Liderar a direita?


Luís Menezes Leitão,

O Pedro abaixo chama a atenção para que, enquanto André Ventura se proclama líder de direita, nunca Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho o fizeram.

A razão é óbvia. Nunca nenhum desses três alguma vez se considerou como de direita.

Sá Carneiro proclamava-se social-democrata e até socialista, tendo na altura procurado aderir à Internacional Socialista, o que foi vetado pelo PS. Aliás o primeiro jornal da JSD intitulava-se “pelo socialismo”.

Também Cavaco Silva nunca se considerou como de direita, referindo ser social-democrata na linha de Eduard Bernstein. Paulo Portas na altura comentou que Bernstein não passava de um “socialista danado” e que a direita estava a votar em quem não era de direita.

Quanto a Passos Coelho, não deu para perceber qual era de facto a sua política. Com um governo manietado por um programa de ajustamento, limitou-se a executar esse programa. Tudo, desde os cortes de salários, a reforma do arrendamento, e as privatizações, foi imposto pela troika. No início apareceu de facto com propostas de uma política liberal, sugerindo a privatização da Caixa Geral de Depósitos, mas rapidamente a abandonou, e a pública Caixa Geral de Depósitos continua alegremente a ser o maior banco português.

Já André Ventura aparece de facto a proclamar-se o líder da direita em Portugal, tanto assim que o Chega surge em consequência da deriva esquerdista do PSD de Rui Rio, que libertou o flanco direito dos eleitores do PSD para outros partidos. É muito duvidoso, no entanto, que o programa político do Chega se possa considerar como de direita, já que esse partido votou ao lado do PS em muitos assuntos, designadamente na abolição das portagens, e prepara-se para o voltar a fazer na reforma laboral.

O Movimento 2031.


Luís Menezes Leitão,

Parece que Cotrim de Figueiredo quer arranjar um 31 à IL, criando um Movimento 2031 para “dar expressão aos 900 mil votos que teve“. Isto só me faz lembrar a Fundação Portugal Século XXI, criada por Freitas do Amaral para gerir os 49% que este teve nas eleições presidenciais, e que rapidamente se extinguiu sem qualquer glória após ter realizado meia dúzia de conferências. No caso do movimento de Cotrim, ainda vai ser pior, pois ele nada mais tem para oferecer aos portugueses, que não seja a exibição do seu enorme ego, pelo que nem umas conferências conseguirá organizar. Teria feito melhor em anunciar o seu rápido regresso ao Parlamento Europeu, que foi para onde foi eleito. Não deixo de estranhar que o cargo de deputado europeu seja compatível com uma candidatura presidencial.

Para a Gronelândia, rapidamente e em força.


Luís Menezes Leitão,

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Parece que vários países europeus decidiram responder em força às provocações dos Estados Unidos sobre a Gronelândia, e já fizeram deslocar tropas para o território, rapidamente e em força. A França fez deslocar 15 soldados, enquanto que a Alemanha enviou 13 soldados. Trata-se de uma força impressionante, e que seguramente controlará sem qualquer dificuldade um território que tem apenas 2.166.000 km2.

Esta história só me faz lembrar O Mandarim, de Eça de Queiroz, em que Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino, afirmava a um general russo: “E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China»“. Pelos vistos com metade das tropas, a França e a Alemanha varrem a Gronelândia.

Salazar e a proposta dos EUA de pagar pelas colónias.


Luís Menezes Leitão,

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A estratégia dos EUA de quererem pagar a países europeus para que estes deixem de controlar territórios no exterior já tinha sido tentada em relação às colónias portuguesas na presidência de Kennedy. Em 1963 Kennedy pediu ao embaixador americano Charles Elbrick que arranjasse um encontro entre o subsecretário George Ball e Salazar. Elbrick arranja o encontro e Ball transmite a Salazar que os EUA tinham passado a defender a independência de Angola e que por isso os portugueses teriam que abandonar esse território. Em contrapartida os EUA compensariam Portugal de todos os prejuízos que este sofresse com a perda de Angola.

Salazar ouve atentamente essa proposta sem fazer qualquer comentário. No final da exposição limita-se a perguntar:

— Mais alguma coisa?

