
Não se pode dizer que Teresa Morais, vice-presidente da AR, seja uma “wokista” (a invectiva da moda), uma “marxista cultural” (como há pouco se dizia), içada a deputada pelo demagogo LIVRE, ou militante do pré-defunto BE ou criatura do frentista PS de Pedro Nuno Santos… Pois foi ministra do “malvado”, “neoliberal” (e até “fascista”) governo de … Passos Coelho.
Ontem, presidindo à Assembleia, entrou em conflito com o CHEGA. E (catástrofe!) acabou a falar de dedo em riste!!! Os deputados daquele partido assumiram-se ofendidos e, em uníssono estardalhaçante, abandonaram aquele “ninho de lacraus” (como dizia o UDP Américo Duarte), “a casa da bandalheira”, dirão eles… Decerto que nisso colhendo “louros” (impacto popular).
Ventura&CHEGA são irritantes, demagogos, por vezes falsários? Sim. São insuportáveis? À mesa, talvez. Na cama, porventura. Nos transportes ou nas filas dos serviços públicos, com toda a certeza. Nos aniversários dos netos ou dos vizinhos, ainda mais. Na Assembleia da República? Não. Aí são suportáveis: foram eleitos.
Assim, a presidência da Assembleia pode-se irritar com os argumentos alheios. Mas não pode esticar o dedo, e entrar na peleja entre bancadas.
No caso de ontem também por razões substantivas: Ventura atirou haver deputadas que preferem proteger os violadores a legislar uma coisa qualquer que ele tem em manha, perdão, em mente. É uma atoarda? Sim. Mas não compete à presidência andar à cata de atoardas e criticá-las. Se alguém atirar ao PCP que deseja “campos de concentração” como em vários dos seus aliados históricos (a China actual, por exemplo), isso é uma atoarda, não sustentada em “factos”. Morais intervirá, de dedo em riste? Se alguém acusar a bancada da IL de querer “destruir o SNS”, abandonando os pobres à fúria dos elementos? É uma atoarda política. Será que Morais intervirá no debate? E não se invoque a “defesa da honra” dos invectivados – só uma pobre “moral” de catequese poderá pensar pior a invectiva de Ventura do que as outras hipotéticas (mas plausíveis) que aqui avento.
Pior, Morais mete-se na rixa retórica, clamando descrer que haja ali, na AR, mulheres querendo obscurecer “violadores” – o cabeçalho atirado por Ventura. Ora, se julgou apropriado intervir deveria ter rodeado a atoarda (estratégica) e afirmado a crença de que nenhum deputado da AR o pretende fazer. Descentrando a questão das mulheres deputadas, como se estas por o serem sejam mais ofensíveis. Assumindo uma realidade: a nossa sociedade comporta imensas mulheres que protegem/escondem violadores. Algumas (presumo) por participação económica no lenocínio. As outras pois silenciosas (por subjugação, na maioria dos casos) do que sofrem e veem sofrer. Às mãos, na maioria dos casos (a crer na “imprensa de referência”, os antes ditos tablóides), não de malvados imigrantes mas de portugueses “de bem”. Ou seja, a condição de “deputada” não apela a nenhuma defesa específica da sua “honra”. Neste caso ou noutro.
Mas para além da intervenção de Morais ter sido descalibrada o problema fundamental é outro: estratégico. Todos vimos como o pretenso maquiavélico Santos Silva usou a presidência da AR, barafustando com o CHEGA sempre que podia, tentando catapultar-se como futuro presidente, encarnação de uma “democracia”, da “alma” do regime democrático. A carreira política acabou-se-lhe! E o CHEGA por ele afrontado na AR medrou, vitimizando-se diante da “bandalheira” (socrática, naquele caso). O que Morais fez agora foi um decalque do santossilvismo. E já devia saber que é contraproducente.
Recentemente houve três exemplos, díspares, de como enfrentar o desbocado ímpeto venturiano: nos debates eleitorais António Filipe, Cotrim Figueiredo, António Seguro. Nenhum deles se imaginou um cavaleiro de dedo em riste contra Ventura. A bancada do PSD tem de recuperar essas gravações e passá-las à vice-presidente.
Pois intervenções como as de ontem são adubo para… o capim CHEGA. Forma de entregar o ouro ao bandido.
(Postal também no meu “O Pimentel“, onde coexiste com textos mais pessoais)