A dois passos do paraíso – 2


Teresa Ribeiro,

A segunda meninice começa mais tarde. Antes, é à segunda adolescência que chegamos. Voltamos a pensar nos grandes temas da vida e o fascínio é o mesmo que sentimos aos 15 anos, como se todas essas reflexões tivessem ficado fechadas em frascos com formol, à espera que as retomássemos. A pressa de viver também volta. A diferença, agora, é que estamos cheios de razão.

Produções Ventura


Teresa Ribeiro,

Dias depois da exibição do célebre vídeo apresentado por Ventura, que pretendia enxovalhar os outros partidos da Assembleia da República mostrando os seus gabinetes vazios, ficamos a saber do assalto ao Chega. Do caos das imagens mostradas ressalta o quadro de Nossa Senhora no chão, com o vidro intacto e o terço elegantemente sobreposto. Parece um milagre o quadro da santinha ter resistido à fúria dos vilões – certamente maçons ou comunas, caso contrário não teriam derrubado a imagem – sem um arranhão. Para os devotos do partido que diz representar as pessoas de bem, esta imagem vale mais que mil palavras, atestando a ligação que o seu querido líder diz ter com o reino dos céus. O problema é que para quem não acredita em milagres, a tentação de associar o tal vídeo mentiroso, que mostrava os gabinetes dos outros partidos às moscas, a um assalto tão proveitoso do ponto de vista da comunicação política, é enormíssima.

Falham porque podem


Teresa Ribeiro,

Imagino-me no lugar das famílias e dos comerciantes que estão na Caparica e calculo a revolta que hão-de sentir por estarem há tantos dias privados, por longos períodos, do abastecimento de um bem tão essencial como a água. Sobretudo depois de terem ficado a saber pelos media que a Câmara de Almada e os serviços municipalizados sabiam há muito que havia rupturas graves na rede de abastecimento e nada fizeram. Se a justiça funcionasse e existisse o perigo real de os cidadãos, em massa, processarem o Estado por perdas e danos, outro galo cantaria. Mas a cultura, neste país onde a justiça é uma parede e a impunidade um modo de vida, não é essa.

Autopsicosofia


Teresa Ribeiro,


Já fui estúpida e inteligente, prepotente e submissa, ignorante e culta, beta e pirosa, forreta e perdulária, expansiva e introspectiva, calorosa e gélida, espontânea e calculista, ingénua e perspicaz, sortuda e azarada, competente e incompetente, corajosa e cobarde, justa e injusta, forte e fraca, discreta e indiscreta, esquerdista e reaccionária, potencial assassina, anjo vingador. E podia continuar, na certeza de que tudo o que deste teor acrescentasse à lista, seria verdadeiro.
Basta fazer este género de exercício para facilmente se provar que a verdade, de facto, é muito relativa. Depende dos olhos de quem nos avalia, das suas e nossas circunstâncias, de momentos de inspiração, da nossa arte de conquistar, da nossa inépcia, de erros de interpretação e até do corpo. De como se apresenta esgotado ou em forma, atento ou distraído.
A verdade, que não existe em absoluto, decompõe-se nestas experiências que temos com ela. E a beleza de tudo isto está nesta arbitrariedade, que nos permite, à medida que os anos passam, saber cada vez melhor relativizar-nos, rir-nos de nós próprios e das certezas que justa ou injustamente despertámos nos outros.

Política é civismo


Teresa Ribeiro,

Constato, desde há muito, que mais depressa as pessoas falam publicamente da sua intimidade do que de política. Ainda há pouco tempo li, no Público, uma crónica que começava com a afirmação: “Não gosto de falar de política”. Um desabafo tranquilo, de quem sabe que está a exprimir uma posição consensual. Este pudor sempre me intrigou, visto que não há nada que tenha mais impacto no “condomínio” social em que vivemos do que a política. Discutir política é, em última análise, um acto cívico. Exprime envolvimento, preocupação, sentido crítico e desejo de clarificar tudo o que de polémico vai acontecendo neste âmbito. 

Ao contrário, cultivar a reserva e o distanciamento sobre este tema é negar uma dimensão muito importante da nossa vida colectiva e passar a mensagem errada para as gerações vindouras, a de que a política não interessa a ninguém. Nada mais falso, nada mais perigoso.

