
O epílogo ficou aqui. O resto é o que lá está.
O virtualreal abriu uma nova página e chegou ontem ao ar.
Para o que der e vier e enquanto houver leitores.

O epílogo ficou aqui. O resto é o que lá está.
O virtualreal abriu uma nova página e chegou ontem ao ar.
Para o que der e vier e enquanto houver leitores.

Terminou há pouco mais de uma semana a 15.ª Edição do Festival Literário de Macau, mais conhecido como Rota das Letras, ou Script Road na sua versão em língua inglesa. Gostaria de ter escrito mais cedo umas linhas sobre o que acompanhei, mas obrigações mais prementes impediram-me de fazê-lo antes.
Depois de despejado do edifício do antigo Tribunal de Comarca e de uma passagem efémera pelo velho Matadouro da Barra, o Festival instalou-se de armas e bagagens na Casa Garden, ali mesmo ao lado do Jardim Luís de Camões, que acolhe o busto do poeta, protegido pela sua gruta e toda a fauna e flora que disputam a pacatez do local. E em boa-hora o fez.
Embora o espaço disponibilizado pela delegada da Fundação Oriente em Macau se situe numa zona muito movimentada, de acesso nem sempre fácil e sem estacionamento automóvel, transmite a quem franqueia o portão, e assim que se abeira do jardim e do seu pequeno lago, uma sensação de serenidade e pacatez, protegidas pela dignidade, equilíbrio das linhas e simplicidade da construção.
Com dois espaços distintos e polivalentes para conferências e exposições, um auditório, um pequeno bar de apoio, salas acolhedoras, luminosas e bem decoradas, com uma livraria de ocasião, onde era possível adquirir exemplares de livros dos autores presentes, foi possível ali acomodar um conjunto de eventos, incluindo exposições de fotografia e sessões de cinema, com facilidade de movimentação e espaço suficiente para as pessoas conversarem e circularem sem terem de andar aos encontrões. Espero, por tudo isso, que nos próximos anos seja possível continuar a contar com o apoio de Catarina Cottinelli e uma morada certa para a Rota das Letras.
Bem sei que uma edição como a deste ano que se prolongou, em rigor, por duas semanas, e não se cingiu à Casa Garden, deambulando em passeios guiados pelos bairros antigos com Jason Wordie e pela cidade de Pessanha, que passou pelo terraço do Hotel Central, num final de tarde, pelas fotos que vi e do que me relataram, esplendoroso, na companhia do historiador Paul French e da jornalista Anne Marie Evans, e ainda pelo Centro Cultural de Macau e a Doca dos Pescadores, onde se assinalaram, noite fora, os 40 anos da Rádio Universidade de Coimbra, não é de fácil organização. E não fosse a ausência de Rodrigo Leão, a ser colmatada num futuro próximo, devido à desestabilização provocada por Trump e Netanyahu e as suas incursões no Irão, poder-se-ia dizer que a edição este ano, para os meios disponíveis, a dimensão da cidade e o público com que se pode contar, não desmereceu edições anteriores. Bem pelo contrrário, celebrou condignamente os seus 15 anos. Alguns eventos com salas cheias comprovam-no e constituem justo estímulo para a organização.
Quem ainda não o tinha podido fazer pôde visionar Ballad of a Small Player, A Herdade e Restos do Vento, estes dois filmes de Tiago Guedes, e o documentário Salatinas, de Filipa Queiroz, Rafael Vieira e Tiago Cerveira. E foi possível ouvir e declamar poesia, ver as fotografias de Alfredo Cunha e Liu Zheng, a banda desenhada de Guy Delisle, aprender algumas receitas da gastronomia local ou adquirir um guia de iniciação para candidatos a coleccionadores de arte.
É verdade que há alguns nomes e caras que se repetem, mas isso é fruto das contingências locais, não tanto de um programa de protecção de minorias; antes de apadrinhamento de espécies em vias de extinção.
Dos que estiveram, e não possuindo o signatário propriedades ubíquas, salientaria, pela diferença e novidade num meio cada vez mais fechado e pouco dado a experimentalismos, os nomes de Adam Sisman, o biógrafo de John Le Carré, que nos trouxe o seu último livro, bem como Amitav Ghosh e Hernán Diaz, este último vencedor do Pullitzer e autor do incontornável Trust, Confiança na edição em língua portuguesa. Thomas Bird deu-nos a conhecer Harmony Express, China by Train, e Mark O’Neill o legado continental e celta em Hong Kong. A professora Ana Paula Barros apresentou o seu livro de crónicas, e não faltaram as homenagens a José Maneiras e Rodrigo Leal de Carvalho, figuras que marcaram a vida da cidade durante décadas, recentemente desaparecidos.
Nota alta para a participação dos jornalistas, aqui autores, Miguel Carvalho (“Por dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal”) e João Miguel Tavares (“José Sócrates – Ascensão, 1957-2005”) falando de democracia e política pura e dura num ambiente de elevado aprumo patriótico, contenção e auto-controlo, não deixando de ser curiosa a apresentação de um livro da jornalista Andreia Sofia da Silva com o título “O Lápis Vermelho, A censura à imprensa em Macau durante o Estado Novo”, enquanto não se escreve a história da censura, dos censores e dos seus escribas no segundo sistema.
Esta breve crónica não ficaria completa sem uma referência à apresentação da peça “À primeira vista, O outro lado do tribunal” (Prima facie, the Other side of the Courtroom”), um monólogo de Suzie Miller, pleno de actualidade, excelentemente encenado por Tiago Guedes e com uma magistral interpretação de Margarida Vila-Nova. A dificuldade do texto, a sua extensão e o exigente trabalho de memorização só contribuíram para realçar ainda mais o brilhantismo da interpretação.
Só com textos exigentes é possível reconhecer uma grande actriz. Margarida Vila-Nova, que cresceu muito na última década, mostrou que o é, teve uma performance de mão cheia, encheu o palco, dando ainda mais luz à sala de audiências, e fechou com chave de ouro a edição de 2026 do Festival Rota das Letras. Venha o próximo.

(créditos: Presidência da República)
O apoio leal, franco e consistente faltou-lhe num momento em que poderia ter sido decisivo para o país e a sua governação. Liderou circunstancialmente um partido tribalizado, capturado por um aparelho de chicos-espertos, que lhe dificultou a vida, inviabilizou-lhe os projectos, radicalizou o país, e acabaria por apeá-lo sem honra nem glória.
Não foi que por isso que se desinteressaria da participação cívica e da intervenção política. Não foi por isso que mudou. Mérito seu.
Como muitos outros, afastou-se ou foi convidado a afastar-se da política activa. Prosseguiu a sua vida de cidadão, atento e empenhado. Dedicou-se ao estudo, ao trabalho, à comunidade, até reencontrar o seu caminho.
Voltou ontem como Presidente da República, depois de receber o apoio, expresso livremente nas urnas, de mais de 2/3 dos portugueses. Ontem, as suas palavras receberam o aplauso de quase todos os partidos parlamentares.
Ouviu-se o hino, o discurso, formularam-se votos e trocaram-se abraços. Dos mais sinceros e leais aos mais interesseiros e conjunturais. Na hora da festa ninguém quer ficar de fora. E ele, consensual e institucional, não iria desiludi-los. Para bem da nação.
Ciente da sua circunstância, do estado em caiu Portugal e da urgência da empreitada, mostrou predisposição para calcorrear o caminho, arregaçar as mangas, levar as mãos à obra. Jurou a Constituição, prometeu cumpri-la, irá cumpri-la. Pela primeira vez o líder que nunca conseguiu sê-lo assumiu-se como tal. E mostrou-se presente para como tal poder vir a ser reconhecido.
Se por um lado se mostrou circunspecto, humilde e agradecido, sem deixar de ser natural, simples e afectuoso para com todos, afirmação reveladora de carácter, equilíbrio e sensatez, bens que ultimamente escasseiam na vida pública, nem por isso deixou, ao mesmo tempo, de nos mostrar e sublinhar na sua carta o rumo traçado, aquele que partilhou com a sua guarnição e estará reservado à nossa nau nos próximos anos.
As suas preocupações são hoje, genericamente, as de todos os portugueses. Umas mais prementes do que outras.
De um homem livre, como se afirmou, todos esperam que assim continue. Não depende de terceiros para desempenhar a função, embora não possa prescindir desses para obter os resultados que todos desejam.
A legitimidade que lhe foi conferida, aliada à sua independência e exigência, dão-lhe a protecção necessária e o estímulo para não esmorecer, investindo-o da autoridade ética, moral e política necessárias para afastar de Belém – pelo menos daí – as más influências. Deixar corsários e garimpeiros ao largo, sentando-os num banco de jardim com vista para o Tejo, ainda que dando-lhes a oportunidade de gozarem a luz e o sol de Lisboa, será a única forma de se proteger, dar sentido, eficácia e brilho ao seu trabalho.
Os portugueses, que como tão bem sabe os há em todos os quadrantes, generosos, solidários e leais por natureza, qualquer que seja a profundidade dos seus bolsos, não lhe regatearão apoio, e saberão ajudá-lo a trilhar o caminho da esperança que anunciou.
E esperam que o homem por debaixo da pele continue autêntico e genuíno, sem ser excessivo, discreto e equilibrado estando sempre presente.
Boa sorte, senhor Presidente da República. Da República.
(créditos: Público/Reuters/Tyrone Siu)
Artigo 67.°-A
Autorização especial concedida ao mandatário judicial para intervenção em acto processual
Aprovada por unanimidade. O deputado Pereira Coutinho também votou a favor, mas consta que perdeu a língua desde que foi admitido como candidato pela Comissão de Defesa e Segurança do Estado e reeleito nas eleições de 2025 para a Assembleia Legislativa.
