Testemunho do passado recente e do Mundial que, enfim, acaba.


João Pedro Pimenta,

Depois de umas semanas de ausência, estreio-me enfim na nova casa do Delito, já inaugurada no dia de S. João. Como compreenderão, para um portuense é difícil arranjar tempo logo a seguir à grande festa da cidade (e não me lembro de ver tantos balões como este ano, numa noite cálida que acabou com névoa), ao festival Babbel, em que tive a oportunidade de ver o Best of musical do Porto (GNR, Abrunhosa e Veloso) e de avistar os srs. Julian Barnes e Lazlo Krasznahorkai, e outras coisas mais.

O mundial também me entreteve, em parte. Teve jogos memoráveis, com o, mesmo a acabar, insano França-Inglaterra, algumas boas surpresas vindas de África, com Cabo Verde à cabeça, e jogadores com um númerod e golos marcados como há muito não se via. E também desilusões. Portugal inclui-se nelas, mas piores ficaram alguns dos maiores detentores da prova, como o Brasil, Alemanha, Uruguai (quando nem se deu por ele) e a Itália nem conseguiu lá chegar. Em conjunto, perfazem quize vitórias em Mundiais. O estatuto, felizmente, não chega para ganhar.

Não esperava a vitória de Espanha, é certo, iludido com a entrada em falso. Alguns avisaram sabiamente que também em 2010 tinham entrado a perder com a Suíça. A verdade é que só nos dois jogos finais é que mostraram toda a sua qualidade. Nalguns jogos tiveram bastante sorte, por conta de lesões de adversários importantes: aconteceu com Portugal, com a lesão de Nuno Mendes, o melhor jogador das Quinas, ou Courtois, da Bélgica. Mas contra a França dominaram completamente aquela que era a grande favorita à vitória final e o seu diabólico tridente ofensivo. E ontem, contra uma Argentina brigona e provocatória (estou a ser simpático), não se deixaram cair na esparrela e não deixaram Messi e Cia pôr pé em ramo verde. Só a Espanha jogou e procurou a vitória, excepto nos minutos finais do prolongamento. Mereceram o título por estes dois jogos, E atenção que daqui a 4 anos o Mundial é aqui. Aqui na Península e um pouco para lá das Colunas de Hércules, pelo que à partida temos favorito.

Um aspecto importante da vitória de Espanha é ter sido uma equipa europeia a ganhar. Este Mundial teve alguns jogos trepidantes, mas as “americanices”, trazendo conceitos mais próprios da superbowl e do basebol, foram mais que muitas, e viu-se na final com uma espécie de stewards ridículos ao microfone, um intervalo com música que por pouco não durava meia hora e claro, as famigeradas “pausas para hidratação”, um truque publicitário que parece que veio para ficar (também em jogos sem transmissão televisiva?).
E depois as condicionantes políticas, que impediram um árbitro somali de entrar em território americano e exercer a sua tarefa (e perante a indignação africana a UEFA, sagazmente, convidou-o para arbitrar a Supertaça), a selecção iraniana de pernoitar sequer nos EUA, obrigando-a a ir a correr para o México depois de cada jogo, os milhares de adeptos que não puderam entrar – Capdevilla, campeão em 2010, por pouco era impedido de ir à final apenas por ter estado no Irão há dez anos – e até aquela revoltante retirada do cartão vermelho a Balogun, felizmente sem consequências desportivas. Os jogos olímpicos da Antiguidade eram uma trégua sagrada entre as cidades que neles entravam, muitas vezes inimigas. Se um país tem problemas com outro e condiciona os seus nacionais, então que não organize eventos desta envergadura. Até porque estas condicionantes acabam por ter efeitos nas equipas, inquinando os resultados e a classificação. Claro que nada disto afecta o lambe-botas Infantino, que, curvando-se perante Trump, disse que este Mundial tinha sido “o maior evento humano, social e cultural que a Humanidade já testemunhou”. Pobre humanidade.

E uma curiosidade histórica: ao mesmo tempo que La Roja triunfava nos relvados do MetLife Stadium, passavam noventa anos do “Alzamiento” e do início da terrível Guerra Civil. O contraste não podia ser maior: em 19 de Julho de 1936, a guerra, a divisão, o Pais Basco e a Catalunha, entre outros, contra a outra metade. Em 2026, é o contrário: a selecção, com grande número de bascos e catalães, uniu o país.

