Calúnias anónimas não merecem palco televisivo


Pedro Correia,

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Em televisão abundam boas intenções que se esvanecem ao serem postas em prática. Exemplo: o Polígrafo da SIC, em complemento ao Jornal da Noite de segunda-feira. Começou em 2018 num blogue dinamizado por um núcleo de jornalistas apostados em separar o trigo do joio nesta era de desinformação acelerada. O blogue assumia vocação de jornal digital, com merecida visibilidade no circuito mediático. Faltava-lhe viabilidade comercial, alcançada quando a SIC interveio com a sua poderosa marca, firmando-se a partir daí uma parceria consistente.

Como acontece em muitos percursos, também este foi sofrendo uma deriva. Parte do crivo analítico do Polígrafo foi-se desviando da monitorização do conteúdo dos órgãos de informação clássicos – jornais, rádio e televisão, além do material produzido pela agência noticiosa estatal – para dedicar cada vez mais tempo e ocupar cada vez mais espaço ao que é soltado nas chamadas redes sociais. Dir-se-ia que em obediência ao mote “tudo quanto vem à rede é peixe”.

Nada mais incorrecto. Boa parte das bacoradas que por aí circulam não merece sequer um segundo de análise ponderada, sob pena de invertermos prioridades e concedermos tempo de antena ao analfabetismo mais galopante, sob o rótulo da denúncia.

Um erro factual em manchete na chamada imprensa de referência, com assinatura reconhecida, não deve colocar-se em plano similar ao da contra-informação alarmista ou do discurso de ódio que circulam nas plataformas digitais. Nem às delirantes teorias da conspiração que se propagam na massa informe da Rede, com recurso a perfis falsos.

Falar nisso, em horário nobre de televisão, é conceder aos autores anónimos de tais dislates uma projecção que jamais sonharam. E é incentivar outros a surgir em cena. Produzindo um efeito inverso ao da intenção que se proclama.

Assim a atoarda torna-se notícia. Este é um pecado que o Polígrafo vem cometendo com insistência.

 

Se não fosse a publicidade que a rubrica de segunda-feira lhe faz, muitos telespectadores não saberiam que uns quantos imbecis sem rosto nem nome andam a insinuar nas tais redes ditas “sociais” que Carlos Moedas vai cumprir uma emblemática promessa eleitoral – acesso gratuito dos mais jovens e dos mais idosos aos transportes públicos em Lisboa – com recurso a receitas do Orçamento do Estado.

Entende-se mal que o Polígrafo dê palco a tal gente. Tal como aos anónimos que, com linguagem insultuosa, juram aos gritos que só alemães e dinamarqueses pagam impostos mais elevados que nós. Já para não falar nos trolls robotizados, talvez paridos em Moscovo, que cospem torpes insídias contra o Presidente da Ucrânia, herói da resistência às atrocidades russas.

 

Eis a demonstração prática de como uma ideia louvável pode ficar desvirtuada quando sofre uma alteração de rota. No caso concreto, causa danos reputacionais ao Polígrafo, tão óbvios quanto desnecessários.

Calúnia anónima é lixo, seja por que meio for. E deve ser ignorada. Não merece outro tratamento em caso algum.

 

Texto publicado no semanário Novo.

50 comentários em “Calúnias anónimas não merecem palco televisivo”

  1. Só faltou ao polígrafo dizer que o PS chamou a troika para fazer a vontade ao PSD. São os dois culpados ! Portanto a deriva é coisa velha.

  2. 1 – Tal como muitos têm dito e avisado, a linguagem — e a «visualidade da evidência» apresentada como prova e demonstração de uma qualquer «verdade» ou «facto» –, tornaram-se incapazes de exprimir o nosso actual «desejo» (no sentido de Lacan) de ética, de moral e de justiça.
    2 – O Pedro Correia, e muitos de Nós, já vivem num novo mundo, quiçá dentro de uma nova mentalidade, já libertas dessa prisão da linguagem e da visibilidade (tal como referi nos comentários ao último Post da Cristina Torrão). E, apesar desse pós-status ser mais imaginado e utópico do que possível, nem por isso deixa de ser tão real e urgente (como o tom de protesto neste Post demonstra).
    3 – Uma coisa (“polígrafo”) ser o seu oposto (verdade/mentira), mesmo que a linguagem jure que a intenção é inversa, de facto, é a melhor prova daquilo que digo neste comentário. E dá total razão ao sentimento de revolta de Pedro Correia.

    1. Há quem viva o tempo todo numa realidade paralela. Os consumidores de notícias da Novosti e da TASS, por exemplo. E quem bebe a propaganda da RT.
      Neste caso com o risco de causar sérios danos ao fígado.