Reacções:
Chan Tsz King, Secretário para a Segurança: “Todos percebem que esta proposta de lei só trará vantagens para a população em geral”; “Os que não cumprem a lei não querem que a proposta seja aprovada”; “Nós só queremos estabilidade“; “Quando uma cidade não é estável, é impossível haver tranquilidade”; “Em relação às alterações à Lei de enquadramento orçamental e à Lei de Bases da Organização Judiciária, já auscultámos as opiniões técnicas dos serviços financeiros, dos órgãos judiciais e do sector da advocacia da RAEM, e foi possível alcançar um consenso”; “Um país e dois sistemas sem segurança nacional é como uma árvore sem raiz. Se um país não for firme, a base dos dois sistemas vai cair“
Iao Teng Pio, advogado e deputado nomeado: “É uma medida indispensável para a defesa da segurança do Estado“
Associação dos Advogados de Macau: “presidida pelo ex-deputado Vong Hin Fai, considera razoáveis e necessários os requerimentos exigidos pela proposta de lei que irá regular a Comissão de Defesa da Segurança do Estado. Num artigo de opinião assinado pela associação, publicado ontem no jornal Ou Mun, é defendido o veto à participação de advogados em qualquer processo considerado de alguma forma relacionado com a segurança nacional“; “Macau tem de “implementar as decisões e instruções do Governo Central no âmbito da segurança nacional” e que esta proposta de lei ao reforçar os poderes da comissão vai manter “a coerência com as normas da lei da segurança nacional de Hong Kong” e “articular-se com a Lei Eleitoral para o Chefe do Executivo e a Lei Eleitoral para a Assembleia Legislativa”.” (nenhum advogado foi consultado)
Luís Almeida Pinto, advogado: “Comporta em si aspectos perturbadores do funcionamento constitucional de vários poderes, e também em algumas matérias de direitos, liberdades e garantias consagrados na Constituição de Macau: a Lei Básica“; “uma violação da Lei Básica“, com força constitucional em Macau“
Pedro Leal, advogado: “a exercer advocacia no território há várias décadas, aponta “nitidamente, uma colisão” entre o proposto e “o decreto que regula a Associação dos Advogados e o próprio Estatuto” do Advogado, no que diz respeito à livre escolha de um defensor.“
Miguel de Senna Fernandes: “são necessárias mais explicações para que seja possível entender o alcance da futura lei que vai regular a Comissão de Defesa da Segurança do Estado“
António Katchi, jurista e professor universitário: “o Governo estava legalmente obrigado a ouvir” a AMM, por força do Estatuto do Advogado“; “A nota justificativa não faz menção dessa consulta. Não sei se essa formalidade foi ou não cumprida e, em caso afirmativo, qual teria sido o conteúdo do parecer da associação”; “inadmissibilidade de sujeitar uma decisão judicial a um parecer vinculativo de um órgão administrativo, nomeadamente da CDSE“; “toda a pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualdade, (…) a apresentar-se em julgamento e a defender-se pessoalmente ou ser assistida por um defensor da sua escolha”.
(créditos: José Fonseca Fernandes/Expresso)
1. Quando ainda há poucas horas António José Seguro (AJS), o vencedor das eleições presidenciais de 2026 e próximo Presidente da República, fazia o seu discurso de vitória aos portugueses, afirmando que não será por ele que a legislatura será interrompida, muitos terão suspirado de alívio. A começar por Luís Montenegro. Porém, nem tudo nesta vida é linear, e facilmente apreensível pela generalidade dos cidadãos, pelo que convém colocar a frase do presidente eleito no seu devido lugar. Vamos por partes.
2. Qualquer que seja o prisma de análise, e por muito grande que seja a má vontade do analista, AJS conseguiu um resultado extraordinário. Extraordinário pelas circunstâncias em que o obteve, mas igualmente pelos números.
3. Começando pelos números, quando ainda faltam apurar os resultados de 20 freguesias, pertencentes a oito municípios, num total de 36.852 inscritos, num universo de 3259 freguesias, sendo por isso mesmo previsível que o vencedor venha ainda aumentar o número de votos obtidos, verifica-se que AJS conseguiu 3.482.481 sufrágios, que correspondem a 66,82% do total de votos válidos. Mais do que Mário Soares, Sampaio, Eanes, Marcelo ou Cavaco. O segundo em percentagem, logo a seguir aos históricos 70,35% de Soares em 1991. Para quem ainda há um ano era acusado de ser um candidato que nem sequer cumpria os requisitos mínimos, olhado de soslaio pela indigente burguesia política dos socialistas, ainda mais notável se torna.
4. Repare-se que AJS na 1.ª volta destas eleições presidenciais só conseguiu 1.755.764 votos. Se somarmos os votos conseguidos pelos outros candidatos de esquerda há três semanas, estes só somavam 258.829 votos (Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto e André Pestana). Se somarmos estes votos aos anteriores, o resultado dá 2.014.593. Fora deste universo considerado de esquerda, AJS foi buscar mais 1.467.888 votos. E onde foi ele buscá-los? À direita, obviamente, posto que Cotrim de Figueiredo (903.201 votos), Gouveia e Melo (695.244 votos) e Marques Mendes (637.535 votos) juntos chegavam aos 2.235.970 votos. Ou seja, há quase um milhão e meio de eleitores que votaram à direita na 1.ª volta que se sentiram mais confortáveis em votar em AJS na 2.ª volta do que em AV. E isto, como veremos, tem consequências políticas profundas.
5. Mas não só. AJS consegue este resultado sem o endosso de Luís Montenegro e no silêncio de Pedro Passos Coelho. Se em relação a Montenegro, que optou pelas habituais meias-tintas, os seus eleitores poderiam ser tentados a ficar em casa, os poucos que ficaram não tiveram qualquer significado. Admitindo, o que seria impensável, que todos os eleitores de Marques Mendes, na 1.ª volta, votaram em AJS, isso significa que este ainda foi buscar mais de 830 mil votos a Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo. Para Luís Montenegro e o seu clã é mais uma pesadíssima derrota. O eleitorado do PSD mostrou ao primeiro-ministro a sua falta de visão política, o seu desfasamento em relação ao eleitorado potencial do partido e o quanto errado está. Será difícil encontrar na história do país um líder mais míope e com piores conselheiros.
6. Por outro lado, se Passos Coelho nada disse para não o confundirem com AJS, e o acusarem no futuro de ter alinhado ao lado do socialista, e também não aconselhou o voto em Ventura para não dar um sinal errado aos seus apoiantes, escudando-se no silêncio, também não me parece que essa posição, muito menos este resultado, admitindo que admite um regresso à política activa, possam convidar agora a um eventual regresso. Se foi essa a sua aposta errou o alvo e, lamentando desiludir os seus admiradores, não pode vir a obter dividendos futuros. Qualquer regresso será agora mais difícil, periclitante e dependente de terceiros. A começar pelo próprio AV que numa eventualidade dessas não deixará de lhe recriminar o silêncio num momento crucial para o seu eleitorado.
7. E se AV, o derrotado, saiu logo à rua para se reclamar o “líder da direita”, agitando os seus 33,18%, será bom notar que a percentagem é enganadora e o fulano só fala nela, oportunista e chico-esperto como é, porque agora lhe dá jeito. E a desfaçatez é tão extraordinária que o número de votos que obteve ainda é inferior ao conseguido pela AD e Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. Em Maio de 2025, Montenegro conseguiu 1.975.558 votos (sem contarmos com mais 36.879 votos que recolheu em locais onde os partidos da AD se coligaram ao PPM). Então Ventura quer liderar a direita com menos 250 mil votos do que aqueles que Montenegro arrecadou há menos de um ano? Só se for uma direita e extrema-direita “poucochinha”. Uma direita que só venceu em Elvas e em São Vicente, e que em Lisboa e Porto, onde AJS ultrapassou os 70%, foi passada a ferro por um rolo compressor. Que direita é essa que AV quer liderar? A dos tristes, ressabiados, rufias, aldrabões e ignorantes?
8. E de nada serve a AV vir falar na sua percentagem, porque qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe que não é o mesmo obter 33,18% num universo de apenas dois candidatos ou de mais de uma dezena de outros concorrentes. Em especial se a taxa de abstenção, como foi o caso, for de 49%, e os votos nulos e brancos e abstenção não tiverem atingido os números que muitas aves de mau agoiro agitavam. Não houve nenhum abstenção histórica – a abstenção em eleições presidenciais nos anos de 2001, 2011, 2016 e 2021 foi, respectivamente, de 50%, 53,5%, 53,1 % e 60,8% – e os portugueses que foram às urnas não se revendo em nenhum dos candidatos foram uma ínfima parte – nem por isso desprezível e a exigir atenção –, cerca de 271 mil, ou seja, pouco mais do que a soma dos votos na 1.ª volta de Catarina Martins (116.413), António Filipe (92.634), Manuel João Vieira (60.266), Jorge Pinto (38.568) e André Pestana (10.896). Em relação à 1.ª volta AV só recolheu mais 400 mil votos. Isto não é nada. É menos do que os votos de Marques Mendes sozinho que ficou em 5.º lugar na 1.ª volta e ainda assim teve mais de 600 mil votos.
9. Mas a derrota maior de AV, que nem sequer conseguiu vencer na sua terra natal, bem ao contrário de AJS, foi a sua tentativa de, depois de ter dito que não via razão para se adiarem as eleições, tentar, de novo, tirar partido de uma tragédia e vir passar um atestado de “coitadinhos” aos eleitores das zonas afectadas pelas intempéries. A resposta dada nas urnas foi esmagadora, um murro no estômago de AV: não só AJS venceu em todos os concelhos afectados pelas calamidades, como a taxa de abstenção nos concelhos nesta situação foi idêntica à média nacional, inferior a 50%, havendo concelhos como Vila de Rei, Sardoal, Mação, Constância e Penamacor em que foi inferior a 35%.
10. Aqui chegados, percebe-se bem o que aí vem e volto ao princípio deste texto. Não é AJS quem vai interromper a legislatura, até porque neste momento, e depois do que prometeu, seria um suicídio político e iria romper com o contrato que estabeleceu com os portugueses. Quem vai querer interromper a legislatura e rapidamente é AV e o Chega. Porque apesar do sofrível resultado conseguido está convencido de que ainda pode “liderar a direita”. Não pode.
11. AV e o Chega atingiram o limite superior do seu potencial crescimento. Daqui para a frente, se AJS e os demais partidos políticos forem inteligentes, e Montenegro não fizer mais asneiras, começando a governar para os portugueses e não para o seu umbigo, será sempre a cair. Este cenário não convém a AV nem ao Chega, que vão continuar a apostar no caos. Porque só no caos, sem ideias, sem programa e apenas com chavões, insultos, papões e slogans, é que sabem que podem medrar. Farão tudo para que o Governo caia, votarão contra qualquer orçamento que não acolha as suas medidas populistas e alimente o seu eleitorado. E será sempre pouco.
12. Se Montenegro ceder às exigências do Chega poderá, com mais ou menos tombo, aguentar-se no poder, mas acabará com o que resta do PSD a tentar manter-se à tona, engolindo pirolito a seguir a pirolito. Se, entretanto, Poiares Maduro, Miguel Morgado, e outros como estes, não resolverem juntar os cacos que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro têm vindo a espalhar com os jarrões, uns de barro, outros de porcelana, que têm escaqueirado no recreio, reconstruirem o partido, ou criarem um novo, quem sabe se com Cotrim de Figueiredo, esvaziando o IL e acabando com a choldra que serve AV na perfeição.
