Produções Ventura


Teresa Ribeiro,

Dias depois da exibição do célebre vídeo apresentado por Ventura, que pretendia enxovalhar os outros partidos da Assembleia da República mostrando os seus gabinetes vazios, ficamos a saber do assalto ao Chega. Do caos das imagens mostradas ressalta o quadro de Nossa Senhora no chão, com o vidro intacto e o terço elegantemente sobreposto. Parece um milagre o quadro da santinha ter resistido à fúria dos vilões – certamente maçons ou comunas, caso contrário não teriam derrubado a imagem – sem um arranhão. Para os devotos do partido que diz representar as pessoas de bem, esta imagem vale mais que mil palavras, atestando a ligação que o seu querido líder diz ter com o reino dos céus. O problema é que para quem não acredita em milagres, a tentação de associar o tal vídeo mentiroso, que mostrava os gabinetes dos outros partidos às moscas, a um assalto tão proveitoso do ponto de vista da comunicação política, é enormíssima.

O Mancha Negra volta a atacar


Pedro Correia,

Sempre com o mesmo alvo. Já tentou “envenená-lo” em Tavira. Já tentou “atingi-lo a tiro” em Famalicão. Já tentou “agredi-lo” no hospital de Faro. Agora “furta-lhe documentos importantíssimos” do gabinete que ele deixou aberto, sem tranca nem cofre. Trabalho profissional, sem dúvida. Virando tudo do avesso, certamente para induzir em erro os investigadores: só um amador primário se comporta assim.

O Mancha Negra voltou a atacar. Pela calada da noite, desta vez disfarçado de “senhora da limpeza”. Noutro tempo estaria disfarçado de mordomo, mas eles no Chega detestam mordomias.

Tenho de rever o que significa exclusivo


Pedro Correia,

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6 de Maio, canal Now: entrevista de 39 minutos

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12 de Maio, canal CNN Portugal: entrevista de 53 minutos

Nos meus dicionários, exclusivo significa algo raro, restrito, reservado, especial, específico. Único.

Terei de rever este conceito, desmentido na prática pelos canais de TV portugueses. Cada vez que entrevistam André Ventura, o que acontece a uma cadência acelerada, colam-lhe a fatal palavra de nove letras. Já sem significado algum, à força de ser repetida até à náusea.

 

«A reforma laboral é a escravatura moderna.»

«As pessoas não querem ouvir falar de reforma laboral, querem ouvir falar de reforma salarial.»

«Se ser de direita é trabalhar até morrer então eu não sou de direita!»

«Devia era haver uma reforma laboral para os políticos!»

Na mais recente, disparou rajadas como estas, cada qual mais demagógica do que a outra. É o primeiro político em Portugal inteiramente moldado pelas redes sociais: diz cada frase, a todo momento, a pensar nelas.

E que mais? Quer em Portugal 27 dias úteis de férias anuais como na Alemanha, 28 como no Reino Unido ou até 30 como na Áustria. «Porque é que os portugueses hão-de ter menos férias do que os outros?»

Despudorada caça ao voto, mesmo sem eleições no horizonte. O camarada Raimundo até se rói de inveja.

 

Vai prosseguindo assim, de “exclusivo” em “exclusivo”. Aumentar salários, aumentar pensões, aumentar dias de férias, baixar todos os impostos, baixar a idade da reforma – enquanto a amiga Giorgia Meloni, em Itália, se prepara para a subir até aos 67 anos já em 2027.

Tudo ao mesmo tempo, sem uma palavrinha sobre a necessidade de robustecer o anémico PIB nacional.

Eis o país das maravilhas no discurso venturista – o de alguém que no fundo não aspira a ser governo. Entende-se porque atrai hoje tanto antigo voto comunista. Exibe a mesma retórica, alude à mesma economia baseada no pensamento mágico. Usa e abusa do palavreado que durante 40 anos mobilizou a esquerda à esquerda do PS

Ventura roubou-lhes esse vocabulário, esse método, essas bandeiras. Apropriou-se desses eleitores. Tem sucesso garantido como nunca – no campeonato da demagogia. Talvez a única conquista verdadeira que o seu currículo registará.

