O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Muito recentemente, o embaixador Dan Negrea, representante dos EUA no Conselho Económico e Social da ONU, em discurso aí proferido, declarou com todas as letras que a invasão russa da Ucrânia tem sido um desastre estratégico, já que Moscovo não consegue atingir os seus objectivos no campo de batalha; e que a intensificação dos ataques não irá alterar a situação, só servindo para agravar o desastre; finalizando por concluir que esta guerra tem de terminar agora, já basta o que basta.

Claro que a solução da “pax à americana” continua a passar por retirar os apoios à Ucrânia e não por apertar mais o garrote ao Putin – mas o atestado de incompetência fica passado, de forma crua e directa: a invasão é um desastre estratégico sem remédio possível.

O facto relevante é que os “amigos americanos” estão a ficar não só impacientes mas mesmo aborrecidos com a inépcia militar russa, até porque não conseguem inventar mais nada para os ajudar: já sabotaram os ucranianos e os europeus de todas as maneiras possíveis mas, como diria o tal representante, o desastre só se agrava.

 

Tendo acordado tarde e em situação de imprudente fraqueza, a Europa, e não apenas UE, tem conseguido recuperar em marchas forçadas autonomia e firmeza.

Veja-se as conclusões da cimeira dos países nórdicos e bálticos em relação à Ucrânia e sua “adesão irreversível” à NATO e urgência de admissão na UE… Ou a fortificação acelerada de Gotland e respectivo domínio do Mar Báltico, nas barbas do Putin, que faz o quê, roer as unhas? Afinal, e graças a ele, a Suécia é membro da NATO e é a NATO que está em Gotland.

Se não há alternativa possível para a Europa demo-liberal a não ser embarcar nessa “nova ordem mundial” que lhe querem impor, pois que o faça em situação de força e não como despojo de civilizações regressivas, messiânicas, autocráticas e oligárquicas – de que, infelizmente, os EUA se tornaram mais um, e talvez o pior, dos exemplos.

Afinal, não há traição mais dolorosa do que daqueles que nos são mais próximos. Mas há que seguir em frente.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Também faz parte dos meus passatempos, já me sinto menos voyeuse. Naquele [supermercado] que mais frequento – pequeno e de bairro – noto sobretudo o que o carrinho diz sobre a vida de cada um, e isso depende também das horas a que lá se vai…

Final da tarde é certinho encontrar a mãe ou pai que vai comprar o ingrediente que falta para o jantar e muitos jovens profissionais da pizza/lasanha congelada. Muitos reformados que vivem sozinhos ou a dois e para quem cozinhar já não compensa…

Vejo muito consolo alimentar, as batatas fritas, umas bolachas, um chocolate ou uma cerveja.

Vejo muita pobreza também. Pessoas que dominam o cartão de descontos e que pedem para anular artigos nos avios do mês – cheio de ultraprocessados, que é mais barato – quando excede orçamento.

Vejo essencialmente cansaço, muito cansaço, e a vontade de chegar a casa e esperar que a semana acabe.

Comer bem está a tornar-se um luxo para muitos portugueses. Fala-se pouco disso.»

 

Da nossa leitora Marta. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«O Regresso ao Bairro: 2007 vs. 2026

Esplanada do café em frente ao dito prédio. Vinte anos depois, a fachada de azulejos claros está agora pintada de cinzento-antracite. Onde se lia “Snack, Queijos e Enchidos”, há agora uma loja de plantas suculentas e cerâmicas artesanais a 40 euros a peça. O cartaz tosco “HÁ NO 1º ANDAR DORMIDAS E PUTAS” foi substituído por uma placa de latão polido a dizer “Boutique Co-Living & Tantric Mindfulness Retreat – AL”.
Dois vizinhos históricos, o Sr. Alfredo e a D. Ermelinda, observam a transformação.

