Comer (23)


Pedro Correia,

Gosto de ter um restaurante favorito nas principais cidades portuguesas – hábito que iniciei há largos anos. Alguns já não existem, o que lamento. Fecharam o Rolo em Portalegre, Os Infantes em Beja, a Praça Velha em Castelo Branco. Há dois meses, quando me desloquei ao Porto, percebi com tristeza que também a minha Adega Vila Meã encerrou de vez.

Em Coimbra, frequento os clássicos da restauração caseira: Cantinho dos Reis, A Taberninha, Zé Manel dos Ossos. Mas gosto de variar. Há sete anos comi a melhor açorda de camarão da minha vida na outra margem do rio, servida n’ A Açorda. Ficou-me na memória. Regressei agora para confirmar que as impressões do passado nem sempre se recuperam.

Mantinham o prato na ementa, mas sem possibilidade de o servirem em dose individual: do anterior grupo de três ali só restava eu. Ainda brinquei: «Façam duas doses. Como hoje a primeira e venho comer o resto amanhã.» Não pareciam em maré de graças, recomendaram-me o prato do dia: peixe-galo no forno. Caí na asneira de dizer que sim.

Deixo o alerta geral: não cometam o mesmo erro. Este peixe jamais deve ser tratado desta forma: perde por completo a frescura, fica seco que nem bacalhau. Sem o sabor do dito. Não merece tal tratamento.

 

Restaurante Cordel Maneirista (Calçada de Santa Isabel, 1 – Coimbra)

Tiro ao lado, portanto. Procurei alternativa. E felizmente encontrei, no almoço seguinte. À mesa do Cordel Maneirista (Cordel, só para os íntimos), que a meus olhos redimiu Coimbra da sensaboria e dos lugares-comuns.

Gostei  de tudo, a começar na localização. Mesmo ao lado do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, bem perto do Portugal dos Pequenitos a que me ligam excelentes memórias – como filho e como pai.

Tem mercearia no rés-do-chão. O espaço para refeições – distribuído por duas salas e terraço anexo – fica no primeiro andar. Com cuidada decoração interior e desafogadas vistas para o exterior.

Terraço convidativo com vistas desafogadas

Chego cedo, como sempre faço: gosto que me atribuam prioridade na cozinha. Avançou sem demora um pratinho de perdiz fria de escabeche à moda de Coimbra. Temperatura certa, textura adequada, nem uma gota de vinagre em excesso. Na generosa companhia líquida de São Domingos, espumante bairradino.

Havia apetite para mais.

Compareceu então uma saborosa coxa de pato, devidamente acolitada: com arroz de frutos secos e salada de laranja. Veio já empratada, mas não em dose mínima – ao contrário do que sucede noutras casas, com mais fama do que proveito.

Perdiz fria de escabeche
Coxa de pato com arroz de frutos secos

Na ementa destacavam-se outros petiscos tentadores, que guardei para futura deslocação, em data próxima: arroz de carqueja beirão, arroz caldoso de robalo, arroz de polvo e camarão. Tendo como protagonista o macio bago de carolino do Baixo Mondego, um dos nossos emblemas gastronómicos.

Fiquei cliente. De tal maneira que acabo de eleger o Cordel como meu restaurante favorito na cidade dos doutores.

O Açude foi destronado. Só faço votos para que este não encerre também.

Passo a ter novo restaurante favorito em Coimbra

Comer (22)


Pedro Correia,
Restaurante Verde Maçã (Rua Direita, 113 – Angra do Heroísmo)

O responsável foi Miguel Monjardino. No excelente livro em forma de diário que recentemente publicou, lembrando o que foram os tempos da pandemia, deu nota de duas ou três incursões a este restaurante – então com poucos clientes, à semelhança de qualquer outro.

São tempos que nos parecem já recuados, embora ninguém responsável deva apostar que não poderão repetir-se.

Decoração cuidada: o verde do nome também no painel da parede

Entrei lá, portanto, confiante de que iria comer bem. E não saí decepcionado. De tal maneira que regressei: sinal inequívoco de que esta casa já clássica, de idade respeitável e decoração retocada, me conquistou como cliente.

Senti-me aconchegado logo de entrada, quando chegou à mesa uma promissora tábua de azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta. Acepipe de inconfundível travo açoriano.

Azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta

Travo acentuado na etapa seguinte, com a tradicional alcatra de vaca – elemento essencial da gastronomia terceirense. Geralmente preparada num alguidar de barro untado com banha de porco onde se vão depositando sucessivas camadas de carne intercaladas com cebola picada, toucinho fumado, louro, cravinho e pimenta – tudo amplamente regado com o vetusto vinho de cheiro da região.

Segue-se lenta cozedura, durante horas, em forno de lenha até que a carne esteja imaculadamente tenra. Pronta a ser degustada.

Recomendo-a sem hesitar, tal como o prato que ali comi na visita seguinte: atum selado com esmagada de batata aromatizada e misto de cebola em tempura.

Alcatra de vaca
Atum selado

Passei ao lado dos bifes flamejantes, que parecem ser o grande cartaz do Verde Maçã. Ao ponto de não faltarem clientes a fazer-se fotografar junto ao carrinho onde as labaredas se levantam.