A soberba


jpt,

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No curso de mestrado tive dois grandes professores: Armando Trigo de Abreu e Mário Murteira. Antes, na mais influente – pois formativa – licenciatura, tivera alguns bons professores. Na qual dois se realçaram: o antropólogo João Leal – que décadas depois vim a constatar que fora o docente que mais me marcara, pela sua sageza e decência, que o tornavam um verdadeiro mestre – e José Pacheco Pereira, um professor diferente, também esplêndido de cultíssimo, mas mais iluminador do que guia, pois desprendido. Um quarto de século depois tive o prazer, honroso, de o acompanhar durante uns dias em Maputo, a propósito de um congresso ao qual ele compareceu, e então esforcei-me por ser o mais hospitaleiro possível. E entretanto, blogando eu desde 2003, acompanhava diariamente o seu Abrupto, o blog português mais lido e que tinha características únicas. E fui lendo os seus livros…

 

Politicamente é diferente: muito torci o nariz quando ele se apresentou na Aula Magna, naquele arremedo de “Estados Gerais” convocado pelo ex-nº 2 de Sócrates, a apelar a uma espécie de “Frente Popular”, tornando-se assim o verdadeiro ideólogo do que veio a ser dito “geringonça”. E sempre me desagradou o (de facto) seu programa televisivo destinado à produção de opinião política burguesa, algo falsamente pluralista dado que ali ele defende o PS em articulação com alguém da direcção desse partido em falsa contraposição com um “representante” do desde há muito defunto CDS. E pior – pois intelectual e deontologicamente inaceitável – desde que uma direcção de canal quis suspender o programa político e o então primeiro-ministro Costa se imiscuiu na programação e conduziu a que outro canal o continuasse. Há limites para a falta de autonomia e o professor Pacheco Pereira nesse momento cruzou-os, no mau rumo…

 

Sobre André Ventura, uma criatura de Passos Coelho e Luís Filipe Vieira, amamentada por António Costa, pouco tenho a dizer. Não o vejo como “fascista” mas sim como um mariola demagogo – por mais que tenha levantado discussões que são importantes na nossa sociedade e que os estabelecidos descuravam. O meu problema nem é com ele mas sim com aqueles seus apoiantes que me são próximos, até extremamente íntimos. Pois os “cheganos” são-me carnalmente repugnantes. E isso exige-me uma enorme disciplina afectiva para sustentar as relações.

 

Hoje, por alguma razão que desconheço, o meu antigo professor foi debater na televisão com o presidente do segundo partido português (“líder da oposição”, no falacioso linguajar actual). O que assisti, contristado, até com vergonha alheia, foi a um pungente exercício de soberba, o mais grave dos pecados mortais. Muito para além dos argumentos previstos e dos instrumentos brandidos, o que ali esteve foi um velho professor a falar de si – “no 25 de Abril eu estava…”, “eu concorri em Loures…”, “eu na Assembleia da República…”, pobre e último recurso ilustrativo de quem quer estruturar um discurso sobre processos históricos, já acantonado no repetido queixume “você não está a falar com um atrasado mental“, o que está dizer “funciona lá para as suas gentes no tik-tok“, etc.

 

O reaccionário Ventura não se combate assim. E o processo histórico desta “República” (da democracia liberal) não se analisa desta pobre forma. Por mais que muitos dos anti-Ventura o aplaudam, lhe saúdem a “coragem” ou o “vigor”. Foi um naufrágio intelectual. Repito, pungente.

 

E é com pesar, para além de discordâncias, que o digo: chegou o seu tempo de sair de cena. “Pendurar as chuteiras” (televisivas), por assim dizer. Pois a soberba … mata.

