Éramos três jovens sonhadoras, para quem nada parecia impossível. A Clara “Demis Roussos”, a Rosa “Cat Stevens” e a Dulce “Alvin Lee”, bem de acordo com as nossas inclinações amorosas e preferências musicais à época.
Viviam-se os anos de pós-revolução em que tudo, ou praticamente tudo era permitido e até incentivado. De alunas de quadro de honra, passámos a integrar a molhada geral da igualdade de oportunidades, junto com os sem grande qualificação académica, para quem a média de entrada na faculdade era 10 valores.
Sendo as cunhas o grande motor propulsor de toda a organização escolar, de acordo com a filiação ou simpatia politico-partidária, fomo-nos distanciando, cada uma de nós abraçando uma facção que as outras rejeitaram. A união não fez a força.
Os anos passaram, integrámos o mercado de trabalho, casámos, constituímos família, criámos o núcleo da nossa vida. Encontrávamo-nos para conversar sobre tudo e sobre nada, muitas vezes revivendo apenas as tropelias da juventude.
As tardes da má língua, como chamávamos aos lanches ou passeios mensais, foram sendo cada vez menos frequentes. Os contactos pessoais passaram a fazer-se por Zoom, nos aniversários e datas festivas, cada uma na sua casa e na sua terra.
Quando o convite chegou, fiquei espantada, mas feliz. A Rosa, divorciada há dez anos, depois de um casamento atribulado com um misógino profissional, um espécimen masculino espectacular, mas intragável como pessoa, tinha jurado que maridos, nunca mais.
Dez anos é muito tempo, como canta a música. O pensamento amadureceu e a solidão foi a grande protagonista desta reviravolta. A Rosa vai voltar a casar. Encontrou um piqueno uns anos mais velho, tranquilo, letrado e que a trata como uma rainha. Que bom!
Vai fazer a cerimónia em Cascais, no pequeno jardim da sua casa. Só quer boas lembranças no seu séquito de noiva, daí a convocatória das melhores amigas de uma juventude longínqua, mas de boas e doces memórias.
É um grande passo depois de dez anos sozinha, mas a busca incessante da felicidade ofereceu-lhe uma segunda oportunidade para encontrar amor, companhia, amizade e dedicação. A Rosa agarrou-a com as duas mãos e acredito e desejo que a vá viver plena e intensamente.
Desejo-lhe as maiores felicidades.