Caso do dia


José Meireles Graça,

Entre divertido e pasmado, o país assistiu hoje a uma novela reles: um secretário de Estado, a mando do ministro Santos, lavrou um despacho que põe fim à querela de 50 anos sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, optando por uma solução que o PM não subscreve, ou talvez venha a subscrever se o “líder” da Oposição e o PR com ela vierem a concordar; o PM desautorizou o ministro e, em vez de despedir o subordinado, veio dizer que mandou anular o despacho e que se dá por satisfeito com as explicações – aquilo foi um inconseguimento de comunicação; o ministro veio publicamente pedir desculpa e dar umas não-explicações abjectas; e o PR, ao fim do dia, balbuciou perante as câmaras da televisão umas vacuidades que adensaram a rodilhice.

Os comentadores, perplexos, tentaram com denodo ver algum sentido político nesta garotice: que Santos queria sacar um ás de trunfo para a sua mão de candidato a novo líder do PS, dentro ou fora do Governo, dando uma imagem de homem decidido; que Costa anda pelo estrangeiro a ver se encontra um lugar onde possa pôr a render os seus préstimos de troca-tintas (o que é pudicamente descrito, geralmente, como habilidade política) e que Santos ignorou, como era justo e previsível, a autoridade da lugar-tenente primo-ministerial, a discreta Mariana.

A hipótese de Costa, por ser o mais brilhante demagogo que o regime já produziu mas não albergar qualquer sentido de Estado discernível nem real capacidade de, no que toca ao aeroporto ou a qualquer outro assunto, fazer escolhas que se traduzam no bem comum, que confunde com a sua sobrevivência enquanto político de sucesso; de Santos ser apenas um irresponsável que, à boleia dos seus dotes de orador inspirado, e cavalgando a costela revolucionária e de esquerda que o PS cultiva numa das suas alas, fez carreira acumulando os disparates que diz, e as tolices que agora tem meios de fazer; e de Marcelo não fazer parte da solução para coisa alguma, nem aliás de nenhum problema por não ter estatura para pôr sombra no mundo – não lhes ocorreu.

E por isso um ou outro foi insinuando que em tudo isto talvez haja interesses obscuros, desde logo o comezinho de, face à escandaleira, se ter subitamente deixado de falar do SNS em pré-colapso, e do BCE que vai ser obrigado a apertar-nos o gasganete. Talvez. Uma obra pública que envolve milhares de milhões sem interesses obscuros seria um obsceno desprezo das nossas tradições, e realmente quando há escândalos que evidenciem os desastres da governação socialista costumam aparecer querelas de lana-caprina para a gente se distrair.

Resta que, não havendo mais do que a grande barulheira que se vai previsivelmente fazer nos próximos dias, o momento é tão bom como outro qualquer para um não-lisboeta, nem socialista, nem portador de qualquer outra deficiência, reflectir sobre o novo aeroporto, para dizer que:

É estranho que se dê como adquirida a necessidade deste colossal investimento, por duas razões: uma é que várias zonas de Lisboa já parecem um parque de atracções com o afluxo actual de turistas. Isto tem sido positivo para a cidade e, reflexamente, para o país. Mas conviria perguntarmo-nos se a demasia não matará a galinha dos ovos de ouro: quantos mais turistas é que a cidade pode comportar sem se descaracterizar completamente?

A outra é que os investimentos em Lisboa são normalmente apresentados como sendo de interesse do país, que por isso também os suporta como se deles beneficiasse tanto como dos directos na “província”. Mas das duas uma: ou a macrocefalia é indesejável e como tal não deve ser incentivada; ou Portugal é sobretudo Lisboa e conviria deixar de falar na interioridade, e no combate à desertificação, e na regionalização, e naquelas outras coisas que as pessoas profundas costumam referir desde que, há muito, passou de moda falar do pauperismo.

Depois, se mesmo assim se quiser entender que foi apenas por característica inoperância que em 50 anos não se decidiu nada, e não por falta de meios, o terrorismo dos técnicos, cujas opiniões não podem ser discutidas por quem não o é, deve ser contemplado com desprezo: se as opiniões meramente técnicas nos habilitassem a saber qual é a melhor solução, todos diriam a mesma coisa. Não se decidiu nada é como quem diz, que a aeroporto de Beja aí está para provar, se fosse preciso, que os elefantes brancos costumam ser bem vistos por prestigiados entendidos, que tendem a ver tudo menos o óbvio.