— Não, responde Ball.

— Então muito obrigado. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Passe bem, Senhor Embaixador.

Depois de saírem do gabinete, Elbrick vira-se para Ball e diz-lhe:

— É a última vez que vamos ouvir falar deste assunto.

Um exército europeu na Gronelândia?


Luís Menezes Leitão,

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Acho graça a esta posição de querer mandar tropas da União Europeia para a Gronelândia, em ordem a evitar um confronto com os EUA. Parecem esquecer-se de que a Gronelândia deixou a então CEE em 1985 após um referendo realizado em 1982, precisamente pelo motivo de que a Gronelândia não ficava na Europa, mas antes na América, estando junto ao Canadá. Essa situação coloca a Gronelândia ao abrigo da doutrina Monroe, que não admite a existência de colónias de países europeus no continente americano. Seria estranhíssimo que, depois de a Gronelândia ter saído da CEE em referendo, levando a que a então CEE tivesse na altura perdido metade do seu território, agora a UE mandasse tropas para a ocupar em apoio à Dinamarca. A Dinamarca faz parte da UE mas a Gronelândia não, precisamente por decisão própria. Não se vê por isso com que legitimidade um exército europeu poderia ser deslocado para lá.

O General Tapioca foi derrubado.


Luís Menezes Leitão,

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Há vários anos que denuncio neste blogue as patifarias do golpista Nicolás Maduro, verdadeira imitação do General Tapioca do Tintim. Em 13 de Agosto de 2017 critiquei veementemente a pseudo assembleia constituinte por ele criada para se perpetuar no poder, tendo-lhe chamado uma fantochada. Voltei a ter a mesma opinião em Julho do ano passado, quando o mesmo se proclamou vencedor de umas eleições fraudulentas

Não consigo por isso lamentar a queda deste homem, que tão mal fez ao povo venezuelano, colocando-o na maior miséria, quando dispõe dos maiores recursos naturais do mundo. O regime chavista já há muito que devia ter acabado e, se tal ocorreu ontem, só se pode dizer que já foi tarde.

Blogue da semana.


Luís Menezes Leitão,

Há um blogue que consulto regularmente devido à sua clara análise sobre os diversos problemas nacionais, tendo por ironia adoptado a designação do epíteto crítico dado a um antigo Presidente da República. Num tempo em que as eleições presidenciais estão ao rubro, e se espera que não seja eleito nenhum Presidente com essas características, o corta-fitas é o blogue da semana.

Angst essen Seele auf.


Luís Menezes Leitão,

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O post abaixo da Cristina fez-me lembrar um filme absolutamente fabuloso de Rainer Werner Fassbinder de 1974 sobre a situação dos trabalhadores migrantes na Alemanha. O filme intitula-se em alemão Angst essen Seele auf, que foi mal traduzido para português por O medo devora a alma. Digo mal traduzido, porque o título, reproduzindo uma fala de um trabalhador migrante, não se encontra em alemão correcto, nos termos do qual seria die Angst ißt die Seele auf.

O filme conta a história de uma viúva alemã, que se envolve com um trabalhador marroquino, muito mais novo, a residir na Alemanha, e do impacto que a relação entre os dois tem na comunidade, sendo fortemente rejeitada pelos filhos e pelos vizinhos. Mas o que mais choca no filme é a forma insidiosa com que o trabalhador marroquino é tratado pelos alemães, chegando ao ponto de numa mercearia, devido ao seu mau alemão, se recusarem a vender-lhe um produto, fingindo que não o entendiam e dizendo-lhe para ir aprender alemão primeiro: “Erst lernen Sie Deutsch, dann können Sie wiederkommen“. Naturalmente que por isso, ao sentir essa rejeição constante, o trabalhador marroquino não se integra na sociedade alemã, procurando estar com outros imigrantes, até pelo simples desejo de comer comida marroquina. Tal não impede, no entanto, que ele realize o seu trabalho para uma fábrica alemã em péssimas condições, o que lesa gravemente a sua saúde.