      1. Consumir RT ou CIA, não é exactamente o mesmo consumo?
        Não é o mesmo rebanho ou tribo, dos osciladores duais em permanente conflito dicotómico?
        Não sobrará nada ao mundo, que não seja esse desperdício da razão e do discernimento?
        Se calhar é essa tribo RT/CIA que causa a poluição e as nefastas alterações climáticas.
        Sei lá…

  3. As três notícias falsas apresentadas como exemplo são todas elas lixo. Mas somente uma delas é uma calúnia. Compreende-se pois mal a frase “Calúnia anónima é lixo” no fim do texto. Deveria em minha opinião ser “notícia falsa é lixo”.

  4. Muito bem.
    Ou muito mal, parece que a ideia é só para um lado das poligradelas.
    Nada contra Moedas e Zelenski, tudo por Moedas e por Zelenski.

  5. Em tempo de pandemias tudo é víral, até as notícias. Só que aqui o vírus é o da estupidez. Quanto mais parva for a notícia maior é o índice de transmissibilidade.
    As notícias agora não informam, alarmam, provocam o pânico, baralham as pessoas. O que interessa são as audiências, o “share”, os accionistas e o lucro, o resto são cantigas.
    Não olham a meios para atingir fins, vale tudo, agora que descobriram que podem dominar os povos através do medo, é um fartar de novas experiências.

    1. Mas o que é que vende mais e fica como verdadeira, a “Putin tem um cancro” ou “Zelenski é um judeu milionário” ?

      1. Em Moscovo a primeira dá direito a bilhete só de ida para a Sibéria.
        A segunda dá direito a três anos de assinatura gratuita do canal RT e de uma assinatura vitalícia da edição russa do Avante!

    2. A propósito de audiências: há já órgãos de informação que instituiram componentes variáveis dos salários dos jornalistas em função do número de cliques que as noricias deles gerarem.
      São quase sempre sobre temas “agradáveis”, acerca de coisas fofinhas, que não perturbem os leitores.

      1. É isso ou fazer como o José Milhazes. Andava o homem a comentar a guerra há tanto tempo como especialista e ninguém lhe ligava, até que disse um palavrão em directo, foi limpinho, as audiências dispararam logo.
        Se a moda pega, qualquer dia vamos ter o Fernando Rocha a comentar a guerra ou a dar o telejornal, quem sabe? Para mim já pouco falta.

        1. Não sei se esse tal Rocha viveu 39 anos em Moscovo, como o Milhazes.
          Tal seja menos qualificado para falar da Rússia. Mas possivelmente estará mais apto que ele a pronunciar-se sobre as rixas entre vizinhos em Alhos Vedros ou Fornos de Algodres.

        1. Muita coisa está a mudar rapidamente no jornalismo. E não necessariamente para melhor. E não apenas cá.
          Por exemplo, o sacrossanto ‘New York Times’ acaba de concluir que uma parte substancial dos seus assinantes digitais consome quase em exclusivo o chamado noticiário “suave” do jornal, sem ligar nada às noticias que costumam ter maior destaque. Coisas sobre animaizinhos, receitas culinárias, passeios de fim-de-semana, sugestões de restaurantes.
          Há já um debate interno nesse histórico diário, e noutros, sobre se deve ser dado aos leitores “aquilo que eles querem”. Mesmo correndo o risco de confundir desejos com a realidade.

          Em função disso, os títulos interrogativos – que nada explicam e funcionam apenas para atrair cliques – vão-se banalizando. E também algo que há poucos anos era proibido: os títulos com pontos de exclamação. Começam a proliferar para “ir ao encontro das emoções dos leitores”.

          Cliques, banalidade, irrelevância, gatinhos e cãezinhos e florzinhas, jonalismo ‘feelgood’… Nada complicado, nada que estimule muito o pensamento, nada que choque as sensibilidades delicadas.
          Este panorama jornalístico é o sonho de qualquer ditador. No futuro não haverá necessidade de instituir a censura institucional. Os mecanismos autocensórios dos órgãos de informação vão-se consolidando a passos largos. Preparando o terreno para o que irá seguir-se.

  6. Assim a atoarda torna-se notícia. Este é um pecado que o Polígrafo vem cometendo com insistência.
    Se fosse esse o único pecado…

    1. Um projecto que se destina a verificar factos dá palco a coisas anónimas que se dedicam a boatos, nunca a factos, e que não violam sequer o código deontológico jornalístico porque não têm qualquer código deontológico a cumprir.
      A partir daqui, está tudo errado.
      E a atoarda acaba mesmo por tornar-se notícia. Mesmo que seja com a alegada intenção de a desmentir.

