A História tem nome de ilha: Malta – parte 3


Ana CB,

O nascimento de uma capital

A maior cidade de Malta, Valeta (Il-Belt Valletta na língua local), é rica em história, arte e arquitectura. Planeada com rigor e visão, é hoje considerada um dos mais notáveis exemplos de urbanismo renascentista na Europa, distinção que lhe valeu o reconhecimento como Património Mundial da UNESCO em 1980.

 

Fundada em 1566 pelo Grão-Mestre da Ordem de São João, Jean Parisot de Valette, a cidade nasceu na sequência directa do Grande Cerco de 1565 em resposta à necessidade de criar uma capital fortificada capaz de proteger Malta de futuras ameaças. Substituindo Birgu como sede do poder, Valeta foi concebida de raiz como o novo centro político, militar e religioso da maior ilha do arquipélago, reunindo num espaço compacto os principais edifícios administrativos, religiosos e defensivos da Ordem.

Ao longo dos séculos, a cidade tornou-se o palco de acontecimentos decisivos da história de Malta. Em 1798, durante a sua expedição ao Egipto, Napoleão Bonaparte ocupou Malta quase sem resistência, entrando em Valeta e decretando o fim do domínio dos Cavaleiros. As propriedades da Ordem foram confiscadas e muitas instituições religiosas encerradas ou saqueadas, mas o facto de ter expropriado os bens da Igreja não granjeou popularidade ao Imperador. A presença francesa revelou-se breve: a insatisfação popular levou à revolta dos malteses, que pediram auxílio aos britânicos. As forças francesas foram cercadas até à sua rendição em 1800. Com o declínio definitivo da Ordem como poder governante em Malta deu-se início a um novo capítulo na história de todo o arquipélago maltês.

Jardins suspensos

O meu primeiro contacto com Valeta foi à distância, na embarcação que me levou de Bormla (uma das Três Cidades) através das águas do Grande Porto. Dali, a cidade impõe-se pela solidez e pela ordem. As suas linhas regulares, erguidas em socalcos sobre o mar, deixam claro que Valeta não nasceu ao acaso, mas que foi construída para afirmar poder, ordem e permanência no Mediterrâneo.

 

No topo das muralhas compactas que resguardam Valeta, uma sucessão de arcadas em pedra cor de mel chama imediatamente a atenção: são os Upper Barrakka Gardens, uma espécie de balcão suspenso sobre o porto e miradouro incontornável para quem visita a cidade pela primeira vez.

Foram inicialmente criados, no século XVII, como jardim privado e local de recreio para os Cavaleiros de língua italiana da Ordem, aproveitando a plataforma superior do Bastião de São Pedro e São Paulo – a parte mais alta da fortificação de Valeta. Espaço em tempos parcialmente coberto, o seu tecto foi removido em 1775, deixando as arcadas expostas ao céu e tornando o jardim no terraço aberto como hoje o vemos.

 

Para quem vem do cais, o acesso às alturas dos Upper Barrakka Gardens é facilitado por um elevador externo – uma torre de metal gradeado, de linhas modernas e escorreitas, encostada ao rochedo calcário sobre o qual foi construído o jardim. Já lá em cima, entre as arcadas de pedra que definem o recinto, pequenos canteiros geométricos, palmeiras e arbustos introduzem um contraste verde e fresco num lugar dominado pela pedra. Estátuas discretas e placas comemorativas surgem aqui e ali, como notas visuais de rodapé da história. Ao longo do parapeito, os antigos canhões da Saluting Battery lembram que o local, hoje dedicado à contemplação, foi durante séculos um ponto estratégico de defesa – e as suas salvas cerimoniais, que se fazem ouvir de segunda a sexta ao meio dia e às 4 da tarde, destacam esse papel importante.

Seguindo a linha das muralhas para a direita, e embora mais discreta, nota-se uma outra mancha verde. Mais íntimos e recolhidos, os Lower Barrakka Gardens têm um carácter quase meditativo. O jardim parece feito para quem procura silêncio e um momento de afastamento do bulício de Valeta. Os caminhos são mais estreitos, ladeados por árvores e arbustos densos e decorados com placas comemorativas de eventos históricos europeus, e há menos gente. A vista a partir deste jardim, igualmente ampla, é direccionada para a entrada do porto, onde os elementos distractivos são quase inexistentes e os azuis predominam – o do mar, e o do céu. As copas das árvores filtram a luz e oferecem sombra bem-vinda, e os bancos que as rodeiam pedem uma pausa para repousar e apreciar a paisagem.

Fortaleza religiosa

Valeta foi concebida como uma cidade-fortaleza, uma máquina de guerra bem organizada, com ruas em grelha, bastiões imponentes e uma rede de túneis e passagens subterrâneas para defesa. Mas no coração desta cidade planeada ao detalhe, que reflecte a visão estratégica da Ordem que governou Malta durante três séculos, há um contraponto espiritual: a Concatedral de São João.

 

Partilhando o estatuto episcopal com a catedral de Mdina, a Concatedral de São João permanece actualmente como o principal e mais simbólico edifício religioso de Valeta. Foi construída entre 1573 e 1578 por ordem do Grão-Mestre Jean de la Cassière, para servir como igreja conventual da Ordem. A sua fachada, cuja sobriedade é quase austera, esconde um interior que traduz a ambição, a riqueza e a devoção dos Cavaleiros que governaram Malta. O contraste sente-se assim que entramos: é uma celebração exuberante do barroco, adicionado no século XVII sobretudo sob a direcção do artista calabrês Mattia Preti. As paredes e abóbadas estão inteiramente cobertas por frescos que narram episódios da vida de São João Batista, padroeiro da Ordem, criando um ambiente teatral e profundamente simbólico.

 

O chão desta catedral é um dos elementos que mais me impressionou. Composto por cerca de quatrocentas lápides de mármore policromado, cada uma delas marca o local de sepultura de Cavaleiros ilustres. Estão decoradas com brasões, alegorias da morte e inscrições que contam histórias de glória, fé e sacrifício.

Entre os tesouros mais notáveis da Concatedral encontra-se a obra-prima de Caravaggio, “A Decapitação de São João Baptista”, exposta no Oratório. É a maior pintura que o artista alguma vez realizou e a única que assinou, uma obra de dramatismo intenso que sintetiza luz, sombra e emoção de forma magistral.

 

A cripta, uma câmara subterrânea situada sob o altar-mor, guarda os restos mortais dos primeiros onze Grão-Mestres que lideraram a Ordem de São João entre 1522 e 1623, incluindo os de Philippe Villiers de L’Isle Adam (1521-1534), que trouxe a Ordem para Malta em 1530.

Datam desta mesma época os edifícios, importantes ainda hoje, que serviam como albergues para os Cavaleiros de São João. É o caso do Auberge de Castille et Portugal (construído a mando do Grão-Mestre português Manuel Pinto da Fonseca), que era sede dos Cavaleiros de Castela, Leão e Portugal e hoje aloja o Gabinete do Primeiro-Ministro; do Auberge de Provence, que é agora o Museu Nacional de Arqueologia; ou do Auberge d’Italie, que abriga actualmente o MUŻA-National Community Art Museum.

 

Igreja de São Paulo Náufrago, situada no coração de Valeta, é uma das mais importantes e veneradas igrejas de Malta, e está profundamente ligada à identidade religiosa do arquipélago. Dedicada ao episódio bíblico do naufrágio de São Paulo na ilha, narrado nos Actos dos Apóstolos, assinala simbolicamente o local onde, segundo a tradição, o apóstolo teria vivido após o naufrágio ocorrido no ano 60 d.C. – acontecimento fundador do cristianismo em Malta. A igreja actual começou a ser construída no final do século XVI sobre um templo mais antigo, e foi sendo ampliada e enriquecida ao longo dos séculos, reflectindo a devoção contínua da população maltesa a São Paulo, considerado o padroeiro da nação.

O exterior apresenta uma fachada sóbria, que contrasta com o interior ricamente decorado em estilo barroco, marcado por altares ornamentados, mármores coloridos e pinturas de grande valor artístico. Entre os seus maiores tesouros destacam-se as relíquias de São Paulo – incluindo um fragmento do pulso do apóstolo – e a célebre estátua processional em madeira esculpida no século XVII, usada anualmente nas celebrações da Festa de São Paulo Náufrago. Para além do seu significado espiritual, a igreja é também um espaço de memória do percurso histórico que moldou Malta, tendo sobrevivido a danos durante a Segunda Guerra Mundial.

A essência de Valeta descobre-se igualmente através de outros edifícios religiosos de grande relevância histórica e artística. A Igreja de Nossa Senhora das Vitórias foi a primeira a ser erguida na cidade em 1566 e, mais do que um templo, é um símbolo do triunfo cristão após o Grande Cerco. A sua vizinha da frente, dedicada a Santa Catarina, foi construída pelos Cavaleiros italianos paredes-meias com o seu albergue. A Basílica de São Domingos tem uma fachada côncava imponente e um interior ricamente ornamentado em estilo barroco. A Igreja dos Jesuítas é outra das construções religiosas mais antigas e arquitectonicamente marcantes da cidade. E as igrejas franciscanas de São Francisco de Assis e de Santa Maria de Jesus preservam importante património artístico e histórico, integrando-se harmoniosamente no tecido urbano de Valeta e contribuindo para o carácter religioso e cultural da cidade. No seu conjunto, estes locais de culto reforçam a riqueza do património sacro de Valeta e são motivos de interesse para quem procura decifrar a alma de Malta através da sua arquitectura religiosa e da sua memória.

Antigo e moderno

Entrar em Valeta pelo seu acesso terrestre é uma experiência menos avassaladora do que a chegada por mar, mas igualmente peculiar. No espaço desafogado que precede as muralhas, onde o frenesim dos autocarros brancos e verdes marca o ritmo do quotidiano, a Fonte dos Tritões assume o protagonismo. Com as suas três figuras de bronze que sustentam um disco circular, esta obra de meados do século XX é uma espécie de preâmbulo artístico à cidade em si, fundindo a tradição e a modernidade que também a definem. Ao atravessar as Portas da Cidade – na sua já quinta versão, que data de 2014 e tem a assinatura do arquitecto Renzo Piano – a amplidão da praça desvanece-se no bulício das ruas cheias de gente. É neste limiar, entre o novo Parlamento de linhas vanguardistas e o peso histórico dos bastiões, que a identidade visual de Valeta começa a revelar-se nos seus pormenores mais íntimos.

Valeta é um labirinto geométrico de ruas estreitas, edifícios de calcário dourado e coloridas varandas de madeira, que se tornaram um símbolo da cidade e de Malta, conferindo-lhe um carácter único tão importante para os residentes como atractivo para os visitantes. Tenho de confessar que estas varandas fechadas, típicas das ilhas maltesas, são uma das particularidades que mais me fascinam: representam a combinação perfeita entre funcionalidade, estética e personalidade. Apesar de elevadas à categoria de ícone nacional, estes elementos arquitectónicos só se popularizaram na ilha a partir do século XVIII – até então, o habitual era que as varandas fossem abertas e feitas de pedra, material abundante nas ilhas, em contraste com a madeira, mais escassa e valorizada. O seu desenho remete para a mashrabiya, a janela islâmica tradicional que filtrava a luz e ventilava as casas, permitindo ao mesmo tempo ver sem ser visto. Pintadas com cores vibrantes e muitas vezes enfeitadas com pequenos ornamentos, estas varandas destacam-se no tecido urbano histórico de Valeta, e é impossível ficar-lhes indiferente. Caminhar pela cidade é, por isso, também um exercício de olhar constantemente para o alto.

 

Ainda assim, a história de Valeta não se lê apenas na harmonia visual das suas fachadas; lê-se igualmente nas suas ausências e reconstruções. À entrada da cidade, logo a seguir ao Parlamento, encontra-se um dos exemplos mais pungentes da memória da Segunda Guerra Mundial: as ruínas do Teatro Real. Inaugurado em 1866, durante o auge do domínio britânico, foi em tempos um dos edifícios mais majestosos da Europa, até ser bombardeado pela Luftwaffe em 1942. Hoje, as colunas de pedra que restaram foram integradas num teatro ao ar livre, servindo de lembrança permanente do sacrifício maltês e da resiliência de uma cidade que se recusa a apagar as suas cicatrizes.

 

A influência britânica em Malta, que se estendeu de 1800 a 1964, permanece gravada no ADN urbano e cultural de Valeta. Para quem vem do Grande Porto, a imponente Victoria Gate, construída em 1887 para assinalar o Jubileu de Ouro da Rainha Vitória, continua a marcar a entrada na cidade. Substituindo uma antiga porta aberta nas muralhas que rodeiam Valeta, articula simbolicamente dois tempos históricos: o legado militar dos Cavaleiros de São João e a era vitoriana, durante a qual Malta consolidou o seu papel como peça-chave na rota mediterrânica do império britânico.

Percorrendo a cidade, é impossível não reparar nas cabines telefónicas vermelhas e nas caixas de correio encimadas pela coroa real, discretos mas eloquentes vestígios de uma administração que moldou instituições, infra-estruturas e hábitos quotidianos. Ainda assim, são os edifícios e monumentos de maior escala que narram de forma mais expressiva a transição de Malta de bastião estratégico do Império Britânico para Estado soberano.

 

A herança britânica manifesta-se ainda na língua inglesa, co-oficial com o maltês, no sistema jurídico de matriz anglo-saxónica e até na condução à esquerda, sinais menos visíveis mas profundamente enraizados na vivência quotidiana. Em Valeta, esta sobreposição de camadas históricas não nos aparece como ruptura, mas como sedimentação: cada época acrescenta um capítulo sem apagar totalmente o anterior. A capital maltesa afirma-se como um palimpsesto urbano onde a identidade se constrói pela convivência entre memórias diversas.

Dormir num palácio

Palácio histórico localizado no coração de Valeta, a Casa Rocca Piccola oferece uma janela para a vida da aristocracia maltesa ao longo dos séculos. O edifício data de finais do século XVI e tem uma história rica que reflecte as tradições e os costumes malteses. Além de estar actualmente aberto ao público como casa-museu, este palácio tem uma ala reservada para alojamento de hóspedes. Foi aqui que fiquei instalada nas últimas noites que passei em Malta.

A Casa Rocca Piccola foi construída por volta de 1580 para um cavaleiro da Ordem de São João, Don Pietro La Rocca, de quem deriva o seu nome. Como muitas outras residências em Valeta, foi projectada de acordo com os princípios renascentistas, com uma estrutura funcional e elegante. Ao longo dos séculos, o palácio mudou de mãos várias vezes, mas permaneceu sempre associado à aristocracia maltesa. Desde o século XX, tem sido propriedade da família de Piro, uma das famílias nobres mais antigas de Malta. Fica numa zona tranquila da rua principal de Valeta, a dois passos de toda a animação, mas quando passamos a porta de entrada é como se entrássemos na máquina do tempo.

 

O actual dono da Casa Rocca Piccola é o 9.º Marquês de PiroNicholas de Piro, que reside na casa com a família. Nicholas de Piro tem desempenhado um papel importante na preservação da história e da cultura de Malta. Ele e a mulher, Frances, abriram a Casa Rocca Piccola ao público e têm trabalhado para transformar partes da casa num museu acessível, preservando o seu valor histórico e permitindo que os visitantes explorem a história da vida aristocrática em Malta.

Com mais de 80 anos, o Marquês é um senhor afável e bem disposto, com uma cultura e uma memória excepcionais, e a sua presença activa nas visitas guiadas dá um toque pessoal e autêntico à experiência, tornando-a especial. Tive a sorte de o ter como companhia durante a minha visita e de ouvir as histórias da sua família e da sua vida.

 

A Casa Rocca Piccola abriga uma colecção impressionante de arte, mobiliário e objectos históricos, que reflecte não só os gostos da família de Piro, mas todo o estilo de vida da elite maltesa. São mais de 50 divisões (nem todas acessíveis ao público em geral), entre salões, quartos e escritórios. As paredes exibem retratos de elementos de várias gerações da família, além de muitos outros quadros. Nas várias divisões estão expostos inúmeros objectos de prata, livros raros, instrumentos musicais e objectos religiosos. Um dos destaques é uma mesa de jantar decorada com talheres antigos, usados em ocasiões especiais. A casa tem uma pequena capela privada, testemunho da devoção religiosa profundamente enraizada na cultura maltesa e na vida da família. E podemos ainda visitar um antigo túnel convertido em abrigo antiaéreo durante a Segunda Guerra Mundial.

O jardim interior é uma jóia clássica que evoca os palazzi italianos. Foi neste jardim que tomei tranquilamente os meus pequenos-almoços, rodeada de vegetação típica do Mediterrâneo e tendo como banda sonora a água que flui de uma fonte ornamentada e as conversas de Kiku, o papagaio da família. Este lugar precioso está actualmente aberto ao público com o nome de Cafe Effervescence.

No quarto Santiago, onde dormi, os elementos que decoram a cama vieram de uma igreja de Lisboa. O quarto e a casa-de-banho (enorme!) estão adaptados a pessoas com problemas de mobilidade, e quando fiz a reserva perguntaram-me se preferia colchão duro, médio ou macio – uma cortesia que não é habitual. A decoração do quarto tem como inspiração as vieiras de Santiago de Compostela, local de proveniência de uma grande concha de madeira pendurada na parede.

A atmosfera de uma casa antiga constantemente habitada e preservada é sempre especial, e a Casa Rocca Piccola sabe receber muito bem. Uma experiência que recomendo.

Capital de permanências e transformações

Após mais de século e meio de administração britânica, Malta proclamou a sua independência em 1964, e dez anos depois constituiu-se como república, consolidando um percurso de afirmação nacional. Já no século XXI, a adesão à União Europeia e a entrada na zona euro projectaram Malta para uma nova escala de pertença e responsabilidade. Valeta mantém-se como centro decisor e rosto institucional do país, conciliando heranças mediterrânicas, britânicas e europeias.

A cidade tem vindo também a afirmar-se como destino turístico de primeira ordem, mostrando que é mais do que apenas um cenário para fotografias apressadas. Valeta está repleta de esplanadas animadas e de restaurantes onde a tradição mediterrânica dialoga com influências internacionais. Oferece, durante a maior parte do ano, uma programação cultural que atravessa museus, palácios, igrejas e festivais. Nas ruas ouvem-se conversas em todas as línguas, reflexo da presença de residentes e visitantes de múltiplas nacionalidades, que reforçam um ambiente cosmopolita e aberto ao mundo. Vista de fora, com as suas muralhas poderosas, projecta austeridade. Lá dentro, descobrimos uma cidade alegre, colorida, com uma vitalidade contemporânea que não dilui a sua memória histórica; antes a complementa, conferindo-lhe uma energia renovada.

Capital constante ao longo de séculos de mudança, Valeta permanece como testemunha privilegiada das transformações de Malta — uma cidade que, sem renegar as suas camadas históricas, continua a reinventar-se, fiel à sua vocação de ponte entre mundos.

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(Artigo já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

A História tem nome de ilha: Malta – parte 2


Ana CB,

Em 1091, Malta foi reconquistada pelos Normandos e integrada no Reino da Sicília. A ilha passou por diferentes governantes cristãos, incluindo os Angevinos e os Aragoneses, mantendo-se como parte do sul de Itália. Em 1530,Carlos V de Espanha concedeu Malta à Ordem dos Cavaleiros de São João, que estabeleceram a sua primeira sede em Birgu e transformaram a massa de água agora conhecida como Grande Porto numa espécie de fortaleza inexpugnável – característica que continua bem visível nos dias de hoje. O evento mais marcante deste período foi o Grande Cerco de 1565, quando os Cavaleiros e os malteses resistiram heroicamente à invasão otomana, reforçando a importância histórica e estratégica de Malta e do Grande Porto. Foi só após a vitória que construíram Valeta, a nova capital.

Três Cidades, seis nomes

Olhando para o mapa da ilha de Malta, não há como ignorar os recortes profundos talhados na costa leste, como se fossem dedos de várias mãos. Valeta fica no centro desta área e é o pólo principal de atracção dos visitantes. A norte, em Sliema, concentra-se o grosso dos alojamentos turísticos – e também uma mole de prédios altos a perder de vista, tal como em tantas outras cidades do mundo. Confesso que ignorei Sliema propositadamente, o ambiente que procurava era outro. A sul de Valeta, do lado de lá do Grande Porto, encontram-se as Três Cidades: Vittoriosa, Senglea e Cospicua – ou, em maltês, Birgu, L-Isla e Bormla, respectivamente. É conveniente reconhecer os seus nomes malteses, pois são eles que predominam na sinalização rodoviária e de transporte, pese embora em Malta o inglês seja língua oficial e comum (falada por 88% da população).

 

Birgu, a vitoriosa

Devido à sua localização estratégica, abrigadas no Grande Porto, as Três Cidades tiveram como origem pequenos povoados fenícios, cartagineses e romanos. Durante a Idade Média, desenvolveram-se como importante núcleo portuário em torno de um braço de mar, com Birgu no lado esquerdo, Isla no direito e Bormla ao fundo. Sendo a mais próxima da entrada do porto, Birgu destacou-se pela sua vantagem defensiva e por isso tornou-se a primeira sede dos Cavaleiros da Ordem de São João, quando Malta lhes foi concedida por Carlos V.

 

A atmosfera nas Três Cidades é mais calma e menos cosmopolita do que a de Valeta, o que as torna uma excelente opção para quem procura tranquilidade. Foi por essa razão que nos primeiros dias da estadia em Malta escolhi ficar em Birgu. Misturando tradição e uma modernidade simples, o ambiente desta localidade é discreto e sossegado, sobretudo ao início da manhã e à noite, quando a maior parte dos turistas regressa a Sliema, Valeta ou St. Paul’s Bay, as localidades onde a oferta de alojamento é maior. Com Senglea e Cospicua (as outras duas das Três Cidades) facilmente alcançáveis a pé e Valeta a uma dezena de minutos de barco, além de ter autocarros frequentes para outras partes da ilha, Birgu foi ideal para “sentir o pulso” ao país fora do comum que Malta me revelou ser.

Fiquei num alojamento local situado numa ruazinha em que mal cabe um carro e, por isso mesmo, pouco ruidosa. A excepção foram os foguetes que interrompiam o silêncio às 8 da manhã e à noite, lançados de tão perto que mais pareciam fogo de artilharia. Comemorava-se naquela altura o Centenário da constituição do governo autónomo de Malta e, além disso, aproximava-se o 8 de Setembro, o Dia da Vitória. Esta data celebra o fim de três grandes cercos a Malta: o do Império Otomano em 1565, o bloqueio francês a Valeta em 1800 e o da Segunda Guerra Mundial pelas Forças do Eixo. A ilha estava em festa e, lá como cá, festa significa manifestações ruidosas.

Ainda assim, Birgu revelou-se perfeita para evitar a confusão turística. O alojamento, no nº 17 da rua Santa Skolastica, fica perto da Pjazza tal-Belt à Vittoriosa, o centro da localidade, onde há tudo o que é preciso: autocarros até Valeta e outros pontos da ilha, cafés e restaurantes, um minimercado onde comprar água e fruta, e acesso pedonal fácil à marina partilhada pelas Três Cidades.

Toda a arquitectura de Birgu é uma ode à resistência. As ruas estreitas são herança medieval e as coloridas varandas de madeira remetem para o norte de África, que está ali tão perto. A pedra calcária das casas torna-se dourada sob o sol maltês e protege do calor intenso (Malta tem uma média de 300 dias de sol por ano). Trepadeiras e flores emprestam um pouco de natureza ao ambiente que, sem elas, seria mais árido.

 

Na Triq it-Tramuntana (que significa Rua do Norte), encontramos a casa mais antiga de Birgu: a Id-Dar Normanna. Supõe-se que date do século XIII, embora possa ser anterior. Construída em estilo siciliano-normando (evidente também em várias casas da localidade de Mdina), é notável a sua janela dupla ornamentada com motivos de palmeiras.

Na Triq Hilda Tabone, uma surpresa. Cravada no pilar robusto de uma casa de esquina, uma laje de mármore anuncia o “Auberge de Castille et Portugal”. Este edifício foi o segundo albergue dos Cavaleiros da Ordem de São João oriundos do nosso país e de Castela e Leão. Sabe-se que existiu um primeiro albergue, mas a sua localização exacta permanece desconhecida. Os Cavaleiros portugueses e espanhóis foram transferidos para aqui em 1555, e permaneceram no local até 1574, quando um novo albergue foi criado em Valeta.

 

Por estranha que pareça esta coabitação entre Portugal e Castela, dois reinos tantas vezes desavindos, ela devia-se tão só a uma questão prática dentro da estrutura da Ordem, que agrupava os Cavaleiros por “línguas” (ou nações). Na realidade, a Ordem funcionava como uma entidade supranacional, unindo indivíduos de diferentes regiões em torno de um objectivo comum: a defesa da fé cristã no Mediterrâneo. Na mesma rua encontra-se também o “Auberge de France”, onde se alojavam os Cavaleiros de Auvergne e da Provença. Está listado no Inventário Nacional das Propriedades Culturais das Ilhas Maltesas, mas sofreu alterações ao longo do tempo e, actualmente, apenas resta uma parte do edifício original.

Malta é um estado laico, mas a religião católica continua a ser um componente importante da vida social e política, com a Igreja a desempenhar um papel significativo nas questões educacionais e de bem-estar social. Em Birgu não faltam evidências desta espiritualidade. A mais proeminente é a Igreja de São Lourenço, dedicada ao santo padroeiro dos marinheiros. Vigiando as águas a partir da encosta sobre a marina, é um exemplo notável da arquitectura barroca maltesa, com a sua fachada imponente e um interior ricamente decorado que exibe obras de arte e relíquias de grande valor.

 

Mesmo em frente, uma rotunda com um monte artificial domina a praça. É o Monumento do Dia da Liberdade, erigido para comemorar um ponto de viragem na história política moderna de Malta. Construído com grandes pedras trazidas das falésias de Dingli e plantado com diferentes tipos vegetação mediterrânica, traz simbolicamente o campo para a cidade. No topo do monte há quatro figuras alegóricas em tamanho real que representam um marinheiro britânico que se despede com um último aperto de mão a um trabalhador maltês, outro trabalhador maltês que hasteia a bandeira maltesa e um corneteiro. Reproduzem a cerimónia do dia 31 de Março de 1979, quando o governo britânico encerrou a sua base militar em Malta – o dia em que Malta passou a ser um país verdadeiramente independente.

 

O extenso paredão que acompanha a marina foi lugar de passeios agradáveis, sobretudo ao cair da tarde, quando as sombras se apropriavam dos edifícios, arrefecendo a pedra, e a água reflectia as primeiras luzes que se iam acendendo. A marina é concorrida e abriga embarcações de todas as espécies: veleiros e iates modernos, barcos malteses tradicionais, barquinhos pequenos e básicos. A coabitação é pacífica e não choca, antes empresta ao lugar um cunho de autenticidade, de recusa de um certo elitismo que é frequente noutros ambientes semelhantes. Aproveitando o passeio, foi aqui que jantei na primeira noite, num dos vários restaurantes dispersos ao longo do cais, o Don Berto – cujo ponto forte, como dá para perceber pelo nome, é a cozinha italiana (mas também propõe vários pratos de peixe).

Em Birgu, os dias começavam invariavelmente com um pequeno-almoço na esplanada do Cafe du Brazil, observando o movimento na Pjazza tal-Belt à Vittoriosa – que, note-se, nunca era muito: habitantes locais nas idas e vindas dos seus afazeres diários, alguém sentado no banco à espera do autocarro, a descarga de uma carrinha para abastecer o minimercado, um carro a passar de vez em quando. A praça não é particularmente atractiva, talvez por ser um rectângulo irregular ou por uma percentagem avantajada do seu espaço estar ocupada por carros estacionados. Ou talvez por ter como motivo principal não apenas um, mas sim dois obeliscos com estátuas, ambos descentrados, colocados a uma vintena de metros um do outro no lado sul da praça. Não são um par. Um deles é o Monumento da Vitória, que comemora (como não podia deixar de ser) o triunfo no Grande Cerco de 1565. O outro tem no topo uma escultura que representa São Lourenço, o santo protector de Birgu.

Ainda assim, nos edifícios em volta da praça há algumas varandas típicas e um deles, o Palazzo Huesca, tem uma fachada particularmente bonita, decorada com elementos barrocos e ferros forjados. Além de ser a sede da Sociedade Musical de São Lourenço, fundada em 1883 e cuja banda de sopro foi a primeira da cidade, tem também um café-restaurante, o BeBirgu. Vale a pena ignorar a esplanada e optar por comer no pátio interior, aonde se chega atravessando um belo corredor que mantém a decoração e a aura de outros tempos.

Outra das boas surpresas de Malta foi perceber que se come bem em todo o lado, independentemente do tipo de comida que se escolha. Ficou-me na memória uma deliciosa focaccia que um empregado simpático me serviu no Tal-Papas, um restaurantezinho despretensioso numa rua lateral à praça, num final de tarde em que o apetite não pedia grandes refeições. O restaurante mudou entretanto de nome e de menu, mas permanece a lembrança dessa focaccia: fininha, estaladiça, bem temperada e saborosa. O prazer das coisas simples.

No extremo norte de Birgu, o Forte de Sant’Angelo é uma presença monumental e a imagem de marca da localidade. Construído sobre as estruturas de antigas fortificações medievais, desempenhou um papel crucial durante o Grande Cerco, tornando-se a cidadela mais importante da Ordem. Actualmente é um espaço cultural que acolhe eventos e exposições, e as suas muralhas maciças continuam a dominar a paisagem do Grande Porto.

 

A sul, os limites de Birgu são também definidos pelas muralhas dos antigos bastiões – altas, robustas, impossíveis de ignorar. Um dos bastiões aloja o Museu da Guerra e a Biblioteca Regional, junto à Porta de Provença, que é o acesso rodoviário principal ao centro histórico. Qualquer que seja o ponto de acesso a Birgu, a pé, de barco ou sobre rodas, a primeira impressão é sempre a de estarmos a entrar numa fortaleza. Vittoriosa, o nome que lhe foi dado em homenagem à sua resistência contra os otomanos, assenta-lhe como uma luva.

Bormla, entre o declínio e a modernidade

Mais conhecida por Cospicua, o seu nome oficial, Bormla é uma localidade de contrastes. Partilha com as suas vizinhas um passado de resistência, esplendor e cicatrizes profundas deixadas pelo tempo e pela guerra. Foi rebaptizada pelos Cavaleiros da Ordem de São João como Cospicua, significando “proeminente”, em reconhecimento do seu papel defensivo e importância estratégica e da coragem e determinação dos seus habitantes durante o Grande Cerco. Mas para os malteses ela será sempre Bormla, o nome que carrega a sua identidade mais antiga.

Saindo de Birgu, de repente já estamos em Bormla e nem damos por isso. A marina é comum a ambas e não há limites visíveis. Num dos braços do Grande Porto, onde antes existiam estaleiros e docas industriais, agora há embarcações modernas. A envolvente da marina espelha o contraste entre o passado e a modernidade, fruto de uma recuperação cuidadosa que trouxe uma nova dinâmica à zona ribeirinha das Três Cidades.

 

Na margem leste da Dock No. 1, uma extensa esplanada de lajes calcárias em socalcos acompanha o declive suave até à água, desembocando numa ampla área relvada. Uma ponte pedonal metálica une as duas margens da doca e sobre a erva há bancos estrategicamente colocados, convidando ao descanso. Mais à frente destaca-se a “Dgħajsa tar-Riħ”, uma escultura que homenageia o património industrial autóctone de Malta e a apreciação da perícia e da evolução do design de barcos e da aviação. Criação do artista plástico Matthew Pandolfino, é uma estrutura gigantesca em metal oxidado que agrega um zepelim e um dgħajsa tal-pass – o táxi aquático tradicional amplamente utilizado para transportar passageiros no Grande Porto nos séculos XVIII e XX, hoje em dia apenas usado pelos turistas.

 

Este cenário de renovação convive com a presença imponente da Igreja da Imaculada Conceição, cuja cúpula domina a paisagem urbana, recordando a espiritualidade enraizada em Bormla. Foi construída em estilo barroco entre 1730 e 1738 sobre um antigo templo medieval, com grandes colunas na sua fachada simétrica de pedra calcária e um portal central ladeado por janelas e nichos com estátuas religiosas. Ergue-se majestosa no cimo de uma grande escadaria, e a sua cúpula maciça é visível de vários pontos das Três Cidades. Contrasta com as edificações mais modestas que a rodeiam e com a modernidade da marina, numa lembrança constante da profunda devoção maltesa.

 

Na orla oeste da doca alonga-se o histórico Edifício dos Estaleiros Britânicos, renovado há alguns anos para acolher um dos pólos da Universidade Americana de Malta (AUM). Originalmente construído no século XIX para alojar os escritórios administrativos e de gestão dos estaleiros navais de Malta, foi um dos centros nevrálgicos da actividade marítima durante mais de um século, reflectindo a importância estratégica do Grande Porto para a Marinha Real Britânica. A reabilitação manteve a estrutura e o carácter histórico do edifício, respeitando a sua identidade original. Está harmoniosamente integrado na renovada frente ribeirinha de Bormla, e todo o conjunto é um exemplo de como a valorização estética e funcional de uma área que, durante décadas, esteve marcada pelo declínio industrial, pode fomentar novas dinâmicas económicas e sociais.

 

Mesmo ao lado, testemunha muda de tantas mudanças, a estátua dourada da Madonna tal-Għar (Nossa Senhora da Gruta) marca a transição para a zona mais tradicional de Bormla. O seu nome tem origem numa antiga devoção a Nossa Senhora associada a uma gruta existente na região. A imagem da Virgem, com um olhar sereno e protector, foi colocada estrategicamente voltada para o porto, num gesto simbólico de bênção e salvaguarda para todos aqueles que partiam para o mar.

Percorrer as ruas de Bormla a partir daqui foi sentir, mais uma vez, os grandes contrastes de Malta. As ruelas estreitas, com escadarias de pedra polida pelo tempo, revelam fachadas de edifícios históricos, alguns restaurados com esmero, outros caindo lentamente em ruína. Há uma certa melancolia nestas ruas, uma beleza nostálgica em cada varanda de madeira gasta, em cada porta maciça desbotada pelo sol, em cada parede onde o tempo deixou marcas profundas. No extremo da rua San Pawl, quase ao pé da igreja que lhe dá nome, há vários edifícios que chamam a atenção por serem muito bonitos (as varandas são um encanto!) mas estarem em muito mau estado de conservação. Não são caso único, há exemplos idênticos também em Valeta. Ver estes lindíssimos edifícios tão degradados foi o que mais me fez doer o coração.

 

Bormla está igualmente rodeada por bastiões que fazem parte das chamadas “Cottonera Lines”, o sistema de fortificações construído no século XVII para reforçar a protecção das Três Cidades após o Grande Cerco. A sua construção foi ordenada pelo Grão-Mestre Nicolau Cotoner (daí o seu nome) e o objectivo era a formação de um segundo anel de defesa que abrangesse um maior número de habitantes e fosse ainda mais forte contra futuras ameaças. Dois dos marcos icónicos da cidade incluídos nesta linha defensiva são o Forte Verdala e a Porta de Santa Helena.

Entre uma herança secular e os desafios da modernidade, Bormla revela-se-nos em camadas contrastantes e, apesar do desgaste visível, parece estar a reconstruir-se sem se alhear da sua história.

