Apologia da mira técnica


jpt,

No final de uma manhã do mês passado recebi em casa a notícia da inesperada morte de um velho amigo. Acabrunhado fui até ao café das redondezas, na senda do abraço com alguns amigos comuns que por lá estivessem…

A ninguém encontrei. Fiquei ao balcão, de imperial na mão, em silêncio a resmungar a vida que segue tão preenchida pelas constantes mortes dos próximos (”habitua-te!”, dizem-me, como se isso valha para algo…). Na televisão (re)começou um noticioso. Notei a locutora, que abomino, aquela da longa cabeleira loura. O rodapé (que os grunhos chamam “oráculo”) indicava que a notícia tratava do julgamento do assassino de Henry Nowak, o rapaz inglês que no seu estertor gemeu “não consigo respirar”, colhendo a indiferença dos polícias que o rodeavam, preocupados com o queixume do seu verdugo, que invocava ter sofrido uma qualquer “microagressão” racista da sua vítima.

Ainda mais amargo do que me é costume murmurei mudo para a da cabeleira loura lá no ecrã: “não choras agora?, p… de m…”. Explico-me, esta é aquela que há seis anos incrementou a sua popularidade (os do “oráculo” chamam-lhe “ratings”) por ter chorado ao noticiar a morte do norte-americano Floyd, que gemeu “não consigo respirar” sob o inclemente joelho do polícia que o imobilizara durante sete minutos.

Como então escrevi, surpreendeu-me que a sensível da cabeleira loura não tivesse também chorado ao anunciar a morte, nessa mesma época, de Ihor Homeniuk, aquele ucraniano assassinado pela polícia fronteiriça portuguesa, após horas de sevícias em pleno aeroporto da Portela – ao qual agora alguns dão o nome do germanófilo, e ex-candidato a “generalíssimo” português, Delgado. Também me surpreendera – até porque a da cabeleira loura é oriunda da Ilha, assim porventura mais atenta às “minudências” de Moçambique – que não tivesse chorado devido à morte do moçambicano Abdul Razac. Assassinado nessa mesma época pela polícia da Beira, após horas de sevícias sofridas num esquadra policial, para a qual fora arrastado devido a ter protestado uma acção de alguns agentes: decorria um confinamento devido ao Covid, os polícias interromperam um jogo de futebol de rua, dispersaram a rapaziada, confiscaram a bola. E puseram-se a jogar, o que conduziu Razac ao (imprudente) protesto que lhe custou a vida.

Ontem, entre tantas evocações de Luís Represas (até a minha), no FB notei várias referências a um assassinato em Xinavane, no sul de Moçambique. Os filmes visíveis são brutais – e por isso não os “partilho” (quem tiver curiosidade, até mórbida, bastar-lhe-é fazer a busca “Xinavane” e logo encontrará). Uma grande operação policial, com imensos agentes que circundaram um restaurante onde estava um procurado criminoso (dito raptor, violador e homicida). Alguns agentes entraram na sala, quatro ou cinco apanharam-no e de imediato ele foi abatido com vários tiros, os polícias sairam deixando o cadáver, seu sangue esvaindo-se. Tudo isto filmado pelos telemóveis da clientela, tamanha a sensação de impunidade que os agentes policiais têm – a qual, como é óbvio, advém da prática comum.

Não vou elaborar sobre o que um episódio destes pode indiciar sobre a realidade moçambicana. Já o escrevi, deixei de perorar sobre a actualidade daquele país – nada ganho com isso e não tenho paciência para aturar os fascistas austrais que me vinham chatear sobre o assunto.

Mas é assunto do meu país que a televisiva cabeleira loura não venha chorar ao acompanhar a transmissão daqueles breves filmes, decertos apetitosos “Alerta …” para animar as “notícias”. Pois para esta gente, das cabeleiras louras aos calvos, tudo o que não corresponda ao molde “branco supremacista” (gringo) vs “racializado negro” (gringo) não convoca choraminguices.

Que se lixe Xinavane”!, dizem. E rematam, tão progressistas e solidários se dizem, pensando “é entre “eles””!

De facto, mais vale a mira técnica do que esta gente.

Outro Assunto

Ontem deixei este postal sobre a polémica relativa ao “Odisseia” de Nolan, devida ao realizador ter escolhido uma actriz negra para representar o arquétipo Helena de Tróia. Lá me explico nisto de considerar isso perfeitamente normal, mais do que aceitável – até podiam ser todos negros, qual o problema? Pois não só Helena de Tróia não existiu como (qualquer) representação não exige similitudes de aparência de um realismo mimético (”Ran” de Kurosawa é o “Rei Lear” de Shakespeare e a rapaziada pró-CHEGA não anda para aí aos gritos com isso). Ou seja, Nolan tem toda a legitimidade para escolher participantes para o filme que não correspondam à tradicional imagem que temos sobre a Antiguidade Clássica, Helénica. E os protestos não têm cabimento.

Um amigo meu leu o postal. E logo me enviou um curioso texto. O qual apresenta um facto interessante sobre o filme. O cão escolhido para representar Argos, o fiel companheiro de Ulisses, aquele que reconhece o envelhecido globe-trotter aquando este aporta a Ítaca, é um podengo português. Escolhido porque esta raça (sim, para os cães “raça” é um conceito com substância real, diferentemente do que acontece sobre os homens, no qual não tem qualquer fundamentação biológica. Nem cultural..) já existia na Antiguidade homérica e naquela região.

Atente-se bem no paradoxo: para representar os cães há um cuidadoso cuidado “realista”. Mas para os homens até se faz gala em recusá-lo. Mais depressa se apanha um mariola demagogo do que um portador de deficiência crural…

Cinema e família


Pedro Correia,

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Fotograma d’ O Leopardo (1963), de Visconti

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Coppola rodando uma cena d’ O Padrinho com Marlon Brando (1971)

Toda a história do cinema é percorrida por obras que nos falam da família em diversas dimensões. Dos clássicos da época de ouro norte-americana, como O Vale Era Verde (de John Ford) e Do Céu Caiu uma Estrela (de Frank Capra) até várias obras-primas do cinema europeu, como O Leopardo (de Luchino Visconti), Sonata de Outono (de Ingmar Bergman) e O Quarto do Filho (de Nanni Moretti).

A família é igualmente fulcral em filmes que nos falam de temas tão diferentes como a infância (ET, de Steven Spielberg), o racismo (Adivinha Quem Vem Jantar, de Stanley Kramer), a infidelidade (Ana e as Suas Irmãs, de Woody Allen), o divórcio (Kramer Contra Kramer, de Robert Benton), a violação (A Desaparecida, de John Ford) ou o incesto (Chinatown, de Roman Polanski).

«A maior de todas as guerras é a guerra da família», escreveu Sinclair Lewis no seu romance Bobbitt. Frase que poderia servir de pórtico ao fabuloso tríptico d’ O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Que nos fala de política, do poder, do dinheiro e de crime. Mas, essencialmente, fala-nos é da família.

Quo Vadis


jpt,

Há 75 (!) anos, Peter Ustinov compôs um fantástico Nero, que é o que se aproveita do insuportável “Quo Vadis”, um típico pastelão “histórico” a la Hollywood, baseado no romance do Nobel Sienkiewicz. O filme é esquecível (ainda que passe em todas as Páscoas…)

Deixo aqui a cena (quase) final. As coisas não estavam a correr bem ao imperador… Pois este Nero de Ustinov é actualíssimo,.

É a versão dobrada em italiano. Para nós a dobragem sempre soa ridícula. Por isso apropriada àqueles que por cá andam, “artistas (comentadores) da rádio, TV, disco e da cassete pirata (aliás, redes sociais)” que insistem em papaguear méritos ao demencial Nero vigente, “dobrando-o”.

Chuck Norris em África


jpt,

Morreu o Chuck Norris, o tipo dos filmes de porrada. Os tipos flanantes acorrem às redes sociais para o menosprezar, em dichotes sobranceiros, vejo até mortais a dizê-lo já morto há anos – o homem tinha 86 anos…. Nestes tempos “higiénicos” este tipo de humor cruel seria pontapeado se este azedume patente não fosse “apenas” de idadismo alimentado, de desrespeito gerontófobo. Enfim, como bem disse o verdadeiro cinéfilo que é o José Navarro de Andrade, os filmes do Chuck Norris “se algum mérito tiverem, é o de serem mais genuínos do que as contrafacções de Tarantino”.