Mas não dispensei um copo de branco terceirense para aumentar a minha cultura vinícola de âmbito geral. Serviram-me Materramenta, de Biscoitos – castas Verdelho e Arinto dos Açores. Agradável.

O preço é proporcional à localização, na mais emblemática rua da cidade, e no respeito da promessa de só utilizarem ingredientes biológicos de alta qualidade e honrarem as boas tradições da confecção caseira dos alimentos. Sob a experiente batuta do chefe Alberto Silva, digno de elogio.

Mesmo sem trincar maçã alguma, devo concluir que valeu a pena. E aqui me confesso publicamente agradecido a Miguel Monjardino pela dica que, sem ele fazer ideia, forneceu a este leitor d’A Grande Ruptura em jornada pela sua ilha de que passei a gostar ainda mais.

Comer (21)


Pedro Correia,
Restaurante Tasca das Tias (Rua de São João, 113 – Angra do Heroísmo)

Para o bem e para o mal, não há impressões gastronómicas como as primeiras. A minha estreia à mesa, em Angra do Heroísmo, não podia ter corrido melhor. A hora de almoço ia adiantada, o apetite era muito e a falta de paciência para andar em busca de restaurantes impunha esta regra básica: teria de confiar em exclusivo na minha intuição.

Assim foi. 

A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado. Ali abanquei em busca de retemperador repasto.

Fiz bem. Gostei logo do que vi: decoração, atmosfera, atendimento. A ementa escrita a giz num quadro, como nas tabernas antigas. Pratos verdadeiramente tentadores, a preços razoáveis. Ambiente descontraído, propício à conversa. Sem pressa: os prazeres da vida devem ser prolongados, não abreviados.

Ementa à moda antiga, escrita a giz num quadro. Como nas tabernas clássicas

Não tardei a decidir: atum braseado. De excelente qualidade e confeccionado como eu gosto, de forma muito simples. Mal passado, apenas com sal e ervas aromáticas. Chega à mesa acolitado com batata doce e salada de tomate – esta servida em recipiente autónomo, como mandam as boas regras.

Assim decorreu o meu baptismo gastronómico em Angra. Enquanto esperava, experimentei um croquete de alcatra – carne moída com queijo de São Jorge, em adequado conúbio. Com um copo de vinho branco dos Açores que passou no teste: Lira, produzido na freguesia de Biscoitos, zona de solos vulcânicos da Terceira. Aromático e encorpado. Boa surpresa.

Atum braseado com batata doce. Vinho branco açoriano: Lira, de Biscoitos

Ficou aprovado? Claro. A tal ponto que, dias depois, repeti a dose. Trocando apenas o croquete inicial por uma sopa de tomate igualmente digna de elogio.

Até gostei do nome do restaurante, inaugurado em 2014. Estive na Tasca sem vislumbrar as Tias, porventura pessoas tímidas. Nem por isso deixo de lhes dar os parabéns.

Comer (20)


Pedro Correia,

A praga já chegou aos Açores, terra de sólidas tradições gastronómicas. Refiro-me à praga da comida industrial de importação. Somos invadidos por uma profusão de kebabs, ramens, sushis e pizas de péssimo gosto e sem raízes entre nós. Consequência: uma geração inteira começa a desconhecer a genuína cozinha portuguesa, com alicerces seculares e tão procurada por quem nos visita. Apesar do interesse externo, nestes últimos anos, parecemos ser os primeiros a renegar este património – que também é história, memória, sabedoria e afecto. E senha de identidade.

Num mundo “globalizado”, como agora se diz, renegamos o que é nosso e abraçamos com devoção o que é alheio. Utilizo o plural, mas demarco-me dele. Fossem todos como eu e esta Nélia – e as restantes, tenham o nome que tiverem – iriam à falência por falta de procura. Comer não é só mastigar e saciar o apetite: é também, e sobretudo, um acto de cultura.

Ora a multiplicação de kebabs, para mim, é delito de lesa-cultura. Outros farão como entenderem. Eu não como nem calo.

Comer (19)


Pedro Correia,
Restaurante Beira Mar (São Mateus, Terceira)

«Faz marcação», haviam-me avisado. Não segui o conselho, mas tive sorte: consegui mesa no restaurante que mais queria conhecer na ilha Terceira. O Beira Mar, na atraente vila piscatória de São Mateus, a uns cinco quilómetros de Angra do Heroísmo. Ouvi falar dele pela primeira vez no programa Mesa Nacional, de saudosa memória, muito bem confeccionado pelo jornalista Paulo Salvador na TVI.

Cheguei cedo, ouviam-se as badaladas do meio-dia. Valeu-me isso para ficar bem sentado, de frente para o oceano – enquanto saboreava o fruto das suas águas.

Sabendo que estamos mesmo no fim da estação das lapas, evitei este petisco, aqui muito consumido no auge do Verão. Também não cedi à tentação de encomendar a sopa de marisco no pão, prato emblemático do restaurante fundado há mais de 60 anos como humilde casa de pasto e hoje procurado por clientes das mais diversas paragens. A sua fama galgou fronteiras.

Decidi-me pela sopa de peixe. Confesso: é uma das minhas iguarias de eleição. Estava exactamente como gosto: sem excesso de condimentos nem escassez de matéria piscícola. Na dose certa para me estimular as papilas gustativas, mais exigentes e reivindicativas do que a Comissão Executiva da CGTP.