13. Com AJS em Belém, imune ao clientelismo e ao compadrio – longe de socratistas, nunistas, sanguessugas e afins, incluindo uns quantos daqui da minha rua que estão sempre prontos a pendurarem-se nos vencedores –, um PSD renovado de alto a baixo por gente séria e bem formada, e um PS reformado – se é que tal coisa será alguma vez possível num Largo do Rato e numa bancada parlamentar atravancada de monos –, as presidenciais de 2026 podem ser o canto do cisne de André Ventura.
14. E o caminho para a recuperação de Portugal. Haja inteligência e capacidade dos actores políticos para compreenderem o que os portugueses querem, darem respostas aos esquecidos e descontentes que se refugiaram nas franjas do sistema e viram no arruaceirismo uma forma de se fazerem ouvir. Está na hora de mandar o sobretudo cor de camelo para a lavandaria.
15. É preciso fazer alguma coisa pelos portugueses, por nós – todos –, e por Portugal. Agora que a Primavera está a chegar, os rios voltam aos leitos, os dias se tornam mais longos, e antes que chegue a noite.
16. Precisamos todos de ter uma vida normal. Decente. De voltarmos a falar uns com os outros. Como gente civilizada, com maneiras. De falar de política e de futebol sem ser aos berros e insultando os parceiros. E de nos reproduzirmos para deixarmos de definhar enquanto nação. Só precisamos de começar a fazer uma boa cama. Dêem-nos condições em vez de palavras.
(créditos daqui)
Retomando um tema que me é querido, volto ao vosso convívio para vos recordar que quando foi assinada, entre Portugal e a República Popular da China, a Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o Futuro de Macau, em 13/04/1987, ali ficou consagrado que à Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) seriam “atribuídos poderes executivo, legislativo e judicial independente“, tendo a China por sua iniciativa, no Anexo 1, prestado esclarecimentos sobre as políticas fundamentais respeitantes a Macau que iria aplicar nos 50 anos que decorreriam entre 1999 e 2049.
Entre estes esclarecimentos figurava a reafirmação da existência do poder executivo, do legislativo e de um poder judicial independente, assim como a subordinação do órgão executivo à lei e o compromisso da prestação de contas perante o órgão legislativo, sabendo-se de antemão que os “tribunais serão independentes no exercício do poder judicial, livres de qualquer interferência e apenas sujeitos à lei“.
Aos poucos, não obstante alguns alertas, sempre vistos como de mau gosto e inapropriados, tudo foi mudando, perante a contínua satisfação dos inquilinos do Palácio de Belém, dos políticos portugueses que ocuparam o poder em sucessivos governos, e dos deputados que se foram sentando em São Bento. De tempos a tempos lá se organizavam umas excursões ao Oriente, trocavam-se lembranças, faziam-se umas juras de fidelidade e amizade eterna e o povo lá seguia “cantando e rindo” como no antigamente.
Paulatinamente, pela RAEM, foram-se mudando as leis, as políticas, as preocupações, os residentes, os turistas, e até instituições muito mais difíceis de mudar, como a Associação dos Advogados de Macau ou a Escola Portuguesa de Macau, trocaram a decoração, uns candeeiros, uns monos, mas para Portugal e os governantes portugueses esteve, e está, sempre tudo bem. Não havia dia em que a Declaração Conjunta ou a Lei Básica não estivessem a ser cumpridas com apreciável sucesso. Augusto Santos Silva, Durão Barroso ou Martins da Cruz não se atreverão a dizer o contrário.
Os anos passaram-se na paz dos deuses, até que em Setembro de 2020 um grupo de deputados nomeados pelo então Chefe do Executivo para a Assembleia Legislativa de Macau, embora tivesse feito questão de sublinhar que não estava contemplado na Lei Básica, na mini-constituição da RAEM, surgiu a defender um princípio que genialmente cunharam na altura como o da “predominância do poder executivo“.
Referiram então que “na concepção da estrutura política, os órgãos executivo, legislativo e judiciais desempenham cada um as suas funções, mas o Chefe do Executivo ocupa indubitavelmente uma posição nuclear na estrutura política, é o dirigente máximo do Governo da RAEM“. Na mouche.
Reflectindo a sua visão “inovadora” do princípio da separação de poderes, esclareciam que embora exista, coisa pouca, uma “divisão de trabalho entre os poderes executivo, legislativo e judicial, (…) isto não pode ser equiparado ao sistema de separação de poderes praticado pelos estados soberanos“, até porque “nas sociedades modernas, na maioria dos países, os órgãos com poder político incluem os órgãos executivo, legislativo e judiciais, o que não equivale a uma estrutura política de separação de poderes“, pelo que em seu entender havia que “eliminar preconceitos“. Ora bem.
Esta eliminação de preconceitos aprofundou-se e continuou a ser alvo da compreensão e de múltiplos elogios, em especial na última década e meia, por parte de algumas pessoas que tendo em comum com os leitores deste blogue, e comigo, a nacionalidade portuguesa e a titularidade de um documento de identificação emitido pela República sempre se distinguiram da generalidade dos seus concidadãos pela coloração da língua e o estado em que a apresentavam, o que era notório de cada vez que abriam a boca. Quem estava ao pé queixava-se do seu mau hálito, mas quem em casa os via na televisão e ouvia o que diziam só se apercebia de que as suas línguas com o tempo deixaram de ser rosadas para apresentarem tons acastanhados, dos mais claros aos mais carregados. Faziam as suas vidas, viajavam muito, banqueteavam-se, recebiam convites e senhas de presença, iam dando umas aulas, enfim, fazendo pela vida sem se aperceberem da mudança de cor da sua língua.
E foi neste ramerrão que chegámos a 2026 e tivemos o privilégio de ver, finalmente, consagrado e aplaudido em toda a sua plenitude o princípio da predominância do poder executivo.
Não estava na Declaração Conjunta, não está na Lei Básica, mas figurará certamente e será acolhido no coração de todos os portugueses, macaenses, amantes da democracia e do Estado de Direito nesta nova era da “democracia científica” que quase duzentos anos volvidos já nos fez esquecer na RAEM o socialismo científico, a revolução cultural, os sucessos e as desventuras do marechal Lin Biao.
E, na verdade, graças aos sucessivos avanços no modo como são por esta banda entendidos os conceitos de democracia e da separação de poderes, cuja concretização em termos inovadores começou a partir de 2017, e se aprofundou durante os anos de liberdade e libertinagem que a pandemia da Covid-19 nos trouxe, e mercê de todos os ensinamentos desde então recolhidos, escutámos com grande júbilo as palavras de Xia Baolong, director do Gabinete de Trabalho de Hong Kong e Macau do Comité Central do Partido Comunista da China e director do Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau junto do Conselho de Estado, proferidas num seminário que decorreu em Pequim, “cujo tema foi o aperfeiçoamento da governação liderada pelo Executivo nas regiões administrativas especiais chinesas“.
Este alto responsável referiu que o princípio da separação de poderes foi utilizado “para enfraquecer a autoridade do Chefe do Executivo e dos governos das regiões administrativas especiais, prejudicando assim a autoridade do Governo Central e até mesmo resistindo e rejeitando o seu poder“, o que, como bem se compreende “é absolutamente inaceitável“. Temos de concordar.
Daí que, segundo Xia Baolong, “o Chefe do Executivo e o Governo das RAE devem implementar a governação liderada pelo Executivo em todos os aspectos da governação e empenhar-se na construção de um governo eficiente e eficaz“, pelo que “a manutenção e a melhoria da governação liderada pelo Executivo exigem o apoio e a cooperação activa dos poderes legislativo e judicial para formar uma forte sinergia de governação“, pois que “embora os poderes dos ramos executivo, legislativo e judicial estejam separados, o seu propósito fundamental é o mesmo: governar as regiões administrativas especiais de forma eficaz sob a liderança do Executivo“, esperando-se que estes poderes se apoiem mutuamente em vez de se sabotarem.
Logo, “tanto o poder legislativo como o poder judicial devem defender o sistema liderado pelo poder executivo e respeitar este princípio“. Os deputados devem “apoiar e cooperar plenamente com o Chefe do executivo e o Governo“, devendo os órgãos legislativos apoiar “integralmente o Chefe do Executivo e o Governo na governação de acordo com a lei“, oferecendo “sugestões mais construtivas” e promovendo “uma governação mais científica, fluída e eficiente“.
Na sequência desta lição, o Chefe do Executivo de Macau, manifestou a sua concordância com a necessidade de cooperação activa dos órgãos legislativo e judicial para se aproveitarem “ao máximo as vantagens institucionais das respectivas funções, responsabilidades e esforços colaborativos para formar uma forte sinergia de governação na RAEM” e se reforçar a consciência de “dono da casa“.
Estas orientações foram, felizmente, imediatamente acatadas e “todos os secretários do Governo da RAEM fizeram questão de divulgar comunicados manifestando apoio às instruções de Pequim“. O Secretário para a Administração e Justiça destacou as alterações na Lei de Bases da Organização Judiciária” e disse que a sua tutela irá “estudar seriamente e agir proactivamente” no sentido de “implementar a predominância do poder executivo“.
Também o presidente da Assembleia Legislativa disse concordar com este princípio e o órgão que dirige concretizará “firmemente” este princípio, no que foi ainda seguido pela Presidente do Tribunal de Última Instância que referiu a necessidade dos órgãos judiciais dominarem “com precisão o significado constitucional da predominância do poder executivo“, devendo o poder judicial “colaborar activamente com a acção governativa“.
E tudo se passa de forma tão espontânea, activa e eficiente que esta manhã a comunidade dos advogados de Macau ficou a saber que o Governo da RAEM apresentou ontem mesmo a proposta de lei da Comissão de Defesa da Segurança do Estado “que altera as bases da organização judiciária para que, em julgamentos relacionados com a segurança nacional na RAEM, os advogados tenham, de ser aprovados por esta comissão, que é presidida pelo Chefe do Executivo“. Acresce que “a proposta de lei ontem apresentada “vai permitir a criação de um secretariado da Comissão de Defesa da Segurança do Estado, “que irá apoiar a comissão para cumprir as suas funções e irá também iniciar uma série de trabalhos relacionados com a defesa da segurança do Estado“, uma vez que “é necessário criar uma nova estrutura que irá dar apoio e que vai coordenar todos os trabalhos no âmbito da segurança do Estado“.
Mas a cereja no topo do bolo, o que muito me apraz registar, é que “o novo diploma sugere que, no futuro, os casos relacionados com a segurança nacional, criminais, civis ou administrativos, devem ser julgados por juízes designados“, que poderão decidir que os julgamentos sejam à porta fechada“.
O matutino Macau Daily Times acrescenta que “os juízes receberão opiniões vinculativas da Comissão de Defesa e Segurança do Estado“, devendo a lei entrar em vigor no dia imediatamente a seguir à respectiva publicação.
