Calor e mau humor


João André,

No momento em que escrevo estas primeiras linhas na nossa nova morada tento sobreviver a uma temperatura de 34 ºC que deverá subir pelo menos aos 37 mais tarde. Para amanhã serão 38 e na sexta feira a dose repete-se.

Pode não parecer muito, mas há duas coisas a considerar: 1) a humidade é em geral mais elevada, e 2) as casas não estão preparadas para estas temperaturas. Aliás, as casas estão preparadas para o oposto a temperaturas elevadas. Janelas altas e largas, sem persianas externas, apenas cortinados cuja função tende a ser mais de proteger privacidade que manter o sol fora. O isolamento térmico é também feito de forma a manter o calor dentro de casa – não deixa de reduzir a entrada de calor da rua, mas também não permite que se escape o calor de dentro para fora.

Esta é uma situação que podemos assumir que se repetirá frequentemente no futuro. O Aquecimento Global e consequentes Alterações Climáticas está a causar um aumento na frequência de situações extremas: ondas de calor ou frio, chuvas, ventos, secas, etc. É o “novo normal” (numa tradução às três pancadas de “new normal“). E o mundo, regra geral, não está para isso preparado. Portugal, especialmente a minha (e do nosso Paulo Sousa) região de Leiria sofreu por não estar preparada para uma tempestade com os ventos que sofreu. Neste momento eu sofro parcialmente com o calor. Outras regiões sofreram, sofrem ou sofrerão mais com chuvas e frio e secas.

Neste ambiente vemos que os maiores investimentos privados no mundo vão na direcção de criar uma tecnologia para podermos ter um papagaio estocástico a debitar factos (se tivermos sorte) que deveríamos poder descobrir com dois ou três cliques do rato, ou para podermos criar imagens ao estilo de Cézanne de uma personalidade a voar entre os anéis de Saturno enquanto bebe uma cerveja. Uma tecnologia que requer quantidades ridículas de energia para operar, para arrefecer, necessita de investimentos capitais que resolveriam os orçamentos de muitos países e do qual um terço terá que ser renovado a cada 18-36 meses. Isto para que possa depois substituir todos os empregos.

É o mundo onde uma pessoa pode mudar as regras do mercado de valores onde lançou uma oferta pública para a sua empresa de forma a que o valor da mesma possa ser inflacionado e os seus amigos recuperem o valor que investiram na compra da maior fossa séptica social do mundo. Onde essa mesma pessoa tem uma fortuna pessoal estimada em um bilião de dólares (one trillion), valor equivalente a um salário médio português líquido ao longo de mais de 64 milhões de anos (por outras palavras, trata-se de um dinossauro português que se escapou ao apocalipse e não deixou de trabalhar desde a queda do meteoro).

Temos então um planeta a ser explorado para lá dos limites, com base num sonho distópico, a destruir o equlíbrio ambiental que nos suporta, para enriquecer obscenamente um pequeno grupo.

Não me liguem. Este mau humor é certamente problema meu e deste calor. Vou ligar o ar condicionado, ver no Claude onde arranjar mais um ou dois aparelhos, e ir depois ler mais umas notícias sobre o mundial. E beber mais uma cerveja. Afinal de contas, é mais de 90% água.

Femicídio e terrorismo


João André,

Sendo eu ateu, tenho opiniões sobre religião (em geral, em adição de opiniões sobre algumas específicas) mas não me prenunciarei sobre se algo é cristão ou anti-cristão. Sei no entanto que num mundo em que tanto nos preocupamos com terrorismo, talvez fosse boa ideia pensar em adicionar violência de género aos métodos de terrorismo e designar atacantes como terroristas. Basta olha para os números:

mortes terrorismo UE.png

 

Mortes devido a ataques terroristas na União Europeia. Fonte: Statista.

assassinatos por familiares por 10 mil habitantes

Femicídios intencionais por familiares ou parceiros* por 100 mil habitantes na União Europeia. Fonte Eurostat, retirado deste relatório.
Calculado para os cerca de 450 milhões de habitantes na UE, o valor de 0,41 femicídios por 100 mil em 2023 resultaram em 1845 mortes. Valor que não duvido sofrer por ser escasso.

Para 2023 portanto, 300 vezes mais mulheres morreram só pela mão de familiares ou parceiros do que por ataques terroristas. Mesmo recuando a 2010, o total de mortes no primeiro gráfico dá em 534, para isso contribuindo os ataques massivos que a Europa sofreu no auge do terrorista islâmico. Menos de um terço do valor de 1845.

Portanto repitamos, quando designar autores de violência de género, particularmente contra mulheres, como terroristas? E quando começar a investigar aqueles que advogam a mesma – ou lhe dão guarida “ideológica” – da mesma forma que se investigam os instigadores de violência ideológica ou religiosa?

* – note-se que isto ainda deixa de lado as que são mortas por apenas amigos, conhecidos, colegas, ou simples estranhos.

Nota: defendendo liberdade de expressão, não acredito que alguma vez possa ser um direito absoluto. Não digo “deva”, digo “possa”, no sentido de ser uma impossibilidade. E enquanto deixarei os comentários abertos como faço desde há algum tempo, qualquer comentário estúpido, misógino, odioso, etc, será apagado. E se de alguma vez defender violência contra alguém, comunicá-lo-ei às autoridades.

Trump a atingir novos níveis de monstruosidade


João André,

Isto é já quase aborrecido, mas convém não perder de vista a barbaridade de Trump. Comentário mais recente:

«A whole civilization will die tonight, never to be brought back again. I don’t want that to happen, but it probably will. However, now that we have Complete and Total Regime Change, where different, smarter, and less radicalized minds prevail, maybe something revolutionarily wonderful can happen, WHO KNOWS?

We will find out tonight, one of the most important moments in the long and complex history of the World. 47 years of extortion, corruption, and death, will finally end. God Bless the Great People of Iran!»

Para ser claro: Donald Trump está a ameaçar destruir um país, uma civilização. Não ameaça os seus líderes (que tem andado a assassinar, juntamente com os esbirros do governo Netanyahu) nem o seu exército nem outras estruturas de poder. Não. Sem enviar um navio que seja para lá do Estreito de Hormuz que diz aos outros para atravessarem, ele ameaça todo um país, toda uma cultura, toda uma população. Se o cumprir, é um crime que poderá ter comparação outros crimes contra a humanidade. Se ficar “apenas” aquém disso, poderá ser na mesma um brutal crime de guerra. Em qualquer destes casos, as nações decentes (nem digo quais, cada um que escolha as suas) deveriam simplesmente negar-lhe entrada nos seus territórios. A ele e às bestas que estão envolvidas nisto (Hegseth, Rubio, os chefes das forças armadas).

Se voltar a cagar-se de medo do que os mercados farão e decidir voltar atrás, é no mínimo uma ameaça boçal, nojenta, e que merece que nunca mais se ouça o que ele diz.

Já é o único presidente americano que tentou iniciar uma insurreição contra a soberania do estado. É – penso – o único que foi condenado por crimes. Estará – muito possivelmente – envolvido em outros crimes em volta do caso Epstein. E agora ameaça algo que pode perfeitamente ser descrito como genocídio. Há dúvidas de que é o pior presidente americano de todos os tempos? E a competição nem sequer é fraquinha.

De Hanibal a Hegseth


João André,

Na 2ª Guerra Púnica, Hanibal atravessou os Alpes com uma força cartaginesa, derrotou os romanos em várias pequenas batalhas e em três grandes batalhas, destruindo o exército que os romanos lhe puseram à frente e ocupou grande parte do sul de Itália durante 15 anos sem nunca conseguir – ou tentar – tomar Roma. Voltou a Cartago, perdeu a Batalha de Zama, Cartago foi tomada e destruída.

Na I Guerra Mundial o general alemão Schliefen tinha um plano perfeito para vencer as forças aliadas. A realidade não lhe correu perfeitamente e o plano resultou na guerra das trincheiras. Em 1918 os alemães eram derrotados.

Durante a Guerra do Vietname, um general americano terá dito a um general vietnamita que as forças do Vietname do Norte nunca venceram as forças dos Estados Unidos em batalhas importantes. O general vietnamita terá respondido que isso era irrelevante. Umas semanas depois, Saigão era tomada.

Durante a Guerra Fria terá havido uma piada entre oficiais da NATO: dois generais soviéticos, um de infantaria e um de cavalaria, encontram-se em Paris no final de um conflito NATO-Pacto de Varsóvia. Um pergunta ao outro: «Quem venceu a guerra aérea?»

Em 2001 os EUA invadiram o Afeganistão e tomaram grande parte do país. Combateram os Talibã ao longo de duas décadas. Retiraram-se do país e hoje os Talibã voltam a controlar o território.

Em todos estes casos, a força superior, seja em termos de números ou apenas de desempenho, não tinha um objectivo estratégico ou, tendo-o, era único e não havia alternativas caso este falhasse. A derrota foi o resultado.