É por isso que sempre considerei extremamente hipócrita a expressão que se usa na Alemanha para designar os trabalhadores migrantes: Gastarbeiter, ou seja trabalhadores convidados. Na verdade, os trabalhadores migrantes são aqueles que realizam o trabalho que os nacionais não querem realizar, ainda por cima em condições que nenhum trabalhador nacional aceitaria. É por isso que existe neste âmbito uma discriminação silenciosa. Nada me chocou mais por isso do que saber há quatro anos que havia apenas cinco inspectores laborais para todo o Baixo Alentejo. Fiquei a pensar em que condições estão os trabalhadores migrantes a realizar o trabalho no nosso país.

O apoio de José Sócrates.


Luís Menezes Leitão,

Salienta o Pedro abaixo o que deve ter sentido Gouveia e Melo no momento em que soube do apoio de Sócrates. Tivemos a possibilidade de assistir à sua reacção ontem no debate com o Jorge Pinto. Tomou conhecimento do apoio em directo, subiu-lhe a mostarda ao nariz, e ainda tentou atacar o mensageiro, considerando provocatória a pergunta sobre esse apoio.

Quanto a Sócrates, apoiaria qualquer um que não fosse António José Seguro, o único que se opôs ao seu domínio absoluto no PS. Por isso António José Seguro foi derrubado na primeira oportunidade, numa coligação Sócrates-Costa, que no entanto se desfez logo que Sócrates foi preso. Nessa altura António Costa pediu aos militantes que não falassem sobre o assunto e só visitou Sócrates na prisão muitos meses depois. Em resposta Sócrates abandonou o PS.

Por isso a obsessão dos apoiantes de António Costa no PS é evitar a todo o custo que António José Seguro passe à segunda volta, mesmo depois de o PS o ter decidido apoiar. Sócrates pode ter-se zangado com António Costa e o PS, mas partilha claramente dessa estratégia. Se para isso é necessário votar em Gouveia e Melo, assim seja.

O estado da TAP.


Luís Menezes Leitão,

Já há muitos anos que tenho sido passageiro frequente na TAP e tenho assistido perplexo à contínua degradação do seu serviço. Deixaram de servir refeições na classe económica, procurando vender antes alimentos que não vejo ninguém comprar. Os passageiros são sempre obrigados a ir de autocarro, quando as outras companhias usam as mangas, e agora também recusam sistematicamente a utilização das milhas para vôos ou upgrades, levando a que as milhas naturalmente acabem por caducar.

Recentemente tive ocasião de viajar em duas companhias de bandeira, a Finnair e a Air Serbia. Em ambas foram servidas refeições e o acesso ao avião foi muito mais facilitado do que na TAP.

Parece que o Estado quer exigir aos candidatos à privatização da TAP uma série de condições como hub em Lisboa, manutenção da marca, etc. Talvez fosse preferível exigir antes que simplesmente melhorem o funcionamento do seu serviço. Cada vez que penso que o Governo do PS meteu 3,2 mil milhões nesta companhia para ela funcionar desta forma, parece-me manifesto que os interesses dos portugueses estão a ser altamente lesados com esta situação.

Blogue da semana.


Luís Menezes Leitão,

Apesar de residir em Lisboa há muitos anos, sou natural de Coimbra, de onde toda a minha família paterna é originária. Presto por isso atenção às referências na internet à cidade do Mondego e à sua preclara Universidade. Tenho por isso acompanhado um blogue que traz excelentes informações sobre o património de Coimbra e a sua história. A’ cerca de Coimbra é por isso o blogue da semana.

A cisão do PS.


Luís Menezes Leitão,

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Os sinais que têm surgido nos últimos dias parecem indicar que o PS está à beira da cisão. Na verdade, o PS teve desde sempre uma ala esquerda e uma ala direita, que rivalizavam no poder. Essa situação ficou logo expressa no congresso de Janeiro de 1975, quando Manuel Serra, próximo do PCP, desafiou o líder Mário Soares que, apesar disso, conseguiu vencer. Desde então Mário Soares colocou o PS na área do centro-direita, tendo ficado célebre a sua afirmação de que iria colocar o “socialismo na gaveta“.

