Eternos passos rumo a lugar nenhum


Pedro Correia,

Tão fatal como o Outono seguir-se ao Verão: há sempre batalhões de psicólogos e esquadrões de sociólogos prontos a justificar os maiores crimes, as mais gritantes atrocidades, os mais impensáveis atentados a direitos fundamentais – desde logo o direito à vida. Transformando criminosos em entes sem vontade própria, desprovidos de livre-arbítrio. À mercê de impulsos incontroláveis. Vítimas da envolvente social, capturados pela má sorte, prisioneiros do destino. «Não estava em si», dizem uns. «A culpa é da sociedade, não existem culpas individuais», alegam outros. Inutilizando milénios de civilização, invalidando séculos de iluminismo.

«Um mundo sem moral é um universo sem força da gravidade», observou com precisão o grande escritor egípcio Naguib Mahfouz, Nobel da Literatura, no seu livro O Ladrão e os Cães.

Sem essa força da gravidade, no limite, dissolve-se a distinção entre Bem e Mal. Tudo se torna lícito. Inútil supor que o ideal ficará a meio caminho, amálgama de pólos contrários. Assim é impossível evoluir para novos patamares éticos: como Sísifo, estaremos condenados a dar eternos passos rumo a lugar nenhum.

Combater os crimes no asfalto


Pedro Correia,
Um volante pode ser tão letal como uma arma de fogo

Somos demasiado complacentes com os homicídios cometidos ao volante neste país dito de brandos costumes. Um assassino que mata de pé no acelerador – com o excesso de velocidade geralmente associado ao consumo de álcool – ainda é olhado com infinita complacência. Como se as tragédias nas ruas e estradas, entre nós, não devessem envergonhar-nos: Portugal continua claramente acima da média europeia nesta estatística macabra. Foram 589 óbitos declarados em 2025 – só menos quatro do que em 2015 – além de 2476 feridos graves. Ínfima redução de 0,7% numa década. Quando a Polónia reduziu em 43% as mortes na estrada entre 2019 e 2025 e a Dinamarca conseguiu uma redução de 32% no mesmo período.

Como em quase tudo, não é só questão de leis nem de aplicação da justiça. É também questão de mentalidade. Que começa logo na linguagem que usamos em casos como os dos recentes atropelamentos fatais na A1, perto de Cantanhede. Dois jovens militares, que prestavam assistência a um camionista imobilizado, «foram atropelados por outra viatura» – rezam as notícias. Como se o carro estivesse sem condutor ou andasse desgovernado.

O próprio Presidente da República participa nestes doces eufemismos evitando usar palavras com arestas. Na nota de pesar difundida pelo Palácio de Belém, a 21 de Agosto, lamenta o «falecimento» dos soldados que «perderam a vida» no quilómetro 204 da A1. Como se os jovens tivessem sucumbido de enfarte ou apoplexia.

Pouco antes, a 15 de Agosto, um ciclista galês de apenas 19 anos morreu atropelado por um assassino ao volante que não quis esperar dois ou três minutos pela passagem do pelotão da Volta ao Portugal. Finlay Tarling: assim se chamava o jovem desportista assassinado ao km 16 da EN 306, vítima da pseudo-lei do mais forte que ainda impera nas estradas portuguesas.

 

Tudo continuará na mesma enquanto não chamarmos as coisas pelos seus nomes. Enquanto as vítimas de criminosos num automóvel «perdem a vida». Como se fossem atingidas por um relâmpago, em vez de serem assassinadas. Como se um volante não pudesse ser tão letal como uma arma de fogo.

António José Seguro, em funções há menos de seis meses, parece andar à procura de causas a que empreste o seu nome. Sugiro-lhe uma: mobilizar a sociedade portuguesa para combater este flagelo, reduzindo drasticamente o número de mortos e feridos graves. Sem invadir as esferas de competência legislativa e executiva, encontrará aqui muita margem de actuação.

Espero que queira. Creio que sim, pois a 15 de Agosto exigiu uma «cultura de responsabilidade» nas estradas nacionais. Com este brado, que pode funcionar como incentivo a si próprio: «São números dramáticos, que não podemos aceitar. Temos, todos, o dever de agir. Paremos esta tragédia.»

Está dito, falta actuar: devemos mobilizar-nos na direcção correcta. Aqui sim, sem pé no travão. Para pôr cobro a isto.

