Gosto de ter um restaurante favorito nas principais cidades portuguesas – hábito que iniciei há largos anos. Alguns já não existem, o que lamento. Fecharam o Rolo em Portalegre, Os Infantes em Beja, a Praça Velha em Castelo Branco. Há dois meses, quando me desloquei ao Porto, percebi com tristeza que também a minha Adega Vila Meã encerrou de vez.
Em Coimbra, frequento os clássicos da restauração caseira: Cantinho dos Reis, A Taberninha, Zé Manel dos Ossos. Mas gosto de variar. Há sete anos comi a melhor açorda de camarão da minha vida na outra margem do rio, servida n’ A Açorda. Ficou-me na memória. Regressei agora para confirmar que as impressões do passado nem sempre se recuperam.
Mantinham o prato na ementa, mas sem possibilidade de o servirem em dose individual: do anterior grupo de três ali só restava eu. Ainda brinquei: «Façam duas doses. Como hoje a primeira e venho comer o resto amanhã.» Não pareciam em maré de graças, recomendaram-me o prato do dia: peixe-galo no forno. Caí na asneira de dizer que sim.
Deixo o alerta geral: não cometam o mesmo erro. Este peixe jamais deve ser tratado desta forma: perde por completo a frescura, fica seco que nem bacalhau. Sem o sabor do dito. Não merece tal tratamento.

Tiro ao lado, portanto. Procurei alternativa. E felizmente encontrei, no almoço seguinte. À mesa do Cordel Maneirista (Cordel, só para os íntimos), que a meus olhos redimiu Coimbra da sensaboria e dos lugares-comuns.
Gostei de tudo, a começar na localização. Mesmo ao lado do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, bem perto do Portugal dos Pequenitos a que me ligam excelentes memórias – como filho e como pai.
Tem mercearia no rés-do-chão. O espaço para refeições – distribuído por duas salas e terraço anexo – fica no primeiro andar. Com cuidada decoração interior e desafogadas vistas para o exterior.

Chego cedo, como sempre faço: gosto que me atribuam prioridade na cozinha. Avançou sem demora um pratinho de perdiz fria de escabeche à moda de Coimbra. Temperatura certa, textura adequada, nem uma gota de vinagre em excesso. Na generosa companhia líquida de São Domingos, espumante bairradino.
Havia apetite para mais.
Compareceu então uma saborosa coxa de pato, devidamente acolitada: com arroz de frutos secos e salada de laranja. Veio já empratada, mas não em dose mínima – ao contrário do que sucede noutras casas, com mais fama do que proveito.


Na ementa destacavam-se outros petiscos tentadores, que guardei para futura deslocação, em data próxima: arroz de carqueja beirão, arroz caldoso de robalo, arroz de polvo e camarão. Tendo como protagonista o macio bago de carolino do Baixo Mondego, um dos nossos emblemas gastronómicos.
Fiquei cliente. De tal maneira que acabo de eleger o Cordel como meu restaurante favorito na cidade dos doutores.
O Açude foi destronado. Só faço votos para que este não encerre também.















































































![Arroz de favas 2[1].jpg](https://delitodeopiniao.pt/images/2024/20436110_wchBQ.jpeg)

















