Barqueiros


Cristina Ferreira de Almeida,

A inserção escolar das crianças e jovens ciganos é um assunto muito complexo. O relatório aconselhado pelo antigo Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, Rui  Marques, no Facebook mostra que há outros lados que convém ouvir nesta questão. .: Agrupamento de Escolas Abel Varzim :.

Fonte: www.eb23-vila-seca.rcts.pt

 

Um dos factores que faz ruído na história de Barqueiros é a palavra contentor. Parece uma realidade terceiro-mundista mas, se pensar bem, concluo que passei parte de minha vida em contentores – primeiro, no contentor que a universidade destinou ao meu departamento e, depois, no contentor que acolheu durante muitos anos a redacção da estação de televisão onde trabalhei. Não é perfeito, mas garanto que, lá dentro, nem se pensa nisso. O problema não é certamente esse.

Algumas vozes de condenção à turma separada de Barqueiros não têm em conta que muitos pais não querem colocar os seus filhos pequenos numa turma com marmanjos de 18 anos que, em vez de História de Portugal e Geografia, estudam uma disciplina chamada Mundo Actual.  Mesmo a nível de aprendizagem, veja-se a experiência das Novas Oportunidades e o que dela pensam os professores que são obrigados a leccionar disciplinas do secundário a adultos para os retirar das estatísticas dos Centros de Emprego. Admito, no entanto, que a ideia seja simpática para quem tem os filhos no ensino privado e deixa para os outros – o povo – os custos da integração escolar dos adolescentes e adultos de etnia cigana.

Por fim, é preciso ter em conta que mesmo os ciganos não estão todos do mesmo lado da questão que é saber o tipo de ensino que pretendem. Como em relação a todos os assuntos que envolvem a sua etnia, há muitos que defendem a protecção e reconhecimento das singularidades que lhes é dada até pelas Nações Unidas e há muitos (e, sobretudo, muitas) que querem uma integração plena com direitos  e liberdades iguais. E daí, perguntará o leitor paciente. Nada, só acho que não podemos ter tantas certezas com base em indícios tão fúteis.

 

11 comentários em “Barqueiros”

  1. Em relação a Barqueiros, escrevi no memo sentido lá no CR.
    Já quanto às “Novas Oportunidades” devo dizer-te que tenho feito várias reportagens em CNO’s e que o balanço que me tem sido transmitido, por parte dos elementos que integram o processo ( técnicos de RVCC, formadores, professores e avaliadores) é positivo. Claro que nem todos respeitarão o grau de exigência que o sistema requer, mas isso é outra história. A ideia de facilitismo não corresponde à realidade que tenho encontrado.

  2. O sistema é muito complexo para explicar aqui, Cristina. É essa complexidade que pode provocar alguns “desvios”.
    De qualquer modo, devo dizer que antes de começar a fazer as reportagens e esmiuçar todo o sistema tinha a mesma ideia de facilitismo. Hoje, depois das reportagens que fiz em váris CNO’s ( e que continuo a fazer) tenho uma opinião bastante diferente.

    1. Também tinha essa ideia do facilitismo até ver como é e acho que há um grande mérito: trazer à escola pessoas que por razões várias não puderam concluir os estudos. Assisti a uma palestra no âmbito das Novas Oportunidades e foi muito gratificante ver a participação e o entusiasmo.

  3. Fantástico esclarecimento Cristina. Obrigada.
    Na altura em que soube desta notícia limitei-me a comentar o exemplo que se estava a dar, preocupada com iniciativas futuras. Ontem alguém com quem conversava, envolvido em processo semelhante, afirmava-me que se assim não for há muitas meninas ciganas que pura e simplesmente não vão à escola após os 10 anos de idade. A família não o permite.
    De facto, nada é simples e linear e a nossa “ocidental” maneira de pensar pode nem sempre ser a correcta.

  4. A palavra contentor também não me choca, no liceu que frequentei tive aulas numa cavalariça!!!
    As crianças ciganas que estão a começar a escola com seis a (digamos) dez anos, devem estar junto com as demais crianças.
    De pequenino é que se começa a fazer a integração, aprendendo a comportar-se e conviver em sociedade.
    As restantes crianças/jovens que estão em classes atrazadas, devem ter aulas separadas, de recuperação.
    Os jovens seja de que etnia ou raça forem, quando não conseguem acompanhar os estudos, deveriam ser encaminhados para um curso profissional, logo a partir dos 14 anos, acho que até teríamos muitas e boas surpresas!
    Em contentores ou cavalariças!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *