A dois passos do paraíso – 2


Teresa Ribeiro,

A segunda meninice começa mais tarde. Antes, é à segunda adolescência que chegamos. Voltamos a pensar nos grandes temas da vida e o fascínio é o mesmo que sentimos aos 15 anos, como se todas essas reflexões tivessem ficado fechadas em frascos com formol, à espera que as retomássemos. A pressa de viver também volta. A diferença, agora, é que estamos cheios de razão.

Mudam-se os tempos


Pedro Correia,

Não sei se acontece o mesmo convosco. Eu quando estou numa fila de supermercado avalio pelas compras dos clientes à minha frente se sabem cozinhar ou não.

Se só vejo embalagens de fiambre e latas de atum, percebo de imediato que quem ali está não costuma dedicar-se à culinária. Se leva legumes, arroz, carne e temperos, percebe-se que se trata de alguém habituado a cozinhar.

Reparo nestes pormenores e procuro estabelecer um padrão das pessoas conforme a idade e o sexo. E vou concluindo que entre os homens são os mais jovens que cozinham enquanto nas mulheres a tendência dominante é ao contrário: verifico que elas vão deixando em grau crescente de se dedicar aos fogões e aos tachos, contrariando o que sucedia com as mães e avós.

Sobra para eles, claro. E lá se vão ajeitando como sabem e podem. São cada vez em maior número, é o que indicia a minha observação empírica. The times they are a-changin’.

Coisas de nada


Teresa Ribeiro,

É possível estabelecer e até construir uma relação, por limitada que seja, com base na troca rotineira de muito poucas palavras? Tão vazias de conteúdo quanto o são as palavras que fazem parte do protocolo da civilidade básica? Tenho meditado nisto desde que, há vários anos, passei a trabalhar em edifícios de escritórios com portaria 24 horas.

“Bom dia”, “Boa Tarde” e “Até amanhã” é ao que se resume, na maior parte das vezes, o “diálogo” que mantenho com os vários porteiros de turno. E, no entanto, tenho de todos eles uma opinião diferente. E o inverso, não duvido, é também verdadeiro.

Claro que é o tom de voz e a boa ou má qualidade do contacto visual que aqui fazem a diferença. Com uns simpatizo, com outros não. Àqueles que me cativaram mais, cumprimento num tom diferente, que reforço com um sorriso. Não o faço deliberadamente, é espontâneo. A modulação da minha voz e a expressão do meu rosto mudam automaticamente, ajustando-se em fragmentos de segundo ao meu interlocutor do dia. 

Não me ocorre uma relação diária que seja mais minimal que esta. E é isso que a torna interessante como objecto de estudo. Revela de forma inequívoca o poder da expressão facial na comunicação entre estranhos, a facilidade com que reagimos aos detalhes e construímos a partir deles um juízo de valor, a ligeireza com que formamos opiniões mesmo não sabendo nada de nada acerca das pessoas que entraram no nosso campo de observação. Em suma, a futilidade que subjaz à construção da imagem do outro.

Estou ciente de tudo isto e no entanto não consigo evitar  ter opiniões diferentes sobre cada uma das pessoas que diviso na portaria do prédio. Ignoro o que se passa nas suas vidas. Não lhes conheço um único pensamento. São, para todos os efeitos, estranhos com quem me cruzo todos os dias. Estranhos com rostos a que reajo. Como se dois rostos quando se olham fossem reagentes químicos. 

Extrapolando para relações mais complexas, por exemplo como as que estabelecemos com os estranhos que julgamos conhecer dos media e da política, acabamos a meditar sobre a fragilidade e arbitrariedade de avaliações, que dependem, muito mais do que gostaríamos, da linguagem não verbal. Há cada vez mais carreiras políticas que se constroem e alimentam disto. Só disto. Porque, ainda que informados, deixamos.