Quando Mário Soares chegou à Presidência da República, foi eleito secretário-geral do PS Vítor Constâncio, claramente mais à esquerda do que o seu antecessor, tanto assim que até convidou Lurdes Pintasilgo para ser cabeça-de-lista ao Parlamento Europeu. Os resultados eleitorais foram, porém, sempre medíocres, levando a que em 1987 Cavaco Silva obtivesse uma maioria absoluta, com uns extraordinários 50% dos votos, depois de uma disparatada moção de censura dos partidos de esquerda, a única aprovada até hoje.

Tendo-se demitido, após um discurso dramático contra Soares, Vítor Constâncio viria a ser substituído por Jorge Sampaio, oriundo do GIS, e que colocou o PS ainda mais à esquerda, chegando a liderar uma coligação paritária com o PCP à Câmara de Lisboa. Essa coligação  saiu vitoriosa contra Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de iniciativas mediáticas deste, como o mergulho no Tejo ou a condução de um táxi em Lisboa. A estratégia política de Jorge Sampaio foi, porém, claramente derrotada a nível nacional, levando a que Cavaco Silva reforçasse em 1991 a sua maioria absoluta, que já tinha sido um resultado surpreendente quatro anos antes.

Declarando-se “em estado de choque” com os resultados do PS, António Guterres avançou contra Jorge Sampaio, tendo vencido facilmente e voltado a permitir o domínio da ala direita no PS. Tal permitiu-lhe ganhar as eleições de 1995 e 1999 (esta última no limiar da maioria absoluta). Tendo saído por vontade própria, seria substituído por Ferro Rodrigues, mais uma vez da ala esquerda do PS, desta vez oriundo do MES, o qual perdeu as eleições contra Durão Barroso. Este, no entanto, abandonaria o país em busca dos prados verdejantes de Bruxelas, sendo substituído por Santana Lopes, que se revelou um desastre governativo. Ferro Rodrigues, revoltado com a não marcação de eleições pelo seu amigo Jorge Sampaio, deixaria também o cargo de secretário-geral, sendo substituído por José Sócrates.

José Sócrates também estava claramente colocado à esquerda, tendo apenas vencido as eleições de 2005 e 2009 devido ao mau desempenho dos então líderes do PSD. No entanto, acabou por perder as eleições em 2011 para Passos Coelho, depois de ter levado o país à bancarrota. António José Seguro voltou a recentrar o PS, e até ganhou as eleições europeias em 2014, mas viria a ser derrubado por António Costa, numa aliança com José Sócrates.

António Costa, desde sempre um antigo apoiante de Jorge Sampaio e por isso claramente da ala esquerda do PS, perdeu igualmente as eleições em 2015, mas conseguiria formar governo com o apoio do PCP e do BE, ainda que com a contrapartida de governar claramente à esquerda, o que não o incomodou nada. O país sofre por isso hoje com as medidas disparatadas dos seus governos, depois de o mesmo, à semelhança de Durão Barroso, ter também partido para os prados verdejantes de Bruxelas.

Pedro Nuno Santos, o tal que ameaçava pôr a tremer as pernas dos banqueiros alemães, foi eleito secretário-geral do PS, mais uma vez pela ala esquerda do partido, que sempre o viu como o delfim de António Costa. Apenas depois de perder duas eleições, a última das quais com estrondo, o mesmo desistiu, levando a que José Luís Carneiro assumisse o cargo.

Só que José Luís Carneiro não está a conseguir unir o partido, que vive presentemente num clima de guerra civil entre as duas alas esquerda e direita, como antes nunca se viu. António José Seguro candidata-se a Presidente da República e é violentamente atacado pelos apoiantes de António Costa, que se dedicam a empurrar outros candidatos. Ricardo Leão, autarca de Loures, toma medidas de demolição de construções ilegais no espaço público, como a lei expressamente impõe, e é atacado com cartas abertas, mais uma vez de militantes do PS, isto na véspera de umas eleições autárquicas, que o partido deveria estar empenhado em vencer.

A conclusão só pode ser uma. Os militantes do PS, em lugar de fazerem oposição ao Governo e aos partidos que o apoiam, fazem oposição a outros militantes do PS. Quando isso acontece num partido, só se pode concluir que o mesmo está à beira da cisão.

Eleições autárquicas (4).