D. Ermelinda: (A beber uma meia-de-leite desenxabida) “Olhe para aquilo, Alfredo. Vinte anos. Vinte anos e eu a pensar que a pouca-vergonha tinha acabado quando fizeram obras ao prédio.”

Sr. Alfredo: (A acender o terceiro cigarro da manhã) “A pouca-vergonha não acabou, Ermelinda. Antigamente, a tabuleta dizia ‘Dormidas e Putas’. Era honesto. Era serviço público. Você lia a placa e sabia exatamente o que o prédio oferecia.”

D. Ermelinda: “Ai credo, Alfredo, também não precisa de falar assim. Mas que era mais sossegado, lá isso era. Hoje em dia é só malucos de trotinete a entrar e a sair a qualquer hora. Fui ver à internet, Alfredo. Cobram 300 euros por noite! E chamam àquilo uma ‘experiência imersiva’.”

Sr. Alfredo: “No tempo do cartaz preto, a experiência também era imersiva, e se calhasse apanhar chatos, a farmácia resolvia com vinte paus. Hoje, você apanha um nómada digital à porta do prédio e fica infectada com dicas de criptomoedas e uma súbita vontade de beber chá de kombucha.”

D. Ermelinda: “Ainda no outro dia fui lá queixar-me do barulho que faziam lá em cima com as taças tibetanas às duas da manhã. Veio à porta uma americana de tranças que me disse que me estava a enviar “energias positivas” para alinhar os chakras.”

Sr. Alfredo: “Lá está. No tempo do cartaz tosco, havia civismo, caramba! Havia respeito pelos vizinhos! Agora? Agora o bairro está alinhado com o universo mas ninguém consegue pagar a renda.”

D. Ermelinda: (Suspira) “Sabe que tenho saudades do antigo prédio, Alfredo?”

Sr. Alfredo: “Não tenha, Ermelinda. No fundo o prédio está igual, só mudaram foi as putas.”»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste postal.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Muito mais vezes do que aquelas que poderíamos imaginar, a realidade mostra-nos que nem sempre os filhos são desejados e queridos pelo pai e/ou pela mãe que os fizeram ou que nem sempre o pai e a mãe que os fizeram são competentes para os criar e, quando é assim, acaba por se esvanecer a “visão romantizada e idílica” de fazer um filho.

No universo das famílias vai havendo de tudo: famílias negligentes, que vetam os seus filhos ao abandono físico, psicológico e/ou emocional, deixando-os entregues a si próprios; ou que se mostram incapazes de lhes providenciar os necessários cuidados de saúde, de higiene, de vestuário e de alimentação; ou famílias que infligem aos seus filhos maus-tratos físicos e/ou psicológicos, algumas vezes pautados por uma violência atroz, ilustrada por agressões físicas, psicológicas e/ou sexuais.

Muitas vezes temos pais e/ou mães como efectivos e hediondos agressores, contrariando cabalmente a representação da família como “um ninho de amor, de moral e de bons costumes”.

Por muito que custe aceitar, há por aí muitos “monstros”, capazes das maiores crueldades e de perpetrar as maiores atrocidades contra crianças/jovens, muitas vezes contra os próprios filhos… O caso presente é apenas um exemplo do anterior, que acabou por se tornar conhecido de todos, mas os exemplos que permanecem “incógnitos” são muitos…

 

Ao longo da minha vida profissional, já vi de tudo, nada ou muito pouco me poderá ainda surpreender.

Mas confesso que sempre que me deparo com alguma situação em que os progenitores são os principais agressores (pai, mãe ou ambos) a minha crença na Humanidade fica irremediavelmente posta em causa…

Lamenta-se profundamente, mas a crueldade intencional entre humanos é algo que nos distingue, pela negativa, dos restantes animais… De resto, causar intencionalmente sofrimento a terceiros só costuma acontecer entre os animais humanos, é praticamente um exclusivo dos ditos seres humanos…»

 

Da nossa leitora Paula Dias. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A estupidez [foi] propagada ao longo de décadas, até por intelectuais de renome, sobre o pretenso “carácter científico da doutrina estalinista”.