 

Leitura complementar: Com seis meses de atraso (6 de Dezembro de 2021)

O maior crime do século


Pedro Correia,

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Em quatro anos, Vladimir Putin enviou centenas de milhares de compatriotas para o matadouro na Ucrânia. Para quê? Conseguiu “conquistar” 0,75% da superfície desta nação soberana transformados em escombros e cinzas.

Carne para canhão, na maioria oriunda das regiões mais pobres e deprimidas da Rússia. Em nome da megalómana e alucinada tentativa do novo czar de reconstituir o defunto império soviético.

É, até hoje, o maior crime do século.

Hidroginástica à 4.ª Feira


Maria Dulce Fernandes,

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Sete da manhã e estavam 6⁰ C. O calor é preguiçoso, mas era mesmo  preciso levantar. Depois vem o cafezinho e o sumo de laranja, toma-se a medicação da manhã e vamos ler as gordas e debatê-las à luz das tendências de cada um, porque num casamento de quase 45 anos é da discussão que a faísca alimenta o fogo.

– Então, vamos ou não? -Vamos… – Mas está frio. – Dentro de água  não se sente.

E fomos. Esperámos o autocarro da Carris Metropolitana e lá fomos, rumo ao CNA na Reboleira, para mais uma aula de hidroginástica.

Como habitualmente saímos na paragem do Supermercado e atravessámos o pequeno ajardinado do outro lado da estrada, que desemboca na Rua Pedro Del Negro junto à igreja. Foi por essa altura que ouvimos o que pensamos serem uns foguetes meio murchos. Já junto ao estádio vimos um colega de piscina que estugava o passo e nos disse meio afogueado “Ouviram os tiros? É um tiroteio entre gangues rivais. Vou-me embora!”

Ficámos sem saber o que fazer. Alguns populares corriam na direcção da entrada e só se ouvia ao longe o som de sirenes. “Olha, vamos lá. Estou a ver uma data de colegas de aula. Se não houver função, vamos embora.”

Nada acontecia na entrada das piscinas. O que quer que estivesse a suceder, passava-se mais ao lado, junto à entrada do ginásio. Chegou uma ambulância. Não fui ver. Estava muita gente e só se ouviam gritos. Entrámos, mudámos de roupa e fizemos a aula tranquilamente.

À saída, o circo estava instalado, com tudo o que era polícia, grupos de intervenção e comunicação social a incomodar toda a gente. Eu não vi nada. Não sei nada nem quero saber. Não posso comentar. 

Já em casa verificámos pelas notícias na tv que o dito “tiroteio entre gangues rivais” tinha sido uma cobarde execução de uma pessoa por outra ainda pior que se arvorou em juiz, júri e carrasco, num julgamento em que era tão ou mais culpado.

Seja qual for a sua origem, para esta gente a lei não existe. A pessoas que viram e viveram aqueles momentos de pânico, na sua maioria seniores (para não entrar no idadismo), sentem que a instabilidade e a insegurança que se vêm instalando na vizinhança reduzem cada vez mais a pouca qualidade de vida de que ainda podem usufruir.

Se há polícia, é porque há polícia. Se não há polícia, é porque não há, nem querem que haja. Para quê, se afinal os criminosos ministram a sua própria justiça sempre que lhes aprouver?

Chama-se Tiago


Pedro Correia,

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Finalmente sabemos o nome dele. Durante mais de uma semana, era apenas «o motorista da Carris». Sem direito a identidade, vítima indefesa de um cobarde bando de encapuzados quando desempenhava o seu trabalho: transportar pessoas para as periferias pobres de Lisboa. Servia a comunidade, cumprindo o dever profissional, em Santo António dos Cavaleiros (Loures).

Não abriu telejornais.

Ninguém indagou o seu tom de pele.

Ninguém o louvou, ninguém o enalteceu, ninguém se lembrou sequer de mencioná-lo pelo nome de baptismo: Tiago.

Tem 42 anos, permanece internado na unidade de queimados do Hospital de Santa Maria. Aparentemente com lesões no aparelho respiratório que lhe ficarão para o resto da vida – consequência do brutal ataque com cocktails Molotov quando transportava os últimos passageiros na última paragem da última viagem daquela fatídica madrugada que terminou com a destruição total do veículo. Alegadamente a pretexto de «vingar» a trágica morte do comerciante cabo-verdiano Odair Moniz, vítima de um deplorável disparo policial no bairro do Zambujal (Amadora).