PS: e já que Espanha está eufórica, podíamos aproveitar enquanto estão tão bem dispostos para lhes pedirmos Olivença de novo. Qualquer coisa como “vá lá, vocês ganharam o Mundial, são os maiores. Dêm-nos só de volta aquele pequeno município da Extremadura. E pode ser para a semana, para eles também festejarem enquanto ainda pertencem a Espanha”.
Não custa tentar. Paulo Rangel que prepare o choradinho

AGORA É A SUA VEZ, MESSI! 😂🇪🇸 A Espanha é campeã do Mundo e a gente já lembra da icônica foto do Messi dando banho no Yamal… *Contém texto alternativo #CopaNaGlobo #ViveNaGente #

O irónico e fabuloso destino de AJ Seguro


João Pedro Pimenta,

Como se sabe, António José Seguro teve uma carreira quase sempre ligada à política partidária até deixar de ser líder do PS, em 2014. Teve uma liderança algo titubeante, tentando distanciar-se da herança socrática, hesitando entre uma colaboração institucional com o então governo de Passos Coelho – cuja carreira política até ali era muito semelhante – e uma oposição tímida, o que levou à sua deposição pelo aparelho que apoiava António Costa. Depois disso, remeteu-se a um total silêncio e resolveu fazer vida fora da política, estudando e conhecendo o mundo das pequenas empresas.
Até que, num momento de provocação a Costa, Pedro Nuno Santos lançou o seu nome como putativo candidato à presidência da república. Tanto bastou para que Seguro saísse do anonimato político a que se recolhera e aproveitasse a deixa, coleccionando alguns apoios enquanto o partido que liderara o ignorava ou até o desprezava explicitamente.

Depois das intenções, Seguro passou aos actos e anunciou a candidatura ao cargo da chefia de estado. O PS afadigou-se a procurar um candidato, só que, perante a eterna indisposição de António Vitorino para a missão (tal como qualquer outra  actividade política activa, de que Vitorino foge como o Diabo da cruz) ou da risível hipótese do impopularíssimo Santos Silva, teve mesmo que apoiar oficialmente Seguro, sem o menor entusiasmo, embora JL Carneiro tentasse dar um ar mais enfático. A candidatura de Seguro vogou sem provocar ondas de lama nem responder a provocações, sabiamente afastada do partido, e conseguiu aproveitar confusões de outros e a desistência contínua de parte da esquerda para ficar em primeiro na 1ª volta. Por causa disso, começaram a brotar frases, sobretudo nas redes sociais, dizendo que, se fosse eleito, o PS voltaria ao poder (como?), que iria a correr dissolver a AR, que renomearia Sócrates para primeiro-ministro, que implantaria o regime soviético, que imitaria Vasco Gonçalves, que reeditaria a Geringonça, faria de Portugal uma nova Venezuela, etc e tal. Isto não é ironia da minha parte: tudo isto vi escrito e escarrapachado, e que iam atribuindo a Seguro. Sim, repito, a Seguro.

Agora, na 2ª volta, o candidato que tinha sido apeado da liderança do partido por causa de uma “vitória poucochinha” numas Europeias teve uma vitória enormíssima, com o maior número de votos numa eleição presidencial e dois terços da percentagem. Aquele que tinha sido desprezado pelo próprio partido e que estava remetido a uma travessia de um deserto permanente ressurge por causa de uma mera sugestão de PN Santos e acaba como chefe de estado com amplíssima legitimidade eleitoral, mesmo que muitos votos tenham sido contra outro candidato, e no meio de um conjunto de desastres que assolaram o país sem que no entanto a abstenção tenha subido.

Lembro-me de ver uma reportagem sobre o que AJ Seguro tinha ido fazer depois da liderança do PS e de pensar que se voltasse à política estaria muito mais bem preparado, uma vez que tinha tido mais vida (empresarial, académica) para lá da mera actividade partidária, a única que tinha conhecido, e seria até menos cinzento. Espero bem que isso se concretize, mesmo que não espere que ToZé Seguro seja um estadista de envergadura superior. Veremos.

Mas a política é por vezes engraçada e, tal como outras vertentes da vida, move-se por pequenos acasos e acontecimentos fortuitos e não por excessivas planificações. E isso só lhe dá mais sal.

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas

Testemunho de um “filme” com Eurico Figueiredo


João Pedro Pimenta,
 
Regressado de Vila Real, da despedida e das cerimónias fúnebres de uma querida pessoa de família, sou informado da morte de outro ilustre vilarealense: Eurico Figueiredo, que sabia debilitado há já bastante tempo. Natural de Justes, tal como a minha avó, com cuja família aliás a sua nutria uma certa rivalidade pela velha questão monarquia-república, o Professor Eurico destacou-se como um dos mais radicais organizadores das greves estudantis dos anos 60, que o levaram a exilar-se na Suíça, país onde tirou o curso de psiquiatria e cujo modelo académico e social admirou sempre. As notícias referem a sua militância no PS, onde chegou a ser deputado e ministro-sombra para a saúde. Falam menos do seu percurso posterior, onde se envolveu na causa da regionalização e ajudou a fundar o PDR com Marinho “e” Pinto antes de romper definitivamente com o ex-bastonário e de ser cabeça de lista pelo Porto pelo MPT nas legislativas de 2015 (e não pelas Europeias de 2014, como a notícia do Observador estupidamente refere, até porque nas europeias não há listas por distritos).
 