Parem as máquinas!


Pedro Correia,

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Cada entrevista que ele concede a uma estação de TV é sempre anunciada como “exclusiva”. Apesar de nenhum político ser tantas vezes entrevistado naqueles canais que vultos secundários do partido dele, nas redes ditas sociais, garantem estar “infestados” de gente de esquerda.

Mantenho o inventário actualizado: em 2026 já foram sete.

Ele pode não ganhar eleição alguma, mas no campeonato das entrevistas é vencedor absoluto. 

Todas “exclusivas”.

À nora*


José Meireles Graça,

Num artigo neste jornal, dizia em Agosto de 2023 um prestigiado autor:

“E não conheço ninguém que no PSD ou na IL deixasse de votar nestes partidos por causa do alegado perigo de um entendimento com o partido dos fascistas. Porque um sócio minoritário que traga capital não vai definir a política da empresa – isso é o que fazem os sócios maioritários. No Chega sabem bem disso, que fazem teoricamente exigências (de pastas ministeriais, por exemplo) que sabem não poder ser cumpridas. O que quer dizer que entendem, e bem, que para continuarem a crescer o melhor é a chamada direita agir como se fosse de esquerda.”

Em Março do ano seguinte o mesmo teimoso voltava à carga:

“Só isto? Não, há mais e de índole prática: Governar é escolher e escolher é desagradar a alguns no imediato. Ou, se não for assim, desagradar à maioria a prazo. A segregação irracional do Chega deixa-o livre para acentuar a sua pulsão de cavalgar todo o descontentamento, resolver todo o imbróglio, ultrapassar toda a dificuldade a golpes de simplismo – e crescer.”

Em Maio constatava melancolicamente que o Chega, “livre de peias, tem asneirado com abundância”. E acrescentava que

“Se acordos discretos com o Chega já eram difíceis agora ficaram-no mais. De modo que de reformas (as quais, por definição, desagradam sempre a uma parte do eleitorado) estamos conversados.”

Pelo meio ficaram muitos textos por aqui e por ali que verberavam comportamentos de personagens cheganas detestáveis, que há por lá avonde, incluindo o líder, que se esforça por agradar aos indignados no tasco falando como eles. Sem porém perturbar o essencial, que é isto:

As linhas vermelhas antes das legislativas foram um claríssimo erro, e não ter feito um acordo de incidência parlamentar depois delas outro. Porque o Chega associado à governação seria um e é pouco provável que comesse por dentro a aliada AD; e por fora é outro, que vai cavalgando todos os descontentamentos, e a mediocridade dos resultados da governação, a ver se acapara o Poder.

É a esta luz que se deve ver a candidatura de Ventura à Presidência: um degrau na procissão até à ermida que fica lá no alto do monte.

Cidadão que respeite as instituições e não ache que mergulhá-las na confusão a benefício de um projecto que tem o defeito de ser contra uma quantidade de coisas que precisam de tratamento sem que se perceba o que são exactamente os medicamentos, não podia votar Ventura. E por isso, tendo excluído cada um dos outros por razões que a cada um cabiam, defendi o voto em Seguro.

Aos meus numerosos amigos que colam Seguro ao PS e à esquerda e aproveitam para associar à comandita os apoiantes oriundos da direita tenho um esclarecimento a fazer, e uma mensagem pedagógica a transmitir:

O esclarecimento: Seguro respeita a Constituição e esta, no que toca à organização do Estado (que era o que estava em jogo) não é de esquerda nem de direita, é o que temos; Ventura ameaçava destruir as mesas do Palácio de Belém com murros furibundos e as bancadas do de S. Bento aos pontapés – o país não tem nada a ganhar com mobiliário danificado.

A mensagem: Não há uma direita, há várias, e não reconheço, nem ninguém dono do seu nariz reconhece, autoridade a próceres da opinião para reclamar marcas registadas e distribuir etiquetas.

