Diamonds Are a Girl’s Best Friend


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(“Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Jule Styne. Canção escrita para o musical na Broadway ficou celebrizada no filme “Os Homens Preferem as Louras” de 1953, assinado por Howard Hawks e assente no duo Jane Russell e Marilyn Monroe)

Trump é um incessante tópico. Imensa gente escreve sobre ele, tentando interpretá-lo e prever o futuro que influencia. Na Notus-News of United States, John Judis, publicou “Trump as Alexander the Great: A Theory That Explains Iran (And Everything Else)”, coincidente com o artigo “The YOLO Presidency: Trump is focused on becoming one of history’s “great men”, de Ashley Parker and Michael Scherer. Em ambos os textos (críticos) Trump surge como imbuído do estatuto hegeliano de “Grande Homem” (herói universal), essas personagens históricas que carregam o “Espírito” do tempo, e transformam a realidade global, mesmo que não compreendam os motivos e as direcções das suas acções – como Júlio César causando o Império e Napoleão exterminando o feudalismo europeu, para seguir os exemplos de Hegel. E agora Trump assassinando a era do liberalismo, a ordem internacional aparentemente vigente pelo menos desde o colapso do comunismo europeu.

Pouco importa se os textos sobreviverão aos tempos – ou seja, se são diagnósticos com “pernas para andar…”. Mas o certo é que todos – dos populares nos cafés e redes sociais aos dignitários em conciliábulos internacionais – cirandamos em torno do que o homem vai dizendo e fazendo, pois não deixa ninguém indiferente.

Nessa azáfama opinativa e reactiva têm surgido algumas peças relevantes, Trump é um bom dínamo de oratória. Pois o contexto internacional decerto que influenciou o importante discurso do Papa em Luanda (que referi aqui), politicamente mais incisivo do que o habitual em “Santos Padres” – isto para além do inusitado “bate-boca” entre a Casa Branca e o Vaticano que então ocorria. Mas mais explícito foi o aclamado discurso – até manifesto liberal – do canadiano Mark Carney em Davos (que abordei aqui, ecoando as perspicazes reservas de Kasparov com os efeitos do discurso).

E agora a verdadeira pérola, o discurso de Carlos III no Congresso nos EUA (coloquei aqui a gravação completa) – momento sublime que decerto ocasionará um filme que virá a ser galardoado, pelo menos nos britânicos Prémios BAFTA. Como referi neste meu postal, no Congresso norte-americano o Rei Carlos III clamou “No Kings”. Com verdadeiro brilhantismo e finíssima ironia, defendendo a ordem democrática, a coesão intra-social, a solidariedade internacional, a coexistência ecuménica. Uma verdadeira Lição, que lhe garantiu um lugar mais elevado na História do seu país.

Ouvindo o discurso lembrei-me das acusações de “racismo” à família real inglesa, há anos colocadas na imprensa americana mais “liberal” (no sentido americana de “esquerda”) pela actriz Meghan Markle, a duquesa nora de Carlos III – entretanto saída de cena, tal como o seu marido. Que logo foram adoptadas não só nesse meio jornalístico, como também nas elites intelectuais-artísticas do Partido Democrata, enlevadas no frenesim “identitarista”. E até, com evidente desnorte diplomático, pela célebre mulher do antigo presidente Obama. E perguntei-me: o que dirão agora os “identitaristas”-“democratas” norte-americanos? Face ao garbo e à pertinência do Rei britânico?

Fui logo respondido, nos dias seguintes mesmo. Há poucos meses Zohran Mamdani fora eleito presidente da câmara de Nova Iorque, propagando uma agenda política de grandes investimentos estatais benevolentes. A nossa imprensa – e não só – acolheu o facto com júbilo. Jornalistas e comentadores fiéis à mundividência racialista viram a vitória do “socialista” como racialmente importante. E saudaram o sucesso de um filho de imigrantes, “racializados”. (De facto, Mamdani é um filho de expatriados – o grande académico Mahmood Mamdani e a conhecida realizadora Mira Nair – , coisa sociologicamente diferente, mas isso pouco conta para os empenhados alunos de raciologia).

Nos dias prévios à visita de Carlos III Mamdani anunciou-se bloqueado por problemas orçamentais. Não dei grande atenção, apenas me lembrei, por evidente associação de ideias, do dueto Tsipras & Varoufakis, que tanto mimo colheu há uma década por parte da nossa imprensa e políticos então geringôncicos.

Entretanto Carlos III fez o seu discurso fundamental em Washington, aclamado pelos democratas de diferentes tendências. E seguiu para Nova Iorque, em homenagem às vítimas do atentado às Torres Gémeas, ocorrido há já 25 anos. Mamdani, o “socialista” identitarista, que fez? Apesar do contexto geral, apesar da prestação do rei britânico, renuncia a um encontro individual com o real visitante. E faz constar que se o fizesse seria para lhe “exigir” a restituição do diamante the Koh-i-Noor, tudo assim subordinando à agenda “decolonial” em voga.

É de uma superficialidade inenarrável, típica deste esquerdismo global. De facto, só lhe(s) fica mesmo isso do “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Bem ao invés, diga-se, das magníficas Jane Russell e Marilyn Monroe que acima coloco. Pois essas eram actrizes, excelentes. E este é só isto…

(Postal que é a primeira parcela da Gazeta Semanal no meu blog “O Pimentel“)

A soberba


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No curso de mestrado tive dois grandes professores: Armando Trigo de Abreu e Mário Murteira. Antes, na mais influente – pois formativa – licenciatura, tivera alguns bons professores. Na qual dois se realçaram: o antropólogo João Leal – que décadas depois vim a constatar que fora o docente que mais me marcara, pela sua sageza e decência, que o tornavam um verdadeiro mestre – e José Pacheco Pereira, um professor diferente, também esplêndido de cultíssimo, mas mais iluminador do que guia, pois desprendido. Um quarto de século depois tive o prazer, honroso, de o acompanhar durante uns dias em Maputo, a propósito de um congresso ao qual ele compareceu, e então esforcei-me por ser o mais hospitaleiro possível. E entretanto, blogando eu desde 2003, acompanhava diariamente o seu Abrupto, o blog português mais lido e que tinha características únicas. E fui lendo os seus livros…

 

Politicamente é diferente: muito torci o nariz quando ele se apresentou na Aula Magna, naquele arremedo de “Estados Gerais” convocado pelo ex-nº 2 de Sócrates, a apelar a uma espécie de “Frente Popular”, tornando-se assim o verdadeiro ideólogo do que veio a ser dito “geringonça”. E sempre me desagradou o (de facto) seu programa televisivo destinado à produção de opinião política burguesa, algo falsamente pluralista dado que ali ele defende o PS em articulação com alguém da direcção desse partido em falsa contraposição com um “representante” do desde há muito defunto CDS. E pior – pois intelectual e deontologicamente inaceitável – desde que uma direcção de canal quis suspender o programa político e o então primeiro-ministro Costa se imiscuiu na programação e conduziu a que outro canal o continuasse. Há limites para a falta de autonomia e o professor Pacheco Pereira nesse momento cruzou-os, no mau rumo…

 

Sobre André Ventura, uma criatura de Passos Coelho e Luís Filipe Vieira, amamentada por António Costa, pouco tenho a dizer. Não o vejo como “fascista” mas sim como um mariola demagogo – por mais que tenha levantado discussões que são importantes na nossa sociedade e que os estabelecidos descuravam. O meu problema nem é com ele mas sim com aqueles seus apoiantes que me são próximos, até extremamente íntimos. Pois os “cheganos” são-me carnalmente repugnantes. E isso exige-me uma enorme disciplina afectiva para sustentar as relações.

 

Hoje, por alguma razão que desconheço, o meu antigo professor foi debater na televisão com o presidente do segundo partido português (“líder da oposição”, no falacioso linguajar actual). O que assisti, contristado, até com vergonha alheia, foi a um pungente exercício de soberba, o mais grave dos pecados mortais. Muito para além dos argumentos previstos e dos instrumentos brandidos, o que ali esteve foi um velho professor a falar de si – “no 25 de Abril eu estava…”, “eu concorri em Loures…”, “eu na Assembleia da República…”, pobre e último recurso ilustrativo de quem quer estruturar um discurso sobre processos históricos, já acantonado no repetido queixume “você não está a falar com um atrasado mental“, o que está dizer “funciona lá para as suas gentes no tik-tok“, etc.

 

O reaccionário Ventura não se combate assim. E o processo histórico desta “República” (da democracia liberal) não se analisa desta pobre forma. Por mais que muitos dos anti-Ventura o aplaudam, lhe saúdem a “coragem” ou o “vigor”. Foi um naufrágio intelectual. Repito, pungente.

 

E é com pesar, para além de discordâncias, que o digo: chegou o seu tempo de sair de cena. “Pendurar as chuteiras” (televisivas), por assim dizer. Pois a soberba … mata.

“Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário”, no Museu de Etnologia


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Visitei detalhadamente esta exposição “Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário”, apresentada no Museu de Etnologia (ao estádio do Restelo). A exposição é constituída por painéis de textos e iconografia, que condensam 30 artigos, cada um de diferente autoria. São apresentados num catálogo, com 342 páginas, vendido a 40 euros. Foi-me emprestado. Entre os seus autores, na maioria historiadores, há muitos que li ao longo de anos, vários conheço pessoalmente, e de alguns sou amigo (pelo menos até lerem este postal…).

 

Deixo já a minha impressão (sabendo que diante dela muitos apenas confirmarão que eu sou um reaccionário do piorio, neocolono até e, pior do que tudo, um verme neoliberal). Como catarse da ira que (ainda) sinto.