Nomofobia, ma non troppo


Maria Dulce Fernandes,

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Ontem decidimos ir ver as luzes. Com bilhetes no bolso para o Concerto de Ano Novo com a Strauss Festival Orchestra & Ballet no Coliseu de Lisboa, saímos mais cedo para fazermos a pé o percurso desde a Praça do Comércio, até à sala de espectáculos. A chuva não proporcionou um passeio tranquilo e foi necessário estugar o passo para não passarmos de secos a molhados.

Acabámos por chegar ao Coliseu com mais de uma hora de antecedência… deu para matar saudades e relembrar os dias de Circo de Natal, patrocinado pela Guerin, com direito a presente, que era entregue a todas as crianças pelo filho do dono, comer nougat ou amendoins e beber um pirolito com bola, ansiosos e expectantes de todos os deslumbres dos chiffons e lantejoulas, e gargalhadas das tropelias da palhaçada.

Fomos seguramente os primeiros a entrar na sala, que rapidamente encheu e que, apesar de o concerto ser classificado para maiores de três anos, a assistência era na sua grande maioria malta a rondar a minha idade ou mais velhos.

Uns minutos depois da hora marcada, deram inicio ao concerto. Gostámos bastante das músicas (de vários autores) do canto e dos bailados. É sem dúvida para repetir.

Não gostámos dos velhinhos nomofóbicos que passaram as duas horas do espectáculo com o telemóvel ligado. A luz incomodava. O clique clique do teclar também. Das conversas em sotto voce, nem se fala. 

Belo exemplo de cidadania e de lição para a posteridade. 

Béu-béus em vez de bebés


Pedro Correia,

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Cada vez mais me acontece. Saio à rua e observo senhoras com falsos bebés ao colo, agarradas ao “rebento” com o maior desvelo.

Falsos por não serem bebés: são cães.

Lá vão elas passeio fora, com aparente receio de que o bicho lhes tombe para o chão. 

Algumas, em vez de levarem o béu-béu nos braços, preferem transportá-lo em carrinhos de bebé. Vi há dias algo do género em estreia absoluta para mim: em vez de um rosto humano, arredondado e bochechudo, espreitava-me um focinho comprido e peludo debaixo da manta.

 

Permanecem por estudar com exactidão os efeitos devastadores do coronavírus em matéria comportamental. Mas há um ponto inquestionável: a relação das pessoas com o espaço urbano alterou-se muito desde a pandemia. Foi então que começaram a proliferar os estafetas – novo lúmpen citadino, oriundo do subcontinente indiano – devido ao pânico de muita gente perante o risco de contaminação em locais públicos: em vez de saírem, pagam para lhes levarem quase tudo à porta de casa.

Foi também então que cães e gatos reforçaram o seu estatuto como elementos fundamentais de companhia: ao contrário dos seres humanos, eles não eram transmissores de covid-19.

 

No contacto entre pessoas e animais, já vi de tudo um pouco e surpreendo-me com quase nada. Um colega de profissão – também meu bom amigo – levou certo dia uma atónita raposa para a redacção do jornal onde ambos trabalhávamos. Outro apresentou-nos um camaleão, seu animal doméstico preferido, orgulhosamente poisado no ombro do dono. No bairro onde vivo, passou por mim esbelta donzela levando um furão pela trela – rima e é verdade. Em Macau era frequente os velhotes passearem os passarinhos nas gaiolas, indiferentes ao olhar de espanto dos forasteiros recém-chegados da Europa. Eu próprio tive um periquito azul celeste que andava solto pela casa e se tornou atracção junto de quem nos visitava: era o Pavarotti, que ainda recordo com um rasto de nostalgia.

Mas confesso: faz-me confusão este recente hábito de transportar cães ao colo. Terão os animais perdido capacidade de locomoção também por efeito da pandemia?

Voltar ao metro


Teresa Ribeiro,

Não guio. Como sempre estive convicta de que um dos principais focos de contágio da Covid é nos transportes públicos, defendi-me durante bastante tempo com um esquema de boleias que me resolveu o problema. Mas a dependência cansa e às tantas entendi que já era tempo de regressar à normalidade, até porque tenho um horário flexível, que me permite evitar as horas de ponta.