2026: os EUA bombardeiam o Irão. Trump e Hegeseth parecem não ter mais planos do que isto.

A longa cauda dos custos da tempestade


João André,

Sendo eu originalmente de Leiria e tendo lá família e ainda muitos amigos, tenho acompanhado a situação na região com apreensão. Não recuperarei as muitas descrições ou imagens da devastação que a(s) tempestade(s) causou (causaram). Apenas penso no “e agora?”.

Não sou nenhum especialista em questões de seguros mas já houve quem me dissesse que os seguros, mesmo quando supostamente são “contra todos os riscos”, explicitamente excluem catástrofes naturais. Não sei se assim o é. Se o for, veremos muitos pedidos ao estado para ajudar, além daqueles que já são de esperar para recuperação de infraestruturas ou propriedades públicas.

Mas mesmo que os seguros e o estado paguem todos os custos, há um que não escapará e causará uma grande depressão na zona: o buraco económico. Há muitas empresas – e aqui a zona mais fácil de referir é a Marinha Grande e a sua indústria dos moldes – que terão os seus clientes, que enviam as suas encomendas. Ora a devastação deixou claro que muitas empresas não as poderão honrar. Os contratos terão certamente cláusulas de força maior para evitar pagar pelo não cumprimento, mas os clientes não deixam de precisar dos produtos e irão a competidores, provavelmente noutras partes do mundo, para os obter. E, como a minha experiência comercial me diz, não voltarão aos fornecedores antigos tão depressa.

Sim, há árvores destruídas, edifícios danificados, equipamento a necessitar de substituição. Mas quando tudo isso estiver recuperado, faltarão as encomendas. Os custos destas tempestades não acabarão quando a última telha tiver sido colocada. Irão provavelmente estender-se por muitos anos.

A Putinização de Trump


João André,

Quando escrevi a minha ladainha há apenas 4 dias – mas no ano passado, esqueci-me da Venezuela e demais países da América do Sul. Quando pensei nisso, ainda considerei rever o post, mas decidi não o fazer. Em apenas 4 dias Trump decidiu atacar o país e raptar o seu governante.

Tratemos já de um aspecto: Maduro era um ditador e o seu regime era ilegítimo e brutal e fez a vida dos seus cidadãos muitíssimo pior do que era antes. Há muito que idealmente deveria ter sido expulso do poder.

No entanto, não há justificação para o ataque americano à Venezuela nem para o rapto de Maduro – e sua mulher. Nem com base no Direito Internacional, nem sequer com base nas leis dos EUA. Os argumentos que Trump usaram não colhem nem sequer tentam ser consistentes. Maduro provavelmente nada tem a ver com o tráfego de drogas para os EUA, nem é promotor de terrorismo. Os seus argumentos de defender os venezuelanos são obviamente treta, já que se está nas tintas para eles. E ser um comunista também não colhe, caso contrário teria invadido outros países. Há um, e apenas um, argumento: os seus recursos naturais, petrolíferos minerais. O facto de dizer que as empresas americanas tratarão da produção de petróleo e que os EUA irão governar a Venezuela demonstra a mentira. Esta foi uma acção de roubo à mão armada, nada mais.

É a putinização de Trump. A seguir veremos Putin tentar o mesmo com Zelenski e Xi a actuar de forma semelhar em Taiwan. Roubo pelo mais forte. O mundo não só está mais perigoso, está a caminhar para o abismo.

Nota para as Nações Unidas: são hoje inúteis fora um ou outro programa. A sua presença em Nova Iorque é uma aberração. A única coisa que deveria ser feita seria retirarem-se da sua sede actual, reduzir o seu tamanho, expulsar EUA, Rússia (e talvez e China) e abolir o veto. Necessitaria de uma refundação da organização, muita coragem, e uma enorme redução dos seus programas, mas talvez seja o única caminho. Está visto que os EUA (não é de agora com Trump) vê os acordos na ONU como não servindo sequer para papel higiénico.

Leitura (ou audição) complementar com explicação sobre a geopolítica do petróleo.

Nota: por erro técnico o meu post a certo ponto surgiu como sendo do Pedro. Este novo post serve agora para corrigir.
Os comentários ao post foram entretanto adicionados, infelizmente sob o meu nome. As nossas desculpas pelo inconveniente.

Uma ladainha de fim de 2025


João André,

E assim chega o ano ao fim. Não foi para mim um bom ano, por diversas razões. Tive anos com acontecimentos piores, mas este ano fica-me na memória pela permanência de coisas más, desagradáveis, que sucederam, a mim ou em geral, pelo mundo. Não foi um ano de matar, mas de moer. Muito fino.

E no entanto, pessimista ou realista que sou – o tempo dirá qual – temo que seja apenas um prenúncio do que virá ou até mesmo um ponto alto. Já se tornou quase comum referir que as actuais gerações mais jovens serão as primeiras a ter uma vida pior que a dos pais. Isto certamente depende de onde se vive, mas em geral, pelo mundo, poderá ser verdade. E no entanto mesmo isso poderá subestimar aquilo que o futuro nos reserva a todos. Não quero ser exaustivo, porque não quero tornar esta entrada num testamento e, estando a escrever sensivelmente ao meio dia, quero acabar antes da meia noite. Deixo no entanto uma lista de assuntos que me tornam tão… céptico em relação a melhoras no futuro.

– A Guerra na Ucrânia. Está claro que Trump não irá ajudar a Ucrânia, no máximo irá vender-lhes armas a troco de acesso aos seus recursos, inaceitável para países que não estão entre a espada e a parede. E está também claro que a Europa não pode, nem quererá, assumir a defesa do país. O urso russo poderá acabar a engolir o seu vizinho, em forma de anexação ou à la Bielorússia. Nenhum dos casos será bom para a Europa.

– O Médio Oriente. O cerssar-fogo é apenas isso, um cessar fogo, e de pouca consequência quando continuam a surgir notícias sobre ataques israelitas ou do Hamas. E quando a Cisjordânia continua a ser alvo de tentativas de limpeza étnica. A região não mudará tão cedo.

– O Mundo está perigoso. Simplifico isto deixando a ligação para o post do Pedro de há 4 dias. Acrescento apenas: Sudão, onde os maiores massacres actuais continuam a suceder-se uns aos outros, com o sangue a ser visível do espaço. Iémen, onde a guerra continua há mais de uma década. Note-se que Sudão e Iémen são também locais onde as carbopotências da região gostam de lutar umas com as outras, mas claro, com o sangue de outros, especialmente de civis. E a isto ainda veremos um potencial conflicto entre Egipto, Sudão e Etiópia, devido à construção de barragens no Nilo.

– A Inteligência Artificial. A corrida ao ouro da IA é neste momento aquilo que em inglês se pode designar por pie in the sky, algo que os seus proponentes dizem prometer tudo, mas que para já só está a entregar dinheiro às empresas que vendem as pás e picaretas. E mesmo aqui poderemos ter actividades tão complexas que qualquer falha pode trazer todo o castelo de cartas para o chão. E, mesmo que tudo corra perfeitamente, fica depois a questão de para que servirá, uma vez que teríamos a IA a trabalhar com a IA, para usar IA, para servir a IA. Dinheiro seria irrelevante, só o poder interessa, e esse poderá estar concentrado num grupo excepcionalmente pequeno de indivíduos.

– Bilionários. Temos um que está a bom ritmo para se tornar o primeiro bilionário da história em terminologia portuguesa (significa, um bilião de dólares, ou em inglês, on trillion dollars). Isto é obsceno seja lá qual for a lógica que se aplique. Se a besta lá chegar, a sua fortuna (teórica, que isto é sempre teórico) poderia gastar mil dólares por minuto e demoraria quase 2 mil anos a gastar a sua fortuna. Se colocasse essa fortuna num monte de notas de 100 dólares, faria uma pilha de  mil quilómetros de altura. E ele é só a figura mais obscena. O mundo não está melhor com tal concentração de dinheiro e mesmo Hayek (Friederich, não Salma, que é casada com um deles) provavelmente daria voltas no túmulo.

– Trump. Sejamos claros: os EUA são a maior potência económica, militar, e cultural do mundo. A deriva que aquele monte de esterco está a causar para um sistema autoritário, focado em homens brancos cristãos, só irá piorar quando a sua Gestapo privada, a ICE, aumentar o seu orçamento de tal forma que apenas 16 forças armadas no mundo inteiro terão orçamentos mais elevados. E isto em cima da corrupção a nível industrial (literalmente) que ocorre hoje em dia de forma quase diária. E ninguém se iluda, isto não mudará em Novembro. Os Republicanos encontrarão uma forma de evitar perder o Congresso.

Quanto a mim? Sendo Engenheiro Químico, trabalho numa indústria que está a deixar o continente e onde metade das posições que aparecem são ou comerciais ou na área da IA. As coisas não aparentam estar melhor para o futuro. Do ponto de vista pessoal poderiam andar melhor, mas não me posso queixar excessivamente, há muito quem esteja pior, como se prova com os milhares que ariscam a vida para vir para este continente.