  7. Nunca considerei o projecto Polígrafo, pré- e pós-SIC, especialmente interessante – afinal, de que trata o jornalismo se não de confirmação de factos? Mas qualquer credibilidade que pudesse ter desapareceu por completo perante o silêncio que dedicaram e dedicam ainda à absurda diatribe de José Gomes Ferreira na Antena 3 sobre Marte, indo buscar teorias de conspiração tão rebuscadas que fariam corar qualquer terraplanista. Já foi quase há um ano. Se querem fazer “fact-checking” com credibilidade, então comecem dentro de portas.

    1. Esquecer os erros cometidos em casa enquanto fazem de mestre-escola para outro meios não se adequa ao plano inicial.
      O ‘Polígrafo’ deixou de funcionar segundo o que havia anunciado a partir do momento em que se encaixou num dos principais grupos empresariais de comunicação social.
      Foi uma espécie de pecado original. Que perverteu o projecto.

      1. Mas ainda mais complicado, ou não, é o Poligrafo com uma notícia disto e daquilo e no final sai
        “e verificou-se que não era verdade”.
        Então se sabiam que não era verdade, para quê todo o sensacionalismo?

  8. 1 – Em suma, a bota de Putin esmaga a perdigota Ocidental.
    2 – Eles falam, falam, enchem livros de tanto falar; é sanções, é discursos, é entrevistas, é visitas a Kiev, é anúncios, é o envio de especialistas e armas, é imagens nas TV´s, é vídeos nas redes-sociais …
    3 – Mas toda essa perdigota Ocidental, de nada vale perante a bota de Putin.
    4 – Põe a bota em cima do território que quer conquistar, a cada dia que passa.
    5 – Põe a bota em cima de toda essa prosápia, esborrachando a perdigota Ocidental como se fosse uma bola volátil de sabão.

        1. Macron foi posto ali de castigo muito antes de Guterres. Faz parte da “hospitalidade russa”. Isso, mais o chazinho de polónio e a ogivazinha nuclear como ‘recuerdo’.

  9. Assim a atoarda torna-se notícia. Este é um pecado que o Polígrafo vem cometendo com insistência.

    Isto acontece porque o Polígrafo existe para defender António Costa e o regime — é esse o seu critério. As atoardas são seleccionadas com esse propósito específico e é por isso que vão investigar as “tiradas à taxista” que aparecem como ameaças à Paz Socialista.

    Se há uma Paz Russa, também há uma Paz do PS. Desmintam lá esta!

  10. O “verdade, mas…” é algo que não entendo, ou é verdade ou não é. Se alguém escrever que “a” foi para a cama com “b” é “verdade, mas” dado que ambos afirmam que não houve sexo

    Pedro Cunha

      1. “Factos”?
        Mas não é essa a grande mentira da «verdade positivista»?
        Não é, dessa grande mentira, que a Fenomenologia acusa o Positivismo?
        É, ou não é «verdade», que “nada é menos evidente do que a Evidência”? (F.Gil, “Tratado da Evidência”, INCM, Lisboa)

        1. Para quem vive numa realidade paralela, toda a verdade é relativa e todos os factos equivalem aos seus antónimos. Exs: Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, etc (Orwell).