Nas mesas em redor via gente aparentemente saciada com peixe grelhado – outro dos emblemas da casa. Mas preferi dar um passo adiante, procurando algo mais original. Fiz bem: os filetes de abrótea com molho de camarão recomendam-se. Fugindo à banalidade, escapando ao previsível. Só falta servir a salada mista em recipiente autónomo para merecer cotação máxima.

Inútil, neste estabelecimento, pedir vinho açoriano: é do Douro aquele que nos vem apresentado como sendo «da casa». Pormenor de somenos quando consumimos parte do nosso tempo a beber a paisagem. Os olhos comem, como é sabido. Falta acrescentar isto ao truísmo: eles também bebem.

Sei do que falo: senti isso à mesa do Beira Mar. Sem surpresa, reconheço. Hei-de voltar. Para travar conhecimento com aquela sopa de marisco no pão que primeiro recusei e depois me ficou atravessada.

Os olhos também bebem – aqui mais ainda

Comer (18)


Pedro Correia,

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A falta de exigência da nossa “crítica”, nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Regresso hoje ao tema a propósito de uma “crítica” gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.

O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a «sua inclusão entre os bons restaurantes» de uma certa cidade. Cozinha «simples, mas cuidada e de bom gosto». O enchido é «saboroso». O entrecosto grelhado é «excelente». Comem-se por lá «dois bons pratos» de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.

E chegamos às febras, «talvez o prato mais emblemático» do restaurante. «De textura e sabor cativantes». Grelhadas só com sal.

Um interminável bocejo, esta prosa. Confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta “crítica” que apenas elogia. Significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.

Comer (17)


Pedro Correia,

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Janeiro: LÍDER, Porto

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Fevereiro: VELEIROS, Perafita (Matosinhos)

                       

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Março: NEPTUNO, Praia das Maçãs (Colares, Sintra)

 

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Abril: A GINA, Lisboa

 

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Maio: O GALITO, Lisboa

 

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Junho: BAHR, Lisboa

 

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Julho: Lat.A, Lisboa

 

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Agosto: BALAGAN, Ericeira

 

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Setembro: RISTORANTE DA GEMMA, Capri (Itália)

 

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Outubro: CANTINHO DA AMEIXOEIRA, Lisboa

 

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Novembro: CORLEONE, Cascais

 

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Dezembro: BOOK & COOK, Óbidos

Comer (16)


Pedro Correia,

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Janeiro: Natraj, Lisboa

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Fevereiro: Imanol, Lisboa

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Março: Imperial de Campo de Ourique, Lisboa

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Abril: Esplanada Furnas, Ericeira

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Maio: Clube Naval, Ericeira

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Junho: Rui dos Leitões, Torre de Vilela (Coimbra)

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Julho: Mesa do Bairro, Lisboa

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Agosto: Eligio, Vigo

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Setembro: Caçarola, Figueira da Foz

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Outubro: O Fragateiro, Trafaria

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Novembro: Clássico Beach Bar, São João da Caparica

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Dezembro: Taberna do Quinzena, Santarém

Cheia


Maria Dulce Fernandes,

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Acabei de regressar de um rodízio de sardinhas assadas. 

Uma fatia de pão no prato e sardinhas, louras, gordas, muitas a chegarem nonstop, às três e três em cima da fatia. Comer o pão ensopado foi delicioso e rico em ómega 3.😁

Às dezasseis parei de contar. Sem batatas, só salada e no final um cafezinho e um passeio à beira-mar. Já vou na segunda garrafa de água com gás.

Comer (15)


Pedro Correia,

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 O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras

(foto: blogue Outras Comidas)

 

1

Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.

Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.

Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.

Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.

O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.

Já nem menciono os neo-realistas puros e duros – um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.

 

2

Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?

Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.

 

3

Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.

Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – «a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado». Com os ingredientes descritos assim: «Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.» Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, «uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago».

 

4

Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se – como a nossa ficção literária bem demonstra.

Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.

«Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar.»

Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.

 

Texto reeditado

Comer (14)


Pedro Correia,

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Desta vez apeteceu-me coelho. Mas encontro cada vez menos esta carne, outrora abundante entre nós. Rica em proteínas, com baixo teor de gorduras, é nutritiva e fácil de digerir.

Mas nada fácil de encontrar cá na cidade.

Tive de encomendar no talho. Dizem-me: está a desaparecer devido às pressões animalistas. Vêem os coelhinhos como peluches, coisas fofas. Há mesmo quem considere que comer coelho equivale a comer cão. Em casos extremos, protestam por parecer «quase canibalismo».

Enfim, os chalupas ganham terreno em todas as frentes. Na frente alimentar também.

 

Pedi para me cortarem o coelho em pedaços. Usei metade, o resto rumou ao congelador. Para consumir noutro fim-de-semana.

Num tacho largo, preparei o refogado: fio de azeite, meia cebola picada, folha de louro, malagueta sem sementes. Adicionei o coelho. Depois, meio copo de vinho tinto. Enquanto noutro tacho a água fervia. 

Chega o momento de verter uma chávena do arroz apropriado para esta receita, de origem italiana. Segue-se uma colher de sopa de manteiga. Junto uma pitada de açafrão. Misturo. Rego com parte da água quente, em pequenas doses, e vou mexendo sempre para não colar ao fundo. Vai ficando numa textura cremosa.

