Cegonha ou Cervantes? Vamos lá votar


Pedro Correia,

 

O Banco Central Europeu concedeu-nos o direito de escolher quem irá figurar nas próximas notas de euro, que irão substituir as actuais, vigentes desde 2002. A intenção é renovar a imagem da moeda única. Há dois blocos temáticos: personagens emblemáticas da cultura europeia ou aves familiares na paisagem do nosso continente.

Os vultos seleccionados são Maria Callas (5 €), Beethoven (10 €), Marie Curie (20 €), Miguel de Cervantes (50 €), Leonardo da Vinci (100 €) e a austríaca Bertha von Suttner (200 €). Confesso a minha ignorância: desconhecia até agora quem tinha sido esta senhora, galardoada em 1905 com o Prémio Nobel da Paz. Os outros – creio – não necessitam de apresentação.

No outro bloco figuram um pica-pau-de-parede tendo no reverso a imagem do Parlamento Europeu (5 €), um martim-pescador com a Comissão Europeia na face oposta (10 €), um abelharuco com o Banco Central Europeu (20 €), uma cegonha-branca com o Tribunal de Justiça da União Europeia (50 €), uma avoceta na face oposta ao Conselho Europeu (100 €) e uma gaivota-de-patas-pretas com o Tribunal de Contas Europeu (200 €) na outra face.

Logo na primeira semana foram recolhidos seis milhões de votos. Louvável exercício de denocracia que aproveito para saudar. Apelando aos nossos leitores para fazerem como eu: pronunciem-se sobre o que vos parecer melhor. Confesso desde já: entre Cervantes e a cegonha, escolhi a simpática ave, cada vez mais presente nos céus de Portugal. Admito que talvez a minha opção fosse diferente se lá figurassem Camões ou Pessoa.

É possível votar aqui. Apressem-se, pois a participação termina a 21 de Setembro: as novas notas começarão a ser impressas antes do fim do ano. Se vos apetecer, partilhem connosco quais foram as vossas opções.

Leituras


Pedro Correia,

«Até à chegada de Cavaco ao poder, em 1985, e ao fim de poucos anos de democracia, o país conhecera já nove governos constitucionais e seis governos provisórios. É fácil fazer as contas: em treze anos de existência, a Terceira República tivera quinze executivos, à média de mais de um por ano.

Se a isso juntarmos a situação económica, com duas intervenções traumáticas do Fundo Monetário Internacional, uma em 1977 e outra em 1983, bem como, naturalmente, a situação social, perceberemos, com facilidade, que os portugueses ansiavam por “paz política” ou, se preferirmos, estavam muito predispostos a acolher aquela que sempre foi a grande mensagem que Aníbal Cavaco Silva lhes trouxe: a estabilidade política como condição de crescimento económico; o crescimento económico como condição de uma maior justiça social.»

António Araújo, Aníbal Cavaco Silva, pp. 75-76

Sábado, 2026

Telegrama pós-jogo (1)


Pedro Correia,

Suárez não é fixe: nunca devia ter jogado após acto de indisciplina em que abandonou treino. Com Nel no banco – o miúdo fez excelente pré-época, mas parece não contar. O colombiano entrou, recebendo beijinho do treinador, e só fez asneira. Falta liderança em campo, Gonçalo nunca poderá ser capitão. Falta sobretudo liderança de Borges: com o Sporting a dominar e a vencer 2-0 faz substituições desastrosas. Quando tira Flávio, autor de excelente pré-assistência no primeiro golo e um dos melhores em campo, para meter um segundo médio defensivo, deu sinal errado aos jogadores: estava contente com aquilo, a equipa recuava para “defender resultado”, concedia iniciativa ao Estrela. Corredor central fechado, mas laterais abertas. Todo o plano inicial se desmoronou nessa falta de ambição. Maior investimento de sempre no Sporting redunda nisto: dois pontos perdidos à jornada inaugural, em relvado impróprio para a prática do futebol na Reboleira. Fica patente que nos falta um guarda-redes de categoria. E parece faltar um treinador com talento à altura dos milhões investidos na equipa. Se ele volta a dar um beijinho ao colombiano das tatuagens, eu próprio aceno lenço branco.

Conclusão: isto só lá vai com dois ou três Zalazares.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

Nos mesmos jornais e nas mesmas televisões onde abundam diatribes contra a «extrema-direita populista», aparecem palradores e bitaiteiros a evacuar lamúrias perante a putativa «putrefacção do regime», a gemer porque «as instituições agonizam» e a jurar entre soluços que «a democracia está em coma».