O agente da PSP está já indiciado por homicídio. Quem atacou Tiago com selvajaria, quase o condenando à morte, permanece impune. 

 

Dos 23 suspeitos detidos e identificados por alegado envolvimento em 155 actos de fogo posto, dano e resistência à polícia de que resultaram quatro autocarros carbonizados, pelo menos 36 veículos ligeiros destruídos e centenas de contentores e ecopontos incinerados, nem um ficou em prisão preventiva. Alguns foram libertados com a solene advertência de estarem proibidos de usar isqueiros, o que já gera anedotas a nivel nacional. Pondo a justiça a ridículo.

«Se o barril de pólvora estourar com maior intensidade, estamos muito longe de conseguir aplicar com rigor, celeridade e eficácia, a boa receita que Keir Starmer utilizou no Reino Unidos, nos tumultos de 2007 e agora, já este ano», observava ontem Eduardo Dâmaso numa lúcida nota editorial no Correio da Manhã

Aviso feito: convém levá-lo a sério. E pôr fim à indecorosa prática da indignação selectiva. Que pode tornar-se num extremismo tão pernicioso como outro qualquer.

 

Leitura complementar:

O direito ao nome do assassinado (Delito de Opinião, 16 de Dezembro de 2020)

Passam a ter vida ainda mais difícil e dura


Pedro Correia,

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No domínio dos eufemismos, que por estes dias inundam os canais de televisão a propósito da onda de vandalismo na cintura de Lisboa, nem sei quais devo destacar. Abundam as referências a «jovens» para designar com suavidade os supostos autores de danos à propriedade pública (quatro autocarros da Carris Metropolitana, diversos contentores do lixo, ecopontos, bancos de jardim e outros equipamentos urbanos) e à propriedade privada (largas dezenas de automóveis regados com jerrycans ou brindados com cocktails Molotov e vidros de residências estilhaçados, além da tentativa felizmente falhada de pôr a arder pelo menos um posto de venda de combustíveis). 

Meros «incidentes», banais «desacatos». Assim designados por benévolos repórteres, como se testemunhassem vulgares altercações de trânsito em hora de engarrafamento rodoviário. Outros, confundindo a árvore com a floresta, aludiam a «conflitos entre populares e polícia», como se esta dicotomia fizesse algum sentido num cenário destes. Houve até quem garantisse haver «revolta da população» na tentativa – obviamente falhada – de justificar os distúrbios que puseram vários concelhos a ferro e fogo durante noites consecutivas. Em locais tão diferentes como Carnaxide, Damaia, Alfragide, Santo António dos Cavaleiros, Queluz, Pontinha, Cacém, Rio de Mouro, Brandoa, Arrentela, Laranjeiro e até na pacata Trafaria.

 

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Mas elejo afinal o verbo arder. Numa insólita voz passiva.

Viaturas queimadas, incendiadas, destruídas pelo fogo posto, reduzidas a uma dantesca porção de ferros retorcidos? Nada disso: apenas «carros ardidos». Como se fosse combustão espontânea, fenómeno natural, talvez até consequência desse amor romântico que arde sem se ver, forma subtil de celebrar o quinto centenário de Camões.

 

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Um dos carros vandalizados era de uma humilde residente no chamado Bairro Novo, em Loures. Ainda em estado de choque, dizia ela à RTP: «Eu não sou culpada de nada, não sou culpada de nada. O meu carro era recente, comprei-o em Maio do ano passado.» Enquanto uma senhora idosa relatava o que lhe sucedera naquela noite de pavor: «Saí por uma porta para o quintal, saímos todos, pensávamos que o prédio ardia.» Aterrorizada pelos vândalos.

Sem querer, alguns jornalistas seguem a máxima do angelical Padre Américo: não há rapazes maus. Ardendo de compreensão por delinquentes que aplicam a política de terra queimada e mantêm sob sequestro os habitantes destes bairros desfavorecidos na periferia da capital. Gente que trabalha muito e ganha pouco. Gente que tem servido de pasto a indecorosos extremismos políticos. Gente que passa a ter a vida ainda mais difícil, mais insegura, mais carregada de incertezas.

Sem eufemismos de qualquer espécie.

