Em 26 de Novembro do ano passado contei uma história sobre a seguinte pretensão: Saber, relativamente a uma penhora de 1/3 da pensão de velhice efectuada em 2019 e que durava até então (e continua hoje) com punções mensais a dois ex-gerentes de uma sociedade, qual o saldo ainda em dívida, as datas e montantes dos descontos efectuados e qual o destinatário.
Referia uma visita que havia feito ao Centro Distrital de Segurança Social de Braga. Não mencionei que o funcionário de meia-idade que atendeu e esclareceu que semelhante conta-corrente só poderia ser disponibilizada em Lisboa disse a certo passo que era licenciado em Direito. Fingi ter ficado impressionado com aquela importante qualificação, registei a informação e enfrentei com estoicismo o mar de palha semeada de dejectos que é o site da Segurança Social para pedir, por escrito, a informação.
No mesmo dia fiz a consulta, através de uma coisa chamada e-clic. Houve registo, com número e comunicação. Resposta é que nada, nem então nem nos 3 meses seguintes.
Em 24 de Fevereiro último fui a Lisboa – tinha marcado um atendimento presencial no serviço ali para os lados da Gulbenkian.
O funcionário que me recebeu (desta vez fixei o nome, por ter saído muitíssimo agradado com a perfeição do atendimento e ainda por causa do sobrenome ilustre – chamava-se Ricardo Graça), inteirado do assunto, imprimiu aí em dois ou três minutos a bendita conta-corrente, manifestando a sua perplexidade pelo que me haviam dito em Braga – poderia ser disponibilizada em qualquer centro regional da Segurança Social.
Poucos dias depois recebi um e-mail a dizer que tinha na minha caixa de mensagens no site da SS uma comunicação. Estes e-mails são uma fonte permanente de irritação porque não se percebe por que razão a mensagem não vem no e-mail em que se diz para ir perder tempo a um site para a descobrir, sendo que são quase sempre inutilidades. Desta vez era a resposta (aliás deficiente) ao pedido feito meses antes. Que o diabo carregue quem giza estas moxinifadas informáticas.
Entreguei toda esta trapalhada a um advogado, dado que os descontos já operados nas pensões de velhice de dois coavalistas mais o que foi pago pelo administrador de insolvência ao credor já excedem o valor da dívida, os juros, as despesas do agente de execução, alcavalas e impostos. O processo, aliás, tem detalhes caricatos: O credor contrata os serviços de um agente de execução, o qual debita IVA pelo valor dos seus serviços não a quem deles beneficia mas ao devedor, que é um banana impotente em todo o processo, tendo de rastejar para sequer obter informação.
E então, acaba tudo aqui e resta apenas esperar até ao desenlace? Que nada, eu tenho um gosto perverso por estas coisas e portanto ontem resolvi pedir a mesma informação que já tinha mas actualizada.
Dei comigo a falar, no site da Segurança Social, com a senhora D. IA. Foi a primeira vez e ela começou por perguntar o nome, ao que respondi; depois se queria indicar o número da SS ou o do cartão de cidadão. Respondi que tinha o número de SS xis. Silêncio e um pouco depois a mesma pergunta. Respondi a mesma coisa mas mais devagar, dizendo para os meus botões que devia ser surda ou burra. Silêncio e um pouco depois a informação, com a mesma voz inalterável: Deve escolher um ou outro. Escolhi o NISS e ela perguntou o número. Quando cheguei ao assunto o diálogo ficou completamente bizarro e não consegui a informação que queria. Regressei ao site para fazer uma marcação presencial e andei por lá perdido porque tinha de escolher, de um menu, o tipo de assunto e o meu não cabia em nenhum dos itens. Às tantas encontrei a possibilidade de uma marcação por videoconferência e marquei para a hora que estava disponível – 11H. Recebi um e-mail com as indicações para o que fazer, fiz e funcionou. A senhora que me atendeu, simpaticíssima, começou por informar o nome e que estava a falar de Castelo Branco (!). Inteirada do assunto, não percebeu e expliquei com mais detalhes (tratava-se do documento emitido pela SS há 3 meses mas que precisava de actualizar por causa de um processo judicial). Confessou que não estava a compreender bem mas que ia chamar a coordenadora. Chamou e enquanto falavam via no écran o cotovelo da coordenadora. Ao cabo da conversa, que não ouvi (aí uns 3 minutos) vem a coordenadora igualmente ao écran e repeti a história, com mais detalhe. E como mencionasse o número de um processo a senhora (aliás também cortês, como a outra) pediu que o lesse, o que fiz. Ela informou que não era um processo daquele serviço, pelo que esclareci que tinha sido a Segurança Social a emitir o documento. Fez-se luz: A Segurança Social? Mas aqui não é a Segurança Social, é o Instituto da Segurança Social, isso é um assunto do Centro Nacional de Pensões.
Bem bem, estou a fixar um perito nestas coisas e por isso resolvi fazer nova marcação presencial para Braga, com a secreta esperança de encontrar o licenciado em Direito do princípio para o inteirar de que tinha ido a Lisboa por causa dele, sem necessidade, e que talvez agora pudesse ir ao PC ver o que não viu da outra vez.
Mas o sistema perguntou qual era o meu concelho de residência e eu, ingénuo como Deus me fez, escrevi que era Guimarães. Zás, faz-me a marcação para Guimarães.
Lá fui, com a precaução de tomar dois cafés, que é o combustível de que me costumo abastecer para aturar repartições.
Conversa de três ou quatro minutos, a funcionária, que graças a Deus não era uma D. IA, imprimiu a conta-corrente actual. Ainda lhe contei a parte gaga do colega dr. de Braga, mas ela disse-me a rir que licenciada não era. Despedimo-nos nos melhores termos.