Por concidência, também eu fui convidado para as listas desse partido fundado por Gonçalo Ribeiro Telles e que apresentava então outros nomes interessantes (na lista de Lisboa, por exemplo, constava Rodrigo Saraiva, hoje deputado pela IL, Manuel Ramos, recentemente advogado oficioso de Sócrates por 3 dias e Carmona rodrigues como mandatário). Conheci Eurico Figueiredo verdadeiramente aí, onde protagonizou alguns momentos de campanha insólitos, como a declaração de greve de fome (a fotografia no artigo da versão em papel do Público, junto à Segurança social do Porto, é precisamente desse momento), pelo facto de a Segurança social não lhe devolver uma quantia erradamente retida, mesmo contra decisão do tribunal, demonstrando o mau cumpridor que o Estado é), o protesto contra o preço do vinho dos pequenos produtores (que ele também era), convidando os transeuntes a beber um copo de vinho de baixo custo em frente a uma grande superfície, e sobretudo o gesto radical de defesa do património. A escolha recaiu, por sugestão minha, na Ponte D. Maria Pia. Eurico Figueiredo, que afirmava que “temos um Eiffell no Porto assim como outros têm Picassos na sala”, queria uma faixa atravessada a todo o comprimento da ponte, com os dizeres “reabilitem-me, carago”, inspirado no “construam-me, porra” do Alqueva. Decidiu-se por um mais heterodoxo “por favor, recuperem-me” e por colocar a faixa na base do pilar da margem direita, já que a primeira ideia era quase impossível, assim como a de lançar asas delta verdes com o mesmo propósito. O próprio Prof. Eurico encomendou a faixa a expensas próprias e numa manhã, nos dias finais da campanha, lá conseguimos, apenas duas pessoas, colocá-la. Digo “conseguimos” mas ele é que subiu aos pontos mais altos e difíceis. A coisa ainda teve alguma curta repercussão, assim como o manifesto a favor de entregar os transportes públicos a entidades metropolitanas públicas – nem privatização nem estatização – mas a escassez de meios e de publicidade e a sabotagem por parte de elementos do movimento de Marinho, que depois se transformaria no ADN, falhou a eleição por bastante.
 
Para piorar, a campanha da ponte tinha o conhecimento prévio de Paulo Cunha e Silva, o então imparável vereador da Cultura do Porto, e serviria para lançar um movimento que, ultrapassados os escolhos burocráticos, permitiria uma reabilitação prática do monumento. Antes que se pudesse fazer uma reunião definidora com Cunha e Silva, que não recusava uma boa ideia, este morreu subitamente, como se sabe. A ponte continua na mesma, dez anos volvidos.
 
Julgo não revelar nenhum segredo de estado ao relembrar esta história. Assim era Eurico Figueiredo, um enorme psiquiatra mas também um homem de acção, por vezes até demais, unindo genialidade a impulsividade. Era também um transmontano verídico, nunca se esquecendo de onde vinha. Houvesse mais como ele.
 
Desculpem a qualidade das fotografias, que são de um modelo sony de há dez anos, o meu primeiro smartphone. E bom 2026 a todos.

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O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Os blogues trazem-nos alguns excelentes textos em bom português. Mas para além das palavras, também nos trazem imagens e preciosos grafismos. Gosto de blogues que privilegiam a estética, e se forem duradouros, mais ainda, como este, já com vinte anos, que nos revela superlativas fotografias e memórias do século XX, sobretudo de Lisboa.

Por isso mesmo, o veterano Bic Laranja é o blogue da semana.

Ainda as autárquicas: o triunfo da bipolarização


João Pedro Pimenta,

A propósito do Pensamento da Semana que agora termina, eu, que sigo as autárquicas há 30 anos e que me debrucei sobre todas as anteriores, desde as primeiras, dei-me conta de que há ciclos que mudam de 12 em 12 anos.

Nas primeiras, em 1976, definiram-se os poderes locais e as áreas de influência (Norte, Centro e ilhas para PSD e CDS, cidades litorais PS e Alentejo e península de Setúbal para o PCP, com o Algarve mais dividido mas tendencialmente de esquerda). Em 1979, a AD ganhou, repetindo nas duas seguintes, se bem que em 1982 uma quebra tenha derrubado o governo de Balsemão). Em 1989, em pleno cavaquismo, o PS obtém um grande vitória, conquistando a maioria e os mais importantes municípios. Em 2001 dá-se o inverso, com o PSD a obter um resultado estrondoso e até inesperado, como no Porto, levando à queda do governo Guterres. Em 2013, nova reviravolta, com o PS a ganhar as eleições e o PSD de Passos a obter resultados medíocres, por vezes devidos a péssimas escolhas.

Chegados a 2025, outro ciclo de 12 anos, acontece o quê? O PSD ganha nos principais concelhos e na sua maioria.

 

A única dissonância é que o PS não teve uma derrota tão estrepitosa, porque já não tinha Lisboa e Porto e ficou com a maioria das capitais de distrito. São por norma os concelhos mais populosos que marcam esta diferenças. E é por isso que a bipolarização se mantém, mais do que nunca. Em tempos, PCP e CDS tiveram dezenas de câmaras. O seu esvaziamento aumentou ainda mais a bipolarização PSD – PS, coisa que nem as candidaturas independentes nem agora muito menos o Chega conseguiram travar. Cumpriu-se a regra do ciclo de 12 anos, suportada pelos limites de 3 mandatos de 4 anos consecutivos.