Senglea: resistência e fé

Contígua a Bormla e paralela a Birgu, com a marina a separá-las, Senglea estende-se magnificamente para dentro do Grande Porto – uma mancha ocre e compacta de muralhas e edifícios encaixados uns nos outros, num tetris complexo coroado de cúpulas. Ao longo da sua história, tem sido conhecida por vários nomes: L-Isla, pela sua forma geográfica; Civitas Invicta, título atribuído após resistir heroicamente ao Grande Cerco de 1565; e Senglea, em honra do Grão-Mestre Claude de la Sengle, que ordenou o reforço das suas fortificações no século XVI.

 

É a mais pequena das Três Cidades. Não sendo, na sua génese, muito diferente das suas irmãs, sente-se na atmosfera de Senglea um forte enraizamento marítimo e espiritual. Ou talvez eu tenha ficado com essa impressão porque a visitei num domingo especial, em vésperas do Dia da Vitória. Economizando nas comemorações, a cidade celebra no mesmo dia a Festa da Natividade da Virgem Maria, e já estava engalanada a preceito.

A entrada em Senglea faz-se pelo Bastião de São Miguel, uma das fortificações da linha de defesa das Três Cidades. A sua localização estratégica, virada para o istmo que liga a península ao continente, fazia dele o primeiro reduto de resistência em caso de invasão. Quase cinco séculos depois, e apesar de esvaziado da sua função primária, mantém um perfil de inexpugnabilidade, guardião de eventuais preciosidades que possam esconder-se para lá das suas muralhas. As pedras de calcário dourado mostram idades diferentes – algumas já estão muito marcadas pela erosão e pela luz do sol mediterrânico, enquanto outras são lisinhas e com ar de novas. Os tempos hoje são de paz em Malta, mas o bastião permanece ali para o que der e vier.

Passados os arcos do bastião, não havia como ignorar que a cidade estava em festa. Sobre a rua central ondulavam grinaldas quilométricas, gambiarras compridíssimas e enormes estandartes coloridos, esticados entre os prédios baixos de pedra neutra. Mais à frente, de ambos os lados da rua, várias estátuas de figuras religiosas, pintadas com cores vivas, pontificavam sobre colunas altas e profusamente ornamentadas. E a fachada da Basílica da Natividade de Maria, mais conhecida como Igreja de Maria Bambina, estava coberta de lâmpadas, que à noite desenhavam o contorno do edifício na forma de luzes coloridas.

O Grande Cerco de 1565 terminou no dia 8 de Setembro, que é também o dia liturgicamente dedicado pela Igreja católica à Natividade da Virgem Maria. Como memorial das provações sofridas e da vitória sobre os otomanos, os habitantes de Senglea quiseram erigir uma igreja que honrasse essa data e a protecção divina que tinham merecido. Essa igreja foi terminada em 1580. Diz a tradição, alegadamente apoiada em manuscritos antigos dos arquivos da paróquia, que em 1618 foi encontrada uma imagem da Virgem a flutuar entre os destroços de um galeão naufragado ao largo da Dalmácia. Resgatada pelo capitão de uma embarcação austríaca, e a pedido de dois dos seus passageiros, moradores de Senglea, foi entregue à guarda da paróquia da cidade. Restaurada e devidamente paramentada de ouro, a imagem de madeira foi colocada na igreja em altar próprio. Devido ao seu tamanho reduzido, passou a ser carinhosamente apelidada de Il-Bambina. Ao longo dos séculos, a pequena imagem foi ganhando uma aura quase mística entre os habitantes de Senglea, sendo considerada protectora da cidade, especialmente durante períodos adversos. Foi invocada com fé inabalável durante epidemias e guerras, particularmente durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial, quando Senglea foi duramente atingida. Em reconhecimento pelo seu significado espiritual, a estátua foi coroada em 4 de Setembro de 1921 por ordem do Papa Bento XV, tornando-se a única estátua em Malta a ser solenemente coroada por decreto especial emitido pela Santa Sé. A igreja foi nessa altura elevada a basílica menor.

 

O exterior da basílica é sóbrio mas elegante, com fachada em estilo barroco maltês, construída na pedra dourada típica da ilha. A entrada principal é emoldurada por colunas e um frontão triangular, onde repousa uma representação escultórica da Virgem. No topo, duas torres sineiras bulbosas. Só de longe é que se consegue ver a sua cúpula rosada e branca, que paira sobre a cidade. Destruída durante um bombardeamento em 1941, a igreja foi reconstruída e reconsagrada em Agosto de 1956.

Senglea é um emaranhado de ruas com casas de pedra à vista ou pintadas de cores claras, coladas umas às outras. As varandas maltesas típicas alternam com outras em ferro forjado, quase sempre brancas ou cinzentas, e as esquinas estão adornadas com figuras religiosas. Aqui e ali há escadarias estreitas que descem até ao mar. Na cidade há uma mistura de charme antigo com um certo ar de dignidade ferida: alguns edifícios mostram as cicatrizes da guerra e do tempo, mas mantêm-se firmes, como se recusassem esquecer ou render-se.

 

No extremo norte da península, o Jardim Gardjola oferece uma das melhores vistas sobre Marsa, Valeta, o Grande Porto e o Forte de Sant’Angelo. Uma das suas curiosidades é a torre de vigia suspensa na ponta do baluarte, denominada “Il-gardjola”, decorada com vários símbolos esculpidos em pedra (um olho, uma orelha e um grou), que simbolizam a vigilância constante e a protecção das costas maltesas. No centro do jardim há uma fonte-lago com a forma da cruz de Malta, rodeada de bancos e árvores circunscritas por canteiros.

 

Senglea foi desde sempre um importante ponto comercial e de construção naval, o que fez dela a mais próspera das Três Cidades no século XVIII, altura em que contava entre os seus residentes com algumas das famílias, académicos e políticos mais respeitados de Malta. A presença do estaleiro naval contribuiu para o facto de ter sido um dos principais alvos dos ataques de bombardeiros durante a Segunda Guerra Mundial, que quase a arrasaram. A guerra transformou a cidade. Os habitantes refugiaram-se em cidades e campos periféricos, e muitos deles nunca regressaram. Os seus estaleiros de reparação naval foram entretanto reconstruídos e constituem hoje em dia uma importante fonte de emprego. Mais do que património, Senglea oferece uma experiência de vida autêntica – talvez por isso, cerca de 30% dos seus residentes actuais são estrangeiros, conquistados pela genuinidade do local.

Algo alheias ao bulício de Valeta, pese embora a sua proximidade, as Três Cidades continuam a ser um testemunho vivo da resiliência e da importância estratégica de Malta. Para lá de destino turístico popular, representam o coração histórico da ilha, onde o passado se entrelaça com o presente. Um dos lugares onde melhor se consegue vislumbrar o espírito maltês e conhecer a história multifacetada da ilha.

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(Artigo já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

A História tem nome de ilha: Malta – parte 1


Ana CB,

Fui a Malta assim meio por acaso. Voo directo de poucas horas, comida e alojamentos em conta, bom clima, país suficientemente grande para ter muito que ver e pequeno para não precisar de mais dias do que os que me restavam de férias. De quem já lá tinha estado, as opiniões eram mistas: havia quem tivesse adorado, quem achasse que não era nada de especial, e quem tivesse detestado. Fui sem expectativas, vim de lá cativada. Malta, com o seu variado património cultural e histórico, é ideal para explorar ao sabor do momento, para apreciar fins de tarde com o mar à vista, para relaxar numa esplanada com um belo prato de peixe à frente. Nesta ilha onde se cruzam culturas desde há milhares de anos e que foi palco de tantas batalhas, hoje respira-se tranquilidade e História.

Um país para visitar com calma

Se tivesse de resumir esta viagem numa palavra, ela seria “descontracção”. Não fiz grandes planos, nem preparei nenhum roteiro específico. Limitei-me a decidir que iria distribuir os dias por Malta e Gozo (estive três dias completos em Gozo, de que já falei aqui), com uma breve visita a Comino. Marquei os sítios que queria visitar e depois fui decidindo de dia para dia aonde ir, tendo apenas como baliza os horários de funcionamento de cada lugar, quando existentes.

Decidi também optar pelos transportes públicos em vez de alugar carro. O sistema de autocarros funciona muitíssimo bem tanto na ilha de Malta como em Gozo, é barato (têm vários tipos de passe), e leva-nos a todo o lado. Demoramos mais tempo, é claro, mas evita o cansaço da condução e dá-nos a possibilidade de observar melhor os lugares por onde vamos passando. Além dos autocarros, há os barcos que ligam as ilhas, várias vezes por dia, e os que fazem o transporte regular de passageiros entre Valeta e as localidades circundantes (as Três Cidades e Sliema).

Autocarro novo                                            Autocarro antigo

O princípio

Malta é um livro de História ao vivo. Com uma posição estratégica no coração do Mediterrâneo, foi habitada ao longo dos milénios por diferentes civilizações, e cada uma deixou a sua marca na cultura e na arquitectura. Os vestígios arqueológicos mais antigos datam do período Neolítico, por volta de 5200 a.C., quando os primeiros habitantes chegaram às ilhas maltesas, provavelmente vindos da Sicília.

Em Paola, nos arredores de Valeta, há um santuário subterrâneo datado entre 4000 e 1500 a.C. que é único no mundo. O Hipogeu de Ħal Saflieni foi usado inicialmente como local de culto e mais tarde como necrópole. Construído em três níveis, que correspondem a diferentes períodos temporais, é conhecido pela sua acústica peculiar e pelas representações de arte rupestre. Um lugar que concentra dois mil e quinhentos anos de vidas de pessoas que por ali passaram ou foram enterradas. Pessoas que prestavam reverência a alguma coisa (ou coisas, mais provavelmente) e se preocupavam em sepultar os seus mortos com dignidade. Mais do que apenas sencientes, eram pessoas com sentimentos. Ou assim parece, o que já é alguma coisa.

Também do período Neolítico, os Templos de Ħaġar Qim e Mnajdra são pedras sobre pedras e ao lado de pedras. Ficam junto à costa sul de Malta, numa área vasta e sem nada à volta, com o mar por horizonte. Tal como na maior parte da ilha, o solo é um misto de rocha com vegetação rasteira, e no sossego do ar quente de Verão o ruído das cigarras sobrepõe-se a tudo o mais. Os templos estão protegidos por grandes estruturas de metal e lona em forma de iglu, parecem naves de outro planeta abandonadas na paisagem despida. Não há muito mais a fazer do que vaguear por ali, ler os painéis ilustrados colocados no local, atentar num ou noutro pormenor, e especular.

Os templos foram construídos com técnicas arquitectónicas que se rotulam de avançadas para a época, sobretudo porque incluem um monólito de 57 toneladas e cinco metros de altura. O alinhamento de certas aberturas com os astros – favorecendo a entrada, orientada para determinados pontos, dos raios de sol nos solstícios ou nos equinócios – sugere terem sido lugares de culto, teoria reforçada por ali terem sido encontradas estatuetas com a forma de uma mulher avantajada e pelos temas vegetais esculpidos em pilares de pedra. Os restos de ossadas de animais domésticos que foram achados nos locais dos templos apontam para sacrifícios rituais – ou então simplesmente que serviram para abrigar gado.

Nem mesmo os estudiosos conseguem o milagre de adivinhar histórias com milénios de esquecimento. Como é costume, muitos achados já não estão expostos no local, e por isso tudo o que vemos são pedras. Falta-lhes a majestade das pirâmides de Gizé, a aura enigmática de Stonehenge, ou a beleza de Petra. Sem menosprezar a sua importância como testemunho do que poderá ter sido uma civilização tão antiga e a sua contribuição para conhecermos um pouco mais do passado, não me impressionaram sobremaneira.

Mesmo vendo ao vivo, nos sítios arqueológicos, as evidências de civilizações que existiram há milhares de anos, é-me difícil imaginar como seria a vida nessa altura. Bom, é verdade que tenho pouca imaginação. Mas creio que é sobretudo pela falta do elemento humano. Não há imagens concretas, nem escritos, nem roupa, e na maior parte das vezes nem objectos – que são desenraizados da sua origem, removidos dos locais para serem expostos num qualquer museu. Há esqueletos, ocasionalmente. Só que ossos… não me dizem nada (por muito que possam dizer aos arqueólogos e antropólogos). As pessoas que viveram naquele tempo e lugar são tão estranhas para mim como seres que possam eventualmente viver noutros planetas. Alienígenas que talvez se me assemelhem na forma física, mas de quem não sei o que pensavam ou faziam, como comunicavam, de que gostavam (será que existia gosto como o entendemos hoje?), como era a sua vida no dia-a-dia para além da sobrevivência básica.

Ecos de Roma em Rabat

Os Fenícios estabeleceram-se em Malta por volta de 700 a.C., usando a ilha como um entreposto comercial. Mais tarde, foi controlada pelos Cartagineses, até ser conquistada por Roma em 218 a.C. durante a Segunda Guerra Púnica. Deste período não restam na ilha muitos indícios.

Em Rabat, no local onde existiu a casa de um nobre romano, foi construída uma estrutura para preservar os mosaicos e os poucos objectos que sobreviveram aos séculos, estrutura essa mais tarde transformada no museu a que dão o nome de Domvs Romana. O espaço foi reformulado para servir de repositório para todos os artefactos romanos encontrados na ilha e para ilustrar, em forma de exposição, os vários aspectos de uma família aristocrática romana e de um agregado familiar.

Segundo o Livro dos Actos dos Apóstolos, atribuído a Lucas, o navio em que São Paulo viajava para Roma (onde iria ser julgado pelo imperador Nero) terá naufragado perto de Malta no ano 60 d.C. O local onde se acredita que ocorreu o naufrágio é hoje conhecido como Baía de São Paulo, no norte da ilha. Diz a lenda que enquanto por ali esteve, São Paulo terá realizado vários milagres. Certo é que foi por volta dessa altura que o cristianismo se disseminou em Malta, de que São Paulo é até hoje o padroeiro.


Grande parte dos vestígios da época romana datam deste período cristianizado, como é o caso das várias catacumbas e túmulos escavados na rocha que existem também em Rabat. As mais conhecidas são as Catacumbas de São Paulo e de Santa Ágata, onde se encontram frescos e nichos funerários. Por baixo da igreja que tem o mesmo nome (e que é um dos exemplos mais interessantes da fusão entre os estilos normando e árabe na arquitectura maltesa), as Catacumbas de São Cataldo foram usadas principalmente entre os séculos III e V d.C., numa época em que os primeiros cristãos em Malta praticavam os seus ritos funerários em necrópoles subterrâneas. Apresentam túmulos escavados na rocha, com nichos para deposição dos corpos, além de algumas inscrições e símbolos cristãos gravados nas paredes.

Por todo o lado, em esquinas, nichos e fachadas, pequenas imagens religiosas espreitam entre as molduras de pedra, vigiando discretamente o esparso movimento das ruas. São estátuas de santos, virgens e anjos, protegidos por cornijas ou coberturas de ferro trabalhado, um costume que remonta ao tempo em que Rabat era um refúgio fervoroso para peregrinos e devotos.

Mdina: herança muçulmana e bastião do catolicismo

Após a queda do Império Romano do Ocidente, Malta ficou sob domínio bizantino até ser conquistada pelos Árabes em870 d.C. Foi neste período que a agricultura se modernizou e a língua maltesa adquiriu as suas influências árabes, que permanecem até hoje. O maltês é um idioma híbrido singular, e o único de base semítica que é oficial na União Europeia. Escreve-se com o alfabeto latino, mas mantém características fonéticas e estruturais árabes. A sua construção e vocabulário resultam de uma fusão de diferentes influências linguísticas ao longo dos séculos. Tem origem no árabe siciliano, um dialecto falado entre os séculos IX e XIII. Durante o domínio normando e aragonês (séculos XI-XVI), absorveu muitas palavras do italiano e do siciliano, que constituem mais de metade do vocabulário,e no período colonial britânico (1800-1964) foram incorporadas muitas palavras inglesas. Ouvir falar maltês é ao mesmo tempo estranho e familiar: não se percebe nada do que dizem, mas no meio de qualquer conversa saltam palavras que reconhecemos com facilidade. Independentemente disso, e porque o inglês é a outra língua oficial de Malta, não existem dificuldades na comunicação com os estrangeiros – pelo menos com aqueles que souberem o inglês básico.

A presença muçulmana também foi fundamental para a configuração de algumas das cidades maltesas. É o caso de Mdina, cidade fortificada que foi reduzida em tamanho pelos árabes, tornando-se mais defensável, uma estratégia comum nas cidades islâmicas da época. Antiga capital de Malta, entre a antiguidade e o período medieval, foi fortemente danificada pelo terramoto de 1693 na Sicília. Curiosamente, uma das personalidades que mais contribuiu para a sua recuperação foi António Manoel de Vilhena, nobre português eleito Príncipe e Grão-Mestre da ordem de São João de Jerusalém em 1722.

Mdina é hoje em dia um museu a céu aberto, onde se misturam as influências de todas as civilizações que por ali passaram. Chamam-lhe “Cidade Silenciosa”, pois na maior parte das suas ruas estreitas e labirínticas só é possível andar a pé. O trânsito de veículos motorizados é limitado e apenas são permitidas charretes – que no entanto não conseguem passar em todo o lado, tão reduzida é a largura das ruas. O próprio governo maltês promove Mdina como um local de paz e contemplação.

Outro miradouro em Mdina com uma vista incrível sobre a ilha – e também ideal para momentos a dois, a julgar pelo grande número de casais que lá vi – é o Fontanella, café famoso pelas suas tartes e bolos e que também serve refeições leves. Os árabes também deixaram uma marca duradoura na gastronomia maltesa, de que são exemplo o ftira, um pão achatado e crocante tradicionalmente recheado com azeite, tomate, atum, alcaparras, azeitonas e ervas aromáticas, os pastizzi (pastéis folhados recheados com ricotta ou ervilhas), ou a tarte de tâmaras e nozes – e estas são apenas algumas das várias delícias que fazem parte do menu do Fontanella.

Marsaxlokk: peixe, tradição e muita cor

O mar Mediterrâneo dita o ritmo da vida em Malta, e à mesa não poderia ser diferente. Os pratos de peixe são uma presença constante, seja em modo tradicional ou moderno. Nos típicos, há um parente das caldeiradas portuguesas: a aljotta, uma sopa de peixe perfumada com tomate, alho, cebola e ervas frescas. Simples e reconfortante, esta sopa era em tempos um alimento básico dos pescadores, feita com os peixes mais pequenos ou menos valorizados da pesca do dia. O stuffat tal-qarnita (polvo estufado com tomate, alho, cebola, vinho tinto e ervas) e a empada de lampuki (dourado-do-mar) também são pratos tradicionais feitos com produtos do mar. Mas dos pitéus que provei, o meu preferido foi mesmo o tris di pesce marinato alle erbette (há muita influência italiana na culinária maltesa), fatias fininhas de peixe cru, de várias espécies, marinadas num molho delicioso.


Se há um lugar onde este legado pesqueiro se sente de forma mais autêntica, esse lugar é sem dúvida Marsaxlokk, a maior aldeia piscatória de Malta. Embora já esteja muito virada para o turismo e tenha inúmeros restaurantes e barraquinhas que vendem produtos malteses “típicos”, ainda mantém os seus barcos de pesca tradicionais e um ambiente tranquilo e pouco sofisticado.

O mercado de Marsaxlokk, realizado aos domingos, é um espectáculo de cor e movimento. Entre as bancas apinhadas de peixe fresco, os clientes locais e os visitantes curiosos misturam-se num burburinho constante e o cheiro a mar funde-se com os aromas das especiarias. Os restaurantes alinhados ao longo da baía aproveitam esta abundância de peixe e marisco, e oferecem pratos que vão do simples peixe grelhado, servido com batatas assadas e salada fresca, ao marisco — desde espaguete com ouriços-do-mar a ensopados de lagostim e mexilhão. Observar o movimento deste porto secular, na água e fora dela, enquanto descansava numa esplanada a comer uma bela refeição foi um dos pontos altos da minha viagem a Malta (um entre muitos, note-se). Já escrevi um artigo inteiramente dedicado a Marsaxlokk, que podem ler aqui.

A força da paisagem

O que falta em verde a Malta sobra-lhe em azuis. Os limites da paisagem são ditados pelo mar. Num dia em que o sol se escoa por entre um rebanho de nuvens, a linha do horizonte é um choque entre o brilho eléctrico da água e o azul-gelo do céu. A costa sudoeste de Malta é um cenário de magnificência natural, recortes debruados a falésias estratificadas e sulcos rasgados na pedra pelas garras do vento. Esta é a face mais selvagem da ilha, um território de rochedos escarpados, grutas escondidas e desfiladeiros que mergulham abruptamente no Mediterrâneo.

No topo das Falésias de Dingli – o ponto mais alto da ilha de Malta – , a terra está como que suspensa sobre as águas e vem-me à memória a “Jangada de Pedra” de Saramago. Estamos 250 metros acima do nível do mar, e a perspectiva só é suportável para quem não tiver vertigens: o muro natural de calcário cai a pique até lá abaixo, onde a textura rugosa da falésia dá lugar a uma bainha diáfana de espuma, transição momentânea para a superfície levemente encrespada da água. Na neblina difusa do horizonte, o ilhéu Filfla parece o casco abandonado de um navio.

A capela reflecte a tradição cristã de associar locais remotos e elevados a figuras bíblicas ligadas ao arrependimento e à contemplação. Construída num local tão isolado, faz eco dessa espiritualidade religiosa, mas o seu aspecto mais prático não foi descurado: servia como um ponto de referência para os navegadores que cruzavam a costa oeste de Malta, ajudando a identificar a localização das falésias traiçoeiras. Hoje em dia a sua utilidade será decerto bem mais reduzida, pois a poucas centenas de metros de distância destacam-se a cúpula geodésica e as torres metálicas do radar de aviação de Dingli.

Mais a sul, a uns meros 15 minutos de autocarro do Centro de Visitantes de Parque de Ħaġar Qim, o lugar a que chamam Gruta Azul é um dos postais mais conhecidos de Malta. Escondida na base da falésia, nesta formação natural de arcos e cavernas esculpidas pelo mar a luz do sol reflecte-se na água límpida, tingindo-a de diferentes tonalidades de azul – do topázio transparente ao cobalto profundo. Ao meio-dia, quando os raios solares penetram as fendas na rocha, a água parece iluminada por dentro e as sombras criam jogos de cor que transformam o interior da gruta num santuário de luz líquida.

Malta é uma ilha de contrastes vincados, onde as pedras contam histórias do passado e o mar e o vento moldam pacientemente a paisagem. Das cidades amuralhadas às enseadas escondidas, a ilha revela-se em camadas sobrepostas de história e natureza, cada época acrescentando novos contornos à narrativa. Há ainda muito mais para descobrir, mas isso fica para um próximo post.

A História tem nome de ilha – parte 2 →

(Artigo já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Dez conceitos para uma viagem ao Japão no Outono – parte 2


Ana CB,

Escolhi o Outono para visitar o Japão. Atrevo-me a dizer que será a melhor altura para viajar no país. Por um lado, o kōyō dá colorido a uma arquitectura tradicional que, se excluirmos os templos e santuários, tem a sobriedade e discrição como base. Por outro, a atmosfera da própria estação do ano convida à pausa, à demora, à reflexão. É o quadro perfeito para interiorizar mais alguns dos conceitos que são importantes na cultura japonesa.

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Wabi-Sabi (侘寂)

A beleza do que envelhece

Rodeada pela beleza dos Alpes japoneses, Takayama é uma cidade surpreendente, onde o moderno e o antigo coabitam sem choques. No extenso bairro de Sanmachi, as casas mantêm as suas fachadas de madeira escura, marcadas pelos anos. Nada parece restaurado em excesso. As superfícies mostram desgaste, irregularidade, uso contínuo. Apesar das concessões ao turismo, muitas lojas dedicam-se à venda de artesanato de qualidade e de produtos locais tradicionais, como chá ou saquê. Há um sentido de beleza contida que se prolonga nos interiores de restaurantes e cafés tradicionais, onde vigas de madeira, iluminação baixa e objectos vintage criam ambientes que nos transportam para outras épocas.

O wabi-sabi valoriza esta estética: o simples, o imperfeito, o incompleto. O Outono reforça a sensação, acrescentando pontos de cor, textura e ainda mais sombra à atmosfera. Aqui, a beleza não está no novo, mas no que foi cuidado ao longo do tempo.

O templo mais antigo da cidade é o Hida Kokubun-ji, que remonta a meados do século VIII. Bem cuidado e conservado, a madeira escura dos edifícios e do seu pagode de três andares e a gingko centenária, tronco robusto e folhas-leque douradas pelo kōyō, ilustram simultaneamente uma espiritualidade discreta e a recusa em ocultar a passagem dos anos.

Takayama celebra a Primavera e o Outono em dois eventos anuais que se realizam desde há cerca de 400 anos. Os Takayama Matsuri são considerados dos mais belos festivais do Japão, e a sua longevidade reflecte bem a lógica japonesa de continuidade: rituais que se repetem, que se ajustam ao tempo, mas preservam o essencial. Um conceito que dialoga directamente com o wabi-sabi e com a noção de tempo cíclico tão presente na cultura do país. Os carros alegóricos (yatai) que desfilam durante o festival são um prodígio. Doze no total, todos diferentes e preciosamente decorados, têm um significado religioso, simbólico e comunitário profundo. Cada carro foi construído como oferta religiosa e pertence a uma comunidade específica, reflectindo a fé e o esforço colectivo dos bairros (machi) da cidade, e reforçando os laços sociais e a continuidade das tradições ao longo de gerações. Os yatai são expostos rotativamente (apenas quatro de cada vez) no Takayama Matsuri Yatai Kaikan, um salão do edifício onde estão guardados, e de onde apenas saem nos dias dos festivais.

À beira-rio, em cada manhã, o mercado de Miyagawa revela uma rotina simples: barraquinhas modestas, produtos sazonais, comida de rua e artesanato. Realiza-se desde o período Edo, quando agricultores e artesãos das aldeias em redor de Takayama começaram a reunir-se junto ao rio Miyagawa para vender excedentes agrícolas, flores e produtos artesanais directamente à população da cidade. Hoje em dia, mais do que um mercado turístico, mantém ainda a função original de proximidade, reflectindo um modo de vida assente na relação directa entre quem produz e quem consome – um exemplo muito claro de wabi-sabi aplicado ao quotidiano.

O que fica: aceitar a imperfeição como sinal de autenticidade.

 

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O espaço necessário

O Museu ao Ar Livre de Gora dispõe esculturas em diálogo com o espaço aberto, onde o vazio entre cada obra faz tanto parte da experiência quanto as obras artísticas exibidas. Para chegar a Gora, a viagem faz-se em camadas: o comboio da linha Hakone Tozan serpenteia pela montanha, invertendo várias vezes o sentido da sua marcha para conseguir vencer o desnível, num ritmo imposto pelo perfil orográfico. De Gora para Hakone, o percurso continua por etapas – primeiro de funicular, subindo lentamente pela encosta; depois de teleférico entre Sōunzan e Ōwakudani, de onde a vista abrange todo o espaço de montanha que as nuvens baixas deixam alcançar; e a seguir descendo pela vertente oposta, novamente de teleférico, com o olhar suspenso sobre vales profundos e florestas densas e prenhes de cor. O itinerário não encurta a distância; prolonga-a, criando tempo para observar.

Em Hakone, ma revela-se na relação entre movimento e pausa, entre paisagem e deslocação. No Lago Ashi, protegido pelas montanhas que o cercam, a água cria um espaço de imobilidade, de acolhimento silencioso, mas também de separação – entre o que está oculto abaixo da superfície e o que se descobre acima dela. O Torii da Paz, ancorado no lago, marca a transição simbólica entre o profano e o sagrado. Ao Kuzuryū-jinja (Santuário do Dragão com Nove Cabeças), recolhido na floresta, só chegamos depois de ascender muitos degraus. Em Hakone, ma é o tempo e espaço entre um lugar e outro, a terra de ninguém que permite a existência plena de algo depois dela. E que, ao mesmo tempo, transforma a deslocação em experiência.

O Outono reforça esta percepção: os espaços enchem-se de cor, mas mantêm-se abertos.

O que fica: reconhecer o valor do espaço – seja físico, mental ou emocional.

 

Wa ()

A harmonia

Wa é um valor central da sociedade japonesa: harmonia entre pessoas, natureza, espaço e tempo.

Nas aldeias gasshō de Ainokura e Shirakawa-go, o conceito de wa manifesta-se na integração natural entre clima, paisagem e arquitectura comunitária. As casas gasshō-zukuri têm telhados íngremes, concebidos para suportarem a copiosa neve do inverno japonês; fazem lembrar mãos em oração, e é esse o motivo do seu nome (gasshō significa “oração”). São construídas em madeira e palha, e não levam pregos.

Em Shirakawa-go, a maior e mais conhecida destas aldeias alpinas, os telhados inclinados de palha formam um padrão uniforme e imponente, que contrasta com as encostas da montanha, pintadas com as cores de Outono. Descoberta pelo turismo, algumas das suas casas funcionam como loja ou museu, mas muitas ainda são habitadas pelos proprietários.

Em contraste, Ainokura, menor e mais intimista, preserva um estilo de vida rural único no Japão, um ritmo de vida mais silencioso e discreto, onde cada construção mantém proximidade com o terreno e com os vizinhos. Ambas as aldeias demonstram como wa se traduz em equilíbrio: os habitantes cuidam das casas uns dos outros, respeitam os ciclos naturais e adaptam os espaços às exigências do local e do clima.

Percorrer estas aldeias fez-me compreender que a harmonia japonesa não é apenas estética, mas prática, social e ambiental – um modo de existir em comunhão com tudo o que nos rodeia.

O que fica: procurar harmonia em vez de excesso.

 

Kokoro ()

A unidade entre mente e coração

Em Tóquio, o conceito de kokoro manifesta-se nos espaços de tranquilidade que emergem no meio da cidade movimentada.

Nos jardins tradicionais, cada detalhe é pensado com vista a atingir o equilíbrio, e a mantê-lo. A atenção concentra-se no essencial. Pedras colocadas com propósito, areia cuidadosamente trabalhada, musgo que cresce sem interferência. Pouco acontece, e ainda assim tudo está presente.

Kokoro reúne coração, mente e espírito numa única ideia. Não separa a razão da emoção. Os jardins convidam à observação silenciosa, à errância reflexiva. Não pretendem impressionar; e, ainda assim, conseguem-no sobremaneira. Seja no Rikugien, ao percorrer os seus trilhos que contornam lagos com pequenas pontes, colinas artificiais e árvores centenárias, no Koishikawa Korakuen, onde a variedade de plantas e espelhos de água se vão revelando gradualmente, ou no Ninomaru, dentro do complexo do Castelo de Tóquio, observando as lindíssimas carpas koi com barbatanas longas, o Outono empresta ainda mais emoção às paisagens desenhadas destes jardins. É a época ideal para o kokoro – para integrar percepção e sentimento.

O que fica: alinhar pensamento, emoção e acção num mesmo ritmo.

 

Zanshin (残心)

A atenção que permanece após o gesto

Nos santuários e templos de Nikkō, o zanshin surge como a consciência que se mantém mesmo depois de atravessarmos um espaço ou completarmos um gesto. Os recintos budistas e xintoístas, dispersos pela floresta, convidam à observação e reflexão, à atenção que não se esgota no instante, mas se prolonga na memória. Não é possível absorver tudo de uma só vez. Há que registar e deixar assentar. Esta necessidade torna-se quase imperiosa no santuário de Tōshō-gū, onde a abundância decorativa raia o exagero e exige foco. Antes da entrada, o pagode Gojū-no-tō, com os seus cinco exuberantes níveis sobrepostos, evoca os elementos da natureza e uma ideia de estabilidade silenciosa. O portão Yōmei-mon, coberto por centenas de esculturas minuciosas, o uso de madeira ricamente lacada e de folha de ouro nos diversos edifícios e portões, e a profusão de elementos, compõem um conjunto visual denso, onde cada detalhe tem uma intenção simbólica. As figuras muito populares dos Três Macacos Sábios e do Gato Adormecido remetem para vigilância, autocontrolo e protecção – ideias que reforçam a necessidade de presença continuada.

Em contraste, o santuário interior (Okusha), onde repousa o túmulo de Tokugawa Ieyasu (fundador do shogunato de Tokugawa, que governou o Japão durante 250 anos, até 1868), é um espaço austero, silencioso, afastado da ornamentação exterior. Chegar lá exige esforço: é necessário subir uma escadaria de 207 robustos degraus de pedra, construída em vários níveis por entre os cedros que revestem a encosta. Um percurso exigente, que requer firmeza e reforça o sentido de transição e de intenção.

Em Nikkō, o zanshin não está ligado a um ponto específico, mas sim à forma como a atenção se mantém activa ao longo dos percursos, persistindo mesmo depois de termos partido, mantendo a conexão com o espaço e o momento. Uma espécie de presença prolongada.

O que fica: manter consciência para além do resultado imediato.

 

***

Wabi-sabi, ma, wa, kokoro e zanshin são concepções que falam de equilíbrio, convivência e observação. Não são ideias abstractas, são práticas discretas que se revelam nos espaços, na interacção com as pessoas e na apreciação da cultura.

Na impossibilidade de explicar todo o Japão através de conceitos, eles são, ainda assim, pistas para compreender um pouco melhor a essência do espírito japonês.

Viajar pelo Japão no Outono é aceitar que a experiência não é constante nem previsível. As folhas mudam, caem, desaparecem. Algumas paisagens surgem no momento certo; outras não. Talvez seja isso que o momijigari ensina: não simplesmente a procurar o que quer que seja, mas a aceitar que tudo tem o seu tempo. E, nesse processo, aprender a olhar – com mais atenção, menos ruído e maior respeito pelos outros e por aquilo que nos rodeia.

Dez conceitos para uma viagem ao Japão no Outono – parte 1


Ana CB,

No Japão, a mudança das folhas chama-se kōyō (紅葉): o momento em que os verdes cedem lugar aos vermelhos e dourados. Ir ao encontro dessa transformação é praticar momijigari (紅葉狩り) – observar, procurar, acompanhar o Outono no seu percurso natural.

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Pela sua própria natureza, esta estação do ano é propícia a um ritmo de viagem mais lento, mais contido, mais atento. Uma viagem que não serve só para coleccionar paisagens ou cumprir listas, mas para sentir, olhar com atenção, reparar nos pormenores, observar os costumes locais, mergulhar na cultura – tanto quanto possível quando temos o tempo contado. O momijigari não exige deslocações rápidas nem ângulos perfeitos; pede vagar, presença e disponibilidade para aceitar que nem todos os dias oferecem o mesmo espectáculo, nem todos serão radiosos ou irão espantar-nos.

A cultura japonesa está construída sobre a atenção aos detalhes, o respeito pelo colectivo e a aceitação tranquila da impermanência. Existe um equilíbrio (embora nem sempre perfeito) entre tradição, disciplina e sensibilidade. Alguns conceitos japoneses ajudam a compreender esta forma de estar. Não como conceitos abstractos, mas como práticas discretas que atravessam o quotidiano – e que, num contexto de viagem, ganham uma clareza particular.

A partir de dez destes conceitos especiais da cultura japonesa, esta é uma crónica quase minimalista da minha viagem ao Japão, com o kōyō e o momijigari como pano de fundo.