Intolerável


Pedro Correia,

É intolerável que vítimas civis e desarmadas de um conflito armado, sejam quem forem, acabem apontadas como “danos colaterais”.

Não devemos calar a nossa indignação perante o crime, venha de onde vier. Nem podemos permanecer indiferentes perante o crime, sob pena de nos transformarmos em pequeninos cúmplices dos carrascos. Nem é aceitável adoptarmos a atitude cínica de Estaline, que dizia que «a morte de um indivíduo é uma tragédia e a morte de um milhão de indivíduos é uma estatística».

Importa-me, isso sim, o olhar desprovido de considerandos políticos perante vítimas da violência primária, grotesca, aberrante. Elevámo-nos felizmente acima da condição do nosso antepassado mais remoto, o homem das cavernas, graças ao enorme passo civilizacional representado por esse olhar.

Estaline ressuscitado em Moscovo


Pedro Correia,

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Alexei Navalny (1976-2024): assassinado aos 47 anos por ter ousado enfrentar o tirano russo

 

Infelizmente, era uma má notícia previsível neste ano que promete trazer-nos várias outras muito funestas. Alexei Navalny, o mais destacado e corajoso opositor de Vladimir Putin, foi assassinado na prisão junto ao Círculo Polar Árctico, nos confins da Sibéria, para onde fora desterrado pelo sanguinário ex-oficial do KGB que detém o poder absoluto em Moscovo esmagando direitos, suprimindo liberdades, rasgando todas as garantias constitucionais.

«Foi homicídio», declarou à Reuters o jornalista russo Dmitri Murátov, galardoado em 2021 com o Prémio Nobel da Paz. Nenhuma dúvida.

Todos quantos ousam enfrentar o tirano moscovita têm aparecido mortos – das mais diversas formas. E até vários dos seus antigos aliados e amigos: basta lembrar o “falecimento acidental” de Prigójin quando se fartou de ser pau-mandado do Kremlin na carnificina ucraniana, iniciada há quase dois anos.

Outros, muitos outros, foram vítimas de morte abrupta. Ou caem de varandas, ou bebem chá envenenado, ou recebem balas homicidas na própria casa onde vivem, ao estilo mafioso (como aconteceu com a jornalista Anna Politkovskaya, mártir da liberdade de imprensa em 2006). Ou são até abatidos a tiro nas imediações da Praça Vermelha (como aconteceu em 2015  com Boris Nemtsov, outro desassombrado opositor).

 

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Ex-oficial do KGB, Putin tem reabilitado Estaline, que lhe serve de modelo

 

Navalny, com inegável robustez física e anímica, escapou uma vez à pena de morte extra-judicial que o carniceiro do Kremlin lhe decretara, ao mandar envenená-lo em pleno voo, em 2020.

A estrela da fortuna iluminou-o nesse instante. Mas ele teimou em desafiar o destino. No dia em que, por imperativo patriótico, decidiu regressar à Rússia, selou a sua condenação à pena capital. Detido, à margem de todas as regras civilizacionais. Torturado. Condenado a 19 anos de cárcere por delito de opinião. Tratado como lixo humano, partilhando cárcere com violadores e pedófilos. Empurrado para uma das cloacas do planeta, um local com 45 graus negativos para onde o czarismo e o estalinismo desterravam milhares de presos políticos. 

Assassinado pela ditadura putinista, apostada em ressuscitar Estaline – desde logo no implacável esmagamento e destruição de quem se atreve a confrontá-la.

A mesma ditadura que conta com públicos e notórios apoiantes em Portugal – tão repugnantes como ela. Alguns, daqui a dois meses, andarão de cravo ao peito e punho no ar, celebrando o 25 de Abril. Enquanto aplaudem a censura russa, os bufos russos, a PIDE russa, o tirano russo, os crimes políticos do totalitarismo russo. Com inaceitável e vergonhosa duplicidade moral.

 

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Comunistas russos veneram o busto de Estaline em Moscovo

Gritam «Alá é grande» e matam


Pedro Correia,

 

Sexta-feira, 13 de Outubro:

Professor de 57 anos assassinado à facada em Arras, no norte de França, na escola onde leccionava. O assassino, um muçulmano de 20 anos, também feriu dois alunos. Enquanto cometia os crimes gritava «Alá é grande!».