Não queria deixar de aqui vos dar conta em primeira mão destes desenvolvimentos, esperados por todos os residentes, mas muito em particular por toda a comunidade jurídica da RAEM, não fosse algum desses videirinhos de língua castanha antecipar-se.
Seria bom que os candidatos à Presidência da República, o actual e o próximo Presidente da República, bem como o primeiro-ministro, os deputados, os Conselhos Superiores de Magistratura e do Ministério Público e o Bastonário da Ordem dos Advogados, sem esquecer as câmara de comércio, e todos os nossos constitucionalistas, pusessem os olhos nesta maravilha, nestes avanços na concretização do princípio “um país, dois sistemas”, e estudassem no âmbito do princípio da separação de poderes a melhor forma de se acolher na nossa Constituição, rapidamente e em força, como sempre defende o candidato proposto pela Loja do Mestre André, o “princípio da predominância do poder executivo“.
Seríamos os primeiros a dar-lhe estatuto constitucional, ajudando a promover as nossas exportações para a China. Tais mudanças seriam certamente bem acolhidas em Pequim, e, quem sabe, facultavam-se aos nosso tribunais as ferramentas adequadas para que começassem a funcionar, a julgar à porta fechada, e se livrassem de alguns advogados, metendo a gandulagem nas prisões, acabando com as falhas na distribuição de água e energia eléctrica, desviando as tempestades para o meio do Atlântico, impedindo-se a queda de gruas, arranjando-se um plano e um guião legíveis para a ministra da Administração Interna. Por outro lado, os deputados poderiam apoiar unanimemente o executivo, poupando-se tempo nas discussões do Orçamento de Estado e fazendo com que todos e cada um de nós se pudesse sentir cada vez mais Seguro, sem que os ministros tivessem de andar a arregaçar as mangas e a tender telefonemas quando se fazem filmar para todos acreditarmos que estão a trabalhar e preocupados com o futuro. De tudo e de todos. Da economia e da justiça à saúde e à escola pública. Dos portugueses aos residentes de Macau.
Quando ainda estamos a vinte e três anos do final do período de transição de Macau – uma eternidade cada vez mais próxima e que chegou à boleia de um tsunami pandémico, seria bom que queimássemos etapas. Podíamos começar por modernizar a nossa democracia, as nossas instituições. Aprendendo com os exemplos que chegam da Praia Grande. O Dr. Aguiar-Branco que promova um curso para parlamentares e desempregados, com direcção do deputado Hugo Soares, sobre o princípio da preponderância do executivo.

A frase do L’ Équipe é enganadora.
Trubin não selou a vitória contra o Real Madrid, despachando-o para o play-off de acesso aos oitavos de final, não foi quem atirou o Olympique de Marselha, uma vez mais, para fora da Liga dos Campeões, nem entregou o apuramento directo ao Sporting. Trubin marcou o quarto golo, sim. E ontem foi um colosso a defender e a atacar.
O Benfica, que em Novembro apresentava zero pontos, após a quarta derrota consecutiva, estava para muitos mais do que eliminado da edição deste ano da Champions, sendo alvo da chacota e do gozo dos vizinhos da Segunda Circular, voltou a mostrar a sua grandeza internacional e hoje saltou para as primeiras páginas de todo o mundo.
Trubin está lá, mas não sozinho. Com o ucraniano esteve toda a equipa, o seu incansável treinador, que montou um esquema táctico capaz de funcionar na perfeição contra a equipa mais titulada do velho continente, e está a nação benfiquista espalhada por todo o mundo, representada nos mais de 64 mil adeptos que estiveram nas bancadas da catedral da Luz.
É justo sublinhar a forma como Mourinho tem feito jogar uma equipa que estava condenada, com imensos jogadores medianos, conseguindo deles o impossível. Mérito de quem treina, esforço de quem se empenha e dá o seu melhor quando veste a camisola do glorioso. Desta vez, não obstante aquela estupenda defesa e desvio de Courtois a um remate de Prestianni – um jogão do miúdo – , que por momentos nos recordou o pior desta época, não falhou.
Foram quatro golos, podiam ter sido mais, não fosse a sucessão de situações criadas e os falhanços na primeira parte, mas convenhamos que depois de estar a perder por um zero só Mourinho e os benfiquistas acreditaram que era possível dar a volta. E deram. Remataram 22 vezes à baliza com apenas 35% de posse de bola, contra 16 remates do Real.
Uma noite de classe como há muito tempo não se via por aqueles lados, um hino ao futebol, contra uma das melhores equipas do mundo, debaixo de chuva, onde todos puderam brilhar e mutuamente se ajudaram para construírem um resultado e carimbarem uma noite histórica.
Agora é aguardar o sorteio.
E esperar que esta campanha se prolongue, sendo de justiça sublinhar o magnífico percurso do Sporting e a subida de Portugal ao sexto lugar do ranking da UEFA, por troca com os Países Baixos. Depois da vitória da Selecção Nacional de Andebol, umas horas antes, contra a Espanha, foi uma noite aziaga para os nossos amigos peninsulares. Haja fair play.

Sabemos que os anos passam, que as luas mudam, e que as nossas energias por mais que se renovem não conseguem contrariar esse determinismo. Um dia a máquina entra em greve. Pára.
Este ano cairá num sábado. Seria dia de lhe telefonar no dia 28 e dar-lhe um abraço de parabéns (antecipado). Tal como ele invariavelmente fazia no dia do meu aniversário. Era assim há anos. Já não irá acontecer.
Conheci-o como o pai dos meus amigos. Depois tornou-se ele próprio meu amigo, nesta família alargada e sempre presente que me segue, e ampara, na distância. Há décadas.
Estamos nesta vida para nos acompanharmos uns aos outros. Para repartirmos a pele. Se possível com muito humor, rindo e confraternizando quando se proporciona, trocando ideias e experiências, lutando pela dignidade da pessoa humana, pelo nosso semelhante; que ao fazê-lo só nos estamos a ajudar a nós próprios, defendendo o conforto, cada vez mais privilégio de muito poucos, de se poder viver em liberdade. Connosco e com os outros. E de senti-lo e valorizá-lo em cada momento.
É o que faz de nós gente. Humanos.
Ele sabia-o como poucos, e transmitia-o com gosto.
Não obstante a ausência, que agora se prolongará, sei que continuará sempre presente, na galeria dos que tornaram mais luminosos e harmoniosos muitos dos meus dias. E as noites, não se pode esquecer, pelos livros que me deu e me continuarão a acompanhar.
E jamais esquecerei aquela manhã em que sem a menor hesitação, já retirado, se meteu no carro e fez centenas de quilómetros para depor num tribunal. Não pelo amigo, que ali era o que menos importava. Pelo colega de profissão que cumprira o dever e o que a deontologia lhe impunha perante a ignomínia da acusação. De tal forma que após as inquirições, no momento das alegações, e aproveitando o intervalo, o acusador se esgueirou, como se não tivesse sido nada com ele, e mandou o noviço recém-chegado pedir a absolvição do arguido.
Que o seu exemplo perdure e se transmita às próximas gerações.
À Maria João, minha irmã afectiva, e ao Fernando, companheiro de todas as horas, vai daqui um forte abraço. Que ainda iremos celebrar muitos 29 de Fevereiro.
(créditos: Getty Images)
Conhecidos os resultados da 1.ª volta das eleições presidenciais de 2026, Marques Mendes assumiu a derrota, praticamente sozinho, com a família, e mais uns poucos apoiantes. Aqueles que seriam os principais e mais importantes apoios desapareceram. Resguardaram-se. Por vontade própria ou a pedido do candidato derrotado não o sabemos. Não será relevante. É uma questão de somenos.
Legítimo é que qualquer eleitor interessado e que tenha votado num dos candidatos derrotados se interrogue, querendo participar na 2.ª volta, sobre em quem poderá votar.
É normal que o eleitor cujo voto não concretizou o seu ideal procure orientação no espaço político onde se colocou, olhe para o candidato que apoiou, ou para o líder do partido em que milita ou com o qual simpatiza, e pergunte se deverá votar na 2.ª volta e em quem.
Marques Mendes e Cotrim Figueiredo não quiseram tomar posição para a segunda volta. Fosse por despeito ou ressabiamento, fica-lhes mal. Para muito do seu eleitorado não foi indiferente votar neles entre mais de uma dezena de candidatos.
Houve dirigentes políticos, autarcas, líderes de opinião, militantes do PSD e da área política deste, com percurso e pergaminhos, que num momento crucial da vida política nacional, e desde o primeiro minuto, não vacilaram e assumiram que iriam votar António José Seguro na 2.ª Volta. Refiro-me a pessoas como o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, Poiares Maduro, Rui Moreira, Carlos Carreiras, José Eduardo Martins, António Capucho e Pacheco Pereira, alguns que muito contribuíram pela sua intervenção política e cívica para que Luís Montenegro fosse hoje primeiro-ministro.
À esquerda seria natural que havendo apenas dois candidatos para a segunda volta todos saíssem, alguns com reticências, a apoiar aquele que mais perto do seu espaço político se situa.
E até mesmo no centro-direita, quanto ao Iniciativa Liberal, logo o líder da bancada parlamentar, Mário Amorim Lopes, tomou posição, a título pessoal, no sentido de apoiar Seguro, pois que Mariana Leitão prudentemente anunciara uma decisão oficial depois de convocar os órgãos do partido e destes se pronunciarem sobre esse ponto.
À semelhança do que aconteceu noutras ocasiões, Montenegro refugiou-se no silêncio, no tacticismo, na tibieza, na necessidade, digo eu, de recorrer à calculadora, de ver primeiro o que os outros vão fazer e dizer, bem ao contrário do que se espera de um líder. Para Montenegro tudo é uma questão de sobrevivência política. Só que não será por aí que ficará garantido o cumprimento da legislatura e a realização dos investimentos e das reformas de que o país necessita.
Aquilo que me faz espécie é perceber qual a dúvida que paira neste momento no espírito de Luís Montenegro.
Então o seu governo, que manifestou apoio a Mário Centeno, socialista, ex-ministro e ex-governador do Banco de Portugal, para um lugar no Banco Central Europeu, em representação de Portugal, pessoa de quem André Ventura diz raios e coriscos, tem dúvidas em apoiar António José Seguro na 2.ª volta da eleição presidencial? Precisa de reflectir? É indiferente apoiar Ventura ou Seguro para Presidente da República? Como compatibilizar a posição veiculada pelo ministro das Finanças de apoio a Centeno com mais este recolhimento? É ao lado do putinesco Órban, da condenada Marine Le Pen, dos cadastrados Donald Trump e Bolsonaro, e de Nigel Farage, líder do Reform UK, que entre outras coisas advoga o abandono do Reino Unido da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que Montenegro pretende colocar-se?