A verdade é que, ao longo dos tempos, se foi estabelecendo uma associação entre o pensamento filosófico de Karl Marx (o “materialismo dialéctico” simplificadamente rotulado de “marxismo”) e as experiências soviéticas dos regimes leninista e estalinista. Não existe, porém, qualquer fio condutor que os unam; pelo contrário, subsiste uma profunda distinção entre o pensamento original de Marx e as adaptações políticas que esses regimes totalitários erigiram em seu nome.

Há quem reiteradamente insista em recorrer à análise cientifico-filosófica de Marx como justificação para os que instrumentalizaram as suas ideias, nas práticas dos regimes totalitários do século XX (como o leninismo ou o estalinismo, e mais tarde, o maoismo), que traíram o pensamento fundamental de Marx, desvirtuando os ideais de um pensador focado na análise científica do capitalismo à época (das sociedades industrializadas da Inglaterra e Alemanha) e na procura pela emancipação humana (“o fim da alienação do indivíduo”) e do humanismo que estava subjacente à sua filosofia.

Porventura, no mundo em que vivemos, regido pelo capitalismo tecno-financeiro, caracterizado pela hegemonia da tecnologia e financeirização da economia sobre a produção real, motor central do aumento das gritantes desigualdades da riqueza a nível mundial, talvez faça sentido o regresso às ideias de Marx, não pela utopia de novas revoluções, mas sim na procura de um mundo de igualdade neste tempo de profundas injustiças.»

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«The Genuine Lusitanian Experience Concept Store (Antiga “Casa das Linhas”)
Chad & Brooklyn: Americanos de Portland, vestidos como se fossem subir o Evereste para ir beber um café.

Duarte: O empregado, 24 anos, barba aparada a laser, que recusa falar português para não “quebrar a vibe”.
Brooklyn: (Olhando para uma caneca com a cara do Fernando Pessoa e a frase “I’m a Stranger in my Own Country”) — Oh my God, Chad! Look at this! It’s so… organic. Is this the “Lisbon” vibe?
Chad: Totally. I love how they rebranded the whole city to match our Instagram feed. It’s like being in New York, but with more hills and cheaper gluten-free toast.
Duarte: (Aproxima-se com um sorriso de quem pratica ioga mas odeia pessoas) — Hello there! Welcome to the Store of the Typical Stuff for People who don’t Live in Lisbon. Can I help you find something… authentic?
Brooklyn: Hi! We wanted something really traditional. What is this? (Aponta para um íman de frigorífico que diz “L-I-S-B-O-N: Land of Sun, Beer or Nothing”)
Duarte: Ah, that’s a curated piece. You see, we don’t use the old name anymore. “Lisboa” is so… local. We prefer the international branding. It’s cleaner. It’s Lisbon. It fits better in a hashtag.
Chad: Smart. Very global. I saw a sign outside for a “Portuguese Custard Tart”. Is that what the locals call “Pastel de Nata”?
Duarte: (Ri-se de forma condescendente) — Oh, no one says “Pastel de Nata” anymore. It’s too phonetically aggressive for the Anglo-Saxon palate. We call them “Sunny Egg Disks”.
Chad: Incredible. And this shirt? It just says “LISBONER”.
Duarte: It’s our best-seller. It’s for people who want to feel like they belong here.
Brooklyn: I’ll take two! It’s so much more sophisticated than saying we’re in “Lisboa”. That sounds like a place where people actually work.
Duarte: Oh, heavens no. We don’t work here. We curate. That’ll be 85 euros, please.
Chad: Awesome. Lisbon is so much better than… whatever it was called before.
Duarte: (A acenar enquanto eles saem) — Have a meaningful stay in the sun!

Se Camões visse isto, provavelmente queimava Os Lusíadas, enquanto bebia uma “imperial” — que, nesta loja, certamente se chamaria “Golden Hop Sparkling Water”.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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Efectivamente, a língua portuguesa atravessa um período complicado.