São os idiotas úteis do Chega. Com frases como aquelas, vão levando a água ao moinho de André Ventura. Embora se afirmem de sinal contrário.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Blogue da semana


Pedro Correia,

Sensibilidade estética. Requinte literário. Um olhar original sobre o mundo e a vida. Persistência, por amor à escrita. Entre confidências como esta: «Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política.»

Ali lemos frases dignas de aplauso. Eis uma: «Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a mudez perante o indizível.»

Sofia Loureiro dos Santos – agora em nova morada digital – no lugar de sempre. A Defender o Quadrado.

É o nosso blogue da semana.

Leituras


Pedro Correia,

«Apesar de ter sido uma figura destacada na resistência ao fascismo e de por este ter sido perseguida (oito obras proibidas pela censura e uma condenação em Tribunal Plenário), o facto de se ter mostrado opositora ao gonçalvismo fez dela uma “burguesa decadente” e uma “cadela de guarda do capitalismo”, como muitos lhe chamavam nas rodas de café. Os comunistas, enfurecidos, ergueram uma cortina de ferro em torno dela, acusando-a de desmoralizar a classe operária.»

João Pedro George, Natália Correia, p. 79

Sábado, 2026

Cantar Camões (57)


Pedro Correia,

Com Que Voz, Maria Mendes

(Álbum: Saudade, Colour of Love, 2023)

 

Com que voz chorarei meu triste fadoQue em tão dura paixão me sepultou.Que mor não seja a dor que me deixou o tempo,Que me deixou o tempo de meu bem desenganado,De meu bem desenganado.

Memória da efémera “muralha de aço”


Pedro Correia,

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Tomada de posse do V Governo Provisório (8 de Agosto de 1975)

Houve vários governos muito efémeros em Portugal. Mas nenhum no último século teve vida tão curta como o governo mais à esquerda que até hoje vigorou entre nós: durou 42 dias — entre 8 de Agosto e 19 de Setembro de 1975 — e só mereceu o apoio do PCP, que havia recolhido apenas 12,5% dos votos na eleição para a Assembleia Constituinte, realizada três meses antes. PS, PPD e CDS, cujos deputados somavam quase 75% dos lugares no hemiciclo de Sao Bento, não estavam representados nem se reconheciam neste Executivo liderado pelo general Vasco Gonçalves, compagnon de route dos comunistas.

Foi o tristemente célebre V Governo Provisório. Tão distante da vontade popular que começou a dissolver-se mal foi empossado. Tão extremista e tão sectário nas suas proclamações doutrinárias que cavou logo à nascença um abismo face à esmagadora maioria dos portugueses.

 

«Unificação progressiva da vanguarda política da revolução e do seu suporte social; estruturação progressiva dos órgãos unitários de base em ligação com o M.F.A. [Movimento das Forças Armadas]; desenvolvimento da consciência social do processo em curso, pela revolução cultural e utilização correcta e responsável dos meios de comunicação social; superação da crise resultante do desmantelamento do poder monopolista do grande capital; criação de condições para uma economia planificada, controlada pelos trabalhadores e orientada eficazmente para a transição para o socialismo; descentralização administrativa em articulação com a orgânica do planeamento; adopção de acções consequentes na política externa, em obediência ao princípio da independência nacional e promovendo esquemas de cooperação que contribuam efectivamente para a construção do socialismo em Portugal.»

Eis algumas frases-chave do programa do V Governo Provisório. Que pretendia intensificar o “processo revolucionário rumo ao socialismo”, procurando “acelerar a intensificação de relações com os países socialistas do Leste” [pertencentes ao bloco soviético].

 

Em matéria económica, previa-se a “socialização dos meios de produção”, o “controlo organizado da produção pelos trabalhadores” e a “ultimação da fase de nacionalização sistemática”. Além (pasme-se!) da “completa reestruturação de todo o sistema de relações sociais”. Como se Lisboa, nesse Verão quente de 1975, fosse uma réplica da efervescente Petrogrado de 1917.

Era um Governo tão sui generis que incluía até uma inédita Secretaria de Estado da Cooperação Económica com os Países Socialistas. O que diz tudo sobre o seu pendor ideológico.

 

«Melhorar é mudar, ser perfeito é mudar regularmente.» Palavras de Winston Churchill, o mais reputado conservador de sempre. Palavras que bem podiam aplicar-se aos que pugnaram em 1975 pelo “desmantelamento do poder monopolista do grande capital” e hoje, mais comedidos, apenas querem “reestruturar a dívida pública para libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento”.

Insuportáveis reformistas, diriam de si próprios naquele tempo em que se imaginavam a “ultimar a fase de nacionalização sistemática” integrando a “muralha de aço” do “companheiro Vasco”.