 

Mono no Aware (物の哀れ)

A consciência da impermanência

O Outono em Quioto torna visível a fragilidade de tudo o que existe. Esta percepção de transitoriedade está intimamente ligada à religiosidade japonesa, onde o xintoísmo e o budismo coexistem e se complementam, moldando a forma como se observa a natureza e se vive o dia-a-dia. Nos santuários xintoístas, como o Fushimi Inari Taisha (Santuário Principal de Inari), a sequência infinita de torii (portais de entrada para o mundo sagrado) simboliza não apenas devoção, mas também a passagem contínua do tempo e a presença do divino em cada instante. Nos templos budistas, como o Kiyomizu-dera (Templo da Água Pura), o Kōdai-ji ou o Entoku-in, a arquitectura, os jardins e a disposição das pedras são projectados para cultivar a contemplação, a atenção plena e a aceitação da transitoriedade, valores centrais do budismo.

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No Outono, a mudança de cor das folhas das árvores torna-se metáfora visual desta consciência, e lembra-nos de que mesmo o que parece eterno está em constante transformação. Mono no aware é essa compreensão serena da impermanência: a beleza do kōyō existe também porque não dura, e é precisamente essa condição que lhe dá profundidade.

O que fica:aceitar a transitoriedade como parte integrante da experiência.

 

Komorebi (木漏れ日)

A luz entre as folhas

Em Arashiyama, o Outono intensifica o contraste entre luz e sombra, e o sol perpassa pelos bambus altos e pelas árvores em ângulos inesperados. Komorebi nomeia precisamente este fenómeno: a luz filtrada pelas copas.

No recinto dos templos Jōjakkō-ji, o sol peneirado ilustra este efeito profundamente sensorial. A luz não ilumina tudo; escolhe fragmentos – um tronco, um caminho, um detalhe em pedra. Infiltra-se entre as folhas das árvores, iluminando discretamente o musgo, as folhas caídas e os telhados do recinto. Nada dura muito tempo. O instante seguinte já é diferente. As florestas de bambu são labirintos verdes com alturas de tsunami, onde os caules altos filtram o sol em linhas verticais de sombra e claridade, criando uma sensação de movimento constante.

No Tenryū-ji (Templo do Dragão Celestial), o jardim paisagístico abre-se em planos amplos, e a luz sobre o lago faz reflectir as cores das encostas arborizadas, fundindo a paisagem construída e a natural numa mesma paleta. E ao longo das margens do rio Katsura, as cores do Outono multiplicam-se na água, expandindo os jogos de luz fragmentada. Komorebi é o instante em que a paisagem nos revela mais um pormenor, reclamando a nossa atenção plena.

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O que fica: aprender a reparar nos detalhes mais breves e delicados, na beleza efémera das coisas.

 

Yūgen (幽玄)

A profundidade que não se explica

O conceito de yūgen manifesta-se naquilo que não se mostra por completo. Em Nara, o Outono transforma a Floresta Primordial de Kasugayama num cenário de mistério. Os cervos, que desde há centenas de anos são considerados mensageiros dos deuses, circulam livremente pelos parques e caminhos – assim como que guardiões do espaço sagrado, reforçando a comunhão entre homem, natureza e espiritualidade. Pelos caminhos, alinham-se centenas de lanternas de pedra, gastas pelo tempo e cobertas de musgo, que dão ao cenário um toque ainda mais irreal.

No Santuário de Kasuga-taisha (Santuário da Primavera), logo após a entrada, ergue-se o Shato-no-Ohsugi (cedro gigante), uma magnífica árvore com 800 a 1000 anos, imponente e silenciosa, que simboliza longevidade e a conexão entre a natureza e o decreto divino de Kasuga-taisha de cuidar das plantas. O santuário é alvo de uma veneração extraordinária, como o provam os milhares de lanternas de bronze, muitas folheadas a ouro, oferecidas em prece por fiéis ao longo dos séculos. Todas estas lanternas são acesas durante os festivais Mantoro Matsuri – acredita-se que a luz ajuda a superar a escuridão da ignorância, oferecendo momentos para reflexão, gratidão e oração por boa sorte.

No recinto do Tōdai-ji (Grande Templo do Leste), o edifício maior abriga a monumental estátua de Buda Vairocana, rodeada por outras grandes esculturas de entidades sagradas. A escala imponente das estátuas e a obscuridade do interior reforçam a sensação de profundidade, intimismo e contemplação.

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A atmosfera de Nara no Outono é perfeita para sentir o yūgen – aquilo que se intui mais do que se vê, a beleza que é subtil, feita de sombras e do que está sugerido, não declarado, e que só se descobre quando percebemos que apenas somos parte do cenário.

O que fica: nem tudo precisa de ser totalmente visível para ser significativo.

 

Ikigai (生き甲斐)

Razão de viver

Ikigai refere-se àquilo que dá sentido à vida. Não precisa de ser algo grandioso; pode estar nas pequenas constâncias do dia-a-dia.

Afastada das rotas turísticas mais concorridas, Matsumoto é uma cidade onde a vida decorre de forma tranquila. O ikigai revela-se na convivência equilibrada entre criação, quotidiano e paisagem.

O Castelo de Matsumoto é sólido, funcional e sem ostentações. Tal como a cidade, que é descomplicada e amigável. O Outono aqui mostra-se discreto, integrado na vida local, não encenado para os visitantes. Só se destaca quando subimos ao Castelo e olhamos através das suas janelas gradeadas. No lago que envolve a muralha reflectem-se as árvores tingidas de vermelho, castanho e amarelo, revelando o esplendor do kōyō.

Matsumoto é a cidade-natal de Yayoi Kusama, a quase centenária artista plástica e escritora que é actualmente um dos maiores expoentes da arte contemporânea. Para lá da exposição permanente dedicada aos seus trabalhos, também o exterior do Museu de Arte de Matsumoto é uma homenagem à artista, integrando a sua estética singular no contexto citadino – a arte como parte do ritmo de vida local.

Em Matsumoto, o ikigai percebe-se como algo simples e persistente, que se encontra nos gestos diários, no cuidado com o espaço, na relação tranquila entre passado e presente, entre o que é inovador e o que é antigo e merece ser preservado.

O que fica: encontrar propósito na continuidade, não apenas nos momentos excepcionais.

 

Shinrin-Yoku (森林浴)

O banho de floresta

Do antigo percurso da Nakasendō – uma das cinco estradas imperiais do Período Edo (1601 ou 1603-1868) no Japão, que ligava Edo (Tóquio) a Quioto através do interior montanhoso – permanecem hoje alguns trechos, o mais famoso dos quais liga as aldeias de Magome e Tsumago. O trilho estende-se por oito quilómetros de piso irregular, alternando calçadas de pedra originais, caminhos de terra atapetados de folhas e cruzados por raízes de árvores, degraus sustentados por toros de madeira, subidas, descidas e planos a direito, por vezes acompanhado pelo som da água de ribeiros. Tudo isto envolto num cenário de floresta que no Outono se veste de cores extravagantes, do rosa-choque ao vermelho mais berrante, do castanho-arroxeado ao dourado refulgente.

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O caminho não exige esforço técnico; exige disponibilidade. Shinrin-yoku traduz-se literalmente como “banho de floresta”, mas não implica actividade física estruturada. Trata-se simplesmente de caminhar, permitindo que o ambiente influencie o corpo e a mente. No Japão, esta prática é reconhecida como forma de bem-estar. Neste excerto do Nakasendō, surge de forma natural: o trilho antigo, o ritmo tranquilo, a ausência de estímulos excessivos.

Neste contexto, o Outono não é espectáculo, mas atmosfera. A floresta não se impõe; envolve.

O que fica: a ideia de que estar na natureza não é escapar, mas regressar a um estado mais essencial.

 

Mais do que palavras, estes conceitos são modos de estar que permanecem em mim depois da viagem. Mono no aware, komorebi, yūgen, ikigai e shinrin-yoku convidam a desacelerar, a prestar atenção, a aceitar a impermanência como parte das minhas experiências – em viagem e na vida.

No Rio também há dias sem sol


Ana CB,

Quatro da tarde, e parecia hora de ponta na entrada do Parque Bondinho, ao pé da Praia Vermelha. É verdade que era domingo, e para os brasileiros o bilhete é mais barato do que para os estrangeiros (que eram nitidamente poucos). Só que… o sol ia desaparecer por volta das cinco e meia, e na minha cabeça rodava uma interrogação: o que é que tanta gente vai fazer ao Pão de Açúcar a esta hora? Resposta óbvia: o mesmo que tu – ou seja, ver o pôr-do-sol num dos lugares mais icónicos do Brasil e do mundo. Mas seria “só” isso?

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Não, não era.

Para mim, o Pão de Açúcar foi sempre o conjunto dos dois monólitos, um mais alto do que o outro, eternizados nas milhentas imagens do Rio difundidas por todo o lado. Só que não é. O Pão de Açúcar é o mais alto dos dois. O mais baixo é o Morro da Urca. E se para chegar ao cimo deste morro existe um trilho pedestre – muito íngreme, é certo, mas devidamente marcado e mantido – para subir ao Pão de Açúcar só em modo escalada na rocha. Portanto, a solução é mesmo usar os dois teleféricos que ligam a cidade aos miradouros instalados no topo dos morros.

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Turismo e rentabilidade oblige, o conceito de miradouro neste caso está bastante expandido. Três minutos de ascensão no teleférico deixaram-nos 220 metros acima do nível do mar, num espaço alargado ao ar livre em que o ambiente era de festa. A animação maior era ditada por um DJ aos comandos do equipamento que debitava música de dança, rodeado de um mar balançante de gente, bebida na mão ou telemóvel no ar para gravar o momento. O Morro da Urca é lugar de entretenimento. Há restaurantes, barzinhos de espécies várias e lojas de marca. Há o Museu do Teleférico e uma Árvore dos Desejos, espelhos deformadores no Beco das Ilusões, e malabaristas que distraem os visitantes durante os longos minutos de espera nas filas para subir ou descer nos bondinhos. Há até um heliporto, de onde saem helicópteros que levam quem pode em voo panorâmico sobre o Rio de Janeiro.

E há – claro! – vistas sem fim sobre a beleza, feita de mar e serra, da Baía de Guanabara e o seu entorno. Por trás da praia de Botafogo, com a água pintada de um laranja pálido, já descia um sol envergonhado, a sua luz filtrada pelas nuvens acasteladas sobre a Serra da Carioca. No topo do Corcovado, que mais parece um irmão gémeo do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor era só uma cruz escura contra o céu cinza claro. A superfície glauca e imóvel da baía estava mosqueada com dezenas de embarcações, quase todas tão imóveis como a água por baixo delas. Ali do alto, os inúmeros arranha-céus que ocupam a maior parte do Rio perdem importância, e a cidade justifica que a adjectivem de maravilhosa.

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Outro trajecto de bondinho, tão curto quanto o primeiro, e chegámos ao Pão de Açúcar. A atmosfera aqui estava mais calma, condizente com o lusco-fusco que se instalava em modo acelerado. O espaço disponível é bem mais reduzido que o do Morro da Urca, mas aquele que a vista alcança, a quase 400 metros de altitude, é muito superior: abrange de Niterói a Copacabana, oferecendo-nos uma paisagem em que a água se impõe a tudo o resto.

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A oferta de restauração e lojas no Pão de Açúcar é menor do que na paragem anterior, e isso também ajuda à tranquilidade do lugar. Em compensação, há um percurso entre o arvoredo, a que chamam Bosque das Artes, aproveitado agora para expor alguns trabalhos do artista plástico Carlos Vergara, um dos mais representativos do movimento da Nova Figuração no Brasil (inspirado na pop art americana dos anos 60). O projecto inclui três esculturas do artista, colocadas em pontos estratégicos, e é complementado com uma sugestão de jornada digital interactiva, em que vamos encontrando informações sobre a Mata Atlântica e a sua biodiversidade.

A escuridão chegou quase de repente, como é habitual nestas latitudes. As descidas foram intercaladas por tempos alargados de espera – a maior parte dos visitantes não fica por ali até ao encerramento do parque, que tem horário variável – pois cada bondinho só transporta um máximo de 65 pessoas por viagem. A demora teve, ainda assim, um lado positivo: a possibilidade de ver o Rio sob outra luz, e ficar a saber que nem a noite lhe diminui a sedução.

 

Lugares com história

O condutor do Uber como que materializou os meus pensamentos em palavras: “Sem sol, nem parece o Rio”. Pelos vistos, estávamos em sintonia. A cidade que eu imaginava e aquela onde ele vive são um Rio onde o sol brilha a maior parte do tempo – só que não desta vez. A excepção certamente confirmará a regra, mas o clima está a mudar. E a verdade é que nos dias em que estive no Rio de Janeiro, o sol nunca se mostrou completamente, substituído por nuvens grossas que de vez em quando decidiam aliviar a sua carga em forma de chuva.

Não seria isso que iria estragar a nossa estadia. Trocam-se as sandálias por ténis, veste-se uma gabardina (fininha, que a temperatura não baixa assim tanto), e vamos lá à descoberta da cidade. O Rio conhece-se ao ar livre. Quando a chuva aparece, aproveita-se para entrar numa loja, num café ou numa igreja. Quando ela vai embora, voltamos à rua e seguimos caminho. Há muito para ver, e não é uma chuvinha que vai arruinar-nos os planos.

O Rio dos nossos dias é uma cidade imensa, espalhada por bairros de carácter muito distinto. Numa primeira visita, por onde começar? Para nós, depois de a vermos do alto, fez sentido começar a descobri-la por alguns dos lugares ligados à sua história. Porque a verdade é que nós, portugueses, só conhecemos a história do Brasil que nos é contada nos bancos da escola, e que quase se resume a dois momentos: a chegada de Pedro Álvares Cabral em 1500, e a independência proclamada por D. Pedro em 1822.

O Rio é de Janeiro porque foi esse o mês em que no ano de 1502, uma frota portuguesa enviada por D. Manuel I e comandada por Gaspar de Lemos entrou na imensa enseada hoje conhecida como Baía de Guanabara. Na altura, a região era habitada por povos indígenas provenientes da Amazónia, conhecidos como tamoios ou tupinambás. Durante algumas décadas, a baía tornou-se palco de encontros e tensões. Franceses e portugueses disputaram o comércio do pau-brasil e a amizade dos autóctones, que conheciam a fundo aquelas águas e manguezais. Em 1555, os franceses, sob o comando de Villegaignon, tentaram fixar-se, erguendo a chamada França Antártica. A resposta portuguesa não tardou: após anos de confrontos, em 1565, Estácio de Sá fundava oficialmente a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, ao pé do Morro Cara de Cão, selando o domínio luso sobre uma das paisagens mais cobiçadas do Atlântico.

Em 1567, a jovem cidade foi transferida para o Morro do Castelo, onde se ergueram igrejas, colégios e fortalezas, tornando-se o verdadeiro berço urbano do Rio de Janeiro até ao século XVIII. Hoje o morro já não existe (foi demolido nas reformas urbanísticas do início do século XX), mas a sua memória corresponde grosso modo ao actual centro da cidade, onde se encontram alguns dos lugares importantes para compreender a evolução do Rio de Janeiro.

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Por estarmos num alojamento ali bem perto, começámos pelo bairro da Saúde, um dos cinco bairros que abrigam o porto da cidade. Num dos seus extremos, bem de frente para a Baía de Guanabara, a Praça Mauá foi desde sempre um palco privilegiado da história carioca. No século XIX, era a porta de entrada do porto, espaço de comércio intenso, marcado pelo vaivém de mercadorias e pelo peso silencioso do tráfico atlântico de escravizados, que ali deixou cicatrizes. Durante muito tempo, porém, a praça foi esquecida, sufocada pelo tráfego pesado e pela sombra de armazéns que a separavam do mar.

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Com o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009, o espaço renasceu. As avenidas foram abertas à luz, os armazéns deram lugar a esplanadas amplas e o mar voltou a estar em contacto com a cidade. Hoje, a Praça Mauá é o coração de um novo eixo cultural: de um lado o Museu de Arte do Rio (MAR), instalado em dois edifícios díspares (o palacete Dom João VI e um antigo terminal rodoviário modernizado) e que guarda e narra a pluralidade da vida urbana; do outro, sobre um cais antigo, o audacioso Museu do Amanhã, cuja arquitectura futurista se projecta como uma nave sobre as águas – e basta um olhar para se intuir que o edifício foi concebido por Santiago Calatrava, pese embora o arquitecto não se tenha socorrido, para esta obra, das suas habituais linhas arredondadas.

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Ao percorrer esta área, não há como ignorar uma das páginas mais duras da História: a do tráfico atlântico de escravizados, que fez do Rio um dos maiores portos negreiros do mundo. Em quase 400 anos de esclavagismo, a cidade recebeu cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas – a maior transferência forçada de população na história da humanidade. Esta herança pode ser sentida em lugares de memória hoje recuperados, como é o caso do Cais do Valongo. Situado na zona portuária da cidade, não muito longe da Praça Mauá, é um dos lugares mais marcantes da história da escravatura no mundo atlântico. Construído em 1811, o Cais do Valongo foi pensado para afastar do centro urbano o desembarque dos africanos escravizados, que até então ocorria em áreas mais visíveis da cidade. Durante décadas, tornou-se a principal porta de entrada de homens, mulheres e crianças trazidos à força de África: calcula-se que mais de um milhão, vindos na sua maioria do Congo e de Angola, tenham pisado aquelas pedras.

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Redescoberto em 2011, aquando das obras de revitalização da zona portuária (o projecto Porto Maravilha, iniciado em 2009), a Prefeitura do Rio acolheu a proposta do Movimento em Defesa do Direito do Negro e devolveu ao Cais do Valongo o lugar que lhe pertence na memória colectiva: um espaço preservado, onde as lajes de pedra e estruturas expostas permitem hoje um contacto directo com um passado que é difícil, mas incontornável. Desde então, o cais integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, um percurso que convida a visitar as marcas deixadas pela diáspora africana na região portuária, e que inclui o Jardim Suspenso do Valongo, a Largo do Depósito, a Pedra do Sal, o Centro Cultural José Bonifácio e o Cemitério dos Pretos Novos. Em 2017 foi classificado como Património Mundial da UNESCO.

 

Ao lado, na Praça Jornal do Comércio, está exposto desde 2013 o projecto artístico “Valongo, Cais de Ancestralidades”, que nos conta a história do cais e a sua relação com a área do Rio conhecida como Pequena África. Com curadoria de Ynaê Lopes dos Santos, e além de vários painéis informativos, inclui um conjunto escultórico que homenageia os escravizados, concebido pelo cenógrafo carioca Cachalote Mattos. O memorial apresenta figuras humanas em bronze que evocam a travessia atlântica e o sofrimento da escravatura, mas também a resistência e a herança cultural africana que moldou o Brasil. Um lugar que pretende ser simultaneamente de reflexão e de memória colectiva.

Seguindo pela Rua Sacadura Cabral (e que estranho é encontrar, no coração da Pequena África, uma rua com o nome de um aviador português, mesmo que a sua história esteja vagamente ligada ao Brasil…), chegámos ao Largo de São Francisco da Prainha. O nome vem da igreja erguida ali quase ao lado, escondida pelas casas coloridas de arquitectura tipicamente colonial que compõem uma face arredondada do espaço – edifícios estreitos de dois ou três pisos, com varandas de ferro forjado, portas com vidros e lojinhas no rés-do-chão, algumas das quais agora convertidas em bares ou restaurantes com esplanada. Ao centro, a estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal e pioneira em fundir a dança clássica com a herança afro-brasileira, ergue-se como símbolo de superação e afirmação num território marcado pela diáspora africana.

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A sensação de cor e alegria é incrementada pelas filas de bandeirinhas bicudas penduradas sobre as nossas cabeças, de um lado ao outro do largo; e também pelo imenso mural, pintado na lateral de um edifício vizinho, que celebra Conceição Evaristo, uma das escritoras mais importantes e profícuas do movimento pós-modernista no Brasil. Nascida em Belo Horizonte, foi no Rio que começou a sua carreira como professora e mais tarde como escritora. É precisamente no interior do Bairro da Saúde, no Morro da Conceição (o nome é mera coincidência), que viveu e mantém a sua casa e escritório quando está no Rio. Foi do quotidiano que partilhou ao longo dos anos com outras famílias negras migrantes, marcado tanto pela precariedade quanto pela força colectiva, que brotou a sua escrita singular. Conceição criou o conceito de “escrevivência”, em que a literatura nasce da vida real e da memória colectiva das mulheres negras, transformando dor e resistência em palavra literária. Uma inspiração para novas gerações de vozes periféricas e resistentes.

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Ali bem perto, numa confluência de ruelas e escadinhas mais para dentro do bairro, encontra-se a Pedra do Sal: uma espécie de paredão rochoso com degraus talhados na rocha, onde em tempos coloniais se descarregava o sal trazido pelas embarcações. Mas a história que lhe dá alma vai muito além do comércio, pois foi aqui que os africanos escravizados e seus descendentes encontraram espaço para celebrar, resistir e reinventar tradições. A Pedra do Sal tornou-se ponto de encontro da comunidade negra, lugar de rodas de samba, de batuques e de devoção, onde a fé e a música se entrelaçaram. Hoje continua a ser um espaço vivo, embora de uma maneira bem diferente da sua vocação original.

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Cinzento tropical

Ver as areias de Ipanema praticamente desertas não será certamente muito habitual. Havia mais pombos do que pessoas, que esses não pareciam incomodados pelas nuvens cinzentas e baixas, tão baixas que às vezes escondiam os picos do Penhasco Dois Irmãos e os maciços do Parque Nacional da Tijuca. Sem sol, o Rio até parece uma cidade sossegada, e só a passagem constante dos carros nos lembra de que estamos numa cidade com perto de sete milhões de habitantes.

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Irrequieto, o mar subia pelo areal acima quase até ao paredão (calcetado à portuguesa) que acompanha a praia, ansioso por ocupar todo o espaço disponível – a maré tempestuosa, mesmo que sem vagas altas, mostrava a sua força. Ainda assim, não conseguia eclipsar o adorável verde-azul da água, decerto menos brilhante do que se houvesse sol, mas não menos bonito. Na areia clara, a espuma deixava rastos cinzentos, espelhos do céu. Plantado na extremidade leste da praia, de viola ao ombro, encontrámos um Jobim de bronze, camisa e calças brancas manchadas pela maresia. Magro e jovem, parece que vai passear pelo calçadão, talvez em busca da garota que ele e Vinicius celebrizaram.

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Quanto a nós, voltámos costas a Jobim (nada pessoal contra ele, de cuja música sou grande admiradora) e dirigimo-nos para a Pedra do Arpoador – que é, como o nome indica, uma península de rocha maciça, parcialmente coberta de vegetação. Na vizinhança há mais tributos a figuras famosas no Brasil: ao desenhista Millôr Fernandes, notável pelas suas tiras de humor gráfico publicadas em jornais e revistas brasileiras de renome; e ao cineasta e fotógrafo brasiliense Breno Silveira, realizador de filmes aclamados pelo público e precocemente falecido em 2022. O Rio de Janeiro é pródigo em homenagear nomes grandes da cultura brasileira.

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Avançada sobre o mar e de fácil acesso por escadarias e caminhos entre arbustos e cactos, a Pedra do Arpoador é um miradouro natural muito frequentado por locais e turistas – mesmo em dias não tão amenos. De um lado, estendem-se as praias do Arpoador, de Ipanema e do Leblon; do outro, esconde-se a praia do Diabo, que a ondulação forte torna num spot apreciado pelos surfistas. Consta que é local de eleição para ver o pôr-do-sol. Mas eram horas de almoço, e o céu estavam tão carregado que nem dava para adivinhar onde ele estaria.

Por trás de Ipanema, a Lagoa Rodrigo de Freitas é um espelho de água cercado por ciclovias, jardins e quiosques. Com cerca de 7,5 km de perímetro, é ideal para caminhadas e passeios de bicicleta, e ao seu redor há um sem-número de áreas culturais e de lazer, incluindo o Jardim Botânico da cidade.

O nosso destino, porém, foi outro. No lado norte da lagoa fica o Parque Lage, um engenho de açúcar do período colonial que é actualmente um parque público. Fica aos pés do Corcovado, que se impõe 700 metros mais acima, o Cristo Redentor tornado minúsculo pela altura. Como panorama de fundo, não se pode pedir mais. Reestruturada em meados do século XIX ao estilo dos parques ingleses, a antiga fazenda foi depois adquirida pela família Lage. Já no século XX, o industrial Henrique Lage mandou erguer o palacete em estilo ecléctico que hoje é o coração do parque, rodeado por jardins planeados com lagos, grutas artificiais, caminhos sombreados e espécies vegetais exóticas. A casa foi criada como refúgio para a mulher do industrial, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, que ali organizou grandes festas para a alta sociedade carioca. No interior tem um pátio aberto, com colunas e arcadas, enquadrando uma piscina no centro – um cenário de excepção que abriga, desde 1975, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Rio de Janeiro. Ao redor do palácio, os jardins são um convite a passear devagar, entre alamedas de palmeiras imperiais, grandes árvores com raízes que emergem do solo, laguinhos e fontes antigas, pequenas pontes, e até mesmo uma pequena torre em forma de castelo. Um lugar onde a herança do romantismo, a força da natureza tropical e a energia contemporânea da arte convivem sem preconceitos.

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Um Rio de contrastes

Sob a capa da modernidade que ostenta quando visto de cima – seja da janela do avião ou de um dos inúmeros miradouros que nos oferece – o Rio revela-se, nas suas ruas, um mosaico de tempos, culturas e estilos. É Brasil, mas é também internacional, pois cada um dos milhões de visitantes estrangeiros que o visitam deixa um pouco de si, e leva consigo um pouco da cidade.

A Escadaria Selarón, é talvez o exemplo mais vibrante desta fusão, uma explosão de cores que brota entre dois bairros históricos, Lapa e Santa Teresa. Nas ruas de acesso já se sente a vibração do lugar, um dos poucos onde encontrámos mais movimentação turística, com a presença das consequentes bancas de venda de souvenirs e artigos artesanais vários. As paredes vizinhas estão cobertas com murais e pinturas que prolongam o espírito criativo do lugar, num work in progress constante. A escadaria é um manifesto de cor e identidade nascido da inspiração de Jorge Selarón, artista chileno radicado no Rio, que começou em 1990 a decorar os degraus com azulejos recolhidos das ruas e, mais tarde, doados por visitantes do mundo inteiro. Hoje, mais de dois mil mosaicos, vindos de mais de 60 países, formam uma narrativa única, que mistura bandeiras, símbolos, frases, retratos e cores intensas. Para lá de uma escadaria, é uma carta de amor ao Rio e ao mundo, uma obra viva que Selarón continuou a transformar até à sua morte em 2013.

Do alto da escadaria, a Ladeira de Santa Teresa desce até aos Arcos da Lapa que, com as suas 42 arcadas brancas, parecem emergir como uma ponte suspensa entre o passado colonial e o presente boémio do Rio. Construído no século XVIII para levar água do rio Carioca até ao centro da cidade, o aqueduto foi adaptado no início do século XX para servir de viaduto aos bondes que seguem até Santa Teresa, tornando-se símbolo incontornável da paisagem.

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Uma chuva miudinha, mas insistente, obrigou-nos a procurar um lugar mais abrigado. A poucos passos dali, com a sua estranha forma cónica a disfarçar a função que exerce, a Catedral Metropolitana pareceu-nos o sítio indicado para esperar pelo fim do aguaceiro. Não fosse esse acaso, o exterior austero, quase brutalista, do edifício não me despertaria o interesse: visto dos Arcos, confunde-se e é quase abafado pelos arranha-céus que se erguem do outro lado da avenida. Construída nos anos 60-70 do século passado segundo concepção do arquitecto Edgar de Oliveira da Fonseca, rompeu com a tradição barroca e neogótica das igrejas antigas. Há quem diga que esta Catedral teve como inspiração as pirâmides maias; outros defendem que evoca as cápsulas do Projecto Apollo. Tem ainda um outro nome, talvez mais oficial: Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, por ser dedicada ao padroeiro da cidade. Uma dualidade que condiz com o edifício, cujo interior foi para mim uma total surpresa – o contraste com o exterior não podia ser maior. As paredes inclinadas, com mais de 70 metros de altura, terminam numa cruz quadriculada, com vidros que deixam passar a luz vinda do céu. Tal como a cruz, estão perfuradas com centenas de janelas minúsculas, que mais pareciam meros pontos reluzentes na escuridão imensa daquele espaço. No alinhamento de cada braço da cruz, descendo quase até ao solo, há quatro vitrais monumentais, com imagens pintadas em cores vivas, também eles divididos em inúmeros quadradinhos. Suspenso acima do altar, um moderno e gigantesco crucifixo de madeira parece flutuar no nada. O ambiente inspirava paz, incitando ao silêncio, ao recolhimento e ao assombro, numa experiência quase espiritual – mesmo para alguém não religioso como eu.

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Com a luz do dia a desaparecer, a fome e o cansaço encaminharam-nos para a Confeitaria Colombo, uma jóia da Belle Époque carioca. Fundada em 1894 e situada no coração do centro histórico do Rio, o seu interior é uma ode ao luxo e à elegância. Conserva até hoje enormes espelhos belgas emoldurados em jacarandá, vitrais coloridos, balcões de mármore, madeiras talhadas e lustres de cristal, que nos transportam para uma época em que o café era um ritual e a pastelaria uma arte. O ambiente sofisticado valeu-lhe a fama de “café da moda” entre intelectuais, políticos e artistas do início do século XX. As mesinhas redondas com tampo de mármore e as cadeiras de palhinha evocam os cafés de Paris ou Viena. O salão superior é um varandim largo que liberta o espaço para permitir ver os vitrais iluminados do tecto em forma de cúpula ovalada. É como estar dentro de um cartão-postal que não perdeu o brilho. E quanto à comida, a variedade do menu (que vai muito para lá dos doces) tornou difícil a escolha, mas não saímos de lá defraudados.

Mais tarde, já noite cerrada, voltámos à Pedra do Sal. Local deserto durante o dia, se exceptuarmos um ou outro passante ou curioso, como nós, encontrámo-lo quase irreconhecível. Tal como em todas as segundas-feiras a partir das 7 da noite, a Pedra do Sal vibrava ao som da roda de samba que ali se realiza há já muitos anos, e que reúne moradores, músicos e visitantes, numa celebração que atravessa gerações. Uma multidão compacta ajeitava-se como podia, de pé ou espalhando-se pelos degraus, abanando-se ao som da música ou de copo na mão, ou simplesmente apreciando o ambiente e o vaivém de pessoas. De espaço de dor e trabalho a lugar da moda – é destas assincronias que o Rio também é feito.

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Foi a conhecer todos estes lugares que compreendi como a cidade nasceu e vive de contrastes: beleza natural e violência colonial, grandiosidade cultural e cicatrizes históricas, tradição e modernidade. E é justamente nesse diálogo entre passado e presente que a cidade se revela em toda a sua profundidade e se reinventa uma e outra vez.

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Cultura e arte a céu aberto – parte 2


Ana CB,

 

Arte e jardins: uma convivência feliz

 

A arte não se exprime apenas em telas, esculturas ou edifícios. Também os jardins podem ser entendidos como criações artísticas, concebidos com a mesma intenção de provocar emoção, contemplação ou surpresa. Um canteiro desenhado com rigor geométrico, um lago artificial que reflecte a luz de determinada maneira, ou a escolha de espécies que florescem em sequência ao longo das estações: tudo isto revela um gesto criativo tão intencional como o de qualquer pintor ou escultor.

Neste ponto de encontro entre a natureza e a imaginação humana surgem espaços singulares. Uns transformam vastas áreas em museus ao ar livre, onde esculturas convivem com árvores centenárias e caminhos errantes. Outros têm o próprio jardim como obra central, seja pela exuberância das cores, pela harmonia das formas ou pela maneira como nos transportam para universos culturais distintos.

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O que une todos estes lugares é a ideia de que um jardim pode não ser apenas lugar de relaxamento, brincadeira ou passeio, mas também uma experiência estética. A cada passo, há uma narrativa que se desenrola – umas vezes explícita, outras sugerida pelo ritmo das plantas, pela disposição dos espaços ou pela relação com a história do lugar.

Gosto particularmente de jardins que se afirmam como obras vivas em constante transformação. É esta vitalidade, feita da combinação entre concepção artística e natureza em mutação, que torna cada experiência única. Porque aqui não estamos apenas a contemplar arte ou a admirar paisagens, mas a caminhar dentro de criações que respiram e se renovam com a passagem do tempo.

 

Onde arte e natureza se reinventam

Brumadinho, Brasil

Entre todos os lugares que demonstram como a natureza pode ser palco para a criação artística, o Inhotim ocupa uma posição singular. Situado em Brumadinho, no estado brasileiro de Minas Gerais, é considerado o maior museu a céu aberto da América Latina e um dos mais notáveis exemplos de como arte e natureza podem conviver em equilíbrio dinâmico. Ali, não sabemos ao certo se são as obras que embelezam a paisagem ou se é a exuberância tropical que dá vida às obras. O resultado é uma experiência imersiva, uma verdadeira viagem sensorial entre galerias, trilhos, lagos e jardins botânicos.

A origem do espaço está ligada à colecção do (controverso) empresário Bernardo Paz, que começou a reunir obras de arte contemporânea a partir dos anos 80. Em 2004, decidiu criar um instituto que permitisse reunir esse acervo num lugar onde a arte dialogasse directamente com a paisagem. Aberto ao público em 2006, o Inhotim passou a acolher instalações de artistas brasileiros e internacionais em edifícios de arquitectura singular e em áreas abertas que se fundem com o entorno. O nome fora do comum deste instituto terá uma explicação curiosa: parece derivar de uma forma popular de dizer “Senhor Tim” – o local foi em tempos propriedade de um fazendeiro inglês de nome Timothy (na linguagem local, “Senhor Tim” derivou para “Inhô Tim”).

O espaço cresceu até atingir uma escala impressionante: são mais de 140 hectares visitáveis, com dezenas de galerias, esculturas monumentais e um parque botânico que reúne espécies raras de vários cantos do planeta. As plantas não são apenas pano de fundo; fazem parte da proposta curatorial. Uma alameda de palmeiras pode ser tão marcante quanto um pavilhão de arte, e uma colecção de cactos do deserto pode rivalizar com a intensidade de uma instalação.

A diversidade das obras expostas confirma a ambição do projecto. Entre as esculturas ao ar livre destaca-se a Beam Drop Inhotim, de Chris Burden: dezenas de enormes vigas de metal cravadas verticalmente no solo, lançadas de grande altura sobre cimento fresco, num gesto radical que se tornou escultura monumental e memória do impacto da gravidade e do acaso. Outras obras convidam à experiência sensorial ou lúdica. A Viewing Machine, de Olafur Eliasson, é um caleidoscópio gigante que fragmenta e multiplica o jardim à sua volta em padrões geométricos infinitos. Troca-Troca, de Jarbas Lopes, usa carros coloridos desmontáveis que podem ser combinados em novas formas, transformando a lógica utilitária do automóvel em jogo artístico. A dimensão política e histórica também encontra espaço no Inhotim. O Barco, de Grada Kilomba, é uma instalação poderosa composta por estruturas de ferro, com palavras gravadas, que evocam o porão de um navio negreiro. Caminhar entre estas peças é um confronto com a memória da escravatura, com a dor e a resistência de milhões de vidas silenciadas e apagadas.