Quando voltei ao metro, a minha curiosidade concentrou-se no comportamento dos utentes. E constatei mais uma vez que somos um povo obediente e ordeiro. A maioria, quando há espaço que chegue, preocupa-se com o afastamento e usa máscara. Mas claro que há excepções. Em poucas semanas vi gente ao molho, sem necessidade. Magotes a concentrarem-se escusadamente junto às portas, muito antes de o metro entrar nas estações, pessoas sem máscara por estarem a beber, ou a comer, ou porque sim. Tanto que se fala na importância do distanciamento social e muitos, sem pensarem duas vezes, sentam-se nos bancos que ficam costas com costas, de modo a quase tocarem na cabeça uns dos outros.

Nunca me apercebi tanto como agora de que há imensa gente que tem o vício de ocupar o tempo que gasta nas deslocações a falar ao telefone. Numa só carruagem é comum ver várias pessoas nesse trai-lai-lai e facilmente se percebe, porque muitas falam alto, que não se trata de telefonemas inadiáveis.

Não é preciso ser especialista em epidemiologia para perceber que o risco de contágio aumenta com este género de comportamentos, tão fáceis de corrigir. Tanto tempo que se tem gasto em televisão a entrevistar especialistas, tanto que nem os mais pacientes já  os conseguem ouvir, e ninguém se lembrou de encomendar uma campanha, feita de forma simples e divertida, que chame a atenção para a importância dos detalhes na prevenção do contágio?

Ontem não pude evitar um risinho amarelo quando entro numa estação e oiço em fundo a voz de uma funcionária avisar que “a linha verde está com perturbações”. Hoje tive a certeza que a velha rotina se tinha instalado na minha vida quando ouvi ao chegar ao metro, a voz de uma funcionária a pedir “desculpa pelo incómodo causado”, pois “o tempo de espera na linha azul” podia ser “superior ao normal”. 

E claro, escadas rolantes avariadas também existem com fartura. Há coisas que nem com a pandemia mudam…

O fim do aperto de mão


Zélia Parreira,

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O Spectator chamava, há dias, a atenção para o fim de uma era: a extinção do “aperto de mão”.

Digno de um estudo antropológico ou sociológico, o aperto de mão era mais do que um cumprimento. Sendo mãe de um rapaz e duas raparigas, sempre registei, numa espécie de espanto divertido, a forma de cumprimento que os distinguia. Elas optavam pelo olá, ou pelo beijinho e, mais tarde, pelo abraço nalguns casos. Ele, miúdo ainda ou já adolescente, a cumprimentar os amigos com o aperto de mão, “à homem”.

Apertar a mão sempre foi um gesto de cortesia, um “como está?” ou um “muito gosto em conhecer”. Foi também o sinal de acordo firmado, palavra dada e honrada, negócio fechado. Era o momento “fotografável” de conclusão de um processo de entendimento, de (re)afirmação de boas relações.

Era, também, uma oportunidade única para ter uma primeira impressão de outrem. Apertos de mão firmes e vigorosos, quase sempre correspondiam a pessoas corajosas e decididas, por oposição a apertos de mão escorregadios e dengosos, aparentemente indicativos de uma pessoa maleável, receosa, melíflua. Conjugado com a expressão facial – que as máscaras agora ocultam – o aperto de mão constituía um cartão de apresentação privilegiado, espontâneo e dificilmente contaminado por técnicas de “bem impressionar”. A posição das mãos e a determinação da duração do cumprimento era muitas vezes demonstrativa da situação de superioridade, liderança ou conforto de um dos intervenientes, por oposição ao outro. Tudo isto se perdeu. E o que também se perdeu, neste mundo asséptico do covid-19, foi a possibilidade de afrontar os que desconsideramos pela simples recusa de lhes apertar a mão.