Nas suas detalhadas matizes, a filmografia de pancada americana desde há (muitas) décadas que serve – embrulhada no plástico charme da passadeira vermelha “liberal” de Hollywood – para produzir os valores (lá) patrióticos do “America First”, num verdadeiro MAGA (Make America Great … Always). Desde o mais explícito “vamos lá dar cabo deles” a la “Boinas Verdes” do Duke, até à incessante produção de filmes denunciando perversões no “sistema”, mas afinal resolvidas pelo corajoso herói – a mitografia das pradarias do “western” trazida para os meandros de “Washington D.C.” -, o individualismo salvaguardando a virtude da “pax americana”, mesmo se esta poluída pelas maldades de alguns conluios.

Mas, com menor relevância, este eixo fílmico serve também para aqueles dos ademanes que querem reproduzir a imagem, que sentem correcta, da nossa hierarquia, como se procurando avariar o propalado “elevador social”, remetendo os ditos “arrivistas” para as escadarias de serviço. A classe média “culta” deliciada com as tais vacuidades de Tarantino e seus epígonos, a classe média “dos serviços” vendo e revendo os frenéticos Jason Bournes até à exaustão, a malta reduzida aos subúrbios vendo esses Stallones, até já congregados na verdadeira saga Mercenários. E, lá longe no sopé, os silvestres – rurais ou das “hortas urbanas” -, uma espécie em extinção, diante do Chuck Norris.

Mas ao sucesso deste Chuck Norris, naquelas tramas lineares e no viço da pancadaria, vim-lhe a encontrar o atractivo. Pois ali vigora o anseio de justiça, rude, face a um mundo violento e… injusto, vergado ao poder dos colectivos mais fortes. Alguns mais delicados preocupam-se que tudo aquilo seja a apologia da violência, inculcando sanguinolências nos incautos espectadores. É a tal percepção altiva, elitista, que apregoa serem as pobres massas capazes de se aperceberem de tudo aquilo ser ficção, acima de tudo divertimento onírico. O que está reforçado exactamente pela platitude das narrativas. E, por isso, tanto aderindo ao veterano Chuck Norris.

Na malha de cinemas “do mato”, rurais de facto, em Moçambique, um arquipélago de cabanas transmitindo as vídeo-cassetes, Chuck Norris era omnipresente. Seus filmes vistos e revistos com gáudio. E sim, tal como em vários dos seus parceiros da porradaria, as rapaziadas (às vezes também as raparigadas, mas isso muito mais raro) saíam das salas em exaltadas mímicas “marciais”, eterno que vem sendo o apelo Bruce Lee. Mas acima de tudo vigorava a alegria da vítoria do (ríspido e valente) David contra o Malvado Golias.

À notícia da morte do Chuck Norris logo me lembrei de uma história que o amigo Jorge Leão me contara há já três décadas – e agora telefonei-lhe para ele, entre risadas, me confirmar os detalhes…

O Jorge é um tipo da minha idade, tão (pouco) entroncado como eu, um pouco mais baixo (mas maior do que o Chuck), mais ou menos parecido comigo – mesmo se me pareça ser ainda mais tipo “português” pois eu, ao longo da vida, às vezes passava por “grego” ou “argelino”. Enfim, qual de nós o menos feioso venham outros para avaliar, mas insisto que temos mais ou menos o mesmo aspecto.

Ele era especial entre todos os portugueses que conheci em Moçambique – onde ainda vive. Pois, com excepção de poucos antropólogos, era o único verdadeiramente curioso, capaz de arrancar mochila às costas, boleia em boleia, “chapa” após “chapa”, a conhecer o país. Mas mais ainda, foi o único que se comportava em África como a nossa geração o fazia noutros continentes afora, mochileiros de tenda armados e dedos estendidos em demanda de solidariedades. Nisso correu não só Moçambique como vários países da África oriental, julgo que até aos Grandes Lagos. Um dia descansou disso, garantindo que o fazia apenas porque “esgotarem-se-me as probabilidades de sobreviver”, tantas viagens de “chapa” havia feito, todas elas subjugado ao terror das demenciais formas de condução que lhes são tão típicas.

Enfim, nessas andanças, no já longínquo 1996, estava ele um dia no extremo nortenho de Moçambique. Calcorreava há horas uma esfuziante zona de mangal quando deu de caras com um “maluco de um holandês” pois ali caminhando “com água pelos joelhos” – e depois ri-se e confessa “tal como eu…”. Logo se impôs a consabida solidariedade entre andarilhos. E avançaram durante horas até Quionga, então um verdadeiro ermo, onde montaram as tendas e pernoitaram junto à pau-a-pique que era posto fronteiriço. No dia seguinte, passaportes carimbados, cruzaram o mítico Rovuma rumo à Tanzânia. Fizeram-no num barquito, no qual eram ombreados por um tanzaniano que se dedicaria a um qualquer contrabando então mais em voga, coisas que “a gente nem pergunta”…

Chegados à margem tanzaniana cumpriram o lhes havia sido recomendado pelos guardas fronteiriços em Quionga. E assim marcharam uns 20 kms de matope e terra batida até à primeira aldeia, onde noutra pau-a-pique os aguardaria o relevante carimbo, agora de entrada no país. Se a sul era um ermo ali ainda mais o era, um longo desabitado de ninguém avistar durante aquelas 4 ou mais horas a fio de andança, estugada pela bonomia. Finalmente avistaram a tal primeira povoação, uma – de facto – recôndita aldeola dotada da necessária “fronteira”. Aproximando-se cruzaram a primeira habitação, ainda um pouco afastada, uma paupérrima cabana emparelhada com um alpendre, no qual se afixava o habitual chá junto a um qualquer assado. E do seu interior logo emanou uma velha, irrompendo rumo a eles, num sorridente e bem sonoro “Chuck Norrissiii!!!” dado ao holandês. E, depois, virando-se para o Jorge, e com ar de “vá lá, tu também…”, um menos entusiástico “Stallone!”.

Até ali…

(Um postal entre outros no meu “O Pimentel“)

Quando o Óscar chega tarde de mais


Pedro Correia,

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Em cada temporada dos Óscares, lembro-me sempre de Howard Hawks. Foi um dos gigantes da arte de realizar filmes. E também um cineasta que nunca recebeu um Óscar em competição. Não por falta de obras-primas no seu currículo. Mas porque, por algum motivo obscuro, a Academia de Hollywood sempre o considerou um realizador “menor”. Algo muito estranho, já que raros cineastas produziram tantos filmes memoráveis como Hawks, que iniciou a sua actividade ainda no tempo do cinema mudo.

Legou-nos filmes como As Duas Feras (1938), Paraíso Infernal (1939), Sargento York (1941), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), A Culpa foi do Macaco (1952), Rio Bravo (1959) e El Dorado (1967). Foi ele quem reuniu pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em Ter e Não Ter (1944). E juntou Marilyn Monroe e Jane Russell, em Os Homens Preferem as Louras (1953).

O reconhecimento foi tardio – e só surgiu por efeito de ricochete da crítica francesa, que o idolatrava. Hollywood deu-lhe enfim um Óscar honorário em 1974 quando Hawks, de 78 anos, já deixara de filmar. A consagração surgiu demasiado tarde, tal como sucedeu, por exemplo, com Charles Chaplin e Groucho Marx (Óscares honorários de 1971 e 1973, quando tinham 82 e 83 anos, respectivamente).

O génio é muitas vezes reconhecido tarde de mais. Lá como cá.

Faye Dunaway e as Eleições


jpt,

 

 

Um dos motes desta campanha eleitoral foi a luta contra o “fascismo”, papão que tantos dizem encarnado em André Ventura. Dessa aflição brotou a tamanha e tão excêntrica abrangência de apoios e votos, içando Seguro à Presidência, numa adesão geral cujo fundamento mesclará a repulsa pelo tal “fascismo” e o apreço pela aparente decência pessoal do candidato, um bem raro entre os políticos nesta acinzentada era.