 

A única alteração curiosa é ver uma coisa impensável há 30 e tal anos: o PS domina as cidades do Norte interior, tirando Guarda e Lamego (que já foram suas) e o PSD domina nas do Alentejo, esmagando em Portalegre, conquistando Beja (onde em 1975 nem comícios conseguia fazer, tanto que o actual Presidente da República teve de fugir pelos telhados) e por umas décimas não conseguiu o mesmo em Évora. Provavelmente corresponde a uma certa normalização mas também a uma desideologizacão dos votos, menos fiéis a aparelhos partidários e mais a ciclos, conveniências de ocasião ou candidatos mais apeltivos, independentemente do partido a quem pertençam.

 

Fonte: Wikipédia.

Eleições autárquicas portuguesas de 2025

O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Conhecer Portugal e as suas paisagens (desde que não tenham ardido) pelo ar, reconhecer cidades, vilas, aldeias, monumentos e outras infraestruturas com olho de falcão, de Norte a Sul, é o que este blogue nos permite, há já vários anos, com cerca de onze mil fotografias áreas já tiradas. Querem encontrar o bairro onde vivem ou a pequena vila dos vossos avós? Têm um índice alfabético do lado direito assaz comprido.

A Terceira Dimensão é o Blogue da Semana

Nem a melhor estrada escapa às chamas


João Pedro Pimenta,
Esta é a Estrada Nacional 304, que vai do Douro até aos limites de Trás os Montes com o Minho, quase no Gerês, no troço entre a Campeã e Ermelo. Há anos chegou a ser considerada pela Ford uma das melhores estradas para conduzir da Europa, com as suas curvas suaves e uma descida majestosa e controlada, para não falar da paisagem em volta, entre o Marão e o Alvão, sobre os vales do Tâmega e do seu pequeno afluente Olo, que mais acima se despenha nas Fisgas, uma das maiores cascatas do país. Um paraíso para automobilistas e motards, e percurso normal da Volta a Portugal rumo à “mítica” Senhora da Graça.

 

Volta que não passará certamente por aqui este ano. A esta hora, esta imagem está tomada pelo fogo dos incêndios cruzados entre Amarante e Vila Real, que devastam a região e ameaçam aldeias da serra onde ainda se usam telhados de xisto. Temos alguns recantos paradisíacos e que até são notícia “lá fora”, mas infelizmente não sabemos conservá-los nem preservá-los. 

 

 

Pode ser uma imagem de montanha

 

Pode ser uma imagem de nevoeiro, estrada e a montanha

O resumo da conferência de Munique


João Pedro Pimenta,

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Uma das fotos oficiais da Conferência de Munique: o representante da potência anglo-saxónica apazigua a potência ameaçadora de leste, clamando uma “paz duradoura”, não se importando muito que aquela ocupe alguns territórios que não lhe pertencem, e trocando algumas impressões com o líder da extrema-direita alemã.

Só não sei precisar se a foto é de 1938 ou 2025.

O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Um dos melhores guias na blogoesfera em língua portuguesa para darmos uma volta por Espanha vem curiosamente de um brasileiro há muito a viver no país vizinho, Roberto Antunes de Paiva, que há quase dez anos descreve as suas voltas pelas muitas Espanhas – julgo que só faltarão as Canárias. Monumentos, costumes, arquitectura, gastronomia e um pouco de tudo o que de bom vem do país ao lado, contrariamente aos ventos e casamentos, pode ser encontrado aqui.

Um brasileiro na Espanha é o blogue da semana.

O precavido Camilo


João Pedro Pimenta,

O meu confrade JPT, num artigo que se aconselha, sobre a ida – e a cerimónia – de Eça para o Panteão Nacional, exprime no último parágrafo o receio de que Camilo Castelo Branco, ao completarem-se duzentos anos do nascimento, poss sofrer igual sorte. Mas desse destino está o autor de A Queda de Um Anjo a salvo. Por sua expressa e perpétua vontade (antes de se matar?), repousa no Cemitério da Lapa, no Porto, perto da escola onde Ramalho instruiu Eça e o coração de D. Pedro está guardado, sem receio de que o venham incomodar. Não fosse isto e já teria andado em bolandas entre o Porto, Samardã, Seide e o tal Panteão de Santa Engrácia, a não ser que os descendentes e órgãos deliberativos actuais sejam de tal forma insensíveis que não hesitem em violar esta sua vontade sagrada. É pouco provável, mas não impossível, se houver quem ligue mais aos restos mortais como “património cultural da nação” do que como pessoas (s)em carne e osso.