 

Segunda-feira, 16 de Outubro:

Pelo menos duas pessoas foram assassinadas a tiro ao fim da tarde em Bruxelas. O atentado, que também provocou feridos, foi cometido por um muçulmano que gritou «Alá é grande!» antes de se pôr em fuga.

Vítimas, assassinos e jornalismo


Cristina Torrão,

Através do facebook, tive conhecimento de uma news-letter de Bárbara Reis, no Público, no passado dia 29. Dizia ela:

Li há anos, num ensaio sobre como os media devem noticiar os assassínios em massa, que uma técnica simples a usar – e o jornalismo é sobretudo técnica – é falar o mínimo sobre o assassino e o máximo sobre a vítima.

(…)

Os defensores desta técnica pedem para os media não publicarem sequer o nome do assassino, muito menos a sua fotografia. Por contraste, dizem que devemos falar sobre as vítimas, contar as suas histórias, prestar-lhes homenagem, celebrarmos as suas vidas.

Isto vem, claro, a propósito do ataque no Centro Ismaili, em Lisboa, no passado dia 28.

À primeira vista, esta parece ser a técnica ideal. Sabemos como o destaque dado, pela comunicação social, a assassinos deste tipo, causa fascínio em certas pessoas. Tanto fascínio, que o perigo de imitação é real, já por várias vezes aconteceu.

Por outro lado, não devemos aceitar a alternativa de ânimo leve. Pergunto-me quanto destaque dado às vítimas será legítimo. Contar as suas histórias? Muitos dos familiares não desejam ver as vidas dos parentes mortos devassadas. Causa-me bastante impressão os jornalistas irem pesquisar sobre as vítimas e publicarem os resultados, sem autorização dos familiares mais próximos. Ao mesmo tempo, pedir a autorização, num momento de luto pesado, não é sustentável, do ponto de vista ético. Pais e mães que acabam de perder um filho ou uma filha, por exemplo, não estão em condições de lidar com o assédio de jornalistas, tendo de decidir o que deve ser, ou não, publicado. Tenhamos em mente que o facto de se ser vítima de um crime hediondo não faz de ninguém santo, tão-pouco cidadão exemplar. Todos nós temos aspectos da nossa vida que não gostaríamos de ver expostos publicamente.

E como agir em casos de assassinatos em massa, como o foi o da Noruega, há vários anos, no qual foram mortas setenta e sete pessoas (e feridas 319) em Oslo e em Utøya? Contar as histórias de todas as vítimas tornar-se-ia fastidioso, o que acabaria por ter o efeito contrário, ou seja, causaria a indiferença do público. (A propósito deste caso, é interessante verificar que, na sua news-letter, Bárbara Reis, defensora desta técnica de nem sequer se publicar o nome do assassino, acaba por o fazer em relação ao norueguês).

Trata-se de uma questão polémica, quanto a mim, sem solução fácil. É verdade que não se devia dar tanto destaque aos assassinos, tornando-os famosos e aliciando mentes mais frágeis. Contudo, das vítimas, a meu ver, basta saber o nome, a idade e a profissão. Mais do que isso, só mesmo por iniciativa dos parentes próximos. Há quem goste de contar as histórias dos seus mortos (contra o qual nada tenho a apontar, pois pode ajudar no luto). Mas isso não se aplica a toda a gente. E, quando acontece, costuma ser mais tarde, não no momento do choque.

Maior massacre em Angola foi há 45 anos


Pedro Correia,

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Faz hoje 45 anos, iniciava-se uma das maiores atrocidades jamais ocorridas na África lusófona. Barbaridade que as narrativas dominantes tudo fazem para ocultar, como se nunca tivesse acontecido. O chamado “golpe do 27 de Maio”, nunca devidamente esclarecido, que vitimou parte da jovem elite do Movimento Popular para a Libertação de Angola – o partido que se tem perpetuado no poder em Luanda desde a independência, em Novembro de 1975.

Nessa data e nas semanas imediatas, milhares de militantes foram chacinados. Historiadores independentes e organizações de direitos humanos calculam em 30 mil o número mínimo de vítimas provocadas pelo esmagamento de uma suposta rebelião contra Agostinho Neto, selvaticamente reprimida pelas forças cubanas que serviam de guarda pretoriana ao ditador marxista-leninista e pela DISA, a sinistra polícia política que fazia do homicídio extrajudicial prática corrente.