Não me refiro ao que se passa em algumas áreas falantes do português, desde há muito sob a forma da língua no Brasil (língua brasileira), mas também do que vem sucedendo em Moçambique (onde o português de Moçambique “moçambicanismo” é já dominante no falar da maioria da população, como até na escrita de alguns autores de nomeada, como Mia Couto).

Pelo contrário, em Angola, ainda não é identificada a existência de uma variante falada do português, porventura pelo facto de ser o país onde a percentagem de falantes de português como primeira língua é a maior, onde cerca de 80 % dos angolanos falam português.

 

Refiro-me, como bem acentua no seu texto, ao português falado em Portugal – não do português escrito, onde impera o caos ortográfico causado pelo AO-90, que Angola e Moçambique se recusam a ratificar – onde é cada vez mais normal haver termos, palavras, expressões em inglês numa conversa ou na escrita em português, a praga do “portinglês”, trocando:

reacção ou opinião por “feedback”,

peritos por “experts”,

exibição ou prestação por “performance”,

público-alvo por “target”,

dinheiro por “cash”,

panfletos ou folhetos por “flyers”,

guiões por “scripts”,

boletins por “newsletters”,

aparência ou visual por “look”,

hiato por “gap”,

visita ou excursão por “tour”, etc., etc.

E ai de quem não os utilize, que logo é apelidado de ignorante!!!

No que me diz respeito, recuso-me a tal, como de resto a aprender e a escrever de acordo com as novas regras do último Acordo Ortográfico (AO-90), ou “acordo pornográfico” como alguns jocosamente o intitulam.

Vou continuar a escrever com o Português que me foi ensinado nos anos 60 do século passado, na Escola Primária e no Liceu, por professores altamente qualificados.

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Israel parece ter aceite o cessar-fogo de duas semanas com o Irão, no entanto adverte que as operações no Líbano são para continuar. Será que irá respeitar a trégua anunciada por Trump? Não seria a primeira vez que Netanyahu tomaria a iniciativa de reforçar as hostilidades à revelia de Trump, que já se sentiu desautorizado em mais do que uma ocasião.

O comunicado de Trump na sua rede bateu todos os recordes de grosseria de um político, insultando com linguagem de filmes classe Z um povo e seus governantes, com ameaças prenunciadoras de catástrofes sem paralelo.

Tendo armado este sarilho que afectou meio mundo e do qual não sabe como sair, parece que finalmente a massa de grunhos que o apoia está a minguar, quer ao nível do homem da rua quer nas mais altas instâncias do poder. Já não era sem tempo.»

 

Do nosso leitor Carlos Arnaut. A propósito deste texto do João André.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Se merecem estar na lista canónica? Claro que merecem. É preciso ter uma paciência de santo para descrever o vento nos pântanos de Yorkshire durante duzentas páginas ou o drama existencial de uma gaja que decide ir comprar flores sozinha. O suspense é tanto que quase me esqueço de respirar.

Mas é esta cegueira selectiva que me faz querer atirar um tinteiro à cabeça de um académico: Cem títulos. Cem. E nem um, repito, nem um autor de banda desenhada. Onde estão os génios da BD? Aparentemente, para estes 82 iluminados da BBC, se uma história tem desenhos e balões, deixa de ser literatura e passa a ser “coisa de miúdos” ou, pior, “cultura pop”.

Onde está o Neil Gaiman?

Onde está o Grant Morrison?

Onde está o Warren Ellis?

A ironia disto tudo? É que daqui a cem anos as pessoas ainda vão ler o Batman do Grant Morrison, mas ninguém se vai lembrar se a Dorothea Brooke casou com o tipo certo.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Sim, o ódio também consegue mover montanhas, é verdade. Mas jamais conseguiu e jamais conseguirá obliterar aquela Montanha onde foi proferido o Sermão que nos declarou a todos irremediavelmente irmãos, odiosos e odientos incluídos – e por mais que a estes custe.