O Inhotim distingue-se também pelas galerias dedicadas a criadores específicos. A Galeria Adriana Varejão, que integra obras da artista plástica que foi casada com Bernardo Paz, é uma das mais emblemáticas, até mesmo pela sua arquitectura. Já a Galeria Psicoativa, de Tunga, oferece um mergulho no universo enigmático do artista: esculturas e instalações que exploram alquimia, metamorfose e inconsciente, num espaço onde razão e mistério se confundem. Na galeria Cildo Meireles, gostei especialmente do Desvio para o Vermelho, um ambiente monocromático que nos envolve num universo inteiro dominado por aquela cor. O quotidiano – uma mesa, uma sala, objectos banais – transforma-se em cenário inquietante, onde o trivial esconde algo de perturbador. Entre as experiências imersivas, a galeria dedicada a Yayoi Kusama é a minha favorita, com duas obras que nos transportam para um universo de repetições e reflexos infinitos, característicos da artista japonesa. A sensação de estar dentro de um espaço que se multiplica infindavelmente é uma das mais intensas da visita ao Inhotim. E há ainda lugar para homenagens à comunidade local nos murais Abre a Porta e Rodoviária de Brumadinho, de John Ahearn & Rigoberto Torres, criações cheias de realismo e cor.

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A soma destas (e de muitas outras) experiências confirma a singularidade do Inhotim: um lugar onde arte e paisagem são inseparáveis, e onde cada obra ganha novos significados ao ser vivida num espaço aberto, tropical e vivo. Mais do que um museu, é um organismo que desafia a ideia de que a arte só pertence a paredes brancas ou corredores fechados.

Visitar o Inhotim exige tempo e entrega. Dois dias serão o mínimo necessário para os vários percursos expositivos, em trilhos que contornam lagos e jardins temáticos, com galerias e instalações escondidas entre a exuberância vegetal, descobrindo obras que surpreendem a cada volta do caminho. Não sei dizer se me marcou mais o acervo artístico, a riqueza botânica, ou a forma como tudo se conjuga. Talvez o maior mérito do Instituto seja exactamente este: mostrar que arte e natureza não são esferas separadas, mas domínios que, em conjunto, podem reinventar a forma como olhamos o mundo.

 

A arte em diálogo com a natureza

Porto, Portugal

Longe da escala monumental do Inhotim, o ponto forte de Serralves está no equilíbrio entre várias dimensões: a arquitectura, o jardim histórico e a arte contemporânea. É um dos meus sítios preferidos no Porto. Reúne três pólos que se complementam: o Museu de Arte Contemporânea, a Casa de Serralves e o Parque. Nenhum destes espaços se entende isoladamente, pois é na articulação entre eles que reside o impacto do lugar.

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O parque, com mais de 18 hectares, foi concebido entre as décadas de 30 e 40 do século passado sob a orientação do arquitecto francês Jacques Gréber. Inspirado em modelos de jardins clássicos europeus, combina áreas formais – com avenidas, escadarias e lagos geométricos – com zonas mais orgânicas, bosques e clareiras. Caminhar no parque é absorver diferentes linguagens paisagísticas, desde o rigor geométrico ao romantismo naturalista, numa diversidade que nunca soa forçada. A vegetação é cuidadosamente pensada: magnólias, camélias, cedros e espécies raras convivem em cenários que mudam consoante os humores de cada estação do ano.

Mas Serralves não é apenas jardim. É também palco de um dos museus mais activos de Portugal no domínio da arte contemporânea. O edifício, assinado por Álvaro Siza Vieira, é um exemplo de como a arquitectura pode ser discreta e ao mesmo tempo marcante. As linhas sóbrias e a integração na paisagem criam uma continuidade natural: do interior para o exterior, das salas brancas para o verde que se vê pelas janelas, nunca perdemos a noção de que estamos imersos num espaço mais extenso.

É precisamente nesta convivência entre museu e parque que Serralves se distingue. As exposições não se limitam às galerias; transbordam para o ar livre, ocupando clareiras, prados ou estruturas do jardim. Aqui, a arte contemporânea, tantas vezes associada a ambientes urbanos ou industriais, respira de outra maneira. Vários artistas de renome internacional têm em Serralves marcas permanentes, mas as surpresas fazem parte do percurso. Nunca sabemos exactamente o que vamos encontrar, e é esta incerteza que torna cada visita única. No campo da inovação, o projecto “Serralves em luz” está entre as experiências artísticas mais memoráveis que já tive a felicidade de visitar.

Para além da arte e da paisagem, Serralves tem também uma vertente patrimonial e arquitectónica importante. A Casa de Serralves, construída entre 1925 e 1944, é um dos exemplos mais notáveis de Art Déco em Portugal. O edifício, com as suas linhas elegantes, interiores sofisticados e ligação directa ao jardim, acrescenta uma dimensão histórica que enriquece a experiência. Não é apenas cenário: é parte do diálogo que o espaço estabelece entre passado e presente, tradição e contemporaneidade.

Há alguns anos, o parque ganhou uma nova atracção, na linha de outros jardins estrangeiros famosos: a Treetop Walk, um passadiço elevado que permite caminhar entre as copas das árvores. Para além da perspectiva inusitada sobre o parque, esta estrutura simboliza bem a filosofia de Serralves: olhar de outro ângulo, experimentar uma ligação à natureza de forma diferente.

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Há algo em Serralves que sempre me faz pensar sobre a noção de escala. A grandiosidade aqui não está no tamanho absoluto, mas na subtileza com que elementos distintos se entrelaçam. Um jardim que é também museu, um museu que é também parque, uma casa histórica que é também espaço de arte. Nada funciona solitariamente, e é essa teia de relações que dá sentido ao conjunto. Fica na memória o modo como tudo se conjuga num ambiente coerente, em que cultura e paisagem não são mundos de costas voltadas, mas antes partes de um mesmo organismo. Vivo.

 

Arte, Oriente e tropicalidade: um trio equilibrado

Funchal, Portugal

O Monte Palace, situado na encosta sobre o Funchal, é um dos lugares que melhor demostram que um espaço a céu aberto pode ser concebido como obra de arte total. Uma antiga quinta, transformada em hotel de luxo no início do século XX, é hoje uma área de 70 mil metros quadrados onde a vegetação tropical, a arte e a memória histórica vivem em harmonia. A casa principal, pintada em tons pastel que contrastam com as madeiras e os ferros forjados escuros, continua a ser um dos ícones visuais do conjunto. Da sua esplanada-miradouro desfruta-se de uma das vistas mais belas sobre a baía do Funchal, recorte azul entre o verde tropical da montanha.

O percurso pelos jardins é feito de espantos sucessivos. Caminhos em declive revelam clareiras, lagos, painéis de azulejos e esculturas escondidas entre a vegetação. Esta dimensão cenográfica é intencional: tudo parece estar pensado para surpreender. Durante o passeio encontramos obras decorativas de várias origens, esculturas contemporâneas e instalações artísticas que foram sendo acrescentadas ao longo dos anos, tornando os jardins num espaço activo de coexistência da natureza com a cultura.

Entre os elementos que mais marcam a identidade do Monte Palace estão as colecções de azulejos, que relatam episódios históricos de diferentes épocas, desde narrativas religiosas até representações da expansão marítima. O mais impressionante é o conjunto “Aventura dos Portugueses no Japão”, formado por mais de uma centena de azulejos que narram, em sequência, o encontro entre duas culturas distantes. Mais do que simples decoração, estes painéis são uma forma de inscrever a história na paisagem, mostrando que um jardim também pode ser um repositório de memórias.

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Os Jardins Orientais merecem um destaque especial. Com pagodes, portais vermelhos, esculturas de inspiração asiática e lagos que reflectem pontes de madeira, criam uma atmosfera distinta dentro do complexo. A conjugação de bambus, fetos arbóreos e lanternas de pedra com a arquitectura vermelha dos pavilhões compõe uma paisagem que parece transportar-nos para outro continente. É uma das áreas mais fotogénicas do Monte Palace (e a minha preferida) e também das que mais puxam à contemplação: a simetria dos elementos e o contraste das cores têm um efeito quase hipnótico. Já para não falar dos lagos povoados por carpas koi de várias cores, que oferecem entretenimento garantido.

No coração do jardim encontra-se o lago central, alimentado por uma muito “instagramável” cascata em modo cortina de água. Habitado por cisnes nórdicos, alvíssimos, funciona como espelho para a vegetação envolvente e para as esculturas posicionadas estrategicamente à sua volta. Toda a concepção estética do local e o jogo entre reflexo, movimento e som da água transformam esta área num dos pontos mais atractivos da visita.

O museu, edifício colorido engenhosamente integrado no declive do terreno, é um espaço de contraste: no interior, a cor e o brilho de uma notável exposição de minerais de todo o mundo e das obras de arte contemporânea ali expostas; no exterior, o verde omnipresente e a diversidade botânica. Uma opulenta colecção de esculturas africanas deu origem à criação do Jardim de Escultura Contemporânea do Zimbabué, onde convivem com a vegetação tropical que evoca o continente mais próximo da ilha da Madeira. No Monte Palace, a arte prefere não estar encarcerada entre paredes.

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Mais do que um aglomerado de jardins exóticos, mais do que um espaço para mostrar ao público obras de arte coleccionadas, o Monte Palace é um exercício de harmonização e equilíbrio, de comunhão entre a criatividade dos mundos humano e natural, criado para saciar os nossos sentidos. Um objectivo conseguido com sucesso.

 

Um museu como complemento

Marraquexe, Marrocos

Nos anos 30 do século passado, o pintor francês Jacques Majorelle deixou-se seduzir pelo exotismo de Marraquexe e decidiu construir, na periferia da cidade, um refúgio que fosse simultaneamente casa, atelier e jardim. Durante décadas, coleccionou plantas raras, sobretudo espécies tropicais e cactos, criando um espaço que, pela diversidade botânica e pela cenografia pensada em cada recanto, se tornou indissociável não só da casa que rodeia, como da própria obra do artista. No lugar que permanece com o seu nome, o elemento mais marcante é cromático: o célebre “azul Majorelle”, tom profundo e luminoso que o pintor adoptou como marca própria e que passou a revestir muros, fontes e estruturas arquitectónicas do jardim, transformando-o numa tela habitável.

Após a morte do pintor, o espaço entrou num período de abandono até ser resgatado, nos anos 80, por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé, que reconheceram o valor único do conjunto. Foi sob o seu patrocínio que o Jardim Majorelle se revitalizou, mantendo a herança do seu criador, mas acrescentando uma nova camada de significado: abriu-se ao público, e tornou-se ícone cultural e museu.

Passear pelo jardim é atravessar um percurso de contrastes calculados. Sob os nossos pés, os caminhos de cor ocre que remetem para a tradição marroquina; à volta, o choque vibrante entre o azul, o amarelo intenso e o branco que marcam portas, vasos e elementos decorativos. Entre estes planos de cor erguem-se mais de trezentas espécies de plantas, vindas de cinco continentes: palmeiras imponentes, bambus ondulantes, buganvílias, lótus, nenúfares. Uma diversidade vegetal não caótica, antes coreografada para criar um equilíbrio subtil entre sombra e luz, densidade e abertura. O jardim desdobra-se numa sucessão de quadros vivos: a vegetação enquadra a cor dos caminhos e das paredes, o reflexo da água intensifica o contraste dos elementos arquitectónicos.

A presença da água é essencial na experiência do lugar. Fontes geométricas, tanques ornamentais e o lago maior, coberto de nenúfares, introduzem movimento e som, ao mesmo tempo que reforçam a sensação de frescura. São pontos de pausa bem-vinda, onde simplesmente apetece existir.

Do jardim passamos com naturalidade para o Museu Pierre Bergé, instalado no antigo atelier de Majorelle: um espaço intimista que reúne peças de joalharia, trajes, tecidos e objectos do quotidiano que sublinham a riqueza da herança amazigh no território marroquino. A inclusão deste museu acrescenta profundidade ao complexo – para além da experiência estética e sensorial, mergulhamos no património cultural da região, reforçando o conceito de que a arte não vive apenas da cor ou da forma, mas também da identidade.

 

O local ganhou ainda maior notoriedade após a morte de Yves Saint Laurent, cujas cinzas foram depositadas no jardim, perpetuando a ligação íntima entre o estilista e o lugar que elegeu para o acolher. Esta dimensão memorial confere-lhe uma aura particular, entretanto complementada pela abertura, paredes-meias com a Villa Majorelle, de um museu dedicado ao costureiro.

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O Jardim Majorelle é um lugar onde a simbiose quase orgânica entre arte, moda e paisagem resulta numa forte identidade visual e numa atmosfera única. Visitá-lo é como entrar num universo onde a cor se torna emoção, e onde a vegetação não é apenas ornamento, mas sim matéria plástica ao serviço da visão artística partilhada pelos seus criadores.

 

Arte com flores

Lisse, Países Baixos

Situado em plena região dos campos de tulipas, o parque Keukenhof nasceu em meados do século XX com um propósito claro: mostrar ao mundo a excelência da floricultura holandesa. O nome remete para o século XV, quando as terras eram usadas para a horta da cozinha (“keuken”) do castelo da condessa Jacoba van Beieren. O passado agrícola cedeu entretanto lugar a um projecto que viria a assumir proporções monumentais: um jardim concebido como vitrina artística da produção floral, e também como cenário de sonho para os mais de um milhão de visitantes que o procuram todos os anos, durante as escassas oito semanas de Primavera em que o Keukenhof permanece aberto.

O que distingue este parque não é apenas a quantidade impressionante de flores plantadas – mais de sete milhões de bolbos a cada temporada – mas sobretudo a forma como estas são organizadas. Paisagistas e jardineiros concebem todos os anos novos desenhos, inspirados em temas que mudam a cada edição, criando tapetes cromáticos de enorme impacto visual. Cada canteiro é pensado como se fosse uma pincelada, e o resultado são cenários exuberantes de cores mutáveis, que se transformam de semana para semana entre Março e Maio. É esta dimensão efémera que confere ao Keukenhof um fascínio especial: quando o visitamos sabemos que aquilo que os nossos olhos vêem existe apenas naquele momento, e desaparecerá em breve para dar lugar a algo diferente no ano seguinte.

As tulipas, claro, são as protagonistas absolutas, celebradas em toda a sua variedade de formas e cores. Mas o Keukenhof não se limita a esta flor que é um dos símbolos da Holanda. Jacintos, narcisos, lírios e orquídeas complementam o espectáculo, ampliando a diversidade e acrescentando fragrâncias ao deleite visual. Percorremos alamedas arborizadas que se abrem sobre grandes manchas coloridas, cruzamos pontes e descobrimos recessos mais intimistas, onde a escala se reduz para permitir uma contemplação mais pausada. O desenho do parque procura esse equilíbrio entre grandiosidade e detalhe, garantindo que, para lá da imponência, exista também proximidade.

Os elementos arquitectónicos reforçam esta dualidade. Há esculturas que emprestam um toque de nobreza a certos ambientes, mas é nos pavilhões modernos que o parque mostra maior ousadia. Abrigam exposições temporárias, recantos temáticos e mostras dedicadas a espécies específicas. São espaços que ligam o jardim à tradição floral holandesa, mas também à ideia do jardim como trabalho artístico – onde a mão humana organiza a natureza segundo linhas de composição e experimentação estética.

Visitar Keukenhof é, por tudo isto, uma experiência de contemplação e de aprendizagem, com muita felicidade à mistura. Não é sem razão que há imensas crianças entre os visitantes. Enquanto passeamos entre lagos, esculturas contemporâneas e cenários quase teatrais, descobrimos o rigor técnico por trás de cada flor, de cada combinação cromática ou de espécies botânicas. O jardim é, simultaneamente, espectáculo e laboratório, vitrina comercial e obra de arte temporária.

Em Keukenhof, a natureza também é moldada pela visão criativa humana, mas o foco não está na integração da arte plástica com a paisagem e sim na própria concepção do jardim como obra artística. A paleta não é de tintas, mas de flores; o material de trabalho não é metal, pedra ou linho, mas sim terra e água. É esta singularidade que faz dele não apenas o maior jardim de flores do mundo, mas também uma das mais expressivas demonstrações de como o design paisagístico pode elevar-se à categoria de arte.

 

Cultura sem paredes

Depois de percorrer estes lugares, é inevitável reconhecer que a cultura não se esgota em museus fechados nem em salas de exposição. Tanto nos espaços etnográficos como nos jardins artísticos, a experiência ganha outra intensidade quando se vive ao ar livre, em contacto directo com a paisagem, com o clima, com os sons e até com os cheiros. É este cruzamento entre arte e natureza que lhes confere uma vitalidade singular: não são só locais para contemplar, mas também palcos para memórias, tradições e visões criativas contemporâneas.

No fundo, estes espaços convidam a uma forma de visita mais atenta e mais sensitiva. Não se trata apenas de ver, mas de estar, de caminhar, de deixar que a envolvência acrescente camadas de significado ao que ali se mostra. E talvez seja isso que os torna tão inesquecíveis: ao sair de cada um deles, trouxe comigo não só imagens de beleza, mas sobretudo a sensação de ter experimentado, ainda que só por umas horas, uma forma mais rica e sensorial de estar em contacto com a cultura.

Cultura e arte a céu aberto – parte 1


Ana CB,

Há lugares onde a criatividade não cabe entre quatro paredes. Espaços ao ar livre onde a história, a memória e o talento humano se encontram em feliz coabitação. Alguns recriam modos de vida que já não existem ou estão a desaparecer; outros transformam jardins e campos em plataformas de arte. Têm em comum o facto de proporcionarem uma forma diferente de contacto com a cultura – não em vitrinas ou corredores fechados, mas em cenários onde a natureza e a intervenção humana se misturam. Tenho visitado alguns destes lugares, de que sou particularmente apreciadora, e nunca saio de lá defraudada.

 

O mundo contado pela vida quotidiana

Incluo neste conjunto os museus etnográficos a céu aberto. Neles, a curiosidade não se alimenta apenas de objectos expostos, mas de ambientes inteiros, pensados para mostrar como se vivia, trabalhava e organizava a vida em tempos passados. São recriações que nos permitem mergulhar na atmosfera quotidiana de outras épocas, sentir os ritmos de uma comunidade e reconhecer o engenho que moldou ferramentas, casas ou formas de trabalho. Lugares que nos desafiam a olhar para o passado não como algo distante e abstracto, mas como uma herança palpável, feita de gestos ligados à sobrevivência, práticas comunitárias e ligações profundas com o meio envolvente – uma herança que é preciso acarinhar e preservar, mesmo que por vezes possa parecer obsoleta aos olhos da sociedade moderna.

 

O berço dos museus ao ar livre

Estocolmo, Suécia

Ao falar destes museus, é quase inevitável começar pelo Skansen. Criado em 1891, foi o primeiro museu a céu aberto do mundo, pioneiro na ideia de preservar modos de vida tradicionais fora das paredes de um edifício. Nasceu com uma ideia muito concreta: fixar a memória de um país que estava a mudar depressa. O mundo rural perdia importância, as cidades cresciam, a era industrial avançava. Era necessário guardar, de forma organizada, aquilo que definia o dia-a-dia das comunidades que viviam da terra, do trabalho manual e da relação próxima com a natureza: reunir casas, oficinas e estruturas de diferentes regiões num só local, para mostrar como viviam as comunidades rurais antes da industrialização.

O resultado é um museu vivo, que não se limita a exibir objectos soltos, mas recria ambientes inteiros. Mais de um século depois, continua a ser uma referência mundial, visitado tanto por quem procura aprender mais sobre história cultural como por famílias em passeio. É possível entrar numa casa onde as tarefas diárias ainda são feitas como no início do século passado, ou descansar dentro de uma igreja de madeira que transmite a sobriedade do quotidiano religioso. Há uma mercearia antiga, uma tipografia numa casa do século XVIII, lojas que funcionam como noutros tempos, e oficinas onde artesãos trabalham o metal ou o vidro, ou produzem peças de cerâmica ou joalharia, entre outros ofícios. O Skansen dá-nos a noção de um país inteiro resumido em parcos quilómetros – é um pouco como se estivéssemos dentro d’ A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson, o delicioso livro de Selma Lagerlöf em que a paisagem da Suécia também é uma personagem.

Tem ainda outra faceta que o torna especialmente popular: a vertente zoológica. Para quem tem crianças pequenas, esta será a principal atracção – vi muitos pais, tanto sozinhos como em casal ou em grupo, empurrando carrinhos de bebé ou com filhos pela mão. O espaço inclui um pequeno jardim zoológico com espécies típicas da Escandinávia, como alces, ursos, linces ou renas, bem como animais domésticos tradicionais das quintas suecas: coelhos, porcos, ovelhas, cavalos, e afins. Tem também um aquário, e lagos onde vivem focas e lontras. Durante a visita, passamos das ruas de uma aldeia histórica para cercados onde vacas ou cabras pastam tranquilamente. Esta combinação entre cultura e natureza faz com que a experiência seja mais variada, mais completa e, de certa forma, mais acessível para diferentes públicos.

O Skansen tem um calendário diversificado de actividades para miúdos e graúdos, sejam elas de pura diversão, como as celebrações festivas anuais, ou de educação, como as palestras sobre animais e a protecção da biodiversidade. Nota-se que procuram um equilíbrio entre aprendizagem e entretenimento, sem que uma dimensão anule a outra.

Apesar de o ter visitado numa época do ano mais tranquila, não tive dificuldade em perceber porque é que Skansen é um local tão popular entre os locais e atractivo para quem vem de fora. Não é apenas um museu etnográfico: é também um espaço de lazer, um lugar onde se pode passar um dia inteiro sem que a experiência se torne pesada ou demasiado académica. A mistura de casas históricas, demonstrações de ofícios e componente zoológica tornam-no num espaço em constante movimento.

O modelo de Skansen acabou por influenciar muitos outros museus etnográficos pelo mundo fora. A ideia de desmontar casas, igrejas ou oficinas de várias partes de um país e reconstruí-las num mesmo local mostrou-se eficaz para contar uma história colectiva. Hoje, visitar o Skansen é perceber como um projecto museológico pode ser igualmente uma declaração de identidade: aquilo que se decide preservar é aquilo que se considera essencial para compreender um povo.

 

A alma rural de um país

Sibiu, Roménia

O Muzeul Astra, leva a uma escala impressionante o conceito de contar a vida de um país a céu aberto. Situado numa vasta área arborizada (96 hectares na floresta protegida de Dumbrava Sibiului), reúne centenas de casas, igrejas, moinhos e oficinas que representam diferentes regiões e tradições da Roménia. Mais do que um conjunto de edifícios, é uma espécie de pequena Roménia condensada num único espaço, onde podemos atravessar séculos de história caminhando entre vegetação, água e trilhos de terra.

O Astra demonstra, de forma exemplar, a diferença entre ver um objecto isolado numa vitrina e ver esse mesmo objecto no seu contexto natural. Uma enxada exposta num museu tradicional é apenas uma ferramenta. Colocada ao lado de um celeiro ou usada numa demonstração prática, passa a ser testemunho vivo de uma forma de subsistência. Essa diferença ajuda a entender porque é que estes museus têm tanto impacto: transformam peças inertes em histórias completas. No Astra, esse princípio está bem patente.

A Roménia é um mosaico de regiões com influências diversas – latinas, saxónicas, otomanas, húngaras – e o Astra reflecte esta diversidade cultural, sobretudo em termos de arquitectura e utilidades. O espólio do museu conta com mais de 400 estruturas edificadas e mais de 200 mil objectos variados, todos preservados com cuidado. Visitar o Astra é também perceber como a identidade romena se construiu a partir da coexistência de tradições distintas. Esta pluralidade é, ainda hoje, a verdadeira riqueza de um país que mais parece uma manta de retalhos.

O espaço natural em que o Astra está inserido contribui para um efeito de imersão. As casas não estão dispostas como numa exposição em linha, mas sim espalhadas no meio das árvores, à beira de lagos, ou em clareiras. Esta organização faz com que a visita se pareça mais com uma caminhada por aldeias reais do que com uma visita museológica. A natureza funciona como cenário e, ao mesmo tempo, como parte integrante da experiência.

Entre os edifícios mais marcantes está uma igreja de madeira, que data de 1672 e é o monumento mais antigo da colecção do museu. Depois, há os moinhos – uma colecção única que inclui 33 moinhos de todos os tipos energéticos conhecidos na área euro-asiática (com excepção dos moinhos de maré), e que espelham a importância da moagem nas economias locais. E há casas de todos os tipos, algumas muito antigas ou únicas, como por exemplo a maior casa de carvalho do sudeste da Europa, construída há três séculos.

O Astra não se limita a exibir edifícios estáticos. Muitos dos espaços estão equipados com objectos do quotidiano: cozinhas com potes de barro, camas cobertas por colchas bordadas, utensílios agrícolas de uso corrente. Há até demonstrações de ofícios: oleiros, ferreiros, carpinteiros ou tecelões mostram como as mãos davam forma a quase tudo o que era necessário para viver.

Faz também parte da missão do Muzeul Astra contribuir para o desenvolvimento e promoção das comunidades rurais, tendo já divulgado ao público visitante várias minorias étnicas nacionais e mais de 200 comunidades rurais. Os eventos que organiza incluem festivais tradicionais e celebrações diversas envolvendo música, dança, gastronomia e artesanato, com a presença de artesãos oriundos de cada comunidade representada.

Não sendo uma das atracções mais divulgadas a nível turístico (pelo menos para fora do país), posso dizer com sinceridade que, em Sibiu, foi o local que mais gostei de visitar. Foi um mergulho, durante as várias horas que demorei a percorrê-lo, numa forma de pensar e organizar o mundo que já desapareceu em grande medida, mas que continua a ser fundamental para compreender a história e o carácter de um país. Não é um espaço de nostalgia, mas sim de reconhecimento. Com a minha viagem pela Roménia ainda no início, deu-me uma base importante para compreender e destrinçar tudo o que vi do país daí para a frente.

 

Casas de turfa e a vida nos confins do Atlântico

Skagafjörður, Islândia

À beira de um fiorde no norte da Islândia, Glaumbær é um daqueles lugares que nos obriga a repensar a relação entre ser humano e ambiente: um conjunto de casas de turfa que testemunham como comunidades inteiras conseguiram sobreviver em condições climáticas extremas, usando engenho e recursos locais. Nestas construções, a terra não é apenas chão, mas também parede e tecto.

Esta quinta histórica preservada (que inclui também alguns edifícios de madeira, antigos e bem recuperados, com exposições etnográficas várias) oferece-nos um vislumbre de como seria a vida na Islândia rural dos séculos XVIII e XIX. À primeira vista, as casas parecem pequenos montículos cobertos de relva, confundindo-se com a paisagem. Só mais perto é que percebemos que existem fachadas de madeira, com entradas para interiores bem organizados. A turfa, retirada dos campos vizinhos, era usada em blocos compactados que, empilhados em configuração de espinha, formavam paredes espessas capazes de isolar contra o frio e o vento. No tecto, uma camada adicional de terra e vegetação ajudava a reforçar a estrutura. Não era arquitectura de ostentação, mas de sobrevivência, nascida da necessidade e da adaptação.

Por dentro, as divisões são estreitas e pouco iluminadas, mas revelam uma organização funcional surpreendente. Há cozinhas com fogões a carvão, quartos partilhados por várias pessoas, despensas com prateleiras para conservar alimentos e áreas de trabalho onde se fiava lã ou se preparavam utensílios. O mobiliário, em madeira simples, mostra como cada peça tinha de ser prática e duradoura. O museu conserva muitos desses elementos originais, permitindo-nos imaginar o quotidiano das famílias que aqui viveram até ao século XX.

O que mais me chamou a atenção foi a forma como estas casas exprimem uma lógica comunitária, que ainda hoje sobrevive em muitas partes da Islândia. Glaumbær não era apenas uma residência isolada, mas um conjunto de edifícios interligados, uma espécie de aldeia minúscula sob uma mesma cobertura de turfa. Essa proximidade física traduzia também a importância da cooperação: num ambiente hostil, a sobrevivência dependia de esforços partilhados, desde a produção de alimentos até à manutenção das construções.

Há também um lado simbólico nesta arquitectura. As casas de turfa significavam não só abrigo físico, mas igualmente uma extensão da própria terra. A fronteira entre o natural e o humano era ténue: vivia-se dentro daquilo que o solo oferecia. Esta ligação à natureza é uma constante na cultura islandesa, visível tanto nas sagas medievais, que celebram a dureza da vida nos confins do Atlântico, como na literatura mais contemporânea, que continua a retratar a Islândia como um território onde a paisagem molda o carácter das pessoas.

Visitar Glaumbær fez-me, de certo modo, perceber como a chamada “modernidade” mudou (e vai continuar a mudar) tão radicalmente os nossos conceitos de conforto. Hoje em dia, habituados a casas luminosas e bem equipadas, causa-nos estranheza atravessar um corredor estreito ou entrar numa divisão sombria. Mas não há como ignorar a engenhosidade que permitia, em tempos menos tecnológicos, transformar recursos escassos em abrigo eficaz. A turfa pode parecer frágil, mas revelou-se mais resistente e duradoura do que muitos materiais modernos.

Glaumbær não é só um museu sobre casas antigas, mas sim uma lição sobre resiliência e adaptação. Mostra como a arquitectura pode ser profundamente enraizada no ambiente e como, mesmo em condições adversas, as comunidades encontraram formas criativas de viver e prosperar. É um lugar que nos lembra que a cultura não se exprime apenas em palácios ou monumentos grandiosos, mas muitas vezes em soluções simples, engenhosas e silenciosas que garantiram a continuidade da vida em regiões isoladas.

 

A paisagem que se tornou museu

Zaandijk, Países Baixos

Nas margens do rio Zaan, às portas de Amesterdão, Zaanse Schans é uma pequena localidade transformada em museu activo, onde moinhos, armazéns e casas de madeira recriam a atmosfera holandesa dos séculos XVIII e XIX. Aqui, não se trata apenas de conservar edifícios históricos, mas de mostrar como funcionava (e em certa medida ainda funciona, pese embora mais assente no turismo) uma comunidade próspera, sustentada pela engenhosidade técnica e pelo comércio. Se conseguirmos ignorar as centenas de turistas que visitam a aldeia, não é difícil “encaixar” neste cenário a beleza do quotidiano e as personagens retratadas por Vermeer nos seus quadros.

O que distingue Zaanse Schans é a sua ligação ao vento e à água. Os moinhos eram usados para tudo, desde a moagem tradicional destinada à alimentação até à produção de óleo ou de pigmentos, passando pela serração de madeiras. Cada moinho tinha uma função precisa. Juntos, formavam uma rede que, em plena era pré-industrial, colocava a região de Zaan na vanguarda da inovação: nesta que foi a área industrial mais antiga da Europa Ocidental, chegaram a existir, nos séculos XVIII e XIX, cerca de seiscentos moinhos de vento em funcionamento simultâneo. Alguns dos que vemos hoje em Zaanse Schans ainda são usados. Entrar num deles é ter uma aula in loco sobre a transformação de uma energia natural em força produtiva: as engrenagens de madeira rangem, as pás rodopiam, e sente-se no ar o cheiro a madeira serrada ou a sementes esmagadas.

O projecto de Zaanse Schans sensivelmente como o vemos hoje foi concebido em 1946 pelo arquitecto Jaap Schipper. Os edifícios que congrega foram resgatados em locais diversos e transportados, por estrada e por via navegável, para a área onde actualmente se encontram. Alguns já não correspondem exactamente à estrutura original. É o caso do De Kat, o único moinho de vento do mundo ainda em funcionamento que mói pigmentos minerais para a produção artesanal de tintas de acordo com a composição criada por Rembrandt, tal como se fazia há séculos. Desmantelado em 1904 até à altura da cremalheira, em 1960 foi reconstruído com a colocação do corpo de um outro moinho na subestrutura. Quanto ao Het Jonge Schaap, também ainda activo, é uma réplica fiel de um moinho de serração original de 1680, em tempos situado atrás da estação ferroviária de Zaandam e demolido em 1942. Antes da demolição foi cuidadosamente estudado e medido, o que permitiu a sua reconstrução posterior por artesãos locais. Funciona desde 2007 em Zaanse Schans, operado por uma equipa dedicada de moleiros.

Para além dos moinhos, o complexo inclui oficinas e armazéns onde se fabricavam produtos que ainda hoje associamos à identidade neerlandesa. Há queijarias que mostram o processo artesanal de produção, sapatarias dedicadas aos famosos tamancos de madeira e pequenas lojas que exibem artesanato local. Esta componente prática liga a vocação museológica à comercial, onde tradição e consumo se misturam sem conflitos.

O ambiente urbano recriado em Zaanse Schans também tem o seu encanto. As casas pintadas em tons de verde e branco, com telhados inclinados e janelas de guilhotina, evocam a estética típica da região. Várias delas foram transferidas de outras localidades para aqui, de modo a preservar o conjunto arquitectónico, e são habitadas, o que reforça a sensação de que não estamos apenas perante uma reconstrução museológica, mas num lugar que continua a ter vida própria. A etnografia pode não se resumir apenas ao registo de costumes desaparecidos.

Interessante em Zaanse Schans é também a forma como o património cultural e o natural se articulam. O rio, os canais e os prados em redor criam um enquadramento que explica porque é que esta região se tornou um pólo de actividade económica. Não é apenas uma sucessão de edifícios bem conservados, mas uma paisagem cultural em que cada elemento – água, vento, madeira, barro – desempenhou um papel na construção de um modo de vida. É o equilíbrio entre o passado preservado e o presente activo que faz de Zaanse Schans um lugar tão singular dentro do panorama dos museus ao ar livre.

 

Memórias a céu aberto

Estes quatro espaços são diferentes nas geografias, nos climas e nas tradições, mas partilham uma mesma virtude: transformam a história em algo palpável. Cada um deles tem a sua marca própria: Skansen alia a preservação cultural a uma vertente zoológica que aproxima gerações; Astra mostra a diversidade e a riqueza da vida rural romena; Glaumbær ensina-nos como a adaptação à natureza foi, em si mesma, uma forma de cultura; e Zaanse Schans revela a engenhosidade que transformou o vento e a água em motores de prosperidade. No fundo, todos estes lugares nos relembram que a cultura não é feita apenas de grandes monumentos ou obras-primas consagradas, mas também de soluções práticas, de rotinas e de modos de vida que sustentaram comunidades inteiras.

Matera, singular e mágica – parte 2


Ana CB,

Os Sassi de Matera são dois, separados pela Civita, o centro histórico medieval: a norte fica o Sasso Barisano, afundado entre a orla mais elevada do planalto; e a sudeste o Sasso Caveoso, pendurado sobre o rio Gravina e de frente para o planalto Murgia Timone.

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As casas trogloditas

 

Na encosta leste do Sasso Caveoso, a Associazione Culturale Gruppo Teatro Matera reabilitou algumas construções do Vico Solitario, entre elas uma casa-gruta aberta ao público como espaço etnográfico. Remonta ao século XVIII e é uma habitação parcialmente escavada e parcialmente construída. Visitá-la pode parecer apenas mais uma experiência inócua, mas não para mim.

A gruta tem uma forma simples, rectangular e com tecto abobadado. Só existe uma divisão, com um pequeno nicho contíguo para a cozinha. A ventilação faz-se apenas pela porta de entrada e por uma janela minúscula no espaço da cozinha. Tudo se concentra em poucos metros quadrados: a cama do casal, alta, para servir de lugar de arrumação por baixo, com o seu colchão cheio de lã e folhas de milho; a mesa de refeições, onde todos comiam do mesmo prato de barro; a arca dos cereais, com uma divisão interna para separar o grão para consumo humano da forragem para os animais; a cómoda onde se guardava a roupa, cujo gavetão inferior poderia também servir de cama para uma criança; o baú do enxoval e a arca onde guardavam a comida; o tear onde faziam os tecidos; o calhandro para os dejectos (a habitação não tinha esgotos). Os utensílios eram pendurados nas paredes ou colocados em pequenos nichos. Um braseiro aquecia a casa no Inverno e tinham uma pequena cisterna com tampa para armazenar a água da chuva, transportada do exterior por um rudimentar sistema de canalização. Os habitantes dos Sassi não tinham acesso a nascentes ou lençóis aquíferos, pois as grutas estão escavadas sobre uma camada maciça de calcarenito.