Por isso não festejo muito o novo ano, tal como não lamento aquele que termina. Fazemos o que podemos, e esperamos que as coisas melhorem. Talvez uma esperança de tolos.

A quem aguentou a ladainha de lamentações, os meus agradecimentos e votos que, pelo menos em algumas coisas, eu esteja errado. Aos outros, uns simples e costumeiros votos de Bom Ano Novo e tudo de bom para 2026.

 

PS – e eu que me queixava de Pulido Valente e outras carpideiras. Não sei se é da idade, mas estou a tornar-me neles.

Benfica-Sporting


João André,

Há muito que não escrevo sobre futebol, por isso aqui segue um comentário do Benfica-Sporting à medida que o vou vendo na televisão holandesa (sim, estão a transmitir em directo).

 

– Benfica começa com Di María. Isto não vai correr bem.
– 6′ – golo de Trincão. Excelente trabalho de Gyökeres e falhanço de Carreras que deveria ter acompanhado o jogador do Sporting. Excelente remate, sem hipótese.
– Benfica a precipitar-se constantemente. A famosa pausa argentina está a faltar. Especialmente do lado dos argentinos.
– Aursnes está enfiado à direita para compensar a presença de Di María. Nota-se logo a sua falta no meio, onde Quaresma, Debast, e Hjulmand (que jogador) são demais para Florentino e Kökçu.
– Que diferença de atitude: Benfica apressado, atabalhoado, sem paciência e sem nexo. O Sporting com calma, plano estudado e a confiança de saber que nao precisa de ganhar mas que tem um golo de vantagem.
– Dois casos de arbitragem (tinha que ser) e ambos com Otamendí. Num lado poderá ter feito falta sobre Quaresma e noutro sofrido falta de Debast. Num caso ou noutro marcar o penalty não escandalizaria, mas não os marcar também não.
– Fim da primeira parte. Sporting a vencer merecidamente. Se o Benfica não ganha calma, isto não muda. Também ajudaria prescindir de Di María.

– Di María saiu. Finalmente. Adoro-o, mas já não tem capacidade para jogar ao mais alto nível.
– Sou só eu que acha que o Eduardo Quaresma e o João Neves parecem ser primos? Até na forma de jogar.
– Os jogadores do Benfica queixam-se a mais. Andam distraídos.
– 60′ e primeiro erro que vejo ao árbitro: Hjulmand fez realmente falta sobre Aktukorglu. E segundo as regras (parvas) de hoje em dia poderia ter visto o amarelo (acertou-lhe na cara com o braço).
– 62′ golo do Benfica. Nao percebi de quem foi, mas devia ser dado ao Pavlidis. Não fosse um certo sueco e seria o melhor jogador do campeonato.
– Percebi agora que Hjulmand teria visto o segundo amarelo no lance que referi. Não sei se isso influenciou o árbitro. Não devia, mas não sei que se passou na cabeça dele.
– 67′ 5º ou 6º penalty pedido pelo Benfica. Este merece tanto como os anteriores (talvez excepção no caso de Otamendí)
– 77′ de volta depois de tratar de uns assuntos domésticos. Ainda 1-1. Curioso, pensei que isto ficasse resolvido hoje, de uma forma ou de outra.
– O St. Juste parece o Pat MOrita no Karate Kid, mas o japones é outro.
– O Otamendí parece querer sair com um golo ou um vermelho.
– Que favor é que o Benfica terá feito ao empresário do Bellotti para o contratar? Um ponta de lança de pouca qualidade quando não era preciso um novo.
– últimos cartuchos. o Benfica não vai lá. Aquela defesa do Sporting só é batida em jogada excepcional.

– Perdi os últimos minutos, mas não faz mal. O Sporting carimbará provavelmente o título na última jornada. É deles para o perder, o Benfica já não o pode ganhar, só o Sporting o pode perder.

(talvez aqui volte para comentário final)

Uma obra de arte em 120 minutos


João André,

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Sim, eu sei que no fim de semana haverá jogo grande, dérbi, que pode já decidir o campeonato deste ano, entre os dois grandes rivais do futebol português (com licença de Vitória de Guimarães e Sporting de Braga e alguns outros). Espero que o Benfica o vença mas espero, acima de tudo, que tenha pelo menos um décimo da qualidade, emoção, imprevisibilidade do jogo de ontem à noite, entre Inter de Milão e Barcelona, na segunda mão das meias-finais da Liga dos Campeões. O primeiro jogo tinha já sido enorme, mas dava a sensação de ter sido apenas uma excepção, talvez uma aberração. O de ontem provou que não era assim. Um Inter sem medo mas concedendo que o Barcelona era tecnicamente superior, uma determinação incrível, um San Siro a ferver com adeptos que se ouviam facilmente mesmo por cima dos comentários televisivos, do outro lado um Barcelona que vive sempre no risco, com uma linha tão elevada que poderia receber uma nova estação espacial, um puto ainda de 17 anos que parece saído de um jogo de computador “quitado” e que não parece ser possível parar, um guarda redes suíço que sofre três golos e consegue ser o homem do jogo, etc. O resultado avançou com 1-0 (21′), 2-0 (45+1′), 2-1 (54′), 2-2 (60′), 2-3 (87′), 3-3 (90+3′), 4-3 (99′) e… não, não respira porque não deu para isso. Só tenho pena dos responsáveis pelos serviços de urgência médicas em Milão e Barcelona, que não terão tido um momento de descanso.

Os jogos foram incríveis e merecem ser reservados para a história do futebol. Em 2010 o Inter também eliminou o Barcelona a caminho da final graças a um outro jogo que entrou para a história do futebol. O jogo de 2010 entrou para os manuais da táctica, para análise dos mecanismos, dos posicionamentos, da abordagem. Um jogo para ser estudado numa faculdade de matemática e engenharia, portanto. O de ontem entra directamente para a Galleria di Uffizi. Merecidamente ao lado dos trabalhos de Botticelli ou da Vinci.

Nota até para o árbitro. Por muito que o Barcelona se queixe, a arbitragem foi impecável, didáctica e firme. Ao nível deste jogo.

Não acredito em bruxas…


João André,

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O Papa Francisco passou cerca de 60 anos sem parte de um pulmão, sobreviveu recentemente a uma infecção pulmonar com múltiplas complicações que levaram o mundo católico a preparar-se para o pior. Depois de receber alta voltou a casa, visitou o Vaticano, visitou prisioneiros, apareceu na varanda sobre a Praça de S. Marcos. Tudo isto aguentou.

Ontem concedeu uma audiência “relâmpago” a JD Vance. Hoje não está vivo.

Correlação, causalidade e tal mas… que las hay, hay!

Nota: não sendo católico, a morte do Papa Francisco não me afecta muito, haverá novo Papa em breve. Como pessoa, lamento a morte de um homem bom, que tentou trazer boa vontade a um mundo em mudança e demonstrou sempre enorme abertura de espírito para com os outros, mesmo – ou especialmente – quando não concordava com eles. O mundo ficará mais pobre sem ele.

A estupidez de Trump e acólitos


João André,

Donald Trump announces 27% tariffs on Indian imports, but others are hit  harder | Economy & Policy News - Business Standard

Tenho evitado falar muito de Trump, não só aqui no Delito, mas em geral. Deixa-me deprimido, saber que faz o que faz sem que alguém o controle.

Depois do anúncio das tarifas de ontem, tenho dificuldade em o evitar. A Cristina tem andado a listar algumas das atrocidades e fez-nos o serviço de publicar o artigo de Miguel Sousa Tavares que faz um apanhado de algumas das decisões ridículas que têm saído de Washington (e noutros posts de outros delituosos vemos mais). Há no entanto um aspecto na questão das tarifas que é difícil deixar passar em claro. Como foram decididas.

Trump falou na reciprocidade. Claro que não é isso que implementou, porque se o fizesse, o grunho Musk teria de recontratar toda a gente despedida e iniciar um enorme programa de emprego no Departamento de Comércio para poder replicar as tarifas em todo o mundo. Também não replicou simplesmente a tarifa média desses países sobre bens (manufacturados, os serviços estão isentos) adquiridos nos EUA.

O método foi este: dividir as o défice comercial (em dólares) para esse país pelas importações americanas desse mesmo país, obter esse rácio e, se positivo (ou seja, os EUA têm um défice comercial com o país), dividir esse rácio por 2 e aplicá-lo como tarifa.

Exemplo: se o país X exporta 100 mil milhões de dólares de bens para os EUA e os EUA exportam 75 mil milhões para o país X. O défice é 25 mil milhões. O rácio é 0,25 (ou 25%). Resultado: aplica-se uma tarifa de 12,5% (aparentemente arredondou tudo para cima, ou seja, seria 13%). Para não haver azares, a tarifa mínima fica-se pelos 10% (com o Reino Unido aparentemente há excedente comercial em favor dos amaricanos, mas levam com 10% na mesma).