Para que Portugal fosse mais uma estrela de cinco pontas a brilhar no incomparável firmamento socialista.

Sessenta anos depois


Pedro Correia,

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Este país esquece com chocante persistência os seus valores. Começa por esquecê-los ainda em vida, condenando-os ao ostracismo, e acentua essa tendência depois do seu desaparecimento físico, enclausurando-lhes a memória sob sucessivas pedras tumulares. Como se nunca tivessem existido.

Isto sucede vezes de mais no domínio da expressão musical. Grandes compositores, grandes orquestradores, grande musicólogos que tiveram o condão de tornar este povo menos duro de ouvido acabam por morrer duas vezes. A primeira, paradoxalmente, quando ainda se encontram entre nós mas já foram cobertos pelo manto do silêncio, acentuado pela ignorância dos responsáveis “culturais” e pela amnésia mediática.

Tenho pensado nisto sempre que parte alguém que nos deixou um legado de belas partituras. Recebem uns parágrafos de gélido obituário nos jornais e eclipsam-se da memória colectiva, sem que ninguém pareça interessado em colmatar essa injustiça. Gente como Alain Oulman, Carlos Nóbrega e Sousa, Manuel Paião, José Calvário, José Niza, Pedro Osório, Fernando Correia Martins, Arlindo de Carvalho – ainda há pouco Nuno Rodrigues e José Luís Tinoco. Todos foram capazes de nos dar muito boa música. Nenhum deles merece ser perpetuado no silêncio.

 

Tendo nós um canal público de televisão, compete-lhe funcionar como memória viva da nossa comunidade musical. E houve um período em que isso aconteceu. No final dos anos 70, num programinha de humor e música intitulado A Feira, a RTP ainda a preto e branco convidou antigos compositores e conversou com eles, apresentando-os pela primeira vez à minha geração.

Maestros como Frederico Valério e Carlos Dias, só para mencionar dois dos que passaram nessas emissões (que devem ter sido apagadas dos registos da TV estatal, pois nunca as vi incluídas na RTP Memória).

Uma fórmula ampliada e melhorada em 1981, já a cores, com E o Resto São Cantigas, pela mão dos três mosqueteiros Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz (também responsáveis por Zip Zip e A Visita da Cornélia, outros mega-sucessos da RTP). Aí escutei pela primeira vez o Zé Cacilheiro, interpretado ao vivo pelo seu primeiro e melhor intérprete, o actor José Viana.

Este fado-canção entrou-me logo no ouvido. E desde então tem-me acompanhado por diversas paragens e nas mais diversas situações. Já o cantei no duche, no carro, na praia. Já o cantei em restritos grupos de amigos: «Quando eu era rapazote / Levei comigo no bote / Certa varina atrevida. / Manobrei e gostei dela / E lá me atraquei a ela / P’ró resto da minha vida.»

Não terá sucedido só comigo. Foi um sucesso instantâneo – do disco, da rádio, do transístor, da cassete. Nasceu em 1966 no palco do Teatro Variedades como número musical de uma rábula da revista Zero, Zero, Zé – Ordem P’ra Pagar, protagonizada por José Viana e Carlos Coelho a propósito da inauguração da ponte sobre o Tejo, ocorrida nesse Verão, faz hoje 60 anos.

«Enquanto houver um passageiro a ir no bote, a exploração continua», dizia o sarcástico e talentoso Viana, em aberta alusão a um dos slogans do salazarismo naquele ano em que se cumpria o 40.º aniversário da chamada Revolução Nacional. As plateias, habituadas a decifrar entrelinhas, estoiravam à gargalhada.

 

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Espaço de liberdade condicionada entre as malhas da censura, a revista à portuguesa vivia então um dos seus períodos áureos. Alguns dos maiores sucessos de sempre da música portuguesa nasceram precisamente ali no Parque Mayer, onde nenhum actor se negava a cantar.

O Variedades era um palco mítico, onde nas quatro décadas anteriores haviam desfilado Vasco Santana, Beatriz Costa, Teresa Gomes, Mirita Casimiro, Irene Isidro, Raul de Carvalho, Laura Alves, Manuel Santos Carvalho, Costinha, Maria Lalande, Eugénio Salvador, Hermínia Silva, Humberto Madeira, Amália Rodrigues, Eunice Muñoz e Raul Solnado.

Zero, Zero, Zé – Ordem P’ra Pagar foi o último grande sucesso daquelas tábuas: ainda nesse ano, o teatro era destruído por um incêndio quando ali se exibia a peça Descalços no Parque, de Neil Simon.