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Além da família, sempre numerosa – cada casal tinha uma média de seis filhos, mesmo sendo a mortalidade infantil na ordem dos 50% – a casa abrigava também os animais: uma mula ou cavalo, porcos, aves de capoeira. Todos os objectos desta casa-gruta estão exactamente nos mesmos lugares em que se encontravam nos anos 50, quando a casa era habitada. Apesar de ainda ter contactado, em tempos idos, com casas rurais no nosso país em que as condições de vida eram bastante más (pelos meus padrões citadinos, obviamente), não consigo imaginar como seria viver nestas habitações sobrelotadas e insalubres.

Na verdade, nesta parte esquecida e isolada da Basilicata, e nestas condições, viviam 60 mil pessoas até meados do século passado. A sociedade italiana do pós-guerra só virou as atenções para a região depois de 1945, ano em que Carlo Levi, opositor do regime durante os anos do fascismo de Mussolini, publicou as memórias do tempo em que tinha sido desterrado para a Basilicata por razões políticas, no livro “Cristo parou em Eboli”. Descreveu os Sassi de Matera como sendo a ideia que um estudante faz do Inferno de Dante, com cavernas escuras, húmidas e sujas, onde as pessoas coabitavam com animais e as doenças se espalhavam de forma galopante.

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Em 1950, o primeiro-ministro italiano Alcide De Gasperi visitou Matera e ficou chocado com as circunstâncias precárias em que viviam os habitantes dos Sassi. A cidade foi apelidada de “vergonha nacional” e o governo italiano lançou um programa de realojamento dos moradores em casas novas, num esforço para “modernizar” a cidade. Entre 1953 e 1968, 16 mil pessoas foram transferidas para estes bairros modernos – cuja concepção, no entanto, não foi das mais felizes e levou ao isolamento de uma população que se caracterizava pela convivência e entreajuda, como se pertencessem todos a uma mesma família. Os Sassi foram esvaziados, e houve até quem sugerisse que esta parte da cidade fosse isolada com muros, para que ninguém mais se lembrasse dela. Sem vida, passaram a servir de refúgio para ladrões e traficantes. Houve, no entanto, alguns movimentos de locais que não se conformaram com a degradação do lugar em que tinham vivido, e aos poucos foram surgindo iniciativas para insuflar um novo alento aos Sassi, sobretudo a partir dos anos 80. O impulso final foi dado pela aceitação da candidatura a Património Mundial da UNESCO, em 1993.

 

A fé de Matera

 

Ao lado da casa-gruta do Vico Solitario foram recuperadas outras construções. Na neviera era armazenado o gelo para refrescar e conservar os alimentos, servir como reserva de água potável ou ser usado no tratamento de doenças. A igreja rupestre de Sant’Agostino al Casalnuovo, que remonta aos séculos XIII/XVII, pertenceu ao vizinho Mosteiro de Santa Lúcia mas foi disponibilizada para fins não religiosos e arrendada, sendo usada primeiro como habitação e depois como armazém e até como pedreira de calcário. Tal como a neviera, agora é essencialmente um espaço expositivo.

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Uma caverna natural inserida no mesmo complexo museológico funciona como auditório. Segundo o painel informativo, este era o local de socialização dos habitantes do bairro, abrigado das chuvas e das temperaturas extremas, onde os homens conviviam no final do dia de trabalho. Sítio ideal para também nós descansarmos um bocado, em frente ao ecrã de televisão que passava um documentário. Foi ao vê-lo que descobri a razão de ser das decorações festivas que tínhamos visto na véspera (estávamos em Junho) e de um quadro, pendurado no nosso quarto no Nonna Rosario, com o desenho de um carro alegórico. E que descobri também a existência de um dos acontecimentos mais impressionantes do calendário religioso italiano.

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A santa padroeira de Matera é a Madonna della Bruna, cuja festa se celebra anualmente a 2 de Julho há mais de seis séculos (2024 foi o ano da 635.ª edição). Este é um dos eventos culturais mais significativos da cidade, e porventura o mais singular, aquele em que a fé dos materanos se mostra de forma mais vívida, emotiva, até mesmo assustadora. O carácter único das celebrações e a popularidade de Matera transformaram esta festa num acontecimento que é hoje em dia alvo de reportagens em directo durante mais de 20 horas, desde a procissão dos pastores, que se realiza às quatro e meia da manhã, até ao fogo-de-artifício que encerra as festividades.

As várias procissões que decorrem ao longo do dia têm finalidades diferentes, mas são acompanhadas por milhares de fiéis de todas as idades. Na que se realiza ao início da tarde, a imagem da Madonna é transportada numa carruagem, separada da que representa o seu filho, habitualmente colocado no seu braço esquerdo. Mãe e criança são reunidas mais tarde e regressam à Catedral ao cair da noite, naquela que é a procissão mais comovente e inspiradora da festa – ou pelo menos é assim que a retratam os vários testemunhos gravados em vídeo nos anos mais recentes. Neste cortejo, as duas figuras seguem num carro alegórico triunfal, puxado por mulas, antecedido por um grupo de “guardas” a cavalo e rodeado por seguranças, que formam um cordão para proteger todo o cortejo. Antes de voltar ao seu lugar dentro da Catedral, o carro que transporta a Madonna dá três voltas à Piazza del Duomo, um ritual para invocar a protecção da cidade.

O carro alegórico é diferente todos os anos, concebido segundo um tema escolhido nas escrituras, com esqueleto de madeira e decorado com figuras e outros elementos modelados em cartão e papier machê. Depois de aliviado da sua carga preciosa – a figura da Madonna – percorre a Via delle Beccherie (a única rua dos Sassi onde é possível a passagem de carros) até à Piazza Vittorio Veneto, feericamente iluminada para a ocasião. E é quando entra nesta praça que começa a loucura. Centenas de pessoas atiram-se (literalmente!) ao carro, empurrando-se, atropelando-se, trepando umas por cima das outras, braços em riste para arrancarem um pedaço das figuras ornamentais. Em poucos minutos, o trabalho de meses é destruído, e os felizardos que conseguiram para si (ou também para os amigos, pois muitos deles organizam-se em grupos) um bocadinho de uma figura sentem-se abençoados e vão guardá-lo para sempre como amuleto de boa sorte. Dizem os estudiosos que este acto aparentemente bárbaro simboliza o triunfo do bem sobre o mal e a renovação da vida. Mariagrazia afirma que o acontecimento não é tão selvático quando parece, mas mesmo assim prefere manter-se longe. Há dois anos, o filho teve a sorte de conseguir um desses cobiçados pedacinhos. A fé materana é transversal a todas as gerações, e a tradição secular mantém-se de boa saúde.

O número de lugares de culto em Matera é impressionante, e rivaliza com o de cidades italianas bem maiores e mais conhecidas. O edifício religioso mais significativo, como não podia deixar de ser, é a Catedral de Maria Santissima della Bruna e Sant’Eustachio. Data de 1270 e foi construída, em estilo românico apuliano, no ponto mais alto da cidade, marcando a divisão entre os dois Sassi de Matera. As alterações de que foi alvo nos séculos XVI e XVIII deram-lhe um aspecto exterior híbrido e um interior barroco, com tectos falsos em madeira pintada com cenas litúrgicas, retábulos e capelas com mármores coloridos, e muitos elementos em talha dourada. Ainda assim, a luz que entra pelas janelas do clerestório e pelo vitral singelo, a par da abundância de branco, dão ao espaço alguma leveza, que contrabalança o excesso de elementos ornamentais.

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Também do século XIII, mas muito menos modificada, a igreja de San Giovanni Battista é outro belo exemplo da arte românica. Tem um portal magnífico, decorado com motivos florais e cabeças humanas com cabelos encaracolados. O interior é espartano, pedra à vista com arcos ogivais e abóbadas nervuradas, decoração parcimoniosa, a altura central a sobrepor-se à largura. Os olhos são encaminhados para o alto e há um convite implícito à meditação, na altura da visita reforçado pelo terço rezado a várias vozes femininas.

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Entre as muitas igrejas de exterior barroco que há em Matera, chamou-me especial atenção a de San Francesco d’Assisi, com uma fachada que consegue ser ao mesmo tempo elaboradíssima e delicada. Está decorada com volutas vegetais e cordões, e tem a particularidade de ostentar, nos extremos laterais superiores, duas estátuas: uma de São Francisco de Assis e outra de Santo António (que para os italianos é de Pádua, mas para mim é sempre de Lisboa).

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No Sasso Caveoso, a igreja de San Pietro data do período medieval, mas o seu aspecto foi radicalmente alterado em obras de restauro posteriores, principalmente no século XVIII. Ainda assim, o interior mantém vários trabalhos artísticos quinhentistas, como o políptico de madeira do altar-mor e – com especial importância também para nós, portugueses – os seis painéis de pedra que se encontram na capela dedicada a Santo António, que representam cenas da vida deste santo e se presume terem sido criados por Altobello Persio, escultor renascentista que também executou um monumental presépio que se encontra na Catedral. Aliás, percebi nesta minha recente viagem que Santo António é um dos santos mais venerados no sul de Itália, onde há dezenas de igrejas que lhe são dedicadas, várias delas com grandes programas de festividades no dia 13 de Junho.

 

A rota das igrejas rupestres

 

No século VIII, os monges beneditinos estabeleceram-se na região em que Matera se insere, trazendo consigo a iconografia latina do cristianismo monástico. Seguiram-se-lhes eremitas e anacoretas em fuga da guerra no Oriente, nos séculos IX e X, adeptos de culturas religiosas de inspiração bizantina. As grutas da Murgia Materana eram o local perfeito para a reclusão e o sossego por que todas estas almas religiosas ansiavam, e muitas delas foram adaptadas a local de culto: são mais de 150 as igrejas rupestres que subsistiram até aos nossos dias, ou de que ainda existem vestígios. Algumas ainda ostentam parte dos frescos ou baixos-relevos com que foram decoradas.

No Sasso Caveoso salta à vista, acima da mole híbrida de casas e grutas, um esporão rochoso com uma grande cruz no topo. É o Monterrone, e o seu interior esconde não uma mas duas igrejas comunicantes: as de Santa Maria de Idris e San Giovanni in Monterrone. Muito perto, Santa Lucia delle Malve foi o primeiro e mais importante assentamento monástico feminino da Ordem Beneditina, construído no século VIII. Estão aqui algumas das mais belas pinturas murais das igrejas rupestres de Matera. No Sasso Barisano, a maior de todas estas igrejas passaria despercebida não fosse o seu campanário exterior, um acrescento do séc. XVIII que também deu à fachada um aspecto suavemente barroco. É a igreja de San Pietro Barisano, nome que substituiu o anterior – bem mais interessante, por sinal: San Pietro de Veteribus. A sua origem remonta aos séculos XII-XIII.

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Santa Maria de Idris e San Giovanni in Monterrone

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San Pietro Barisano

 

Para lá da sua história atribulada – conversão em habitações ou armazéns, mero abandono, vandalização, roubo – o que mais impressiona nestas igrejas são os seus frescos, hoje recuperados. Alguns ainda estão bastante completos, outros são apenas fragmentos, mas dão-nos uma ideia de quão coloridos seriam estes interiores na sua época áurea. Representam, é claro, cenas bíblicas e santos, e revelam nítidas influências bizantinas misturadas com uma sensibilidade latina mais significativa. Na verdade, muitos destes frescos foram pintados por monges anónimos, autodidactas que passaram para as paredes, de forma expressiva, a sua própria interpretação da iconografia cristã.

Não é permitido fotografar o interior destas igrejas, por isso as imagens abaixo foram retiradas dos folhetos explicativos publicados pela Oltre L’Arte, a cooperativa que gere este (e outro) património (https://www.oltrelartematera.it/en/rupestrian-churches/).

Santa Maria de Idris e San Giovanni in Monterrone

Santa Lucia delle Malve

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San Pietro Barisano

 

Bem no centro da Piazza Vittorio Veneto há uma abertura que revela um acesso ao plano inferior da praça, posto a descoberto em fins nos anos 80 e 90, quando a área foi submetida a obras de remodelação. As escadas levam-nos a uma outra igreja rupestre, que se presume remontar aos séculos VIII-IX: é a igreja hipogeia do Santo Spirito, sobre a qual está construída a bem mais visível, apesar de pequena, igreja de Mater Domini, que a substituiu e votou ao esquecimento. Pese embora o abandono a que esteve sujeita, ainda subsistem vestígios de alguns frescos. Hoje em dia é um espaço aberto, com a nobre função de dar acesso ao Sasso Barisano.

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Deixei Matera com vontade de voltar. A Itália tem um qualquer sortilégio com esse efeito sobre mim. Em cada viagem, há sempre algum sítio que fica especialmente marcado na minha memória e me faz querer regressar. Matera consegue aliar uma história e uma cultura fora do comum a uma simplicidade genuína, ainda não afectada pelo pretensiosismo de alguns lugares repentinamente lançados para a ribalta do turismo. É uma cidade que tem desafiado os séculos, um exemplo de resistência, transformação e orgulho. Mais do que um sítio a visitar, é um lugar para sentir. Uma experiência que perdura muito tempo após o fim da viagem.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

 

Matera, singular e mágica – parte 1


Ana CB,

Vista de longe, do miradouro de Murgia Timone, Matera parece uma cidade bombardeada. Uma mancha cinza e creme onde se notam paredes em ruínas, janelas que parecem buracos negros, fachadas assomando entre rochas, telhados inexistentes substituídos por pedras empilhadas ao acaso ou terra de onde despontam arbustos incipientes. Paisagem cubista com formas interligadas, extravasando em todas as direcções sem ordem evidente, sucessões de degraus que parecem não ter princípio nem fim e evocam as impossibilidades da gravura “Relativity” de Escher.

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A tranquilidade aparente dá a ideia de um lugar abandonado. E no entanto, o engano não poderia ser maior: estamos perante uma das povoações mais antigas do mundo constantemente habitada desde há 10 mil anos. Porquê? O que é que tem de tão especial? Há que visitá-la para perceber.

 

Do desconhecimento ao estrelato

 

Entrando em Matera pelo planalto, no lado norte, a cidade não difere de qualquer outra: prédios baixos pintados em cores insuspeitas, com lojas e oficinas nos pisos inferiores; aqui um mercado, uma igreja moderna mais à frente, um silo industrial ao longe, espreitando por cima dos telhados. Muitos carros, algumas árvores espaçadas ao longo das ruas. É o Piano, a parte moderna da cidade, onde vive a maioria dos seus 60 mil habitantes.

Numa viagem de carro pelo sul de Itália, o aspecto prático sobrepõe-se frequentemente ao romântico, e a verdade é que nos centros históricos é impossível estacionar. Por outro lado, andar a pé faz bem, até mesmo para digerir as maravilhosas refeições de pasta a que sucumbimos de boa vontade quando andamos por terras italianas. Decidimos, por tudo isso, alojar-nos numa das ruas principais do planalto, a uma mera caminhada de 10 minutos da cidade antiga, e onde até parecia estar à nossa espera um lugar milagrosamente vago no pequeno estacionamento do outro lado da estrada. Um início auspicioso!

Apesar de ter os seus Sassi e o Parque das Igrejas Rupestres inscritos no Património Mundial da UNESCO desde 1993, Matera permaneceu longe da ribalta turística até muito recentemente. “Até há poucos anos, quando ia a Milão e dizia a alguém que vinha de Matera, olhavam para mim com ar de dúvida e perguntavam: onde é que isso fica?” – palavras de Mariagrazia, a dona do B&B Nonna Rosario, o alojamento onde ficámos. O clique da mudança deu-se em 2019, quando Matera foi Capital Europeia da Cultura, reforçado pelas filmagens da sequência de abertura do filme “007-Sem Tempo para Morrer”, que mostrou a cidade ao mundo quando estreou nos cinemas, em 2021. Em meia dúzia de anos, Matera tornou-se uma estrela do turismo tanto nacional como internacional, e o corrupio de visitantes é contínuo.

 

Uma cidade, várias faces

 

As sombras do final de tarde já se alongavam quando saímos ao encontro do centro histórico, pese embora a temperatura do ar se mantivesse nos 20 e bastantes graus. Íamos em busca dos Sassi, anfiteatros escavados numa das vertentes do Torrente Gravina, que corre, em esses de quem bebeu demais, pela região da Basilicata. São eles o motivo principal do fluxo de visitantes da cidade, mas ainda assim permanecem uma face oculta, resquícios de vergonha antiga, escondidos que estão para quem vem da parte moderna. As construções que ocupam a Civita, o centro histórico medieval que se espalha pela orla do planalto, são um biombo formado por igrejas, palazzi e edifícios vários que impedem a visão imediata dos Sassi. Fervilhando de gente – habitantes locais à conversa, miúdos montados em patins ou bicicletas com rodinhas, casais de namorados, e uma boa dose de estrangeiros – a Piazza Vittorio Veneto é o centro nevrálgico da Matera antiga, uma espécie de foyer de um teatro onde nunca entrámos, e de que não sabemos bem o que esperar.

Quando passei os modestos arcos de acesso ao terraço-miradouro Luigi Guerricchio e consegui um disputado lugar na varanda de ferro forjado, entrei noutra dimensão. O anfiteatro de pedra do Sasso Barisano abria-se à minha frente e aos meus pés, tão amplo quanto compacto: uma amálgama de edifícios e rocha, de volumes desordenados, um puzzle concebido por um louco e que o meu cérebro teve dificuldade em processar. No cenário aloirado pelo sol da “golden hour”, qual estrela no cimo do pinheiro natalício, a catedral brilhava contra o céu sarapintado de aves irrequietas, com a torre sineira a destacar-se para assinalar a importância do edifício. Metade do Sasso já estava à sombra, dando ao quadro um aspecto ainda mais dramático. O meu coração falhou uma batida. Terá sido nessa altura que me enamorei de Matera?

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Se não foi, decerto não terá tardado muito. Aventurámo-nos pelas vielas e escadinhas íngremes, na ânsia de sentir o efeito de penetrar naquele labirinto. Os Sassi são enganadores. Olhamos para o mapa e parece que determinado ponto está ali mesmo ao lado. Orientamo-nos naquela direcção, mas as ruelas são tão imbricadas que às tantas damos por nós a andar em sentido contrário, para a seguir descobrirmos que o lugar que procuramos está dois níveis acima (ou abaixo!). Não são raras as vezes em que temos de voltar pelo mesmo caminho, para depois entrar numa outra viela, subir ou descer mais uma porção de degraus – e temos sorte se não formos dar a um beco. Meio perdida no cenário, senti-me criança a viver uma aventura livresca, quase à espera de ver o Professor Dumbledore surgir ao virar de uma esquina.

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Entre tentativa e erro, lá conseguimos dar com o restaurante onde tínhamos decidido ir jantar. Chama-se “Il Terrazzino”, e o nome não engana: uma escadaria estreita, ao ar livre, deixa-nos num terraço abrigado sob uma arcada tripla, de onde temos uma vista soberba sobre a vertente norte do Sasso Barisano. Mesas quadradas, cobertas com simples toalhas brancas, e cadeiras robustas de madeira escura, num ambiente quase espartano que realça o panorama exterior. Aqui qualquer comida saberia bem, que os olhos degustam tanto quanto o palato. E no entanto, há mais. Um atendimento sorridente e caloroso, comida tradicional deliciosa – como a parmigiana di melanzane (à base de beringela) ou as orecchiette al tegamino (uma massa típica da Puglia) – e ainda a oportunidade de conhecer uma antiga adega no subsolo do restaurante. A adega data de 1600 e foi escavada na rocha, seguindo a arquitectura típica dos Sassi. Nas suas várias salas está organizada uma exposição etnográfica, com objectos originais e fotografias que mostram como era a vida dos camponeses de Matera até meados do séc. XX.

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Quando saímos do restaurante, já sob o pano azul-escuro da noite, a cidade apresentava uma outra face, plena de contrastes. O negrume engolia certas partes dos Sassi, enquanto outras tinham ganhado uma vida diferente sob os focos de luz. A escuridão disfarçava as zonas ainda em ruínas, esbatia imperfeições e escondia guindastes, as luzes uniformizavam a pedra, às vezes criando pontos de cor. A Matera nocturna parece mais moderna, mas não menos misteriosa.

De regresso ao alojamento, nova passagem na Piazza Vittorio Veneto, onde o movimento decuplicara no espaço de apenas duas horas. A cidade inteira parecia ter saído à rua. O ambiente era de festa e até estavam montados grandes arcos de iluminação em vários pontos da praça, mas as suas lâmpadas mantinham-se apagadas. Só mais tarde viria a perceber porquê.

 

O pão de Matera

 

Na manhã seguinte, Mariagrazia serviu-nos o pequeno-almoço numa sala-cozinha luminosa, a divisão central do seu B&B. De um saco de papel retirou um pão estranho, com uma crosta escura e um ar tosco. Cortado em fatias, o miolo revelou-se amarelo, a fazer lembrar o nosso pão de milho, mas ao prová-lo percebi que era muito diferente, com uma textura e um ligeiro pico azedo a evocarem o pão alentejano. Sem o saber na altura, estava a comer um pão tradicional centenário, típico dos Sassi de Matera, actualmente classificado como IGP (Indicação Geográfica Protegida) e produzido segundo critérios rígidos que evitam a sua desvirtuação.

A base do verdadeiro pão de Matera é idêntica à de tantos outros pães: farinha, fermento, água e sal. Mas esta identidade é apenas genérica, pois tanto os ingredientes como o processo de produção têm particularidades que, somadas, resultam num produto muito especial. O ingrediente mais importante, a farinha, obtém-se a partir da sêmola de grãos de uma variedade de trigo tradicional muito difundida na região lucana, conhecida como “Senatore Cappelli”. Este tipo de trigo conserva no seu património genético características que não se encontram noutras variedades, e que conferem ao pão de Matera aroma e sabor únicos, além de ter um glúten mais facilmente digerido. A fermentação é longa e tem um segredo: é usada massa-mãe que envolveu a maceração de uvas e figos fermentados em água de nascente local. Finalmente, a cozedura tem obrigatoriamente de ser feita em forno de lenha alimentado com essências típicas da região.

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Dizem os locais que o formato do pão de Matera – comprido, alto e arqueado, quase um cone – se assemelha ao das elevações abruptas da Murgia, a região geográfica em que a cidade se insere. Antes de a massa ir para o forno, leva três cortes rituais, em representação da Santíssima Trindade. O pão foi durante séculos a base da alimentação dos habitantes dos Sassi, e esta era uma forma de agradecerem a Deus o alimento que lhes permitia sobreviverem. A massa era cozida em fornos comunitários, e para evitar confusões cada pão era marcado com um carimbo de madeira ou terracota que tinha gravadas as iniciais da família a que pertencia. Os carimbos são hoje acervo de museu, mas o pão tradicional continua a ser o preferido pelos materanos.

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A magia da pedra

 

No extremo oriental da Basilicata, região do sul de Itália, o sulco geológico a que dão o nome de Gravina di Matera define o território da Murgia Materana, um planalto calcário caracterizado por fendas profundas, ravinas, rochas e cavernas, coberto de vegetação mediterrânica. Os achados arqueológicos mostram que esta região é habitada desde o Paleolítico, quando as suas grutas e saliências rochosas de formação natural serviam de abrigo aos humanos, nessa altura caçadores-recolectores. Com a agricultura e o sedentarismo, por alturas do Neolítico, surgiram os primeiros assentamentos, que aproveitaram as cavernas escavadas nas encostas das ravinas, num exemplo perfeito de adaptação humana ao meio natural, tirando o máximo partido da geomorfologia e do espaço locais.

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Estas habitações trogloditas nunca deixaram de ser usadas e o seu número foi aumentando ao longo dos séculos. Na Antiguidade tardia e início da Idade Média já eram a forma de povoamento mais difundida em Matera, constituindo um labirinto de grutas que se estende para lá do imaginável: o que está à vista é apenas 30 por cento do total, que ascende a um número entre 1500 e 3000, dependendo do critério usado para contabilizar as estruturas. Muitas delas foram adaptadas e modificadas ao longo do tempo, com construções de alvenaria prolongando a frente das grutas – nos Sassi, as casas foram construídas para satisfazer as necessidades das famílias. Estas habitações subterrâneas espalham-se em grupos, de forma irregular, acompanhando as camadas de rocha calcária macia. Com o passar do tempo, a forma pré-histórica de viver numa gruta cristalizou-se no modelo de habitação característica de Matera.

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No entanto, embora os agricultores, pastores e comerciantes menos endinheirados vivessem nas casas trogloditas, a população pertencente às classes mais abastadas (clero, nobres e negociantes bem-sucedidos) construiu para si, na parte mais alta da cidade, palacetes e mosteiros mais consentâneos com a sua posição social, ao gosto de cada época. Esta é a razão pela qual existe uma diferença acentuada entre a morfologia dos edifícios da Civita e dos Sassi.

Ainda assim, quando no dia seguinte parámos no miradouro da Piazzetta Pascoli (a “varanda” de Matera), de onde temos uma vista abrangente sobre o Sasso Caveoso, não pude deixar de admirar a forma como ali tudo parece fundir-se naturalmente. As construções mais elaboradas transfiguram-se mais abaixo em casas que se projectam das grutas, esculpidas na colina, desdobrando-se até se confundirem com a paisagem. Casas e ravina misturadas, feitas de uma mesma rocha, unidas pelas mesmas tonalidades cruas e acinzentadas. Caos e harmonia em coabitação pacífica.

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Em dia quente e sem ponta de vento, subir e descer ruas íngremes e escadinhas sinuosas não é um passatempo recomendável. Mas Matera parece irradiar uma energia especial que torna tudo mais leve. Durante as várias horas em que percorremos os Sassi, os meus joelhos não se queixaram das centenas de degraus que subi, os pés resistiram sem mossa aos milhares de passos que dei, o calor não me incomodou, o humor esteve sempre em alta. Coincidência ou sortilégio? Na dúvida, apetece-me mais optar pela segunda hipótese.

(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Blogue da semana


Ana CB,

Descobri-o há pouco tempo. Junta dois ingredientes que para mim são mágicos: viagens e livros. Acrescentando os pozinhos de perlimpimpim de uma escrita fluida, arejada, e que (ouro sobre azul!) não se pauta pelo novo AO, o resultado é um blogue que encaixa perfeitamente nos meus gostos.

Por isso, o Atencional é a minha proposta para blogue da semana. O seu autor, José Garrido, conta também com dois livros publicados – e já estão na minha (sempre enorme) lista de livros a ler.

Cerejeiras e escritores: um roteiro no Fundão


Ana CB,

Há sítios que se visitam com os olhos, outros com os pés. O território do Fundão – uma discreta preciosidade encostada à serra da Gardunha – merece ser percorrido com ambos, mas também com o coração aberto e um bom livro na mochila. Entre encostas pintalgadas de branco pelas cerejeiras em flor e lugares que guardam séculos de histórias, este roteiro é uma viagem por palavras, paisagens e memórias.

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Entre palavras e cerejeiras: um passeio onde a literatura floresce

 

Nesta Primavera tenho andado em busca de lugares floridos. Talvez seja uma forma de equilibrar o meu estado de espírito, tão cinzento quanto os meses passados, desencadeado por esta espécie de retrocesso humano e civilizacional da época em que vivemos. As flores são uma prova de que a vida tende a renascer ciclicamente, e de que vale a pena ter esperança. E são sempre uma fonte de alegria quando dela mais preciso.

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No nosso país, em que metade da fronteira acaba em mar, há lugares felizes onde se começa pelo que brota da terra. A Cova da Beira é um deles. Ali pela primeira ou segunda semana de Abril, a região transforma-se num postal em movimento, com milhões de flores de cerejeira que rebentam em festa. É um espectáculo efémero e, por isso mesmo, memorável. O resultado de tanta efusividade chega com o prenúncio do Verão, quando as cerejas despontam como rubis brilhantes entre o verde da folhagem.

Mas há mais. Por aqui, as cerejas misturam-se com as palavras (afinal, todas elas vêm sempre umas atrás das outras…) e podemos seguir os rastos da poesia de Eugénio de Andrade e do elefante Salomão de José Saramago, enquanto conhecemos aldeias serranas com identidade própria, uma culinária que aproveita os produtos locais, e pessoas que não se esquivam a uma boa conversa.

 

“A aldeia era uma aldeia como já não se vêem nos dias de hoje”

 

Apesar de ter decidido viver em Lanzarote durante uma boa parte da sua vida, Saramago nunca escondeu o seu gosto por Portugal, pela sua história, pelas suas paisagens, pelos seus lugares remotos ou despercebidos. Em 2009, um ano depois de lançar o seu último livro, “A Viagem do Elefante”, e um antes da sua morte, o escritor viajou pela rota que imaginou para pano de fundo deste livro, entre Lisboa e Figueira de Castelo Rodrigo. O intuito foi chamar a atenção para algumas regiões do interior de Portugal que permanecem na sombra dos itinerários turísticos.

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A páginas tantas do seu livro – que relata a hipotética viagem de um elefante oferecido por D. João III ao seu primo Arquiduque Maximiliano de Áustria, à data regente de Espanha e residindo em Valladolid – a comitiva que acompanha o elefante Salomão chega a uma aldeia. O nome da dita cuja nunca é referido, mas no roteiro da visita de Saramago assumiu-se que ela seria Castelo Novo. Entre a breve descrição no livro e a localidade tal como a vi na altura da minha visita, nada há de coincidente – nem o século, nem o mês, que a viagem do elefante se desenrolou no Verão e nós cumprimos este roteiro numa Primavera cinzenta e meio chuvosa.

 

Tranquilidade com selo literário

 

Castelo Novo é cenário natural para introspecções literárias. Aqui há algo do ritmo lento e reflexivo de Saramago, da densidade dos silêncios, da beleza escondida nas pequenas coisas. Vaguear é a atitude certa para percorrer esta aldeia histórica, com a certeza de que cada rua revelará alguma novidade: uma capela de pedra, vasos de flores na escada de uma casinha amorosa, uma torre que espreita por trás de um telhado, uma porta pintada de verde-lima, dois gatos que bebem água da chuva e parecem o espelho um do outro.

Encaixada numa vertente da Gardunha, Castelo Novo vive entre a vertigem da encosta e o acolhimento das suas ruas de pedra. Tudo parece ter sido desenhado com calma: as casas baixas e sólidas, os portais góticos, os caminhos estreitos que se entrelaçam como versos livres. A aldeia está impecavelmente conservada, todavia sem perder o seu carácter rústico e genuíno.

Um dos seus maiores encantos é o som constante da água, ampliado pelas chuvas recentes. O Chafariz da Bica é um dos ex-líbris da aldeia, exibindo a sua estética barroca no cimo de uma escadaria que hoje parece demasiado aparatosa para uma finalidade tão básica: dar de beber a homens e animais. O acto de simplesmente deitar a mão a uma torneira para termos água potável faz-nos esquecer que nem sempre foi assim.

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No Largo do Pelourinho, a água cai das três bicas de outro chafariz, este dedicado a D. João V. Há um aviso na parede: “água não controlada”. Quando é que deixámos de confiar nas águas que durante séculos serviram para matar a sede aos nossos antepassados? Será assim tão dispendioso verificar a sua origem e assegurar que pode ser bebida? O chafariz deixaria de ser um mero ornamento arquitectónico, tornado obsoleto pela sua inutilidade, e poupavam-se umas quantas garrafas plásticas que vão acabar sabe-se lá onde.

Mas adiante. Este chafariz barroco está encostado à Casa da Câmara e Cadeia, que são manuelinas, tal como o pelourinho em frente. A patine do tempo encarregou-se de esbater as diferenças entre os estilos: o granito está igualmente manchado e desgastado em todas estas estruturas, e unifica o conjunto. Acima do largo ergue-se a Torre Sineira, que até parece fazer parte da Casa da Câmara, mas na verdade está inserida na muralha do castelo.

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Porque o nome não engana: Castelo Novo nasceu à sombra de uma fortificação. O castelo medieval, de que hoje apenas restam ruínas evocativas, foi erguido no século XIII, em plena fase de reconquista e consolidação territorial. Apesar do adjectivo “novo”, o castelo já viu muito mais do que a maioria de nós verá: batalhas, reis, reformulações – e agora, selfies. Do alto das muralhas (do que resta delas), 650 metros acima do nível do mar, a vista alonga-se por muitos quilómetros: serranias a perder de vista (em dias claros vê-se ao longe a Serra da Estrela), com a Cova da Beira lá em baixo, como um tapete verde e fértil. Ninguém escapa à tentação de pousar ali uns minutos, mesmo com vento pouco convidativo, só pelo privilégio de tão extenso panorama.

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N’ “A Viagem do Elefante”, Saramago foi omisso quanto à opinião do paquiderme sobre a aldeia perdida nas encostas da Gardunha. Terá ele também apreciado a paisagem, tão diferente da sua Índia natal? Nunca saberemos. Mas nós, humanos, temos motivos de sobra para ir conhecer Castelo Novo.

 

Segredos de Alpedrinha

 

A escolha de José Saramago para aldeia do seu livro podia bem ter sido outra. Alpedrinha é hoje vila, mas na verdade tem ambiente de aldeia. Ainda mal tínhamos saído do carro e já o Sr. António, bengala na mão e sorriso maroto nos lábios, metia conversa connosco. Logo ficámos a saber que todas as manhãs faz questão de estar naquele miradouro, junto à Capela de Santo António, à hora a que passa o comboio rápido com destino à Guarda. Palavra puxa palavra, contou-nos uma boa parte da sua longa história de vida, com graça e boa disposição. E quando lhe pedimos sugestão de lugar para almoço, não hesitou em guiar-nos até um restaurante ali próximo e recomendar-nos ao dono.

Mesa marcada, despedimo-nos do Sr. António e encaminhámo-nos encosta acima – afinal, havia que criar apetite para o que já calculávamos ir ser uma refeição não muito leve. Alpedrinha é feita de calçadas estreitas, empedradas, de escadinhas irregulares que serpenteiam por entre casas de granito. Tudo aconselha andar devagar, muito devagar. A pressa poderia fazer com que não nos apercebêssemos de certos pormenores, e é frequente serem os pormenores que marcam a diferença. Como a fonte desactivada em frente à casa dos Paços do Concelho, modernista, em metal oxidado e com ar de recente, mas que vista de perto percebemos ser afinal muito antiga: a placa colocada no topo diz “Lusalite – Lisboa”, e esta fábrica (à porta da qual passei tentas vezes) fechou em 1999. Ou a casita meio degradada com uma pequena cruz de ferro na frontaria, entre um nicho com uma imagem religiosa de idade indecifrável e uma janela emoldurada por granito, agora pintado de branco, com dois arcos recortados na cornija.

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Alpedrinha foi uma aldeia rica, estratégica e influente, e esse estatuto ainda ecoa nas fachadas e nos brasões das casas. Despercebido não passa o antigo Solar dos Pancas, que agora é creche da Santa Casa da Misericórdia. Palacete do século XIX com abundantes varandas de ferro forjado, tem um jardinzinho anexo e faz reconto com a bonita Capela de Santa Catarina, tardo-gótica (1501), à qual chamam também Capela do Leão. Este nome vem do fontanário que está ao lado, uma das mais antigas fontes de Alpedrinha – tão antiga que a imagem esculpida, de onde jorra um fio de água, já muito desgastada pelo tempo, poderá de facto representar um leão… ou outro bicho qualquer.