 

Os textos invectivam, grosseiramente – de modo básico de tão simplista que é, e sob desonesto viés, tamanho que censório -, a presença e posterior ocupação portuguesa. Num patético discurso anticolonial, que nem anacrónico é pois tão medíocre resta. Ou melhor, rasteja, num lamaçal ideológico “bon chic bon genre”. E que evidencia uma estuporada vontade “pedagógica” – distraída do facto de não estarmos já em Paris 1964 ou Lisboa 1974… Constituem 7 “fascículos”, partes se se quiser ter boa vontade, com temas repetidos, de estrutura descuidada.

 

Os painéis estão pessimamente impressos – apesar da longa lista de patrocinadores… A disposição é pobre (a exposição quer-se concêntrica mas isso é inicialmente imperceptível, é preciso chegar alguém para nos informar, nem sinalética souberam colocar para obstar à amontoada montagem). Na iconografia associada abundam os erros de legendagem (por exemplo, uma fotografia está presente em três painéis com legendas diferentes, uma outra duas, etc.) – mas isso até é o menos diante dos constantes disparates apostos nos textos. Quase culmina com a transmissão de vídeos musicais do actual afro-pimba, com os habituais traseiros femininos em destaque, uma coisa ridícula.

 

É também acompanhada de um conjunto de artefactos africanos, mobiliário nobiliárquico, alfaias agrícolas e, claro, os lendários “manipanços” – grosso modo desde uma (boa) peça da Reinata, as obrigatórias caraças de mapiko, passando por outras esculturas do Mali (??!!, o que estarão a fazer ali?) até à penúltima da exposição, uma porta Dogon (!!??, o que estará ali a fazer?) . O motivo desta associação escapou-se-me, mas presumo que para além do “ai, é tão gira esta peça, temos de a mostrar!”, queiram no seu conjunto mostrar aos visitantes que os “pretinhos”, perdão, os “afroascendentes” também tinham agricultura, chefes e, imagine-se, religião. E que, claro, sabiam trabalhar a madeira… E até tinham talento para isso. (“Atenção, também eram capazes de fazer olaria….”).

 

Quanto ao livro, como é óbvio não pude ainda ler o calhamaço (342 páginas, repito). Mas no metro corri a ler o artigo de João Pina-Cabral e Joana Pereira Leite sobre o ocaso colonial em Moçambique. Apenas para ver se lá estava o disparate, demagógico de ignorante, espetado no resumo posto no painel respectivo (da autoria deles?). Não está, pelo menos de forma explícita. Mas, de qualquer forma, o que ali está pendurado envergonhará qualquer autor.

 

E estamos nós em 2024. Isto seria desesperante se não fosse ridículo. O ridículo da academia portuguesa.

 

Como qualquer antropólogo português sabe – ainda que nem todos o digam em público, mas todos o dizem em privado – o Museu de Etnologia (ao estádio do Restelo) foi há décadas entregue a uma Comissão Liquidatária, gerida por Joaquim Pais de Brito, a qual cumpriu o seu trabalho com denodo e eficiência. O mausoléu posterior tem sido gerido com a competência adequada.

 

Agora, em más horas, foram as cinzas remexidas. Ao que parece esta tralha estará “patente ao público” durante um ano. Como saberão os meus “amigos-FB” e leitores de blog – pelo menos os que (me) visitam de vez em quando – a minha filha e a minha irmã proíbem-me de usar o calão. Por isso escrevi este texto longo. A substituir o rol de palavrões peludos que fui dizendo ao longo das horas que ali desperdicei.

 

*****

 

(Tendo transcrito o postal no meu mural de Facebook aí recebi pedidos de melhores esclarecimentos. Respondi-lhes esmiuçando as causas do meu desagrado. Nisso alonguei-me nos argumentos e apresentei detalhes ilustrativos. Coloco-os aqui, retocados) 

 

 

Escrevi, com tamanho repúdio que até repulsa, sobre a exposição “Desconstruir o Colonialismo. Descontruir o Imaginário”. É uma espécie de “pôr a cabeça no cepo” pois são cerca de 50 autores envolvidos, e todos tenderão a defender o seu objecto. Gente graduada e qualificada, desde a sua Comissão Executiva, encabeçada pela prestigiada historiadora Isabel Castro Henriques, a uma vasta Comissão Científica – da qual, como exemplo, saliento a investigadora da faculdade de Medicina Isabel do Carmo, que assim descubro especialista da história colonial portuguesa, presumo que nas suas áreas de referência Endocrinologia, Diabetes e Nutrição – ainda que estes assuntos não sejam abordados na exposição, nem nem tão pouco as questões da velha “Medicina Tropical”. Juntos a um farto enquadramento institucional, o ISEG, o Ministério da Cultura através do Museu Nacional de Etnologia e a Comissão Comemorativa dos 50 Anos do 25 de Abril. Para além de um poderoso rol de patrocinadores: Gulbenkian, FCT, FLAD, Comissão Nacional da UNESCO, UCCLA, ISEG, Universidade de Lisboa…

 

“Zezé, queres pedir um financiamento para algum projecto?“, logo disparou um amigo ao ler-me, provocando um unânime coro de sonoras gargalhadas entre os que nos rodeavam!

 

Tendo transcrito o postal no meu mural de Facebook aí recebi pedidos de melhores esclarecimentos, provenientes de duas investigadoras estrangeiras – uma norueguesa, outra brasileira – que fizeram longas pesquisas em Moçambique. Presumindo que elas não visitarão a exposição – apesar de estar programada a sua permanência no Museu de Etnologia durante um ano e de estar anunciada a sua itinerância -, respondi-lhes esmiuçando as causas do meu profundo desagrado com esta iniciativa estatal. Nisso alonguei-me nos argumentos e apresentei detalhes ilustrativos. Coloco-os aqui, retocados: 

 

1.  “Desconstruir (o jargão obrigatório) o Colonialismo”? “Descolonizar o Imaginário”? É normal, salutar, que durante as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e das independências das antigas colónias, se regresse a essa temática. Se celebre o fim do anacrónico império, se dissequem as suas características. Deixo ligação a um postal meu, “Passado Colonial“, escrito há meses irritado com um conjunto de dislates que uma antropóloga vinda dos EUA para disseminou na Gulbenkian entre os professores do ensino secundário. Ou seja, não trato de fazer a apologia do colonialismo, nem a sua higienização. Mas refuto o aldrabismo como ideologia do agit-prop académico.

 

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 (Painel com o rol de patrocinadores da exposição)

 

2. Como logo referi o problema não é o catálogo. Este contém 30 textos, decerto que desiguais, que apenas acompanham. Autores haverá que se defenderão dizendo que o conteúdos dos seus breves textos (cerca de 5 páginas cada) serão mais equilibrados do que os resumos expostos, e que também sofrerão a exiguidade de espaço textual disponível para resumirem as suas longas e complexas reflexões sobre matérias dos quais são especialistas. Poderão até – admito como hipótese – afirmar que as resenhas afixadas algo deturpam os seus textos. Serão “explicações” impertinentes. Pois o que conta é o conteúdo da exposição, o que é divulgado e “patente ao público” (e estará durante um ano). E que eles subscrevem, na sua totalidade.

 

Mas mais ainda, e também o referi, o problema fundamental não é a pobre execução do objecto-exposição físico. Ainda que seja pertinente questionar as razões daquilo. O Museu tem orçamento para actividades. E o rol de patrocinadores é enorme. O que aconteceu para os painéis (ou estandartes, se se quiser) serem tão descuidados? Não falo do catálogo, pois esse apenas acompanha (não tem grande impressão mas escapa). O que aconteceu na produção? Quais os critérios para a sua adjudicação?

 

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Pois a impressão dos painéis é descuidada, deixando-os de imagens pouco perceptíveis ou mesmo imperceptíveis. E a revisão, por superficial que fosse, aparenta ter inexistido. Por exemplo, esta fotografia de um grupo de mulheres em São Tomé no início de XX aparece em três diferentes painéis com erros crassos de atribuição (neste como “grupo de funcionários superiores da companhia de Moçambique, na Beira”, noutro como “residência do administrador de Ribaué”). E, em termos textuais, é notável que o ror de académicos prestigiados subscreva uma exposição desta temática que informa, e o repete, que a independência da Guiné-Bissau foi unilateralmente proclamada em … 1974. 

 

3. A esta pobreza “física” já associei a pobreza conceptual da exposição, apenas aqui recordo o anacronismo de consociar uma vasta dissertação textual sobre o colonialismo português a um conjunto de peças, como se de bric-a-brac, uma deriva oitocentista para ser simpático. Pensando que assim aos “africanos”, “colonizados”, se faz “falar” através dos seus artefactos. Como se o “imaginário” lisboeta, e dos seus arredores, se desconstrua com aquele “artesanato”,  como se os colonizados sejam a máscara mapiko, a peça de Reinata – para quem não conheça deixo um texto meu sobre ela. E aquelas restantes peças avulsas…, num efectivo potlatch de primitivismo serôdio.

 

 

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4. O relevante nem sequer é o tema do enquadramento e funções requeridas ao Museu Nacional de Etnologia. Mas sim como esta exposição demonstra ser o contexto político nacional determinante intelectualmente na actividade de núcleos da academia portuguesa, em especial nestas áreas da história colonial. Convocando os profissionais para produzirem – ou se associarem, placidamente – discursos tão politicamente empenhados que panfletários, tudo a coberto do “simbólico” científico e institucional. Isto exemplifica-se com um dos últimos painéis que sumariza o fundo ideológico e o objectivo político desta tarefa. Enceta por um indiscutido “Na sociedade portuguesa, que se caracteriza por um racismo sistémico…” e segue num pedagogismo empenhado “Torna-se necessário proceder à alteração da forma de pensar o passado colonial para que, através da descolonização das mentes, se possa combater o racismo de forma mais eficaz.“. Será que as pessoas não percebem o atrevimento – a “lata”, em calão – na produção estatal de textos destes?