Para quê estudar economia, micro ou macro, fazer matemática mais extensa que o 5.º ou 6.º ano, entender consequências, etc.? Não vale a pena. O génio estável de Trump e do seu bando de moluscos* é quanto basta para tudo.

 

* – tenho noção que com isto provavelmente acabei de impedir a minha entrada no país por vários anos. Não me parece que venha a ter pena disso.

Fazer frente a bullies


João André,

Um amigo escreveu-me ontem que futuros historiadores dirão que a reunião de ontem entre Zelensky e Trump (mais Vance e demais esbirros) marcará o fim da NATO. Não sei se concordarei, penso que terminou quando Vance se dirigiu aos antigos aliados na conferência de Munique.

Poderá no entanto marcar o início do fim do poderio americano. Não creio que haja ainda líderes europeus com um módico de inteligência e decência que creiam que os EUA os ajudariam em caso de necessidade. O Departamento da Defesa americano já indicou que irá reduzir os custos com bases e as europeias estarão quase certamente na lista de coisas a cortar (tal como os mísseis nucleares no continente). Sem esse poder dissuasor, aos europeus resta renderem-se à irrelevância ou descobrirem a vontade de se defender a si mesmos.

Só que os EUA perderão acesso aos recursos europeus e, de arrasto, aos de muitos outros antigos aliados. Mesmo na Ásia, será difícil imaginar a Coreia do Sul ou o Japão a confiarem em Trump ou Taiwan a acreditar que os americanos estariam dispostos a arriscar o seu sangue para os proteger. Acrescendo a isto os cortes nas missões diplomáticas (que provavelmente se irão reflectir nos “países de merda de África e Ásia”), e a influência americana irá desaparecer e ser substituída pela chinesa.

Todos perderemos (bem, talvez não os chineses) com um mundo onde os EUA abandonam os seus princípios (mesmo quando os defendiam apenas no seu interesse). Será um mundo de instabilidade e onde a – ainda – maior potência está dominada por bilionários infantis ou maliciosos que só têm interesse nos outros como clientes ou servos.

Na sequência do vergonhoso comportamento de Trump e Vance, temo (e ao mesmo tempo quase desejo) que os ucranianos acabem por remover Zelensky para lá colocar alguém que se mostre obsequioso ao ogre laranja. Temo porque demonstra que o bullying resulta. Desejo porque nos ganharia tempo. A questão é qual opção os ucranianos, como eslavos que são e como tal altamente orgulhosos, irão escolher: apoio e subserviência, ou orgulho e dificuldade. Uma oferece alguma segurança no curto prazo (embora nunca se saiba o que Trump e Putin, falsos como são, decidirão fazer no futuro). A outra oferece riscos claros, mas poderá ser a única forma de existir uma Nação ucraniana dentro de algumas décadas.

Sejamos claros: o momento de ontem poderá ter sido o fim da NATO e da ordem pós-II Guerra Mundial (ou mais um marco no caminho). Poderá ser o início de um conflito ainda mais alargado do qual os EUA se alhearão. Poderá no entanto servir como fundação para o estabelecimento de uma Nação e de mais uma fundação para uma Europa do futuro. É preciso querer (e saber, como cidadãos dessa Europa) que o caminho para isso vai ser duro e custoso.

Os protestos na Sérvia


João André,

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Num período de crescimento de nacional-populismo (como se o nacionalismo fosse de outro tipo) e do aumento de influência de líderes autoritários (para sermos brandos com os Órbans deste mundo), vale a pena olha para o que está neste momento a acontecer na Sérvia.

Para quem não tem acompanhado, tudo começou a 1 de Novembro do ano passado quando a pala que encima(va) a fachada da estação de Novi Sad (a segunda maior cidade do país) caiu, matando 15 pessoas. Esta pala tinha sido renovada a partir de 2021, com uma pausa em 2022 para “inauguração” antes das eleições e reabertura final a 5 de Julho (também do ano passado). Nem 4 meses depois, a pala renovada caiu.

A renovação da pala tinha sido conduzida ao abrigo da Iniciativa da Nova Rota da Seda (penso ser essa a tradução da Belt and Road Initiative chinesa) e integrada na actualização e melhoramento da linha de caminho de ferro entre Budapeste e Belgrado, que passava por Novi Sad e que integraria linhas de alta velocidade. Desde o início que as obras tinham sido alvo de acusações de favoritismo e corrupção, mas na Sérvia actual do Presidente Aleksandar Vučić, isso é quase o dia a dia e não chama muito a atenção.

Aleksandar Vučić (lê-se Vutchitch se escrito à portuguesa) é um político que chegou ao poder quase de mansinho. Num país que celebra os grandes líderes e que seguiria um líder carismático num cavalo branco até a um abismo, Vučić é uma pessoa algo apagada, que fala de forma muito suave e, mesmo quando irritado, não parece passar do registo de professor primário a corrigir uma criança. Veio do Partido Radical (que se pode descrever como de extrema-direita) e foi seguindo suavemente para o Partido Progressista da Sérvia (SNS), que se poderá colocar na direita, mas mais normal. Tem vindo a perseguir políticas de abertura económica do país, privatizando muitas das empresas estatais e tem promovendo a livre iniciativa, seguindo de certa forma a cartilha do liberalismo económico. Em termos sociais é mais pragmático, mantendo ligações a movimentos conservadores mas também demonstrando abertura a grupos anteriormente marginalizados (a sua primeira-ministra anterior e actual presidente do parlamento, Ana Brnabić, é lésbica assumida). É essencialmente um político extremamente hábil.

É também um político autoritário, que quando chegou ao poder prosseguiu os hábitos que tinha de quando era ministro da Informação nos tempos de Slobodan Milošević e em que suprimia meios de comunicação social e tentava controlar a informação que chegava à população. A isto acresce o controlo que tem tido sobre o aparelho político, trazendo alguns políticos da oposição para o governo ou cargos importantes enquanto suprime outros. O seu período no poder tem sido visto como caracterizado por uma deriva autoritária, onde vai acumulando cada vez mais poder em si mesmo e mantém um grupo de políticos ao seu redor que dele dependem para manter as suas posições – mesmo quando são teoricamente da oposição.

Como em todos os sistemas deste tipo, a única forma de manter tal rede de poder é com compadrios e corrupção. A corrupção é desde há décadas quase um facto diário na vida sérvia. Empregos são conseguidos e mantidos graças a cunhas, despachar processos administrativos requerem no mínimo uma boa dose de charme para com os funcionários e frequentemente acabam em pagamentos em dinheiro ou géneros, até um simples procedimento hospitalar poderá depender de o paciente trazer alguns dos materiais para ele necessário. Na vida económica, como se pode imaginar, isto amplia-se. E terá sido o caso com a reconstrução da pala da estação de Novi Sad.

Após a queda da pala e da morte das 15 pessoas, começaram a surgir alguns protestos, os quais foram fortemente reprimidos pelas forças policiais e deram origem a actos de vandalismo. O governo começou uma campanha de propaganda contra os protestos, apodando-os de “anti-sérvios”, um epíteto que é quase do mais ofensivo que se pode usar num país onde os carros num cortejos de casamento têm sempre abundância de bandeiras sérvias. Só que a 22 de Novembro estudantes e alguns professores da Faculdade de Drama da Universidade de Novi Sad decidiram organizar uma vigília nas imediações da faculdade para homenagear as pessoas que morreram no desastre. Durante a vigília (que seguiu os trâmites da lei) foram atacados por um grupo não-identificado mas largamente considerado como ligado ao governo.

Depois disto, os restantes estudantes da universidade decidiram juntar-se aos estudantes de Drama e ocuparam pacificamente a universidade, colocando tendas, organizando a logística e apoiados por pais e pela população local, que lhes trazia comida, bebida e outras coisas que precisassem. Também começaram a organizar um bloqueio do trânsito da cidade por períodos de 15 minutos todas as sexta-feiras às 11:52, a hora do colapso da pala. Aos poucos, a população da cidade começou a juntar-se aos estudantes em sinal de apoio. Num destes bloqueios, um condutor investiu o carro contra os estudantes (após vários políticos do SNS terem defendido tais acções), atraindo condenação da população apesar de ser defendido pelo próprio Vučić.

Com o tempo, estes protestos foram-se estendendo a outras cidades sérvias e culminaram no protesto a 22 de Dezembro do qual tirei a fotografia que encima o post. Este protesto teve lugar na Praça Slavija, uma das mais emblemáticas de Belgrado e, crucialmente, não na Praça da República (Trg Republike) que fica perto do Parlamento e do Palácio Presidencial, e está associada aos protestos contra Milošević. Uma das principais características destes protestos é que são liderados pelos estudantes, mas sem uma única figura que esteja à frente deles, os represente ou seja porta-voz. Todas as decisões dos estudantes são tomadas em assembleias de estudantes e quando algum comunica as mesmas à imprensa é quase sempre alguém diferente de quem o tenha feito no passado. Ao tomarem esta decisão consciente, os estudantes resguardam-se contra situações passadas onde os líderes eram seduzidos e corrompidos e o movimento acabava por morrer devido a isso. Sem líderes para atacar ou seduzir, Vučić fica sem alvo concreto, tendo de se recorrer à cassete dos autoritários, que os protestos são patrocinados “pelo Ocidente” e anti-sérvios, e que os estudantes querem causar a queda do regime.