E agora? Temos um líder, Montenegro, que nem o módico de reformas que pretenderia fazer consegue levar a bom termo porque precisa ou do PS, que não é parceiro para reformar coisa alguma, ou do Chega, que para crescer não quer desagradar a nenhum grupo suficientemente numeroso de eleitores que possa sair prejudicado; um Presidente que, se puder e dentro dos limites da Constituição e das circunstâncias, favorecerá o PS na versão centro-esquerda, do que só pode vir marasmo; e um Chega que talvez não esteja longe do seu tecto, ou esteja fadado para o ultrapassar sem que porém se perceba o que é que, fora da revisão do Código Penal, do reforço dos poderes das magistraturas e das polícias, mais umas quantas violências e gesticulações no domínio da corrupção e imigração, defende. Como não se percebe (ou melhor, do que se conhece a gente preferia ignorar) o que defende como polítca económica, a menos que seja para levar a sério aquela ideia de baixar impostos, subir salários manu militari e outras frescuras estatistas. Há por lá gente com mais senso e menos demagogia? Há, mas ainda não se lhe vê a marca.

Ficaríamos melhor com Ventura como Presidente? Não, para o regime deixar de ser semipresidencialista é preciso alterar a Constituição, não pôr em Belém um arrebatado com os olhos postos noutro palácio. E Seguro vai resolver algum dos problemas do país? Não, mas não seria um obstáculo sério a que uma solução aparecesse lá onde se governa.

Essa solução, vai aparecer? Há um Ventura genuinamente reformista, que é Passos. Está, porém, posto em sossego, deve achar que por aqui é só malucos que não está para aturar.

* Publicado no Observador

Faye Dunaway e as Eleições


jpt,

 

 

Um dos motes desta campanha eleitoral foi a luta contra o “fascismo”, papão que tantos dizem encarnado em André Ventura. Dessa aflição brotou a tamanha e tão excêntrica abrangência de apoios e votos, içando Seguro à Presidência, numa adesão geral cujo fundamento mesclará a repulsa pelo tal “fascismo” e o apreço pela aparente decência pessoal do candidato, um bem raro entre os políticos nesta acinzentada era.

O resultado final foi uma vitória mútua. Seguro, que veio para “correr por fora”, após uma década de silêncio público pois abjurado pela redes clientelares do seu partido, teve um sucesso estrondoso: a eleição e uma enorme votação – “a vingança é um prato que se come frio”, presumo que terá desabafado junto da sua família elementar, pensando nos geringôncicos Costas&Santos Silvas do seu partido.

Já Ventura teve o sucesso que pretendia. Firmou-se como a voz nacional relevante que critica o “estado da arte” vigente. E reforçou o seu estrado parlamentar: pois (como escrevi no tal postal O Fim das Linhas Vermelhas) se o PSD se “absteve” de recomendar um candidato final, isso traduziu que o partido do governo não se considera mais longe dele e do CHEGA do que está do PS, pretérito interlocutor parlamentar privilegiado. Este duplo sucesso de Ventura poderá ser uma vitória de Pirro, se ele não souber dirimir a ambivalência resultante, conciliar os estatutos de vozeirão invectivador e de parceiro dialogante do governo (e do tal “regime”).

Ventura é um populista – o que é diferente de “popularucho”, o que muitos confundem -, e nisso segue demagogo. Capta os incómodos, objectivos e subjectivos, sentidos pelos residentes – e não apenas pelos nacionais, algo que é incompreendido por uma série de letrados austrais que, regurgitando um marxismo básico, de manual, vêm perorando inanidades sobre uma propalada indecente alienação dos imigrantes africanos e brasileiros em Portugal que simpatizam com o CHEGA. A esses incómodos populacionais – alguns com raizes factuais, outros apenas frutos de impressões de senso comum – Ventura aponta causas simplistas, torna-os tópicos do seu gritado discurso. Ganha votos.