E se também é certo que muitos homens bons acabaram mal, nesse sentido mal acabamos todos, mais tarde ou mais cedo. O que realmente importa é viver no bem tanto quanto possível, e morrer em coerência; e os exemplos que trouxe são disso mesmo… exemplares – tal como o do Filho do Homem que falou de bem-aventurança na Montanha inamovível e acabou escarnecido e torturado numa cruz, permanece exemplar.

 

Edgar Morin, designadamente em O Paradigma Perdido, debruçou-se com algum detalhe sobre os mecanismos do ódio, esse afecto negativo que se diria funcionar por transvase entre a singularidade biológica, a “natureza humana” e as suas concretizações socioculturais.

Diz aí: «(…) dado que o próprio controlo sociocultural está submetido às forças de demência nas histerias colectivas, nas repressões maciças, nas matanças, nos sacrifícios humanos, nos bodes expiatórios e, evidentemente, nas guerras, etc., o delírio é, portanto, a conjunção entre a invasão dessas forças pulsionais descontroladas, por um lado, e por outro lado a sua racionalização e operacionalização por intermédio do aparelho de organização lógica e/ou pelo aparelho de organização social.»

E conclui: «Deste modo, a satisfação do ódio, ‘hubris’ agressiva não controlada geneticamente (ao contrário da agressividade animal), vai racionaliza-se pela ideia de “fazer justiça”, de punir, de eliminar um ser malfazejo, e vai ser operacionalizada por técnicas de matança e de suplício. Assim, no século vinte, a ciência e a lógica, do mesmo modo que guiam a civilização, estão ao serviço das forças da morte.»

 

Tendo estas palavras sido escritas no início dos anos 70 do século passado, bem podiam tê-lo sido hoje, acrescendo ainda todas as “maravilhas” tecnológicas que entretanto se vieram acumulando e sem limite à vista – e que se têm, declaradamente, estado ao serviço da “satisfação do ódio”, já não resulta tão líquido que continuem a ser “guias de civilização”. Teremos de esperar para ver, e ir porfiando nesse sentido, contra os descontrolos, demências e delírios da “natureza humana”.

Porque como disse Buda:

«Todas as coisas vêm do espírito. Tudo nasce do espírito – e tudo pelo espírito é formado. Se alguém fala tomado de espírito maligno, e se comporta e age com espírito maligno, o sofrimento segue-o de feição tão infalível como a roda que segue o animal de tracção.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Cada vez mais acredito que a estupidez humana é uma doença incurável, um veneno sem antídoto… Sim, a minha crença nas (supostas) virtudes da Humanidade tem vindo a sofrer fortes reveses…

E quando se fala em estupidez, vêm-me sempre, mas sempre, ao pensamento as cinco Leis Fundamentais da Estupidez Humana, de Carlo Cipolla:

1.ª Lei: O número de indivíduos estúpidos que existe no mundo é sempre e, inevitavelmente, subestimado;

2.ª Lei: A probabilidade de um indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras suas características, pelo que os estúpidos estão em todos os grupos e por todo o lado;

3.ª Lei: É estúpido aquele que provoca uma perda ou dano noutro indivíduo, embora ele próprio não retire daí nenhum benefício e eventualmente até cause a si mesmo alguns prejuízos. A vontade de causar males e perdas a terceiros, sem retirar qualquer proveito próprio, prevalece na maioria dos estúpidos;

4.ª Lei: O poder destruidor dos estúpidos torna perigosa a associação aos mesmos e não deve ser subestimado. O ser humano racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido;

5.ª Lei: O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso que existe, mais pernicioso do que um bandido. A capacidade destruidora do estúpido correlaciona-se com a posição de poder que o mesmo ocupe, ou seja, a sua capacidade de prejudicar terceiros torna-se mais devastadora consoante o grau de poder do cargo que exerça.