O problema é que os estudantes têm exigências mais simples. Primeiro que nada, recusam-se a reunir com Vučić, argumentando que ele é o presidente e, como tal, não tem poder real no país de acordo com a Constituição (em teoria é uma figura semelhante à do Presidente da República Portuguesa), antes querem discutir com o governo, coisa que se complicou por Vučić ter forçado a demissão do primeiro-ministro Miloš Vučević (quer era presidente da câmara de Novi Sad quando as obras na estação começaram). Querem também total transparência no inquérito ao colapso da pala, algo a que Vučić tem resistido por, de acordo com os protestantes, isso levar a que se conhecesse a escala da corrupção no país e implicar múltiplas pessoas em posições de poder. Outras exigências que os estudantes anunciaram foram a anulação dos processos contra estudantes e demais cidadãos detidos em protestos; a prisão de quem atacou violentamente os protestos; e o aumento do orçamento das faculdades em 20%.

Estas exigências demonstram também uma outra faceta dos protestos estudantis: não falam pelo país, antes e apenas por si mesmos. Não fazem exigências políticas para as quais não consideram ter legitimidade, apenas exigem algo que consideram ser senso comum (transparência no inquérito, processos legais a quem de facto comete crimes) e a algo que lhes diz respeito: as suas próprias faculdades. Esta é mais uma das razões porque recebem tanto apoio da população. Não só não se arvoram em líderes do país, mas pedem apenas condições para poder estudar condignamente e poder posteriormente ajudar a Sérvia, em vez de ir para o estrangeiro em busca de vida melhor. Nas declarações da população, o apoio aos estudantes recebe frequentemente o comentário “apoio-os porque são os nossos filhos e querem uma vida melhor”.

Vučić, nisto tudo, está preso e parece tentar ir oferecendo migalhas aos protestantes – recentemente anunciando a prisão de uma administradora de uma clínica de testes clínicos por práticas de corrupção – e esperar que arrefeçam para ele voltar ao normal. Neste momento não é claro que isso venha a acontecer.

Dê por onde der, estes protestos têm demonstrado que há formas de resistir às derivas autoritárias e corruptas dos países. A opção que os estudantes sérvios têm demonstrado baseia-se em certos pilares: 1) união; 2) protestos completamente pacíficos; 3) ausência de líderes ou figuras; 4) manter as exigências circunscritas ao razoável e lógico.

Num mundo onde nos perguntamos constantemente “onde irá este mundo parar” relativamente aos jovens actuais (como se a pergunta não fosse feita desde sempre por todas as gerações), este tipo de protestos demonstra que, pelo menos num país e para já, o mundo talvez tenha possibilidade de ir parar a um lugar melhor. Haja vontade.

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Imagem com um dos símbolos do protesto. O texto é traduzível como “As vossas mãos estão ensanguentadas”. Penso que não é preciso explicação.

Uma nova (des)ordem mundial


João André,

Há menos de duas semanas escrevi um comentário a um post do Pedro onde expressava o meu pessimismo relativamente a Trump e às consequências para Portugal e a Europa. O Pedro respondia que analisava (naquele caso) na perspectiva de cidadão português e expressava optimismo na resiliência europeia. Não voltei à discussão mas talvez uma nova reflexão faça agora algum sentido.

A verdade é que na presente estratégia trumpista (e da Heritage Foundation, que escreveu a estratégia, passo a passo) duas semanas são uma eternidade. Após a visita de Hegseth e Vance e algumas declarações extra de Trump, está neste momento claro qual a visão que a Casa Branca tem para o futuro. E passa por um elemento simples: a NATO é letra morta.

Primeiro vieram as declarações de Hegseth (segundo algumas notícias, algo diluídas da brutalidade inicial), que a Europa não mais seria o foco dos EUA, assim explicando que a defesa da Europa estaria a cargo dos Europeus, caso isso não fosse claro. Depois chegou Vance, que se apresentou numa conferência sobre segurança, falou durante 18 minutos sem tocar no tema, atacou a democracia europeia, demonstrou menosprezo pelo continente, foi embora assim que terminou, recusou reunir-se com o chanceler alemão sob o pretexto de não ir ficar no cargo muito mais tempo, e reuniu-se com a extremista líder da AfD que não tem a menor hipótese de ser eleita chanceler. De permeio surgiu uma declaração de Trump himself em que dizia querer procurar um processo de desnuclearização juntamente com China e Rússia. Por fim, há o facto de Trump querer ir debater o futuro da Ucrânia com Putin sem levar os ucranianos ou europeus em conta.

Ignorando o modo e focando-nos no conteúdo das mensagens, vemos aqui um tema essencial: os EUA vão dar prioridade a um mundo onde “might is right” ou, se quisermos, da lei do mais forte. Trump, já o sabemos, vê a política como transacional. Se não existe um quid pro quo – um toma lá dá cá em bom português – ele não está interessado. Trump quer portanto negociar com Putin, terminar a guerra, recuperar os recursos que puder, e deixar os ucranianos e europeus entregues a si mesmos. Note-se que nesta negociação Trump já disse que os ucranianos não podem esperar entrar na NATO nem recuperar as fronteiras de 2014 o que, mesmo que seja realista, é uma posição bizarra para iniciar negociações.

Excepto quando olhamos para o interesse de Trump: que quer ele em troca? Recursos minerais. O futuro da Ucrânia não lhe interessa, já que ele quer apenas e só acesso aos recursos do país. Já disse a Zelenskií querer condicionar ajuda futura ao acesso aos depósitos minerais em terreno ucraniano (especialmente terras raras, lítio, urânio, etc.), os quais estão parcialmente em territórios controlados pela Rússia. Disse inclusivamente que quer “tomar posse” de 50% desses recursos, como se fosse um extorsionista mafioso a dar a volta por Manhattan no início do século XX a exigir dinheiro em troca de protecção. Desta forma a sua posição ideal será a de “oferecer” à Ucrânia protecção em troca de pagamento e oferecer à Rússia o levantamento de sanções (e reentrada nos palcos internacionais) em troca de acesso aos restantes minerais (que obviamente se manteriam em mãos russas). O resto – reconstrução do país, defesa das fronteiras, defesa europeia – fica nas mãos de quem lá vive. O próximo passo será certamente a remoção de bases do continente. Se as eleições alemãs não correrem de forma que lhe agrade, as bases no país poderão muito bem ser as priemiras.

E quanto à desnuclearização? Do ponto de vista de Trump não faz sentido ter tantas armas nucleares quando existe redundância. Sendo uma mente que não entende subtileza, não percebe que as armas não foram todas criadas iguais e que muitas delas existem não para criar destruição mas para garantirem a possibilidade de retaliação ou “priemiro ataque” (First Strike). Se puder reduzir o arsenal nuclear, certamente que o irá fazer removendo muitas das armas do território europeu, assim ainda mais abrindo o flanco no continente. Além disso, um acordo deste género seria uma aceitação tácita que EUA, Rússia e China seriam as única potências internacionais e que cada uma teria a sua esfera de influência, na qual os EUA não interefeririam desde que possam beneficiar economicamente. Num tal cenário de desnuclearização (e note-se que a China provavelmente não reduziria o seu arsenal, antes o aumentaria para um nível semelhante ao americano e russo) os riscos de um conflito nuclear não diminuiriam (talvez se abrisse a possibilidade de vitória, algo impossível actualmente) e os riscos de conflito convencional seriam talvez superiores. E as probabilidades de China invadir Taiwan, EUA invadir Panamá e Gronelândia (o Canadá já duvido), e Rússia continuar a sua expansão para Oeste seriam muito elevadas.

E no que ficamos na Europa? Bom, como o Pedro diz noutro comentário no post, abre a possibilidade para a Europa finalmente fazer aquilo que já deveria ter feito há décadas (e perdeu a oportunidade de fazer no período de Trump45) e criar um sistema de defesa europeu. Isto não significa simplesmente aumentar os gastos em defesa. Significa também criar todo um sistema para poder sustentar a defesa. Diz-se habitualmente que o Pentágono tem a maior burocracia do mundo mas, mesmo que seja excessiva, é indicativo daquilo que a Europa tem que construir. Tem que criar um conceito, um sistema de liderança, de harmonização entre as diferentes forças armadas europeias, uma burocracia, processos de investigação e desenvolvimento, fomentar a indústria de armamento europeia, criar processos de compras de equipamento (não só de armas mas também de material extra – tendas, rações, roupas, veículos, etc.) e implementar uma forma de treinos conjuntos e criação de doutrinas conjuntas. Tudo isto é uma oportunidade, mas também demora muito tempo, custa capital financeiro, político e humano. E é muito difícil de vendar a uma população a quem não se é sincero sobre os problemas reais.