 

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É evidente que estes panfletos académicos, sob blindagem “académica”, têm repercussão em alguma imprensa “gauchiste” de implantação nacional, e também para isso são produzidos. Em última análise, servem para os minoritários partidos de extracção comunista conduzirem a forma actual (“decolonial”, peroram) de “luta de classes”, a “luta de “etnias” e “raças”, como agora se estipula. É a actividade dos “intelectuais orgânicos” e dos “publicistas” para transformarem a “etnia”/”raça”-em si em “etnia”/”raça”-para si. De facto, é isto este projecto de “Descolonização do Imaginário”… Com a história colonial portuguesa tendo como corolário a manifestação a propósito da morte de um cidadão norte-americano, convocada por grupos de extrema-esquerda, então mais ou menos na órbita do partido LIVRE.

 

5. Mais do que tudo, “Descolonizar o Imaginário” pode e deve começar por perceber que é uma falsidade o que estes intelectuais apregoam, que a sociedade portuguesa vive como um reflexo deste império, que estes cinquenta anos de democracia (grosso modo o equivalente ao tempo de efectivo colonialismo em África) mantiveram intactas as representações sociais, as mundividências portuguesas (ou, mais ainda, as existentes em Portugal). Ou seja, que o “imaginário” actual é similar, reflexo simples, do pretérito. Refracta o passado, claro. Mas não da forma mecanicista que esta exposição – e tanta propaganda política – o diz. (Por outras palavras, se há décadas vigorava o “marxismo” vulgar, mecanicista, agora vigora o “identitarismo” mecanicista, simplório).

 

E ainda mais, se é para “Descolonizar o Imaginário” então também será o âmbito de o fazer em relação aos imaginários africanos, sair do facilitismo dos registos que vigoram sobre a época, convocando as múltiplas leituras do colonialismo que então existiam. Implica isso menosprezar as palavras de Amílcar Cabral (evocado na exposição) ou de Mário Pinto de Andrade (que é ouvido na exposição)? Não. Mas qual a razão de não se ouvir/ler, por exemplo, Domingos Arouca? Ou ouvir, analisar, as múltiplas considerações de então e posteriores sobre o regime colonial? Estou a fazer a apologia do colonialismo? Ou estou a dizer que se trata de uma exposição no Museu Nacional de Etnologia, um trabalho congregando dezenas de académicos, no 50º aniversário do fim do regime colonial? Isso sim, seria dissecar as representações que temos sobre as múltiplas realidades coloniais, fazendo-as dialogar com discursos variados – e não com o panegírico de algumas, orlado com “arte” bonita.

 

6. Para além de outras dimensões criticáveis a exposição tem, na sua parte textual, dois grandes problemas. Que passarão despercebidos – e isso é o pior – ao “grande público”, àqueles que desconhecem as temáticas. Mas reconhecer esses problemas reclama a vontade do espectador. Ou seja, são subjectivos. Um é a incompetência intelectual – que para ser reconhecida exige uma “dessacralização” textual, um afastamento de um texto afixado numa instituição museológica que vem com autoria de dezenas de “Senhores Professores”. Quantos de nós, vulgares de Lineu, interrogaremos aquilo? 

 

Começo por aquilo que digo incompetência. Vários painéis atacam o “luso-tropicalismo”, fazendo-o de modo básico e esquecendo as constituintes históricas da composição desse ideário, bem como sobrevalorizando-o, até contraditoriamente. Numa dessas investidas escreve-se “Em Lourenço Marques … os jovens sentiam-se parte dessa “terra nova”, apesar de serem brancos, negros, indianos ou mestiços – ou tudo ao mesmo tempo, como a mais brilhante poetisa do tempo, Noémia de Sousa. Como resposta, em Lisboa, a assustada elite colonial inventou o “luso-tropicalismo”…”.

 

Sobre isto eu vou ser um pouco egocêntrico, até porque sei que os autores desta parcela cresceram em Moçambique e poderiam escudar a resenha que lhes foi feita do texto nessa empiria própria. Ora deste grupo de jovens, entre os que mais se vieram a celebrizar, eu conheci – superficialmente – Virgílio de Lemos, e tive o privilégio de induzir a publicação de dois dos seus livros. Conheci bem mais, com verdadeira amizade de visitas mútuas, o José Craveirinha – e também induzi a publicação de um dos seus livros. E ainda mais o Ricardo Rangel. Ora presumo (pois conheci-o menos) que o Virgílio e tenho a absoluta certeza que do Zé Craveirinha e o Ricardo – eles tão dados à impiedosa ironia – se ririam, mesmo, se fossemos ver esta exposição e lessem esta formulação.

 

Outro detalhe, que é hiper-significante mesmo que as pessoas nem atentem (o que demonstra o estado de sonambulismo ainda que activista). O repetitivo e frágil ataque ao “luso-tropicalismo” culmina na crítica da “lusofonia”. O painel é pobre, o texto do catálogo é naturalmente curto e, em meu entender, esquece outras componentes da sua formação. Mas tem o mérito de recordar, e bem, Alfredo Margarido, que num opúsculo disse de modo suficiente o que era necessário dizer sobre a tralha. Eu nada sou paladino da “lusofonia”, um ideário incompetente e frágil. Ainda por cima sofri-o, quando era a ideologia do lumpen do funcionalismo público socialista. Um dia até escrevi um enorme ditirambo contra aquilo.

 

Mas há dois pontos esquecidos nesta exposição:

 

1) a lusofonia já não é, trinta anos depois do seu vozear, uma ideologia dominante nos aparelhos de Estado. Pois é um discurso político tão incompetente que foi sendo engavetado, e isso não transparece na exposição, desesperadamente à procura da perenidade das representações – ou seja, agarrando-se à ideia, “denunciando-a”, de que se antes dominava o “luso-tropicalismo” hoje domina a “lusofonia”;

 

e pior ainda, 2) esse ideário da “lusofonia” teve em Portugal uma consagração estatal: o Acordo Ortográfico de 1990, o qual tendo sido ratificado por um governo do PSD teve origem num agrupamento luso-brasileiro de intelectuais maçónico-socialistas da velha guarda (“republicanos”, passe o grande anacronismo). O AO90 é a grafia da “lusofonia” desejada por esses sectores da velha “nostalgia colonial”, no fundo actualizando o projecto salazarista dos 1960s de uma futura “comunidade de Estados de língua portuguesa”, unidos pela língua e… sentimentos.

 

Eu não escrevo com o AO90 não por preguiça em actualizar-me. Mas porque sempre o repudiei dado ser símbolo e patético instrumento desse projecto político estuporado que é a “lusofonia”. Justiça seja feita, o autor que aborda esta temática da “lusofonia” é Diogo Ramada Curto. Um intelectual robusto – e muito temido, pois é muito truculento na imprensa, distribui bordoadas a eito. E o qual, ainda que sendo o actual director da Biblioteca Nacional, não escreve sob essa tal grafia lusófona. Mas muitos dos outros autores lá vão grafo-lusofonamente ordeiros.

 

Dir-me-ão que isto é um pormenor. Não é! Neste contexto de intelectuais especialistas, embrenhadíssimos no “denuncionismo” “activista” isto é um pormaior, denotativo da ligeireza agit-prop.

 

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7. O outro problema, que é o fundamental, é o viés. Alguns nunca o reconhecerão, aceitarão as palavras doutas. E outros apreciarão, considerarão uma boa acção, um bom “activismo”, para a “causa”. 

 

A este viés panfletário, recordo, é preciso querer reconhecer. E sublinho que está no “pacote” inteiro, gritado. Escolho alguns exemplos, apenas avulsas ilustrações.

 

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7.1. Escolhi como primeiro esta fotografia, tão explícita que nem é necessário comentá-la: o então famoso – e típico – Movimento Nacional Feminino é representado daquela forma, a querer-se chocarreira. “Palavras para quê?”…

 

7.2. Outro exemplo é uma ausência. Eu acompanhei a génese de um trabalho (livro e exposição) feito por Isabel Castro Henriques (coordenadora desta exposição), “Espaços e Cidades em Moçambique”. Uma exposição cuja apresentação em Moçambique foi muito problemática – um dia terei de escrever essa memória. E que conduziu a uma digressão em Moçambique da sua autora – então acompanhada do seu marido, o grande intelectual Alfredo Margarido -, a qual tive o privilégio de acompanhar.

 

Ora nesse trabalho foi abordado a temática do desenvolvimento urbano – induzido pela presença portuguesa em períodos pré-colonial e colonial, e sobre a qual julgo que fez pelo menos outro livro-exposição relativo a Cabo Verde. Essa temática é completamente apagada desta exposição, por razões que são obviamente ideológicas. Entenda-se, há espaço para mostrar uma gravura da pré-colonial Tombuctu. Mas não para o rol de pequenas unidades urbanas até finais de XIX ou abordar o seu crescimento futuro. Porquê? É evidente que por não ser uma temática imediamente apreensível pelo público como “denunciável” (até poderia ser analisável desse ponto de vista, mas arrisca sempre que alguém passe por lá e deixe um “pelo menos construímos cidades”, a prejudicar o efeito da cartilha).

 

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7.3. Há um painel dedicado aos “Saberes Coloniais”. É aborrecido resmungar com isto, pois tenho o maior apreço pela autora do texto, e lamentarei se ficar magoada, Mas sigo. O painel apresenta desenhos sobre as “viagens filosóficas” no Amazonas de finais de XVIII. E depois restringe-se a imagens e texto sobre antropologia, enfatizando a antropologia física – predominante em Portugal até a II GM, nas suas crenças da relevância de medições populacionais, e que tinha ênfase racialista e, muitas vezes, racista – e também o trabalho de Jorge Dias, eivado de preocupações de antropologia política aplicada. Ou seja, o que resta é que os “saberes coloniais” portugueses eram racistas e controleiros.