Coisas de nada


Teresa Ribeiro,

É possível estabelecer e até construir uma relação, por limitada que seja, com base na troca rotineira de muito poucas palavras? Tão vazias de conteúdo quanto o são as palavras que fazem parte do protocolo da civilidade básica? Tenho meditado nisto desde que, há vários anos, passei a trabalhar em edifícios de escritórios com portaria 24 horas.

“Bom dia”, “Boa Tarde” e “Até amanhã” é ao que se resume, na maior parte das vezes, o “diálogo” que mantenho com os vários porteiros de turno. E, no entanto, tenho de todos eles uma opinião diferente. E o inverso, não duvido, é também verdadeiro.

Claro que é o tom de voz e a boa ou má qualidade do contacto visual que aqui fazem a diferença. Com uns simpatizo, com outros não. Àqueles que me cativaram mais, cumprimento num tom diferente, que reforço com um sorriso. Não o faço deliberadamente, é espontâneo. A modulação da minha voz e a expressão do meu rosto mudam automaticamente, ajustando-se em fragmentos de segundo ao meu interlocutor do dia. 

Não me ocorre uma relação diária que seja mais minimal que esta. E é isso que a torna interessante como objecto de estudo. Revela de forma inequívoca o poder da expressão facial na comunicação entre estranhos, a facilidade com que reagimos aos detalhes e construímos a partir deles um juízo de valor, a ligeireza com que formamos opiniões mesmo não sabendo nada de nada acerca das pessoas que entraram no nosso campo de observação. Em suma, a futilidade que subjaz à construção da imagem do outro.

Estou ciente de tudo isto e no entanto não consigo evitar  ter opiniões diferentes sobre cada uma das pessoas que diviso na portaria do prédio. Ignoro o que se passa nas suas vidas. Não lhes conheço um único pensamento. São, para todos os efeitos, estranhos com quem me cruzo todos os dias. Estranhos com rostos a que reajo. Como se dois rostos quando se olham fossem reagentes químicos. 

Extrapolando para relações mais complexas, por exemplo como as que estabelecemos com os estranhos que julgamos conhecer dos media e da política, acabamos a meditar sobre a fragilidade e arbitrariedade de avaliações, que dependem, muito mais do que gostaríamos, da linguagem não verbal. Há cada vez mais carreiras políticas que se constroem e alimentam disto. Só disto. Porque, ainda que informados, deixamos.

Comprar para esquecer


Teresa Ribeiro,

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Nada como passar pelo supermercado para apreciar o efeito de rebanho que as campanhas natalícias provocam nos consumidores. Parecem abelhinhas numa colmeia. E isto já se observa há semanas. Os senhores que nos pastoreiam lá sabem por que o Natal deve começar cada vez mais cedo. Apesar de termos uma vida difícil, gastamos mais quando pressionados. É esta a premissa número 1 de um bom marketeer.

O consumidor é um animal manso e obediente. Já assumiu que o Natal começa em Outubro e que a febre das compras tem de se cumprir, com ou sem dinheiro para gastar, logo se vê. Como se consegue este efeito multiplicador? É um mistério da fé. A verdade é que todos os anos os congestionamentos de trânsito em torno dos centros comerciais e as filas quilométricas para os caixas do supermercado se cumprem. Aos que resistem a esta via crucis por terem a mania que são diferentes, restam as pequenas excentricidades como a de só comprar em lojas de rua, de preferência no bairro, ou melhor ainda, fazer as compras natalícias ao longo do ano. Também há quem teime em festejar o Natal apenas a partir do dia 1 de Dezembro, como antigamente. Sou um orgulhoso membro deste grupo de resistentes. De alguma forma sinto que me redime de todo este desconcerto consumista em que me deixo arrastar.

Também compro quase tudo em lojas de rua. Menos mal. De resto compro, compro e compro o Natal como se não houvesse amanhã. Talvez para esquecer – visto que não tenho filhos ou sobrinhos pequenos, nem netos – que o Pai Natal não existe.

Blogue da semana


Teresa Ribeiro,

É uma sessão de tortura quando o condomínio é vasto, pois há sempre alguém que discorda da opinião geral, ou que não respeita a agenda de trabalhos e suspende a discussão em curso com considerações laterais. Se o imóvel já tem uns anitos, pior ainda, porque ao problema de chegar a consensos soma-se os que da idade do prédio resultam. Nestas condições as horas passam, a custo. O serão distende-se noite fora e não há nada que nos salve da… reunião de condomínio. Facilita, porém, conhecermos as regras que regulam estas agremiações heterogéneas e forçadas, por isso recomendo desta vez um blog de carácter utilitário, boa fonte para quem gosta de se preparar para a luta. Esta semana o vizinhos.blog é o blogue da semana.