Luís Menezes Leitão,

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Um concelho onde se verifica um verdadeiro drama político, com contornos de romance de folhetim, é precisamente o de Vila Nova de Gaia. Começou pela perda de mandato do actual Presidente, Eduardo Vítor Rodrigues, condenado à perda de mandato por peculato de uso — uso indevido do veículo de uma empresa municipal — o que o levou a renunciar ao cargo, depois de ter perdido todos os recursos, incluindo no Tribunal Constitucional, apesar de já ter voltado a recorrer para o plenário desse Tribunal. O autarca considerou ridículo o processo, referindo apenas ter feito um desvio para ir à padaria. E efectivamente, como alguns comentadores têm referido, a sanção parece totalmente desproporcionada e muito pouco conforme com o respeito que é devido ao mandato conferido pelos eleitores, que não deve ser retirado pelos tribunais por dá cá aquela palha.

Em qualquer caso, Eduardo Vítor Rodrigues não se poderia recandidatar, pois já estava no terceiro mandato, pelo que o PS apresenta João Paulo Correia como candidato a Gaia. João Paulo Correia está ligado a Gaia, tendo sido Presidente da União de Freguesias de Mafamude e Vilar do Paraíso até 2022, sendo ao mesmo tempo deputado pelo círculo do Porto em várias legislaturas. Tal não impediu, no entanto, que tenha ocorrido a desfiliação do PS por um actual e antigo Presidentes de Junta de Freguesia em Gaia. A situação motivou a habitual troca de galhardetes, uma vez que o Presidente da União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada, justificou a sua saída do PS “após mais de 30 anos de militância activa” por entender o partido se afastou “das linhas orientadoras essenciais que historicamente o definiram, deixando para segundo plano os valores e princípios que deveriam ser intransponíveis num partido com a sua história e responsabilidade“. O partido em questão não partilha, no entanto, dessa visão, considerando antes a sua saída como “um acto de lamentável oportunismo e de ambição pessoal desmedida”.

Perante este ambiente no PS, Luís Filipe Menezes decidiu aos 72 anos voltar a um lugar onde já foi feliz, e voltar a candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Gaia, à frente de uma coligação composta pelo PSD, CDS e IL, sendo acompanhado por Paulo Rangel, como candidato à presidência da Assembleia Municipal. Não temos quaisquer dúvidas de que Paulo Rangel exercerá o cargo de presidente da Assembleia Municipal de Gaia com total dedicação e enorme brilhantismo, em acumulação com o cargo de Ministro de Negócios Estrangeiros em Lisboa ou em viagem pelas capitais da Europa e do Mundo. Quanto a Luís Filipe Menezes, o seu principal projecto para Gaia são as pontes para o Porto, o que me fez recordar um texto que escrevi neste blogue sobre projecto semelhante que apresentou em Junho de 2012. Em qualquer caso, acho que Luís Filipe Menezes tem fortes probabilidades de voltar a ganhar a Câmara de Gaia doze anos depois de a ter deixado e se ter candidatado sem sucesso ao Porto. O seu regresso, tantos anos depois, fará lembrar o regresso do Conde de Monte-Cristo.

Eleições autárquicas (3).


Luís Menezes Leitão,

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O município de Braga sempre foi um bastião socialista no Norte do País. Num verdadeiro exemplo do parque jurássico autárquico, que durante décadas se manteve em Portugal, Braga foi dirigida pelo socialista Mesquita Machado entre 1976 e 2013, ou seja durante 37 anos. E Mesquita Machado, como Presidente da Câmara de Braga, tinha ainda imensa influência no Partido Socialista, sendo o seu apoio essencial para a eleição e manutenção do secretário-geral.

A vitória de Ricardo Rio em Braga em 2013 representou por isso um golpe brutal no PS, que acreditou poder recuperar a Câmara a breve trecho. Não teve, porém, qualquer sucesso, pois Ricardo Rio é seguramente um dos melhores autarcas que este país alguma vez viu, não tendo tido por isso qualquer dificuldade em ser sucessivamente reeleito até atingir o limite legal de mandatos em Braga.