 

É certo que a propaganda oitocentista de um grande saber acumulado em Portugal sobre África servia interesses políticos – “direitos históricos” na “partilha de África” – e era irreal. E durante XX o conhecimento sobre as colónias africanas sofreu os contrangimentos devidos às limitações do campo científico português. Mas ainda assim foi produzido um vasto saber em ciências naturais (zoologia, botânica, medicina, veterinária, etc.) e matérias técnicas. E também fazia parte do discurso colonial o enfatizar da grandeza desse saber. Mas ele existiu, foi abundante e competente. Muito tinha dinâmicas utilitaristas, muito era utilitário. Mas não era só isso – e nessa sua redução ao “utilitarismo” (colonialista) vem também outro mecanicismo, a da redução da curiosidade científica dos técnicos e investigadores portugueses aos interesses económicos e políticos. Ora nada disso é aludido. Dirão alguns “ah, mas isto é sobre o racismo!! E o colonialismo repressor!”. E eu responderei que não, é – e assim está anunciado – sobre o “colonialismo”. E, neste “capítulo”, sobre os saberes que nele foram produzidos. Mas, claro, se se afixar em exposição alguns progressos na área da hidrologia, ou dos saberes agrários, ou seja lá o que for, isso não é imediatamente apreendido pelo visitante comum como uma malevolência portuguesa.

 

Mais, o cartaz sobre “Saberes Coloniais” começa com uma frase rutilante: “Desde o século XV houve recolha e expropriação de elementos de territórios distantes“. E depois avança que só em finais de XVIII é que começa a haver verdadeira produção de saber científico (as tais “viagens filosóficas”). Fui ver o texto. A primeira fase, bombástica, não está lá assim. O chavão denunciador é o do cartaz. Eu posso perguntar-me de que serve, neste âmbito, afirmar as “expropriações” de XV. Mas mais me pergunto a que propósito é que surge no início do cartaz… É apenas (mais) um detalhe de viés.

 

7.4. No catálogo – e isto foi-me lido por uma amiga, e eu esqueci a página (não a marquei pois o livro foi-me emprestado), afirma-se que (cito de cor) os nossos países congéneres antigos colonizadores têm feita a crítica aos seus regimes coloniais (entenda-se, a “desconstrução”, no jargão) e que Portugal é uma excepção. Isto é uma especulação falsária. Pois é muito duvidoso afiançar um qualquer défice nosso nesta questão face às sociedades da Bélgica ou da Holanda, para exemplos-mores de países “congéneres”. Ou, para forçar a nota, que a sociedade brasileira se assume como país colonial e deixe, definitivamente, de invectivar os portugueses que partiram há dois séculos. Ou que a Espanha, congénere hermana, se tenha expurgado das suas malevolências ultramarinas… Sim, os wokes britânicos abateram uma ou outra estátua, tiraram o Hume do nome de uma praça e quejandas ilusionices. Mas, francamente, é um desplante uma afirmação daquelas.

 

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7.5. Para último exemplo de viés – e tantos outros tão explícitos há. Este está logo à entrada, num dos primeiros painéis, e é bom pois assim ninguém poderá dizer que “foi ao engano”. A intenção de induzir uma associação de ideias, uma homologia, é evidente. Em cima está uma estação de viagem científica (eu não uso o termo “exploratória” para evitar a sua ambivalência semântica, que seria logo apropriada por quem leia de modo enviesado), a estação “Luciano Cordeiro” estabelecida por Henrique Dias de Carvalho, provavelmente em finais da década de 1880s ou no início de 1890s. Em baixo está uma gravura, ilustrando o transporte de escravos, agregados por um instrumento que desconheço o nome (golilha?) – “algemados” pelo pescoço.

 

É evidente que se está ali a proclamar a homologia entre as expedições científicas coloniais e o trânsito escravista, apagando duas dimensões: o progressivo abolicionismo internacional e português, e a integração da cientificidade nesse rumo. E afirmar isto não é esquecer a continuidade ilegal (e disfarçada) de tráfico escravista durante o último quartel de XIX e mesmo XX adentro, neste último caso em particular para São Tomé e Príncipe.

 

Mas nesta construção painelística, como se com souplesse, está condensado o programa ideológico desta exposição: o regime colonial é a perenidade linear do escravismo, sem tirar nem pôr. E ali consagrado pelo afixar de Silva Porto, o pombeiro oitocentista que cruzou Angola – sem uma palavra sobre o facto de ter sido ele uma enorme excepção.

 

Tudo isto, condensado num mero painel, demonstra, com evidência para quem queira perceber, outro vector estruturante da exposição: a inexistência de uma abordagem às dinâmicas africanas. Sim, surgem os manipanços, as cadeiras de chefe, os “artefactos”… Sim, há um ou outro painel aludindo às “resistências”. Mas nada mais. Pois em havendo-as se poderia reduzir o impacto do panfleto “denunciatório”, pensam – decerto – estes autores.

 

Exemplifico: num dos livros de José Capela (José Soares Martins) li há muitos anos um trecho impressionante. Uma página de diário de um austríaco (?), escrita em 1850. Estava em Quelimane e assistiu à chegada de uma pequena caravana de escravos, agregados deste modo (a tal golilha?). Acontecera que o navio negreiro já havia zarpado. Então os comerciantes abandonaram os escravos à sua sorte, e partiram. Mas não os libertaram, deixaram-nos agregados pelo pescoço. Ninguém os socorreu, e escrevia o estupefacto austríaco que eles cirandavam pela cidadezita, exauridos, esfomeados, sedentos, alguns deles já cadáveres, assim arrastados pelos outros. É uma imagem tétrica, uma ilustração extraordinária, crudelíssima, do que foi a realidade do comércio escravista.

 

Mas mais, na Quelimane de então existiriam – especulo – cinquenta portugueses, talvez alguns mais. Para além de alguns goeses (entenda-se, católicos, com cidadania… no conceito de aquele tempo). Indivíduos decerto que na sua maioria ou mesmo totalidade envolvidos no comércio de escravaturas. Esses portugueses ali residentes eram contemporâneos de Almeida Garrett, de Alexandre Herculano, Camilo já escrevia e estrear-se-ia em livro no ano seguinte. E nenhum foi partir as algemas daqueles desgraçados. Isto é terrível.

 

Acontece também que quem tinha produzido aqueles escravos – os tinha capturado e transportado, pago as portagens do caminho -, e sofrera a desilusão de não os ter vendido, e os deixara naquele estado desgraçado, eram … africanos. E durante séculos assim foi. E como isso demonstra todo um mundo de dinâmicas africanas! O qual é completamente apagado neste exposição (“artefactos” bonitos à parte).

 

Outro exemplo disso? Lá está Mouzinho grande, quase solitário, prendendo Ngungunyane, glorificado em figura portuguesa de então. Mas nem uma palavra (ou imagem) sobre as teias de alianças (naquele caso de última hora, mas em tantas outros sítios mais trabalhadas) ou de interacções construídas. Ao longo de séculos.

 

8. Nos nossos países “congéneres” (França, por exemplo) há literatura actual que aborda, sem complexos e sem higienizações, estas enormes teias de dinâmicas, africanas, nas suas consociações e oposições com as europeias, asiáticas, americanas. Antes do colonialismo. Durante o colonialismo. Nesse labor se “desconstroem os imaginários”. Não com este panfletarismo. Serôdio. Medíocre. Inaceitável no Museu Nacional de Etnologia. No Estado.

 

Passado colonial


jpt,

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(Isto não é um ensaio, e muito menos um artigo. É um desabafo. )

 

Na fotografia estou eu no Mossuril, impante quarentão ladeando o velho canhão pátrio. Não estava ali traumatizado, nem me sentia um Atlas com o peso da História aos ombros. Nem o devia estar. Nem sentir…

 

1. Para quem não saiba o Mossuril foi durante séculos um dos cais de embarque para a Ilha de Moçambique, que lhe está defronte. Esta – sempre romantizada, com laivos de poesia (há muita versalhada sobre o sítio) ou de devaneio turístico – foi sempre um entreposto, ali se carregavam as embarcações as quais seguiam Índico afora. E, como outras feitorias portuguesas em África (ditas “possessões”), sobreviveu séculos com as taxas alfandegárias e os ganhos comerciais dos… funcionários. Pois desde XVI – pelo menos – ali chegavam as caravanas vindas do interior, fronteiro ou muito distante. Trazidas por gentes várias que vieram a ser ditas macuas (“selvagens”, na língua das gentes algo sualízadas do litoral, pois vistos como inferiores boçais do  mato), por ajauas, por outros. Algumas caravanas iam até ali, para Quelimane também, tal como ao Ibo, outras calcorreavam rumo a outros portos exportadores onde inexistiam portugueses, na demanda de melhores custos-benefícios.

 

 

Ao longo dos séculos vários foram os produtos transportados. A partir do primeiro quartel de XVIII e, acima de tudo, durante XIX o que mesmo cresceu, com enorme afinco – uma verdadeira “bolha” para falar como agora -, foi o comércio de escravos. Lá para meados de XIX isso foi ilegalizado mas continuou como “tráfico”, e seguiu – assim mais lucrativo, qual bootleg da Lei Seca americana – até inícios de XX. Progressivamente mais difícil, e também mais raro, mas ainda assim numa azáfama de transportadores terrestres, vindos cada vez de mais longe, pagando portagens aos sucessivos “donos da terra” – tipo as chefaturas ekoni do interior de Cabo Delgado ou os namarrais que se chegaram à Ilha para cobrar ainda mais caro (mas a mitografia nacional veio a torná-los “heróicos”, por se terem oposto à ocupação portuguesa). E uma azáfama de transportadores marítimos, árabes, suaílis, franceses, holandeses diz-se, brasileiros também e muitos. E portugueses.

 

Lá mesmo para o final, século XX já encetado, os portugueses (e julgo que também os franceses, mas assim apenas de memória não o posso afiançar) tiveram um episódio cristão bem denotativo: embarcavam-se os desgraçados, no convés estava um padre, “baptizava” as criaturas, elas “assinavam” um papel, e eram “elevadas” a cristãos trabalhadores livres, “contratados”. E seguiam às ilhas índicas. (Vá lá, chamai herege a este ateu.) Depois isso acabou – dizia-se, e bem, “Britain rules the waves” e era cada vez mais difícil, pois esses não queriam mesmo tais práticas.