Os direitos das mesas


Pedro Correia,

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Manuel Alegre: «É preciso dar um murro na mesa» (Abril de 2013)

António Capucho: «Costa tornou-se líder porque deu um murro na mesa» (Janeiro de 2015)

Vasco Lourenço: «Chegou o tempo de se dar um estrondoso murro na mesa» (Março de 2015)

Carlos Silva: «Não me vou embora sem dar um murro na mesa» (Janeiro de 2020)

António Simões: «Às vezes é preciso dar um murro na mesa» (Dezembro 2020)

Rui Rio: «É preciso dar um murro na mesa» (Janeiro de 2021)

 

Não haverá nenhuma associação defensora dos direitos das mesas? Elas fartam-se de levar murros e sofrem em silêncio, vítimas dos mais vis actos de prepotência e cobardia, em nítido abuso da lei do mais forte. Merecem toda a nossa solidariedade.

A SIDA e o Covid


Paulo Sousa,

Há umas décadas atrás, o vírus de que se falava era o da SIDA. Fazia capas de jornais e foi tema para filmes e músicas. O seu surgimento e propagação colocou o mundo a falar de hábitos sexuais com uma ligeireza impensável até então. Se no início era uma doença de homossexuais, de prostitutas e de drogados, acabou por contagiar figuras públicas que não pertenciam a esses grupos. Com o tempo passou a ser apenas uma doença associada a comportamentos de risco, comportamentos esses que, estando bem identificados, excluía facilmente quem os evitasse. Além de contraceptivo, o preservativo passou a ser equipamento de segurança.

Ao longo dos anos em que a SIDA foi o maior flagelo sanitário do mundo ocidental, não faltaram teorias que a associaram esta doença a castigos diversos. Para os moralistas era um castigo contra depravações várias, os simpatizantes do bloco soviético esforçaram-se por interpretar a ausência de dados oriundos das ditaduras comunistas com que se identificavam, como sendo uma doença exclusiva dos capitalistas.

A banalização do preservativo, juntamente com os programas de troca de seringas, acabou por ser uma forma efectiva de, arredando os juízos morais da equação, travar a propagação da doença. Por motivos culturais, financeiros e também religiosos este tipo de medidas não foram adoptadas nos países mais pobres e isso explica também porque é que o epicentro da doença se deslocou para África.

Foi nos países ocidentais, onde mais agitadamente se viveu o espírito do flower power do anos 60, que a liberdade sexual, muito ou pouco promiscua, foi mais refreada. Sendo uma doença associada aos referidos comportamentos de risco, acabou por motivar mudanças de comportamentos.

Nessa perspectiva o Covid, sendo menos mortífero é muito mais abrangente e impactante. É a fragilidade prévia de cada indivíduo que o coloca, ou não, no grupo de risco. Por mais banais que sejam as suas rotinas, o contacto com o vírus pode ocorrer com a maior naturalidade durante actos banais da vida social. Por comparação, este novo vírus já está a ter, e terá ainda mais consequências nos comportamentos de todos nós, do que o vírus da SIDA.

Depois do debate sobre as fronteiras de linguagem despoletado aquando da proibição do piropo, depois dos excessos que resultaram do movimento MeToo, o Covid é sem dúvida mais um duro golpe na forma como duas pessoas se podem aproximar e se envolver emocional e fisicamente, com especial relevo para quem esteja à procura de um relacionamento. Como cidadão amante da liberdade acho que estas repetidas e cumulativas restrições são perturbadoras.

Até o governo britânico, que normalmente consegue manter alguma sobriedade e mostrar alguma sabedoria, estabeleceu há uns meses atrás limitações ao contacto físico entre casais com relacionamento estabelecido, casados inclusive, que não residam juntos. Desde há poucos dias, essas limitações foram aliviadas e desde então já se podem beijar e tocar. No entanto, avisam as autoridades, parceiros em estágio inicial de relacionamento devem tomar especial cuidado. As expressões usadas foram “test the strength of his relationship” e logo depois “Test really carefully your strength of feeling”.