E o capital financeiro traz-me a um ponto no qual discordo algo da posição do Pedro. Ele escreveu a certo ponto «a Europa resistiu a um milénio de guerras violentas, epidemias mortíferas, catástrofes de todo o género» no que dá a entender que a resiliência europeia pode resistir a tudo isto novamente. Nisto deixo as minhas reflexões: a “Europa” não sovreviveu a nada disso. A “Europa” não existia, era um aglomerado de reinos, impérios, terras vistas como bárbaras, múltiplas religiões (que mesmo quando cristãs não impediam o morticínio) e era, essencialmente, o território menos interessante do mundo conhecido. A Europa é uma zona geográfica com pouco interesse. Não é particularmente fértil, rica em minerais, recursos naturais de outros tipos (madeira, especiarias) e tem pouco espaço disponível. É por isso que não era tão invadida como o Norte de África ou a Ásia. Tudo mudou com o período de conquistas ultramarinas (aquilo a que se chama habitualmente de “Descobrimentos”) e expoliação dos recursos locais. Com o fim da época colonial, sem o guarda-chuva americano, sem recursos naturais significativos, sobra apenas o avanço tecnológico que o continente ainda tem sobre a maioria do mundo e a sua população (que é provavelmente a mais educada).

Como avançar? Sinceramente, o facto de não termos muitos recursos naturais poderá ajudar, dado que Putin não terá interesse no território europeu. O seu interesse expansionista está em obter os territórios que ele reclama serem “historicamente russos” (na mesma lógica com que Portugal poderia reclamar Angola como “historicamente portuguesa”) e em criar zonas tampão entre a Rússia e uma região que lhe seja hostil. Aqui, se Trump criar realmente um mundo de esferas de influência onde a Europa seja ignorada, Putin poderá de facto ter pouco interesse em invadir muito mais. Ainda assim, o melhor cenário talvez seja os Europeus regressarem a África, desta vez sem se darem a poses ou atitudes sobranceiras, e criar parcerias reais e honestas. A Europa poderia obter os recursos e a África apoio para o seu desenvolvimento económico, humano, e tecnológico. A tal oportunidade de que o Pedro falava.

O problema é o que acontece até lá. A união na Europa é ténue – para ser diplomático – e será difícil ver Orbán, Meloni, Wilders, potencialmente Le Pen, Fico, e outros a apoiar tais acções. Por outro lado, imaginando que de facto a Europa decidiria colocar tropas na Ucrânia, que aconteceria quando Putin atacasse? Talvez nem atacasse as forças europeias, apenas as ignorasse e atacasse as ucranianas. Que fariam os europeus? Responderiam? Atacariam território russo? Fariam como as tropas neerlandesas em 1995 em Srebrenica? E se as forças europeias fossem atacadas directamente? Que fariam sem a ameaça do envolvimento americano? Alguém julga que Trump sancionaria uma resposta americana à invocação do famos artigo 5 do tratado da NATO?

Por isso me mantenho pessimista. Trump não quer saber e deixou-o claro. Talvez esteja a esperar um pouco antes de apertar ainda mais porque não tem o seu gabinete completamente formado, mas não irá tardar muito. Os EUA irão recuar dos palcos mundiais e concentrar-se-ão apenas no seu quintal (continente americano) e no que poderão obter economicamente. O resto do mundo que trate de si. Não discuto aqui se isso faz sentido para os EUA embora aminha opinião seja fácil de discernir, mas apenas nas consequências. Os EUA a controlar América do Norte e do Sul, China a controlar o sudeste asiático e parte de África, Rússia a controlar a Europa de leste, parte do Médio Oriente e algumas zonas de África, e restos para países/regiões como Índia, Europa e quem mais o conseguir.

A saída para isto estará nos EUA e na capacidade dos americanos de evitarem tal destino (que lhes seria adverso), mas da forma como as coisas avançam, não sei se Trump e o seu aparelho lhes dará essa escolha. Só que isso é assunto para outro post e este já vai longo demais.

Trump 2.0, oligarquia, e um mundo à beira de um caos de mudança


João André,

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Imagem da The Economist.

Ainda a segunda presidência Trump vai no adro e já estou farto das histórias. É como ver um enorme acidente rodoviário em câmara lenta. Estou horrorizado mas não consigo deixar de olhar. E no final vai haver muita gente a sofrer. Por isso escrevo agora com o desejo de não abordar Trump durante muito tempo (senão en passant porque o tema não o pode evitar, como quando possa escrever sobre as alterações climáticas).

Escrevi acima “segunda presidência de Trump” mas há já quem fale em primeira presidência de Musk. É obviamente exagerado – Musk não quer gastar tempo em gerir o país, isso é chato e ele nem saberia o que fazer – mas aponta uma direcção para o país: a oligarquia. Isto foi óbvio com a presença dos tech bros na inauguração e na enorme presença de Musk. Contribuíram financeiramente mas mais ainda contribuirão com a sua colaboração futura. Bezos domou o Washington Post, a Meta já anunciou o fim das verificações de factualidade e outras empresas (tech ou não) também anunciaram que estariam dispostas a trabalhar com Trump. Assim mesmo, «dispostas a trabalhar com Trump», num tom que indicaria subserviência. Só que não o será, pelo menos não exactamente. As empresas estão interessadas, acima de tudo, nos lucros e para tal farão aquilo que precisam de fazer. Os lucros, especialmente para os seus donos e CEOs, vêm na forma de cotação bolsista e acções detidas. Quanto mais estas sobem, mais as empresas valem, mais dinheiro podem ter disponível, mais dinheiro podem pedir e a lucros mais baixos, e mais poder acumulam. Foi assim que Musk, com um investimento de 43 mil milhões no Twitter e uns 220 milhões na campanha, conseguiu já aumentar em alguns 170 mil milhões a sua fortuna após a vitória de Trump. Entretanto, Trump anunciou já que irá investir 500 mil milhões em Inteligência Artificial, tendo ao seu lado uma das pessoas mais ricas do mundo – Larry Ellison, o líder de um dos maiores fundos de investimento do mundo – Masayoshi Son, e o “guru” da IA e líder da OpenAI Empresa apoiada pela Microsoft) – Sam Altman (que entretanto é também já um bilionário). Se lá tivesse também Jensen Huang (presidente da Nvidia e outro centibilionário) faria bingo. Teria também o perfeito grupo de gestores que não precisam de dinheiro do estado. Mas vão recebê-lo, à ordem de 125 mil milhões por ano.

Estes são os primeiros exemplos. A promessa de enviar americanos a Marte, quando ao lado de Musk, deve ter aumentado em mais uns 50% a valorização da SpaceX. O drill, babz drill, deve deixar os mercados bolsistas de acções de empresas de petróleo mais descansados, mesmo que isso não tenha importância porque os EUA já são o maior produtor mundial de petróleo e gás (deste também o maior exportador) e não há muito espaço para aumentar esses valores. Os cortes de impostos irão provavelmente ser feitos permanentes e não serão os últimos. O ridículo departamento de eficiência governamental foi entregue aos magnatas para partir o estado aos bocadinhos e dividir a pequena rede social que existia. As estúpidas tarifas irão aumentar os preços de tudo, mas irão provavelmente também reduzir o volume de importações, o que provocará um aumento da produção interna. Quem pagará? O consumidor comum. Quem beneficiará? Os magnatas, como é habitual. E ainda veremos as mudanças de regulamentações para reduzir a necessidade de conformidade por parte das grandes empresas. Regulamentos ambientais? Fora. Água limpa? Para quê? Litigação contra as grandes empresas? Provavelmente será reduzida ao mínimo.

E nem entramos no encher o aparelo executivo de lealistas que farão tudo o que ele mandar e perseguirão quem ele quiser. Olhar para algumas escolhas é criar a pergunta: qual destes é o membro do governo mais incompetente de todos os tempos? Será Hegseth? Patel? Kennedy? Ao menos Bondi e McMahon têm experiência nas suas áreas e em gerir organizações maiores que uma banca de limonadas. Vale no entanto a pena falar naquilo que este gabinete trará: um declínio futuro do país. A educação está entregue a alguém que pouco fará por ela. A ciência está ausente, foi outsourced a Elon Musk (que também pouco percebe dela). O investimento no Green New Deal e que seria usado para actualizar a infraestrutura do país desaparecerá. Não só irá o dinheiro para os bilionários que dele não precisam (mas que o aceitarão e nem dirão muito obrigado) como não será investido em assegurar o futuro do país, assegurando que está preparado para a transição energética que é cada vez mais inevitável. Ao mesmo tempo, as emissões de CO2 irão provavelmente disparar (se isso não acontecer será apenas e só porque há empresas que não são míopes e percebem a importância de investir agora na transição energética) o que fará com que algumas das áreas de principal apoio para os republicanos sejam afectadas: Florida irá afundando, o sudeste do país sofrerá cada vez mais furacões, or tornados no centro do país aumentarão de frequência e intensidade, etc. Suponho que desde que a Califórnia continue a arder, isso não os incomode.

