O Pedro Correia citou ontem uma frase de António Costa que serve de mote à série de posts que comecei a escrever:
O País não pode andar de campanha em campanha eleitoral a discutir o carácter dos candidatos.
Não pode? Pode. Mas não sabemos se deve ou se daí resulta alguma vantagem para o agressor. Para respondermos a isto é preciso determinar em que diabo consiste, afinal, o ataque ao carácter de um político.
Em primeiro lugar é a reprovação de um comportamento privado — caso contrário, como bem lembra o Pedro, a agressão seria política.
E aqui, como a Europa não é a América, temos algumas questões resolvidas à partida: um político tem direito à reserva da sua vida privada desde que esta não interfira no poder. As velhas censuras a Sá Carneiro por causa da ligação com Snu Abecassis ou as alusões desastradas de Santana Lopes à escassa virilidade do actual primeiro-ministro engrossam a lista dos tesouros deprimentes recordados com embaraço por quem os testemunhou.
Outras regiões, no entanto, ainda hoje permanecem cinzentas: Sócrates foi julgado e condenado por opinion makers que glosaram à saciedade a licenciatura domingueira e os projectos de maisons concluídos no purgatório de uma ambição provinciana. A este respeito as opiniões dividem-se: os apoiantes do primeiro-ministro dizem que é pulhice recordar coisas antigas, mas muitos dos que agora se repugnam com o cerco a Cavaco Silva divertiram-se a valer. Em Portugal chama-se a isto coerência.
Ora, se as amantes e as pequenas trafulhices não impressionam a opinião pública, o mesmo não podemos dizer do dinheiro. Quando alguém se locupleta está o caldo entornado. A arraia-miúda permite tudo a um político — que fume drogas, que bata na mulher — excepto que enriqueça e, principalmente, que enriqueça os amigos.
De onde resulta que um ataque ao carácter, na política portuguesa, significa apenas chatear alguém porque se encheu, ou porque encheu os primos, os padrinhos, o cão e a cunhada sem sabermos como.
Estes ataques funcionam? Dão ou tiram votos? Já penso no assunto.


Em relação a essa fotografia so posso dizer, e depois de ler o livro de Clinton, que tudo foi feito para tramar o homem e que ele disse mesmo qe nao teve relaçoes sexuais com Monica Lewinsky, apenas lhe fez algumas caricias, como afirmou na sua biografia!
acho que estão de caracter so devem ser discutidos em caso de exercicio das funções publicas
Pois. Esta foto serve para ilustrar a ideia de que não estamos na América, onde as questões de carácter são totalmente diferentes no debate público.
Quanto ao resto já lá vou.
Estimulante, esta tua reflexão, Luís. A série promete.
Já fiz outro, Pedro. Como explico, não tenho opiniões muito formadas sobre o assunto. Os posts servem-me para formar opinião. Uma heresia blogosférica.
Fazes muito bem. Também me acontece, várias vezes.