 

Já República feita, mandando a maçonaria e os antepassados dilectos do PS – mais os terroristas que hoje seriam do Bloco -, os portugueses adaptaram-se. E viraram-se para arregimentar gentes, enviando-as também como “contratados” para São Tomé, às roças que por lá medravam. Iam para a… vida toda. Seguiam tantos, e também recrutados para as minas sul-africanas (trabalho que dava gigantesco lucro ao… Estado, tipo os médicos cubanos de agora que pagamos a Havana, mas vivendo então bem pior), que os administradores do centro e norte contestavam tais práticas, pois faziam escassa a mão-de-obra por essas paragens, tão necessária para plantações (onde as havia) e para … o trabalho forçado. Tudo isto está escrito, nos arquivos e em livros.

 

2. Nesse rumo foi-se instalando o colonialismo moderno, a “ocupação efectiva”, de facto terminada lá pelos anos 20s. Na tal I República, trapalhona. E, depois, no Estado Novo, competente q.b., mesmo que se algo trôpego colónia adentro. O regime europeu em África foi bastante diversificado, consoante o país colonizador, os tipos de colonos chegados, as características dos colonizados. As especificidades de cada uma das colónias. Ainda assim tinha duas características básicas:

 

a) racismo: a crença na legitimidade da tutela exercida sobre os locais, pretos. Estes considerados inferiores por condição racial, assim individual e colectiva. Ou por um estado transitório, seu contexto, seu “atraso”, assim também colectivo, mas possibilitando a ascensão “civilizacional” individual. Grosso modo, diferenças ditas como entre a visão segregacionista e a assimilacionista. Na administração portuguesa conviveram as duas visões, até mesmo coabitaram, desde a mais desbragada consideração da impossibilidade dos pretos ascenderem, até à crença de que “a seu tempo” evoluiriam a contento. Cerca de 1950 vingou a mais aprazível versão oficial assimilacionista – que tinha sido esfacelada desde a tal República -, aquilo de “os rapazes fazem-se”. E na década de 60 – após a reforma de Adriano Moreira, imposta não pela sua magnitude mas pelos “ventos da História” – as barreiras raciais administrativas foram muito aliviadas, as sociais algo matizadas, nesgas de assimilacionismo urbano medraram.

 

São essas nesgas que sempre surgem convocadas no memorialismo dos ex-colonos, a ladainha dos actuais sexagenários e septuagenários do “eu tinha indianos e mulatos, e até negros na minha turma de Liceu”, “nós lá em casa tratávamos bem os empregados”, “nunca vi racismo”, “os pretos andavam na rua”, etc. São estes aromas benevolentes que permitem que um tipo como Rui Ramos vá em 2024 à rádio disparatar “a descolonização começou em 1961”, para encanto de Maria João Avillez – essa que eu ouvi, com estes ouvidos que o forno cremará, clamar diante de uma elite moçambicana muito crítica (demasiado crítica, em meu entender) “vocês não gostam de nós?, depois de tudo o que fizemos por vocês?!!”. Isto não serve para entender o real. O passado. E um bocadinho do presente.

 

b) opressão e sobreexploração: as formas de opressão eram várias e os seus conteúdos diversos. Também há muita coisa escrita – sim, sei que muita da literatura anticolonial era muito militante, antes e depois das independências, a gente torce o nariz às formas selectivas dessas narrativas e análises. Mas é preciso não querer ver os âmbitos em que desvalorizações e a proibições eram exercidas para as ignorar, ou dulcificar. E depois a sobrexploração. Dir-se-á (e bem) que em Portugal também os direitos laborais (e outros) eram escassos. Mas por ali eram diferentes: a corveia (“trabalho por papas”) – para o Estado e para os privados que tivessem boas ligações com a administração – era pesadíssima. E imensa – e não é preciso ser um esquerdalho para relembrar isso, leia-se o bispo da Beira, Soares de Resende, um prelado conservador (um dos seus livros levou como título “Ordem Anticomunista”), exasperado com a apropriação continuada do trabalho  africano. E as culturas comerciais forçadas, que eram imposições muito gravosas sobre os pequenos agricultores (quase toda a gente), praticadas em muitas áreas. Entenda-se, tudo isto se associava a castigos corporais recorrentes. Que as crianças e adolescentes urbanos não viam ou, pelo menos, não percebiam – e por isso, por não saírem do seu anacrónico saudosismo, continuam a remoer espúrias negações.

 

Após 1961, as reformas legislativas alteraram os regulamentos mais impositivos e discriminatórios. Pouco depois Salazar já falava de um futuro (imaginado como algo longínquo) de “comunidade de países lusófonos”, conjugação de interesses e sentimentos sedimentada pela unidade da língua portuguesa – mas ainda não lhe ocorrera a necessidade de um novo acordo ortográfico. Mas ainda que em alguns núcleos, particularmente urbanos, a situação se tivesse matizado, permitindo alguma mudança no acesso de nichos da população negra a serviços, até empregos, as formas de opressão e sobreexploração não desapareceram, pura e simplesmente. As práticas continuaram, avulsas porventura mas não apenas episódicas. Pois as categorias mentais, as concepções ordenadoras dos interrelacionamentos, mesmo sendo vividas de formas distintas tanto por colonos como por colonizados, não desaparecem num ápice (como clamam os “críticos” actuais, no histrionismo de apontarem perenidade imorredoira entre os portugueses das formas extremas do ideário colonial), nem as condições económicas casam com imediatas alterações radicais, principalmente se sob uma administração autoritária e socialmente enviesada.

 

3. E em tudo isto a repressão. Em Portugal vivemos não só o cinquentenário dos “gloriosos capitães de Abril” como continuamos a louvar a “resistência antifascista”. Ora o 28 de Maio e o subsequente Estado Novo advieram da devastada e perversa I República – e 2010 podia ter-nos ensinado isso, mas não vejo ninguém na imprensa (no “Público” ou quejandos) a insistentemente exigir o ensino dos detalhes da trapalhada republicana aos petizes do secundário… E a ditadura salazarista sobreviveu décadas com a anuência de forças armadas, policiais e da… população.  Houve repressão, claro. A qual depois da II Guerra Mundial se atenuou (os tais “ventos da História”). Continua-se a ouvir falar das desgraçadas mortes de José Dias Coelho ou Catarina Eufémia (Delgado é um caso muito diverso) mas o certo é que mortandade foi escassa. Não estou a dizer que foi uma ditamole. Mas sim que tal como o tratamento dado aos presos políticos “doutores” ou “filhos de doutores” era diferente do dado aos do “povo”, também a repressão em África era muito mais carregada. 

 

É 1994, meu primeiro trabalho em Moçambique, estou em casa de Namwenda, um velho régulo, chefe mwekoni, está também Kolokoha, seu congénere – ambos postos da antiga chefatura macua-meto Inkigiri, dessas que in illo tempore haviam estado metidas até aos pescoços no comércio escravista. E mais uma dúzia de homens velhos, conselheiros, cabecilhas de parentelas. Eu estou a perguntar sobre as transições agrícolas do tempo colonial até àquele presente – mas deixo a conversa, animada, divagar. Até porque o que me interessa nem são as tais mudanças, estas são só pretexto. Contam-me que “antes de ter entrado a Frelimo”, durante a “guerra dos macondes”, os portugueses prenderam vários chefes macuas – entre os quais Namwenda – e levaram-nos para a prisão do Ibo. De sevícias em sevícias alguns haviam morrido, outros depois foram levados para a Machava (então Lourenço Marques) e desaparecido. Eram camponeses, macuas, nada tinham a ver com a guerra de independência – todos os que tenham visto filmes de guerra, tipo “Vietname”, reconhecem a situação: passam os guerrilheiros a população encolhe-se, vêm os dos exércitos regulares e acusam-nos de cumplicidade e reprimem. Mas só ali, naquele episódio, já se fizera uma mole de “José Dias Coelho”.

 

A conversa segue, longa tarde. Eu sei que o gravador cerceia a liberdade alheia e por isso escrevo, frenético, o que me vão dizendo. Voltamos à agricultura, ali chegou um projecto de incentivos à cultura comercial de milho e também de tabaco. Pergunto como eram os incentivos no tempo colonial. Sobre esse “fomento” logo falam da palmatoada, e descrevem. Eu sou jovem, inexperiente, e deixo escapar um esgar, impressionado. Namwenda fala, sorrindo, e todos se riem, pergunto a Tomás Brito, meu intérprete, qual a piada. Ele responde, traduzindo: “não foi você!”. E todos se riem, percebendo o que está a ser traduzido mesmo que não entendam português. Eu sorrio e penso “foda-se!”, “que lição!”.

 

4. Ultimamente o tópico do “passado colonial” (de facto os do passados pré-colonial e colonial) tem sido sugado por um feixe de jornalistas e académicos oriundos de partidos de origens comunistas. As abordagens são panfletárias, enviesadas. As aleivosias historiográficas são constantes, as tiradas demagógicas comuns. Ora não me parece que seja necessário doirar a pílula do passado – o qual, aliás ,está patente em vários textos consistentes, e disseminados, e é interesseiro que esta gente surja repetidamente anunciando um estado de inocência da sociedade portuguesa sobre o seu passado.

 

Muito mais do que discutir as mariolices que se vão escrevendo conviria perscrutar a agenda política que tem essa minoria altissonante. De uma forma mansa poderei convocar a ideia de patriotismo de Orwell, que o disse um “conforto identitário”. E o que esta extrema-esquerda identitarista deseja é romper o nosso “conforto identitário” português. Mas qual a sua agenda mais profunda, para além das pequenas benesses estatutárias (o apreço dos pares, por exemplo) e de pequenos financiamentos (os projectos, as performances, os colóquios)?