As reacções não se fizeram esperar. Quando um governo ou regime se propõe a regular detalhes tão pessoais como estes da vida dos seus cidadãos, a pergunta que se coloca é onde fica a fronteira entre esses dois conceitos? O que distingue um relacionamento estabelecido de outro em estágio inicial? Quais os critérios que se devem usar para se saber a que categoria se pertence? Claro que a resposta acaba sempre por ser: Usem o bom-senso, o que sendo uma resposta aceitável mostra também que a regra é toda ela desnecessária, pois o bom-senso, e por definição, não carece de ser legislado.

Faltou ainda que alguém lhe perguntasse se é legal ter um caso de uma noite só, ou o que recomenda a quem aspira simplesmente a ter sexo recreativo com alguém conhecido, ou mesmo desconhecido. Será que a Deputy chief medical officer pode sugerir alguma posição específica que considere mais segura para o acto? E, além do preservativo, existe algum outro equipamento de segurança que recomende?

A actual pandemia é um cenário de sonho para quem esteja colocado na posição de decidir pelos outros e que goste de o fazer, assim como para quem não consegue tomar decisões e prefira ser instruído. Para os demais, os que têm a ilusão de ter controle sobre a própria vida, para esses, tudo isto é de facto um pesadelo.

Os rangers da COVID-19


Teresa Ribeiro,

A intrépida dona da frutaria, onde costumo abastecer-me, esteve desde o começo da pandemia a fazer o seu statement diário. Sempre muito atarefada, movimentava-se na loja sem máscara – enquanto tal foi permitido – e a espalhar olhares de desdém por quem lá passava, devidamente protegido. É claro que com esta atitude levou vários dos seus funcionários a inibirem-se de usar máscara. A balda era tanta que deixei de lá ir. Há dias reparei que tinham a porta fechada e nela colado o aviso: “Encerrados por motivos de COVID-19”. Seis infectados, soube entretanto. De uma equipa de 12.

Na tasca perto do escritório, o ambiente que se via da rua era igualmente descontraído, com o dono a aviar copos ao balcão de máscara ao pescoço, a um friso de clientes, na sua maioria idosos, sem protecção. Também fechou. E vão dois.

Há gente que todos os dias se arrisca, mas não tem alternativa. Gente obrigada a deslocar-se em transportes públicos em hora de ponta e pessoal de saúde, entre muitos outros. Estes, que agora estão de molho, tinham. Mas preferiram mostrar ao vírus quem era mais macho. Agora já sabem.

No escritório


Teresa Ribeiro,

A miúda da limpeza, antes tão antipática, agora presenteia-me com um belo sorriso sempre que nos cruzamos no átrio do prédio. Também o porteiro mais sisudo dos cinco que aqui rodam por turnos já não me responde com um grunhido quando lhe dou os bons-dias. Sente-se no ar um certo sentimento de irmandade entre os que resistem ao confinamento doméstico.

Na semana passada, quando soou o alarme por incúria de um dos inquilinos e todos os que se encontravam no edifício tiveram de descer, é que percebi quantas pessoas permanecem aqui. Contei pouco mais de vinte, quando nesta torre de doze andares trabalhavam várias centenas, que por sua vez recebiam em consultas, ou reuniões outras tantas. Entre população fixa e flutuante, por cá circulavam milhares de pessoas por dia.

Agora a minha rotina é simples. Entro, desinfecto-me, instalo-me à secretária frente ao computador. Ao escritório não vai mais ninguém. Tenho os gabinetes todos para mim, por isso quando falo ao telefone aproveito para fazer footing. Do fundo do meu gabinete até à sala de reuniões são 26 passos. Do gabinete contíguo ao meu até à porta de entrada, são 15.