 

Zé Cacilheiro deveu-se à  inspiração de Carlos Dias associada a dois letristas de muito mérito e também hoje injustamente esquecidos: Paulo da Fonseca (1913-73) e César de Oliveira (1928-88). As melhores cantigas das revistas surgiam destas colaborações impostas pela urgência da encomenda.

Mérito acentuado pelo talento de José Viana, para sempre associado ao tema, que viria a ser registado também como Fado do Cacilheiro na Sociedade Portuguesa de Autores. O vinil de 45 rotações editado ainda em 1966 foi durante anos um dos campeões dos programas de “discos pedidos” que garantiam grandes audiências radiofónicas.

«Desta vez canto um fado. Não como cantaria um fadista mas como suponho que o faria um cacilheiro de meia-idade que, quando era mais novo, cantava nas revistas da sociedade de recreio lá do seu sítio.» Palavras do próprio actor, impressas nesse disco que tanto sucesso fez. E que para sempre ficaria ligado ao imaginário de Lisboa.

Outros gravaram também o tema – entre eles, Fernando Farinha, António Mourão e Nuno da Câmara Pereira. Mas ninguém conseguiu igualar José Viana.

 

Carlos Dias não só compôs: também o acompanhou com a sua orquestra na versão discográfica. E foi ele igualmente o criador de dois outros enormes êxitos da canção portuguesa nascida nos palcos da revista: Lisboa à Noite, celebrizada por Milu, e Cheira a Lisboa, desde sempre associada a Anita Guerreiro.

Estranhamente, este maestro que tanto amou Lisboa não consta da toponímia alfacinha. É tempo de a capital portuguesa lhe prestar a merecida homenagem, descerrando-lhe uma placa de rua.

E é tempo de a RTP organizar uma nova série do programa E o Resto São Cantigas, consagrada aos compositores e orquestradores que ainda se encontram entre nós e merecem que o canal público lhes preste tributo. Deixo alguns nomes, em jeito de sugestão: Manuel Freire, Nuno Nazareth Fernandes, José Cid, António Avelar Pinho, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Tozé Brito, Sérgio Godinho. Sem sectarismos, sem capelinhas pacóvias, sem visões estreitas. Com sopro artístico e rasgo musical.

 

«Sou marinheiro / Deste velho cacilheiro / Dedicado companheiro/ Pequeno berço do povo / E navegando / A idade foi chegando / O cabelo branqueando / Mas o Tejo é sempre novo.»

Texto reeditado, com ligeiras alterações, no dia em que se assinala o 60.º aniversário da ponte sobre o Tejo, em Lisboa

Fossa Trump seria justa homenagem


Pedro Correia,
Presidente dos EUA cada vez mais viciado em si próprio

Donald Trump actua como toxicómano, viciado em drogas duras. Mas com uma originalidade: é viciado em si próprio. Isto ficou patente logo no discurso de posse, a 20 de Janeiro de 2025 – o discurso do “ai… ai… ai… ai…” Quando proferiu trinta e quatro vezes a palavra eu – aberração que constitui todo um programa, como na altura aqui escrevi.

Insaciável no consumo de si próprio, sem metadona que lhe valha, o bilionário de Mar-a-Lago fez rebaptizar com o seu nome o prestigiado Centro Kennedy, em Washington – medida digna de Rei-Sol felizmente revogada pela justiça federal meses depois. Mas a principal auto-estrada de Marrocos, com mais de mil quilómetros de extensão, irá chamar-se Donald Trump, tal como já acontece com o aeroporto internacional de Palm Beach, no sul da Florida. E tem feito máxima pressão para que a nova nota de 250 dólares (até agora inexistente nos EUA) seja ilustrada com as ventas dele.

A legião de lambe-botas que o rodeia vem fazendo novas sugestões para imortalizar o Supremo Líder das formas mais estrambólicas. Eis um exemplo: incluir aquela cabeça de abóbora junto a Lincoln, Washington, Jefferson e Teddy Roosevelt no emblemático Monte Rushmore. Outro: designar 14 de Junho, data de aniversário do sucessor de Joe Biden, como feriado federal. Coladinho ao Santo António, feriado municipal em Lisboa.

Ainda me parece pouco: há que ser mais arrojado e criativo. Proponho desde já que o Triângulo das Bermudas passe a denominar-se Triângulo Trump. E que a Fossa das Marianas – o ponto mais fundo do planeta, no Oceano Pacífico – fique a partir de agora conhecida por Fossa Trump.

Seria homenagem bem merecida.

Lanço a ideia para debate, aguardo opiniões e contributos.