Pode ser uma imagem de monumento

Pode ser uma imagem de monumento e a texto que diz "Jazigo da Familia Freitas Fortuna, séc. XIX Capela com catacumbas, ao estilo neoclássico e com carneiro ao ar livre. Aqui repousam os restos mortais do escritor portugués Camilo Castelo Branco (1825-1890) 1825- Foi com seu fiel amigo, João António de Freitas Fortuna, que autor de Amor de Perdição partilhouo o desejo de ser aqui sepultado, implorando-lhe que nenhuma força ou consideração 0 demovesse de conservar nesta capela, ad perpetuam, as suas cinzas. A morte emenda todos os atos da vida. Camilo Castelo Branco"

Glória póstuma


João Pedro Pimenta,

O fenómeno é curioso, mas já sobejamente conhecido: José Pinhal, cantor romântico de “música de baile”, usando normalmente um fato branco, um bigode afirmativo e um penteado à Rudi Voeller, frequentador dos circuitos musicais sobretudo no Norte do país, despareceu num acidente viário com pouco mais de 40 anos e ficou esquecido alguns anos até as suas cassetes serem encontradas no escritório do seu agente, digitalizadas e depois colocadas no Youtube, onde se começou a gerar um pequeno culto. Surgiu um grupo de tributo para recriar em palco as suas músicas, o José Pinhal Post -Mortem Experience, e desde então Pinhal conheceu postumamente a popularidade de que nunca gozou em vida, sendo mesmo objecto de um artigo do Guardian

Celebridade após a morte: o obscuro cantor popular português que é notícia  em Inglaterra – NiT

Vi a banda-tributo há meses, por alturas dos Santos Populares. Uma enorme multidão cantava de cor as músicas, para mim até então quase desconhecidas, transformando Pinhal numa autêntica estrela pop de além-túmulo e os músicos ali presentes nos seus mensageiros. Aí consegui ver o verdadeiro fenómeno em que se tornou este músico pouco conhecido no seu tempo e fora de moda para os parâmetros actuais e o culto que se gerou. Nos meses seguintes tornei a ouvir as músicas e a ver gente a trauteá-las de cor e salteado, sobretudo da meia-idade para baixo.

Toda essa descoberta inevitavelmente levou-me a pensar: e se Pinhal tivesse sobrevivido? Teria continuado nos seus circuitos de baile e ficado meramente conhecido nas festas de verão e em algumas danceterias (sim, ainda as há), com algumas cassetes editadas, daquelas que se vendem nas roulottes? Ou teria aproveitado a onda “pimba” que se gerou depois e alcançado o sucesso, sendo chamado regularmente para programas de tarde de fim de semana da TVI e SIC? Não tenho a menor dúvida de que não teria o êxito actual, sobretudo entre os mais novos. A sua morte, o seu relativo desconhecimento em vida, a descoberta do seu espólio e o crescimento paulatino da sua música criaram este culto, o de um homem que não conheceu a fama em vida e que por vicissitudes várias se tornou famoso postumamente. Não é caso único, o de encontrar sucesso muito tempo após a morte (e recorda também um pouco o de Sixto Rodriguez, que o teve em vida mas ainda a tempo de o saber), mas falamos de um conjunto de factores que permitiram que um homem relativamente desconhecido, com imagem ultrapassada e música fora de época gerasse este fenómeno de popularidade. Para isso permitiu também um certo revivalismo dos anos oitenta e noventa e o crescente interesse e consumo de música portuguesa, aliados a algumas tendências hipsters (também elas agora um pouco em baixo). Mas não haja a menor dúvida: a morte de José Pinhal, desencadeando todos estes passos, é que lhe deu o passaporte para a glória póstuma. Paz à sua alma, que a obra não a tem e continua a circular por esses palcos fora. 

 

Bom 2025 a todos. O possível.

Notre Dame de Paris


João Pedro Pimenta,

A look at 5 years of restoration work at Notre Dame cathedral in Paris

 

 

A restored Notre Dame cathedral is unveiled days before its official  reopening : NPR

 

Uma semana depois das autoridades e dos trabalhadores a poderem visitar, o interior da Catedral de Notre Dame reabriu, enfim, em dia da Imaculada Conceição, e voltou a rezar-se missa. Cinco anos depois do incêndio que quase a consumiu, a “igreja mãe dos franceses” está mais sólida do que nunca, reconstituindo-se sem concretizar alguns projectos inovadores mais duvidosos, (felizmente).

 

 

Este momento tão simbólico e grandioso acontece numa semana em que o governo de França caiu e desencadeou nova crise política, agravando a orçamental e financeira. A fuga para a frente de Macron levou a que a Assembleia Nacional ficasse espartilhada entre um bloco de esquerda que vai desde anticapitalistas declarados a socialistas de centro-esquerda, com a tutela dessa mistura de Robespierre com Mitterand que é  Mélenchon, um de direita radical (outra amálgama de desiludidos da política, neo-pétainistas inconfessos, legitimistas fora de prazo, ex-esquerdistas desesperados e gaulistas “contratados”), o que resta da direita tradiconal e o próprio bloco de centro macronista. Um governo que levou dois meses a formar-se durou apenas três e o seu chumbo, bem como do orçamento obrigatoriamente austeritário mergulha a França numa crise financeira.

 

Mas isto é uma reprodução fiel da personalidade de França: um país que quando atravessa graves crises consegue sempre reinventar-se e dar a volta por cima. Apesar de problemas internos, só este ano organizou uns Jogos Olímpicos, uma das maiores montras de tudo o que quer ser potência, e reabriu a catedral da capital, não por acaso conhecida em todo o mundo. Um pouco como depois da humilhante derrota na guerra Franco-Prussiana e da revolta da Comuna, em que em poucos anos pagou-se a dívida de guerra, reconstruíram-se os edifícios destruídos pelos communards (excepto as Tuilleries) e ainda se organizou uma enorme feira mundial, para dar conta da pujança do país, ou como a Paris do pós-II Guerra, em austeridade e carência, voltou a ser o farol para meia intelectualidade mundial.