Sempre a subir, atalhámos caminho pela Igreja Matriz, dedicada a São Marinho Bispo. No muro, uma placa metálica lembra as vítimas mortais do saque de que a localidade foi alvo em 1808, durante a 1ª Invasão Francesa.

Chegámos finalmente ao cimo de Alpedrinha, e a um dos monumentos mais emblemáticos da vila, o Chafariz D. João V. Aquele que foi apelidado de “Rei-Sol português” parece ter sido muito popular aqui pelas bandas da Gardunha, e este fontanário não lhe desmerece o estatuto: um grande tanque, uma escadaria simétrica, remates com bolas, volutas e um baluarte com três bicas, encimado por uma coroa.

Num plano ainda mais elevado, vêem-se os muros do Palácio do Picadeiro, à porta do qual passa uma calçada romana. Construído no século XVII, este solar barroco é mais um ex-libris de Alpedrinha, mas tem tido uma vida atribulada. Já foi tribunal, hospital e (pasme-se!) tipografia, e é actualmente um museu e espaço cultural (mas, infelizmente, fechado para remodelação há já algum tempo). O seu amplo pátio é, além do mais, um mirante de excelência sobre a vila e a paisagem da Gardunha.

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Alpedrinha não vive apenas de memórias antigas. Todos os anos, em Setembro, a vila transforma-se no palco do Chocalhos-Festival dos Caminhos da Transumância, uma homenagem às rotas percorridas pelos pastores da Beira Interior. Há música, exposições, artesanato, petiscos… e chocalhos, claro. O som metálico percorre as ruas e anima as esquinas, numa festa que une tradição e contemporaneidade. Uma homenagem diferente aos pastores, e em especial ao já falecido “Ti Lopes”, é o mural pintado por Styler (a.k.a. João Cavalheiro) num edifício quase à entrada da vila.

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Depois do passeio, o almoço foi no Degusta-me Petiscos, onde o cardápio varia em função da época. O prato estrela do dia era cabrito, de que não sou grande apreciadora, e optei pelo bacalhau assado, que estava excelente. Ainda assim, e por insistência do chef, que me garantiu que o seu cabrito é temperado de maneira especial e não fica com o sabor intenso que eu não aprecio, atrevi-me a provar um pouco. E tive de concordar com ele, pois estava muito apetitoso. Em conversa, falou-nos de um dos segredos da sua cozinha: o uso de uma erva aromática pouco conhecida mas bastante usada nas Beiras, parecida com o tomilho e a que chamam serpão. Escusado será dizer que saí do restaurante quase a rebolar…

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Póvoa de Atalaia: onde nasceu um poeta

 

Foi não muito longe de Alpedrinha, em Póvoa de Atalaia, que por capricho da natureza ou dos deuses nasceu um dos nossos maiores poetas: Eugénio de Andrade. Embora tenha vivido grande parte da sua vida no Porto e em Lisboa, José Fontinhas (o seu nome de registo) nunca renegou a sua aldeia. Pelo contrário, os campos, as árvores, a luz e até o silêncio da Beira perpassam muitos dos seus versos.

Pequena, com pouco mais de 200 habitantes, Póvoa de Atalaia carrega o peso doce de ser berço de um dos poetas mais universais da língua portuguesa. E a aldeia presta-lhe justa homenagem na forma da Casa da Poesia, um espaço museológico e cultural dedicado à sua vida e obra, a funcionar na antiga escola primária onde o poeta deu os primeiros passos nas letras – literalmente.

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Na modorra de um início de tarde em que a chuva tinha feito uma pausa bem-vinda, vagueámos em volta da casa enquanto esperávamos pela hora de abertura. O edifício foi restaurado com respeito pela traça original e tem um pequeno parque infantil à frente; só a placa no muro identifica a sua finalidade. Uma das fachadas está totalmente ocupada por um mural alusivo a Eugénio de Andrade e à sua obra, concebido pela artista plástica polaca NeSpoon. Nas traseiras, alguns poemas traduzidos em inglês foram colocados nos vidros. A poesia casa bem com o perfume das cerejeiras em flor que dão sombra ao lugar.

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Quem nos guiou na visita à casa foi a Marta Barroso Ramos, dinamizadora cultural (além de cantora e cineasta) e profunda conhecedora da obra e vida de Eugénio de Andrade. O espaço inclui uma sala com documentos, fotografias, edições várias, cartas, manuscritos e objectos pessoais. Mas mais do que um lugar para “ver coisas”, a Casa da Poesia é um sítio para sentir a presença do poeta. As palavras dele vivem ali, nas paredes ondulantes forradas de cortiça, nas frases e nos poemas que surgem aqui e ali, em jeito de bálsamo ou inspiração.

Ver o exterior da casa que o poeta habitou na infância foi pretexto para passear um pouco pela aldeia – que é simples mas está bem cuidada. Não é fácil dar com a casinha minúscula, onde a pedra já se mistura com o cimento mas o lintel e os pilares se mantêm em granito. Unificada com as casas idênticas que a ladeiam, consta que pertence agora a uma família estrangeira e é usada para alojamento local. Uma placa ao lado da porta confirma que ali “viveu Eugénio de Andrade quando menino”. Quando ainda não se sabia que ele iria ser um dos nossos maiores poetas.

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A Cova da Beira em flor: um espectáculo natural com sabor a cereja

 

A floração das cerejeiras é um espectáculo natural tão fascinante quanto fugaz. Ver a Cova da Beira vestida de branco é uma sorte, uma felicidade, e o prenúncio de colheitas produtivas. A cereja do Fundão é um produto de excelência, símbolo regional e motor económico. A sua produção é meticulosa, apaixonada e exigente — e dá origem a toneladas de cerejas com Indicação de Origem Protegida, exportadas, transformadas e celebradas em múltiplas formas (desde compotas a cervejas artesanais e licores). Mas não há como comê-las ao natural para perceber o porquê sua fama.

A aldeia que melhor representa este universo é Alcongosta. Cravada entre os relevos da Gardunha, a aldeia vive e respira cereja. As cerejeiras cercam a aldeia como uma moldura viva. Para se ter uma ideia da grandiosidade do cenário, nada como subir até à Casa do Guarda, um antigo posto florestal ao lado do qual surgiu entretanto um “glamping”. Este é “o” miradouro de excelência sobre a Cova da Beira, e a Primavera é a época certa para subir até lá. As cerejeiras parecem nuvens plantadas na terra e o vale transforma-se numa tapeçaria em branco e verde. Daqui conseguimos compreender o impacto visual da agricultura integrada na paisagem – a beleza que nasce das mãos dos agricultores locais.

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Acima do vale, o espectáculo ganha mais cor. Há o amarelo das giestas, o branco das estevas e dos malmequeres, o lilás das dedaleiras e do cravinho-dos-montes declinado até ao roxo da urze. A diversidade floral da Gardunha não é apenas agradável aos olhos – é essencial para a polinização e para a biodiversidade. Muitas destas espécies de plantas são melíferas, atraindo abelhas e outros polinizadores, e algumas têm usos medicinais ou tradicionais.

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O silêncio no alto da Gardunha é profundo. Há um ar limpo, um aroma discreto a mato, e uma paz que se entranha. É um lugar para respirar fundo antes de descer à realidade.

 

Casa da Cereja, lugar de informação e criatividade

 

Em 2017, a Câmara Municipal do Fundão estabeleceu com a UNESCO um protocolo para a criação de um conjunto de equipamentos culturais que visam a preservação e valorização do património imaterial, cultural e arquitectónico da Cova da Beira. A esta rede de espaços museológicos e culturais deram o nome de Casas e Lugares do Sentir. O projecto conta já com 12 casas, situadas noutras tantas localidades, cada uma delas dedicada a um aspecto identitário do território (poesia, cereja, pastoreio, bordado, etc.). Nele estão incluídas a Casa da Poesia Eugénio de Andrade e, em Alcongosta, a Casa da Cereja.

Também instalada numa antiga escola primária, a Casa da Cereja está concebida como espaço interpretativo e sensorial dedicado à cereja do Fundão – o fruto, mas também o território, as pessoas e os saberes que o fazem crescer. A criatividade é o mote desta Casa. Há exposições interactivas sobre o ciclo da cerejeira e as muitas variedades de cereja, objectos ligados à apanha e transformação do fruto, histórias, artefactos e documentos sobre a região, exemplos de produtos derivados da cereja, e muito mais.

A Casa da Cereja extravasa o conceito normal de “museu”. É um centro de interpretação da paisagem e da identidade local, um lugar onde o visitante compreende que a cereja não é apenas fruto, mas também cultura, economia e resistência ao abandono do interior do nosso país. Aconselhável tanto para graúdos como para miúdos, é sobretudo uma enorme e encantadora surpresa, no que toca à qualidade e execução das exposições e do conceito como um todo.

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Fundão: alma beirã e coração literário

 

Pequena e compacta, apesar de ampla nas zonas mais recentes, o Fundão é uma cidade que parece feita para caminhar. Um bom ponto de partida é o Jardim da Câmara Municipal, porta de entrada para o centro histórico. Já Camões falava da mudança dos tempos e das vontades, e tinha toda a razão: o edifício pombalino onde em tempos esteve a Real Fábrica de Panos agora abriga a administração do concelho. No meio da praça, o pelourinho, de data incerta e reconstruído no século passado, à volta do qual se dispõem canteiros com muita relva e poucas flores, várias árvores e um número simpático de bancos para descanso. Também aqui têm lugar palavras e cerejas, em frases gravadas na madeira dos bancos, aliados íntimos da cabine de leitura, vermelha como é tradicional, colocada num dos vértices. No lado oposto aos Paços do Concelho, o edifício do antigo Casino Fundanense, o centro cultural da cidade.

A um mero quarteirão de distância, a Igreja Matriz tinha as suas portas abertas. A curiosidade maior desta igreja é o facto de aqui ter sido baptizada, em Julho de 1921, a fadista Amália Rodrigues. No interior, os grandes panos roxos que cobriam as imagens e os crucifixos faziam notar que estávamos quase na Páscoa, mais propriamente no “Tempo da Paixão”. Foi a primeira vez que vi uma igreja assim paramentada, e o efeito é impactante, quase que obliterando tudo o resto que os olhos abrangem.

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Na rua do lado, a particularidade de duas igrejas construídas paredes-meias: a de São Miguel e a da Misericórdia. Ambas do século XVII e com apenas 70 anos a separá-las, o que salta à vista são as suas várias diferenças – até mesmo na cor da pedra de que são feitas. A Igreja da Misericórdia é mais ornamentada, tem um campanário com dois sinos e um curioso púlpito no exterior, ao lado da porta. Já a de São Miguel, construída posteriormente e que hoje em dia só funciona como capela mortuária, poderia quase confundir-se com uma casa de habitação vetusta, não fosse a portada ampla e a cruz diminuta colocada no seu telhado.

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Também a cidade do Fundão tem uma ligação longeva às letras. Fundado em 1946 por António Paulouro e ainda em circulação, o que faz dele um dos jornais mais antigos que continua a ser editado no nosso país, o Jornal do Fundão destacou-se desde cedo pelo jornalismo de proximidade, dando voz às comunidades locais e às dinâmicas da região. Ao longo da sua história, foi palco de resistência cultural e cívica, especialmente durante o Estado Novo, e revelou-se um espaço de liberdade e pensamento crítico. Curiosamente, foi neste semanário que José Saramago escreveu várias dezenas de crónicas entre 1971 e 1972, todas já compiladas em livro. Esta ligação entre jornalismo e literatura faz do Fundão um dos pontos onde a palavra escrita encontrou casa duradoura. Na Praça Velha, em frente ao Palácio Tudela (que há anos aguarda recuperação), uma escultura em granito, com formas estilizadas, homenageia o fundador do jornal, falecido em 2002.

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Mas nem só de palavras vive o Fundão. A cidade também fala por imagens. Tal como em outras localidades do concelho, nas suas ruas encontramos vários murais de arte urbana que dialogam com o território. O mais emblemático será talvez o Lobo do já muito famoso Bordalo II, feito de lixo reaproveitado, como é hábito deste artista. O apreço por uma forma de arte ainda pouco estereotipada mostra o pendor da cidade para se reinventar, sem no entanto perder de vista os valores tradicionais que são parte da sua riqueza.

 

Aldeias com património

 

Pelos contrafortes da Gardunha espalham-se pequenas aldeias que guardam, com discrição e orgulho, o seu património. Aqui, a memória vive nas pedras das igrejas, nas fontes antigas, nas casas recuperadas que não perderam a sua identidade. Cada lugar tem um ritmo próprio, feito de tradições, fé, arquitectura singela e uma relação íntima com a terra. São aldeias que não se impõem, mas que oferecem sempre alguma surpresa a quem ali pára com tempo – e com curiosidade.

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Fatela é uma destas aldeias. Entre a predominância de casas modernas e de gosto variável, subsistem algumas casinhas rústicas e um ou outro palacete. Mas o que mais chama a atenção é o seu património arquitectónico religioso, com especial destaque para a Capela de Nossa Senhora da Conceição. Foi mandada edificar pela família Taborda Falcão, abastada proprietária de terras no concelho do Fundão e ocupante da Casa Grande de Fatela, supostamente para cumprir um voto feito na altura das Invasões Francesas. Elaborada com uma mistura de elementos de várias tendências estilísticas (barrocos, rococós, neoclássicos), é impossível passar despercebida a quem segue pela N343, tal é a sua abundância ornamental. Nota-se, lamentavelmente, que está a precisar de restauro.

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Do outro lado da estrada, orgulhosamente independente, existe uma Torre Sineira. Apesar do seu aspecto barroco, terá sido construída no século XVI, e exibe dois sinos, acomodados cada um em sua arcada. Ao lado, também em pedra de granito, a Igreja Matriz dedicada a São João Baptista. Fatela conta ainda com duas outras capelas: a do Espírito Santo e, mais afastada, a de São Sebastião. Tão grande riqueza arquitectónica numa aldeia que não chega a ter 500 habitantes é resquício seguro da importância que esta aldeia teve em tempos passados.

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Alguns quilómetros a norte, Capinha merece também uma paragem. Por aqui existiu em tempos uma povoação romana, de que há vestígios nos arredores, e foi lugar de nascimento de figuras ilustres. Hoje é uma aldeia bem mais prosaica, a que o mural “Homem com Burro” dá um toque de cor. Mas nos arredores há uma pequena barragem, aproveitada para praia fluvial e parque de lazer – lugar simpático e despretensioso, com mesas para piquenique, equipamentos para crianças, espaço para caminhadas e um espelho de água sereno.

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Pelos caminhos menos óbvios: viajar com tempo, sentir os lugares

 

Viajar fora dos centros turísticos mais conhecidos é, hoje, quase um gesto de resistência – contra a pressa, contra o ruído e contra a repetição. É escolher o inesperado em vez do “instagramável”, é trocar filas por conversas e monumentos célebres por lugares com alma. O território do Fundão, com as suas aldeias serenas, as cerejeiras em flor e o património que se descobre com todos os sentidos, é exemplo disso mesmo. Aqui, o que parece pequeno ganha densidade, e o que parece esquecido revela-se memorável.

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Na abertura do seu livro “Viagem a Portugal”, Saramago faz-nos um convite: “Tome o leitor as páginas seguintes como desafio e convite. Viaje segundo um seu projecto próprio, dê mínimos ouvidos às facilidades dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou, pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo. Não terá melhor viagem.”

Pego nas palavras dele, e deixo este roteiro como sugestão – para a época das cerejeiras em flor, ou simplesmente para quando surgir o desejo de lugares diferentes.

 

(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Bolonha: torres, arcadas, e muito charme


Ana CB,

Uma da tarde, 34°C de temperatura do ar – ou, como diria Eça, um “calor de ananases”. Sentei-me na esplanada ainda quase deserta do Cesarina para aquele que iria ser o meu último almoço em Bolonha. Sob a protecção de um enorme chapéu-de-sol e com as árvores do complexo das Sete Igrejas de Santo Stefano a darem uma certa impressão de frescura, soube-me bem descansar enquanto esperava que me servissem um risoto de espargos. À minha frente alongava-se a Praça de Santo Stefano – que na verdade não é propriamente uma praça mas antes um espaço triangular, aberto na Via com o mesmo nome para acomodar vários palácios e as igrejas. Copo de vinho branco da Toscana na mão, dediquei-me ao tão italiano dolce far niente, no meu caso a simples arte de observar calmamente os edifícios de tons alaranjados, batidos pelo sol inclemente, as pessoas que iam e vinham, sacos de compras na mão ou máquinas fotográficas à tiracolo, muitas vezes de olhos postos num smartphone, e um ou outro ciclista de passagem. O risoto chegou e estava divinal, e depois veio também um tortino di cioccolato com cuore fondente, que tentei fazer render porque, a bem da verdade, estava com uma certa relutância em sair dali, e mais ainda de ir embora de Bolonha – a cidade como que me enfeitiçou.

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O meu primeiro almoço em Bolonha tinha sido algo diferente, mas também sossegado. Cheguei à Estação Central vinda de Florença, depois de uma curta viagem de 38 minutos no Frecciarossa, o topo de gama dos comboios de alta velocidade italianos (que pode chegar aos 300 km/hora). Ainda era cedo para dar entrada no alojamento e não me apetecia andar pela cidade de mala atrás, por isso atravessei o Parco della Montagnola, lugar fresco, cheio de árvores altas e vazio de confusões, e parei para almoçar. O parque tem um espaço nitidamente dedicado à população estudantil mais alternativa, com mesas e cadeiras de todas as espécies e feitios espalhadas entre as árvores, ao lado de uma osteria e um barzito, e de um pequeno recinto pavimentado onde decorria na altura uma aula de ioga. Entre um hambúrguer e um café pingado, deixei-me ficar por ali durante mais de uma hora, naquilo que foi para mim uma espécie de reset depois de alguns dias na agitação de Florença.

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Esta minha visita a Bolonha foi um acidente de percurso – e é a prova de que há acidentes felizes. Na história das minhas viagens existe uma boa mão cheia de lugares que se atravessaram no meu caminho sem que fosse propriamente essa a minha intenção, e dos quais acabei por ficar cativa. Bolonha foi uma das mais recentes adições a essa lista. Quando preparei a minha viagem de duas semanas pela Toscana, era suposto o voo de regresso a Portugal ser a partir de Bolonha, e por isso decidi reservar uns dias para conhecer um pouco da cidade. Como não era um destino que fizesse parte dos meus interesses principais, não fiz o “trabalho de casa” e não pesquisei praticamente nada antecipadamente. Cheguei sem saber o que esperar ou o que iria ver, portanto a surpresa foi completa (e boa!). E ser surpreendida é uma das melhores emoções que posso sentir em viagem.

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A cidade das torres

 

A idade dos lugares não se pode aferir pela nossa, que somos meros acidentes de percurso na história da Terra. Ainda assim, Bolonha é uma cidade velha, mesmo pelos padrões de povoamento da Europa. Inserida numa região habitada desde inícios do século IX a.C., foi aqui que os Etruscos fundaram o que se supõe ter sido uma estrutura urbana complexa a que deram o nome de Felsina, no século VII a.C. Sucessivamente ocupada ao longo do tempo por Gauleses, Romanos e várias tribos bárbaras, passou a fazer parte do reino de Itália em finais do século IX. Mas foi a fundação da Universidade em 1088 (o que faz dela a Universidade mais antiga do mundo em funcionamento contínuo) que deu impulso ao período de maior desenvolvimento da cidade, e ao aparecimento daquelas que são as suas duas características mais marcantes em termos arquitectónicos: as arcadas e as torres.

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Os historiadores crêem que nos séculos XII e XIII tenham sido construídas em Bolonha qualquer coisa como entre 80 e 100 torres. Porquê? Não se sabe ao certo. Presume-se que algumas terão funcionado como símbolo de riqueza e estatuto das famílias mais abastadas, e também como estruturas de defesa. As mais pequenas serviriam também de habitação. Certo é que este frenesim de construção em altura não se limitava a Bolonha. San Gimignano, 150 km a sul e em plena Toscana, foi outra das cidades medievais atacadas pela “febre” das torres: chegaram a ser 72, algumas ultrapassando os 50 metros de altura.

Em Bolonha, a loucura das torres acabou mais tarde por passar, e depois do século XIII estas gigantes começaram a desaparecer, fosse por serem demolidas, por colapsarem, ou por serem adaptadas a outas finalidades. Aos dias de hoje chegaram 22, a que se somam quatro torreões que faziam parte das muralhas do século XII, além de muitos vestígios remanescentes das casas-torre – que eram mais baixas, tinham mais aberturas, e cujas paredes eram menos espessas.

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As mais famosas são as duas torres que compõem o símbolo da cidade: a Torre Asinelli e a Torre Garisenda. A primeira é a mais alta de todas as torres de Bolonha: 92 metros, que quase me provocaram um torcicolo quando a olhei a partir do outro lado da Piazza onde estão situadas. A Garisenda é mais modesta, nos seus meros 48 metros de altura, mas bate a vizinha em graus de inclinação. São dois colossos de pedra castanho-avermelhada que se vêem de muitos pontos do centro da cidade, erectos como flechas, sobressaindo numa praça de dimensões modestas mas com um movimento tremendo, onde confluem pessoas e veículos de todas as espécies, constantemente. É possível subir à Torre Asinelli, mas confesso que deixei a tarefa para uma próxima visita. O calor e o cansaço de quase duas semanas de viagem, com muitos quilómetros feitos a pé, de carro e de comboio, esgotaram-me a coragem que é preciso ter para subir os 498 degraus que levam ao topo. Atrás das torres, o verde das cúpulas renascentistas da Basílica dos Santos Bartolomeu e Caetano parece querer competir com elas, mas sem grande sucesso.

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Fugi do sol da Piazza di Porta Ravegnana metendo por uma rua estreitinha e sombria cujo nome me chamou a atenção: Via de’ Giudei. Tenho um certo fascínio por judiarias, por serem geralmente bairros com características peculiares, uma espécie de mundo à parte dentro das localidades onde existiram. O traçado do gueto judeu de Bolonha, estabelecido no século XVI, permanece bem identificável na actualidade, definido por becos e ruelas que se entrelaçam no núcleo medieval da cidade. Também aqui existe uma torre, na entrada do Vicolo Mandria. É a Torre Uguzzoni, mas a sua altura respeitável passa praticamente despercebida neste bairro em que o céu não é mais do que uma nesga azul fininha lá no alto, as varandas se misturam com semi-arcadas, e a pedra alterna com as cores soalheiras das casas renovadas, que têm portadas garridas nas janelas e plantas que se derramam pelas paredes abaixo.

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A história da comunidade judaica em Bolonha remonta à segunda metade do século XIV, quando cerca de 15 famílias se instalaram na cidade. Apesar de verem as suas actividades continuamente controladas e das limitações que lhes foram sendo impostas ao longo dos anos, e envolvida sobretudo no comércio da seda e da joalharia, nos empréstimos bancários e na medicina, esta comunidade prosperou de tal forma que em meados do século XVI as sinagogas já eram em número de 11 – mais do que as existentes em Roma. Foi nesta altura que um decreto papal ordenou a criação do gueto, definido por muros e por portões que eram abertos quando o sol nascia (para que os seus habitantes pudessem ir trabalhar noutras partes da cidade, pois a segregação religiosa tinha o cuidado de ignorar as suas actividades, muito importantes para a cidade), fechados ao anoitecer, e constantemente vigiados. Uma das entradas era precisamente na Via de’ Giudei, outra no cruzamento da Via del Carro com a Via Zamboni, e uma terceira entrada fazia-se pelo arco que liga a Via Guglielmo Oberdan ao Vicolo Mandria. Tendo uma área disponível tão pequena, a comunidade aproveitava todo o espaço o melhor que podia, construindo em altura e até mesmo por cima das ruas, num puzzle tridimensional de que hoje ainda restam muitos vestígios. A espinha dorsal do bairro é a Via dell’Inferno, onde até 1943 existiu uma sinagoga (no actual número 16), que foi destruída pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. Mas não pensem que o nome da rua era devido a qualquer motivo religioso: resultou de uma mera associação do fogo às chamas do inferno, pois antes da criação do gueto existiam na rua várias oficinas de ferreiro.

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A cidade das arcadas

 

Em vez de desvantagem, a minha ignorância e total ausência de curiosidade prévia sobre Bolonha acabaram por ser uma bênção. Quando finalmente me decidi a sair do ar condicionado do alojamento para o calor da minha primeira tarde na cidade, as ruas que me levavam à Piazza Maggiore desvendaram aos poucos a maior surpresa que me estava reservada: as arcadas. Rua após rua, o piso térreo de cada edifício recua para dar lugar a um passeio coberto, com a fachada dos pisos superiores assente sobre pilares com materiais e formatos diversos. Elas são, na verdade, o elemento arquitectónico mais característico de Bolonha e responsáveis por grande parte do seu encanto. Só no centro histórico existem qualquer coisa como 38 km de arcadas, que se somam aos 53 km das que se encontram fora de portas. É a cidade com mais arcadas em todo o mundo e as suas são, desde 2021, património cultural da UNESCO.

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Mas qual é afinal a razão para esta abundância de arcadas? Falta de imaginação dos arquitectos? Mania cultural? Desenganem-se: o motivo começou por ser de ordem prática (como quase sempre são os motivos para tantos aspectos culturais que encontramos pelo mundo fora) e para o perceber temos de recuar um milénio. Em meados do século XI, Bolonha expandia-se a uma velocidade sem precedentes, tanto pela fama da sua Universidade, que atraía pessoas de todo o mundo, como pela chegada de cada vez mais camponeses em busca de outras condições de vida. Para alojar tanta gente, os habitantes começaram a ampliar as suas casas ao nível do piso superior, prolongando-as sobre a rua – como forma de conseguirem um aumento de espaço sem terem de pagar mais impostos – e apoiando estas estruturas sobre pilares de madeira. Nasceram assim as primeiras arcadas. Com o tempo, os bolonheses aperceberam-se de que elas lhes traziam outras mais-valias: abrigavam os passeantes tanto da chuva como do sol (e eu tive a prova de que tornam bem mais confortável a visita à cidade em dias de muito calor), afastavam os pisos térreos da sujidade das ruas, e favoreciam o comércio e os ofícios, que se desenvolviam muitas vezes no piso inferior das habitações. O sucesso destas arcadas levou a que em 1288 uma decisão municipal estabelecesse que não só as estruturas já existentes teriam de ser mantidas, como também cada edifício construído no futuro seria obrigado a ter a sua própria arcada. No século XVI, uma nova lei proibiu que fossem construídas em madeira, e a partir dessa altura passaram a ostentar colunas feitas de pedra ou tijolo.

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Hoje em dia, sobrevivem na cidade arcadas das mais variadas espécies: pórticos de madeira acrescentados, de origem medieval; beccadelli (semi-arcadas que não estão assentes em colunas) que se projectam das fachadas; arcadas góticas e renascentistas integradas nos edifícios; arcadas com dimensões monumentais, como os 10 metros de altura da arcada da Arquidiocese, ou os 666 arcos (o número diabólico foi propositado) que compõem o portico de quase quatro quilómetros que liga a Porta Saragozza ao santuário da Madonna di San Luca; e arcadas estilizadas ou minimalistas nos edifícios mais modernos. Algumas têm tectos elaborados, outras têm colunas com capitéis ornamentados, e noutras é o piso que nos chama a atenção. Na sua grande maioria são simples, por vezes estão grafitadas ou têm a tinta a pelar. E há ruas que vale a pena percorrer de uma ponta à outra só para observar a diversidade das suas arcadas: a Via Marsala, a Via Zamboni e a Via Farini são só alguns exemplos. Se outros motivos não houvesse, as arcadas de Bolonha já seriam razão mais que suficiente para visitar a cidade.

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A cidade descontraída

 

O meu primeiro dia terminou no centro nevrálgico de Bolonha, onde o Palazzo d’Accursio acolhe a sede do município. O céu ainda estava claro, mas as sombras já enchiam a Piazza di Nettuno e acendiam-se as primeiras luzes da cidade. Havia grupos de pessoas sentadas nas escadarias quase planas da Biblioteca Salaborsa ou à volta da fonte que dá nome à praça. Famílias em passeio cruzavam-se com bicicletas conduzidas com calma, na passagem sob o Palazzo Re Enzo o vaivém de gente era constante, e as esplanadas estavam cheias. Na Piazza Maggiore alinhavam-se filas e filas de cadeiras frente a um ecrã gigante, e grandes cartazes anunciavam uma programação de filmes italianos, tão extensa quanto apelativa. Na Via d’Azeglio, montras de lojas sucediam-se umas às outras, e atravessadas sobre a rua brilhavam em néon palavras da canção “Futura” de Lucio Dalla. Um dos cognomes de Bolonha é “la Rossa” – a Vermelha – e deve-se à cor do tijolo-burro, material predominante na construção dos edifícios do centro histórico. Sob o sol diurno, este vermelho declina-se em 350 nuances diferentes até ao amarelo. Ao lusco-fusco, ele torna-se mais intenso, profundo, raiando as tonalidades de um bom vinho tinto. Esta é a hora que mais favorece a cidade, e a iluminação urbana não agressiva acentua a tranquilidade do ambiente de final do dia.

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Bolonha tem uma atmosfera informal e relaxante. Essencialmente plana, é uma cidade perfeita para percorrer a pé ou de bicicleta – e há muito quem tire vantagem deste meio de transporte económico e amigo do ambiente. Com uma população de cerca de 85 mil estudantes, cativados pela fama do seu ensino universitário (que lhe granjeou outro dos seus cognomes, “la Dotta”), a riqueza histórica convive paredes-meias com o vanguardismo e a cultura alternativa. Há imensos museus e galerias de arte, e os palácios são com frequência usados para eventos culturais ou exposições. A Universidade e instituições afins espalham-se por toda a cidade, mas o seu núcleo central é a Via Zamboni, onde também se encontra a Biblioteca Universitária, aberta ao público desde 1756.

 

A cidade que tem fé

 

O número de edifícios religiosos no centro de Bolonha ultrapassa as duas dezenas. Alguns passam meio despercebidos, encaixados que estão entre casas de habitação e lojas, em ruas estreitas onde as arcadas muitas vezes não me deixavam perceber se o portal mais arrebicado que via do outro lado da rua era a entrada de um edifício notável ou apenas mais uma porta antiga. Outros são identificados com mais facilidade, como a Catedral Metropolitana de São Pedro, com origens no século X mas de aspecto claramente barroco, a bela Basílica de San Giacomo Maggiore, um casamento bem-sucedido entre os estilos românico, gótico e renascentista, ou o conjunto das Sete Igrejas de Santo Stefano, uma amálgama de templos construídos em épocas diferentes e que parecem nada ter em comum a não ser o tijolo de que são feitos.

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Curiosamente, a maior e mais importante de todas as igrejas de Bolonha tem um exterior pouco apelativo e inacabado, e à primeira vista não parece ser nada de especial. A Basílica de São Petrónio, o padroeiro da cidade, fica na Piazza Maggiore, e esse é um dos motivos pelos quais desperta a atenção. O outro é o facto de ter a sua metade inferior revestida em mármore branco e rosa, enquanto a superior deixa à mostra o tijolo escuro da estrutura, num contraste pouco agradável aos olhos. A largura da fachada principal também não dá qualquer indicação da magnitude do edifício, que é na verdade a 15ª maior igreja católica do mundo, e a quarta maior de Itália. Mas quando decidi visitá-la desconhecia estes pormenores, e por isso entrei sem grandes expectativas.

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A primeira surpresa foi perceber a dimensão real desta igreja, tanto em comprimento como em altura. As abóbadas das três naves como que flutuam 45 metros acima do solo, suportadas por colunas que, pela grossura, mais parecem imbondeiros, e a sua cor clara dá a sensação de que são ainda mais altas. O mobiliário escasso e o piso de mármore brilhante, que replica as cores vermelho-rosado e cru das colunas, aumentam o efeito de uniformidade e amplidão. Depois veio a segunda surpresa: o contraste entre esta sobriedade e a profusão decorativa das 22 capelas abertas nas laterais da igreja, decoradas por pintores e escultores de renome, algumas de forma bastante peculiar. A mais fascinante de todas é a Capela dos Magos, que data de inícios do século XV e mantém quase intactas as magníficas pinturas que cobrem completamente as paredes e o tecto – uma delas é uma representação invulgar do céu e do inferno criada por Giovanni da Modena, que buscou inspiração na Divina Comédia de Dante. Os vitrais das janelas sofreram pesados danos ao longo dos séculos, mas foram primorosamente recuperados e as suas cores vivas brilham e iluminam o interior. Outras capelas são bastante mais simples, e várias estão a ser restauradas. Há uma dedicada a Santo António (que em Itália é sempre de Pádua e nunca de Lisboa) e mostra o santo não com o menino nos braços, mas sim segurando uma flor numa das mãos e um livro na outra. As paredes pintadas e os vitrais com figuras de santos fazem dela uma das capelas mais chamativas de toda a igreja. A capela de São Petrónio é uma orgia barroca, e as de Santiago, São Pedro Mártir e Santo Abúndio também estão decoradas com vitrais soberbos.

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A Basílica de São Petrónio tem ainda uma outra grande atracção. E neste caso, “grande” é adjectivo duplamente adequado. Concebido pelo astrónomo Giovanni Cassini, foi criado em 1656 um relógio de sol, cujo meridiano tem 66,8 metros de comprimento (a seiscentésima parte da circunferência da Terra). Esta longa linha está incrustada no piso da nave esquerda e marca a passagem do tempo, coordenada com o raio de sol que entra por um orifício colocado na abóbada, 27 metros acima do chão. É o maior relógio de sol do mundo.

 

A cidade dos canais

 

Quando pensamos em cidades com canais, Bolonha nem sequer entra na lista. No entanto, apesar de serem quase invisíveis (a água corre principalmente em condutas subterrâneas ou entre as traseiras de edifícios), a cidade tem vários – e este deve ter sido o único “segredo” da cidade que eu já conhecia, apenas porque o alojamento que tinha reservado tem o nome de La finestra sul canale. Infelizmente, o quarto que me atribuíram, embora fosse excelente, não tinha vista para o canal mas sim para a Via Alessandrini, que é muito menos estimulante. Para ver o Canal do Reno precisei de descer a rua até chegar a um gradeamento “enfeitado” com umas boas dezenas de cadeados (a mania também chegou aqui). Como bónus, quando à noite regressei ao alojamento fui brindada com um pequeno filme projectado, em jeito de sombra chinesa, na parede de uma das casas, rente à água. O filme tinha como título “O Moleiro” e evocava uma das antigas actividades comerciais mais beneficiadas pela construção, a partir do século XII, de um total de 60 km de canais que unem Bolonha aos rios Reno e Savena.

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O sistema de oclusas e canais que foi criado e desenvolvido desde essa altura permitia direccionar para a cidade água suficiente para accionar moinhos concebidos para auxiliarem vários tipos de actividades: moagem de grãos, fiações, curtumes, britagem – em suma, todas aquelas nas quais a energia gerada pela força das águas significava uma maior velocidade de produção. Os canais eram também usados para o transporte de pessoas e mercadorias, e a criação de lavadouros e balneários públicos contribuiu para melhorar as condições sanitárias de Bolonha. Hoje, a face mais visível deste sistema é o Canale Navile, que começa no Parco del Cavaticcio, onde se situava em meados do século XVI o porto de Bolonha. Ao lado do parque continua de pé o edifício da Salara, antigo armazém do sal, que aloja actualmente o Cassero, o centro LGBT de Bolonha. O Navile desaparece sob a cidade e só volta a ser visto mais para norte, depois da linha férrea, seguindo a partir daí em campo aberto durante cerca de 30 km até Malalbergo. Navegado até 1948, actualmente é apenas usado para irrigação. A oeste da cidade, junto ao cemitério de Certosa, emerge um outro canal, que termina no Reno poucos quilómetros mais à frente.