Mas Ventura não é um fascista – estou crente de que se no poder (vade retro, Satanás) seria uma espécie amansada e até constrangida de Meloni. É certo que a sua ululada demagogia tem efeitos fascizantes em alguns nichos dos seus simpatizantes, convocando os piores preconceitos discriminatórios que subsistem entre nós. E não repudia o convívio dos escassos holigões neonazis que por aí andam. Mas no que proclama – e no vácuo programa partidário que afixa – não é um fascista. Na sua encenação de quem “vai (muito) à missa” e se enrola em modo extático na bandeira pátria, é apenas um bolor “reaccionário”, uma emanação de uma intelectualidade avessa à já velha modernidade, ao racionalismo.

Eu não venho ao blog para simular uma qualquer docência. Mas, face a este despautério que por cá grassa, permito-me recomendar algumas das parcas leituras que me aconteceram. E se alguém tiver paciência poderá, entre outras coisas, ler um breve artigo do conhecido Isaiah Berlin, o “The Counter-Enlightenment” (está no livro “Against the Current”, que decerto se poderá gravar gratuitamente numa das “piratas” na internet), para enquadramento geral. E depois, já sobre a nossa terra, ler “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone, vasta obra que esmiuça o relativo atraso da instauração em Portugal de um pensamento constitutivo das liberdades cívicas. É nesse âmbito, nessas raízes, que se deve comprender Ventura. E não na gritaria antifascista.

É de lembrar o destino daqueles tantos políticos – desde a patética inicial Katar Moreira até ao melífluo Santos Silva – que julgaram conveniente agitar o espantalho “fascismo” face a Ventura. Pois, e mesmo se entre essa gente Costa se tenha alcandorado a um imerecido bem-bom, convém atentar no naufrágio que lhes vem acontecendo nesta meia dúzia de anos face “ao André”.

Enfrentar este crescente fenómeno Ventura, prejudicial no seu cariz ultramontano, exige apenas três acções, uma gigantesca, as outras fáceis. A enorme é simples de dizer: melhores governos, um Estado mais curial. Outra é muito fácil: amputar os devaneios esquerdistas que o tacticista Costa levou para o poder. E nisso do Estado deitar borda fora o lastro do linguajar que foi dito “marxismo estrutural”, “decolonial”, “politicamente correcto”, agora “wokismo”, etc. Isso não implica que não se combatam exageros policiais, obstáculos de índole racista, a desigualdade prática entre homens e mulheres, serôdias desvalorizações homofóbicas, e outras causas sociais queridas a esses núcleos. Mas para isso esqueçam-se os radicais que assentam os problemas contemporâneos numa malvada essência lusa, presente e imorredoira desde Fernão Lopes, o Infante Santo, Gil Vicente e seus coevos. Ou seja, travem-se os discursos demagógicos que demonizam da sociedade portuguesa (pois ela não é demoníaca), os quais tanto vêm irritando as massas. Afinal estas menos ignorantes que tantos dos doutos funcionários públicos ideologizados.

Quanto à terceira acção? É facílima. Trata-se de compreender a razão de ser Ventura tão popular. Para isso basta ver um filme: “Network” (“Escândalo na TV”, era o título aquando da sua apresentação em Portugal). Tive a sorte de o ver, nos meus 13 ou 14 anos, no cinema de São Martinho do Porto, e tanto então me impressionou que disso me lembro. Realizado por Sidney Lumet, com argumento do multipremiado Paddy Chayefsky, interpretado por Peter Finch (o seu último filme, tendo ganho o Oscar entregue após a sua morte), coadjuvado pelos grandes William Holden e Robert Duvall. E pela belíssima Faye Dunaway…

Resumo a trama: uma estação televisiva está em queda de audiências. Faye Dunaway é a nova directora de programação, departamento que passa a gerir o sector noticioso – antes autónomo. Decide transformá-lo em espectáculo de entretenimento. Para isso usa o veterano apresentador dos “telejornais”, em crise existencial. Incentiva-o a dizer nas notícias o que “lhe vai na alma”, a expressar a zanga que o corrói. E ele grita, ao vivo, no horário nobre: “We’re as mad as hell, and we’re not going to take this anymore!” (qualquer coisa como “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”). E põe o povo a gritar isso à janela! Nisso aumentando, exponencialmente, as audiências da televisão.

