Da melga em Madrid à canja asiática


Pedro Correia,
O fulgurante pôr-do-sol no Cairo

Não sei o que me deu. Li ontem uma crónica da Clara Ferreira Alves publicada na semana passada no seu poiso habitual, a revista do Expresso. Não lia nada dela há pelo menos dez anos.

Senti-me dividido.

É bom saber que continua igual: nem tudo muda à face da Terra.

Mas eu talvez preferisse que estivesse diferente.

 

Começa por relatar um infortunado fim-de-semana que passou em Madrid, com 40 graus neste Verão – tal como em qualquer outro. Hospedou-se em hotel de luxo – dela nunca se espera menos – e ali foi picada por um bicho que não conseguiu identificar. Talvez vulgar melga, mas isso roubaria requinte à cr´ónica.

Toda a prosa gira em torno disto. Não menciona, desta vez, a beleza do pôr-do-sol no Cairo. Mas alude a outro hotel de luxo onde pernoitou, algures na Birmânia. Sem esquecer o sumptuoso Hyatt de Nova Iorque.

Informa os leitores que se encontra agora na Ásia, onde já sofreu «duas infecções», felizmente benignas. Em país que fica omitido, mas pouco propício a «amenidades», seja lá isso o que for.

Tudo para evitar o Algarve «ou as ilhas gregas», onde ninguém a apanha em Agosto. Mais fácil vê-la no sufoco estival da capital espanhola.

 

E que mais?

Gaba-se de não ter médico de família: prescindiu de tal benesse. E odeia ver os hospitais privados portugueses «transformados em verdadeiros hospitais públicos, cheios de gente». Um horror.

Eis, sem disfarces, um exemplar genuíno da esquerda caviar: solipsista, classista, exclusivista. Ornamentado com frases como esta: «Gosto de viajar sozinha. Quando se está em companhia, o diálogo impede a observação.»

Ou esta, algo elíptica: «Sou como o Genet, funciono bem num pequeno espaço.»

Nada que a impeça de confessar entusiasmo ilimitado pelas vastas paragens asiáticas. É caso para isso: só lá começou a apreciar canja com arroz. E descobriu que «alguns médicos visitam o quarto de hotel durante a noite, habituados a tratar turistas e estrangeiros.»

Aposto que escreveu estas linhas sem se rir. Mas, pelo menos, terá feito sorrir alguns leitores.

 

Conclui desta forma digna de peça sinfónica: «Ásia é um continente onde me sinto em casa.» Genet, que preferia pequenos espaços, talvez discordasse. Mas convenhamos que são palavras sonantes, embora sem o fulgor do crepúsculo no Cairo – paixão eterna da cronista.

Foi bom saber que não mudou. Apazigua qualquer alma conservadora.

Não foi bom saber que permanece igual. Mais do mesmo, sempre mais do mesmo, enfastia e afugenta leitores. A começar por mim.

Dilema difícil de deslindar. Daqui a dez anos, quando voltar a lê-la, devo chegar a uma conclusão mais firme.

O Determismo Reducionista


jpt,

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Através das “redes sociais” (pérfido instrumentos de alienação, como adiante se verá) dois amigos enviam-me declarações de teor político emanadas agora por três romancistas. Um enviou-me o texto no “El País” com breve entrevista de Michel Houellebecq sobre as eleições francesas de hoje, na qual ele – enquanto, até distraidamente, deixa cair o seu sentido de voto avesso ao pacote lepenista – se declara “pessimista e resignado” e avança, ainda que num registo conversacional algo superficial, algumas causas sociológicas para a complexa deriva francesa.

 

Outra amiga, cruel, enviou-me o “Expresso”, em óbvio convite para que eu lesse os artigos de Miguel Sousa Tavares e Clara Ferreira Alves, que há décadas acompanham os nichos de classe média leitora do semanário. São duas, longas (estes colunistas têm direito a página inteira), bojardas, ignaras, nisto até indignas. Pouco francesas, dir-se-ia se comparando com o exemplo anterior. Aquilo a que décadas atrás, quando se discutia o efeito do marxismo, se chamava “determinismo”, “reducionismo economicista (tecnológico)”. Os dois “fazedores de opiniões” dos licenciados lusos de meia-idade e seniores, abordam as eleições mundiais actuais, atribuindo a viragem “à direita” à perniciosa e malévola influência das redes sociais, à instrumentalização executada pelos seus magnatas. CFA centra-se no debate presidencial americano e vê o evidente colapso democrata como causado pelos tais magnatas – nem um caractere sobre as características do plutocrata sistema político americano, sobre a sua socioeconomia, sobre a degenerescência do partido democrata, sobre a sua incapacidade de gerar em XXI candidatos e ideários. Pois a “culpa” é das redes sociais.

 

MST insurge-se contra este generalizado “Triunfo dos ressabiados”. Diante deste seu título logo me lembro de quando há uma década voltei ao país e encontrei esta constante utilização por parte dos socialistas e seus compagnons de route. Todos nós, que vozeávamos contra o miserável socratismo e a cáfila dos seus apoiantes, éramos ditos “ressentidos” e “ressabiados” – um antigo meu colega e, depois, chefe, teve até a descarada lata de cortar relações comigo, por razões “políticas”, usando esses termos. Ou seja, todos os que nos opunhamos a este lamaçal antidesenvolvimentista sofreríamos de doenças de foro psicológico, por causas psicóticas (o “ressentimento”) ou orgânicas (o “ressaibo”). Era – e essa escumalha socratista, estadodependente, nem o percebia – a tradução lusa, nos nossos propalados “brandos costumes”, da velha prática soviética: os “dissidentes” eram doentes psíquicos e deviam ser internados em hospícios.

 

E MST vem agora preencher mais uma das suas páginas de “Expresso” com estes disparates, tão queridos dos tais leitores “classe-média”. Aborda um feixe de eleições recentes (e manipula tanto que foge a referir as últimas eleições britânicas que não lhe dariam jeito ao ditirambo), funda os seus resultados no “algoritmo” das redes sociais, atribui a “viragem à direita” à ignorância dos povos, dos jovens e, claro, … à ultrapassagem da mediação dos jornalistas. Ou seja, antes é que era bom, reinava a “iluminação” global.

 

Entretanto os imbecis, licenciados, continuam a comprar esta tralha “Expresso”. E, pior, a ler estes “intelectuais” da treta. E consomem os produtos que publicitam no douto semanário.

 

E nós outros, “ressentidos” e “ressabiados”, chafurdamos, orgásticos, sob o Algoritmo.