Ja comparei a vista que todos os gabinetes têm para a rua. Em boa verdade já o tinha feito assim que para aqui nos mudámos, há cerca de um ano. Mas agora sei exactamente quais são os melhores ângulos de cada janela para ver o que se passa no exterior.

É estranho voar à solta dentro desta gaiola, mas mais estranho será quando voltarmos ao normal e nos juntarmos. Possivelmente de máscara e com desinfectante à porta, como nos laboratórios. A analogia é apropriada, pois teremos muito que testar ao nível da gestão das distâncias e dos protocolos sanitários.

Eu, que sempre me queixei da mania tuga de espetar com dois beijos em quem não se conhece, assim que somos apresentados, dou comigo a antecipar a nostalgia do beijinho entre outras manifestações que me parecem já tão distantes no tempo.

No mercado


Teresa Ribeiro,

Desloco-me ao mercado a uma sexta-feira para evitar o movimento dos sábados e deparo-me com o movimento dos sábados a uma sexta-feira. Não há como evitar os outros. As ruas estão desertas, mas é um engano. Entre portas continua a viver-se em comunidade, porque a vida está, desde há muito, organizada assim.

Mas há diferenças. Agora a mole divide-se entre temerosos e temerários. Aqueles que usam máscara identificam-se logo, tal como acontecia nos tempos em que havia futebol e seguiam para o estádio de cachecol e bandeirinha. Mas os adeptos da equipa adversária, apesar de não usarem distintivos, também se revelam sem qualquer subtileza. São os que ostentam olímpico desrespeito pelas novas normas sociais. Falam, movimentam-se, com alarde. Os mais afoitos ainda arriscam apertos de mão.

Na zona da peixaria, a banca mais popular do mercado continua com movimento e Rosa, que a dirige com mão de ferro, também faz questão de mostrar de que fibra é feita. Entra e sai da banca, escolhe o peixe com desembaraço, e não se inibe quando reconhece entre os seus habitués gente da sua equipa. Ei-la, toda sorrisos, a dois palmos de um cliente a quem trata por doutor. Pequena, franzina, à frente de uma equipa de homens, talvez descendentes de pescadores, aprendeu há muito que entre os seus, o respeito conquista-se à força de coragem para desafiar os elementos. Ele, quem sabe, convenceu-se de que a distância de classe o vai preservar, como sempre, de tudo.

Cheeese!


Teresa Ribeiro,

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Muito antes das redes sociais, que nos empurram para uma noção de felicidade mais concorrencial, já nos fotografávamos a sorrir. Há puristas que consideram mentirosas essas fotos sociais e de família, mas eu fui sempre benevolente em relação à questão. Se fotografar é parar o tempo, então é natural que se deseje ter dele o ângulo mais favorável.

Nunca valorizei tanto as mentirosas fotos de família como quando comecei a perder as pessoas que me faziam mais falta. A minha família, como tantas famílias normais, era disfuncional, mas o que preciso reter dela são as imagens que mais combinam com as minhas saudades e essas, são as felizes.

O reflexo de fotografar tudo o que mexe, 365 dias no ano, que veio com os telemóveis, retirou, de alguma forma, estatuto às fotografias. São muitas, demasiadas, acumulam-se, anulam-se, esquecem-se demasiado depressa. É pena. O tempo não gira com mais vagar só porque somos vorazes a fixá-lo. Mas o hábito de mentir para a fotografia mantém-se incólume. A velha necessidade de recriar os momentos que vivemos e de sorrir, sorrir sempre. 