Mas não dizem todos o mesmo, sendo que concluem assim ou assado consoante as variáveis que contemplam nos seus modelos de raciocínio. E nada, absolutamente nada, autoriza a supor que simples leigos não podem incluir outras que infirmam as conclusões a que chegaram – não há, infelizmente, soluções óbvias nem nenhum estudo pode incluir todas as externalidades relevantes.

Se eu fosse lisboeta, e achasse desejável var a cidade como um zoo cheio de sol, formigueiro de turistas loiros e reformados com pouco dinheiro, todos à procura de um tipicismo aliás adulterado, achava bem o novo aeroporto. E olharia para Santos com simpatia: ora aqui está um socialista que dá murros na mesa e não perde tempo com frescuras.

Mas não sou lisboeta nem acho que o voluntarismo a consumir milhões por quem ignora os mecanismos da criação de riqueza (Pedro Nuno tem obra na TAP e na CP, ambas a demonstrar o ponto) seja bom conselheiro.

De modo que o passo em falso do ministro talvez possa ser o que de melhor já fez. Se, o que não é certo, se tiver suicidado politicamente.

19 comentários em “Caso do dia”

  1. “não-lisboeta” não é efetivamente uma deficiência, mas achar que ser lisboeta é uma deficiência, é mesmo de um deficiente por convição, sendo assim totalmente excluído dos direitos que aos deficientes assistem. É a deficiência do provincianismo bimbo exposta em pedestal de barro.

    1. “Convição”? Nem mesmo o repugnante aborto ortográfico aboliu o “c” de convicção. Porque se lê, essa consoante. Mas o anónimo, cheio de fanática modernidade, assim fez. E revela-se tão provinciano. Em pedestal de lama.

  2. Estes pigmeus insignificantes do PS e PSD, numa hora em que precisávamos dum decidido e gigante Cavaco.
    Com o tempo a passar é que vemos as Obras que ele deixou.
    Sem espinhas.

    1. Todas de interesse nacional… a começar pelo faraónico CCB e a acabar, mesmo para além do prazo (o outro é que a “inaugurou”), a fantástica Vasco da Gama que permitiu aos tripeiros deixarem de cheirar os mouros a caminho do Algarve…

  3. Excelente leitura antes de ir para a cama.
    Também não sou lisboeta mas lá tenho alguns vínculos incluindo dois filhos. Por acaso, vivo relativamente perto de Alcochete mas não o suficiente para prever surtos próximos do imobiliário.
    Concordo que nenhum plano possa prever o futuro que, aliás, se apresenta incerto para a aviação civil. Nem sou técnico de coisa nenhuma que tenha a ver com aeroportos. Portanto, à boa maneira portuguesa, sinto-me credenciado para opinar.
    O Montijo está perto de Lisboa mas, além da questão das avezinhas a previsível subida do nível das águas – não é preciso muito – parece de facto excluí-lo como solução “stand-alone”. Justifica-se o investimento como aeroporto auxiliar? Pois, não faço ideia.
    Mas a solução Alcochete levanta-me algumas dúvidas. Antevejo que a Companhia das Lezírias dificilmente resistiria à pressão imobiliária e já estou a ver uma barragem que irriga uma vasta área de arroz, como centro de aldeamentos. Para o outro lado, o mesmo se pode adivinhar, na tal área protegida onde não se podia instalar um cemitério mas onde Sócrates autorizou o Freeport. Depois, quer por Vila Franca de Xira, quer pela ponte Vasco da Gama, muito terá de ser feito a nível de acessos. Depois,… bem, depois ainda temos a Ucrânia. Com este ressurgimento da NATO, o actual Campo de Tiro de Alcochete poderia tornar-se uma mais-valia.
    Não duvido que, em qualquer caso, a Portela acabe mesmo. Os números do imobiliário que o abandono vai gerar são incontornáveis e os “lobbies” da construção civil não morreram com Jorge Coelho.
    Mas gostava mesmo de ver, preto no branco, ou numa planilha de cálculo. os custos comparados da construção de raiz em Alcochete e respectivos acessos com o custo de adaptação de Beja, com TGV de ligação a Lisboa e via rápida de ligação à auto-estrada. E não duvido que esses números existam, porventura não compilados; mas já tenho algumas dúvidas de que venham a ser divulgados com a clareza desejável.

    1. Também gostaria de ver os números da solução que menciona, Beja.
      Para quem viajou de avião por esse mundo fora a ainda localização do Aeroporto no meio de Lisboa, ali, é algo que assinala tudo o que o post bem menciona. É assim a política em Portugal.
      Quanto ao Ministro quem conhece o respectivo “background”…sorri.
      É assim a política em Portugal.