Convém redobrar a paciência nesta fase: é por uma boa causa.

 

Daí a cerca de dez minutos apago o lume. Envolvendo tudo num generoso pedaço de queijo parmesão a que junto rodelas de lima e dois ou três gomos de laranja, já que estamos no tempo delas. Sem esquecer umas folhas de salsa – embora o manjericão seja mais recomendável.

Interessante, o contraste dos sabores.

Abro uma garrafa de Defesa (2021) – da Herdade do Esporão, castas Touriga Nacional e Syrah. Custou-me 4 euros numa loja cá do bairro.

Soube-me o melhor possível. Belo almoço de Inverno, enquanto a chuva teima em cair pelo terceiro mês consecutivo. Na televisão, o noticiário do costume menciona casos de “seca severa” e até “seca extrema”. É em Portugal, mas sinto que me fala dum país distante.

Comer (13)


Pedro Correia,

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Houve um tempo em que não apreciava muito massas. Refiro-me às que se comem, não às tenebrosas maquias “capitalistas” que fazem espumar de raiva a doutora Mortágua. Como se ela vivesse de ar e vento. Como se nos países que lhe servem de referência as pessoas optassem por trocas directas, dispensando o dinheiro.

O nosso gosto vai evoluindo com o decorrer do tempo. Hoje aprecio muito alimentos que detestava em miúdo – do tomate às favas, passando pelo peixe em geral. Educamos o paladar, é certo. E se por um lado nos mantemos fiéis à chamada “comida da avó”, não é menos certo que ao rasgarmos horizontes, nas diversas fases da nossa vida adulta, isso também nos faz mudar no campo alimentar.

Foi no Oriente que alterei a minha anterior indiferença a massas. Os chineses do sul comem-nas a toda a hora, de dia e de noite, em casa ou na rua. Massa de arroz, muito fina. Com pedaços de ovo, rebentos de bambu, fios de vegetais de todo o género. Com molho de soja e algum picante, para quem aprecie. 

Durante anos, algumas das minhas ceias em horário pós-laboral eram estas massinhas, a que chamávamos chau min para não complicar – à letra, massa frita. Concorrente directa do chau fan, arroz frito. Nas breves semanas de Inverno em Macau, o sólido passava a líquido, comia-se a massa em canja com pedacinhos de frango. Sabia bem.

 

Pensei nisto há dias, enquanto cozinhava aquela que é agora uma das minhas massas favoritas – tagliatelle. Fresca, de preferência. Bastam cinco ou seis minutos ao lume para ficar como deve, al dente. Era o que me apetecia, faltava ver o que havia em casa para cozinhar com ela. Cogumelos, claro: nunca faltam na despensa. E molho de tomate. Estava o repasto garantido.

Enquanto a massa cozia, verti um fio de azeite numa frigideira, uma colher de margarina vegetal, meia cebola e um alho picado. Mal estes alouravam, adicionei os cogumelos laminados – se forem de duas qualidades diferentes, complementando-se, tanto melhor. Fui mexendo. A chama estava alta, refresquei com um pequeno copo de vinho branco, deixei evaporar.

Já o molho fervia quando o reforcei com quatro ou cinco colheres de molho de tomate. Baixei o lume, aguardei cerca de cinco minutos. Antes de apagar, envolvi a massa noutra colher de margarina (pode ser manteiga, claro). 

Polvilhei com doses generosas de queijo – parmesão ou pecorino, tanto faz – e salsa fresca, por me faltar manjericão. Soube muito bem. E despertou-me saudades, já não de Macau mas de Itália. Como eu gostaria de andar por lá agora.

Comer (12)


Pedro Correia,

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Longe vai o tempo em que comia quase sempre fora. Isso mudou, aliás antes da pandemia. Agora tornou-se raro o dia em que não cozinho. É uma actividade que cultivo, aprecio e recomendo – começando, aliás, na lista de compras já a pensar nas ementas. 

Como salientei no primeiro texto desta série, houve mudanças a outro nível. Sou hoje muito mais exigente naquilo que consumo à mesa. Bani quase por completo os fritos da minha alimentação diária e reduzi a carne à expressão ínfima. Adoro peixe, mas também fui reduzindo – neste caso sobretudo pelo preço, que se tornou proibitivo. Uma recente ida ao mercado, aliás quase vazio, deixou-me com certezas reforçadas nesta matéria. Não apenas no peixe, mas nos legumes: por um molho de espargos pediram-me o triplo do preço que costumo pagar no supermercado.

Vade retro, especuladores. Depois são os primeiros a debitar lamúrias perante as câmaras de televisão…

 

Partilho convosco um dos pratos de que mais gosto: todas as semanas o faço. Alterando uma vez por outra os ingredientes, mas sempre com a mesma base: arroz selvagem – rico em fibras, vegetais e anti-oxidantes. 

Exige três focos de atenção. Por um lado, o arroz vai cozendo, demorando um pouco mais do que o arroz tradicional: cerca de 20 minutos. Por outro, escaldamos espargos, devidamente cortados e despojados da base mais rija: cerca de quatro minutos bastam. Finalmente, numa frigideira, vamos salteando em azeite e louro uma curgete partida em pedaços. Quando estiverem dourados, dão lugar aos espargos, repetindo-se o processo.

