
Não sei o que me deu. Li ontem uma crónica da Clara Ferreira Alves publicada na semana passada no seu poiso habitual, a revista do Expresso. Não lia nada dela há pelo menos dez anos.
Senti-me dividido.
É bom saber que continua igual: nem tudo muda à face da Terra.
Mas eu talvez preferisse que estivesse diferente.
Começa por relatar um infortunado fim-de-semana que passou em Madrid, com 40 graus neste Verão – tal como em qualquer outro. Hospedou-se em hotel de luxo – dela nunca se espera menos – e ali foi picada por um bicho que não conseguiu identificar. Talvez vulgar melga, mas isso roubaria requinte à cr´ónica.
Toda a prosa gira em torno disto. Não menciona, desta vez, a beleza do pôr-do-sol no Cairo. Mas alude a outro hotel de luxo onde pernoitou, algures na Birmânia. Sem esquecer o sumptuoso Hyatt de Nova Iorque.
Informa os leitores que se encontra agora na Ásia, onde já sofreu «duas infecções», felizmente benignas. Em país que fica omitido, mas pouco propício a «amenidades», seja lá isso o que for.
Tudo para evitar o Algarve «ou as ilhas gregas», onde ninguém a apanha em Agosto. Mais fácil vê-la no sufoco estival da capital espanhola.
E que mais?
Gaba-se de não ter médico de família: prescindiu de tal benesse. E odeia ver os hospitais privados portugueses «transformados em verdadeiros hospitais públicos, cheios de gente». Um horror.
Eis, sem disfarces, um exemplar genuíno da esquerda caviar: solipsista, classista, exclusivista. Ornamentado com frases como esta: «Gosto de viajar sozinha. Quando se está em companhia, o diálogo impede a observação.»
Ou esta, algo elíptica: «Sou como o Genet, funciono bem num pequeno espaço.»
Nada que a impeça de confessar entusiasmo ilimitado pelas vastas paragens asiáticas. É caso para isso: só lá começou a apreciar canja com arroz. E descobriu que «alguns médicos visitam o quarto de hotel durante a noite, habituados a tratar turistas e estrangeiros.»
Aposto que escreveu estas linhas sem se rir. Mas, pelo menos, terá feito sorrir alguns leitores.
Conclui desta forma digna de peça sinfónica: «Ásia é um continente onde me sinto em casa.» Genet, que preferia pequenos espaços, talvez discordasse. Mas convenhamos que são palavras sonantes, embora sem o fulgor do crepúsculo no Cairo – paixão eterna da cronista.
Foi bom saber que não mudou. Apazigua qualquer alma conservadora.
Não foi bom saber que permanece igual. Mais do mesmo, sempre mais do mesmo, enfastia e afugenta leitores. A começar por mim.
Dilema difícil de deslindar. Daqui a dez anos, quando voltar a lê-la, devo chegar a uma conclusão mais firme.