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***

Deixei Bolonha muito cedo, ainda os cafés mal tinham aberto, na manhã de um dia que já se anunciava quente como os anteriores. Refiz o caminho de volta até à Centrale, o terminal ferroviário que me tinha visto chegar dias antes. A hora matutina mostrou-me a cidade a uma luz diferente, como diferente era também o meu estado de espírito. Tinha chegado cansada e vagamente alheia, sem expectativas; parti com vontade de ficar, rendida a esta cidade tão singular quanto despretensiosa, e cheia de bons motivos que me hão-de fazer regressar.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

Príncipe, a outra ilha


Ana CB,

Chamar caminhos de cabras aos trilhos que dão acesso às melhores praias da ilha do Príncipe é ser simpática. Até a sport wagon com pneus tamanho XL conduzida pelo Vado, um dos guias mais experientes da ilha, tem dificuldade em percorrer os poucos quilómetros de piso meio lamacento, cheio de buracos e com pedras gigantes a despontarem do solo que leva à praia Boi. Curto em distância mas longo em minutos, o percurso mói os ossos e os músculos, chocalhados sem piedade e ininterruptamente até ao final, e só o facto de ser feito dentro de uma floresta magnífica mitiga um pouco o incómodo: os olhos vão entretidos a admirar árvores desconhecidas, tão altas que apenas deixam passar uns ténues raios de sol. Isso e a praia no final do caminho. Areia fina e clara debruada a palmeiras, deserta; mar tranquilo em dégradé de azuis; sol brilhante, água morna. Perfeita!

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Tal como para as suas praias, o mote para a ilha do Príncipe podia ser este: não é fácil lá chegar, mas vale muito a pena. É preciso estar no Aeroporto de São Tomé tão cedo como se fôssemos para uma viagem internacional, não é possível levar mais do que 15 kg de bagagem de porão, e a viagem total de 40 minutos (dos quais apenas 25 em voo) é feita numa avioneta que só leva 19 passageiros, com pouco espaço, pouco insonorizada e pouco fresca. Ainda assim, a procura é tanta que actualmente estão a ser feitos três voos diários, operados pela companhia portuguesa Sevenair, e vão sempre cheios.

À chegada, meras dezenas de metros nos separam do pequeno edifício do aeródromo, pintado de amarelo-vivo. Depois aguardamos a chegada das malas numa saleta com porta aberta para o exterior, a fazer lembrar as salas de espera de antigamente das estações de comboio. Contrariando o frenesim da cidade de São Tomé que deixámos pouco antes, há uma atmosfera geral de tranquilidade, e até os ruídos do exterior soam abafados. Estranha-se esta calma, que contudo não é surpreendente se pensarmos que a ilha tem pouco mais de 9 mil habitantes (em contraste com os 80 mil da capital do país).

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Lá fora, uma mão cheia de guias aguarda a nossa saída, cada um com o nome do seu cliente escrito numa folha branca. Os turistas que chegam desta vez são poucos, a maioria dos passageiros são gente da terra. Sorridente, o Vado dá-nos as boas vindas e leva-nos ao carro. A estrada até Santo António, capital do Príncipe, é asfaltada e está em bom estado, e em coisa de 10 minutos estamos no restaurante da Residencial Mira Rio para matar a fome em frente a uma omelete – um lanche reforçado para substituir o almoço que estava em falta por causa da viagem de avião. Fazendo jus ao nome, o restaurante tem varanda e vista sobre o rio Papagaio, que nasce no pico homónimo, um dos mais altos da ilha.

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A cidade

 

Santo António é cidade com dimensão de vila e ambiente de aldeia. Fundada em inícios do século XVI, chegou a ser capital da colónia portuguesa de São Tomé e Príncipe, entre 1753 e 1852, antes de a cana-de-açúcar como produção principal ter sido substituída pela de cacau e café. Com ruas arejadas e rectilíneas na área junto à baía, onde ainda se mantêm de pé vários edifícios da época colonial, em diversos estados de conservação, o casario vai-se tornando mais miúdo e irregular à medida que seguimos para sul. Nas casas baixas de cores pastel, a alvenaria alterna com a madeira e a chapa ondulada, e quando deixamos o centro da cidade os passeios são aos poucos substituídos por meras bermas, que a vegetação tenta engolir. Há palmeiras gigantescas e muitas outras árvores e arbustos, a darem uma impressão visual de frescura mesmo quando o mercúrio sobe nos termómetros. Não há qualquer sintoma de aridez nesta ilha e a água nunca falta. Além disso, garante o Vado, toda a água da cidade é tratada e potável, pode por isso ser bebida directamente da torneira. Ainda assim, cingimo-nos à água engarrafada – vale mais prevenir, que o nosso sistema digestivo europeu já se sente sobrecarregado quanto baste pelos temperos generosos da comida local.

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Se a água não falta, o mesmo não se pode dizer do combustível. Além de ter subido a níveis estratosféricos nas últimas semanas (aqui também se sentem as consequências da guerra na Ucrânia), todo o combustível vem de São Tomé por barco, em fornecimentos irregulares que por vezes deixam a ilha do Príncipe à míngua de gasolina, gasóleo e petróleo. As gasolineiras estão vazias, e para honrar o seu compromisso connosco o Vado terá de pedir combustível a um amigo – pagando-o acima do preço habitualmente cobrado nas bombas de gasolina. No Príncipe como em São Tomé, todas as oportunidades são boas para fazer negócio.

 

Não se pode dizer que Santo António tenha uma arquitectura extraordinária. Nota-se, isso sim, alguma preocupação em manter a cidade limpa (até há caixotes destinados à separação de lixos para reciclagem) e cuidada. Olhando para algumas casas, com varandas em ferro forjado, cornijas sobre as janelas e beirais nos telhados, podemos até pensar que estamos em Portugal. No centro da cidade há meia dúzia de edifícios que se destacam, seja pelo aspecto recente, como o edifício do BISTP (o principal Banco do país); pela cor, como a casa colonial que abriga a capitania, pintada de azul céu e com um friso de bóias e âncoras, ou o edifício que ostenta o emblema do Sporting Clube de Portugal, sem vidros nem finalidade aparente, mas primorosamente pintado de verde e branco; ou pela beleza dos seus elementos decorativos, como a casa oficial da presidência, e que é sem dúvida o edifício mais bonito de todos: exterior em ripas de madeira pintadas de cinza-claro, um alpendre em toda a volta, friso de metal trabalhado a rematar o telhado, e com uma magnífica palmeira-do-viajante plantada num dos vértices, a fazer as vezes de sentinela.

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Há uma igreja católica, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, simples e com uma única torre. Parece muito antiga, talvez por estar em obras, mas data apenas de 1943. Tal como em todo o país, a religião é pedra basilar para as gentes do Príncipe e o catolicismo é predominante (mais de 70% da população de São Tomé e Príncipe), embora se note alguma proliferação de outras confissões ditas evangélicas, com locais de culto numa das ruas principais. Surpreendente para mim foi descobrir que no Príncipe se festejam os Santos Populares, a sério e “à antiga”. Na noite de São João, uma das que passei na ilha, uma marcha popular alegre e muito participada, com marchantes vestidos a rigor, percorreu as ruas de Santo António durante quase duas horas, mostrando as coreografias ensaiadas ao som de canções tradicionais. Uma animação, para a qual grande parte do resto da população da cidade também contribuiu, seguindo o cortejo sem nunca esmorecer. No final, saltou-se a fogueira na praceta em frente à igreja – algo a que eu já não assistia há sei lá quantos anos, e que me trouxe memórias da infância.

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No Príncipe as tradições são acarinhadas e respeitadas. Ao pôr-do-sol do primeiro dia, passámos por acaso pelo jardim da Praça Marcelo da Veiga, onde fica o Palácio do Governo. A bandeira do país estava a ser arreada à frente do Palácio, com cerimonial militar ao som do cornetim. De imediato, o nosso guia estacou e colocou a mão no coração. Não arredou pé enquanto não terminou a cerimónia, e deu uma descompostura a um adolescente que passava apressado, obrigando-o a parar também. E não, o Vado não é um conservador bacoco já entradote. Na verdade, tem apenas 32 anos – a mesma que o actual Presidente do Governo Regional do Príncipe, Filipe Nascimento. Num país em que cerca de 40% da população tem menos de 15 anos (e apenas 7% tem mais de 55), são cada vez mais os jovens que tentam (e têm de) fazer avançar São Tomé e Príncipe. E se para muitos o maior anseio é virem para Portugal, sobretudo para estudarem, há outros que sonham com um país mais desenvolvido e menos pobre, e querem contribuir para isso.

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As praias

 

Que o maior trunfo da ilha do Príncipe é a sua beleza natural e consequente capacidade de atrair turismo, isso está à vista. Dos 142 km2 da sua área, a maior parte está coberta de floresta tropical húmida, sobretudo a região sul, que é bastante acidentada e por isso difícil de visitar. É aqui que se encontra o Pico do Príncipe, cujos 948 metros fazem dele o cume mais alto da ilha, e é aqui também que despontam da floresta grandes torres de fonólito, uma rocha vulcânica algo rara, que dão à paisagem um certo ar de mundo jurássico. Inversamente proporcional ao seu tamanho, a idade geológica do Príncipe está estimada em 31 milhões de anos, tempo suficiente para nela se desenvolverem imensas espécies vegetais e animais, tanto no solo como no mar – e esta é uma das razões pelas quais a ilha do Príncipe foi categorizada pela UNESCO em 2012 como Reserva da Biosfera.

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Das cerca de duas dúzias de praias que a ilha tem, nem todas são acessíveis, e raras são as que é fácil visitar. O percurso é quase sempre por caminhos em mau estado, que implicam a deslocação num todo-o-terreno, e a constante ameaça de se ficar atolado na lama ou estragar alguma parte essencial do carro. Uma excepção é a praia Bom Bom, no norte, cujo acesso em estrada de terra batida apresenta menos dificuldades do que o normal, talvez por não ser em declive, e certamente por servir o conhecido resort que tem o mesmo nome, apesar de agora estar fechado. Também aqui se fizeram sentir com força os efeitos da pandemia.

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A praia Bom Bom é na verdade uma praia dupla, com uma grande extensão de areia de cada um dos lados do istmo que liga ao ilhéu. A icónica e longa ponte de madeira que possibilitaria visitar a ilhota está agora interditada (por falta de manutenção, dizem-nos) mas continua a ser uma atracção na paisagem. Virada a noroeste, a meia-lua de areia alaranjada que fica do seu lado esquerdo é local de excepção para passar um final de tarde, aproveitando os raios menos inclementes do sol-pôr – sendo que nestas latitudes, quase em cima da linha do Equador (que passa no ilhéu das Rolas, cerca de 200 quilómetros a su-sudoeste), a escuridão chega invariavelmente menos de seis horas depois do meio-dia.Há quem diga que a praia Boi é a melhor da ilha do Príncipe, e certamente merecerá o título. Como não é fácil chegar lá, o mais provável é tê-la toda por nossa conta, e isso decerto que contribui para a sua fama. Mas há outras igualmente bonitas e recomendáveis, como a praia Macaco ou a mais célebre praia Banana, onde em 1991 foi filmado o anúncio de um rum famoso. Vê-la do miradouro que fica na Roça Belo Monte é a primeira abordagem que aconselho. Dali vê-se bem o formato da praia, e percebe-se o porquê do nome; em jeito de brinde, desfrutamos de uma magnífica paisagem em tons de verde e azul. Lá em baixo, a vista é mais rasa mas igualmente paradisíaca. Sol aberto, mar chão, algumas rochas escuras, um ilhéu mais ao fundo. O ar está a uns simpáticos 28°C, e a água imita-o. Há uma brisa ligeira, o conforto da sombra das palmeiras, e um sossego quase total. O cliché da praia paradisíaca, que por coincidência é o meu conceito de praia ideal. A vontade de sair dali é zero.

 

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Para uma experiência menos “postal ilustrado”, há que ir até à praia Abade. O entorno é igualmente idílico, uma praia límpida e sem ondulação numa baía quase fechada e debruada a verde. À volta alonga-se uma aldeia piscatória, pequena, com casas toscas feitas com tábuas de madeira e telhado de chapa ondulada, algumas pintadas de cores vivas. Na areia não há toalhas de praia nem banhistas, mas sim miúdos que brincam e canoas que descansam, umas feitas de tronco de árvore, outras mais modernas, com motor reluzente. E na água haverá talvez apenas um pescador, impelindo o seu barco à força de braços e de uma pagaia.

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As roças

 

A ilha do Príncipe foi descoberta por Pêro Escobar a 17 de Janeiro de 1471, apenas 27 dias depois da sua irmã São Tomé. O seu primeiro nome foi Santo Antão, e o primeiro produto ali explorado a cana-de-açúcar. Os impostos sobre a produção de açúcar na ilha eram pagos ao Príncipe de Portugal, Afonso, filho e herdeiro de D. João II, razão pela qual o nome da ilha acabou por ser mudado em 1502. Os engenhos de açúcar foram introduzidos em fins do século XV por Álvaro de Caminha, a quem a coroa portuguesa concedeu a terra. A partir do início do século XIX, o açúcar foi sendo gradualmente substituído pelo café e sobretudo pelo cacau, cultivados nas roças que constituíram desde sempre a base da vida económica e social da ilha.

Após a independência de São Tomé e Príncipe em 12 de Julho de 1975, poucas foram as roças que mantiveram as suas produções. Algumas transformaram-se em aldeias, outras são hoje apenas ruínas, outras ainda foram convertidas, em tempos mais recentes, em empreendimentos turísticos de luxo. Apenas duas são actualmente exploradas para a produção de café e cacau: A Roça Paciência, que pertence ao grupo HBD, e a Roça Terreiro Velho, que abastece a fábrica Claudio Corallo.

 

Situada a poucos quilómetros de Santo António, a Roça Porto Real (que em tempos teve o nome de Roça Esperança) é um dos exemplos mais flagrantes do abandono a que a maior parte destas grandes estruturas produtivas foram votadas. Foi uma das maiores roças do Príncipe e chegou a ter outras oito, mais pequenas, na sua dependência. Roça-terreiro típica, com um espaço central amplo, quadrado ou rectangular, rodeado por diversas áreas edificadas – oficinas, armazéns e edifícios fabris e administrativos, sanzalas (onde viviam os trabalhadores), capela, hospital, escola e cozinhas, e a casa principal – encontra-se hoje em ruínas, com a maior parte dos edifícios engolidos pela vegetação. Da grandeza anterior destes fantasmas do passado só nos apercebemos pela enorme escadaria que ainda é visível, e que nos leva a paredes de pedra esverdeada por musgos, com aberturas por onde irrompem fetos e ramagens folhosas, troncos e raízes de árvores que se enrolam em volta dos muros como tentáculos de polvo. Mais à frente, ao longo da estrada, os edifícios da antiga sanzala continuam a ser habitados, à mistura com casinhotos de madeira que foram entretanto construídos.

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Diferente é a história da Roça Sundy. Adquirida há cerca de uma dezena de anos pelo grupo HBD, cujo líder é o sul-africano Mark Shuttleworth (sendo que HBD neste caso são as iniciais de Here Be Dragons, expressão usada em tempos idos para designar territórios inexplorados do nosso planeta), a roça tem vindo a ser reconstruída e transformada numa unidade de alojamento turístico de gama alta, apesar de alguns edifícios limítrofes ainda estarem por recuperar. A renovação exterior sóbria disfarça o interior mais luxuoso. Há uma loja, onde são vendidos os produtos orgânicos feitos com o cacau e outros frutos e plantas cultivados na Roça Paciência. Aberto a visitas está também o Espaço Ciência Sundy, um pequeno museu que expõe maquinaria antigamente usada na roça e celebra o facto de ter sido aqui que, em 1919, um grupo de astrónomos ingleses liderados por Sir Arthur Eddington levou a cabo a experiência que deu como provada, pela primeira vez, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein. A HBD Príncipe também explora o Sundy Praia e o Bom Bom (com reabertura prevista para 2023), e os objectivos que apregoam são o desenvolvimento sustentável da ilha e a conservação da Reserva da Biosfera.

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Outra história feliz é a da Roça Belo Monte. Antiga plantação de cacau e café e objecto de recuperação primorosa, agora funciona apenas como hotel (também de luxo). Apesar disso, as instalações podem ser visitadas por qualquer pessoa, e é um lugar de excelência para ir tomar um chá ou uma bebida fresca, por exemplo. Visitável é igualmente o seu museu, que ilustra a história e a cultura da ilha, e o miradouro sobre a Praia Banana é de acesso livre. A entrada para a área principal do complexo é feita por um portão icónico, com torreões e um sino, guardado por dois canhões cuja ferrugem atesta a sua antiguidade. Nos jardins, muito bem cuidados, nem sequer falta um tabuleiro de xadrez gigante, com as respectivas peças bicolores, e um banco-baloiço circular pendurado nos ramos de uma árvore, compridos como braços de um colosso. Quanto ao interior, é o epítome do requinte discreto, clássico sem ser pesado, ligeiros toques rústicos misturados com outros mais modernos. O Monte Belo faz parte da Africa’s Eden, uma organização que contribui para a preservação da natureza e desenvolve actividades turísticas sob o mote “O turismo paga a conservação”.

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Menos popular e de mais difícil acesso do que São Tomé, a ilha do Príncipe é frequentemente ignorada por quem visita o país – sobretudo, não tenho qualquer dúvida, devido ao preço exorbitante (para uma viagem tão curta) das passagens aéreas entre as ilhas, e também ao facto de o custo de vida ser mais elevado do que na ilha principal. Há também a ideia de que no Príncipe é tudo mais rudimentar e básico, e portanto menos “confortável” ou “civilizado”. Se a presunção no que toca à parte financeira é correcta, em relação ao resto posso afirmar que vim de lá com uma percepção completamente oposta. Apesar de todas as limitações existentes e da sua extrema dependência de São Tomé, a ilha do Príncipe está a trilhar um caminho rumo ao futuro bem coerente e esclarecido, e a qualidade dos serviços que oferece é superior à impressão que é habitualmente difundida sobre a ilha. Há já bastante oferta de alojamento a preços razoáveis, os restaurantes são mais que muitos, alguns já modernizados, e o atendimento é impecável, mesmo que por vezes um pouco demorado (porque é tudo feito na hora). Sem a sofisticação plasticizada de tantos destinos turísticos apregoados de paradisíacos, o Príncipe é um verdadeiro oásis de simplicidade, onde é possível uma genuína comunhão com a natureza pouco delapidada pela mão humana, e com a essência de um povo que tem orgulho na sua cultura e respeito pelas maravilhas do lugar onde vive.

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Onde fiquei:

Príncipe Residencial – Rua Estádio 13 de Junho, Santo António – Email: principeresidencial@hotmail.com

Fica um pouco afastado do centro, mas é confortável qb e limpo. Os quartos são simples, espaçosos e têm ar condicionado. O pessoal é muito atencioso, tem bom wifi em todo o lado e um pequeno-almoço razoável.

 

Onde comi:

Mira Rio – Amplo, aberto para o exterior, serve a qualquer hora do dia; o sítio ideal para uma refeição leve fora de horas.

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Armazém Roça Porto Real – Moderno, com uma enorme esplanada e um ambiente europeizado; o menu é mais variado do que o habitual e a frequência é maioritariamente jovem.

Beira-Mar (Juditinha) – Um dos restaurantes mais famosos de Santo António, ideal para conhecer os pratos típicos da ilha. Servem rapidamente, e a Juditinha e as outras senhoras são uma simpatia.

Romar – Tranquilo, sobretudo ao jantar, ambiente modernizado; a comida é boa e têm sobremesas, algo que é raro em muitos restaurantes de São Tomé e Príncipe.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

 

Blogue da semana


Ana CB,

Em 1921, como parte de uma campanha publicitária para promover a utilização de imagens em anúncios, o jornalista norte-americano Fred R. Barnard usou a frase “Uma imagem vale mais do que mil palavras”.

O slogan pegou e continua a ser usado até hoje no contexto mais abrangente da fotografia em geral, reflexo de uma verdade universal sobre o poder das imagens na comunicação.

Não negando a premissa que lhe está subjacente, a verdade é que não concordo totalmente com ela. Se há fotografias que não precisam de palavras, e palavras que não precisam de fotografia, há casos em que imagem e palavra se complementam e trabalham em conjunto, sem se atrapalharem mutuamente, para nos darem uma visão do mundo – o que nos rodeia e o que está dentro de nós. Não pensasse eu assim, que razão teria para ter criado um blogue de viagens?

Ainda assim, há dias em que me apetece mais olhar do que ler. E há na blogosfera boas opções para esses dias. O Raw Traveller é um deles – tem palavras, mas ali o que importa mesmo é ver a beleza das imagens.

É a minha escolha para blogue da semana.

O culpado


Ana CB,

Parto do princípio que entre os leitores fiéis deste blogue há quem goste muito de viajar, e não devo andar longe da verdade. E agora eu pergunto: porquê? Porque é que gostam (gostamos) de viajar? Nem toda a gente é como nós. Conheço várias pessoas (até na minha família próxima) que preferem não sair da sua zona de conforto, contentam-se em ver o mundo em fotografias ou na televisão e não têm curiosidade em ir pessoalmente àqueles lugares, por mais maravilhosos que pareçam. Não se trata de terem medo de andar de carro, ou barco ou avião; também não é por não saberem o que é viajar, porque já o fizeram numa ou noutra ocasião, e até nem desgostaram de todo; é simplesmente por falta de vontade, de interesse.

Então porque é que umas pessoas têm o bichinho das viagens e outras não? Será uma questão genética? Terá a ver com a educação? Porque a primeira vez que viajaram foi tão boa que procuram repetir a experiência uma e outra vez? Para colmatar uma carência, uma necessidade?

Bom, lamento dizer-vos que não sei qual é a resposta. Se calhar nem existe uma resposta, provavelmente cada um terá a sua… Mas no meu caso sei, conheço perfeitamente uma das razões pelas quais tenho desde muito nova uma grande paixão por viajar.

Senhoras e senhores, apresento-vos o culpado do meu desassossego:

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Sim, é um livro. Chama-se precisamente “O Grande Livro de Viagens” e foi editado pelas Selecções do Reader’s Digest em 1970.

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Entrou em minha casa pelas mãos do meu pai, a pessoa de quem terei certamente herdado um gene de viajante, se houver alguma influência hereditária no caso (da minha mãe não foi, que ela pertencia mais ao género de viajar no sofá). Eu era miúda, e este livro foi para mim uma revelação.

Antes que comecem a achar que sou um bicho estranho, estou a falar de uma época em que só tínhamos televisão (a preto e branco, claro) durante algumas horas por dia e tudo o que líamos – jornais, revistas, livros – ou víamos em casa ou no cinema era cuidadosamente filtrado e censurado. E obviamente que coisas como vídeos, computadores ou internet não existiam nem nos nossos sonhos. A quantidade de informação que nos chegava era muito reduzida e vinha a conta-gotas, às vezes com grande atraso. Outros tempos.

Não é por isso de admirar (acho eu) que abrir este livro tenha sido para mim um bocado como abrir a caixa de Pandora – mas sem a parte dos males, só a do mundo. Fiquei fascinada pelas fotografias que me mostravam lugares que eu nem sequer imaginava, e à medida que fui lendo os textos mais fascinada ainda fiquei. São cinquenta textos, cada um sobre o seu local ou país, todos escritos por autores diferentes. Textos que vão muito para lá do básico e são verdadeiras histórias de viagens, daquelas que dá gosto ler. É claro que no meu imaginário não sedimentaram todos eles de igual modo – ler sobre o mercado de queijo na Holanda (eu, que detesto queijo…), sobre um casamento marroquino ou sobre os lutadores de Sumo, só para citar alguns exemplos, não despertou em mim qualquer interesse especial. Mas a verdade é que muitos (grande parte) dos lugares que ainda estão na minha lista de desejos, aqueles que eu me lembro de querer visitar desde sempre, se encontram neste livro – e estão nessa lista sobretudo por causa dele.

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Quando há uns anos quis “revisitá-lo”, descobri que na casa dos meus pais terá ido parar a parte incerta, escondido provavelmente atrás ou debaixo de alguns dos muitos livros que eles tinham. Por sorte, consegui descobri-lo (e barato!) num alfarrabista, e agora sou a feliz proprietária de um exemplar. Está meio desbotado, tem as folhas amarelecidas e cheira a mofo, mas ainda está em bastante bom estado. Pode parecer um disparate, mas fiquei felicíssima no dia em que o recebi. “Trauma” de infância, certamente…

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Também é claro que é um livro bastante datado. Muito do que ali está escrito hoje já é diferente, e nos nossos dias qualquer smartphone baratucho tira fotografias melhores do que as que ele tem. Mas esse acaba por ser outro dos seus motivos de interesse, ver como alguns lugares mudaram tanto em cinquenta anos, e outros mudaram tão pouco. Um dos exemplos de maior mudança é precisamente o nosso país. O texto que fala de Portugal, escrito por André Visson e que tem o (óbvio!) título de “Jardim da Europa à beira-mar plantado”, mostra-nos um país de pescadores, varinas e apanhadores de uvas descalços, onde “ninguém terá dúvida de que (…) reina o homem. Nas estradas da província, por exemplo, vêem-se mulheres com toda a espécie de volumes à cabeça (…) enquanto os homens seguem montados em burros, ou as acompanham a pé, com as mãos nos bolsos”. Um país de que já estamos um bocado longe – embora muito do que aqui se diz sobre Portugal e os portugueses continue a ser verdade.

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Passados estes anos todos, ainda só estive em talvez uma dúzia dos locais de que este livro fala. Continuam por cumprir muitos dos meus desejos de viagem, embora já tenha realizado vários outros que surgiram entretanto e foram mais fáceis de concretizar. A alguns deles planeio ir mais ou menos a curto ou médio prazo, outros continuarão mais tempo na lista, e outros ainda surgirão entretanto. Ao contrário dos livros, e sobretudo os de viagens, que são estáticos e congelam os lugares no tempo, nós, as pessoas, estamos sempre a procurar, a descobrir, a aprender, a conhecer novos lugares – e este é, afinal, um dos maiores prazeres da vida.

(Adaptado de um post do blogue Viajar Porque Sim)

Outras formas de turismo: repensar o acto de viajar


Ana CB,

Em 2008, planeei pela primeira vez uma viagem totalmente com recurso à Internet. É certo que nos anos imediatamente anteriores me socorria de uma agência de viagens online (que não era portuguesa). Mas só quando quis ir fazer uma viagem pela Costa Rica e não encontrei nenhum programa de operador turístico que me levasse aonde eu queria e durante o tempo que eu queria é que me decidi a organizar tudo por minha conta e risco. E, com uma pequena excepção, não voltei a viajar de outro modo.

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Olhando para trás, no que toca a viagens, tenho feito um percurso inverso ao que seria mais provável hoje em dia. Quando comecei a viajar com regularidade para fora de Portugal, nos já idos anos 90, não era concebível reservar uma viagem de avião sem ser através de uma agência de viagens. É certo que de carro ou comboio podíamos partir à aventura sem nada marcado, mapa na mão e procurando alojamento nos sítios em que decidíamos parar. Foram várias as viagens que fiz em Espanha e França com pouco mais do que uma vaga ideia de querer ir ver isto ou aquilo. E corriam geralmente bem – uma avaria ocasional que nos atrasava os planos, ter de passar uma noite no carro ou num alojamento menos confortável por não encontrar outro melhor. Nada que me estragasse o prazer de viajar.

Mas se queríamos ir para destinos mais longínquos, e a não ser que tivéssemos todo o tempo do mundo para partir à descoberta e nenhumas responsabilidades a prenderem-nos para voltar, então tínhamos mesmo de recorrer às agências de viagem e conformar-nos com o que elas nos ofereciam. Hoje, numa altura da vida em que já seria compreensível (e talvez expectável) querer sopas e descanso e embarcar em cruzeiros, ou ir para resorts, ou que me fizessem a papinha toda e apresentassem viagens prontas a consumir, estou quase completamente no espectro oposto. Não virei mochileira (embora ande muitas vezes de mochila às costas), mas só vou aonde quero e da forma que quero, fugindo das viagens estereotipadas e, dentro do possível, das épocas mais pressionadas pelo turismo. Não é que não vá, ou não queira ir, àqueles lugares de que toda a gente gosta. Mas não aprecio confusões, e portanto tento evitá-las. Se há tanto para conhecer por esse mundo fora, porque é que havemos de ir todos para o mesmo sítio ao mesmo tempo?

Nos últimos 60 anos, as viagens “democratizaram-se”. O que antes só era acessível para quem ou fosse muito endinheirado, ou tivesse uma alma hippie, hoje em dia é mais ou menos alcançável para uma boa fatia da população mundial. Por um lado, as plataformas online tornaram possível a muita gente, como eu, viajar com mais facilidade; por outro, a maior oferta de alojamentos de vários tipos e de transporte (sobretudo na aviação) fez reduzir os custos das viagens, de um modo geral. As redes sociais encarregaram-se de alimentar e acelerar as vontades (por vezes apenas latentes) de ir mais longe, mais alto, mais fundo – ou simplesmente de ir passar férias num sítio que não o do costume, de preferência num daqueles em que é possível tirar belas fotos sem grande esforço nem sapiência.

Fonte (por vezes principal) de rendimento, emprego e desenvolvimento em muitos países, esta revolução no turismo trouxe também problemas evidentes: os destinos cheios de resorts uniformizados, a proliferação de pacotes de “tudo incluído” e a febre dos locais “instagramáveis” dominam o sector. Para muitos, viajar deixou de ser uma forma de descoberta cultural e pessoal para se tornar num acto performativo, mais voltado para acumular carimbos no passaporte ou quantidades de países visitados do que para viver experiências autênticas.

O turismo de massas tem vindo a exacerbar, a nível mundial, várias questões ambientais e sociais. Do ponto de vista do ambiente, não podemos ignorar a poluição causada pelo transporte aéreo e marítimo, a sobrecarga de ecossistemas frágeis, o desperdício de recursos naturais como água e energia, ou o aumento da produção de resíduos. Socialmente, contribui para a sobrecarga de infra-estruturas em cidades icónicas, a gentrificação de bairros históricos, o aumento do custo de vida para as populações locais, a exploração laboral no sector do turismo e a degradação da autenticidade cultural devido à excessiva comercialização. Além disso, ao comprometer a qualidade de vida em destinos muito procurados, a afluência descontrolada de turistas pode gerar (e tem gerado) tensões com as comunidades locais.

E eu encontro-me agora, com este meu grande apetite por viajar, num dilema: uma vez que faço parte do problema, como posso também fazer parte da solução? Como posso conciliar a minha paixão por conhecer o mundo (enfim, parte dele, pelo menos) com o meu desejo de contribuir o mínimo possível para piorar situações que são já por si insustentáveis? Sei que não sou a única a preocupar-me com estas questões, e não tenho qualquer pejo em defender que está na altura de repensar o que queremos quando viajamos, e qual a melhor maneira de o fazer. Há vida para lá dos formatos padronizados de viagem, e outras formas de turismo que podem ser igualmente (ou ainda mais) recompensadoras.

 

Turismo sustentável: uma responsabilidade colectiva

O turismo sustentável é uma abordagem que visa equilibrar a satisfação dos viajantes com a protecção do meio ambiente e o bem-estar das comunidades locais. O conceito surgiu como resposta primeira e directa aos efeitos negativos do turismo de massas. Através de práticas conscientes, é possível minimizar a pegada ecológica e maximizar o impacto positivo nos destinos visitados.

Por exemplo, optar por transportes menos poluentes, como os comboios, é uma forma de reduzir as emissões de carbono associadas às viagens de avião. A escolha de alojamentos amigos do ambiente, que recorrem a energias renováveis e têm programas de reciclagem, é outra medida concreta. Para além disso, a consciência ambiental deve estender-se ao consumo local: privilegiar mercados, restaurantes e lojas geridos por comunidades locais fortalece as economias locais sem explorar os recursos naturais de forma excessiva. Já falei mais em detalhe sobre esta questão aqui.

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Muitos destinos também estão já a adaptar-se a estes cânones. Exemplos como as Galápagos ou o Butão, que limitam o número de turistas anuais, demonstram que é possível preservar ecossistemas sensíveis ao mesmo tempo que se oferece uma experiência única e com qualidade. Esta limitação e qualidade envolvem custos – o que, por sua vez, dá origem a outro tipo de questões: num mundo que deveria ser cada vez mais democrático e acessível, é justo vedar certos destinos a quem tem menos posses, mesmo que com base em motivos nobres? Nesta como noutras áreas, não é fácil encontrar um equilíbrio.

 

 

Turismo de proximidade: redescobrir o que está perto

A pandemia que obrigou ao fecho de muitas fronteiras em 2020-21 fez-nos reapreciar o turismo de proximidade. Trata-se de valorizar o que está ao nosso alcance, explorando regiões menos conhecidas e redescobrindo a cultura e a natureza locais. Além de reduzir as deslocações de longa distância, que têm um elevado custo ambiental, o turismo de proximidade ajuda a descongestionar os destinos demasiado populares.

Portugal tem aproveitado esta onda para tentar dar vida a zonas do país que estavam a ficar desertificadas. É um alento algo artificial e que nem sempre aproveita os recursos e modos de vida tradicionais, mas se feito de forma consistente e pensada, pode trazer mais benefícios do que desvantagens. Visitar lugares que nos estão mais próximos permite não apenas conhecer melhor o património local, mas também reduzir custos e apoiar pequenas economias regionais.

Para além disso, e mais do que só por uma questão de conveniência, o turismo de proximidade também convida a uma reflexão: será que precisamos de atravessar o mundo para encontrar beleza e significado?

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Turismo comunitário: viajar com impacto social

O turismo comunitário coloca as populações locais no centro da experiência turística. Em vez de grandes cadeias hoteleiras ou operadores multinacionais, esta proposta apoia-se em iniciativas lideradas por comunidades que partilham a sua cultura, história e recursos de forma autêntica.

Por exemplo, no Brasil, certas comunidades (na Amazónia e no Maranhão, só para citar duas regiões) oferecem programas de turismo que combinam aprendizagem cultural e preservação ambiental. Em África, algumas aldeias promovem safaris comunitários, onde os lucros são reinvestidos na educação e na saúde. Estes modelos não só geram receitas, como também reforçam a autonomia das populações locais.

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Pela nossa parte, neste tipo de viagens adquirimos uma percepção mais imersiva do destino e temos a oportunidade de contribuir para um impacto positivo. É uma forma de turismo que reforça valores de inclusão, diversidade e respeito, essenciais num mundo cada vez mais globalizado.

 

Turismo lento: a arte de viajar devagar

A pressa para visitar o maior número de lugares no menor tempo possível leva à superficialidade das experiências. O turismo lento (“slow travel”) propõe um ritmo diferente: permanecer mais tempo num destino, conhecer melhor a cultura local e estabelecer ligações autênticas.