À parte, numa tigela, depositamos fatias de queijo mozzarella (o vulgar queijo fresco também serve) com tomates-cereja cortados em metades. Tudo bem misturado e temperado. Com orégãos, um fio de azeite, algumas gotas de vinagre balsâmico e uma colher de sobremesa de pesto: tenho usado pesto alla calabrese, pelo seu inconfundível travo picante.

Entretanto o arroz cozeu e respirou durante alguns minutos antes de rumar à travessa. Vai servir de leito aos pedaços de curgete, aos espargos, ao queijo e ao tomate. Falta revolver tudo noutra colher de pesto. E escalfar dois ovos, que seguirão o mesmo rumo, cada qual de sua vez. Ficam no topo da travessa, juntamente com sementes de sésamo ou miolo de caju. Além das cabeças dos espargos, só para enfeite. 

 

Fácil, rápido, nutritivo e saboroso. Daí eu repetir tantas vezes este prato. Que não encontro em nenhuma ementa de restaurante. Nem sinto essa necessidade.

Para quê procurar fora aquilo que tenho em casa?

Comer (11)


Pedro Correia,

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Verão, para mim, é sinónimo de peixe em termos gastronómicos. Assado, cozido, estufado. Em escabeche, em caldeirada. Mas sobretudo grelhado: cherne, garoupa, robalo, dourada, sargo, solha, peixe espada – o que houver vindo da lota. Em zona balnear, de preferência. Com mar à vista.

Assim fiz, assim tenho feito, num dos meus poisos favoritos: o Clube Naval da Ericeira. Situa-se em zona adjacente ao porto de pesca da vila que tão generosamente me acolhe há um par de anos. 

Condição obrigatória: chegar cedo. Vai-se formando fila à porta, a partir do meio-dia e pouco. Ouvem-se conversas de circunstância dos frequentadores habituais, sábios conhecedores do que ali se petisca.

Impera a boa disposição. O tempo convida a relaxar.

Não é espaço para sofisticações. Nem para aquela comida da moda – com fusões, tofu, muita rúcula, muita espuma que parece ser da barba, fruta tropical misturada com leguminosas e tretas do género.

Tudo clássico, à moda antiga. Pratos do dia escritos a giz num quadro, as gaivotas rondando quase como animais domésticos.

Alargando o olhar, confirmo: aqui o mar é mais azul.

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Há choco à lagareiro, sardinha assada, carapaus. Nos pratos de carne, nem reparo.

Vou para o linguado grelhado: é o que me está a apetecer. Ali ao lado os pescadores reparam as redes, secam peixes em estendais, trocam dois dedos de conversa: a faina do dia está cumprida. 

A casa já encheu. 

Vem para a mesa um jarro de vinho branco – fresco, não gelado. Como mandam as boas regras. Em sequência lógica, surge um queijinho fresco com o magnífico pão local. Confirmo: estou numa das zonas do País onde há melhor pão.

Lição fundamental à mesa em férias: mastigar bem, saborear, aproveitar cada momento prolongando o prazer de partilhar refeições sem agenda profissional para cumprir. Há quem não saiba desligar-se do ritmo laboral, sem perceber como é indispensável fazer pausas para que o trabalho renda plenamente. 

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Chega então o linguado. Vem como gosto: grelhado no ponto certo.

Em Portugal, quase todos se gabam de saber grelhar peixe. Estão profundamente equivocados: abundam os locais, alguns até com fama, em que a grelha mal calibrada ou um cozinheiro negligente secam o peixe, retirando-lhe o suco natural.

Aqui há manifesta competência nesta função: excepto as espinhas, nada se desaproveita deste elegante bicho que há menos de 24 horas nadava no oceano. Até a pele. 

Casa muito bem com as batatinhas cozidas com casca, o feijão verde que serve de complemento e a salada fresca temperada com abundante azeite, um golpe de vinagre, umas gotas de limão.

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A praia, ali a dois passos, pode esperar. A tarde é longa, há sol até depois das oito. 

Nada de pressas, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Faz parte da magia do Verão: é quando mais vezes somos invadidos pela doce ilusão da eternidade. 

Hei-de voltar ao Clube Naval. Tem lugar cativo no meu roteiro gastronómico. Ponto de romagem sempre que as saudades do bom peixe apertam.

Doses fartas. A preços imbatíveis.

Por mais vezes que regresse, a conclusão é sempre a mesma: daqui nunca saio desiludido.

 

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Comer (10)


Pedro Correia,

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Às vezes os pratos que cozinhamos nascem assim: de um imprevisto que sabemos captar a tempo. Aconteceu-me com este. Estava seguir uma série israelita na Netflix chamada Atropelamento e Fuga (“Hit and Run” no idioma do império), quando vi duas personagens, já roídas pela fome, recorrerem à tradicional comida de rua, ali tão em voga. Comiam o quê? Algo chamado chakchuka. Popularíssimo não apenas naquele país, mas em toda aquela região do mundo, talvez com outros nomes e diferenças pontuais de ingredientes.

Fiz uma pesquisa rápida e tratei de passar aos actos. Não sei se convosco sucede o mesmo: gosto de descobrir a chamada cozinha “exótica” (só é exótica para quem a não conhece, podendo a nossa também ser classificada assim por aqueles que nunca a provaram). Tenho feito boas descobertas graças a esta curiosidade inata, aguçada pelo apetite. Foi o caso.