          1. Orwell é um tosco. Um superficial, que não sabe pensar. É mais jornalista e propagandista do que outra coisa.
            1 – O pensamento por opostos não é irredutível? Logo, não é em vão tentar deduzi-lo?
            2 – “Como Platão sugeriu no “Sofista”, a categoria da «diferença» não é a forma embrionária da negação, pois, se estamos imersos num «contínuo», a cognição desse «contínuo» não começa com a binarização, pelo estabelecimento de rupturas e descontinuidades, pela oposição entre presença e ausência? “A negação – não-A – não é o grau zero da abstração”? (F.Gil, 2000, p.112).
            3 – Subjacente à tese de Parménides, a negação revela-se efectivamente «impossível». A negação do sentido descreveria não a necessidade (no caso da contradição), nem a possibilidade (no caso da contrariedade) de uma não-ocorrência, mas a impossibilidade de toda e qualquer ocorrência, o que – em linguagem parmenidiana – é rigorosamente «impensável», mas representaria a figura extrema da negação dita externa.” (F.Gil, 2000, “Conhecimento”, vol,41, Einaudi, p.127)
            4 – Como Wittgenstein escreveu, «p» e «não-p» podem dizer a mesma coisa, e a negação que intervém na proposição «não caracteriza por esse facto o seu sentido» (1921, 4.0621).
            5 – Aristóteles não indicou, há 25 séculos, as primeiras três grandes oposições (alto/baixo, frente/trás, direita/esquerda)?
            6 – Aristóteles na “Metafísica” ou Hegel na “Ciência Lógica”, entre outros, debruçaram-se sobre o «pensamento por opostos». Vemo-lo nos mitos e nas primeiras cosmologias dos Povos ditos sem-escrita (aquém/além); vemo-lo nas cosmogonias dos Povos da Indonésia (antes/depois); vemo-lo em Anaximandro (simples/composto); vemo-lo em Empédocles (concórdia/discórdia); vemo-lo em Parménides e Heraclito (permanência/mudança); vemo-lo em Aristóteles (uno/múltiplo; contínuo/descontínuo; homogéneo/heterogéneo; afirmação/negação); vemo-lo nos Sofistas (movimento/repouso); vemo-lo em Platão (mesmo/outro; ser/não-ser; união/desunião); vemo-lo na matemática (0/1; menos/mais); vemo-lo na Física (tudo/nada; visível/invisível; claro/escuro; matéria/anti-matéria; pequeno/grande), etc.
            7 – “Filogeneticamente, o pensamento por opostos e as consequentes opisições não são o resultado de um processo adaptativo”, quiçá darwiniano?
            8 – “Os nossos órgãos dos sentidos quando reconhecem regularidades não criam dicotomias e decidem entre dois opostos”? “Estes opostos não são estruturados pelo cérebro independentemente da nossa vontade (McCulloch, 1974, p.151)”?
            9 – Este «pensamento por opostos e as consequentes opisições» não são uma «memória» codificada no ADN – codificado naquilo que perpetra as proteínas e as moléculas que constroem o nosso corpo anatómico e sensorial?
            10 – Logo, remetidos a nós-próprios nesta impotência do nosso limite enquanto “humanos” sujeitos a uma cognição que não é capaz de ultrapassar a dicotomia, como poderemos fugir-lhe sem deixarmos de ser o que somos enquanto “seres-humanos”, sem deixarmos de ser um sistema desta ordem que ele é (no sentido de Russell, Wittgenstein ou Gödel)?

            1. 1 – Orwell criticava o totalitarismo e o autoritarismo da «ideologia Liberal», assente na globalização internacionalista, que provoca cada vez maior assimetria entre os 3% que detêm tanta riqueza como 90%, e que não olha às identidades e ao respeito pelos direitos dos mais fracos e desprotegidos.
              2 – A batalha é entre o «autoritarismo do Liberalismo globalista e selvagem» e o «autoritarismo do Estado» característico das democracias-sociais (China, Rússia, Suécia, Noruega, Índia, etc.) — um Estado defensor do interesse colectivo sobre a «lei liberal do mais forte».
              3 – A batalha é entre o Liberalismo e a Social-Democracia, entre a supremacia do privado ou a do público, entre a sobreposição do individual ao colectivo ou vice-versa, entre a vitória do Único ou a vitória do Múltiplo.
              4 – Tanto uma ideologia como a outra são, ambas, democráticas e autoritárias no modo como perseguem os seus propósitos.

  11. Viva. Em tese, tudo o que escreves é verdade, mas certamente mais de metade dos telespectadores viram esses (ou outros) ‘conteúdos’ nas redes sociais; ignorar essa realidade é desvalorizar o peso das redes sociais. muitas vezes são informações sem ‘dignidade’ para terem o tratamento que têm, mas é preciso fazer alguma coisa para combater a desinformação. Eu acho que o Polígrafo faz.

    1. São coisas diferentes, João Paulo. Se querem andar a garimpar nas redes sociais, isso é todo um novo projecto. Ponham-lhe outro nome. Nem devia ser “Polígrafo” pois as redes sociais não estão vinculadas a código deontológico algum e muito do que lá se publica visa a mentira e o boato, não a verdade.

      Meter isso à mistura com os meios de informação clássicos, sujeitos a código deontológico e à obrigação profissional de verificar factos, faz pouco ou nenhum sentido.
      É péssima pedagogia dar palco a quem não o merece – como este neo-assassino dos EUA, que viu o nome impresso e a foto divulgada nas primeiras páginas e no ‘primetime’ televisivo, como um herói das massas. Vai ter efeitos miméticos. Outros tresloucados anseiam ser “heróis” também assim.

      Tratando-se de redes sociais em que o anonimato impera, torna-se ainda mais inaceitável. E gera também efeitos miméticos.
      Espécie de linha vermelha que o ‘Polígrafo’ jamais deveria cruzar.

      Abraço.

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