Podemos, por exemplo, optar por alojar-nos em casas de famílias locais, aprender a cozinhar pratos típicos ou participar em festividades tradicionais. Viajar devagar também beneficia o meio ambiente, ao reduzir as deslocações frequentes e o consumo excessivo de recursos. Além disso, promove uma maior empatia cultural e dá-nos a possibilidade de regressarmos à nossa rotina com memórias mais significativas.

 

Turismo regenerativo: deixar os lugares melhores do que os encontramos

O turismo regenerativo é um passo à frente no que toca à sustentabilidade. Em vez de apenas minimizar impactos negativos, procura transformar os destinos, regenerando ecossistemas e comunidades. É um conceito que nos desafia a não sermos apenas consumidores, mas também agentes de mudança positiva.

Como exemplo, os projectos de reflorestação em áreas desmatadas ou as iniciativas de conservação marinha que permitem que nós, turistas, contribuamos activamente para a protecção ambiental. No âmbito social, existem muitos programas que incluem voluntariado em escolas, ou workshops que ensinam e ajudam a preservar tradições culturais.

Esta abordagem exige um compromisso mais profundo, mas as recompensas são igualmente elevadas: a satisfação de saber que a nossa presença não apenas preservou, mas também enriqueceu o lugar visitado.

 

Viagens conscientes e financeiramente razoáveis

Viajar não precisa de ser sinónimo de grandes despesas. Um dos pilares do turismo consciente é a gestão responsável dos recursos financeiros, tanto dos nossos, que viajamos, quanto dos daquelas comunidades que nos recebem.

Optar por acomodações geridas por locais, usar transportes públicos ou partilhados e procurar experiências gratuitas ou de baixo custo são alguns exemplos de escolhas inteligentes. São gestos que, além de evitarem despesas desnecessárias, ajudam a redistribuir os benefícios económicos de forma mais justa.

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Neste aspecto, é essencial termos algum cuidado no planeamento da viagem: evitar épocas de alta procura pode significar preços mais acessíveis e uma experiência mais tranquila, com a possibilidade de interacções mais genuínas. Viagens conscientes também desafiam a ideia de que os destinos famosos são necessariamente os melhores. Muitos lugares menos conhecidos oferecem vivências igualmente recompensadoras e até mais interessantes, a um custo menor.

 

Turismo cultural e educacional: enriquecer o espírito

Uma viagem não é apenas uma deslocação física e geográfica; é sobretudo (pelo menos para mim) um convite à transformação pessoal. O turismo cultural e educacional procura oferecer experiências que ampliem horizontes, seja através da aprendizagem de uma nova língua, da participação em oficinas de artesanato ou da visita a museus e monumentos históricos – isto só para citar algumas possibilidades atractivas.

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Estes momentos não só nos tornam mais ricos, como também reforçam a importância de preservarmos o património cultural para gerações futuras. E, mais ainda, reforçam em nós o respeito pela diversidade cultural e podem ajudar-nos a desconstruir preconceitos.

Uma experiência educativa pode ser algo tão simples quanto participar numa vindima ou assistir a uma tradição religiosa. Estas vivências são muitas vezes mais autênticas e memoráveis do que uma fotografia tirada num ponto turístico cliché.

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Combater o excesso de turismo: procurar alternativas

O excesso de turismo (“overtourism”) é um dos grandes desafios da actualidade, e para combater este problema – ou pelo menos tentar não contribuir para ele – é essencial repensarmos os nossos comportamentos enquanto viajantes.

Escolher destinos alternativos é uma solução simples e eficaz. Procurar cidades menos famosas, lugares menos congestionados, ir àquele sítio que foi aconselhado por alguém que vive lá perto, em vez de saltar de spot “instagramável” para monumento hiper conhecido sem qualquer paragem pelo caminho.

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De cada vez que leio uma notícia sobre habitantes de uma cidade revoltados contra o excesso de turismo, ou vejo uma foto de um lugar onde as pessoas se acotovelam para tirar uma selfie, ou dou de caras com a foto de um sítio em que já estive e mal o reconheço, tal a quantidade de efeitos e filtros aplicados para ser mais apelativo às visualizações, não consigo deixar de reflectir em como o consumismo também já se instalou no acto de viajar. Será que precisamos mesmo de visitar todos os pontos turísticos de uma determinada cidade ou região, só porque são famosos? Será que é mesmo necessário ir aonde toda a gente vai? Se é para ser trendy, então porque não substituir o FOMO (“fear of missing out”) pela JOMO (“joy of missing out”)? (Os puristas da língua portuguesa que me desculpem tanta expressão inglesa, mas o português não é célere a adaptar-se à profusão de novidades linguísticas…)

 

Um novo paradigma para viajar

Viajar é mais do que visitar lugares: é um privilégio, uma forma de vermos por nós próprios, sem interposta pessoa, o que se passa para lá dos muros do nosso quintal, e uma oportunidade para crescermos como seres humanos e como cidadãos – ou, como tantas vezes digo, uma maneira de afastar as palas dos olhos. No entanto, este privilégio vem com responsabilidades. Ao adoptarmos formas de viajar que fogem da corrente dominante, que são mais pensadas, não estamos apenas em busca de viagens mais satisfatórias para nós. Estamos a cuidar do planeta e a construir um futuro mais justo e inclusivo para todos. Viajar menos ou de outra maneira, mas melhor, pode ser a resposta para um turismo mais consciente e justificável. A escolha está nas nossas mãos.

 

Leitura aconselhada:

 

Livro The New Tourist.jpg

Bilhete-postal do fim do mundo: Ushuaia


Ana CB,

Foi com um sorriso aberto e um “Hola chicas!” que Ada nos abriu a porta do Los Calafates B&B, que gere com o filho Hernán. A quase 12 mil quilómetros de distância de Portugal e depois de várias horas de viagem desde Buenos Aires – autocarro, avião, táxi – esta recepção calorosa e familiar fez-me sentir como se chegasse a casa. O frio patagónico ficava lá fora e o fim do mundo já não me parecia assim tão distante do nosso rectângulo do outro lado do Atlântico. Intuindo que estaríamos cansadas, Ada não nos maçou com grandes pormenores e deixou para mais tarde os protocolos burocráticos habituais: deu algumas informações básicas e levou-nos de imediato ao nosso quarto. Uma amostra da informalidade e simpatia que iria ser o mote quase generalizado dos dias que passámos em Ushuaia.

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Conquistada pelo estômago e pela simpatia

Na Primavera austral o céu mantém-se claro até tarde, o que ajudou a ajustar o nosso relógio interno para as 4 horas de diferença daquelas longitudes. Se estivéssemos por cá, jantar quase à uma da manhã seria inconcebível para nós. Só que em Ushuaia ainda não eram 10 da noite, e o almoço já era uma vaga recordação. A pizaria Dieguito – uma sugestão da nossa anfitriã – estava à cunha, mas assim que entrámos o dono saudou-nos com uma alegria tal que parecia que nos conhecia há anos. De imediato arranjou uma mesa para as “chicas”, e enquanto nos acomodou bombardeou-nos com as habituais perguntas de quem percebe que está a receber forasteiros de terras longínquas – o que, de resto, em Ushuaia não é difícil, atendendo a que a cidade está distante de tudo, mesmo se só pensarmos na Argentina. Suspeito também que o nosso espanhol mal-amanhado e com sotaque europeu tenha contribuído para essa conclusão…

 

A atmosfera estava tão abafada que tivemos de ficar só de t-shirt – tal como toda a gente, de resto. Tirando o calor quase excessivo, o ambiente podia ser o de uma cervejaria portuguesa sem pretensões. Mesas e cadeiras simples, de madeira escura envernizada; caixas de cerveja local (com a marca “Beagle”, como o canal que banha a cidade) empilhadas a um canto; paredes e tecto com fotografias várias, cartazes e t-shirts de clubes de futebol, a condizer com o jogo que passava no ecrã de televisão, e uns quantos troféus expostos sobre uma estante. No meio da aparente agitação, a comida foi servida rapidamente, estava saborosa, e o serviço esbanjou simpatia.

Gostámos tanto que no dia seguinte voltámos lá ao almoço, desta vez para provar aquele que é um dos petiscos gastronómicos mais populares em toda a Argentina: as empanadas. Receita herdada da colonização espanhola, no século XVI, foram adaptadas aos ingredientes locais, e cada província da Argentina desenvolveu sua própria fórmula, criando uma variedade infindável de recheios e formas de preparação. A empanada tornou-se especialmente popular entre os trabalhadores rurais, pois era fácil de transportar e consumir em qualquer lugar. Embora parentes das empadas ibéricas, as argentinas são maiores e de formato semicircular ou oval. Têm geralmente uma massa mais fina e flexível, e mais recheio, o que as torna menos pesadas e muito ao meu gosto. Em Ushuaia, as do Dieguito são assadas no forno de barro onde cozinham as pizas e entraram directamente para a lista das minhas delícias favoritas no mundo, seguidas de perto pelas de marisco do quase vizinho restaurante Doña Lupita.

 

Entre a montanha e o mar

Na língua do povo yámane (ou yagán), que habitou a parte sul da Terra do Fogo durante mais de 10 mil anos, Ushuaia significa “baía ao fundo”. Para mim, o nome soava-me a vastidão do mar, vento agreste e solidão, mas não podia estar mais enganada. Quando a vi de longe, Ushuaia pareceu-me uma pequena cidade alpina, encaixada entre as montanhas pintadas de branco e a água parada do Canal Beagle. Mais perto, apercebi-me da cacofonia arquitectónica generalizada, como se tivessem decidido fazer dela um mostruário de todos os tipos de edifícios que é possível construir, em todos os estilos e com todos os materiais. Há de tudo, desde o modernismo geométrico com betão e vidro ao utilitário nórdico de chapa ondulada, passando pelos chalés em madeira e os prédios “pintados” de pedra ou tijolo, iguais a tantos outros que vemos por aí.

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Na zona mais plana e movimentada da cidade, as ruas formam um quadriculado perfeito, que se vai deformando à medida que a área urbanizada se afasta do mar e trepa pela encosta. A amálgama de estilos contagiou o comércio e abundam os letreiros com letras garrafais e os anúncios garridos, entre o folclórico e o kitsch, aqui e ali uma loja mais sóbria ou um café com uma decoração mais clean. É a Europa nórdica desconjuntada pelo “jogo de cintura” sul-americano e apimentada pelo sangue quente da herança espanhola. Ushuaia pode estar no fim do mundo, mas a verdade é que vivem ali quase 80 mil almas, número que engrossa substancialmente durante os meses da época alta do turismo.

A avenida que acompanha a curvatura da baía ao longo da cidade é rota de passeio agradável, mesmo sob um céu a ameaçar chuva. Não é que haja muito para ver… Deixando para trás as casinhas dos operadores turísticos e os nada atraentes barracões e contentores armazenados no porto, sobra a vista sobre o Onashaga (o nome do Canal Beagle na língua nativa), imperturbável como um lago, mimetizando a cor cinza da atmosfera. Há veleiros de recreio espalhados pela baía, entre outras embarcações coloridas, e um navio de cruzeiro mais ao fundo. Encostado a uma espécie de dique de cascalho, meio adernado, o rebocador Saint Christopher já viu melhores dias, e parece recordar com nostalgia a sua época de glória, quando se chamava HMS Justice e participou no Dia “D” da Segunda Grande Guerra, desembarcando tropas aliadas na Normandia. Abandonado há quase 70 anos após uma avaria, já faz parte da paisagem, e em todo este tempo a cidade decerto mudou muito mais do que ele.

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Para lá da água, estendem-se até ao infinito montanhas negras marcadas por dedos de neve, cumes brancos entrelaçados num manto de nuvens baixas. São uma bela moldura e por isso, turismo oblige, a palavra Ushuaia em letras garrafais não podia faltar, completando o enquadramento ideal para as fotos da praxe.

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Uma via pedestre de cimento pintado com formas coloridas encaminha-nos para o local a que chamam Paseo de los Antiguos Pobladores. Estão ali algumas das construções mais antigas da cidade, agora convertidas em espaços culturais e institucionais. A Casa Pena, pintada de amarelo e verde, é hoje o Museu da Cidade, onde uma exposição etnográfica conta a história de Ushuaia desde a sua origem. Na Casa Torres foi instalado o museu “Pensar Malvinas”, que expõe informação sobre a guerra que, em 1982, agitou a opinião pública em todo o mundo e terminou com o Reino Unido a manter a soberania (detida desde 1833) sobre o arquipélago do Atlântico Sul, situado perto da costa argentina, a que os britânicos chamam Falklands. A Câmara de Turismo da Terra do Fogo funciona na discreta e bonita Casa de Lisardo García, revestida de chapa ondulada cinzenta embelezada com madeiras pintadas de branco. Mas o edifício que mais chama a atenção, pela sua arquitectura extravagante, é a antiga Casa Bebán, que agora é centro cultural e de exposições. Num arroubo de excentricidade, o primeiro dono, Tomás Bebán, mandou vir da Suécia toda a estrutura da sua futura casa de família, cuja montagem ficou terminada em 1913.

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Depois há que ir ao melhor miradouro da cidade, o Paseo del Centenario. Uma escadaria moderna, com formato irregular e vários pontos de paragem, coroada por um monumento que homenageia as várias correntes migratórias que deram origem a Ushuaia. Renovado em 2021, e apesar do pedido de cuidado feito pelo Intendente Walter Vuoto aquando da reinauguração, já apresenta infelizmente alguns sinais do vandalismo que desfigura, cada vez mais, as zonas urbanas: tags (a que incorrectamente é hábito chamar grafitis) pulverizadas sobre as “espigas” de cimento que fazem parte da estrutura da escadaria. Nem as terras do fim do mundo escapam à falta de civismo e de respeito, e só mesmo a vastidão e serenidade da paisagem que se nos oferece a partir do miradouro conseguiu apaziguar o meu espírito.

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De presídio a museu

Mesmo depois da passagem de Fernão de Magalhães pela região, a Terra do Fogo permaneceu pouco atractiva para os colonizadores europeus. Só na segunda metade do século XIX é que um pequeno grupo de missionários britânicos decidiu fundar na ilha a primeira povoação permanente, a que chamaram Ushuaia. Terminadas as guerras pela independência, a Argentina decidiu estender-se para sul e lançou a Campanha do Deserto, de que resultou o quase extermínio dos povos indígenas que habitavam a Patagónia e a Terra do Fogo. Como tentativa de consolidar a posse da região, o presidente argentino determinou que fosse criado em Ushuaia um presídio para criminosos reincidentes e prisioneiros políticos, cujo trabalho seria criar as infra-estruturas de uma cidade e apoiar os colonos que ali quisessem instalar-se.

 

Os primeiros presidiários chegaram em 1896, e em 1920 o Presídio já contava com cinco pavilhões, 380 celas onde chegaram a estar alojados 600 reclusos. Foi encerrado em 1947, passando para o domínio da Armada Argentina e a ser usado como armazém. Durante a Segunda Guerra Mundial, desempenhou um papel importante como base de abastecimento para as forças aliadas que operavam na Antárctida. Depois de desmilitarizado, abriu em 1995 como museu. O edifício principal tem cinco alas radiais que convergem para um pátio central coberto. Cada ala tem dois pisos, por onde se espalham os vários espaços expositivos diferentes que englobam o Museu Marítimo de Ushuaia, o Museu do Presídio, o Museu Antárctico, o Museu de Arte Marinha e uma galeria de arte.

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Conhecida como a prisão do “Fim do Mundo”, os prisioneiros enviados para esta zona remota da Terra do Fogo eram homens que a sociedade queria esquecer, e o local não poderia ser mais adequado para este fim. Num lugar tão inóspito e afastado de tudo, de pouco adiantaria tentarem fugir. As duras condições de vida, o clima extremo e a localização remota tornaram-na numa das prisões mais difíceis do mundo. Caminhar pelos corredores gélidos, entre celas pequenas e sombrias, dá-nos uma (pese embora muito vaga) ideia da austeridade da vida aqui. A arquitectura é funcional, sem ornamentos, um reflexo claro do propósito do presídio: conter, não confortar.

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Várias celas têm “bonecos” dos presos mais famosos que aqui estiveram, outras são representativas das condições em que os prisioneiros viviam. Colchões finos, paredes frias, e uma luz que entra apenas por pequenas janelas relembram que este lugar foi, muitas vezes, sinónimo de sofrimento.

Os detidos eram obrigados a executar trabalhos duros. Os mais perigosos tratavam da limpeza e manutenção do edifício, enquanto os que tinham melhor comportamento saíam para trabalhar fora de portas. Enfrentavam não só as condições precárias da prisão, mas também o clima severo de Ushuaia, com ventos cortantes e temperaturas que raramente eram amigáveis. De certa forma, Ushuaia deve muito da sua fundação a estes homens. Foram eles que construíram as infra-estruturas da cidade – ruas, edifícios, instalação da electricidade e do telefone. Eram bombeiros, construíram a primeira prensa tipográfica, e eram também lenhadores.

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A lenha era matéria abundante nas densas florestas da região, e essencial para aquecer as casas e manter a cidade a funcionar naquele que é um dos climas mais frios do planeta. Para transportar a madeira até à cidade, foi construída em 1913, pelos próprios prisioneiros, uma linha férrea estreita. Chegou a atingir uma extensão de 25 km, dividindo-se em dois ramais em direcção ao que é hoje o Parque Nacional. Era conhecido como “o comboio dos presos”, e o que resta da linha férrea é hoje em dia uma atracção turística. Partindo da Estação do Fim do Mundo, situada a 8 km do centro da cidade, os turistas são transportados em vagões de madeira que evocam o passado, puxados por locomotivas a vapor. A bordo, um narrador conta a história do presídio e dos prisioneiros, enquanto a composição avança entre a floresta nativa, num percurso de 7 km que termina à entrada do Parque Nacional Tierra del Fuego.

Os restantes museus do complexo são interessantes, embora algo fastidiosos. Entre maquetes de embarcações, fotos antigas, documentos, objectos e recriações de vários tipos, há todo um mundo de informação sobre a história e a vida no extremo austral da Patagónia argentina, incluindo a região antárctica. Mas o Museu do Presídio foi mesmo o que mais me interessou e impressionou, sobretudo a ala que está mais “arruinada”, e portanto mais se assemelha ao aspecto que teria quando era uma prisão. Visitá-la é um misto de fascínio e melancolia. Não podemos deixar de pensar na brutalidade da vida no início do século XX e no que isso significava para aqueles homens. Ao mesmo tempo, o museu é um testemunho da capacidade humana de se adaptar, resistir e, em alguns casos, redimir-se.

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Encontros não imediatos com pinguins

Uma das razões pelas quais Ushuaia é tão famosa é o facto de ser o porto de onde saem os cruzeiros para a Antárctida. Outra é por oferecer a possibilidade de um passeio no Canal Beagle com passagem pela Isla Martillo e pela Estancia Harberton (estancia é o nome que aqui dão às grandes propriedades agrícolas). No nosso terceiro dia nas terras do fim do mundo, os deuses estavam bem-dispostos e, depois de uma véspera e madrugada cinzentas, brindaram-nos com um sábado de sol esplendoroso, que levou os ushuaienses a encherem a Playa Larga – uma faixa comprida de areia terrosa meia dúzia de quilómetros a leste da cidade – e ofereceu, a mim e muitos outros, um passeio tranquilo pelo Canal.

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Foi por aqui que passou, em finais de Janeiro de 1833, o navio britânico HMS Beagle, comandado por Robert FitzRoy e levando a bordo um jovem Charles Darwin, na viagem exploratória em que o naturalista colheu as primeiras informações que serviram de base à sua teoria da evolução das espécies. Com propósito bem menos ambicioso, o catamarã Ushuaia Explorer passeou-nos durante cinco horas pelo azul reluzente do Canal Beagle, com os olhos postos nas margens orladas de árvores e nos cumes nevados dos cerros.

A cidade foi ficando mais e mais pequena, enquadrada pelo Glaciar Martial e pelas montanhas Olivia e Cinco Hermanos, e cedeu o protagonismo às ilhas e seus habitantes: os corvos-marinhos da Isla de Los Pájaros; a numerosa colónia de leões-marinhos da Isla de Los Lobos, com a sua pelagem cinza-acastanhada quase camuflada pelas rochas onde preguiçam ao sol; e o já centenário Farol Les Éclaireurs, as suas riscas contrastando com o ambiente cerúleo. Com 11 metros de altura e 3 de diâmetro, revestido de mosaicos brancos e vermelhos, a sua luz vê-se à distância de 13 km. Funciona desde 1920, e há quem lhe chame o Farol do Fim do Mundo – daqui até à Antárctida são apenas cerca de 1100 km.

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O Canal Beagle é também linha de fronteira entre a Argentina e o Chile, e no percurso passa-se ao largo daquela que é verdadeiramente a localidade mais meridional do continente americano: Puerto Williams, na ilha Navarino, em território chileno. Com cerca de 1800 habitantes, foi aqui que viveram os últimos descendentes puros dos Yagánes, o povo indígena que habitou a Terra do Fogo durante mais de 10 mil anos. A última yagán pura, Cristina Calderón Harban, faleceu em Fevereiro de 2022 vítima de complicações associadas à COVID-19. Tinha 93 anos e era também a única falante nativa da língua yagán.

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Mas as estrelas maiores deste passeio de barco são os pinguins da Isla Martillo, informalmente conhecida como Pingüinera. A ilha é local de nidificação de três espécies de pinguins: o pinguim-de Magalhães (Spheniscus magellanicus), o pinguim-gentoo (Pygoscelis papua) ou pinguim-de-sobrancelha-branca, e o pinguim-rei (Aptenodytes patagonicus). Como a ilha é uma reserva natural, apenas é permitido o desembarque a um número muito reduzido de pessoas em cada dia. Estes passeios, em que é possível andar perto dos animais, são obrigatoriamente feitos com um guia oficial. Só um operador os disponibiliza, e têm um custo bastante mais elevado. Nos tours mais comuns, as embarcações apenas se aproximam da praia, para nos permitir ver a colónia onde nidificam. Seja como for, observar estas aves no seu habitat natural, mesmo que de longe, é entretenimento garantido, de tão patuscos que são quando se movimentam em terra. Em contraste, quando decidem atirar-se à água tornam-se velozes como torpedos, que a captura de comida é coisa séria, mais ainda se tiverem filhotes para alimentar. Neles como em nós, a sobrevivência obriga a aguçar certas capacidades.

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Natureza selvagem

A ligação de Ushuaia com Buenos Aires por via terrestre é feita pela Ruta 3, o trecho mais a sul da Rodovia Panamericana (a estrada mais longa que é possível percorrer de carro à superfície da Terra, num total de 17.848 km). A Ruta 3 atravessa a parte norte da cidade e termina 18 km a oeste, nas margens da Baía Lapataia, já nos domínios do Parque Nacional Tierra del Fuego. Foi este o destino do nosso último dia na Terra do Fogo argentina, à distância de uma mera meia hora de autocarro.

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A primeira paragem do trajecto é no início do Parque, perto do pontão onde se encontra o Correio do Fim do Mundo, uma improvisada estação de correios/loja feita de madeira e chapa ondulada que alguém teve a ideia de rentabilizar turisticamente como o último local antes da Antárctida de onde é possível enviar correspondência, e por isso ponto obrigatório de visita para muita gente. Fica na margem da Baía Ensenada Zaratiegui, de onde parte um dos trilhos mais populares do Parque, a Senda Costera – que, no entanto, decidimos ignorar para seguirmos até à última paragem, junto à Baía Lapataia, o ponto mais austral do planeta que pode ser atingido por via rodoviária. Na língua dos Yagánes, o nome deste braço do Canal Beagle significa “baía das florestas”, e foi a partir daqui que explorámos vários percursos de caminhada na área mais perto da fronteira chilena.

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O Parque Nacional Tierra del Fuego é a área protegida mais austral da Argentina. Estabelecido em 1960, abrange um território com cerca de 63 mil hectares, dos quais apenas 2 mil estão abertos ao público. Conjuga ambientes de montanha, de floresta andino-patagónica e aquáticos, numa grande diversidade de cenários, todos eles maravilhosos. A entrada é paga e permite o acesso ao Centro de Visitantes Alakush (que disponibiliza informações sobre o parque e uma exposição cultural e histórica), a lugares para acampar, e a quinze trilhos pedestres, desde os mais curtos e fáceis aos mais exigentes, que demoram várias horas a percorrer.

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A paisagem do Parque é marcada por uma mistura de florestas de lenga (Nothofagus pumilio) e ñire (Nothofagus antarctica) – duas espécies de árvores típicas da Patagónia – e por amplas turfeiras, além de rios e lagos como o Lago Acigami (ou Roca) e o Lago Fagnano. A flora é diversa e adaptada às condições extremas do clima, com temperaturas baixas e ventos intensos. As turfeiras desempenham um papel crucial no armazenamento de carbono e na regulação ambiental, mas são sensíveis às mudanças climáticas e ao impacto humano.

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A fauna é variada e os “encontros imediatos” com animais são frequentes. Inclui espécies como o guanaco, a raposa-cinzenta e o castor canadense – um invasor introduzido no século XX, cuja construção de represas danifica ecossistemas e se tornou uma ameaça às florestas locais. É também habitat natural de várias aves, como o ximango (ave da família dos falconídeos), o pato-de-crista e o albatroz. A ave mais abundante é o ganso-de-magalhães (Chloephaga picta), que encontramos um pouco por todo o lado e foi, por isso mesmo, escolhido para símbolo do Parque.

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Para quem gosta de acampar em lugares pouco transformados pela mão humana e com trilhos que proporcionam caminhadas e vistas fantásticas, o Parque Nacional Tierra del Fuego é um paraíso. Um dos espaços destinado aos campistas fica junto à Laguna Verde, um belo recanto formado pelas curvas do rio Lapataia. O nome, como é fácil de ver, vem da cor da sua água. Com o Cerro Guanaco como pano de fundo, é um dos sítios mais populares do Parque, sobretudo pela sua acessibilidade. As comodidades de apoio aos campistas são básicas, mas o ambiente à volta compensa tudo.

À tarde, antes do regresso à cidade, piquenicámos nas margens do Lago Acigami, com vista para os cerros que se erguem já em território chileno, para lá de uma fronteira invisível a que a natureza se mostra alheia – tanto a superfície tranquila das águas do lago como as árvores e montanhas que o rodeiam se mantêm imperturbáveis, indiferentes ao facto de pertencerem a um país ou a outro. A grandiosidade do mundo natural não se preocupa com estas minudências humanas, pese embora sofra com os resultados dos muitos atentados de que é alvo da nossa parte.

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Tal como tantos outros lugares do planeta, o Parque Nacional Tierra del Fuego enfrenta desafios ambientais significativos. As alterações climáticas também ameaçam a biodiversidade da região, ao afectarem o equilíbrio das turfeiras e alterarem os padrões de precipitação e temperatura. Além disso, a pressão turística é crescente, e exige uma gestão cuidadosa para minimizar o impacto humano nestes frágeis ecossistemas. A harmonia entre o turismo responsável e a preservação ambiental é essencial para garantir que este tesouro natural vai continuar a existir e a ser usufruído pelas gerações vindouras.

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(Post já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

 

Um banco com vista: Caneiras


Ana CB,

Manhã quente de Verão. O rio leva pouca água. Aqui e ali nota-se a sombra clara da areia por baixo do azul líquido, ou revela-se um tronco preso no leito, que a fraca corrente não consegue arrastar; até os mouchões mais rasos estão visíveis e pujantes de erva verde. Sob a copa larga de um salgueiro, o banco de madeira sem encosto é repousa-pés ideal para quem precisa de matar o tempo até à hora de almoço, pese embora o assento escolhido não seja o banco mas sim uma cadeira de campismo. É domingo, e para quem aqui vive pouco mais haverá para fazer do que contemplar a paisagem e aproveitar a sombra para fugir do calor.

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O rio é o Tejo e ao lugar deram-lhe o nome de Caneiras. Fica a uns curtos cinco quilómetros a sul de Santarém e é o aglomerado sobrevivente e ampliado da aldeia avieira ali fundada há mais de um século. O assentamento original terá sido destruído pelas cheias de 1941, e grande parte das construções que vemos hoje também já sofreram a adulteração intrínseca à “modernidade”; mas ainda se notam muitas características das antigas casas avieiras, e continua a ser habitada por alguns pescadores que não desistem do seu modo de vida: sair para o rio em busca da fataça (tainha), do sável ou da quase desaparecida lampreia.

 

Os nómadas do rio Tejo

 

Não há datas certas, mas estima-se que foi a partir de meados do século XIX (e sobretudo na primeira metade do século XX) que famílias de pescadores da zona de Vieira de Leiria começaram a deslocar-se para as áreas ribeirinhas do Tejo entre Abrantes e a Póvoa de Santa Iria, fugindo aos rigores do Inverno que não lhes permitia procurarem o seu sustento no mar. Trocavam os barcos de mar que usavam na arte xávega por embarcações de traça semelhante, mas bastante mais pequenas – as bateiras, a que os avieiros chamam simplesmente “barco” – fazendo delas a sua casa temporária. Era na bateira que pescavam, comiam e dormiam, usando um simples toldo para se abrigarem. O homem lançava as redes e a mulher remava, além de organizar toda a vida da família e ir vender o peixe às localidades vizinhas, transpondo para o ambiente do Tejo os papéis que cada um desempenhava na sua terra de origem. Era também na bateira que os filhos iam sendo criados e aprendiam as lides da pesca de rio, que lhes garantiria a sobrevivência no futuro, num tempo em que a vida era muito diferente. A embarcação é de tal modo característica e assumiu uma (óbvia) importância tão grande para estas comunidades que, em 2016, a sua construção e uso foram inscritos no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, com a indicação da necessidade de salvaguarda urgente.

Inicialmente, estas deslocações eram sazonais, e os pescadores voltavam à Praia da Vieira quando o tempo melhorava. Com o crescimento da família e o cansaço dessas idas e vindas, e porque o Tejo (e também o Sado) lhes proporcionavam peixe o ano inteiro, acabaram por se ir fixando nas margens destes rios – primeiro em simples palhotas feitas de caniço, que crescia à beira de água e era material leve e fácil de encontrar, e depois em casas de madeira, assentes sobre estacas, para evitarem ser inundadas quando o rio transbordava as suas margens. Nasciam as aldeias avieiras (de que já falei no meu blogue).

 

A aldeia das Caneiras

 

A partir dos trabalhos de levantamento feitos até à data, foram identificados cerca de 40 assentamentos de avieiros nas margens do Tejo, a maioria deles já desaparecidos ou completamente em ruínas, como é o caso do Patacão, perto de Alpiarça, que tem dois núcleos ainda visíveis mas já em rápido declínio, apesar das tentativas de preservação que foram feitas até há alguns anos. Entre as aldeias que sobrevivem contam-se o Escaroupim, assumido como ex libris turístico da cultura avieira, Porto da Palha (Lezirão) e Palhota, esta última trazida para a ribalta no romance “Avieiros”, de Alves Redol. O aldeamento das Caneiras, talvez por estar muito perto de Santarém, também tem resistido ao desaparecimento, pese embora a descaracterização e a construção desregulada das últimas décadas.

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A aldeia é um rectângulo com uma espécie de rua principal que desemboca em nenhures, encaixada entre o rio e a estrada de acesso ao mundo exterior. É ao longo desta estrada que se vêem as construções mais modernas, moradias concebidas com mais ou menos gosto, rodeadas de hortas e pequenos pomares. O núcleo mais antigo das Caneiras está bem escondido por trás destas casas vulgares, e até parece que o espírito recatado e quase impenetrável dos antigos pescadores ainda paira por ali – as comunidades avieiras eram muito fechadas, assentes no núcleo familiar e segregadas tanto por vontade própria como por animosidade da população rural, mantendo ao longo dos tempos algum secretismo sobre o seu modo de vida e as suas artes piscatórias.

 

A miscelânea arquitectónica das Caneiras tem tanto de surpreendente como de fascinante. As antigas palhotas palafíticas têm vindo a ser transformadas cada uma à sua maneira. Nas que ainda permanecem elevadas em relação ao solo, as estacas de madeira foram substituídas por pilares de alvenaria. As tradicionais varandas de acesso ao piso superior já quase desapareceram, e poucas construções as mantêm – a maioria das pessoas prefere espaço interior em detrimento do espaço de socialização, uma das funções principais das varandas das casas avieiras. A madeira ainda está bastante presente, em versões de cor escura e variados estados de conservação; são, para mim, as construções mais bonitas da aldeia, algumas realçadas com pormenores em branco ou cores vivas. É nelas que se notam os pontos de contacto com as casas típicas da região de origem dos avieiros, sobretudo as da Praia da Tocha e, mais tenuemente, as da Costa Nova.

Não faltam também os atentados arquitectónicos ao carácter original da aldeia, em que a alvenaria substituiu os materiais anteriormente utilizados, a ponto de agora não passarem de vulgares paralelepípedos com telhado, quase sempre pintados de branco e com as faixas azuis ou amarelas que voltaram a ser, em tempos recentes, populares na construção que se quer fazer parecer tradicional, mesmo quando completamente deslocadas do contexto. Deste mal enferma igualmente a Capela dedicada ao Sagrado Coração de Maria, um edifício desenxabido cuja única desculpa talvez seja o facto de datar de 2006 (embora tenha ares de reconversão de algum edifício anterior).

Num arroubo de imaginação e quiçá influência forasteira, alguém resolveu forrar o exterior de uma das casas com chapa ondulada e juntar-lhe um pormenor americanizado. Não é que seja feio – é só descabido. Prefiro a tinta a descascar e o telhado arqueado de uma outra casa, com a sua chaminé periclitante (as chaminés também são um acrescento moderno nas casas avieiras).

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Na rua principal há também um banco, mas este não tem nada a ver com o da beira-rio. É tosco e torto, tal como o casinhoto que está ao lado, uma espécie de telheiro abrigado para acumular tralhas diversas. Tento imaginar o que terá levado alguém a colocá-lo ali. Talvez para apanhar sol nos dias frios de Inverno? Para conversar com quem passa? Alguém que não tinha nada para fazer e decidiu construí-lo? As questões ficam sem resposta, porque por aqueles lados não se vê vivalma.

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Ao entrar numa espécie de beco, surge a casa que de imediato elejo como o supra-sumo do kitsch da aldeia. Uma manta de retalhos com metade em madeira escura e a outra em chapa ondulada, o rés-do-chão pintado de azul Chefchaouen, aparelho de climatização e antena parabólica bem visíveis, à mistura com cabos vários, uns trepando pelas paredes, outros cruzando o ar. Ao pé da porta, mais um banco de jardim, este bem harmonioso, em madeira e ferro forjado, tendo por companhia duas cadeiras plásticas rosa-bombom saídas directamente do mundo da Barbie. Com os seus anacronismos, parece-me ilustrar bem o espírito geral desta aldeia que tem crescido ao sabor do acaso, um pé na tradição e preservação cultural e outro na vontade de se modernizar.

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De volta ao carro, passo outra vez pela área junto ao rio, que se nota ter sido alvo de arranjo há não muitos anos: deck amplo em madeira, delimitado por postes baixos ligados com corda grossa, intercalados com painéis que exibem fotos da actividade piscatória dos avieiros. Árvores frondosas, bem cuidadas, e uma zona de merendas ao fundo, ao lado do parque de estacionamento. O banco foi abandonado, mas a cadeira de campismo colorida ainda lá está, sossegada, à espera do seu ocupante habitual. Tal como a aldeia, suspensa no limbo de decisões por tomar e herdeira de um passado que em breve será considerado obsoleto, decerto para dar lugar a mais um destino “típico” a explorar turisticamente.

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Fonte usada para pesquisa: http://www.e-atlasavieiro.org/

 

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