E finalmente chegamos aos custos humanos. Milhões irão sofrer. Pessoas, seres humanos, cujo único crime foi fazer o que os antepassados de milhões de americanos fizeram: fugir em busca de uma vida melhor. Também muitos outros que não poderão pagar os custos com a saúde. E depois todos os outros de quem os republicanos não gostarem e que perseguirão sem piedade.

E o aparelho judicial não ajudará. No Supremo Tribunal imagino que Thomas e Alito se retirem para dar lugar a juízes semelhantes mas mais jovens. Sottomayor talvez aguente a sua saúde mas daí talvez não. Pode ser que no final da sua segunda presidência Trump tenha 7 juízes. E há que depois encher os restantes lugares de juízes federais com mais uns quantos lealistas (como Aileen Cannon) que o ajudarão no que puderem. E provavelmente apioarão medidas para restringir o voto de (em) adversários políticos, para cumprimir a promessa a um grupo de cristãos na campanha que não precisariam de voltar a votar. Claro que tudo isto poderá levar a reacções de protesto, por isso ajuda ter alguém como Hegseth à frente do Pentágono e que não hesitará (entre garrafas de vodka) em despedir qualquer militar que não cumpra ordens, inclusivamente de disparar sobre protestantes.

Internacionalmente ele irá provavelmente tentar de facto acabar com a guerra na Ucrânia sem pressionar excessivamente Zelenski, mas como Putin não quer saber, não consigo imaginar um cenário em que Putin não tenha o essencial daquilo que quer. Verdade seja dita que isso não será particularmente por culpa de Putin: se Biden queria de facto ajudar a Ucrânia devia tê-lo feito a tempo e horas. Neste momento o país já só quer sobreviver. Só que o acordo final irá provavelmente reforçar Putin, que verá muitas sanções desaparecerem aos poucos e acabará numa posição de força. Do outro lado da Ásia, os sul-coreanos e japoneses verão provavelmente Trump dizer-lhes que terão que se desenrascar sozinhos, o que os levará a desenvolver capacidade nuclear. Taiwan poderá ser invadida antes do final da década, dependendo daquilo que Trump faça (isso é mais provável hoje que em qualquer momento nos últimos 30 anos). Netanyahu irá possivelmente arranjar mais uns conflitos para se manter no poder e justificar atacar mais uns vizinhos (como já está a fazer na Cisjordânia, agora que tem uma trégua com o Hamas) e manter a temperatura no Médio Oriente elevada. Só não sabemos se irá atacar o Irão ou o Irão irá decidir meter todos os ovos no cesto de uma ofensiva antes que fique mais fraco. Mas é um facto que, pelo menos neste aspecto, Trump na Casa Branca reduz a possibilidade de um conflito (embora aumente a possibilidade que seja nuclear).

E, claro, as ordens mundiais foram às urtigas. Neste mundo futuro, em que os EUA irão declinar, a China continuará a crescer porque conseguiu – pelo menos até ver – a quadratura do círculo: compensar o declínio e envelhecimento populacional (inevitáveis depois de decadas de políticas de restrição da natalidade) com o outsourcing (esta palavra outra vez) de muitos dos recursos e mão de obra a outras partes do mundo.

A Europa? Bom, antes de mais tem que se armar e aprender que precisa de um exército europeu. depois precisa de compreender que só a tecnologia a safará. E finalmente necessita de entender que o seu período de dominância foi apenas umcurto período na História Humana e consequênica de uma colonização que sugou os recursos às partes do mundo que os tinham. A Europa é uma região com poucos recursos naturais e se não souber utilizar os seus recursos humanos (e absorver alguns novos) não avançará. A única coisa que se pode dizer é que, pelo menos por agora, ainda sabe que o caminho para o futuro é verde, até pelas tecnologias que está a abrir. Mas terá que aceitar que no jogo da corda entre EUA e China, e ameaçado por potências nucleares essencialmente nazis como a Rússia, terá que se submeter a um papel de subordinado pelo menos por ums décadas.

Sou um pessimista, sei-o. Espero que este post ainda aqui esteja daqui a uns 20 anos para me mostrarem a parvoíce, para eu mostrar aos meus filhos que a idade não confere necessariamente sabedoria, antes confere maus fígados. Mas…

É uma imagem desoladora? Sim, é, mas é a imagem que Trump está a dar.

Um apanhado de reflexões


João André,

1. Há pouco mais de um mês fez um ano do ataque (pogrom) do Hamas a Israel. Escrevi sobre o assunto na altura e citei uma frase que tinha lido: «o Anjo da Morte lambe os beiços». Um ano mais tarde a única coisa que dá vontade de dizer é que essa frase ficou aquém da realidade. Em Gaza a contabilidade de mortos anda nos 43 mil a 47 mil desde há uns meses, apesar de sempre que leio as notícias haver mais uns quantos a morrer (entre 5 a 50 em cada dia que leio). A maioria dos reféns continua em Gaza e os israelitas supõem que um terço deles terão perdido a vida. Não há solução à vista mas os generais parecem falar abertamente da expulsão de palestinianos do norte do território e ocupação do restante. Uma geração de palestinianos estará traumatizada/aleijada/radicalizada (não, não é um “riscar o que não interessa”, todas serão verdade) para o resto da vida. Os israelitas estarão mais seguros por uns anos, antes do ressentimento ressurgir. Não falo em Genocídio como muitos fazem, porque siceramente não quero acreditar nisso, Mas parece-me óbvio que este governo israelita anda a dar tangentes ao conceito.

Pelo meio apareceram os outros episódios. Com o Irão, que tenta a todo o custo manter-se afastado do conflito (pelo menos de forma directa) e tenta apenas mostrar-se através dos seus facínoras de aluguer. Com o Líbano, que por causa de um exército de rebeldes radicais que não tem força para eliminar está a ser massacrado por um Israel que lhe diz para expulsar o Hezbollah (como se o conseguissem). E com os Hutis no Iémen, que às ordens dos aiatolás loucos de Teerão dão razões a Israel (e EUA e outros) para estenderem um confito que não podem ganhar.

E o Anjo da Morte enche a barriga.

 

2. Na Ucrânia chegou-se a um impasse onde a Rússia não tem conseguido ganhar território suficiente para acabar com os ucranianos mas sabe que o tempo joga a seu favor. Mesmo que os EUA conseguissem o seu apoio de forma indefinida (coisa que não acontecerá – já lá chego), os russos andam a trazer norte-coreanos e daqui a uns tempos se calhar também bielorrussos e outros para engrossarem as suas fileiras. Putin está à espera que a Ucrânia seja forçada a ceder ou que caia de podre. Não estará errado. A questão é o que fará depois, com forças armadas mais modernizadas, treinadas e uma infraestrutura mais fortemente orientada para a guerra, especialmente aquela que contorna a sanções internacionais. Se eu vivesse nos países fronteiriços não dormiria descansado.

 

3. No Sudão vai prosseguindo uma guerra civil que até ao momento poderá já ter matado até 150 mil pessoas, deslocado perto de 8 milhões e criado mais de 2 milhões de refugiados. Ao pé disto os outros que referi acima parecem ser da segunda divisão. Mas não ligamos, porque está mais longe e não queremos saber. Não há nada de especial que nos envolva a nós. A não ser… aquela coisa chata… de seres humanos a perder as vidas.

 

4. Nos EUA Donald Trump lá venceu as eleições. O primeiro criminoso condenado em tribunal, responsável por uma tentativa de subversão de eleições livres, que afirma ir ser ditador apenas no primeiro dia (nem precisaria de o ser nos outros), que tenta abertamente reduzir direitos de tudo o que não sejam as pessoas que ele entende serem as melhores: habitualmente brancos, depois os não brancos de quem ele goste, no fundo virão as mulheres em geral e especialmente as mulheres não brancas de quem ele não goste. Só que foi eleito de forma democrática e isso deve ser respeitado. Temo pelo seu país (embora não goste muito dele) e temo muito pelo mundo. Estou à espera de uma presidência transaccional, onde tudo é negociável desde que beneficie os EUA (ou a ele pessoalmente, esta opção é obviamente a preferível) e onde tarifas, saídas de acordos e mandar amigos e aliados às urtigas serão moeda corrente. A Ucrânia será atropelada e forçada a aceitar seja lá o que for. Taiwan deixará de receber garantias reais. Coreia do Sul e Japão poderão estar neste momento a avaliar a maneira mais rápida de obter armas nucleares. E quando Trump se for embora (se fosse mais novo talvez tentasse mudar a constituição para poder chegar ao terceiro mandato) terá tudo para ter deixado a extrema-direita ao leme do país.