O resultado final foi uma vitória mútua. Seguro, que veio para “correr por fora”, após uma década de silêncio público pois abjurado pela redes clientelares do seu partido, teve um sucesso estrondoso: a eleição e uma enorme votação – “a vingança é um prato que se come frio”, presumo que terá desabafado junto da sua família elementar, pensando nos geringôncicos Costas&Santos Silvas do seu partido.

Já Ventura teve o sucesso que pretendia. Firmou-se como a voz nacional relevante que critica o “estado da arte” vigente. E reforçou o seu estrado parlamentar: pois (como escrevi no tal postal O Fim das Linhas Vermelhas) se o PSD se “absteve” de recomendar um candidato final, isso traduziu que o partido do governo não se considera mais longe dele e do CHEGA do que está do PS, pretérito interlocutor parlamentar privilegiado. Este duplo sucesso de Ventura poderá ser uma vitória de Pirro, se ele não souber dirimir a ambivalência resultante, conciliar os estatutos de vozeirão invectivador e de parceiro dialogante do governo (e do tal “regime”).

Ventura é um populista – o que é diferente de “popularucho”, o que muitos confundem -, e nisso segue demagogo. Capta os incómodos, objectivos e subjectivos, sentidos pelos residentes – e não apenas pelos nacionais, algo que é incompreendido por uma série de letrados austrais que, regurgitando um marxismo básico, de manual, vêm perorando inanidades sobre uma propalada indecente alienação dos imigrantes africanos e brasileiros em Portugal que simpatizam com o CHEGA. A esses incómodos populacionais – alguns com raizes factuais, outros apenas frutos de impressões de senso comum – Ventura aponta causas simplistas, torna-os tópicos do seu gritado discurso. Ganha votos.

Mas Ventura não é um fascista – estou crente de que se no poder (vade retro, Satanás) seria uma espécie amansada e até constrangida de Meloni. É certo que a sua ululada demagogia tem efeitos fascizantes em alguns nichos dos seus simpatizantes, convocando os piores preconceitos discriminatórios que subsistem entre nós. E não repudia o convívio dos escassos holigões neonazis que por aí andam. Mas no que proclama – e no vácuo programa partidário que afixa – não é um fascista. Na sua encenação de quem “vai (muito) à missa” e se enrola em modo extático na bandeira pátria, é apenas um bolor “reaccionário”, uma emanação de uma intelectualidade avessa à já velha modernidade, ao racionalismo.

Eu não venho ao blog para simular uma qualquer docência. Mas, face a este despautério que por cá grassa, permito-me recomendar algumas das parcas leituras que me aconteceram. E se alguém tiver paciência poderá, entre outras coisas, ler um breve artigo do conhecido Isaiah Berlin, o “The Counter-Enlightenment” (está no livro “Against the Current”, que decerto se poderá gravar gratuitamente numa das “piratas” na internet), para enquadramento geral. E depois, já sobre a nossa terra, ler “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone, vasta obra que esmiuça o relativo atraso da instauração em Portugal de um pensamento constitutivo das liberdades cívicas. É nesse âmbito, nessas raízes, que se deve comprender Ventura. E não na gritaria antifascista.

É de lembrar o destino daqueles tantos políticos – desde a patética inicial Katar Moreira até ao melífluo Santos Silva – que julgaram conveniente agitar o espantalho “fascismo” face a Ventura. Pois, e mesmo se entre essa gente Costa se tenha alcandorado a um imerecido bem-bom, convém atentar no naufrágio que lhes vem acontecendo nesta meia dúzia de anos face “ao André”.

Enfrentar este crescente fenómeno Ventura, prejudicial no seu cariz ultramontano, exige apenas três acções, uma gigantesca, as outras fáceis. A enorme é simples de dizer: melhores governos, um Estado mais curial. Outra é muito fácil: amputar os devaneios esquerdistas que o tacticista Costa levou para o poder. E nisso do Estado deitar borda fora o lastro do linguajar que foi dito “marxismo estrutural”, “decolonial”, “politicamente correcto”, agora “wokismo”, etc. Isso não implica que não se combatam exageros policiais, obstáculos de índole racista, a desigualdade prática entre homens e mulheres, serôdias desvalorizações homofóbicas, e outras causas sociais queridas a esses núcleos. Mas para isso esqueçam-se os radicais que assentam os problemas contemporâneos numa malvada essência lusa, presente e imorredoira desde Fernão Lopes, o Infante Santo, Gil Vicente e seus coevos. Ou seja, travem-se os discursos demagógicos que demonizam da sociedade portuguesa (pois ela não é demoníaca), os quais tanto vêm irritando as massas. Afinal estas menos ignorantes que tantos dos doutos funcionários públicos ideologizados.

Quanto à terceira acção? É facílima. Trata-se de compreender a razão de ser Ventura tão popular. Para isso basta ver um filme: “Network” (“Escândalo na TV”, era o título aquando da sua apresentação em Portugal). Tive a sorte de o ver, nos meus 13 ou 14 anos, no cinema de São Martinho do Porto, e tanto então me impressionou que disso me lembro. Realizado por Sidney Lumet, com argumento do multipremiado Paddy Chayefsky, interpretado por Peter Finch (o seu último filme, tendo ganho o Oscar entregue após a sua morte), coadjuvado pelos grandes William Holden e Robert Duvall. E pela belíssima Faye Dunaway…

Resumo a trama: uma estação televisiva está em queda de audiências. Faye Dunaway é a nova directora de programação, departamento que passa a gerir o sector noticioso – antes autónomo. Decide transformá-lo em espectáculo de entretenimento. Para isso usa o veterano apresentador dos “telejornais”, em crise existencial. Incentiva-o a dizer nas notícias o que “lhe vai na alma”, a expressar a zanga que o corrói. E ele grita, ao vivo, no horário nobre: “We’re as mad as hell, and we’re not going to take this anymore!” (qualquer coisa como “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”). E põe o povo a gritar isso à janela! Nisso aumentando, exponencialmente, as audiências da televisão.

O filme é de 1976. 50 anos depois é isso que se passa: as nossas estações televisivas são geridas por fayes dunaways, infelizmente menos bonitas. Que chamam, incessantemente, o André para lá ir gritar “estamos furiosos com esta bandalheira toda e não aguentamos mais”. E ele vai, com afã.

Isto passará, as audiências decrescerão. E mais rápido ainda se os fluxos de publicidade reduzirem.

(Reprodução da primeira das cinco partes da minha “Gazeta Semanal 6“, dedicada às eleições presidenciais e colocada no meu “O Pimentel“)

O homem mais bonito do mundo


Teresa Ribeiro,

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Envelhecer também é isto. Ver desaparecer um após outro os adultos que amámos ou admirámos quando éramos crianças ou adolescentes. Não é comparável a dor face à morte de um parente chegado ou amigo, com a que experimentamos quando nos morre alguém que amámos à distância, diluídos num colectivo de fãs anónimos. Mas movidos por emoções, às vezes tão antigas, podemos surpreender-nos com uma sensação de perda tão funda, tão nossa, que nos confundimos.

Robert Redford foi o meu sex symbol. Durante muito tempo sei que eu e uma infinidade de mulheres pelo mundo inteiro concordámos em considerá-lo o homem mais bonito do mundo. Que ainda por cima – oh céus! – somava beleza a talento e atitude, atributos que lhe granjearam prestígio e o respeito dos seus pares.

Derreti-me ao vê-lo em “O Nosso Amor de Ontem”, ao lado de Barbra Streisand, invejei a fascinante Faye Dunaway, que foi par dele em “Os Três Dias do Condor” e adorei a dupla que fez com Paul Newman, o homem que o lançou para o estrelato em “Dois Homens e um Destino” (voltariam a contracenar em “A Golpada”). Não vou despejar aqui todos os títulos de filmes que vi com ele. Os poucos que falhei foram rodados no final da carreira, por razões atendíveis: às nossas pessoas reais, não podemos fazer isso, mas numa relação de celulóide, ainda que íntima, é fácil evitar, sem culpa, interpor rugas e cabelos brancos nas lembranças que queremos preservar sem mácula. No caso, as da minha paixão eterna e desmesurada – porque adolescente – pelo homem mais bonito do mundo.

“O Atirador”


jpt,

 

(“The Shootist”, trailer)

Revi agora “O Atirador”, que vira apenas uma vez há já décadas. De 1976, foi o último filme de John Wayne, o Duke, autor da “imagem viril que representa a figura mais típica do herói do cinema clássico americano, que impõe respeito em qualquer grupo que se integre”, escreveu Manuel Cintra Ferreira. Esse individualista e carismático másculo, quantas vezes através da rusticidade tentando esconder a chaga interior da fragilidade. Wayne foi o símbolo desse mito cultural – entre o cândido e o conservador – “all-American hero”, estreita galeria desses raros que “que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando” nisso sendo benevolentes influências na sociedade.

Esta despedida cinematográfica foi realizada pelo grande Don Siegel, o qual tanto empurrou Clint Eastwood na sua rota de sucessão ao trono do Duke, após a morte desde em 1979. Tratou-se da adaptação de um livro de Glendon Swarthout, que fora publicado em 1975 – o que demonstra a celeridade do projecto fílmico, talvez até urgência sentida por Wayne, então sentindo a sua senescência.

Neste filme com o Duke contracenam renomados secundários, entre os quais o patriarca John Carradine. E também o seu amigo e compagnon de route Jimmy Stewart, o outro lado do tal “all-American hero” cinematográfico. Este sempre simbolizando o patriota digno e destemido mas bem menos abrasivo, pois puro e idealista. Estas duas faces do Jano norte-americano assumem-nas eles no no célebre The Man Who Shot Liberty Valance, de John FordPois se Wayne é o ríspido desbravador da fronteira, a cara e o corpo da expansão norte-americana, até reescrevendo a história a la carte como no The AlamoJimmy Stewart é o cidadão modelo, impregnado de benfazejo patriotismo despojado em Mr. Smith Goes to Washington e de benquerença no It’s a Wonderful Life de Frank Capra. Ambos os filmes verdadeiros manifestos de esperança, e neste último – até porque “o” filme de Natal durante décadas – símbolo de família e vizinhança e, mesmo, de aversão ao pecado da acédia e ao suicídio. Esta era uma imagem que bem lhe assentava, monogâmico consabido, consagrado piloto na II Guerra Mundial. E devoto crente – presbiteriano tal como o fora John Wayne, o qual, nos seus últimos anos de vida, aderiu ao catolicismo. Ambos também politicamente empenhados, nisso conservadores – tanto que o Duke pouco antes fizera o Green Berets, um apelo à guerra no Vietname.

Neste “O Atirador” também participa Lauren Bacall, a para sempre viúva de Bogart. Deste modo, através dela, no derradeiro filme de Wayne estão os três grande míticos “heróis” clássicos da tela: ele, Stewart e Bogart. Mas mais, ela encarna a personagem Bond (Rogers) – “That’s a crackerjack name for a woman…”, diz-lhe um risonho John Wayne quando ela declina o seu nome (passam assim a tutear-se, depois de um início agressivo), no que é uma alusão/convocatória ao então já falecido grande amigo do Duke, Ward Bond. Ou seja, o clã reuniu-se para o grand finale.

A história passa-se no século XX, em 1901, mostrando o final do far-west lendário – já há carros, é anunciada a electrificação e a pavimentação das estradas para muito em breve. O Duke é ele próprio, anacrónico, no papel do velho pistoleiro John Bernard Books, literalmente fora do seu tempo. Após muitos anos regressou a Carson City, onde era célebre por ali ter mortos dois outros pistoleiros, apenas um episódio do seu longo rol de duelos.

Cavalgara dias para reencontrar o dr. Hostetler (Jimmy Stewart), que muito antes lhe tratara graves ferimentos, dele esperando uma segunda opinião médica. Este confirma-lhe o primeiro diagnóstico havido: Brooks tem cancro e a morrerá muito em breve, no máximo terá dois meses de vida. Explica-lhe os tormentos que terá na agonia. E o dr. Hostetler – sim, esse já velho Jimmy Stewart, o tal afinal esperançoso do It’s a Wonderful Life, o patriota do Mr. Smith Goes to Washington, o real heróico piloto, o republicano e crente devoto – diz a Brooks – a esse Duke católico e tão conservador – que deveria arranjar outra forma de morrer. Pois seria o que ele próprio faria, se tivesse coragem para tal.

E é isso que John Wayne, o Duke, fará. Não vira o seu colt contra si-mesmo, seria uma contradição. Decide morrer com o tipo de dignidade que escolheu para a sua vida. Nas suas últimas horas é acompanhado por Bond, Lauren Bacall também-Bogart, que não o tenta demover, como Bogart nunca o faria. Para os passos necessários conta com a ajuda do jovem filho de Bond, a personagem de Ron Howard – um dos poucos actores-crianças que prosseguiram a carreira com notório sucesso.

E assim em 1976 o âmago da Hollywood clássica, as “estrelas” conservadoras da grande cinematografia de XX, produziram um belo manifesto pela eutanásia.

50 anos depois em Portugal o tema – uma verdadeira questão civilizacional – continua a ter poderosas resistências. Obscurantistas. Em 2023 aprovou-se uma lei sobre a matéria. Mas sob um primeiro-ministro ardiloso é certo, mas titubeante e incompetente, nada prosseguiu. O presidente da república, um indivíduo anacrónico, vetou-a ao limite do que lhe era possível e opõe-se-lhe por razões da sua incultura esbracejante. Agora, com um novo parlamento com diferente composição e novo governo, não será de esperar grandes desenvolvimentos: a questão conta com a oposição do patético partido comunista, a do crescente novel partido fascista, a da necrose democrata-cristã. E do partido conservador (dito, por epifenómeno histórico, “social-democrata”). Quanto ao partido “socialista”, atrapalhado com a sua visível degenerescência e tendo sido incapaz de efectivar a legislação enquanto foi governo, pouco se poderá esperar nesta matéria.

Para somar a este obscurantismo impõe-se a influência da igreja católica, a qual tendo o direito de invocar o seu rumo teológico nenhum deveria ter para estes arrobos de teocracia a que se propõe alcandorar, tentando minar o poder eleito. Sendo que vem reganhando peso político, até pela atrapalhação dos cidadãos – basta ver a “futebolização” mediática aquando do último conclave cardinalício, fazendo vingar um frenesim patrioteiro em torno de um hipotético Papa luso, como se fosse isso matéria de prestígio nacional, qual “The Best” ou quejando prémio a Cristiano (lá está…) Ronaldo.

Enfim, 50 anos passaram após a eutanásia cinematográfica do Duke. E os “conservadores” daqui seguem nestas pobres trevas.

Adenda: Citação tirada de Manuel Cintra Ferreira, “Clint e o Duke”, de Clint Eastwood: Um Homem Com Passado (Cinemateca Portuguesa, 2008, pp. 202-215). Para recordar Cintra Ferreira recomendo este “Manuel Cintra Ferreira: o crítico da cinefilia e da “BDfilia”” no belo “À pala de Walsh”.

(Postal para o meu “O Pimentel“)

Ferrari


Sérgio de Almeida Correia,

Tirando o facto de ser falado em inglês e Il Commendatore ser um cepo nessa língua, mostra bem o que foi o culto das Mille Miglia e porque tantos durante tantos anos se renderam aos seus encantos.

Belíssimas imagens, uma sonoridade invulgar de motores que deixaram muitas saudades, destacando-se os papéis de Adam Driver, da sempre espantosa Penélope Cruz e do jovem que se assume como Piero Lardi Ferrari. A caracterização de Carlo Chiti, com quem me cruzei algumas vezes, está excelente. 

A sequência final, após o acidente de Guidizzolo, embora espectacular, ficou um pouco aquém do que antecedeu e surge como uma quebra na narrativa. Mas nem por isso deixa de ser um belo filme de Michael Mann, concluído, curiosamente, no ano em que a Ferrari venceu a Corrida do Século.

A ver, e talvez a rever se houver tempo para apreciar alguns detalhes.

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O Pensamento “Woke”


jpt,

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Vejo o “E tudo o vento levou”, que há muito não revia. Chega agora numa cópia restaurada há cerca de uma década, a avivar-lhe, mesmo que em mera televisão, algum do brilho fílmico que incendiou os cinemas aquando do seu aparecimento, fenómeno que foi. Lembro-me, vagamente, da primeira vez que o vi, petiz junto à minha mãe em cinema de grande tela – talvez o “Monumental”, bem antes deste ser uma vulgata envidraçada de vendilhões do templo, talvez o “Império”, também antes deste ser um templo de vendilhões.

Ela adorava o filme, percebi depois e lembro agora, saudoso, que por venerar Scarlett, feita arquétipo de pessoa, suplantando-se entre a candura e a estratégia, numa franqueza ardilosa, símbolo da mulher adequado ao circundante, mais necessário de afirmar em tempos já tão distantes que a boa língua portuguesa sobrevivia sem patacoadas como “resilência”… Ao longo dos anos regressei ao filme algumas vezes, percebendo que – afinal – articula o dramalhão comercial com o desfazer dos aparentes estereótipos, pois não só desfraldando as fraquezas masculinas como escorrendo algum sarcasmo com o estertor daquela nada bela “Belle Époque” escravista. Num filme de guerra sem guerra, assim sem heroísmos encenados, nisso subreptícias justificativas…

Mas ontem nem pensei nisso. Sexta-feira à noite fiquei a ver o filme ao lado dela, Marília, enquanto o meu pai António ia lendo na sua poltrona, alheado como (quase) sempre da televisão. Tinham vindo passar o serão, agradados com a visita que lhes fizera de manhã no cendrário dos Olivais – onde acorrera por razões outras, – tendo-me demorado, ali, junto ao que deles me resta. Até me sentir qual o Anthony Hopkins no final do “O Pai” que vi há dias, que foi o sinal para partir, que nada é bom em demasia.

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Depois do tão esperado e obrigatório “After all, tomorrow is another day“, a mãe foi-se deitar e fiquei, como é habitual, de conversa com o pai. Ele disse-me que estou a fumar demais e, como é óbvio, resmungou com a pepineira do “Gone With the Wind”. Foi o (por mim ansiado) sinal para politizarmos. Precipitei-me para o controlo e puxei o filme atrás – coisa que ele nunca faz, estranhando estas novas tecnologias – até ao princípio. E logo concordámos no ditirambo contra este pensamento “woke”, paupérrimo arremedo de reflexão. Tanto barulho fazem os seus “activistas” para expurgar a história, para tutelar mentes, para “analisar” o “abissal” mundo. E para apenas saracotearem coisas como esta: enfrentar um filme destes, com o impacto que teve, quase quatro horas de filme, num argumento com as camadas que tem, e julgam relevante e necessário anunciá-lo como “produto da sua época e retrata preconceitos raciais e étnicos“, como se houvesse algo que não o seja. E é com esta pobre mentalidade que se agitam, ufanos na crença de que “para criar um futuro melhor é necessário primeiro conhecer e compreender a história“… Assim?

O pai abanou a cabeça, em desprezo, e nisso tanto concordamos na aversão a esta pobre gente adormecida, enlevada consigo própria, tanto que se dizem “Acordados”, essa sempre dita “esquerdalhada”. Avancei um pouco o filme e digo-lhe “vê esta cena, pai”, o baile no qual a jovem viúva Scarlett dança pela primeira vez, assim quebrando as regras do nojo, com o galhardo Rhett. E ela, enquando rodopia, diz-lhe “Mais uma dança e perderei a minha reputação para sempre“, ao que ele responde “Se tiver coragem, pode viver sem a sua reputação“. E o  meu pai, o Camarada Pimentel, sorri, anui, nem preciso de lhe explicar o que quero dizer – até porque já cheguei à idade em que não só o compreendo como também ele me percebe. “Querem a história sem “grão”, como o dos filmes antigos, a história como “cópia digital restaurada”, atiro. “É isso”, diz, aceita. E repete que estou a fumar demais. Depois vai dormir. Estando, claro, acordado mas nunca “woke”…

Memória cinéfila de Lisboa


Pedro Correia,

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Monumental (1951-1984): imponente mas malogrado cineteatro

 

Percorro ruas e avenidas de Lisboa e vou-me lembrando dos cinemas que existiam ainda não há muitos anos espalhados pela cidade. Quase todos desapareceram já, devorados pelos novos hábitos de consumo, que nos mandam recolher a casa e olharmos a vida e os filmes pelo quadradinho da televisão.

 

Na Avenida de Marquês de Tomar, atrás da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, existiu em tempos o cinema Berna: abriu em 1970, com uma fita que fez “estrondoso sucesso”, como então se dizia: Borsalino, com Jean-Paul Belmondo e Alain Delon. Outros tempos, outros hábitos: a filmografia francesa arrastava multidões.

 

Outro cinema estreado por essa altura com uma película falada em francês foi o Satélite, ali ao Saldanha, espécie de irmão mais novo do imponente mas malogrado cineteatro Monumental – onde, em criança, Mary Poppins me deslumbrou. Coisas da Vida, assim se chamava a fita inaugural do Satélite, com Romy Schneider e Michel Piccoli. Esteve cerca de um ano em cartaz, algo impossível nos dias que correm.

 

E havia o Apolo 70, atracção máxima no drugstore do mesmo nome, na Rua Júlio Dinis, ao Campo Pequeno: vi lá um dos filmes da minha vida: Apocalypse Now, de Francis Coppola.

 

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Apolo 70 (1971-1990): esteve muito na moda, mas mal chegou à idade adulta

 

No Império – outro cinema que fechou, situado na Alameda Afonso Henriques, vi em estreia Encontros Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg. Inesquecível.

 

Nostalgia e cinefilia são dois vocábulos que caminham a par: por mim, associo antigos cinemas de Lisboa a filmes que jamais passarão de moda. No Camões, perto da praça do mesmo nome, vi a Lolita, de Stanley Kubrick. No Caleidoscópio, em pleno jardim do Campo Grande, chorei a rir com Uma Noite na Ópera, dos Irmãos Marx, e empolguei-me com Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock.

 

Ligarei sempre o Berna a outro filme de Spielberg, Os Salteadores da Arca Perdida, e a uma película que na altura me encantou e jamais revi: Bem-Vindo, Mr. Chance, do malogrado Hal Ashby. No Satélite, vi A Regra do Jogo, de Jean Renoir. No Mundial (às Picoas), E Tudo o Vento Levou. No São Luiz (ao Chiado), vibrei com o Correspondente de Guerra, de Hitchcock. E recordo como se fosse hoje a Guerra das Estrelas, de George Lucas, em estreia no ecrã gigante do Monumental.

 

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Cinema Alvalade original, inaugurado em 1953 na Avenida de Roma

 

No Estúdio, sala associada ao Império, esteve em exibição durante mais de um ano uma fita do Botsuana que fez furor: Os Deuses Devem Estar Loucos. Não a perdi, claro. Nem Kramer Contra Kramer no City Cine (Picoas), Um Cadáver de Sobremesa no Terminal (em plena estação ferroviária do Rossio, outro enorme sucesso de bilheteira na estreia deste cinema, em 1976), o francês Uns e os Outros no Star (na Avenida Guerra Junqueiro) e A Semente do Diabo no Xenon (na Avenida da Liberdade).

 

Sem esquecer o mítico Quarteto, onde assisti a filmes atrás de filmes – do Expresso da Meia Noite (1978) até Babel (2006). Ou o Alfa (na Gago Coutinho), onde vi Os Pássaros, de Hitchcock. Sem esquecer o Estúdio 444, na Defensores de Chaves; o Pathé (antigo Imperial), a Arroios; o Roxy (antigo Lys), na confluência da Almirante Reis com a Rua dos Anjos; o Aviz e o Ávila, na Duque de Ávila (assisti lá, na habitual terceira fila a contar do ecrã, a Vontade Indómita, de King Vidor, com Gary Cooper); o Castil, na Rua Castilho; o Fonte Nova e o Turim, na Estrada de Benfica; o ABCine, na Praça de Alvalade; o Roma, na avenida homónima; o Cine 222, na Avenida da Praia da Vitória; o Cinebloco, na 5 de Outubro; o Europa, em Campo de Ourique; o Zodíaco, na Rua Conde Redondo; o 7.ª Arte, junto ao viaduto dos comboios de Entrecampos; e o Cine AC Santos, num espaço comercial da Avenida da Igreja (onde vi A Morte de um Apostador Chinês, de John Cassavetes).

 

E, claro, havia o Eden, nos Restauradores: recordo-me ali da antestreia de um filme português em grande estilo, ao jeito de uma gala de Hollywood – A Vida É Bela?, de Luís Galvão Teles, com Nicolau Breyner no principal papel.

 

Do outro lado da Avenida, era o Condes: vi lá Serenata à Chuva e A Rainha Africana, entre outros clássicos. Mais acima, o Tivoli (onde apreciei o delirante Doutor Estranhoamor, de Kubrick) e o São Jorge, vocacionado para produções britânicas (uma das últimas a que ali assisti foi O Paciente Inglês).

 

Entre os meus favoritos, durante anos, contava-se o Londres, na Avenida de Roma, que chegou a ter as cadeiras mais confortáveis das salas de Lisboa: vi lá em estreia A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, ainda com Mia Farrow como protagonista. Também o King, inicialmente chamado Vox, que acompanhei mesmo até encerrar por absoluta falta de investimento e manifesta falta de espectadores. VolverLos Abrazos Rotos, de Pedro Almodóvar, foram dois dos últimos filmes que ali me cativaram. Nunca os esquecerei.

 

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Nimas, de 1975: um dos raros sobreviventes da era do cinema com porta para a rua

 

Destes espaços autónomos que nos proporcionaram tantas horas de prazer restam muito poucos. Praticamente só o Alvalade, com traça alterada mas ainda resistente, na garbosa Avenida de Roma, o Nimas – inaugurado em 1975, na Avenida 5 de Outubro, com um filme que permaneceu largos meses em cartaz: Chove em Santiago. E o centenário mas renovado Ideal (que também já se chamou Camões), na Rua do Loreto.

 

Nada garante que não venham a fechar também num prazo curto. 

 

Lisboa é uma cidade que descura a sua memória cultural. E que parece ter deixado de gostar de cinema. Agora o que está a dar são as pipocas. 

Cinefilia pouco eficaz


João Pedro Pimenta,

Antes do filme propriamente dito começar, desenrola-se cerca de meia hora de trailers, anúncios publicitários, entre os quais aqueles longuíssimos das operadoras de redes móveis, anúncios “institucionais” e, para acabar, mais outro a apelar para que as pessoas vão ao cinema. Isso antes de uma fita de mais de duas horas e meia.

Percebo a necessidade de publicidade, mas com tanto preliminar, dispensava ao menos o anúncio de apelo às ida às salas de cinema, uma coisa supérflua e redundante, e já agora que as redes telefónicas pusessem anúncios um bocadinho mais curtos. Se assim for, ao menos reinstituam essa nobre tradição cinéfila que é o intervalo entre filmes (pedir um bar à antiga em lugar dos postos de venda de pipocas e refrigerantes já me parece demais).

Já agora, o filme era o tão esperado Napoleão, de Ridley Scott. As cenas de batalha são boas, mas impunha-se mais veracidade histórica, como já tinham avisado, e a coisa resultaria melhor num díptico, um Napoleão com parte I e II. Assim sendo, fica um semi-épico de cadência irregular, um trajecto difícil de perceber e partes saltadas de forma inexplicável.

Diaconisas Sem-Remédio


Pedro Correia,

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Volto hoje a apreciar muito os filmes das décadas de 80 e de 90, quando ainda não havia os tais “consultores de intimidade” que agora pululam por Hollywood à espreita de um mamilo ou uma nádega – os novos censores, de tesoura em riste. A mando das Diaconisas Sem-Remédio.

Havia muito mais liberdade nessas duas décadas do que existe hoje. Nem se compara.

O Caçador


jpt,

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[The Shadows – Theme from The Deer Hunter 1979]

Amigos dados ao cinema, oficiais do ofício, talvez (e muito provavelmente) contestem Cimino, uma espécie de narrador oitocentista. Passantes ex-esquerdistas, agora identitaristas – ainda que, por isso mesmo, sempre pouco ou mal lidos -, talvez ainda critiquem o “reaccionário” Cimino. Mesmo assim partilho o que o zapping me trouxe, que talvez a alguém interesse. No canal Fox Movies está disponível desde hoje “O Caçador”. Um filme inesquecível…, que acabo de rever passados tantos anos. Com gáudio.

(E com o tal final imperdoado pelos comunistas de várias extrações, e seus “amigos”. Esse mesmo que a história veio confirmar, já agora… E aqui o deixo, para que tantos “intelectuais” de pacotilha possam compreender o que se vem passando (também) desde há décadas. À revelia das suas, tão erradas, perspectivas sobre o real, presente, passado… e futuro. Cimino, o tal “conservador”, “reaccionário”, entendeu  – no tempo próprio  – o que se passava. Os outros, ufanos de si, nada perceberam, perorando).

 

[The Deer Hunter ending]

 

[Michael Cimino on the final scene in The Deer Hunter]

Kevin Spacey


jpt,

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Na Grã-Bretanha Kevin Spacey foi agora ilibado das acusações de crimes sexuais, que quatro candidatos a indemnizações lhe tinham levantado. Em Outubro passado também fora ilibado de acusações nos Estados Unidos.

O processo que lhe foi feito, nas suas múltiplas vertentes, foi horrível – e sim, daqui a uns anos haverá um filme de “Hollywood” mostrando-o como vítima e todos o considerarão como tal. Mas durante estes últimos seis anos fizeram-no passar um verdadeiro Calvário. Não apenas no ponto pessoal – vasculhado, enxovalhado, julgado, ostracizado. Mas também arrombando-o profissionalmente: despedido, apeado, censurado – chegou-se ao ponto de retirar as suas cenas num filme e atribuir o seu papel ao velho Christopher Plummer, o qual teve o desplante de, antes de morrer, aceitar essa função.

Em Dezembro de 2017 aqui deixei o postal “Viva Spacey“, enjoado com a perseguição que lhe faziam e notando o perverso cariz político de todo este processo. Recupero algumas palavras, para quem não tenha paciência para ir ler o texto todo: 

esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey – despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita “esquerda europeia”, sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo “genderista” / “identitarista”. Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos “alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser “promíscuo” (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas – por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma “fraude”, disse o primeiro delator [Anthony Rapp]. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político “gay”. Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido…“.

Enfim, deixo votos que o extraordinário actor possa recuperar a paz de espírito, e nisso a sua vida afectiva e sexual. E também o estatuto profissional que tanto merece, com o seu enorme talento.

Oppenheimer e a Bomba Atómica


João André,

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À esquerda, Robert Oppenheimer. À direita, Cillian Murphy em Oppenheimer.

Estreou esta semana Oppenheimer, o novo filme de Christopher Nolan. Não o vi ainda, embora tencione fazê-lo. Nolan é um cineasta que me enche as medidas quando vejo os seus filmes, embora raramente eu a ele regresse. Não é alguém que me deixe com vontade de esclarecer alguma coisa na história ou na mensagem. Nisso penso que ele é algo simplista (Nolan é um admirador de Michael Bay, cada um que tire as ilações que entender), mas é um cineasta fantástico no que diz respeito à imagem. Não espero que Oppenheimer seja diferente.

Não é no entanto o filme em si nem Nolan que me levam a escrever. É a história da construção da Bomba Atómica. É que esta é uma história incrível, com personagens fascinantes – Robert Oppenheimer talvez seja de facto a mais complexa de todas – e todo um cenário, desde o início do século XX até 1952, quando a primeira bomba de hidrogénio (ou bomba termonuclear, ou bomba de fusão) foi detonada. E toda esta história é contada majestosamente por Richard Rhodes na sua monumental obra The Making of the Atomic Bomb (link na Amazon, link na Wikipedia), um livro fenomenal que já li duas vezes (e ouvi em audiolivro outras duas) e que infelizmente não parece estar publicado em português.

Não vou eu contar num post uma história tão complexa que precisou de mais de 800 páginas para ser colocada em papel. No entanto aponto para pequenos pormenores como a dissolução de duas medalhas Nobel em Copenhaga (para as esconder dos nazis), as preocupações filosóficas de Bohr (que emerge como o maior gigante numa história de gigantes), uma visão de Leo Szilard que evocava um livro de HG Wells, um duo de tia (Lise Meitner) e sobrinho (Otto Frisch) que fizeram descobertas fundamentais no campo, um ataque às instalações da Norsk Hydro (revisitado em Hollywood anos mais tarde) seguido da história de um afundamento de um ferry e de um famoso violinista, descrições horrendas do resultado de bombardeamentos, uma narração em segunda mão das descrições de narradores infiáveis sobre um encontro entre Heisenberg e Bohr, a fuga de Bohr da Dinamarca, a origem de nomes de código, a escolha do cientista mais rápido na equipa de Fermi para levar amostras para análise, etc. O livro é rico em detalhes, explica os princípios técnicos com clareza e simplicidade e pouco a pouco para os leitores os poderem apreender e ainda nos leva mais longe que simplesmente Agosto de 1945, chegando então à “Super” de Teller e Ulam detonada em 1952.

O filme de Nolan foi baseado no livro American Prometheus, uma biografia de Oppenheimer. Será talvez a melhor fonte para o filme, dado que se debruça sobre especificamente Oppenheimer, não sobre a bomba. No entanto, para quem queira adquirir mais informação sobre aquele que terá sido o maior projecto científico da história da Humanidade, o livro de Rhodes será inultrapassável.

Clint Eastwood


jpt,

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(Ontem Clint Eastwood fez 93 anos. No FB da “lisboa” erudita vai polémica sobre o homem, teclam-no qual “fascista”, pois de “direita”, e, pior ainda, “machola” – um terrível neo-insulto – e etc. Alguns insurgem-se e defendem-no…, citam-se filmes que o “eximem” a tais pecados, etc. Ao ver o relambório lembrei-me de velhos postais que sobre ele botei ao longo dos anos no meu antigo blog ma-schamba. E depois encontrei este, de 2016, no qual mais ou menos resumi o que penso do autor. É certo que também poderia embrulhá-lo em papel de jargão, e com laço conceptual, e até o poderia candidatar a participar no concerto de trinados contra a “macholice”. Mas não me parece que viesse a entoar no tom certo. Por isso aqui o coloco, para quem tenha paciência. Ou goste do Clint:) 

Se na actualidade há algum bardo por aí é este e há muito que o encontrei, a fazer-me a vida. De todos os vivos é o meu cineasta preferido e, também, o meu pensador preferido. E compreendo que nos filmes dele, até nos falhados, fico feliz, suspendo todo o juízo crítico. Ora, não é isso o amor? Segue ele pensando o mundo com uma intensidade e uma densidade ímpares, incompreensíveis para os “bem-pensantes” das ideologias lites e muito para além dos pobres boçais que dele retiram o culto de colts, magnums ou drones. Julgo que a paupérrima apreensão da obra de Clint é mesmo o espelho do superficialismo militante do hoje em dia.

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Talvez ele nunca se tenha tão condensado como aqui. Em “Unforgiven” – naquele seu final avassalador – Clint, malvado, alcoólico, desesperançado, esmagado pela culpa, destino e responsabilidade, ali postado por mero interesse interesseiro, em busca de uma quantia prometida por um assassinato vingativo, e por tudo isso o único capaz de restaurar uma qualquer justiça e alguma moral, grita “é melhor que enterrem Ned [Morgan Freeman] decentemente … que não mutilem as putas“, e volta-se para trás – para a mole, a “demos”, escondida na noite chuvosa, tal como vive escondida na timorata cumplicidade com o mal dominante, e à qual acabara de ameaçar de matar as famílias e queimar as propriedades. E culmina “ou eu regresso e mato-vos a todos, seus filhos da puta“, e é aí que a bandeira americana, semi-obscurecida pela intempérie noctívaga, qual dantesca, surge, ela sempre ícone do eastwoodianismo, e não só dele – signo ali para a desinterpretação dos militantes profissionais.

Clint está a abandonar a cidade, acabou de matar seis homens, um desarmado a sangue-frio (o dono do bar), outros cinco em duelo. No rescaldo matou Gene Hackmann a total sangue-frio, em tiro queima-roupa de sem-misericórdia  – e mesmo que em filme já de 1992 isto de uma estrela como Eastwood abater deste modo uma outra estrela cinéfila magna como Hackmann é uma ruptura com o cânone, que um filme de Eastwood não é uma inútil pantomina tarantiniana, tem a grandeza de moldar, é produção de mundivisões.

É um momento único, uma síntese antropológica crucial: não só o trivial (aqui na gasta pátria desconhecido e desensinado) de que o real não é bi-cromático, pobre. Mas sim da complexa ética fundamental, de que o mal é constitutivo, essencial, um valor, plástico, melhor, úbere. Bem. E isso confunde. Não  a esta gente, a assertiva, vã. Mas o mundo, lá fora.

Em “Grand Torino” destrói o politicamente correcto, afirmando o quão o verdadeiramente importante está para além da verbalização, o como nada lisa é a realidade. Um filme que é uma lição, reflexão, sobre o que somos mudamos, sobre o rugoso do que expressamos.

Recentemente, em “Atirador americano”, o tão mais-velho vem majestoso. É o grande filme sobre a guerra desde que Kubrick se debruçara em “Full Metal Jacket”, refutando-a. Há aquela coisa da fantasia realista, que sobre o assunto Spielberg mimetizara nos frenéticos e abissais primeiros minutos do “Soldado Ryan” – mas que destroçara logo de seguida no patrioteirismo de rebuçado do resto do filme. Mas agora Clint, o maior de todos nós, humanos, ultrapassa os discursos alheios. Sim, a realização de cume, de um realismo ríspido, cruel, coloca-nos no palco da guerra, como se seus agentes e não meras vítimas. Mas muito, muitíssimo, mais do que isso, e muito mais ainda do que os filmes de mensagem, ali está uma reconstrução cultural fantástica, um etnógrafo assombroso, o cinema antropológico levado ao inultrapassável, um filme sobre “maiorias indígenas” exagero eu.

Diz o herói – e como podem os amantes da Ilíada e da Odisseia refutar os textos actuais sobre heróis, e sua ira até semi-divina? – que luta por “Deus, Pátria e Família” E nós sabemos, até porque os diálogos logo ali o negam, que o seu “deus” quase inexiste e também que a família se lhe desvanece. Fica, apenas, mas um Apenas maiusculizado, a “pátria”, essa que, afinal também canibal, o devasta na guerra, e tão mais aos seus circundantes, desde o irmão à última e esquiva, mas determinante, personagem do filme. É por isso que Clint é não só o Cineasta mas o grande intelectual deste virar de milénio, há décadas a afirmar a ambivalência, a rugosidade e, acima de tudo, as crostas e pústulas dos valores que perseguimos e afirmamos. Sem que isso tudo implique que os abandonemos. E é essa (sua) adesão consciente à ambivalência que se chama coragem. E é isso que o cada vez mais ancião nos lega, em formato de partilha, constante, filme a filme.

Quem me dera poder bradar “Clint rules”. Mas cada vez mais me parece que não, que neste mundo facetado, tantos o tresvêem, impercebendo-o como o verdadeiro iconoclasta de XXI.

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Veio-me tudo isto agora à cabeça. Porque é o 4 de Julho. Mas também porque num tão recente ontem, em dia de grande concílio, no meu aparente meio (profissional) alguém próximo se insurge com os meus ecos, coisas de mais de duas décadas a olhar os ademanes das gentes do meu país. De “tom colonial”, dizem-me, num óbvio “neo-colono!”, culminaram-me, exasperando-me. Tanto que nem respondi com substância mas apenas com as invectivas merecidas. Dias agora regresso, assim, de longe. Apelando ao Clint, claro, o Eastwood, o tal tipo de direita, fundindo velhos postais que lhe dedicara. Mais albergando-me neste “White Hunter, Black Heart”.

O filme é uma eulogia de John Huston, a propósito do seu “Rainha Africana” (com o herói Bogart e a deusa Hepburn). Para além das peripécias da realização daquele filme em África, do retrato do idiossincrático realizador e sua relação com o mundo de Hollywood, centra-se na sua paixão pela caça: a personagem hustoniana quer matar um elefante “porque é um pecado” e ele o pode fazer, tem para isso poder, uma cena liminar, excelente. A remeter-nos para o mundo, para o além dos valores.

Mas há muito mais, numa sublime aparente contradição, o húmus do filme. O avatar de Huston é um democrata, antifascista (retratam-se os anos 1940s). Insulta uma colona inglesa anti-semita, provoca uma desigual luta com um colono racista inglês, por isso sendo espancado – nisso explicitando a semelhança das atitudes, as do racismo nazi e do racismo colono. É, como os meus tão mais queridos agora, um democrata, de “esquerda” (“liberal”, dir-se-ia nos tempos lá na América), certo que em tom blasé mas basto empenhado. Depois vai à caça, cria uma ligação com o seu guia. Que conduz, patrão paternalista, e por mero egoísmo descuidado, desinteresse desinteressado, à morte. É no fim do filme que Eastwood explicita o título, os tamboristas tamborilando “caçador branco, coração preto“. Apesar das boas causas, daquilo de “esquerda”, da atitude (e do álcool), da aparente generosidade e solidariedade, da composição de fraternidade, igualdade e (desejada) liberdade.

É talvez por isso que nunca Clint entra nas notas de rodapé dos “papers” sobre a “colonialidade” ou sobre o “colonialismo”. E por isso que a “esquerda” sempre tão solidária o diz de “direita”. E, também, por isso que um tipo que lhe vê os filmes tem qualquer coisa de … “colonial” – como a mim, de mim, me dizem. “Neo” ou outra coisa qualquer.

Mas ao negrume no coração, e à bruma nas mentes, é alhures que a encontro.

Adenda: para quem tiver paciência deixo ligação a outro antigo postal, sobre um dos filmes da série “Dirty Harry”: “Clint, o “Faxista“.

 

Em todo o lado


João Campos,

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Fotografia de J. Brown/AFP/Getty Images, na Axios.

Que me lembre, a edição de 2023 dos Óscares foi a terceira em que vi um filme de que gostei mesmo muito a ganhar o principal galardão.*

Julgo que em Abril, quando Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo estreou nas salas portuguesas ninguém esperava que, onze meses volvidos, um filme tão peculiar, tão distante na forma e no tom das clássicas películas “isco de Óscar” que estreiam em Novembro e Dezembro (nos Estados Unidos; mais tarde em Portugal, por norma), viesse a ganhar sete em onze estatuetas douradas, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador (realizadores, neste caso), Melhor Actriz Principal, Melhor Actriz Secundária, Melhor Actor Secundário, Melhor Montagem e Melhor Argumento Original. E no entanto cá estamos: um filme que cruza uma aventura de ficção científica com um drama familiar em tons de comédia surrealista conquistou o público e, devagarinho, acabou por convencer a Academia, tradicionalmente conservadora nestas escolhas.

Uma conquista merecida, pois se quisermos ser honestos, o conceito básico de Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo tinha tudo para correr mal. Vejamos a premissa: durante uma inspecção do IRS às finanças da sua pequena lavandaria familiar, Evelyn (Michelle Yeoh), imigrante asiática de primeira geração, vê-se arrastada para uma aventura que atravessa vários universos paralelos e múltiplas versões de si mesma, isto enquanto no seu próprio universo tenta perservar o seu negócio, salvar o seu casamento com Waymond (Ke Huy Quan) e evitar alienar a sua filha adolescente, Joy (Stephanie Hsu). Como é bom de ver, há aqui material que daria para fazer vários filmes. Daniel Kwan e Daniel Scheinert podiam ter optado por fazer um drama familiar mais convencional – mais ao jeito dos Óscares – sobre as vagas de imigração, as diferenças geracionais entre quem fica no país de origem, quem parte, e quem já nasce no país de destino, e os traumas que daí resultam. Também podiam puxar pelo lado mais queer da narrativa, explorando essa faceta da personagem de Stephanie Hsu. Ou podiam ter avançado mais directamente pela ficção científica – tanto em formato aventura, saltando pelos universos paralelos (conceito tão na moda nos blockbusters destes tempos), como num registo mais meditativo pelas inúmeras possibilidades que as múltiplas versões de cada um de nós encerram. Qualquer uma destas ideias, se bem executada, poderia dar um bom filme. Qualquer combinação de dois destes conceitos, idem. Todos ao mesmo tempo era no mínimo improvável.

E, no entanto, resulta maravilhosamente. Há uma elegância frenética na forma como Tudo em Todo o Lado Ao Mesmo Tempo mistura e remistura géneros e convenções narrativas, com um argumento espantoso, uma realização segura, uma montagem arrojadíssima – a premissa assim o exige. E, claro, há um elenco incrível – Michelle Yeoh, sempre deslumbrante, a equilibrar de forma superlativa sequências de acção mais alucinantes com os momentos mais dramáticos (e os mais absurdos). Ke Huy Quan – lembram-se do Short Round do segundo Indiana Jones? – faz-lhe um magnífico contraponto, e Stephanie Hsu teve aqui uma estreia em grande – estava também nomeada, mas viu Jamie Lee Curtis vencer pelo seu maravilhoso desempenho como Deirdre, a auditora do IRS a investigar as contas de Evelyn.

(Abro aqui um parêntese a propósito de Jamie Lee Curtis, pois a sua vitória gerou online dois comentários de sinal distinto, ainda que relacionados, que merecem ser dissecados. O primeiro, que esta distinção terá sido mais um prémio de carreira, como a Academia gosta de dar por vezes; e o segundo, recuperando a polémica recente sobre nepo babies – filhos de gente de Hollywood que singra em Hollywood não tanto pelo talento, que podem ter ou não, como pelas portas que os papás e as mamãs abrem, de forma directa ou indirecta. Ora, se este foi um prémio de carreira, então a Academia decidiu premiar uma carreira muito invulgar, daquelas que ficam na memória de um público especializado, mas não da crítica – afinal, Jamie Lee Curtis optou sempre por papéis menos convencionais, em filmes de género que decerto lhe terão dado imenso gozo (ninguém faz aqueles Halloween todos sem amor ao cinema de horror), mas que não seriam as primeiras opções de outras actrizes com o seu talento e com as suas ligações. E se deverá ser inegável que ser filha de Tony Curtis e de Janet Leigh lhe terá aberto imensas portas, parece-me também certo que com essas ligações, e com o talento e o carisma que possui, podia ter andado confortável pela alta roda de Hollywood. Ao invés disso, fez aquilo de que gosta, e fê-lo muito bem. Stephanie Hsu teria sido uma excelente vencedora, tal como a magnífica Angela Basset – e decerto Hong Chao e Kerry Condon, mas não vi os seus filmes; nem por isso, porém, deixou a estatueta dourada de ficar muito bem entregue.)

Ver Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo é como assistir a um acto de malabarismo que vai acrescentado mais e mais bolas, mas que continua a mantê-las todas no ar, como que por magia. Comovemo-nos com o drama de Evelyn, divertimo-nos com a sua aventura tão improvável, ficamos abismados com alguns momentos – eles estão mesmo a mostrar aquilo?. E percebemos que tudo funciona – a aventura é entusiasmante, a comédia faz-nos rir como poucas na memória recente, e a história familiar comove do início ao fim, com um final que não precisa de ser delicodoce ou melodramático para nos deixar satisfeitos. E demonstra que contar uma história dramática não requer a solenidade e a seriedade, quando não o cinismo, de outros filmes contemporâneos. Ver um filme desta natureza, produzido por um estúdio independente que se tem notabilizado por projectos mais arrojados e alternativos, com um elenco de actores e actrizes que muitos já consideravam “fora de prazo”, a conquistar tantos prémios é algo extraordinário, se não for mesmo irrepetível. Aproveitemos, então.

Duas últimas notas sobre os Óscares: a primeira, saudando Guillermo Del Toro pela merecidíssima vitória na categoria de Melhor Filme de Animação com o seu “Pinóquio”, contando uma história que tão bem conhecemos de forma brilhante e com uma animação stop-motion excepcional. A segunda, lamentando que Ice Merchants, a curta de animação do português João Gonzalez, não tenha ganho o prémio na sua categoria, que me pareceu ter uma competição fortíssima. Julgo que a curta ainda está nas salas, e recomendo muito: com Óscar ou sem Óscar, são quinze minutos de pura magia no cinema.

*Os outros, já agora, foram O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei em 2004 e A Forma da Água em 2018