 

Será comida de rua, banal naquele contexto, mas é deliciosa. Com ingredientes muito simples: dois ovos, pimento, tomate, cebola, alho, umas fatias de pão. Condimentos: salsa, cominhos, pimenta, açúcar.

Começo por fritar a cebola em duas colheres de azeite, frigideira em chama alta. Junto meio pimento vermelho cortado em tiras, pico um alho e envolvo-o na cebola. Três minutos bastam antes de adicionar quatro tomates em pedaços, mantendo o lume alto até borbulhar. Avançam então os temperos: salsa, pimenta (malagueta, sem sementes, pode ser boa alternativa), uma colher de café de cominhos e uma colher de sobremesa de açúcar (ou mel) para cortar a acidez do tomate.

Tapo a frigideira, fica cerca de um quarto de hora em lume brando.

Entretanto vou cortando fatias de pão – calhou-me ser pão de gengibre, já encetado – e um pedaço de queijo feta. Cobrem a base do prato, aguardando companhia. Chegará após escalfar os ovos na frigideira abrindo ali duas pequenas covas para o efeito. Concluída esta etapa, fica pronto a servir.

Antes de verter o petisco, ainda o polvilho com manjericão e azeitonas.

 

Poder-se-á chamar a isto comida mediterrânica? Creio que sim. Israel fica à beira do Mediterrâneo.

Faz falta carne? De modo algum. 

E eis como uma banal série televisiva, com tiros e perseguições de automóvel, pode servir-nos de inspiração para um prato fácil, barato e muito saboroso. “Comida exótica”, dirão os tais do império. Exótico, para mim, é comer bacon ao mata-bicho, hamburgers ao almoço e hot dogs ao jantar. Não me apanham nessa.

Comer (9)


Pedro Correia,

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Já aqui confessei ter praticamente banido a carne da minha dieta alimentar. Não por qualquer simpatia pelo PAN, que é nula, nem por embarcar nas suas prédicas tele-evangélicas sobre o “bem-estar animal”, mas simplesmente porque me sinto melhor assim. Cada vez cozinho mais em casa – e cozinho cada vez com maior recurso aos vegetais. O preço quase proibitivo de carne e peixe, nos dias que correm, contribui para juntar o útil ao agradável.

E agradável é este prato que aqui vos trago: caril de abóbora, grão e coco. Prato vegetariano, sim. Mas pouco me importam as etiquetas. Interessa é que seja apaladado e nutritivo. 

 

Comecemos por reunir os ingredientes: abóbora, cortada em cubos; um pedaço de gengibre fresco (tenho sempre algum no congelador); dois dentes de alho; um par de chalotas (cebola também serve); dois tomates em pedaços; uma lata de grão já cozido; uma lata de leite de coco; uma malagueta a que retiro quase todas as sementes.

E ainda arroz, pronto a cozer à parte. O ideal, para mim, é o basmati. Mas por questão de preço e de consciência ecológica (o basmati é produzido longe de Portugal), o nosso mui respeitável carolino serve também.

Não esquecer ainda: uma colher de sobremesa de caril e uma colher de chá de açafrão. Além de coentros, em talos e folhas.

 

O azeite começa a aquecer no tacho quando nele se incorporam o gengibre cortado em palitos finos, o alho laminado, a malagueta e as chalotas em pequenas rodelas. Dois ou três minutos em lume forte. Vai-se mexendo com a colher de pau: Bruxelas, felizmente, levantou o veto a tão indispensável ferramenta da nossa culinária. 

Há que verter então os talos de coentros e o caril, tudo frita ligeiramente. E logo ali mergulham os tomates e o açafrão, banhados pelo leite de coco, já o lume ficou brando. Convém esperar por um início de fervura: chegou o momento de enfiar abóbora e grão na panela.

Segue-se um quarto de hora em lume brando, talvez nem tanto. Há que espreitar para ver se necessita água para não secar nem colar ao fundo. Depois, apagar o lume e aguardar um pouco mais, de tacho descoberto, enquanto o molho engrossa.

 

À margem, cozemos o arroz no seu canónico quarto de hora que pode estender-se aos 18 minutos. Será polvilhado de pedaços de caju ou sultanas – foi desta vez o caso, conforme a foto documenta. Haverá ainda um resto de coentros para enfeitar. E o indispensável chutney – neste caso, de gengibre e manga: perfeito para acasalar com o picante.

Há quem prefira acompanhar com naan, pão indiano: também serve, como complemento ou alternativa ao arroz. Menos recomendável a quem esteja em dieta.

Prato simples, saudável e saboroso. Sabe muito bem a qualquer hora – seja almoço, seja jantar. E desmente a convicção, ainda entranhada em muitos, de que refeição sem carne é insípida e escassa de sustento. Deste meu posto de cozinheiro amador já capaz de tratar o fogão por tu, vos afianço: não acreditem nisso.

Comer (8)


Pedro Correia,

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Há petiscos que só consumo no local próprio. Espetada à madeirense, claro, na Madeira – em Câmara de Lobos comi uma inesquecível. Ensopado de borrego e pezinhos de porco de coentrada, apenas no Alentejo – recordarei sempre um manjar com estas iguarias no Luar de Janeiro, em Évora. Cataplanas é no Algarve. Leitão, só na Bairrada – nada de sucedâneos menores.