 

5. Na Europa veremos o mesmo. Os bilionários europeus olharão para o que se passou nos EUA – a caminho de uma oligarquia – e perguntarão se não poderão implementar o mesmo programa. A extrema-direita será a segunda força na Alemanha a partir de Fevereiro. Na Holanda já é a primeira força e estará à espera de ver os seus parceiros de coligação a deitá-la abaixo para forçar eleições para reforçar o seu poder. Na França Le Pen poderá finalmente atingir o seu desejo de ser presidente. Na Itália já lá chegarão, talvez cedo de mais e a precisar de suavizar as coisas para já (Salvini não seria tão simpático como Meloni). Em Portugal estou para ver o que se passará. O que imagino no entanto é uma classe de super-ricos a financiar esses movimentos para que depois possam ter carta branca para fazerem o que quiserem sem esse inconveniente de regulamentos.

 

6. E nisto o planeta vai aquecendo. Podemos esquecer os 1,5 ºC, que já estão atingidos. Não de forma oficial, para isso é preciso ter uma ou duas décadas de temperaturas consistentemente nesse patamar, mas na prática já ninguém acredita realmente que escapamos. As ondas de calor continuam. As cheias também. O mesmo para tempestades e tornados e furacões. E não vamos parar aqui. Tudo o que os climatólogos andam a dizer há décadas começa a acontecer. E vai piorar. Porque não aprendemos.

 

7. Chegado aqui poderei ter tentação para culpar alguém. Talvez a esquerda, como neste post abaixo? Ou a direita, que adoptou bandeiras da extrema direita (como a imigração) sem perceber que o eleitorado tende a preferir o original à fotocópia? Ambos? Os social media que são hoje já meios de comunicação dominantes? Os bilionários que dão dinheiro a quem lhes prometer que podem continuar a enriquecer-se como quiserem? Não.

 

8. A culpa é de sermos essencialmente os mesmos seres humanos que há umas dezenas de milhares de anos ainda se escondiam em cavernas, tinham medo de fogo, comiam como se não houvesse amanhã quando encontravam a comida, se fiavam em grupos pequenos onde toda a gente estivesse ligada por laços de família ou fosse do mesmo clã, onde qualquer conforto era imediatamente agarrado quando surgisse. Somos humanos das cavernas mas dominámos o fogo, o átomo, aprendemos a atravessar oceanos, a voar, a ir ao espaço, a comunicar a enormes distâncias, a ligarmo-nos entre todos. E fizémo-lo de forma cada vez mais acelerada. Os nossos cérebros não estão construídos para isto. Agora acreditamos que construir cérebros externos (IA) ou melhorar os que temos (neurolinks) vai resolver o problema. Não irá.

 

9. Termino com a mensagem pessimista. Iremos provavelmente ter grandes catástrofes em breve. Sim, sou um profeta da desgraça e espero estar enganado. Mas creio que atingimos o limite do que podemos fazer da forma como o temos feito. A nossa história (humana) está repleta de picos de prosperidade, cultura, economia, etc., seguidos de uma catástrofe ou outra, natural ou autoinfligida. Acredito que estaremos lá perto. Mais uma vez, muito desejo que alguém me aponte este post daqui a uns 50 anos, comigo ainda vivo, e me demonstre como estou a ser estúpido. A sério que sim. Mesmo que isso signifique que toda a minha ideologia era uma parvoíce.

Só que…

Livros de cabeceira (9) – série II


João André,

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Há 11 anos, quando escrevemos a primeira série, apresentei a fotografia do meu monte de leitura (um pouco arrumado para se fazer à foto) ao lado da cama. Não existia cabeceira porque tinha um apartamento onde estava durante a semana perto do trabalho, na Alemanha, sendo a verdadeira casa (a Thuis no neerlandês e zu Hause no alemão, o bom e velho Lar português) nos Países Baixos, onde regressava ao fim de semana, feriados, férias e quando conseguia estender a estadia trabalhando a partir de casa.

Estando agora em minha casa, mesmo minha e verdadeiramente Lar onde está a família toda (se bem que continue a ser nos Países Baixos e o escritório na Alemanha), posso colocar uma fotografia com mesa de cabeceira, se bem que os livros se encontram na prateleira de baixo. Teve que ser reorganizada e tem vários livros não porque eu leia assim tanto – até leio menos que no passado, infelizmente – mas porque é partilhada com mais uma leitora. Por isso temos uma mistura algo eclética e só é estranho que não estejam ali mais línguas representadas.

Comecemos de forma sucinta com os da coocupante da mesa de cabeceira: East of Eden, de John Steinbeck e que não precisa de apresentações. Putt’s Law and the Successful Technocrat, escrito por Archibald Putt (pseudónimo) e que retrata de certa forma o inverso mas também um complemento ao Princípio de Peter (que numa organização meritocrática as pessoas são promovidas até atingirem o seu nível de incompetência). A Lei de Putt tem duas bases, 1) a Tecnologia é dominada por dois tipos de pessoas: as que a dominam mas não a gerem, e as que a gerem mas não a dominam; e 2) uma hierarquia em organizações tecnológicas irá com o tempo expulsar para cima os incompetentes, para onde não podem fazer estragos na Tecnologia, e manter os competentes nos níveis inferiores, onde sabem o que estão a fazer. É um livrinho engraçado, curto e que se lê depressa, embora como em quase todos os livros deste género, quem o entenda bem também poderia ler o essencial num post de blog. O terceiro livro que ali cohabita é How Successful Engineers Become Great Business Leaders, livro que ainda não abri e por isso nada posso dizer sobre ele.

Quanto aos meus:
Ainda ali anda A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, que acabei há não muito tempo e ainda não me decidi a arrumar na estante. É livro que ainda vou digerindo e já dei por mim a voltar às últimas 15 páginas para as reler, que é onde Pamuk brinca com o leitor, o leva numa viagem da montanha russa mais estonteante que há e causa questões sobre a nossa sanidade. Neste livro, Pamuk cria todo um cenário e uma história sobre duas personagens, ambas sem nome, dinâmicas entre as duas, adiciona personagens secundárias – todas sem nome, apenas títulos – só para finalmente chegar ao que quer fazer nas últimas páginas. É quase um livro de suspense mas sem suspense, muito bucólico, até às últimas 20 páginas. Aí dá a volta ao leitor. Acabei-o por pura coincidência na Turquia, o que me pareceu muito adequado à situação.

Tenho depois o livro que comecei agora, O Segundo Coração, de Bruno Vieira Amaral. É um livro de pequenos textos – poderiam ser posts – sobre episódios e recordações da sua infância e juventude. Sendo o autor apenas uns 3 anos mais novo que eu – e tendo eu escrito também alguns textos sobre a minha infância e juventude – o tema atraiu-me bastante e os pontos de partida para as suas reflexões são facilmente identificáveis. Só que o livro sai-me agridoce. Como escrevi, reconheço muitas das experiências – as corridas de carrinhos, os jogos com bonecos, o hino nacional no final da transmissão da RTP1 – mas não me identifico de forma nenhuma com as reflexões que as recordações provocam e até as vejo como estranhas, como não compreensíveis – não a sua explicação, que é clara, mas a razão por Vieira Amaral pensar dessa forma. Claro que nada disto estraga o livro, mas reduz-me o prazer de o ler, pelo que vai aos soluços. Aquilo que me vai sempre maravilhando é não só a capacidade de Vieira Amaral de se lembrar de imensos pormenores dos episódios que descreve mas também de ser capaz de invocar tantos episódios. Isso é algo que tem dificultado a minha série e só pela inspiração já vale a pena ler o livro.

Tenho por último um livro que já referi antesThe Making of the Atomic Bomb, de Richard Rhodes. Um livro que recebeu o prémio Pulitzer em 1988. Tenho-o na mesa de cabeceira para ir lendo de vez em quando, porque já o conheço bem. Só que é tão rico em detalhes, tão dedicado às personagens, à Ciência, a todo o cenário da sua época e até ao pensamento e Filosofia de algumas das sua personagens, que é quase impossível ficar cansado dele (também tem cerca de 750 páginas sem referências).

Poderia talvez adicionar os audiolivros que vou ouvindo no telefone, mas não só não os ouço tanto na cama – prefiro o carro, comboio ou avião, quando em viagem – mas também não me apeteceu extrair as imagens para colocar. Deixo assim os títulos que ando a ouvir ou ouvi mais recentemente: The Martian e Project Hail Mary, ambos de Andy Weir; Gulag – a History, de Anne Applebaum; Molly’s Game, de Molly Bloom; Look Who’s Back, de Timur Vernes (ainda não comecei a ouvir a versão alemã); The Lord of the Rings, de J. R. R. Tolkien.

Em resumo: a minha cabeceira é local onde pairam livros durante semanas e às vezes meses e onde acabam também muitos livros infantis, embora de forma mais temporária. É um sítio onde gosto de ir perder uns minutos, infelizmente poucos porque o sono toma conta dos meus olhos com facilidade. Ainda assim, é uma bela forma de fazer descansar o cérebro e me levar a outros mundos e outros conceitos antes de dormir. E não se pode dizer que seja uma má forma de perder a consciência – e depois adormecer.