O filme é de 1976. 50 anos depois é isso que se passa: as nossas estações televisivas são geridas por fayes dunaways, infelizmente menos bonitas. Que chamam, incessantemente, o André para lá ir gritar “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”. E ele vai, com afã.

Isto passará, as audiências decrescerão. E mais rápido ainda se os fluxos de publicidade reduzirem.

(Reprodução da primeira das cinco partes da minha “Gazeta Semanal 6“, dedicada às eleições presidenciais e colocada no meu “O Pimentel“)

Tudo e o seu contrário ou talvez não


Pedro Correia,

 

Em Agosto:

André Ventura exige demissão imediata da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, no meio do combate aos fogos florestais.

 

Em Fevereiro:

André Ventura defende que ministros não devem sair do Governo quando é mais preciso: demissão de Maria Lúcia Amaral é sinal de desorientação.

Imaculadamente virgem


Pedro Correia,

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André Ventura, em nove anos de carreira política, não venceu nada.

Concorreu em 2017, pelo PSD, à presidência de uma Câmara Municipal (Loures) e perdeu.

Concorreu em 2019 ao Parlamento Europeu, pela coligação Basta!, e não conseguiu ser eleito. Cinco anos depois, o Chega ficou em terceiro nas europeias.

Encabeçou o seu partido em quatro eleições legislativas (2019, 2023, 2024, 2025) e não ganhou nenhuma.

Apresentou o Chega em três eleições regionais na Madeira (2023, 2024, 2025) e outras tantas nos Açores (2022, 2024, 2025), sempre com insucesso.

Viu o partido sair globalmente derrotado dos escrutínios autárquicos de 2021 e 2025.

Concorreu a três rondas de duas eleições presidenciais (2021 e 2026) sem poder cantar vitória.

Balanço: 18 derrotas.

Há quem o imagine vencedor: é puro equívoco. Ele permanece em estado de imaculada virgindade nessa matéria.

Não me representa


Pedro Correia,

 

«Eu não serei o Presidente de todos os portugueses.»

Eis a negação do que deve ser a chefia do Estado numa democracia liberal. Um candidato a Belém manda às urtigas o princípio da igualdade, que impõe aos poderes públicos um tratamento não-discriminatório de todos os cidadãos. E também o princípio da dignidade da pessoa humana perante a lei.

Como se gritasse: «Eu não vos represento!»

Nisto, ao menos, serei o último a contrariá-lo.

Não cola


Pedro Correia,

Como é que alguém que concorre a todos os sufrágios (autárquicas, Parlamento Europeu, quatro vezes à Assembleia da República, duas vezes a Presidente da República) pode alguma vez dizer «que se lixem as eleições»?

É uma tentativa canhestra, e quase desesperada, de tentar imitar o que disse Passos Coelho há 14 anos, num contexto totalmente diferente. 

Não cola, de todo. Nem com Loctite nem com grude. Muito menos com cuspo.

Liderar a direita?


Luís Menezes Leitão,

O Pedro abaixo chama a atenção para que, enquanto André Ventura se proclama líder de direita, nunca Sá Carneiro, Cavaco Silva e Passos Coelho o fizeram.

A razão é óbvia. Nunca nenhum desses três alguma vez se considerou como de direita.

Sá Carneiro proclamava-se social-democrata e até socialista, tendo na altura procurado aderir à Internacional Socialista, o que foi vetado pelo PS. Aliás o primeiro jornal da JSD intitulava-se “pelo socialismo”.