Os bons resultados de Ricardo Rio deveriam levar a que o PSD facilmente pudesse conservar a Câmara de Braga. Como aqui se refere, não é, porém, isso o que está a acontecer, uma vez que o PSD decidiu lançar um candidato, João Rodrigues, que é filho do dono de uma gasolineira cliente da Spinumviva, e casado com uma advogada da Spinumviva. Parece haver assim, uma enorme presença da Spinumviva nesta candidatura. Só que, como Montenegro explicou que o nome da empresa se inspirou nas peixeiras de Espinho, que quando vendiam o seu peixe, gritavam o pregão: “É de Espinho, viva!“, torna-se difícil que essa origem seja bem acolhida em Braga, que fica a 76km de Espinho, e não é conhecida pela pesca de mar. A não ser que se pretenda convencer os eleitores bracarenses de que afinal o nome da empresa se refere a outra Espinho, freguesia do concelho de Braga. Em qualquer caso, prevejo que o PSD vai entrar em terreno espinhoso para vender o seu peixe nesta campanha.

Prevendo isso, Rui Rocha decidiu assumir, em nome da Iniciativa Liberal, uma candidatura à Câmara de Braga. Em ordem a assegurar um debate eleitoral absolutamente centrado nos problemas da autarquia, já garantiu que o caso Spinumviva nunca será tema de campanha. Pelo contrário, mostrando-se focado no combate às alterações climáticas, referiu ao NOW que “não vai ser uma questão de gasolina, vai ser uma questão de nova energia para Braga“. E efectivamente o slogan da campanha é “uma nova energia para Braga“, cidade que assim abandonará os combustíveis fósseis e naturalmente as gasolineiras.

Mas, em Braga, os partidos do centro-direita enfrentam ainda a concorrência de outro candidato independente, Ricardo Silva, do Movimento Amar e Servir Braga. O candidato é o actual Presidente da Junta de Freguesia de São Victor, tendo sido eleito em 2013 e 2017 pela coligação liderada pelo PSD, tendo concorrido como independente e vencido essa coligação em 2021, o que justifica a sua ambição de voltar a atingir esse resultado, agora numa candidatura à Câmara.

Sucede, porém, que o PS apresenta um candidato forte, um antigo vereador de Mesquita Machado, que se chama António Braga. Proclamando-se de Braga “de nome e coração“, António Braga lança a sua candidatura com o slogan “Somos Braga“, o que ninguém poderá dizer que não é absolutamente verdadeiro.

O que me parece é que, com esta proliferação em Braga de candidaturas de centro-direita, esses candidatos arriscam-se a que o concelho volte a ser o bastião socialista que já foi. E nesse caso ficarão a ver Braga por um canudo…

Eleições autárquicas (2).


Luís Menezes Leitão,

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Quer se queira, quer não, o resultado da eleição autárquica em Lisboa vai ser decisivo para se saber quem pode cantar vitória na noite eleitoral do próximo dia 12 de Outubro. Pessoalmente estou convencido que se, na noite de 16 de Dezembro de 2001, João Soares não tivesse perdido surpreendentemente a câmara de Lisboa para Santana Lopes, António Guterres não se teria demitido de primeiro-ministro, apesar dos maus resultados eleitorais do PS no resto do país. E a verdade é que a situação em Lisboa está longe de estar decidida.

Apesar do tabu que continua a manter, é evidente que Moedas vai ser candidato, independentemente dos problemas que está a ter em manter a coligação que o apoiou. Só que os lisboetas estão muito insatisfeitos com a sua gestão. Na verdade, Moedas tem sido o zero absoluto como Presidente da Câmara de Lisboa. O lixo acumula-se nas ruas, o trânsito está insustentável, e ele assobia para o lado. Candidata-se, no entanto, a integrar um grupo de peritos europeu sobre a habitação, onde é aceite, provando que o seu coração está em Bruxelas, não em Lisboa.

A sorte de Moedas é ter do outro lado Alexandra Leitão, da ala mais radical do PS, que dificilmente poderá protagonizar uma candidatura vencedora. Quanto ao candidato do Chega, ninguém sabe quem é e provavelmente vai continuar sem saber até ao dia das eleições. Já João Ferreira, que repete pela enésima vez a sua candidatura pela CDU, terá seguramente o mesmo resultado que teve das outras vezes ou ainda pior. Por isso dificilmente algum deles poderá ameaçar a reeleição de Moedas.