  4. Costa no seu melhor. A resposta do Costa resume-se a “Anda cá… Não te vás embora…”
    Vários melros de uma pardalitada, mas sobretudo:
    – Mantém o artista “à mão de semear”;
    – Co-responsabiliza-o não só da caldeirada do aeroporto, como das catástrofes que se avizinham antes e depois do Inverno, não vá o rapaz depois aparecer impoluto “ah eu já não tenho nada a ver com isso” e juntar-se ao coro de protestos dos berloques e demais.
    Sem duvida o politico português com melhor jogo de cintura nesta altura do campeonato.
    Já o homem das selfies fez uma boa personificação do inspector Clouseau da Pantera Cor de Rosa quando no meio de andarem todos à batatada, tem o crachat do policia no ar e toca o apito – mas ninguém lhe liga claro e a festa continua…
    Falaram em novela mexicana mas acho mais reminescente de uma comédia italiana série B.

  5. O que surpreende em torno da construção de um aeroportozito é o facto deste depender de uma decisão política, em acordo com partidos, quando o aspecto substantivo devia centrar-se na capacidade de retorno do projecto para os contribuintes e nos custos que os passageiros deverão suportar bem como a viabilidade dos custos que serão imputados.
    Significa isto que um projecto de tal natureza devia ter decisão única e exclusivamente técnica e económica sem interferências de Costas, Pedros e Marcelos PS´s e quaisquer outros.

    Por mim o actual aeroporto serve as necessidades do país nas próximas décadas. Mas a sua existência provavelmente não serve os interesses imobiliários e especulativos que deverão estar a movimentar-se.
    Perguntar-me-ão, então, onde investir esse dinheiro?
    – Portugal não tem espaço para qualquer tipo de investimento. A economia portuguesa é oportunista e especulativa e esse dinheiro, no mínimo, deveria servir para proporcionar algum consumo, subsidiando os necessitados que, assim, impulsionarão o consumo de produtos hortícolas e outros mais.
    E o que sobrar pode ser utilizado para comprar velas, a serem queimadas nos diversos santuários marianos do país como símbolo do auxílio que se pede para que haja melhor luz a iluminar tantos iluminados, doutos e científicos nacionais.
    Estou em crer que esta é a matéria que se deve interiorizar para proporcionar melhor aproximação do interior ao íntimo.
    No entretanto, como não se queimam velas, vão-se torrando uns milhares de milhões com cimeiras de G7´s e Natos, para que o fogo se acenda ainda mais na Ucrânia e se possa garantir que a corrupção continua instalada também por ali.
    https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/bruxelas-pede-a-kiev-para-acelerar-luta-contra-a-corrupcao

    1. Mais uma vez em desacordo. Montijo reforçaria Lisboa. Alcochete alargaria o perímetro da Grande Lisboa. Beja criaria um polo interior de desenvolvimento. Na actual situação de incerteza, as projecções de qualquer solução deverão ter uma amplitude entre máximos e mínimos que com certeza terão zonas de sobreposição. Por isso a decisão será predominantemente política.
      P.S. Ainda hoje ignoro porque foi abandonada a hipótese de Rio Frio.

      1. Francisco, em imaginação e nas folhas de cálculo tudo é possível acontecer, dando sempre certo o resultado.
        Em 2019 Portugal registava algum aumento de turismo. Na última reunião do WTTC dizia-se que ocorreria isto a nível MUNDIAL no sector turístico:
        https://www.efe.com/efe/portugal/economia/turismo-mundial-vai-crescer-quase-6-por-ano-na-seguinte-decada/50000443-4789974

        Resta saber o que eles interpretavam como crescimento mundial e qual a parte ou fatia desse crescimento corresponde a cada região do globo e a Portugal em particular.
        Entretanto a Alemanha regressa a medidas draconianas:
        https://www.efe.com/efe/portugal/economia/alemanha-anuncia-regresso-a-austeridade/50000443-4842944

        O preço dos combustíveis, a situação caótica da economia inglesa, francesa, italiana, usa… e a situação inflacionista resultante do aumento dos custos da distribuição e logística juntamente com o aumento das taxas de juro e dos produtos alimentares e ainda o crescimento dos custos na indústria da construção ditam que a prudência e coerência técnica-económica devem guiar a elaboração dos estudos.
        Para se concluir, por fim, que a decisão política deverá ser somente meter na gaveta a decisão de construir um aeroportozito.
        Em matéria de sobreposição é tudo quanto me compete escrever.
        Garantam antes a estabilidade dos empregos existentes na agricultura e linhas de distribuição, proporcionando aumento de consumo através dos mais de 2 milhões de necessitados que actualmente existem em Portugal – e que mais se somarão -, e já será tomada uma enorme e saudável decisão política.