Ainda que possa dar de barato, o que não me pareceu ser o caso, a afirmação de Ventura de que Portugal precisava de três Salazares, em mais uma tirada para chocar o país e impressionar o seu eleitorado, a agenda e o modelo de sociedade social e político proposto pelo Chega e defendido por André Ventura, admirador confesso de autocratas, é incompatível com os nossos valores constitucionais, com uma democracia ainda que repleta de defeitos, que os tem, e o sonho de a tornar mais justa, mais equilibrada, menos conflitual, mais madura, moderna e civilizada, respeitando leis e regulamentos; acima de tudo a dignidade da pessoa humana em todas as suas vertentes.
A escolha seria indiferente entre dois candidatos com um pensamento reconhecidamente democrático, que fossem igualmente respeitadores da Constituição da República. Sucede que o está no cardápio é optar entre um candidato radical, assumidamente anti-regime, oportunista, de extrema-direita, não de direita tout court, que se reclama católico praticante e está sempre pronto a espezinhar os valores do cristianismo, e um outro do campo da social-democracia, do socialismo-democrático e dos valores que estas correntes representam.
A opção está muito para lá de decidir entre apoiar um populista, excessivo, manipulador, com um discurso que não se coíbe de distorcer, mentir e inventar desde que isso possa valorizá-lo perante o seu eleitorado potencial, e dar-lhe votos, alguém que pretende não deixar pedra sobre pedra e criar, o que só de pensar é assustador, um homem novo, talvez um país de pequenos venturinhas, e apoiar um outro candidato respeitador da democracia, das suas regras e das suas instituições, com pouco ou nenhum carisma, um discurso pouco apelativo, por vezes parecendo uma litania, ciente das nossas virtudes, defeitos e dificuldades, guiado por padrões de respeito, humanismo, moderação e decência, com provas dadas de isenção e não-conformismo com o actual estado de coisas, capaz de funcionar como um referencial de equilíbrio e de unidade da nação.
Para um democrata, à direita, ao centro ou à esquerda, não pode ser igual escolher entre dois modelos de sociedade que mutuamente se excluem.
Mais do que a defesa do regime, em causa está uma opção civilizacional. Entre o caminho para um estado autoritário cada vez menos disfarçado, intolerante, injusto, castrador, aterradoramente boçal no gesto e na palavra, que não respeita nada nem ninguém, só devendo obediência à vontade de um chefe com pretensões a caudilho e tiques mussolinianos, e uma democracia imperfeita, a necessitar urgentemente de reformas, a todos os níveis, e de gente séria, preparada e empenhada, que tenha a capacidade de agregar, com autoridade para se impor pelo exemplo e a integridade para que a fractura não se abra irremediavelmente. Entre uma democracia e um regime plebiscitário.
Não é difícil perceber isto. E pode ser dito respeitando-se a inteligência e a liberdade de escolha dos eleitores. De todos, incluindo dos que votaram em André Ventura e que em nada se distinguem dos outros, dos que não votaram nele.
(créditos: José Coelho/LUSA)
Está consumada a 1.ª volta das eleições presidenciais de 2026. As conclusões serão sempre provisórias e susceptíveis de serem desmentidas entre o próximo dia 8/2/2026, quando se realizar a 2.ª volta, e os meses que se seguem até à votação do próximo Orçamento de Estado. Apesar disso, há dados que de tão evidentes me parecem incontornáveis, e são estes que aqui quero trazer-vos em relação aos candidatos.
António José Seguro: não precisou de grandes voos, de tiradas gongóricas, de virar a casaca ou de prometer o impossível, como se fosse um candidato a primeiro-ministro. Venceu este turno de forma categórica. O resultado, sendo confirmado de forma ainda mais estrondosa em 8 de Fevereiro, ajudará a enterrar o que restava do nunismo, do costismo e as eventuais pretensões de Mariana Vieira da Silva ou Alexandra Leitão. Reforça a irrelevância de tipos como Augusto Santos Silva, Carlos César ou Francisco Assis(*) no panorama nacional. A liderança de José Luís Carneiro mostrou que fazia bem em apoiá-lo e ganhou um fôlego acrescido para os próximos meses. O campo do socialismo democrático é hoje dominado, e bem, pelos patinhos feios do partido. Depois de ignorado, insultado e ostracizado pelos caciques que enterraram o PS, que lhe fizeram a folha quando foi secretário-geral e deixaram o partido com uns vergonhosos 22,83% nas Legislativas de 2025, António José Seguro mostra que a discrição, a paciência e a moderação podem ser recompensadoras num país cuja democracia, apesar de Abril, ainda vive no passado acomodado, venerado e temente que herdou da Primeira República e interiorizou durante as mais de quatro décadas do antigo regime. Por agora recebeu sozinho, com o campo do socialismo democrático disperso, mais 312 mil votos do que o PS obtivera nas últimas legislativas. Parte revigorado para conseguir um bom resultado na segunda volta. E como veremos num outro post, pode estar a caminho um terramoto político.
André Ventura: conseguiu o seu grande objectivo de passar à segunda volta, mas o resultado é muito enganador. Para quem se quer reclamar o líder da direita, melhor seria dizer da extrema-direita, Ventura perdeu – não foi o Chega que perdeu – em relação às eleições de 2025, em que o partido conseguiu eleger 60 deputados, mais de 111 mil votos. Do 1.437.881 votos, Ventura só conseguiu recolher 1 326 644 votos. É preciso dizer isto. Para onde foram os outros votos? Por que razão não cresceu agora? Ele irá dizer que venceu, que o resultado foi magnífico, fazendo uma leitura à maneira do PCP, mas para quem quer ser Presidente da República e se reclama líder da oposição, se este é um bom resultado, imaginem o que seria mau. E uma coisa é certa: apesar disso Ventura irá à 2.ª volta com mérito. Ele não pode ser responsabilizado pela falta de visão e mediocridade da liderança do PSD e do seu acólitos fantasmas do CDS-PP.
Cotrim de Figueiredo: é inequívoco, não obstante alguns factos extra-eleições surgidos nos últimos dias, que conseguiu um bom resultado face àqueles que têm sido os números habituais do Iniciativa Liberal, alargando a área potencial de votação do seu campo político em quase 600 mil votos. Os resultados são lisonjeiros, o eleitorado foi amigo. Parece evidente que poderia ter chegado mais longe, mas os erros que cometeu foram suficientemente graves para não lhe recomendarem uma passagem à 2.ª volta. E obviamente que um candidato tem de valer por si. Não pode dizer a três dias das eleições que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ou estar a mendigar o apoio de terceiros, até porque, como se viu pelo resultado de Marques Mendes, Luís Montenegro e o PSD não eram garantia de coisa alguma e tais apoios só serviriam para afastar alguns dos eleitores que votaram nele. Tem agora todo o tempo do mundo para se dedicar à defesa das acusações de Inês Bichão. E pensar no rol de asneiras que disse.
Gouveia e Melo: o almirante, rodeado de uma pandilha de comensais, rouxinóis e apoiantes onde cabiam todos e mais alguns, nunca chegou a perceber o que é uma eleição presidencial numa democracia. Dando mostras de uma grande indigência política, sem qualquer estaleca para o papel que gostaria que lhe fosse atribuído, com um muito deficiente conhecimento dos poderes presidenciais, pensou que o seu papel em Belém seria o do comandante de um navio com gestão participada. O resultado só poderia ser o naufrágio que se viu. Tirando Portalegre, Beja e Castelo Branco, onde conseguiu ficar em terceiro lugar, nos restantes distritos os resultados foram sofríveis. Da sua aventura fica o registo, digno e sempre relevante numa sociedade cada vez mais alheada da política, da sua disponibilidade para a participação, do seu empenho na cidadania e no seu serviço desinteressado à causa pública. Antes e depois. E também a forma como contribuiu para escaqueirar a candidatura de Marques Mendes. Meteu dó.
Marques Mendes: conseguiu um resultado à sua altura. Refiro-me, evidentemente, à sua altura política. Que nunca teve. Foi o último do pelotão da frente. O primeiro dos últimos. Daqui para a frente não valerá a pena voltar a querer colocar-se em bicos de pés. Como dirigente político e comentador já tinha mostrado que lhe faltavam cerviz e atributos de liderança. Agora ficou liquidado até para a segunda função. A falta de credibilidade é total. Como candidato a presidente, com o apoio do maior partido e do primeiro-ministro em funções, que se empenhou pessoalmente na campanha eleitoral, e de Cavaco Silva, que resolveu sair do seu sarcófago algarvio para dar uma “ajuda”, vale pouco mais de 11%. Nota alta para o modo como assumiu sozinho uma derrota que por muito que o quisesse enfatizar não é, nunca será, apenas dele. O resultado será sempre indissociável do crânio de Espinho e dos seus inenarráveis ajudantes, Hugo Soares e Leitão Amaro. Que aproveite a reforma para estar em paz com a família e os amigos.
Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto podiam ter feito a diferença nesta 1.ª volta. Não fizeram. Se o último mostrou ser um quadro sério, honesto e relativamente bem preparado, cometendo um erro colossal ao predispor-se sair da contenda a meio da campanha eleitoral para depois a levar até ao fim e ir a votos, no que revelou muita ingenuidade e falta de maturidade política, os outros resolveram carregar nas teclas de sempre e passearem a sua irrelevância política e desfasamento da realidade social e eleitoral. No caso dela, o cansaço de que há anos dá mostras e a errada leitura que no seu partido continuam a fazer do país real só serviram para confirmar o óbito do Bloco de Esquerda, fazendo descer os cerca de 125 mil votos do seu partido em Março de 2025 para uns meros 116.303 votos. Ontem mesmo percebeu que ao BE não resta outra alternativa que não seja apoiar António José Seguro. Quanto a António José Filipe é difícil que alguma vez a sua honradez e convicções possam libertar-se da miopia política e do agrilhoamento à pesada herança estalinista. O PCP e os seus candidatos são hoje os fantasmas do regime. Os 92 mil votos de António Filipe representam metade dos votos conseguidos pelo PCP em 2025. Os simpatizantes foram-se embora, ficou reduzido aos votos de alguns militantes e dos seus filhos que ainda não rumaram para outros sóis.
Manuel João Vieira, André Pestana e Humberto Correia: o primeiro assumiu na perfeição o seu papel de bobo nestas eleições. O apoio que obteve nas urnas, com mais de 60 mil votos, é sinal de que uma parte do eleitorado se revê nesta figura grotesca que prometia vinho canalizado e um Ferrari para cada português. Com a sua candidatura ridicularizou o regime. Ele, mas também Humberto Correia que conseguiu o feito de obter nas urnas menos votos do que as assinaturas que recolheu, mostrando como a legislação que rege as candidaturas está esclerosada e não serve a democracia nem os portugueses. Uma eleição para o primeiro representante da República, único eleito por sufrágio universal, directo e presencial, não pode ser um concurso de feira para palhaços. Quanto ao candidato contentinho André Pestana foi mais um que não percebeu para que serve uma eleição presidencial, o que não deixa de ser grave num professor e sindicalista.