O homem mais bonito do mundo


Teresa Ribeiro,

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Envelhecer também é isto. Ver desaparecer um após outro os adultos que amámos ou admirámos quando éramos crianças ou adolescentes. Não é comparável a dor face à morte de um parente chegado ou amigo, com a que experimentamos quando nos morre alguém que amámos à distância, diluídos num colectivo de fãs anónimos. Mas movidos por emoções, às vezes tão antigas, podemos surpreender-nos com uma sensação de perda tão funda, tão nossa, que nos confundimos.

Robert Redford foi o meu sex symbol. Durante muito tempo sei que eu e uma infinidade de mulheres pelo mundo inteiro concordámos em considerá-lo o homem mais bonito do mundo. Que ainda por cima – oh céus! – somava beleza a talento e atitude, atributos que lhe granjearam prestígio e o respeito dos seus pares.

Derreti-me ao vê-lo em “O Nosso Amor de Ontem”, ao lado de Barbra Streisand, invejei a fascinante Faye Dunaway, que foi par dele em “Os Três Dias do Condor” e adorei a dupla que fez com Paul Newman, o homem que o lançou para o estrelato em “Dois Homens e um Destino” (voltariam a contracenar em “A Golpada”). Não vou despejar aqui todos os títulos de filmes que vi com ele. Os poucos que falhei foram rodados no final da carreira, por razões atendíveis: às nossas pessoas reais, não podemos fazer isso, mas numa relação de celulóide, ainda que íntima, é fácil evitar, sem culpa, interpor rugas e cabelos brancos nas lembranças que queremos preservar sem mácula. No caso, as da minha paixão eterna e desmesurada – porque adolescente – pelo homem mais bonito do mundo.

Era aqui que eu descia


Teresa Ribeiro,

Era nesta estação de metro que eu descia, todos os dias, para vir para o escritório. Era, mas deixou de ser no dia em que a entaiparam para começar umas obras. Ignoro se trataram logo de pôr os cartazes a informar sobre a data de conclusão das mesmas. A minha experiência dizia-me que só daí a muito tempo eu teria a serventia daquela ala da estação de volta, por isso nem liguei. Ontem passei por lá e, curiosa, fui ver, enfim, o que os tais cartazes diziam. Para o caso de não se ler muito bem na foto, reproduzo a informação da C.M.L.: conclusão das obras em 24.6.24; retirada do tapume  em 5.2.25.

A câmara e o metro no seu melhor. Nem se dão ao trabalho de actualizar. Afinal escrever o quê? Para quem? Para os utentes? Essa gentinha sem rosto que por necessidade ou por capricho escolhe não andar de carro em Lisboa?

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Agenda escondida?


Teresa Ribeiro,

Num país onde enfrentamos problemas demográficos graves, anunciar medidas que vão dificultar mais a vida às mães que trabalham parece absurdo. Como JPT já referiu no post abaixo que também dedicou ao tema, não são estas alterações à lei laboral que vão fazer a diferença na vida das empresas, por isso só encontro uma lógica nisto, a que se destina a promover o retorno das mães ao aconchego do lar. Sim, há cada vez mais vozes a defendê-lo. Para muitos, afirmar que “a família está em primeiro lugar” é desejar nada menos que o regresso do velho modelo: mulheres em casa, a cuidar dos filhos, homens na rua a ganhar a vida. Só não o proclamam aos quatro ventos, porque sentem que ainda não chegou o momento. Mas a agenda já circula por aí. Escondida. 

Notícias em fast motion


Teresa Ribeiro,

Se já tinha esta rotina desde há tempos, agora ainda me empenho mais em mantê-la. Jornais na TV, só os vejo com 30 a 40 minutos de atraso. Margem segura para escapar aos intervalos de pub e que me permite ver quais foram as notícias do dia em dez, vá lá 15 minutos, caso alguma me tenha feito parar o botão do fast forward

Este exercício revela com evidência até que ponto – não sei se por preguiça, se por falta de recursos humanos – nos servem despudoradamente quatro ou cinco temas ao jantar, sempre os mesmos, como se mais nada houvesse para noticiar. A abrir, os fogos e fenómenos climáticos extremos noutras paragens. Depois, as urgências hospitalares que fecharam. A seguir, Gaza e Ucrânia. E para rematar, futebol, que a época já começou, o que é um alívio – com os programas de comentário político em férias, há que preencher o vácuo com bola. 