Genialmente, Carlo Cipolla conseguiu interpretar muito bem o modus operandi de um indivíduo estúpido. Conheço alguns estúpidos e devo dizer que estas cinco leis lhes servem na perfeição…»

 

Da nossa leitora Paula Dias. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Nem precisamos de entrar nas esferas da política, da gestão de empresas ou da hierarquia militar para constatarmos isso mesmo, basta a trivial experiência da convivência social e da pertença a grupos. Alguém falou do “chefe de turma” ou do “administrador do condomínio”, e são dois bons exemplos entre miríades possíveis de como os integrantes de um grupo reconhecem um líder natural, e o elegem, sem precisarem de listas ou programas de candidatura.

Quanto aos autoproclamados “homens sérios”, quem é que nunca teve a má experiência de conhecer um? Daqueles que nos perguntam, em tom de grande indignação, “Mas você está a duvidar de mim?!!” quando lhes pedimos um recibo, ou um comprovativo, ou um contrato assinado num negócio; ou que por dá cá aquela palha nos dá a sua “palavra de honra”…

Eu fico logo de pé atrás, são de certeza vígaros; e só me arrependo de quando não fiquei.

Num caso ou no outro, líder natural ou homem íntegro, estou convencida que são traços de personalidade inatos, não adquiridos; mesmo os que se corrompem nas andanças da vida nunca os perdem completamente, enquanto aqueles que porfiam intencionalmente, até esforçadamente, por os ter, nunca os alcançam completamente.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A questão que se coloca é o de que se entende por Guerra Mundial. Se o que estamos a atravessar se assemelhasse às I e II Guerras Mundiais, com declarações formais de guerra e grandes blocos de exércitos em combates directos, então diria que não, ainda não estamos na III Guerra Mundial.

O problema é que a natureza dos conflitos se transformou e embora ocorram, por ora, em espaços geográficos limitados (Ucrânia, Médio Oriente, mas também nos conflitos regionais em África e Ásia), não se trata de guerras em que as frentes de batalha são apenas territoriais ou físicas – são guerras cibernéticas em que na Ucrânia e pela primeira vez as operações tecnológicas foram integradas de forma indissociável nas operações militares convencionais – guerras electrónicas/cibernéticas contra infraestruturas críticas (energia, transportes, cadeias de abastecimento, campanhas de desinformação para desestabilização de regimes democráticos, etc.) em que todos estes arsenais das grandes potências, numa polarização entre os EUA/China (Rússia?) têm reflexos à escala global e remetem para existência de uma globalização do conflito semelhante à de uma III Guerra Mundial.

A grande diferença para as anteriores Guerras Mundiais (clássicas, à falta de melhor designação) é a dissuasão nuclear que tem até agora evitado um conflito entre as superpotências.

Mas garantirá no futuro uma escalada catastrófica entre elas que porá em causa a paz global e o futuro da humanidade?»

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A invasão da Ucrânia (daqui a uns anos) pode ser considerada o início da 3.ª Guerra Mundial. Porquê? Porque as guerras actuais e os conflitos políticos têm hoje em dia um contexto diferente dos de 14-18 ou de 39-45 em que países aliados de países atacados eram obrigados a entrar directamente nos conflitos. De certa forma, o próprio artigo 5.º da NATO está ultrapassado, porque para além da guerra cibernética e dos diversos “ataques” a infra-estruturas a que temos assistido desde há bastante tempo, a guerra económica e a guerra dos recursos que se travam em tabuleiros paralelos são tão determinantes como dois exércitos chocarem de frente. Se calhar até são mais eficazes, como o impasse territorial no Donbass demonstra tão bem.

Estou cada vez mais convencido de que a invasão da Crimeia e depois do Donbass desencadearam a 3.ª Guerra Mundial, mas acontece que hoje é possível os países participarem nas guerras de forma indirecta, como vários países europeus estão a fazer desde Fevereiro de 2022, e portanto ainda não temos a noção do conjunto de forças em conflito. Dito de outro modo, parte da noção que os nossos avós tiveram das guerras do seu tempo é hoje abafada pelos mercados, pela absorção das ondas de choque pelas classes médias dos países mais ricos, pela mediação institucional e até pelas redes sociais que não existiam quando eclodiram as duas guerras mundiais anteriores (aparentemente até por motivos mais fúteis do que a invasão da Ucrânia, no caso da Guerra de 14-18).»

 

Do nosso leitor V. A propósito deste meu texto. 

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«É um murro de realidade. Vivemos na ilusão de que o “digital” é eterno por ser ubíquo, quando na verdade é de uma volatilidade assustadora. O que hoje é um link partilhado com fervor, amanhã é um “404 Not Found”. Estamos a construir uma civilização sobre areias movediças de código binário que qualquer vaga de obsolescência ou decisão comercial apaga num clique.

Enquanto conduzo a minha scooter pelas ruas de Braga, penso muitas vezes nessa “invisibilidade” de que fala. Há algo de profundamente cívico — e quase subversivo — em resistir à “ditadura algorítmica” e ao imediatismo. O jornal em papel na hemeroteca é a prova física de que existimos, pensámos e debatemos. O digital, sem curadoria e sem arquivo, é apenas ruído que se dissipa.

No meu projecto pessoal, tento aplicar essa lógica de “leitura lenta”. Recorro à estética das revistas das décadas de 60 e 70 não por mero fetiche retro, mas porque essas publicações tinham peso. Eram objectos para guardar, não para fazer scroll. Se o “apagão” vier, que nos encontre com as mãos sujas de tinta ou com a memória bem oleada, como um motor antigo que se recusa a calar.

Um mundo sem memória não é apenas frágil; é um mundo sem história para contar no próximo semáforo.»

 

Do nosso leitor Daniel Marques. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«E foi em Leiria, uma região que está longe de ser do “Portugal profundo” envelhecido e desertificado. Nem quero imaginar os apoios e empenho do Estado se fosse no meu Alentejo interior onde vivem hoje para aí 20-30% das pessoas que viviam há pouco mais de 60 anos…

Aqui em terras de Azambuja, local onde vivo agora, também ainda existem algumas pessoas sem luz em certos locais do município.

Pessoalmente fiquei perto de 24 horas sem luz e três dias sem net, tv e telefone. Apenas a rede móvel funcionava e mal. Claro que não se compara com o que se vive por essas terras.

Sobre as falhas do Estado, importa questionar também como é que um município com uma população como a de Leiria nem sequer tem um sistema de comunicações redundante, um telefone que seja ligado a sistemas como a starlink – se têm não parece, a julgar pelas várias declarações do presidente da câmara.

Saem todos mal na pintura, Estado central e local, a meu ver. Ninguém pensou que um dia poderia correr mal, mas correu mesmo.

Sobre os carros, enquanto puder manterei os meus dois bifuel a gasolina e GPL com + de 1000 km de autonomia cada, combinando os dois depósitos. Os eléctricos que fiquem para os patetas que pensam que serão os “salvadores” do ambiente e do mundo, mas que apenas contribuem para cimentar as políticas autodestrutivas da Europa destas últimas duas a três décadas.

Votos duma recuperação rápida e que lhe corra tudo pelo melhor.»

 

Do nosso leitor Lopes. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«As televisões estão demasiado tempo a chafurdar nos mesmos temas, republicando constantemente vídeos sem grande interesse.

Portugal tem canais de notícias a mais e demasiados jornalistas e comentadores a azucrinar-nos a cabeça. Alguns dizendo apenas banalidades, sempre procurando meter medo às pessoas, quase todos gente de Lisboa ou morando por perto, por regra desconhecedora do país que somos, ou seja, vivendo longe da realidade, que dificilmente entendem e entenderão.