 

Aquando do rescaldo do incêndio, Macron prometeu que em 5 anos a catedral estaria reaberta. Passaram-se 5 anos e meio e eis a promessa concretizada, com empenho político e o grande trabalho de engenheiros, operários, artesãos e todos os trabalhadores que contribuíram para este dia. E penso naqueles que, ao anoitecer daquele dia de Abril em que as chamas ameaçavam destruir Notre Dame, oravam e rezavam nas margens do Sena. As suas preces foram atendidas.

 

PS: compareceram inúmeros chefes de estado e de governo na cerimónia. O Papa mandou saber que não poderia ir, a única verdadeira nota dissonante. Portugal estava representado pela Secretária de Estado da Cultura. Um tal acontecimento numa das cidades com mais portugueses e luso-descendentes não mereceria representação de mais altas instâncias?

 

O fim de um regime que já ninguém apoiava


João Pedro Pimenta,

Ontem os rebeldes sírios tinham tomado Homs e estavam literamente, na “estrada de Damasco”. Hoje acorda-se com a notícia da tomada da capital, quase sem resistência, e com a queda do regime e fuga do clã Assad e estado maior (tiveram mais sorte que Saddam e Kadhafi). De há uns anos para cá ficou a ideia de que o regime baathista/assadista tinha ganho a guerra e dominado os seus inimigos, pelo menos em boa parte do país. Em poucas semanas o jogo virou e o regime caiu. O que vem aí pode não ser bom; o que acabou não era de certeza absoluta.

Mas isto serviu para uns tira-teimas: o regime de Assad, que muitos garantiam ser imensamento apoiado pelo povo sírio, caiu quase sem ninguém que o defendesse. Viu-se o “apoio popular”: uma enorme farsa, mantida pela violência. Só era sustentado pela ajuda iraniana e pelo Hezbollah, que severamente macerados por Israel não lhe puderam agora acudir, e pela Rússia, que virada totalmente para a guerra na Ucrânia também se viu impotente. É a confirmação de que a Rússia, como já se tinha visto ao falhar à Arménia pelo Nagorno Karabakh, não tem capacidades reais para acudir em vários tabuleiros e que é uma potência com pés de barro. Aliás, depois dessa guerra com a Arménia (que por causa disso se virou para ocidente), é o segundo triunfo dos proxys da Turquia sobre os da Rússia.

Os turcos são os grandes vencedores do momento, mas Israel também colhe os louros. O Irão e a Rússia são os grandes derrotados. Veremos o que ganhará ou perderá o Ocidente, já que os curdos, que apoiam, serão com certeza hostilizados pelos pró-turcos, apesar de também eles terem conquistado território e material militar.

Tudo isto, curiosamente, num dia de grande significado para a França, antiga potência administrativa da Síria. Fica-se com a dúvida se o pais se manterá ou se é mesmo para dividir, como aliás era o plano em 1920.

Pode ser uma ilustração de 1 pessoa e a texto

Um rei debruçado sobre a lama


João Pedro Pimenta,

Ainda sobre a recepção violenta às autoridades espanholas em Valência, parece claro que se deveu sobretudo aos membros do governo regional e a Pedro Sánchez. Seria ridículo assacar culpas aos soberanos que não têm a tutela da protecção civil e que estavam lá a prestar solidariedade.

 

Mas pelo arremesso de algumas pedras e lama, houve certamente reacções dirigidas ao Rei e à Rainha. Não é de espantar assim tanto. Naquele desespero, naquela impotência de se acudir aos vivos e desenterrar os mortos da lama, qualquer vislumbre de autoridade pode transformar-se no bode expiatório das desgraças à vista. Acresce que em Espanha há alguns elementos anti-monárquicos profundamente radicais, cuja motivação ideológica (ou niilista) transcende a do desespero do momento. É bem possível que lhes tenha dado para a selvajaria, ao ver ali o objecto máximo do seu ódio.

 

Certo é que Sánchez e o presidente do governo regional se puseram a andar, talvez para ruminarem as suas rivalidades partidárias, e Filipe e Letizia ficaram, cumprindo o seu dever como soberanos: consolando as vítimas e representando o Estado e a solidariedade do povo espanhol para com elas, também visível pelos milhares de voluntários que para lá se deslocaram, muitas vezes antes da própria ajuda estadual.

 

La prensa monárquica europea se pronuncia sobre la visita de los Reyes a  Paiporta: este es su veredicto

O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Um blogue discreto e inconstante, este, mas que até por isso apetece vasculhar. Ainda que de longe, na sua carreira jurídica pós-universitária em paragens anglo-saxónicas, Joana Ribeiro de Faria nem por isso deixa de voltar a terras lusas em busca da sua cultura e do que delas disseram os seus cronistas, como Agustina e Ruben A. (cujo percurso gastronómico chega a refazer), ou até de traçar curiosos paralelos e coincidência felizes e involuntárias entre Jorge Luís Borges e as Festas de S. Bartolomeu da Foz do Douro (não se dando imediatamente conta de que o escritor argentino tinha nascido precisamente no dia desse santo, tal como o que escreve este post). Nota negativa: lamenta-se apenas que não seja mais assíduo. Façamos figas por posts mais regulares.