Abstenção, votos brancos e votos nulos: a abstenção ainda assim foi significativa. Votou mais gente, o universo era superior, mas a percentagem de participação foi de apenas 52,35%. Seria bom que melhorasse na 2.ª volta, mas duvido face à posição de indiferença já assumida por Montenegro (voltarei a esta noutro post). Os nulos e os brancos também foram inferiores por comparação com as legislativas de 2025, apesar dos boletins de votos virem com nomes de candidatos que não podiam lá estar. Vamos ver como correrão as coisas na 2.ª volta.
(*) Alguns amigos chamaram-me a atenção para o apoio de Assis à candidatura de Seguro. É verdade, fê-lo desde o início, embora não me esqueça que em 2011 concorreu contra este nas eleições para secretário-geral. Aceitou de imediato a derrota, é certo, mas muita coisa poderia ter sido diferente.

Amanhã exercerei o meu direito de voto para a eleição presidencial de Domingo, 18 de Janeiro. Aqui não há período de reflexão. Nem aqui nem para ninguém que tenha antecipado o exercício desse direito. Só os que acompanham a campanha até ao fim e residem em Portugal continental e nas ilhas é que precisam da protecção legal da reflexão. Para isso têm o sábado garantido. Os outros podem voltar irreflectidamente, no que constitui mais um dos muitos anacronismos da nossa democracia e das nossas leis eleitorais. Adiante que sobre isso já o Pedro se pronunciou.
Os boletins de voto aparecerão com uma equipa de futebol de onze e três suplentes que garantirão mais uma resma de votos nulos.
Neste espaço não vou apelar ao voto em ninguém. Cada um que decida sozinho para que lado dormirá melhor.
Apelo sim à participação, pois que também não poderia recomendar o voto em nenhum dos candidatos. Não tenho o jeito de uns para figurante, ou a lata de outros para catedráticos; muito menos o descaramento de alguns desventurosos.
A opção, a bem dizer, não está em escolher aquele que está mais bem preparado em termos académicos, profissionais e políticos, com ideias mais arrumadas e enxutas, muito menos o mais capaz, o mais competente, o mais sensato, o mais sério ou o mais educado. Cada um terá as suas razões. Todos têm as suas razões. Pior que os Estados Unidos, a Venezuela, Israel ou o Irão não ficaremos.
O único exercício de reflexão possível neste momento, admitindo que vale a pena perder uns minutos neste ínterim, está em tentar descortinar qual dos bonecos colocados nas prateleiras da barraca dos brindes parece ser o menos horripilante no momento em que tirarmos a rifa e nos entrarem pelo ecrã da televisão, na noite de domingo, com o anúncio do prémio que nos foi atribuído para os próximos cinco anos.
É verdade que há sempre a hipótese de se oferecer o mono ao vizinho ou ao filho da padeira, como se fosse um dos coloridos sete anões, ou de guardá-lo na garagem entre a caixa de ferramentas do carro, as prendas de alguns natais e as lembranças de uns clientes mais exuberantes, mas será sempre difícil encaixá-lo no armário onde está aquele candeeiro de porcelana que me ofereceram com uma fonte, golfinhos azuis e brancos e luzes intermitentes.
O ridículo foi a marca destas eleições.
Foi ridículo ver o líder da oposição, que quer ser primeiro-ministro, primeiro a admitir apoiar um putativo candidato, depois a manifestar apoio a esse candidato declarado, vê-lo recusado, sondar o mercado enquanto apalpava os legumes, para acabar ele próprio candidato e a fazer promessas repescadas das legislativas. Como se o próximo Presidente da República se preparasse para ser o futuro substituto do primeiro-ministro durante os impedimentos e ausências deste. Ou uma espécie de Maduro europeu, de batina camuflada, subserviente à cartilha trumpista.
Como foi ridículo ver um almirante a admitir tudo e o seu oposto, qual catavento sem a mais pequena noção do papel do Presidente da República, tão depressa se apresentando como alguém ungido com um óleo divino que o colocava em Fátima, como logo depois admitia vir a formar um partido se perder as eleições, ora pescando à direita, ora lançando a minhoca à esquerda, ao centro, em cima e em baixo, adaptando-se aos sucessivos solavancos da campanha eleitoral que o atiravam de bombordo para estibordo e da proa até à ré.
E não menos ridículo foi ver um outro candidato, enfarpelado da mais moderna cagança, dando ares de grande preparação para o cargo, dizer que se soubesse que uma lei viria a ser declarada inconstitucional a teria assinado na mesma, insistindo dias depois na tecla ao admitir em plena campanha que poderia vir a desistir a favor de outro candidato, para dizendo não saber o que lhe terá passado pela cabeça. Talvez não tenha passado nada, e seja mesmo esse o problema, dado o tamanho do umbigo, porque não é normal que um candidato a dias do sufrágio acabe a escrever ao primeiro-ministro e líder do maior partido, pedindo-lhe que desista do seu candidato para o apoiar a ele. Pior seria difícil antes de encostar às boxes para a corrida de domingo.
Os outros aspirantes a dois dígitos na primeira volta, em matéria de ridículo, não se podem rir dos anteriores.
Um foi completamente destroçado num debate televisivo, como se o facto de ser um simples portador de uma carteira profissional de uma profissão que não exerce fizesse dele um profissional sabedor, qualificado, competente e experiente sem ter necessidade de ir buscar uns saltos altos, meter umas cunhas, colocar-se em bicos de pés e defender a sua candidatura comparando a sua própria altura com a de outros que nem sequer são candidatos. Mais elevado seria difícil. Os homens não se medem aos palmos, e alguns sendo altos são maus bailarinos e tão trapalhões a jogar golfe como quando exercem qualquer cargo. O problema são os inseguros. Estes andam sempre de fita métrica e com as rábulas numa cábula. Poderá não vencer à primeira nem à segunda volta, admito. Terá sempre a oportunidade, quem sabe, de ir à terceira volta. De um corridinho. Aí a altura não será problema e até poderá voar entre voltas.
E para não ser menos ridículo houve um outro candidato, campeão dos direitos humanos e das garantias constitucionais, que sem nada dizer, falando redondo, como se estivesse numa homilia permanente, sem regatear apoios, conseguiu a proeza de se rodear de um punhado de “defuntos”, cuja língua foi rosada. Hoje são mais conhecidos pela forma como se equilibram nos lamaçais e a sua compreensão para com a generosidade das autocracias, desde que lhes caia qualquer coisa na sopa ou no avental.
Há mais uns quantos no boletim de voto, sabemos isso, muito embora nada nos obrigue a fixar os seus nomes. Em comum têm uma arreigada obstinação pela teatralização, pelo drama, pelo desastre, que é outra forma de ridículo.
Não se preocupem com o resultado. Ide votar.
Escolham aquele que vos parecer menos mau para ficar na prateleira. O menos ridículo.
Uma campanha ridícula e um voto secreto, ainda que ridículo, não mancham a linhagem de ninguém. Nem acabam com a República ou com mais de oito séculos de história.
E daqui a cinco anos, com mais ou menos dissoluções da Assembleia da República, poderemos sempre escolher outro. Um que seja um pouco menos ridículo. Sem necessidade de reflexão.
(créditos: Globo)
Esta manhã leio uma notícia e vejo uma fotografia. A fotografia é do Presidente do EUA e da mais recente vencedora do Prémio Nobel da Paz, a oposicionista venezuelana María Corina Machado. Na imagem que acima reproduzo vê-se o primeiro com a medalha que a segunda recebeu em Oslo.
Depois de se ter auto-proposto como candidato ao Nobel da Paz, com uma contabilidade e revelando uma ignorância e argumentos que envergonhariam qualquer aldrabão de feira, e de por várias vezes ter publicamente afirmado que gostaria de ser o escolhido e de receber o Nobel, tal o despeito por o mesmo ter sido atribuído a um dos seus antecessores na presidência; e de ter recebido das mãos do indiscritível Infantino, primeiro responsável da FIFA, um “prémio” criado à pressão para lhe satisfazer o ego e a idiotia, chegou agora a vez de se predispor a aceitar da política venezuelana o galardão que a esta fora atribuído.
A academia sueca já tinha avisado, ao saber das primeiras intenções de Corina, de ceder o prémio ao fulano, que tal não seria possível.
Os prémios, independentemente da justiça ou injustiça da escolha e dos méritos dos galardoados, são pessoais e intransmissíveis. Obedecem normalmente a um regulamento, sendo certo que podem sempre ser recusados, o que a venezuelana não fez.
Que Donald Trump, com toda a sua estultícia, rodeado por uma corte de outros como ele e uma multidão de esquizofrénicos, energúmenos e boçais, mais o seu vasto lençol de inanidades, insultos e crimes estivesse disponível para receber a medalha, aquela ou outra qualquer, nos dias que correm não será motivo de estranheza para pessoa medianamente informada.
Saber que a dirigente politica venezuelana, depois de destratada e ridicularizada pelo próprio Trump, e do telefonema que lhe fez na sequência do recebimento do prémio, como se estivesse a desculpar-se pelo facto de ter sido escolhida, aceitou deslocar-se à Casa Branca para oferecer a sua própria medalha e posar para as câmaras ao lado do anfitrião é do domínio do vexame.
Duvido que o seu gesto possa trazer quaisquer frutos para o seu povo, melhore a sua qualidade de vida, reduza a conflitualidade, aumente a paz no mundo – que seria sempre um factor a considerar –, contribua para a sua causa ou restitua a democracia, a liberdade e algum amor-próprio aos venezuelanos.
Posso estar enganado, mas um ser humano, uma mulher, uma política que diariamente se rebaixa perante aquele ogre, saído directamente das profundezas da Idade Média para as margens do Potomac, mostra não estar à altura do prémio. Desse ou de qualquer outro.
Mais ainda da sua condição e do papel desempenhado antes da atribuição.

“Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
Com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
Dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.”
Para o fim guardado estava o melhor bocado. Às vezes acontece assim.
E também para o início, é verdade, porque só acabei de me empanturrar ao cair a noite de 1 de Janeiro do novo ano. De 2026.
Só que desta vez não foi de broas, bolo-rei, trouxas de ovos ou papos-de-anjo. Foi com palavras. Com letras escritas em papel branco, de cheiro e sabor intensos, degustadas calma e serenamente, enquanto as horas se escoavam, sem pressas, à medida que se aproximava a derradeira página.