No entanto, se surgisse uma candidatura independente credível a Lisboa, acho que Moedas estaria em muito maus lençóis, devido à enorme insatisfação que o seu mandato causou nos lisboetas.

Eleições autárquicas (1).


Luís Menezes Leitão,

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Descobrimos que está a haver uma grande mobilidade nos partidos políticos, quando o Chega apresenta Lina Lopes, até há pouco tempo militante do PSD, como candidata à Câmara de Setúbal, enquanto que, não querendo ficar atrás, o PSD apresenta como candidata à mesma Câmara Maria das Dores Meira, antiga militante do PCP. Opções políticas inteiramente justas, especialmente a última, que está a gerar imenso entusiasmo junto dos militantes do PSD de Setúbal.

O ataque ao Irão.


Luís Menezes Leitão,

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Tenho idade suficiente para me lembrar da fuga precipitada do Xá do Irão em Janeiro de 1979 com uma revolução islâmica a explodir no país, que logo a seguir assistiu a uma tomada de reféns na Embaixada dos EUA, um verdadeiro acto de guerra e uma humilhação para a América, que levou à não reeleição de Carter.

Não me espanta por isso que, na sua imensa vaidade, Trump queira agora vingar a humilhação então sofrida e ajustar contas com o Irão, derrubando o seu regime.

Não acredito, porém, em qualquer regresso da monarquia ao Irão. Como disse a Rainha D. Amélia a D. Manuel II, quando a família real portuguesa partiu da Ericeira, do exílio não se regressa. Na verdade, mais valia a família real iraniana ter adoptado em 1979 a posição da Imperatriz Teodora, que disse ao Imperador Justiniano, que pretendia fugir perante uma revolta que então grassava no Império Bizantino: “a púrpura (o manto dos Imperadores) é uma linda mortalha”.

A homenagem a Ramalho Eanes.


Luís Menezes Leitão,

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Não há português que mereça mais ser homenageado no 10 de Junho do que o General António Ramalho Eanes, hoje com 90 anos de idade de uma vida intensa ao serviço de Portugal.

Tendo feito o serviço militar em África, participou no 25 de Abril e foi o herói do 25 de Novembro, que terminou com as loucuras revolucionárias do PREC, permitindo a aprovação da Constituição por uma Constituinte várias vezes ameaçada pelos revolucionários da extrema-esquerda. Depois foi Presidente da República durante dez anos, sempre eleito com votações apoteóticas.

Mais recentemente recordo a sua entrevista à RTP em Abril de 2020, no período mais terrível da pandemia, onde, então com 85 anos, apelou a que em caso de necessidade não o colocassem num ventilador para permitir que o mesmo pudesse atribuído a um homem de 40 anos com mulher e filhos. A sua coragem serena e o seu exemplo de serviço público foram sempre essenciais para Portugal nas horas mais difíceis.

Os ataques dos ministros de António Costa a António José Seguro.


Luís Menezes Leitão,

Não há nada que mais me divirta do que assistir a antigos ministros de António Costa a atacar a candidatura presidencial de António José Seguro, precisamente o único socialista que até agora teve a coragem de assumir uma candidatura. Isto depois de os governos em que participaram terem conduzido o PS e o país ao abismo em apenas oito anos, enquanto que o seu líder partiu alegremente para um exílio dourado em Bruxelas, o que não o impede de querer condicionar por interpostas pessoas as escolhas do seu partido. É assim que primeiro surge Mariana Vieira da Silva a dizer que há dez anos que não se conhece uma ideia a António José Seguro. Depois vem o seu pai, José Vieira da Silva, a dizer que António José Seguro não tem o perfil desejável para ser apoiado pelo PS. Dá gosto ver uma tão grande convergências de posições entre pai e filha, apesar da diferença de gerações, o que talvez se possa explicar pelo facto de terem estado os dois ao mesmo tempo nos governos de António Costa, situação que causou perplexidade até no Parlamento Europeu. O que cabe perguntar é porque é que nenhum dos dois se candidata à presidência da república ou até a líder do partido, em vez de se manterem como treinadores de bancada. Enquanto o PS continuar neste estado não vai longe.