Cadáver esquisito (11)


José Gomes André,

1. UM LIVRO2. CA…… SARKIS G……..N3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA7. O MEDALHÃO8. O SEGREDO9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA

11

UMA VIAGEM

 

Valerya não lhe respondeu. Um pesado silêncio preenchia a sala, entre rostos cabisbaixos e esgares de incómodo. João Cosme esboçou um leve sorriso. Também ele estava surpreendido com aquela estranha revelação, a de um livro com uma data escrita aparentemente dez anos antes da sua publicação. Mas a primeira – a única – resposta que lhe ocorreu para tão invulgar mistério era tão simples quanto divertida. Talvez aquele número rabiscado tivesse sido de facto escrito em 1942. Nada de tão anormal assim, para um homem que durante anos devorara H.G. Wells, Sprague de Camp e Michael Moorcock. Que passara infindáveis tardes imaginando-se para lá dos limites do tempo, capaz de superar as barreiras da física e de conhecer outras realidades, outros homens, outros mundos. Porventura recuar até à época em que os seus dias não eram ainda turvos e o crepúsculo não teimava invadir os seus pensamentos.

1937 – disse em voz baixa Valerya, rompendo o silêncio da sala e cortando abruptamente a intempestiva reflexão de João Cosme.

 

(Este é o décimo primeiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Maria Gui Pimentel.)

8 comentários em “Cadáver esquisito (11)”

  1. Eheheheh. Isto está mesmo do além.
    Cosme, o fenómeno: era cego e passou a ver, era ignorante e virou literato… milagre de S. Delito!
    O que se seguirá? Zé Maria, descalça lá esta bota.

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