Aí parei, respirei fundo, e dei graças a Ele, apesar de não saber qual a medida da Sua contribuição, e a ele, digo, a eles, em verdade a todos, aos que confeccionaram tal iguaria, muito em particular ao cozinheiro que teve o engenho e a arte de procurar e reunir os ingredientes, os melhores a que uma alma pode aspirar, consultando artesãos do mesmo e de outros variados ofícios, ao mesmo tempo que meticulosamente os misturava, dava forma, levando tudo depois ao forno, até retirar o manjar no ponto e o trazer até nós, leitores, imaculado, servindo-o com tal empratamento e cuidado que logo os olhos se encantaram, certo de que qualquer que fosse o lugar e a hora a que se servisse logo faria bom proveito aos olhos de quem lê e às papilas dos que nos dias poluídos, tristes e cinzentos que por aí andam ainda encontram espaço para aconchegarem horas infinitas de prazer, noite dentro, de genuíno gozo e de estímulo aos sentidos. A todos.
Quando em 23 de Março de 2015, esse meteoro resolveu abandonar a nossa órbita e prosseguir intacto, sem se desintegrar, a sua viagem no espaço sideral, todos sabíamos, há dezenas de anos, que jamais se desintegraria em pequenos meteoritos, e continuaria a projectar a sua imensa luz pela eternidade da língua que o elevou, há muito, à condição de imortal.
Faltava, porém, quem tivesse a ousadia de nos trazer as notícias, os factos em falta, arrumados no seu percurso, e de desenhar a sua carta astral, afectiva, carnal e espiritual, com as receitas por ele deixadas, e associá-la à genealogia da sua breve e fulgurante passagem por este planeta.
Não sei se também ele, o poeta, terá emergido dos confins da Atlântida, à velocidade de um míssil, para depois regressar pela porta da Rua da Carreira, em pleno Funchal, em 23 de Novembro de 1930.
O que sabíamos, muito pouco, fora-nos revelado pelos amigos, por aqueles que com ele conviveram, o leram em primeira mão, estudando o que ao longo da vida rasurava, publicava, para logo depois voltar a rasurar, cortar, burilar, afagar, amaciar, contornar suavemente com a ponta do dedo, ciente da linha que na sua textura é capaz de ser a um tempo bela e cruel, ora protegendo, dissimulando, escondendo a ternura, como que transformando-a numa lança que entrando pelo olhar rapidamente nos trespassa até alcançar as vísceras, marcando-nos para todo o sempre.
Cicatrizes múltiplas que possuem a particularidade de se deslocarem no interior do nosso corpo, incontroláveis, sem que nada se alcance fazer para impedir a sua circulação alucinante, o modo como nos penetram e deixam ficar um rasto de mil cores e perfumes do qual, felizmente, jamais nos libertaremos.
Durante oito anos, João Pedro George entregou-se ao trabalho hercúleo de reconstruir aquele que terá sido o percurso de vida de Herberto Helder, juntando ténues fios, mapeando a sua existência, refazendo percursos e caminhos, seguindo as marcas deixadas no tempo, os nomes, os rostos, as cartas, relendo vezes sem conta, pacientemente, as palavras que o tempo não apaga, trazendo-nos casas, cafés, ruas, memórias, espaços e cheiros, alguns familiares a muitos de nós, outros que nos passaram ao lado, muitos desconhecendo a própria figura do poeta que por ali evoluiu.
Se o que fica é a obra, para quem lê essa obra esta estará sempre incompleta se não for possível se desvendar o homem, o ser humano, neste caso o génio, que se esconde por detrás dela, espreitando por cima do verso.
Das origens familiares ao seu nascimento, dos primeiros passos na ilha que o viu nascer aos dramas de infância e adolescência, da perda da mãe à atribulada relação com o pai, com passagem por Coimbra e Trás-os-Montes, e à partida para o estrangeiro, revivendo os tempos de Angola e a passagem pela Bélgica, onde comeu o pão que o diabo amassou, percorrendo a sua Lisboa, por cafés e tascas, até chegar à Cascais onde se fixou e encontrou alguma estabilidade, situando-nos sempre comodamente no lugar do comensal, aqui com mais rigor e propriedade leitor, a quem, sem que este tenha qualquer trabalho ou incómodo, lhe é servida uma refeição completa, autêntica, genuína.
Cada parágrafo, cada capítulo, é um verdadeiro pitéu de boa escrita, que nos alarga horizontes, revela o cuidado e o prazer da entrega, a ternura colocada em cada palavra, em cada linha, por quem se abalançou a escrever a editar aquela é, digo eu, se não for o melhor – sobre isso sabem os entendidos, não os leitores vulgares – mais completo e mais importante trabalho em língua portuguesa sobre a vida de Herberto Helder.
O rigor da investigação, digno de uma tese de doutoramento, o manancial de factos e episódios revelados sobre a vida e a intimidade do poeta, a elegância da escrita, a actualidade da obra, fazem de “Se eu quisesse, enlouquecia – Biografia de Herberto Helder”, editada pela Contraponto, uma obra absolutamente incontornável para se conhecer e compreender muitos dos momentos da obra e do sentir daquele que foi, depois de Camões, penso, e ao lado de Pessoa, um dos maiores poetas em língua portuguesa.
A forma como João Pedro George nos dá a conhecer o universo das relações do poeta, académicas, pessoais e profissionais – se é que como tal se podem qualificar em relação a quem foi um profissional da poesia a tempo inteiro, que durante décadas sobreviveu com dificuldade, muitas vezes em condições de existência indignas para qualquer ser humano, alimentando-se miseravelmente, vivendo na rua e em tugúrios, ajudado por amigos, conhecidos e desconhecidos com quem se ia cruzando, até conseguir nos últimos anos alguns rendimentos compatíveis com o seu estatuto para poder seguir escrevendo e preservar a sua liberdade, mantendo o olhar na única distância compatível com o arrojo, o brilho e a profundidade da observação, guiando-nos a nós, leitores, pelas veredas mais perigosas e recônditas da língua –, as circunstâncias de viagem e de vida, que marcando o homem se imortalizaram na palavra escrita, são merecedoras de justíssimo destaque e reconhecimento.
Para quem viu o poeta sempre à distância, sem nunca com ele ter trocado qualquer palavra, embora muitas vezes sentado mesmo no banco do lado, no comboio de Cascais para Lisboa, ao início da tarde, nos finais da década de setenta e na primeira metade dos anos oitenta do século XX, estava longe de imaginar que alguma vez viria a ler um trabalho do calibre deste que me chegou às mãos.
No meu ano propedêutico frequentei, graças à generosidade do Francisco Peres, o “Chico, um pequeno externato, situado nas imediações do Monte Carlo e do Tony dos Bifes, acompanhando-o para uma refeição ligeira ou um café rápido enquanto aguardava por uma aula do Carlos Piçarra, antes de me esgueirar com os amigos para os matraquilhos ou as sessões de cinema do Palácio Foz, mas só agora fiquei a perceber muita coisa desse tempo, recordando rostos que na altura me foram relativamente próximos.
Depois, durante o meu percurso na FDL, na rotina diária das aulas, ou nalgumas tardes que se prolongavam noite fora, em Lisboa, desconhecia ter pisado o mesmo chão do poeta, merendado algumas vezes nas mesmas tascas, conhecendo umas quantas pessoas que tiveram o privilégio de com ele privar.
Por tudo isso, o trabalho biográfico de João Pedro George sobre Herberto Helder, foi como que um clarão no meu compartimento de memórias do poeta, desnudando sem pudor, nem a mais pequena clemência, o fundamental da sua passagem entre nós, portugueses, da sua relação com amigos, com as paixões, umas mais volúveis do que outras, com o poder, com outros anónimos, indistintos, ou com editores, realçando aqui a criada com a Porto Editora, quase no final, e com Hermínio Monteiro, antes da morte deste ainda na Assírio, cuja decisão transmitida a Herberto em relação à avença é igualmente ela própria prova de que nem todos os editores são iguais – “mas se não houver direitos a receber a avença é paga à mesma” – e há negócios que só o são porque há algo mais que estará para lá do simples merceeirismo editorial.
Relatando, em diversas ocasiões, episódios tão hilariantes que me fizeram alta noite rir sozinho a bom rir, quanto cómicos, caso da bifana surripiada da frigideira por Sebastião Alba, que terá acabado no bolso, quanto estranhos; como outros de uma doçura, candura e generosidade tão profundas – a relação com um carteiro de quem se tornou amigo durante o tempo em que trabalhou no serviço de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian é a melhor prova –, João Pedro George revela-nos um pouco mais da dimensão extraterrestre de Herberto, onde ressalta a sua espessura psicológica, o calibre intelectual do homem, e a sua desarmante humanidade, com todos os seus vícios e impurezas, manifestamente incapazes de obscurecerem as suas qualidades literárias, a notável perseverança e perspicuidade de que sempre deu provas na busca da perfeição, a desarmante lucidez, o culto estético da língua e do corpo até ao fim, numa altura em que praticamente já não saía de casa e não abria a janela “porque, dizia, ‘o mundo está cada vez mais feio’ ”, tão bem ilustrado nessa recomendação à mulher de que quando fosse à rua não se esquecesse de lhe trazer os jornais, incluindo o Correio da Manhã, lembrança que, causando surpresa à destinatária, visto que o poeta nunca fora leitor desse matutino, o levou a dizer, como que à laia de justificação de adolescente, que era “para ver os rabinhos”.
Agradeço, também, por isso ao autor da biografia, e pelas imensas referências e recordações que o seu trabalho me trouxe, incluindo sobre um dos médicos que acompanhou o poeta, e com quem, por múltiplas razões familiares que aqui nada acrescentam, também me cruzei. E ainda de algumas outras pessoas, gente que tenho o privilégio de ir por aí encontrando e com quem é possível partilhar uns momentos na vertigem dos dias, e cujas relações com Herberto e a poesia desconhecia totalmente.
Enigma para mim continuará a ser a razão do poeta para uma certa aversão à divulgação da sua obra, assim como a forma como se agarrava à edição de números tão reduzidos daquilo que produzia. O disparar dos preços que isso provocava, e o seu encerramento em círculos relativamente fechados de leitores, parecem-me contraditórios face à universalidade da sua escrita e à necessidade que qualquer oficiante da escrita tem de se dar a conhecer e chegar a um público mais vasto.
A extensa lista de testemunhos e os agradecimentos do autor a quem colaborou nesta empreitada biográfica, com justíssimo destaque para Olga Lima, a incansável viúva do poeta, em tão completo e fantástico labor – só eu, leitor, que de literatura pouco sei respondo pelos encómios –, mostram que como em qualquer cozinha de um restaurante de eleição, o trabalho que nos chega ao prato é o resultado de um esforço colectivo, cujo prémio, a estrela, é entregue ao Chef. Para satisfação de todos. De quem imaginou o prato, de quem orientou e ajudou na sua preparação, e de quem o saboreou até ao fim.
As notas que acompanham a edição, as fontes e bibliografia utilizadas e o muito completo índice onomástico que encerram as quase novecentas páginas garantem a justeza das palavras de quem o escreveu: “Um grande poeta merece uma grande biografia”. E pode o autor ficar tranquilo que é uma grande biografia, em todos os sentidos, que não abusou nem do tempo nem da paciência deste seu leitor.
Deixo aqui, associando-me a João Pedro George, um lamento para a falta de colaboração de Daniel Oliveira, ao contrário da sua irmã, para o conjunto da obra. Espero que essa inexplicável ausência – desconheço quais as razões que certamente haverá e respeito-as – possa vir a ser em breve suprida pelo próprio, até porque seria importante conhecer e saber pelo filho, cujo talento como cronista não menosprezam os genes herdados, qual a leitura que faz do progenitor e da sua obra.
No final de um ano que foi na maior parte dos seus dias cinzento, chuvoso e húmido, na pele e na alma, a modos que solitário e atribulado, muitas vezes desgastante, triste, tenso e estuporadamente injusto, consegui chegar ao seu final lendo o que, estou certo, de melhor se escreveu e publicou em Portugal no ano findo. Venham mais livros como este. Se possível muitos.
Começar um novo ano ainda acompanhado pelos seus derradeiros capítulos, antes de virar a última página, alumiou em mim a esperança de que 2026 poderá vir a ser um excelente ano.
Assim o espero. E preciso, desejando que o dos que me lêem, e dos outros que a isso são poupados, possa ser incomparavelmente melhor do que o meu. Com mais paz, menos conflitos, mais justiça e uma cascata de bons livros.
E que todos tenham a saúde e o tempo necessários para lerem este livro, cujas notas que aqui vos deixo não fazem justiça suficiente à qualidade do trabalho produzido, e outros ainda melhores, se possível, que com tanto prazer e um imenso sentimento de gratidão – ao poeta e a quem o trouxe até à livraria onde o adquiri – acabei de ler.
Irremediavelmente iluminado e enriquecido pelas letras do biógrafo e do biografado.
Não sei por que raio este tipo se insurge.
Temos um presidente de direita e às direitas, uma maioria parlamentar de direita, corremos com a esquerda do poder, o primeiro-ministro é excelente, há uma equipa de ministros de estalo, mandamos nas autarquias de Lisboa e do Porto, e a ANA, além de estar privatizada, é liderada por um companheiro nosso.
Se nada, mesmo nada, funciona, por mais anos que passem, é porque a culpa só pode ser do Costa.
Pese embora o facto de só haver onze candidatos admitidos às eleições presidenciais de Janeiro de 2026, tudo indica que os boletins de voto contarão com 14 nomes.
Isto é, também deles constarão os candidatos excluídos, aqueles cujas candidaturas não foram validadas pelo Tribunal Constitucional.
Não sei se ao candidato Seguro, ou a outro qualquer, servirá de alguma coisa contestar a inclusão no boletim de voto dos excluídos, mas num país em que quase tudo é a fingir, do Governo ao Ministério Público, dos partidos políticos aos candidatos presidenciais, deputados e ministros, e em que o melhor exemplo que o primeiro-ministro Luís Montenegro conseguiu encontrar de superação e referência para os seus compatriotas, numa mensagem de Natal, é o de um futebolista milionário, admirador de Donald Trump e da ditadura saudita, condenado numa pena de prisão de 23 meses, por fuga ao fisco, a que só escapou depois de pagar mais de 18 milhões de euros ao estado espanhol, é natural que os boletins de voto correspondam ao modelo defendido. Ao modelo ético-moral vigente.
Continuemos, pois, a cantar e a rir, embriagados pela aparência do sucesso, que quando dermos pela paulada já será tarde.
Actualização: confirma-se.
Já calculava que alguns dos “debates” entre os candidatos às próximas eleições presidenciais seriam muito pouco interessantes, iriam esclarecer nada ou quase nada, e que só serviriam para continuar a transmitir uma péssima imagem dos nossos (deles) actores políticos, mostrando nalguns casos a sua manifesta impreparação, falta de sentido de Estado, oportunismo, irresponsabilidade política e total desprezo pela situação do país e dos portugueses.
Confesso que nunca pensei é que se viessem a revelar bem piores do que aquilo que poderia imaginar nos maiores pesadelos.
Da falta de ideias à de educação, da linguagem desbragada ao estilo carroceiro, com frases e apartes de estrebaria, gritaria, mãos e braços no ar, sem esquecer mentiras, insultos, falsas verdades, omissões convenientes e incoerências, nada tem faltado.
O pseudodebate de ontem entre Catarina Martins e André Ventura, que aproveitei para ver durante a minha hora de almoço, é apenas mais um exemplo de algo que nunca deveria ter acontecido. E admiro a paciência do entrevistador, por muito bem paga que seja.
Aos debates que se têm visto seria preferível o silêncio.
Este seria bem mais enriquecedor, educativo e muito menos ofensivo da dignidade nacional.
E os portugueses continuariam tão esclarecidos sobre as ideias dos candidatos presidenciais como estavam antes. Sem “debate”.

(créditos: daqui)
Ele já tinha dito que “nunca antes os portugueses gastaram tanto na sua própria saúde como agora“. Foram milhões e milhões de euros sem resultados.
“Em Portugal, há oito anos, o Serviço Nacional de Saúde consumia cerca de 8 mil milhões de euros. Neste momento, consome quase 14 mil milhões de euros. A quase duplicação do valor entregue ao SNS não corresponde a uma melhoria e da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos”. Neste momento era antes do PSD chegar ao Governo.
Só que desta vez a ministra da Saúde garantiu que se tratava de “uma grávida que não era acompanhada até que deu entrada no Amadora-Sintra já com 38 semanas”. O problema estava identificado: com os governos de Montenegro as grávidas passaram a vir de jacto para parir.
Logo haviam de aparecer uns tipos da confiança da ministra dar cabo do programa “Acreditar” e dizer-nos que “a grávida havia realizado duas consultas de vigilância“. E que além disso comparecera a consultas de obstetrícia em 17 de Setembro e 29 de Outubro, esta última dois dias antes de perder a vida.
Compreendo que depois de tanta berraria – não é só o Andrézito que berra – o incómodo seja grande, mas o problema talvez se resolvesse com o tal “sistema de informação clínica plenamente integrado“, que evitasse que a ministra da Saúde andasse a saber do que se passa no seu sector pelos sinais de fumo que de quando em vez alguns índios lhe enviam.
De qualquer modo, o OE para 2026 diz-nos que os 14 mil milhões dos despesistas que antecederam os actuais governantes já ficaram para trás. A factura ultrapassará 17 mil milhões, pese embora não se saiba ainda quantas mais mulheres vão continuar a parir algures, em todo o lado menos nas maternidades.
Enquanto não chega esse sistema de informação clínica integrado, sugiro que o primeiro-ministro Luís Montenegro faça uma troca de pastas entre Ana Paula Martins e Miguel Pinto Luz.
Os portugueses sabem que os problemas aeroportuários, ferroviários, portuários e da habitação são insolúveis; que lobbies há em todo o lado, e que irão continuar a pagar. E se assim é não se perdia nada em mandar Ana Paula Martins para o Ministério das Infra-estruturas e Habitação.
Montenegro continuava com a senhora no Executivo sem correr o risco dela fazer mais estragos. Ao mesmo tempo dava-se uma oportunidade ao novo menino de ouro do PSD, Pinto Luz, para mostrar na Saúde toda a sua valia na melhoria do SNS e num aumento da eficiência da capacidade de resposta aos problemas dos cidadãos.
(créditos: daqui)
Quem acompanha aquilo que vou rabiscando e escrevendo por aí, incluindo neste blogue, sabe que sou convictamente republicano e considero que a república é a forma de governo mais consentânea com os valores que defendo para mim e para os meus.
Dito isto, é-me fácil reconhecer onde estão esses valores, sendo certo que muitos são partilhados com a monarquia, e não sendo a virtude, a honra, a prossecução do bem comum, a defesa do interesse pública, da história ou de seculares tradições exclusivo de uma ou outra forma de governo.
Em rigor, não é por serem republicanos ou monárquicos que os homens e as mulheres de bem se distinguem; antes pela sua praxis, pelo modo como conciliam as suas convicções com a sua acção, a teoria com a prática, aquilo em que acreditam e os valores que defendem com o exercício quotidiano da vida em sociedade, o interior com o exterior, dentro e fora de casa, à luz do dia e na escuridão.
E como em tudo na vida há bons e maus regimes, boas e más acções, gestos que dignificam e enobrecem e atitudes e comportamentos desprezíveis.
Impõe-se por tudo isso, e porque também há décadas procuro estar sempre em sossego com a minha consciência, gozando o sono dos justos, dizer uma palavra sublinhando, na linha do que havia sido feito pela sua falecida mãe, a atitude de Carlos III e da Coroa britânica em relação ao que é publicamente conhecido das relações de André (Andrew) Mountbatten-Windsor com Jeffrey Epstein e seus amigos.
Ao contrário do que se tem visto do outro lado do Atlântico, de onde só chegam péssimos exemplos, não houve equívocos nem hesitações, muito menos protecção do poder a quem, ainda que invocando a respectiva inocência, não terá estado à altura dos seus direitos e das suas obrigações. Não se arranjaram desculpas, não foi preciso um clamor público, nem manifestações de rua. O que já se sabia, aliado às memórias póstumas de Virginia Giuffre, retiraram qualquer margem de manobra à Coroa. E na hora de decidir impuseram-se a dignidade e o dever. Sem alarido, sem dramas, sem teatro.
Muito haverá a criticar, certamente, sobre a acção ou os privilégios dos monarcas numa democracia, em especial em relação à de Westminster, mas é dali, e de um outro farol cada vez mais trémulo, que contra o temporal de insânia e os ventos que sopram de diversos quadrantes que ainda nos chega a luz do exemplo. Exemplo para outras monarquias, mas também para democracias consolidadas e autocracias, sejam estas de direita, de esquerda ou de raiz teológica.
O que aconteceu no Reino Unido não será muito diferente do que fez Filipe VI em relação ao seu pai e à defesa da Coroa espanhola. E que também aqui mereceu na altura o destaque merecido.
E se é verdade, o que acredito, que a nobreza não está no sangue, como bem se vê comparando irmãos, sejam Carlos e André ou William e Harry, mas antes na elevação do gesto, no rigor do comportamento, pois que é daí que vem o exemplo, a dignidade e a autoridade moral de uma elite, de quem governa, de quem nos representa, na república ou na democracia, neste momento impõe-se dizer que a Carlos III “honor is due“.
A cada um o que é devido. O resto será com os historiadores.