Resta esperar que o inêxito destas empresas dedicadas à difusão de notícias deite borda-fora essa gente e encontre novos actores, em número muito mais reduzido, mas mais competentes e suficientemente bem remunerados, ou seja, mais independentes.»

 

Do nosso leitor Tiro ao Alvo. A propósito deste postal do Paulo Sousa.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Na teoria político-constitucional actual dos EUA, sob a égide de Trump, parece haver bastante espaço para o retomar do célebre adágio do jurista romano Ulpiano, contida no Digesto, “princeps legisbus solutus est”, ou seja, “o príncipe [imperador] está livre/desobrigado das leis”, fundamentando a ideia de que o governante não estará limitado pelas leis, mas situado acima delas.

Com efeito, no pensamento político ocidental, mesmo antes da criação dos quadros constitucionais contemporâneos, a relação de um poder absoluto do governante perante as limitações que o Direito estabelece (que em Roma e no “direito romano”, era justificada pela ideia de que há um “princeps legibus solutus”, um governante “solto” das amarras da sua vinculação às suas próprias leis) foi sendo mitigada – não já pela concepção originária da democracia a “demokratia” ateniense “governo do povo” – mas pela própria concepção cristã ocidental do exercício do poder, que obrigava à autolimitação do governante por um imperativo moral, mesmo se não jurídico-constitucional.

Mas que príncipe, pode imaginar-se perante as decisões de Trump neste segundo mandato, tanto a nível interno (ameaça sem precedentes aos contrapesos previstos na Constituição, do Congresso, do poder judicial, dos governadores estaduais, e em que a supremacia presidencial se está a transformar em instrumento de intimidação contra os próprios americanos), como na política externa (com a destruição da ordem política mundial pós-Segunda Guerra, preferindo acções bilaterais em detrimento do multilateralismo, com o abandono de mais de 66 organizações internacionais (OMS, OMC, CDH, etc., etc.) ou o corte do financiamento a acordos multilaterais de saúde, clima e direitos humanos.

Esta mistura do isolacionismo interno (“MAGA/América Primeiro”) e intervencionismo bilateral externo (Ucrânia, Irão, Gaza, Venezuela, etc.) está a revelar-se desastrosa para os Estados Unidos e para o mundo.

Decididamente, os EUA, sob o mandato de Trump, mostrando preferência para acomodar regimes autocráticos (Rússia de Putin, Hungria de Orbán, Argentina de Milei, Arábia Saudita, etc.) em detrimento de alianças históricas (UE, NATO) passou a ser o guia da extrema-direita mundial e o conceito ocidental de “democracia liberal” deixou de ser bem acolhido em Washington.»

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Estão lá todos. O Director de Inovação (que não abre um PDF sem ajuda), a Head de People (que confunde empatia com passivo-agressividade) e o CEO, um homem cujo maior talento é usar palavras em inglês para esconder que não lê um livro desde a quarta classe.

O CEO lança uma posta de pescada metafísica. Algo como: “Precisamos de verticalizar o mindset do ecossistema holístico”.

Segue-se um coro de “concordo plenamente” que soa a uma colónia de focas amestradas à espera de peixe congelado.

Ninguém ouviu a frase. Ninguém sabe o que é um “mindset vertical”. Estão todos tão ocupados a balançar a cabeça afirmativamente que o ruído das vértebras a estalar parece uma percussão de maracas.

É a unanimidade bovina. É o momento em que a inteligência morre de tédio e o bom senso pede a demissão. Estão ali dez pessoas pagas a peso de ouro para serem fotocopiadoras de uma ideia que nem sequer chegou a existir.

Ninguém pergunta “Como?”. Ninguém ousa um “Porquê?”. O medo de ser a única voz lúcida naquela “house of cards” de vaidades transforma-os em vegetais corporativos.

No fim todos concordam com tudo, não há ninguém a pensar em nada. É apenas um bando de gente a tentar não fazer ondas, enquanto o barco se afunda por excesso de peso morto.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu postal.