O Síndrome do Robocop


Maria Dulce Fernandes,

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O plástico é uma praga.
A máxima de Lavoisier está incompleta. Nem tudo se transforma. Depois de convertida em plástico, a natureza perde a degradabilidade e consequentemente a capacidade de criar vida a partir do pó em tempo útil. Nenhum de nós tem o poder de viver mais de 500 anos para ver extinto todo e qualquer vestígio de pegada ecológica deixada pela poluição devastadora provocada pelo descarte de artefactos de plástico e derivados.
No nosso afã para mantermos a durabilidade das coisas pela arte da plastificação, deixamos de parte a única variável fundamental a qualquer equação em que a incógnita seja a introdução no corpo humano de matéria orgânica polmérica sintética, ou qualquer outra preparação criada in vitro que permita obter uma melhoria no desempenho e na longevidade do corpo.
Qualquer tentativa de plastificar a vida tem apenas resultado na sua anulação.
Qualquer “arte” plástica a que se submeta o corpo tem somente o sucesso efémero que a gravidade lhe permite. É tão normal a nova e renovada forma ficar disforme em curto tempo.
É por isso que, numa época em que toda a informação está disponível em tempo real para quase toda a gente, como se explica o uso e abuso de substâncias “plastificadoras” que incrementam a fisicultura, ao ponto de se morrer por ela?

No pasa nada


Teresa Ribeiro,

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Falta cerca de um mês para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que todos os jornais falam dos problemas da condição feminina, desde a discriminação no trabalho à violência doméstica e no entanto quando passei de manhã pela banca dos jornais (ainda gosto de consultar as primeiras páginas assim, ao vivo e a cores), que vi eu? 

Manchete do i – “Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil”

Manchete do JN: “Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai)

Manchete do Público: “Violência doméstica – 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça)

Pois, houve mais um crime, particularmente chocante, daí esta concertação noticiosa. O Correio da Manhã, no seu estilo inconfundível, publica: “Monstro estrangula filha com as mãos (violência doméstica levou mãe da bebé a pedir ajuda à PSP)

Leio estas manchetes e penso nas negacionistas do “Not Me” (nome que eu agora inventei por oposição ao #MeToo), que tomam a sua experiência pessoal pelo todo afirmando que não se passa nada. Bem sei que a discussão há um ano acendeu-se por causa de uma situação muito menos dramática, a do assédio. Mas faz sentido separar os dois fenómenos? No país onde se mata mulheres que se farta o assédio não existe? E já agora, juntando outro tema que também é caro às negacionistas: a discriminação no trabalho, também é falácia?

A sério?

 

Ambiente de trabalho IV


Teresa Ribeiro,

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Fala-se muito dos millenials, a nova geração que está a dar dores de cabeça aos empregadores por ser muito exigente, independente, e difícil de reter. Dizem que mudam de emprego como quem muda de camisa, que preferem não trabalhar a ser mal pagos e que valorizam o work-life-balance, ou seja, não estão dispostos a deixar-se consumir por cargas horárias excessivas. Desenvolver carreira numa determinada área já não é, para muitos deles, um objectivo. Quais camaleões, estão preparados para mudar de rumo a todo o momento, desde que tal resulte em maior qualidade de vida.

Ressentidos, muitos empregadores chamam-lhes egoístas e mimados. Acusam-nos de terem sido educados por pais que lhes deram tudo, algo que os transformou em seres desprovidos do mais leve espírito de sacrifício. 

A perspectiva dos monstrinhos egoístas é diferente. Queixam-se de serem alvo, por sistema, de propostas miseráveis, que fazem tábua rasa dos anos de formação académica que consumiram a preparar-se para ter uma boa vida. Dizem também que os salários que lhes propõem não asseguram autonomia. Olham para o mercado de trabalho e percebem que é o salve-se quem puder. Conforme o seu contexto e características pessoais, uns aprendem a competir sem ética, outros desistem e enveredam por uma adolescência sem termo (são os tão comentados nem/nem, que não trabalham nem estudam), outros ainda apostam num modo de vida alternativo, baseado no improviso, trabalho intermitente e estilo de vida frugal.

O que não se diz é que estes meninos relapsos não nasceram de geração espontânea. Na verdade millenials e empregadores são faces da mesma moeda. A cara e a coroa, o verso e o reverso desta nova cultura do trabalho.

Uns não existiriam sem os outros.