 

Cada um interprete como queira as ambições desta gente, neste seu afã de demonizar um passado que encerra numa visão que quer ser bicromática, a do mal e do bem, insensível à miríade de situações que – mesmo neste enquadramento colonialista – foram vividas. E que quer apagar os múltiplos reflexos e refracções que as variadíssimas dimensões do colonialismo tiveram e têm, em Portugal. E, mas isso então é que nada lhes interessa, nos países africanos antigas colónias.

 

O que me é relevante é não ser preciso higienizar o colonialismo, ou mesmo vasculhar em busca de um ou outro aspecto menos opressor para o poder contrapor, para perceber que estes tipos d’agora não querem entender melhor a História. Querem aldrabar – como o socratista Vale de Almeida quando clama ser Portugal um apartheid. Ou querem exercer a sua patética candura – como o (ex?)comunista Francisco Bethencourt quando vem perorar que é preciso pagar “reparações” para que as sociedades tenham um melhor  relacionamento futuro.

 

Há tempos conversava com um antigo – e excepcional – meu professor, PC “dos tempos”, homem de esquerda profunda, o qual deve ter andado por esses movimentos pós-Perestroika, nem perguntei, e também ele incomodado com estas constantes patacoadas: “estes tipos sentem um défice de não terem feito a luta antifascista, anticolonialista, não tinham idade para isso, então afocinham agora nisto…”, rematou. Ri-me, claro, concordando em parte, pois alguma coisa virá desse pobre entendimento autobiográfico.

 

Mas não basta como explicação global. Pois isto se faz pagar. Até a Gulbenkian, como vimos há pouco tempo, paga esta tralha.

 

(A ver se um destes dias volto ao assunto, à tal agenda política desta gente)

 

 

Reparações às ex-colónias


Paulo Sousa,

A treta das reparações às ex-colónias, trazida à tona no jantar com os correspondentes da imprensa estrangeira por Marcelo Rebelo de Sousa, é um assunto em que, pela natureza das respectivas causas, a esquerda e a direita não estão nem estarão de acordo. Por isso mesmo, é um óptimo tema para desviar a atenção da trapalhada das gémeas brasileiras. O assunto está aí, a esquerda brasileira no poder já pegou nele e o líder espiritual do Chega não lhe fica atrás nos decibéis. Mais uma marcelice lançada na praça pública. O interesse do país, a crescente polarização partidária, a urbanidade no espaço público e, last but not least, as suas relações familiares, nada contam face ao seu impulso patológico na busca do desequilíbrio.

Já muita coisa foi dita sobre mais este triste momento do nosso ainda Presidente, que, não haja quaisquer dúvidas, continua a beneficiar da tolerância apenas permitida aos excêntricos. Basta imaginar o que não seria se tivesse sido Cavaco Silva a referir-se a António Costa como “oriental” e por isso “lento”. Nem é bom pensar.

Relativamente à nossa suposta dívida para com as ex-colónias, vários são os pontos que podem ser lembrados e que mostram como tudo isto não é mais do que palha para entreter, e assanhar, o público.

No caso brasileiro, olhemos para o mapa da América do Sul. Salta à vista a desproporção territorial entre os países que dela fazem parte, em que o Brasil ocupa metade da área total, e a restante é dividida por doze outros países. Façamos, pois, um exercício de imaginação e imaginemos que o processo de independência da antiga estrela das colónias portuguesas tinha sido idêntico ao que ocorreu nas possessões espanholas. Imaginemos uma América do Sul composta não por treze, mas por vinte e quatro países. É fácil concluir que a paz entre estados que há décadas reina neste continente resulta exactamente do absoluto desequilíbrio entre todos eles. O processo de independência do Brasil, com todas as suas particularidades históricas, está visceralmente ligado à história de Portugal e permitiu que este colosso chegasse aos dias de hoje como um país que, além de ser um estabilizador regional, pela sua dimensão tem uma palavra a dizer à escala global. Tivesse, quem aposta no revisionismo para ganhar notoriedade, um conhecimento básico de história, assim como quem lhe dá atenção, e deste debate resultaria apenas um reconhecimento credor do mérito dos nossos antepassados comuns. Sobre a escravatura no Brasil, quem quiser mesmo pegar no assunto, que se entenda internamente com os descendentes dos antigos esclavagistas, pois são todos brasileiros.

O caso das reparações à Guiné-Bissau, Angola e Moçambique pode simplificar-se se, tal como acontece num contrato, começarmos por definir o que é que estes países são, como se formaram, como é que as suas fronteiras foram desenhadas, que ponto comum juntou sob a mesma bandeira diferentes tribos e etnias. Quem é que lutou, e morreu para que o que hoje é reconhecido internacionalmente como sendo as suas fronteiras, estejam onde estão? Faz ou não o respectivo território parte do que se identifica como país?

A natureza insular de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe altera a questão da definição das fronteiras, mas podemos também fazer um outro exercício de imaginação. Durante o processo de descolonização, foi considerada a hipótese de que Cabo Verde continuasse a ser parte de Portugal. Imaginemos que hoje este dois países seriam, tal como os Açores e a Madeira, outras duas regiões autónomas com uma Assembleia Regional, eleições regionais de quatro em quatro anos e que garantiriam aos seus habitantes cidadania europeia, assim como os fundos comunitários que privilegiam as regiões mais periféricas e desfavorecidas. Nem os líderes políticos portugueses dessa época, nem os fundadores das respectivas nacionalidades, tiveram a visão de que juntos estaríamos todos melhor. Não há forma de reparar esta falha que não é exclusivamente portuguesa.

Todos estes países, com as suas diferentes línguas locais, têm no português uma língua global, que lhes permite aceder à literatura clássica e científica, assim como a conteúdos multimédia e ao mundo digital. Pode isto entrar na conta das ditas reparações?

Ainda sobre o mesmo assunto, mas numa abordagem mais particular, já aqui escrevi sobre uma viagem que fiz à Guiné em 2013. Soube que depois de ter estado no Cacheu, junto ao antigo Forte Português, que ali foi construído o Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro. Eu, que gosto de história e de museus, gostaria de ali voltar para o visitar. Mas não consigo deixar de imaginar que numa terra onde uma pessoa pode morrer por lhe faltarem vinte euros, e que com cem euros se pode custear a anuidade de um aluno na Cooperativa de Ensino de São José, um dos poucos estabelecimentos que funcionam regularmente, para me questionar se as crianças do Cacheu, que correm pelas ruas em grupo e sem preocupações, sem médico ou escola, carecem mais do acesso a esses serviços, ou de um Memorial da Escravatura à sua porta.

É demasiada energia gasta em querer mudar o passado. Seria melhor canalizar tal empenho na construção de um futuro melhor.

Leituras


Pedro Correia,

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«A escravatura, como a colonização, não é a fonte de todos os males. Também se pode ser escravo de si mesmo e colonizador da sua comunidade.»

Rachel Khan, De Raça, p. 111

Ed. Guerra & Paz, 2021. Tradução de Pedro Carvalho e Guerra. Colecção Livros Vermelhos

500 anos de colonialismo


jpt,

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Eu não assino os jornais (nada tenho contra eles, é apenas devido à escassez do vil metal…). Assim, do que não está em acesso livre, vejo os títulos, cabeçalhos e – por vezes, quando são disponibilizadas – as introduções dos artigos. É deste modo que agora – via um cabeçalho do “Público” – vou ao “Expresso” (a imprensa de “referência”) onde um afamado colunista, representante da “esquerda”, bota o seu juízo sobre o ex-PR angolano Santos. Ancorando as suas práticas nos efeitos de “500 anos de colonialismo”…

 

Ora perorar sobre “500 anos de colonialismo” é, pura e simplesmente, uma indigência intelectual. Ou ignorância alarve ou aldrabice alarve, em plena “imprensa de referência”. Mas o que é verdadeiramente pungente nem são as décadas que os jornais passam a acolher esta tralha. São as décadas que os leitores, energúmenos, passam a ler isto.

Sugestões televisivas


Cristina Torrão,

O canal franco-alemão ARTE vai apresentar, hoje, dois documentários sobre temas actuais e polémicos, que não posso deixar de sugerir a quem tenha conhecimentos de francês.

O primeiro, com o título Sauvages, au coeur des zoos humains, vai para o ar às 20:15 horas (19:15, em Portugal) e fala-nos como crianças, mulheres e homens de terras longínquas eram exibidos na Europa, entre 1810 e 1940, ao estilo de zoos humanos, a fim de justificarem a colonização. Esta prática tornou o racismo quotidiano.

O segundo intitula-se Restituer? L’Afrique en quête de ses chefs-d’oeuvre, será exibido às 21:50 horas (20:50, em Portugal) e debruça-se sobre as obras de arte que a Europa, durante mais de um século, roubou às colónias.

Todos e todas nós temos opiniões mais ou menos formadas sobre os temas tratados. Mas é sempre aconselhável alargarmos os nossos horizontes. E, quanto mais polémico for o assunto, mais se aconselha. A modificação da opinião, ou não, é naturalmente decisão de cada pessoa.

Nota: os documentários já estão disponíveis para visualização nos links indicados.

Pedir desculpas pelo passado nacional


jpt,

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Há pouco mais de uma década o Presidente Cavaco Silva realizou uma visita de Estado a Moçambique. Como é prática nessas ocasiões fez-se acompanhar por uma alargada comitiva: políticos, empresários, quadros da administração pública, agentes de produção cultural. No vasto programa constava um colóquio na universidade na qual eu trabalhava, dedicado à importância da língua portuguesa, o qual contou com a participação de destacados intelectuais moçambicanos (alguns dos quais foram então condecorados) e portugueses. 

A actividade decorreu na ampla sala do centro cultural universitário, um antigo cine-teatro com largas centenas de lugares. Os professores haviam sido convidados, os alunos mobilizados, a sala estava apinhada. Eu sentei-me bem lá no fundo, para fruir descansadamente o meu uniforme de “jeans” puídos e polo desbotado. Um dos painéis constava de alocuções de escritores consagrados, locais e portugueses – estes ali pois inseridos na comitiva oficial da visita de Estado. E assim, porque isso aceitando e liberdades criativas à parte, surgiam assumindo um difuso papel de representantes da sua área laboral, por episódico que fosse esse seu encargo.

 

Chegada a sua vez de dissertar, um desses consagrados escritores pátrios anunciou à audiência o seu agrado por estar em África. Pois, detalhou, sendo ele um escritor que no seu labor muito aprecia romper com as regras da língua estava entusiasmado por se encontrar entre africanos, e na terra destes, pois as suas línguas estão desprovidas de regras. Uma condição virtuosa, deixou explícito. E continuou naquilo que tinha para dizer, ao que se lhe sucederam as arengas de outros participantes. Terminado o ror de comunicações abriu-se o consuetudinário “espaço de diálogo”, dedicado às perguntas oriundas da plebeia assistência. Instalou-se o tradicional silêncio, dada a provável exaustão dos seniores presentes e a timidez, até receosa, dos juniores diante de tamanhos protocolos ali patenteados.

Por isso, lá bem do fundo da sala e qual navio quebra-gelo, como se costumam auto-justificar os primeiros intervenientes destas ocasiões aquando das suas pálidas perguntas, aproveitei a ocasião. É que na sala estavam vários feixes de jovens que já me haviam sofrido como docente o que me fez sentir, talvez estuporadamente, alguma responsabilidade, uma espécie de fervor deontológico, por assim dizer… E resmunguei qualquer coisa como, caramba, aparecer alguém em XXI a clamar que as línguas africanas não têm regras gramaticais é de bradar aos céus, será um apogeu da incultura em qualquer um mas inadmissível em que tem por trabalho a… escrita e a leitura.

Depois aconteceu um inexistente debate, brevíssimo como é sua natureza quando assim. Ao qual, para gáudio de todos, se sucedeu um aprazível beberete, juntando alunos, professores e convidados. Como sempre mergulhei, com a convicção da militância, no universo dos canapés, de chamuças e adjacentes fornido. Logo um ou dois compatriotas residentes me abordaram num até enfastiado “ó Zé Teixeira, também não precisavas de ter dito aquilo, cai mal numa sessão destas...”, respondendo-lhes eu, com a massa crocante escapando-se-me entredentes, já beiços abaixo, “o homem está aqui em representação, nossa mesmo…“, “não vou deixar que os alunos acreditem em tal coisa ou, pior, que os portugueses pensam assim…“. Deste modo arisco escapado à sanção comunitária avancei em busca de quem me trocasse o vinho branco, acídulo em demasia, por uma singela 2M ou mesmo, utopia, um gin tónico. Para ser interrompido por três ou quatro colegas moçambicanos, cada um deles num “ainda bem que disseste algo, eu não ia dizer nada dado o contexto“, do cerimonioso que era o dia. Enfim, escorropichado o tal vinho, talvez até a posterior cerveja se entretanto alcançada, que a tanto não me chega a memória, regressei ao lar ainda conjugal. Para ouvir um sorridente, mas talvez já então desalentado, “já sei que estiveste a desatinar“…

Vem-me esta recordação agora quando, uma década escorrida, vejo um tipo que aquando quarentão pensava com tamanho défice sobre o real circundante, e África em particular,  a surgir na capa das revistas generalistas entoando o trinado da moda, o pimba do “Desculpa África” em ritmo extended version, meneando-se ao que julga ser o agrado da plateia. Deixemo-nos de coisas, pode ser que seja um bom ficcionista, não sei, nunca o li. Mas se assim for este é mesmo um caso de “quem te manda a ti, rabequista, remendar sapatos”. Ou não o é (repito, não sei, nunca o li). E então será caso de usar o dito original… Enfim, o homem que conte as histórias que tem para contar, que é tarefa mais do que digna. E deixe-se de querer ser intelectual maître à penser, que não tem arcaboiço para tal.

Não me alongarei – mais uma vez – sobre esta gemebunda “desculpabilização” tão em moda entre tantos. Apenas repito o que ciclicamente vou metendo sobre estas pobres mentes de atrevidas gentes: 

“… a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação.” (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

 

 

Remover Padrão e afins…


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Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra “as perguntas do Correio da Manhã“, apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo – entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado “corajoso” Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões “à esquerda”, constatam – talvez antipatrioticamente – o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma “devastada armada” e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham…

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima “questão colonial” veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do “team” governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam “racista” essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da “moldura humana”, em épocas transactas dita, e temida, “eleitorado volátil”.

É no âmbito desta “operação racial” que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário – e não meramente pessoal – desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político – e não meramente “questão cultural”, como alguns resumem – logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a “Pátria” de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

Enfim, desabafo feito, digo ao que venho. Será curial mas não muito elegante aproveitar este blog para chamar a atenção para textos no meu blog pessoal, o discreto Nenhures. Mas faço-o hoje. Pois a propósito deste “bota-abaixo o Padrão” o meu amigo Tiago Matos Fernandes – que conheci há décadas em Moçambique, onde trabalhou como voluntário e depois investigou para a sua excelente tese de mestrado -, botou um belíssimo texto no facebook, “o mundo num postal de facebook” como lhe disse. O Tiago pouco ou nada concordará com o ditirambo que eu aqui acima coloquei. Mas ainda assim deixou-me colocá-lo lá no Nenhures. Não o coloco aqui pois é algo longo para um blog colectivo e generalista. Mas muito o recomendo e por isso convido os leitores do DO a lerem-no: Enquanto Vasco da Gama dormia.

 

A semana do Império


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(Metangula)

 

A morte de Marcelino da Mata reanimou a discussão sobre a memória imperial e seus efeitos actuais, e tornou a semana passada numa verdadeira semana do Império. Muita coisa oca foi escrita. O assunto serve para o jogo político. Nesta matéria desde 2019 que eram notórias as tácticas do PS, utilizando-a para minar a influência do BE na esquerda urbana. Algo que agora se tornou explícito, nas patacoadas de deputados socialistas (derrube do Padrão dos Descobrimentos, lamento pela relativa placidez do 25 de Abril, apagamento ou elisão de pinturas alusivas às navegações portuguesas) cavalgando a agenda dos activistas identitaristas. Ou seja, à promoção socialista do Livre e à posterior cooptação da sua ex-deputada, sucede-se o rapto do radicalismo discursivo desta “causa”. Em futebolês dir-se-ia que o PS adoptou agora a “pressão alta”. Não tanto sobre os resquícios materiais e intelectuais do colonialismo mas sim sobre os codiciosos arietes identaristas ainda sitos no plantel do BE.

 

Para muitos académicos e afins é agora necessário, meio século depois do fim do Portugal colonial, afrontar os resquícios do Estado Novo, materiais e intelectuais. E nisso refutar o “lusotropicalismo”, essa síntese enviesada feita após 1950 por Gilberto Freyre e intelectuais portugueses, justificativa do colonialismo, e a memória das navegações de XV-XVI, dos “Descobrimentos”.

 

Ora nós podemos perfeitamente viver com parcelas do legado cultural (e propagandístico) do Estado Novo. Como muito bem acaba de lembrar Helena Ferro de Gouveia o Castelo de São Jorge (e tantos outros castelos) que conhecemos são reconstruções – propagandísticas, construtoras de “identidade nacional” – do Estado Novo. Vamos (re)arruiná-los, para nos purgarmos da mundivisão salazarista? E podemos perfeitamente louvar os extraordinários feitos quatrocentistas e quinhentistas, e considerá-los parte fundamental da construção do país – todos os países têm um discurso mais ou menos dominante sobre si mesmos. Não uso qualquer sarcasmo, mas que diríamos se a Ordem dos Dentistas viesse questionar a celebração das navegações devido ao escorbuto que grassava entre as equipagens? Afirmando que tal é um atentado à higiene bucal, de efeitos perniciosos à actual saúde pública? Não se pode respeitar os espantosos feitos científicos e técnicos e a fibra dos participantes enquanto se lavam os dentes e se tem alimentação apropriada?

 

A grande questão é outra, não é afrontar os discursos de até há meio século, o tal “lusotropicalismo” do Estado Novo. Mas sim reflectir nos discursos que esta II República promoveu sobre o país, sua realidade e seu futuro. Ou seja, que discurso sobre si-mesmo produz o país, para além do corolário europeu e do gemido lusófono? Estruturante foi a produção da visão da “Lusofonia” como enquadradora do país. A qual reflecte e refracta o tal “lusotropicalismo” mas a isso não se restringe. É um produção dos intelectuais actuais, em particular dos ligados ao Partido Socialista finissecular, herdeiros do republicanismo. Na ânsia de se proclamarem “antifascistas” os intelectuais de hoje elidem isso, e fogem à crítica radical da produção actual. E os políticos ainda mais: tem algum sentido um mariola deputado propôr o derrube do Padrão dos Descobrimentos e esquecer-se de propor a renomeação da Ponte Vasco da Gama? Não, é apenas uma boçal demagogia. Mas também simboliza a ausência de questionamento do ambiente intelectual actual.

 

Acabo de reler um pequeno livro, “Este País Não Existe“, colectânea de textos de jornal, com autores insuspeitos de lusotropicalices, com Bethencourt, Ramada Curto, Castro Henriques, entre outros. E no qual está um artigo de 2007 de Alfredo Margarido (do qual ainda tenho o recorte do original), devastador do discurso da lusofonia. E é significativo dos limites da análise crítica (re)ver que um dos organizadores, Nuno Domingos (que trabalhou sobre Moçambique), reduz as críticas ao Acordo Ortográfico a um irredentismo saudosista da “gesta” pátria. E que nessa colectânea, que abrange textos sobre variadíssimos temas ligados às representações sobre o país e sobre a memória colonial, ninguém tenha abordado esse AO 90. O que denota a incapacidade (ou a falta de vontade) de olhar para como a II República, em particular os intelectuais de extracção republicana e sediados no PS, pegaram no projecto explícito de Salazar de compor um comunidade de língua e sentimentos – a reforçar e perpetuar por uma homografia. E continuaram-no.

 

Ou seja, a questão não é discutir o tal Estado Novo, findo em 1974. Mas sim a II República, vigente. Não é discutir o “lusotropicalismo”. Mas sim a “Lusofonia”. E nisso não só debater os seus conteúdos programáticos. Mas também as suas práticas. E os arranjos estatais em seu torno: e nisso perceber que muita gente se afixa avessa ao “lusotropicalismo” mas produz, reproduz e recebe (d)a lusofonia.

 

Enfim, vou buscar a minha memória. Contactei com (“levei com”, no jargão) o arrivismo ignaro e a pesporrência da administração cultural socialista lusófona. Antes ainda dos textos de fins de XX de Margarido ou Lourenço, devastadores da ideologia lusófona. Quando Castelo publicou o seu estudo tornado canónico sobre o lusotropicalismo. Bloguei no ma-schamba durante 12 anos: tenho aí 167 postais com a etiqueta “lusofonia“, quase uma monomonia. Sobre a ignorância, a patetice, o atrevimento da administração estatal, da imprensa, da academia. Lusófonas.

 

Não me venham assim criticar o defunto Estado Novo. Mas sim ser verdadeiramente analíticos: do presente. Da chamada intelectualidade de esquerda – há três décadas a viver de lusofonices. (E não me chamem “ressentido”: fui eu que saí desse gravy train. Apeando-me de uma carruagem de primeira classe).

 

Para ilustrar tudo isso, deixo ligação a dois textos antigos do ma-schamba, neste postal e num seguinte. Sobre as lusofonices. De 2002. Forma palavrosa de mandar à merda estes deputadozecos socialistas. Mais as professorazinhas que vão à TVI dar-me e dar-nos lições de literacia, para cobrir de elogios “o Mamadu”. O primeiro escrevi-o em Mandimba, na primeira vez que fui ao Niassa.

 

 

“On disputa um peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l’aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (…) car [on] supposait qu’un homme qui n’était pas né en France n’avait pas le sens commun” 

                                                                                                                                              (Voltaire, L´Ingénu, 1767)

Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. A ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.

Assim acomodado deparo com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.

Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!

E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.

Adianto-me e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me acaba o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapôr a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.

Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos. Adiante.

Passado um ano, o já referido Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, a qual aqui foi lançada com grande pompa, no seio de grande iniciativa e de inúmeras personalidades autorais, uma imperial embaixada de lusófonos inteligentes. Para nela ser incluída encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado?Adiante.

Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito, terminou sublinhando o seu enorme reconforto pela esperança na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu. Adiante.

Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, e ali camuflado por estas montanhas um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…

Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que vão instalar lá o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, procuro rematar “Hum, devem ser alguns saudosistas portugueses…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu. Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?

Mandimba, 2002

Falando em “símbolos coloniais”


Pedro Correia,

 

Nas últimas semanas tem havido muita discussão nas redes sociais, em Portugal, sobre a manutenção de “símbolos coloniais”. Por vezes com vocabulário datado de há meio século e hoje totalmente ultrapassado. Qualquer folheto ou documentário de propaganda turística demonstra como o adjectivo colonial foi reabilitado, entre elogios ditirâmbicos à «arquitectura colonial», à «gastronomia colonial» e até à «atmosfera colonial» nas mais diversas paragens. Não faltam aliás, ainda hoje, países com possessões coloniais – com destaque para França, Holanda, Reino Unido, Dinamarca e até os Estados Unidos.

Alguns por cá, tolhidos por absurdos complexos de inferioridade e totalmente incapazes de assumir a História com as suas luzes e sombras, não perdem uma oportunidade de esgrimir contra “símbolos coloniais” – seja aos gritos contra a toponímia (como a da Praça do Império, em Lisboa) ou na diabolização de palavras consideradas malditas (como ocorreu na polémica em torno do putativo Museu dos Descobrimentos), passando pela vandalização de estátuas (como a do Padre António Vieira) ou até pela demolição de monumentos (como sugere um deputado socialista, aludindo ao Padrão dos Descobrimentos), mimetizando a histeria em curso nos States. 

Em qualquer dos casos, pretende-se submeter factos passados ao crivo de cartilhas ideológicas actuais em nome da correcção política. Ignorando vozes sábias, como a de Ramalho Eanes, que muito recentemente declarou: «Sem império, dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha.»

 

Enquanto por cá isto se passa, vale a pena revisitarmos países e territórios que já fizeram parte do império colonial português. Para verificarmos como os símbolos históricos relacionados com Portugal são hoje ali encarados no espaço público. Proponho-vos uma pequena digressão em imagens oriundas de África, América, Ásia e Oceânia.

Sem lamúrias nostálgicas mas com respeito integral pelo tempo que passou.

 

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Mindelo, Cabo Verde: estátua do navegador Diogo Gomes

 

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Farim, Guiné-Bissau: padrão evocativo do Infante D. Henrique

 

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Huambo, Angola: estátua de Norton Matos, governador (1912-1915) e alto-comissário (1921-1924)

 

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São Tomé: estátuas dos navegadores João de Santarém, Pero Escobar e João de Paiva

 

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Ilha de Moçambique: estátua de Vasco da Gama

 

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Salvador, Brasil: estátua de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil (1549-1553)

 

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Goa: Arco dos Vice-Reis, com estátua de Vasco da Gama 

 

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Damão: monumento aos portugueses que «morreram pela pátria»

 

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Diu: estátua de D. Nuno da Cunha, vice-rei da Índia (1529-1538)

 

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Macau: estátua do navegador Jorge Álvares

 

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Díli, Timor-Leste: padrão evocativo do Infante D. Henrique

Os arranjos florais da Praça do Império


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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.

 

Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece – tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.

 

Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.

 

1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório – e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.

 

Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.

 

Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como “ofensivos”. Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente…

 

2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na “Praça do Império”. Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero “show-off”. Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?

 

Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito “bairro colonial”, e no mesmo eixo de conteúdos – nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a “ofensa” com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores – e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal “show-off”.

 

A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao “turístico” vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona “nobre”, “histórica” e assim “patrimonial” e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do “épater le bourgeois” com o “para inglês [de facto “americano” de campus] ver“.

 

(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular “Bairro das Colónias” – como ainda patente nas placas camarárias – e partam da Praça das “Novas Nações”, sempre dita das “Colónias”, e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, “contra os bretões marchar, marchar“).

 

3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta “Praça do Império”, símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma “Praça da Amizade”, decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.

 

Ora esta “amizade” é o eco, até inconsciente, do ideário da “Lusofonia”, essa proclamação acrítica da amizade/”comunhão de sentimentos” que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.

 

4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por “Praça da Diplomacia”, simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente “iluminista”.

 

5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as “relações raciais” (velho epíteto, a la Boxer) entre “negros” e “brancos” (e até “latinos”) advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas “relações raciais” (“negros”/”brancos”) foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.

 

Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de “intervenções” progagandísticas sobre o “património”? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é “intervencionar” os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.

 

Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.

 

Mas isso, “intervencionar” os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os “pais fundadores” deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

Intercâmbio colonial


Paulo Sousa,

Já aqui falei da simetria do Livre, agora da Joacine, e do Chega.

Perante a inação dos partidos moderados, que têm responsabilidades de moderação, estes dois partidos comportam-se como adolescentes. Regularmente geram cabeçalhos, aspergindo o espaço público com fricções que agitam o instinto gregário da natureza humana e a que não reagimos uniformemente. 

Pela ocupação do espaço público, Joacine e Ventura acreditam que terão benefícios de curto prazo, o que até pode ser verdade mas, como já aqui defendi, dificilmente os dois serão beneficiados na mesma proporção.

A relação de Portugal com os territórios que, mal e bem, colonizou, foi sempre biunívoca. Muito se trouxe mas também muito se deu e muito de nós lá ficou.

É uma repetição habitual dizer-se, e é um facto, que se não fossem os portugueses teriam sido outros a ocupar aqueles espaços. Uns geriram melhor que nós e outros muito pior. Nisto, como em quase tudo na nossa história, raramente fomos excelentes, e poucas vezes fomos péssimos.

Nesses territórios, agora países, deixámos um legado que será certamente preservado e refiro-me, por exemplo, às respectivas fronteiras. Milhares de portugueses daqui partiram, por lá viveram, combateram e morreram, para ajudar a definir os traçados dos territórios que agora são o chão pátrio destes países com que estaremos sempre irmanados. Pontualmente, os territórios poderão não coincidir com as divisões étnico-geográficas que facilitariam a criação de uma identidade própria imediata de um estado-nação nos moldes actuais, mas tendo sido a respectiva independência posterior à definição da unidade geográfica, podemos legitimamente assumir este legado.

Além disso, a língua de Camões é uma ferramenta de comunicação válida e efectiva no mundo global, com a espessura técnica e científica que nenhum dialecto regional ou tribal poderia proporcionar. Também pela língua que partilhamos, sempre estaremos irmanados.

Especificamente sobre devolução das obras de arte gostaria de questionar Joacine se acha que a arquitectura, enquanto abordagem artística sobre as circunstâncias, pode ser incluída na sua proposta.

Nesse sentido proponho-me a criar aqui uma pequena rúbrica com sugestões para a troca que Joacine sugere.

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Ponte pensil sobre o Rio Tete – Moçambique

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Ponte Samora Machel sobre o Rio Tete – Moçambique

Obra assinada pelo Prof. Edgar Cardoso