Sobretudo na abertura dos jornais faço questão de não abrandar. Mesmo aceleradas, aquelas reportagens com bombeiros e gente do campo em aflição despertam-me uma sensação de impotência indizível. Podiam pescar aleatoriamente reportagens de verões anteriores que não se notaria a diferença. Tudo igual. Como se de um rito macabro se tratasse.

Blogue da semana


Teresa Ribeiro,

Para os apaixonados por História, o blogue da Cristiana Vargas é um lugar muito apetecível, onde a propósito de fotos antigas e objectos de museu, entre outros documentos, ficamos a saber de episódios que são – diz ela e eu concordo – O Sal da História. Ir a banhos ao passado refresca-nos sempre as ideias quanto ao presente que temos, por isso deixo aqui a sugestão. Esta semana passem por aqui e surpreendam-se.

Blogue da semana


Teresa Ribeiro,

Respeito-o muito. Porque é inteligente, culto, independente. Porque pensa o país e sofre por ele. Pois não há meio de se tornar mais evoluído, mais decente. Com uma democracia robusta, madura, onde o sistema funcione com eficiência.

Esta semana temos como blogue da semana o Jacarandá, onde volto sempre e nunca regresso vazia.  

Ganhar a rua


Teresa Ribeiro,

Há semanas, na rubrica “O Homem que Mordeu o Cão”, que passa na Rádio Comercial, ouvi o Nuno Markl contar a seguinte história:

Uma mulher, que gostava de fazer jogging, após várias tentativas viu-se obrigada a desistir, com grande frustração, da sua corrida porque sempre que saía à rua para treinar sentia-se insegura, perseguida pelos olhares e dichotes dos homens com quem se cruzava. Até que um dia teve uma ideia: comprou uma peruca, um bigode postiço, um fato de treino masculino e assim disfarçada de homem experimentou voltar a correr. Foi um descanso. A partir daí nunca mais quis outra vida.

A história faz-nos sorrir, mas revela de forma bem clara a diferença que ainda existe entre ser homem e ser mulher num mundo supostamente civilizado.

Infelizmente não faltam exemplos de casos trágicos de discriminação sexual, mas esses inspiram muitos e muitas a pensar “isto não é comigo, não faz parte do meu mundo protegido”. Puro engano. O diabo, como diz o povo, está nos detalhes.

A última das três Marias


Teresa Ribeiro,

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Entrevistei-a o ano passado para o Público, a propósito do relançamento da obra de Maria Lamas “As Mulheres do Meu País”. Então com 86 anos, a última das 3 Marias conservava no olhar a fibra da rebeldia, algo que contrastava em absoluto com a sua evidente fragilidade física. Esse desconcerto enterneceu-me, expôs de forma explícita o que ela era, o que sempre fora. Na altura estava a ser requisitada para várias coisas ao mesmo tempo. Entrevistas na televisão, noutros jornais, coisas que tinham a ver com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Não escondia o cansaço nem a felicidade de ter de ser obrigada a andar numa roda-viva. Se nunca ninguém a impedira de fazer da sua vida o que queria, não seria a idade a dobrá-la.

Falámos de feminismo, perguntei-lhe o que pensava das mulheres – tantas – que fazem questão de se declarar “femininas e não feministas”. Respondeu-me: “Sinto que há muitas mulheres que não têm consciência de tudo o que foi conquistado. Durante anos e anos andaram mulheres a lutar pelos seus direitos e sofreram muito. Foram presas, espancadas, humilhadas. Eu fui insultada e espancada na rua. Enquanto me batiam disseram-me ‘Isto é para aprenderes a não escreveres como escreves’.”

 Ela e as outras duas marias (Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa) tiveram a ousadia de escrever um livro, “As Novas Cartas Portuguesas”, onde se falava das necessidades afectivas das mulheres e do seu desejo de emancipação. Lançado em 1972, foi considerado pornográfico pelo anterior regime e imediatamente apreendido. Estas recordações ainda lhe incendiavam o olhar. Era um orgulho. O seu e o das mulheres que sentia representar.

Na hora da despedida, agradeço-lhe tudo o que ajudou a conquistar para mim, para a minha filha e, quem sabe, para uma futura neta. E fica a promessa: pela parte que me toca, sempre honrarei a memória das feministas do meu país.