Tezentas Léguas a Sobrevoar é o blogue da semana.

Livros de cabeceira (12) – série II


João Pedro Pimenta,

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Nem sempre dormi ao lado de uma mesinha de cabeceira. Como preciso, em 98% dos casos, de algo para ler antes de dormir, encontrar um sítio para pousar as leituras era sempre complicado, e à falta de melhor acabavam no chão. Por isso, tenho para mim que, além de todas as utilidades domésticas, a mesa de cabeceira serve para acomodar as leituras do dia, da semana ou do mês, além de outros objectos prioritários (a chave de casa, por exemplo, para que não me esqueça dela).

A fotografia supra data já do Verão, do período de férias, mas tirando um caso, ainda são os livros cuja leitura está em curso ou agendada para breve. A disposição não é a melhor, mas serve o propósito da sua identificação.

Ali no canto superior esquerdo lobriga-se a Biografia do Esquecimento, de Diogo Leite Castro – pseudónimo literário de Diogo Leite DE Castro – que, tenho de confessá-lo, é um velho amigo mas já com livros de contos e outro romance publicado. Destes todos é o único que li até ao fim. Sinopse: um homem dos seus setentas, absolutamente banal, pede a um jornalista de obituários que lhe escreva a biografia, mesmo se à primeira vista não tem absolutamente nada de digno de nota nem de registo. A busca de material para a obra leva ao encontro de um crime e a uma torrente de acontecimentos passados, cada um mais intrigante que o outro. E entre paisagens do Porto, Paredes de Coura (com um cameo de Mário Cláudio), Vila do Conde e Coimbra, a biografia impossível desenrola-se até ao fim do novelo.

A meio, Paris após a Libertação, do grande historiador de guerra Anthony Beevor. Este é daqueles livros que tinha há muitos anos na prateleira e que queria muito ler, mas que por razões várias fui adiando. Decidi-me finalmente a pegar nele, e não sendo o melhor livro para praia, também dá para ler entre dois mergulhos. Depois de um breve resumo dos acontecimentos que levaram ao armísticio de 1940 entre a França e a Alemanha, do estranho regime de Vichy e da ocupação alemã, segue-se um relato emocionante da Libertação de Paris propriamente dita (fiquei a saber que os primeiros soldados franceses entraram ainda no dia 24 de Agosto, dia dos meus anos, embora a data oficial da rendição alemã seja 25) e dos quatro anos seguintes, com a febre da liberdade, o desejo de novidades, a carestia de vida e o confronto político, numa cidade que mesmo em austeridade voltou a ser um dos faróis culturais do mundo, como se comprova pelas personalidades que lá viveram ou por lá passaram, com De Gaulle à cabeça, pois claro, mas ainda Churchill, Coco Chanel, Edith Piaf, Sarte, Beauvoir, Camus, Prévert, Picasso, Hemingway, George Orwell, Yves Montand, Marlene Dietrich, Cocteau e tantos outros. Ainda me falta um pouco, porque a enormidade de pormenores e de petite histoire não permite uma leitura acelerada, mas cumpre todas as expectativas que tinha depositadas no livro.

Em cima, à direita, Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas, uma das heranças escritas de António Mega Ferreira. Este é daqueles livros para ir lendo interpolado com outros, uma espécie de mini-dicionário de palavras ou expressões quase em desuso que povoaram a infância e juventude de Mega Ferreira. Ficamos a saber o que é a “baquelite” ou uma “gloríola”, de onde vêm termos como “bota de elástico” ou “espampanante”, recordamos os “espadas” e os “anis”, tudo com grande “fineza” mas auxiliado por um “cartapácio” de velhos e bons dicionários.

Ali à esquerda, quase escondido, vê-se o autor, Joseph Roth, mas não totalmente o nome da obra, Hotel Savoy. Está ali para o ler brevemente, como introdução à obra de Roth, que só conheço de recensões. O resumo de contracapa promete: um jovem vienense judeu, que regressa a casa depois de três anos prisioneiro num campo siberiano depois da Grande Guerra, hospeda-se no Hotel Savoy. O resto só a leitura do livro me dirá, mas percebe-se que estão presentes alguns elementos da obra de Roth, ele próprio um judeu vienense que narra as glórias e a nostalgia do Império Austro-Húngaro.

Por fim, cá em baixo, Pequeno Almoço à Beira do Apocalipse, de Wladimir Kaminer, também por ler. Já tinha lido o seu Viagem a Trálálá, da colecção de viagens da Tinta da China, meio autobiográfico, meio picaresco, deste judeu russo naturalizado alemão, que vive em Berlim há mais de trinta anos e que se tornou uma das figuras gradas da cultura pop e boémia da capital alemã. Aqui dá-nos o relato das sensações e receios de um germano-russo muito pouco apreciador de Putin perante a invasão da Ucrânia, falando de assuntos sérios num tom quase espirituoso, impossivelmente optimista e decididamente irónico, que a espaços nos remete para um Kusturica mais contido. 