A melhor cabidela de pica-no-chão continua a ser a do pantagruélico Camelo, às portas de Viana. Para o arroz de polvo, com ou sem filetes do dito, vou ao Porto. Para o ensopado de enguias, opto pela Costa Nova. Se quero raia alhada, vou ao Carrossel, junto à praia da Cova Gala (Figueira da Foz). E nada bate o bacalhau à minhota do Chico, em Caminha. Nem o arroz de carqueja do meu Fundão. 

Lisboa possui a sua comida típica, ao contrário do que alguns supõem. As ervilhas com ovos, as pataniscas, o bacalhau à Brás, os peixinhos da horta, as iscas na frigideira. E não esqueçamos aqueles pratos que podem orgulhar-se de ter alcançado amplitude nacional, com ligeiras variantes regionais. Não esquecerei um magnífico arroz de pato no Cortiço, em Viseu, ou uma caldeirada à pescador em Peniche – almoço que se prolongou tarde adiante, amenizando um dia de chuva primaveril. 

 

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Por vezes a nostalgia de determinado acepipe vai apertando. Acontece-me mal chegamos a Janeiro, quando inicio a contagem decrescente para a época da lampreia, já com o roteiro traçado.

Confesso: às vezes estou anos sem matar saudades. Acontece-me com a chanfana: só consigo comê-la em Coimbra. E sei exactamente onde quero ir para o efeito.

Venho de lá agora. Desde Agosto de 2019 que não pernoitava na cidade do Mondego: a pandemia baralhou-me vários planos, até no campo gastronómico. Nem sabia que o Zé Manel dos Ossos, durante anos um dos emblemas da restauração na baixa coimbrã, tinha fechado de vez. 

Mas apontei para o Cantinho dos Reis, ali bem perto, no Terreiro da Erva. O que eu queria era a chanfana, três anos depois. E em boa hora lá voltei: continua a recomendar-se.

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O afável proprietário, agora com 78 anos, fez as honras da casa. Lá dentro, pois o espaço exterior estava invadido pela turba estudantil em dia de celebração académica. Disse-lhe ao que vinha, o que lhe iluminou a face num sorriso: «Haja alguém capaz de apreciar o que é bom. Hoje aparece cada vez menos gente a pedir chanfana. Preferem uma estrangeirice qualquer.»

O cozinheiro é de Poiares e confecciona o bicho da forma clássica. Vem macio e suculento e bem apaladado. Percebe-se que recebeu tratamento condigno na cozinha. Servido em dose generosa, com batatinhas e couves cozidas e apresentadas à parte. Como manda a sabedoria antiga.

Pede mastigação prolongada: só assim saboreamos devidamente.

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Regalei-me, como diria o Eça. O simpático anfitrião até me fez o favor de ligar a televisão para ver a bola, mas nessa noite eu estava mais virado para a arte gastronómica do que para a devoção futebolística. E lá me pus à conversa com ele sobre as tradições que se vão perdendo à mesa nacional.

«O senhor nem imagina, agora só querem picanha…»

Eis que chega uma família: pai, mãe, dois filhos. Mal olham para a ementa: é isso mesmo que encomendam. Picanha.

Eles não sabem nem sonham como é bom comer chanfana.

Até já, Cantinho dos Reis. Não tenciono estar mais três anos sem aí voltar.

Comer (7)


Pedro Correia,

Há uma diferença básica entre leis da boca e leis do estômago. Comer, para nós, está muito longe de ser apenas uma actividade física: é também algo que pertence em larga medida à esfera mental.

Um rato, por exemplo, é potencial fonte de proteínas, lípidos e sais minerais. Mas ninguém se imagina a comer um rato porque a mente impõe a sua escala de valores à lei da boca e esta prevalece sobre a lei do estômago. O que põe em causa um dos pilares da doutrina marxista quando ensina que a base material condiciona em absoluto o pensamento.

Comer (6)


Pedro Correia,

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                   Arroz de galo e cogumelos                                                  Arroz nero com camarão, lula e amêijoa

 

Ainda existe algum preconceito contra restaurantes situados em centros comerciais. Como tantos outros, também este não tem o menor fundamento. Foi nisto que pensei ao visitar o acolhedor Müla, recém-inaugurado no espaço exterior do centro comercial Alvalade, em Lisboa.

Aludir a espaço exterior parece mero pormenor, mas não é. Faz toda a diferença, um restaurante ter esplanada. Esta é aprazível, numa varanda com visão panorâmica da Praça de Alvalade, a que alguns chamam “praça do Santo António”, apontando a estátua do célebre alfacinha que chegou a doutor da Igreja, concebida pelo escultor António Duarte e erguida em Outubro de 1972.

Ignoro por que motivo o restaurante se chama Müla – assim mesmo, à alemã, com trema. Mas tem pelo menos a vantagem de ser um nome que se fixa de imediato. Está colado ao Mercantina, ali existente desde 2013 e que já se tornou referência entre os comensais do bairro, vocacionado sobretudo para comida italiana.

 

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A esplanada, com 40 lugares, é espaçosa. Sem o defeito, frequente em tantos outros poisos, de ter as mesas do lado demasiado próximas da nossa.