        Espero que não se caia na teoria falaciosa de que a ligeira melhoria de actividade ocorrida, particularmente no sector transformador, até agora seja um vector indicativo de futuro. Comparar o que agora ocorre com o enclausuramento da pandemia é simplesmente escrever um mito económico.

        Espero poder manter-me em desacordo consigo.

  6. Tudo encenação. Nem os três pastorinhos de Fátima são tão crédulos quanto os nossos comentadores de serviço nos vários canais de TV. Um PR a sério já teria demitido este governo e falado com clareza aos portugueses chamando esta gente pelo nome: vigaristas políticos de alto calibre.

    1. Não seja drástico V. .
      Não conheço todos os prós e contras de cada localização, o que sei é que não vale a pena fazer outro aeroporto na zona de Lisboa e sim aproveitar o de Beja para as low cost e melhorar significativamente o de Faro. Tal como o transporte rodoviário será abolido pelas medidas ambientais deverá apostar-se nas redes de ferrovia entre Portugal e Espanha e os grandes portos (Sines no caso Português). Devo também referir o que há muito estava escarrapachado nas folhas de exceel das grandes empresas é que os custos logísticos irão continuar a aumentar drasticamente e a solução de grandes fluxos será (já hoje é) inviável num curtíssimo espaço de tempo e urge trazer de volta para a Europa e USA a força produtiva que demos á China sendo que ser feito teremos de arranjar fornecedores viáveis de energia (carvão, petróleo e gaz). Não se pode por capricho fechar uma refinaria ou fechar as centrais a carvão quando a Alemanha segue o caminho contrário, Estamos a falar da sobrevivência da modo de vida ocidental e todos têm de perceber que o mundo unipolar acabou e as guerras futuras (como a actual) serão feitas por blocos que entendem a organização da sociedade de modo totalmente distinto do ocidente e em particular da Europa.

      1. Qual é realmente a percentagem de passageiros do Aeroporto de Lisboa em puro turismo, hoje em dia?.
        Este, o movimento do Aeroporto de Lisboa por razões de turismo até poderá desaparecer de um dia para o outro. Turismo de cidades é moda. Moda que esmorece quando as cidades se descaracterizam. Restará o comes e sobretudo o bebes, ou nem isso.
        Graças ao clima o turismo balnear, do Algarve, ou rural do Centro e Norte, devido aos bons preços e ao bom vinho, é actividade económica mais sólida.
        Depois há uma profunda crise à porta. Será mesmo preciso aumentar a capacidade aeroportuária da capital?.

      2. Abolir os automóveis seria cómico. O Aeroporto só ficava bem entre Almada e a Caparica porque aí aterra-se em altura sem ser necessário passar por cima das zonas urbanas. Há uns anos não chatearia ninguém. Mas agora já é tarde já está tudo espatifado com bairros esquisitos tudo feito às três pancadas. I don’t even bother any more.

        Mas se o globalismo acabou se calhar o Turismo também vai acabar. Por que motivo toda a gente assume que servir bicas aos camones é uma indústria eterna?

      3. “aproveitar o de Beja para as low cost”

        Quem viaja em low cost é sensivel ao preço, e quer ir para o destino que viaja, ou próximo.

        A quantos km está Beja de Lisboa? Quanto custaria um bilhete em comboio rápido até Lisboa? Quase tanto como o preço do bilhete de avião. Por as low cost em Beja é acabar com os voos low cost para Lisboa, mesmo que os acessos sejam bons.

        Por a TAP em Beja, sendo que o único valor da TAP é servir de ponte entre Europa, e África ou América do Sul, isso já é conversa. O valor económico da TAP está em clientes que não saem do terminal de aeroporto, para eles é irrelevante se estão duas horas a olhar para montras em Beja, na Portela, ou em Alcochete.

  7. o Destaque sapo está derretido, em delirio : ontem como hoje dos 4 blog em destaque, tres sao sobre o episodio.

    Nem é sequer justo nós aqui com tamanho paraiso e tantas tormentas depois de nós (pais)

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