Também Cavaco Silva nunca se considerou como de direita, referindo ser social-democrata na linha de Eduard Bernstein. Paulo Portas na altura comentou que Bernstein não passava de um “socialista danado” e que a direita estava a votar em quem não era de direita.

Quanto a Passos Coelho, não deu para perceber qual era de facto a sua política. Com um governo manietado por um programa de ajustamento, limitou-se a executar esse programa. Tudo, desde os cortes de salários, a reforma do arrendamento, e as privatizações, foi imposto pela troika. No início apareceu de facto com propostas de uma política liberal, sugerindo a privatização da Caixa Geral de Depósitos, mas rapidamente a abandonou, e a pública Caixa Geral de Depósitos continua alegremente a ser o maior banco português.

Já André Ventura aparece de facto a proclamar-se o líder da direita em Portugal, tanto assim que o Chega surge em consequência da deriva esquerdista do PSD de Rui Rio, que libertou o flanco direito dos eleitores do PSD para outros partidos. É muito duvidoso, no entanto, que o programa político do Chega se possa considerar como de direita, já que esse partido votou ao lado do PS em muitos assuntos, designadamente na abolição das portagens, e prepara-se para o voltar a fazer na reforma laboral.

Como “reforçar” enfraquecendo


Pedro Correia,

 

O homem que quer “reforçar os poderes do Presidente” pretende afinal retirar ao Chefe do Estado a prerrogativa de nomear o Procurador-Geral da República.

O homem que diz combater capelinhas e corporações que gravitam em torno do Estado pretende afinal fazer eleger o PGR pelos seus pares, expressão suprema de corporativismo.

Haja alguém que me explique estes paradoxos. Ou que os explique a ele.

Manifesto eleitoral de uma votante PSD


Cristina Torrão,

Não é segredo para ninguém que Ventura persegue um único objectivo: ser o líder da “direita” em Portugal. Para isso, ele tem de destruir o PSD!

Ao contrário do que muita gente (do PSD e CDS) diz, tentando justificar o seu voto em Ventura, António José Seguro será muito melhor Presidente para Luís Montenegro. Seguro é uma pessoa democrática, moderada e cumprirá a nossa Constituição, em qualquer circunstância.

Tal como Trump (o seu grande modelo inspirador), Ventura não respeita leis, nem regras. Como Presidente, tudo fará para destruir o governo de Montenegro, a fim de surgir, depois, como o “grande líder”, apresentando o seu partido como a única alternativa para pessoas que não se reconheçam nos partidos da esquerda.

A campanha de Ventura, para esta 2ª volta, vai ser suja, falsa, sem escrúpulos. A propaganda chegana já começou, com a divulgação de um texto, supostamente de autoria de Miguel Esteves Cardoso, de apoio a Ventura. Um texto falso! E isto é só o começo.

Como o Sérgio de Almeida Correia já aqui disse, Luís Montenegro comete um grande erro, ao não aconselhar o voto em Seguro. Montenegro devia preocupar-se mais com a franja do eleitorado que oscila entre o PSD e o PS, do que piscar o olho aos radicais. Ele devia dizer claramente que Seguro dá mais garantias de cumprir a Constituição e salvaguardar a democracia. Montenegro devia, acima de tudo, demarcar-se de qualquer forma de extremismo.

Estou com eles:

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Imagens Observador/Instagram

Sérgio de Almeida Correia referiu ainda Rui Moreira, Carlos Carreiras, José Eduardo Martins, António Capucho e Pacheco Pereira terem revelado o seu apoio a Seguro.

Não votei na 1ª volta. Aliás, nunca votei nas presidenciais, desde que estas ficaram acessíveis aos emigrantes. Mas, no dia 8 de Fevereiro, vou fazer 100km (ida e volta) para votar no Consulado de Hamburgo!

Contra a “trumpização” de Portugal!

Pela democracia!

Por um PSD com futuro!