Aqui a comida tradicional portuguesa alia-se a sabores sul-americanos, com incursões na culinária espanhola. Havendo aposta deliberada em petiscos, que podem ser apreciados a partir das cinco da tarde. 

Já lá fui três vezes – e nunca saí decepcionado, longe disso. 

Na primeira, arrisquei bastante para noite de estreia. Optando por um prato que muito aprecio mas raras vezes consumo longe do Alentejo: sopa de cação. Passou no teste, com nota positiva. Pela espessura do caldo, pelo casamento do peixe com os coentros e pelo magnífico pão alentejano que lhe serve de complemento.

Na segunda incursão, decidi-me pelo arroz de galo e cogumelos em forno a lenha com manteiga de tomate seco e queijo da ilha. Imaginativo, ambicioso e suculento: teste superado também. Pela qualidade dos ingredientes e pelo esmero na confecção. A impressão muito favorável consolidou-se na terceira visita, quando experimentei um louvável arroz nero em forno de lenha com camarão, lula, amêijoa, mexilhão e tomate confitado. Respeitando os pergaminhos mediterrânicos que lhe servem de referência e daí rumaram à América de expressão castelhana. 

Os gulosos têm boas opções à escolha. Da acolhedora mousse de chocolate com praliné de avelã, azeite e flor de sal ao capitoso cheesecake da ilha, com goibada e bolacha de manteiga queimada – que deve ser partilhado para evitar excessos calóricos. Também a tarte de lima merengada justifica boa nota.

 

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Cheesecake da ilha com goiabada

 

Enfim, um local a que apetece regressar. Até por ser inspirador de boas conversas. Precisamos de recuperar a arte do convívio, que anda a ser desprezada nesta era em que tantos preferem passar o tempo de olhos fixos num ecrã. Esquecidos de que há mais mundo para além dos dispositivos tecnológicos e daquilo a que erradamente chamamos “redes sociais”.

Verdadeira rede social é a que se estabelece em torno de uma mesa.

Comer (5)


Pedro Correia,

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Conheço vários apreciadores de boa mesa que jamais sentiram curiosidade em indagar como se faz. Há até quem escreva sobre gastronomia sem saber estrelar um ovo, algo que sempre me fez confusão: como é possível ser-se crítico sem ter sequer conhecimentos rudimentares nesta matéria?

Só por irredutível preguiça alguém pode dizer-se incapaz de cozinhar. Tudo se resume à motivação. Nada melhor, para o efeito, do que respondermos a este repto mental: como faria eu para comer se todos os restaurantes que conheço fechassem ao mesmo tempo e me encontrasse sozinho em casa, impossibilitado de sair (devido a uma pandemia com estado de emergência e recolher obrigatório, por exemplo) e tendo apenas os ingredientes básicos na despensa ou no frigorífico?

Espírito de pioneiro: só isto nos leva a vencer a inércia. Não admito que um adulto, consciente e responsável, se confesse «incapaz de estrelar um ovo». Geralmente acontece com homens, embora vá encontrando cada vez mais mulheres que se proclamam «alérgicas à cozinha» e até pareçam sentir orgulho em dizer que mantêm relação nula com fogões. Sinal dos tempos: se é para exibirem «emancipação», vão por mau caminho. Assim ficarão sempre dependentes de alguém, disponível (ou não) a cozinhar para elas.

 

Comecemos pelo mais básico. Que costuma ser também o mais rápido – e nem por isso menos saboroso. Um dos dois ou três primeiros pratos que preparei é ainda daqueles a que recorro com frequência quando a fome aperta e o tempo escasseia. Atum à Brás: faz-se em minutos e exige poucos ingredientes. 

Começo por picar meia cebola: as receitas falam-nos sempre em cebola inteira, mas metade basta. O mesmo para os alhos: se sugerem dois dentes de alho, é garantido que um já cumpre a função. Segue também picado para a frigideira, onde já repousa a cebola mais uma folha de louro.

Rego com um fio de azeite, fica a alourar. Verto então meio copo de vinho branco e aguardo que ferva um minuto ou dois. Entretanto, bato um ovo por pessoa, com salsa e pimenta. Fica pronto a despejar sobre a cebolada, em lume brando. Há que mexer sempre: é nestes momentos que uma colher de pau se revela auxiliar imprescindível, digam os burocratas de Bruxelas o que disserem.

 

Mal o ovo esteja cremoso, termina a sucinta operação culinária. Resta juntar batata frita palha e envolvê-la na frigideira, apagando-se o lume. Há que agir com rapidez para evitar que o ovo seque.

Falta acrescentar o atum – também uma lata por pessoa. Prefiro o Santa Catarina, açoriano. Mas Minerva ou Bom Petisco também servem, em posta ao natural, sem azeite acrescido. 

Que mais? Polvilhar com salsa. Podemos também enfeitar com azeitonas: parece ainda mais português. E sabe sempre bem.

 

Há pratos que demoram mais tempo a fazer do que a comer: são quase todos. Com este, sucede o contrário.

É um dos motivos que me levam a recomendá-lo a quem queira iniciar-se. Para riscar de vez aquela expressão «nem sei estrelar um ovo»: deixemos isso para as dondocas que têm cozinheiro privativo ou para os grunhos que se gabam de nunca entrarem numa cozinha. Nem sabem o que perdem.