 

Hesitei noutros para leituras próximas, mas ficarão para depois. Até lá, acho que a minha mesa de cabeceira – que já é outra, por razões sazonais – não está mal servida.

O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Confesso que fiquei surpreendido, apesar de lá haver um breve aviso de encerramento, ou suspensão, não percebi bem, de “actividades”, depois retirado. Em quase 19 anos de blogue, raro era o dia em que António Estrela Teixeira não deixava um post, e por vezes mais do que um diário, sendo que a média anual era superior aos dias do ano. Debruçando-se sobre assuntos internacionais e nacionais, versando sobretudo sobre história e política, com muitos mapas, fotos e links, usando muitas vezes a BD como auxiliar e com ironia q.b. por vezes acompanhada por alguma acidez, o blogue era (espero que volte a ser) um manancial de leitura inteligente e informativa. Ficou parado a 16 de Julho. Permanentemente? Veremos. Mas volte ou não, e como há lá posts actuais ou que valham pela sua leitura intemporal, fica aqui a sugestão, também à laia de homenagem.

 

O Herdeiro de Aécio é o blogue da semana.

Discordâncias perigosas


João Pedro Pimenta,

Do que conheço, não tenho qualquer boa impressão de Robert Fico, uma espécie de Orbán de esquerda e putinófilo confesso. Espero obviamente que sobreviva ao atentado à bala, coisa que tudo indica que vá acontecer, porque isto de disparar sobre governantes não é lá grande método de os tirar do poder (e crime é crime, seja lá contra quem for). Para mais, o atirador confessa que disparou contra Fico por “discordar dele“, um argumento muito abalável e digno desta época de discussões desbocadas e intolerantes nas redes sociais. Parece que é membro de grupos literários, o que altera de forma perigosa a máxima de José Mário Branco “a cantiga (neste caso a literatura) é uma arma”

Mas, e já sabendo que Fico fica mesmo entre nós, há uma certa ironia nisto tudo: é que um seu anterior governo caiu em 2018 precisamente por ligações perigosas ao assassínio de um jornalista de investigação e da sua noiva e as coisas nunca ficaram completamente claras, uma coisa chocante mesmo em democracias algo imaturas e a tender para o iliberal. Obviamente que o jornalista discordava do governo. Discordar tem vindo a ser uma coisa perigosa na Eslováquia dos nossos dias.

Notre Dame recordada e reconstruída


João Pedro Pimenta,

Esta semana revi um filme de há apenas dois anos sobre um acontecimento ocorrido há cinco: Notre Dame Brûle, no original. Na altura não me lembrei logo que passavam 5 anos do pavoroso incêndio da igreja-mãe dos franceses. O filme assou discretamente nas salas, apesar de ser de um cineasta consagrado, Jean Jacques Anaud, e é pena. Com emoção e adrenalina q.b., mostra todo o processo do incêndio e as dinâmicas dos intervenientes: dos bombeiros para apagar as chamas sem provocar o colapso de todo o edifício, embora não evitando a destruição da flecha central, dos responsáveis de conservação para salvar as relíquias lá guardadas (com algumas cenas burlescas, como a vinda desesperada do curador para apanhar um comboio suburbano para Paris), das autoridades e das decisões difíceis a tomar, dos parisienses e a sua angústia e dos fiéis e a sua fé, reunidos em vigília e orando frente à catedral.

 

Lembro-me de, quando se abriram as portas, a nave central estar coberta de escombros, cinza e água, mas de se ver nitidamente a cruz do altar-mor. Ainda pairou o receio de as estruturas cederem e a fechada colapsar, e, optimisticamente, esperava-se uma reconstrução possível para quase dez anos. Macron prometeu que seriam cinco. Entretanto, o desastre deu origem ao filme descrito supra e até uma série francesa na Netflix.

 

E a verdade é que 5 anos depois as obras estão mesmo a ser concluídas e a abertura da catedral totalmente reconstruída está prevista para 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, com a presença do Papa. Os cinco anos cumpriram-se e até já há nova “flecha” a substituir a erguida por Violet le Duc. Houve projectos de inovações no edificado, alguns de fugir, mas contra as previsões mais pessimistas e as sensações apocalípticas desse 15 de Abril de 2019, Notre Dame de Paris vai recuperar a imagem que tinha antes do incêndio, e espero, o seu coro magnífico e os sons do  Emmanuel (o enorme sino, não o Macron). Até parece milagre.

 

(Notre Dame em obras, Maio de 2022).

Pode ser uma imagem de barco e a Basílica do Sagrado Coração

O blogue da semana


João Pedro Pimenta,

Num dos mais venerandos blogues portugueses, Miguel Marujo mantém impressionante actividade regular, publicando muitas vezes os seus textos na página de assuntos religiosos Sete Margens. Concorde-se ou discorde-se com o que escreve, vale a leitura. Como brinde, quem quiser ainda poderá encontrar no fim o já inactivo mas muito saudoso E Deus criou a Mulher.

 

A Cibertúlia é o blogue da semana.