Pacheco Pereira, que expõe o seu ponto de vista de modo fundamentado, a fim de demonstrar que tem razão. O único problema é que não tem.

    Os espaços de opinião são cada vez mais elitistas, desde há anos, com as mesmas caras e as mesmas cabecinhas a ocupar grandes espaços em tudo quanto é comunicação social. Pacheco Pereira — o mesmo Pacheco Pereira que gostaria de ser uma espécie de ERC da nossa blogosfera e de ASAE dos blogues portugueses — há muito que é o notável dos ‘media’. Só que também aqui tem dois problemas: opina, mas não rege; comenta, mas não é o pensador exclusivo.

    Em Portugal, por muito escassa que seja a percentagem, ainda há quem pense pela sua própria cabeça. Mais calados uns, mais dados à exposição do raciocínio lúcido outros, mas há quem tenha aprendido a usar as celulazinhas cinzentas à Poirot e não se chame Pacheco Pereira. Com uma diferença vantajosa: não ocupam espaços a mais e, por isso, nem todos se tornam maçadores e cansativos.

  3. Devo dizer que concordo com o Gabriel Silva do Blasfémias sobre esta matéria: considero a directiva da ERC um atentado grave à liberdade de imprensa.

    Mas vou mais longe do que o post do Blasfémias sobre esta matéria: a ERC só se dá a estes tiques estalinistas porque se sente à vontade. E sente-se à vontade, desde logo, porque existem na opinião pública comentadores que “exigem” às estações de televisão ou à própria ERC a retirada de um ou outro comentador de um determinado programa televisivo. Dito de outra forma: a ERC só se atreve a estes condicionamentos porque há um caldo de cultura propício a este tipo de medidas de censura. Resultado disto é que ficamos todos mais pobres: desde logo, os espectadores habituais da quadratura do círculo ou de outros programas, que, como eu, gostam de ver os seus debates com os protagonistas habituais e por causa de uma entidade reguladora deixam de poder fazê-lo.

    1. Neste caso, lamentavelmente, o princípio da auto-regulação não funcionou, o que levou à intervenção da ERC – que tantas vezes tenho criticado aqui. Isto só acontece porque os órgãos de informação fazem orelhas moucas às críticas que lhes chegam e só funcionam por imposições administrativas, o que é de facto um absurdo. Mas era também escandaloso, conforme já várias vezes aqui se escrevera, que o candidato socialista à câmara de Lisboa mantivesse um espaço de ‘comentário’ semanal num programa televisivo de grande audiência nestas semanas que antecedem as autárquicas. Ou que a candidata socialista à câmara do Porto mantivesse uma coluna de opinião no jornal que é de longe o mais lido na cidade, com exclusão dos restantes candidatos. O que a presidente do PSD, candidata nas próximas legislativas, figurasse em destaque como ‘comentadora’ do principal semanário. É uma questão do mais elementar bom senso, que devia ser automaticamente resolvida por auto-regulação. É uma exigência dos telespectadores e leitores, por imperativos de cidadania. Não foi isso que sucedeu. Lamento. É algo que não prestigia o jornalismo português.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *