
No final de uma manhã do mês passado recebi em casa a notícia da inesperada morte de um velho amigo. Acabrunhado fui até ao café das redondezas, na senda do abraço com alguns amigos comuns que por lá estivessem…
A ninguém encontrei. Fiquei ao balcão, de imperial na mão, em silêncio a resmungar a vida que segue tão preenchida pelas constantes mortes dos próximos (”habitua-te!”, dizem-me, como se isso valha para algo…). Na televisão (re)começou um noticioso. Notei a locutora, que abomino, aquela da longa cabeleira loura. O rodapé (que os grunhos chamam “oráculo”) indicava que a notícia tratava do julgamento do assassino de Henry Nowak, o rapaz inglês que no seu estertor gemeu “não consigo respirar”, colhendo a indiferença dos polícias que o rodeavam, preocupados com o queixume do seu verdugo, que invocava ter sofrido uma qualquer “microagressão” racista da sua vítima.
Ainda mais amargo do que me é costume murmurei mudo para a da cabeleira loura lá no ecrã: “não choras agora?, p… de m…”. Explico-me, esta é aquela que há seis anos incrementou a sua popularidade (os do “oráculo” chamam-lhe “ratings”) por ter chorado ao noticiar a morte do norte-americano Floyd, que gemeu “não consigo respirar” sob o inclemente joelho do polícia que o imobilizara durante sete minutos.
Como então escrevi, surpreendeu-me que a sensível da cabeleira loura não tivesse também chorado ao anunciar a morte, nessa mesma época, de Ihor Homeniuk, aquele ucraniano assassinado pela polícia fronteiriça portuguesa, após horas de sevícias em pleno aeroporto da Portela – ao qual agora alguns dão o nome do germanófilo, e ex-candidato a “generalíssimo” português, Delgado. Também me surpreendera – até porque a da cabeleira loura é oriunda da Ilha, assim porventura mais atenta às “minudências” de Moçambique – que não tivesse chorado devido à morte do moçambicano Abdul Razac. Assassinado nessa mesma época pela polícia da Beira, após horas de sevícias sofridas num esquadra policial, para a qual fora arrastado devido a ter protestado uma acção de alguns agentes: decorria um confinamento devido ao Covid, os polícias interromperam um jogo de futebol de rua, dispersaram a rapaziada, confiscaram a bola. E puseram-se a jogar, o que conduziu Razac ao (imprudente) protesto que lhe custou a vida.
Ontem, entre tantas evocações de Luís Represas (até a minha), no FB notei várias referências a um assassinato em Xinavane, no sul de Moçambique. Os filmes visíveis são brutais – e por isso não os “partilho” (quem tiver curiosidade, até mórbida, bastar-lhe-é fazer a busca “Xinavane” e logo encontrará). Uma grande operação policial, com imensos agentes que circundaram um restaurante onde estava um procurado criminoso (dito raptor, violador e homicida). Alguns agentes entraram na sala, quatro ou cinco apanharam-no e de imediato ele foi abatido com vários tiros, os polícias sairam deixando o cadáver, seu sangue esvaindo-se. Tudo isto filmado pelos telemóveis da clientela, tamanha a sensação de impunidade que os agentes policiais têm – a qual, como é óbvio, advém da prática comum.
Não vou elaborar sobre o que um episódio destes pode indiciar sobre a realidade moçambicana. Já o escrevi, deixei de perorar sobre a actualidade daquele país – nada ganho com isso e não tenho paciência para aturar os fascistas austrais que me vinham chatear sobre o assunto.
Mas é assunto do meu país que a televisiva cabeleira loura não venha chorar ao acompanhar a transmissão daqueles breves filmes, decertos apetitosos “Alerta …” para animar as “notícias”. Pois para esta gente, das cabeleiras louras aos calvos, tudo o que não corresponda ao molde “branco supremacista” (gringo) vs “racializado negro” (gringo) não convoca choraminguices.
“Que se lixe Xinavane”!, dizem. E rematam, tão progressistas e solidários se dizem, pensando “é entre “eles””!
De facto, mais vale a mira técnica do que esta gente.
Outro Assunto
Ontem deixei este postal sobre a polémica relativa ao “Odisseia” de Nolan, devida ao realizador ter escolhido uma actriz negra para representar o arquétipo Helena de Tróia. Lá me explico nisto de considerar isso perfeitamente normal, mais do que aceitável – até podiam ser todos negros, qual o problema? Pois não só Helena de Tróia não existiu como (qualquer) representação não exige similitudes de aparência de um realismo mimético (”Ran” de Kurosawa é o “Rei Lear” de Shakespeare e a rapaziada pró-CHEGA não anda para aí aos gritos com isso). Ou seja, Nolan tem toda a legitimidade para escolher participantes para o filme que não correspondam à tradicional imagem que temos sobre a Antiguidade Clássica, Helénica. E os protestos não têm cabimento.
Um amigo meu leu o postal. E logo me enviou um curioso texto. O qual apresenta um facto interessante sobre o filme. O cão escolhido para representar Argos, o fiel companheiro de Ulisses, aquele que reconhece o envelhecido globe-trotter aquando este aporta a Ítaca, é um podengo português. Escolhido porque esta raça (sim, para os cães “raça” é um conceito com substância real, diferentemente do que acontece sobre os homens, no qual não tem qualquer fundamentação biológica. Nem cultural..) já existia na Antiguidade homérica e naquela região.
Atente-se bem no paradoxo: para representar os cães há um cuidadoso cuidado “realista”. Mas para os homens até se faz gala em recusá-lo. Mais depressa se apanha um mariola demagogo do que um portador de deficiência crural…



