A violenta repressão dos «fraccionistas», como eram apelidados no jargão do poder da época, pode ter causado um total de 70 mil mortos. Prolongou-se por dois anos envolvendo torturas, deportações forçadas para campos de concentração e fuzilamentos sem julgamento. Com Neto a dar rédea livre aos esbirros da DISA quando proclamou: «Certamente não vamos perder muito tempo com julgamentos. Nós vamos ditar uma sentença.»

 

Famílias inteiras desapareceram e os corpos, atirados para valas comuns, nunca foram recuperados. Incluindo o de Bernardo Alves Baptista, conhecido por Nito Alves, que a 25 de Abril de 1974 era comandante militar do MPLA na estratégica região dos Dembos e fora ministro do Interior desde a independência até Outubro de 1976. E também de José Jacinto Van Dunem e Sita Valles, pais de um bebé de três meses que viria a ser criado pela tia Francisca, futura ministra da Justiça em Portugal.

«Amarrem-nos onde forem encontrados: Nito Alves, José Van Dunem, Bakalof, Pedro Fortunato, Betino»; «Todos os fraccionistas pagarão pelos seus crimes», gritava em títulos garrafais o repugnante Jornal de Angola, fiel serventuário do regime, na edição de 31 de Maio. A 18 de Maio, em comunicado, o MPLA concluíra, num macabro aviso para o que se passaria dias depois: «Todas as organizações se depuram.»

A purga, como também lhe chamaram, incluiu matanças a sangue-frio nos cárceres e em locais como a praia das Palmeirinhas. Os mais afortunados – incluindo o actual ministro português da Economia, António Costa Silva, foram apenas vítimas de simulação de fuzilamentos.

Grande parte dos mortos não tinha sequer vínculo ao MPLA: foram apanhados no local errado e à hora errada, a pretexto da “purificação” do partido governamental, como sublinhou a Amnistia Internacional em vários relatórios.

Só em 2021 o Presidente da República, João Lourenço, pediu desculpa em nome do Estado angolano aos familiares dos assassinados, prometendo toda a colaboração das autoridades para a exumação dos cadáveres, a identificação dos restos mortais por equipas forenses e a emissão das respectivas certidões de óbito. Então com apenas 20 anos, a sua mulher, Ana Dias Lourenço, foi uma das militantes aprisionadas na sequência do 27 de Maio. 

 

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Apesar do louvável pedido de desculpas, falta fazer quase tudo. Falta, desde logo, criar uma Comissão de Verdade para que o massacre não caia no esquecimento colectivo ditado por conveniências muito selectivas. As mesmas que ainda idolatram Agostinho Neto como poeta, virtuoso humanista e «libertador» do seu povo.

A 21 de Maio de 1977, seis dias antes de esmagar os opositores, o ditador incentivou a população a «fazer um combate contra todos os fraccionistas que encontrarmos no caminho». Espécie de senha para o que logo se seguiu.

Mesmo que nenhum dos torcionários venha a pagar pela participação nestes homicídios, a memória não prescreve. Há que pôr fim à desinformação, à autocensura e aos silêncios, como alerta a Associação 27 de Maio. Há que repetir, uma vez e outra, que isto aconteceu. Uma nódoa inapagável na história do MPLA e da Angola pós-colonial.

 

ADENDA de 28 de Maio: um leitor chamou-me a atenção para este documentário realizado por Margarida Cardoso e exibido há dois dias na RTP 2: Sita – a Vida e o Tempo de Sita Valles. Vi-o na noite de ontem. Verdadeiro serviço público.

Como perverter a Liberdade em demasiados actos


Maria Dulce Fernandes,

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A perversão da Segunda Emenda

Virgínia Tech University

Columbine Highschool

Clevland Elementary School

Marjory Stoneman Douglas High School

Thurston Highschool

Sandy Hook Elementary School 

Northern Illinois University

Santa Fe High School 

Califórnia University 

Robb Elementary School 

 

De entre centenas de tiroteios por ano que são notícia nos Estados Unidos, grande percentagem acontece em escolas e universidades. Em 2021, registaram-se 61 incidentes com armas de fogo, tendo os tiroteios causado 103 mortos e 140 feridos. Estes números referem-se a mass shootings, como os acima referidos.

Enquanto os lobbies das armas de fogo continuarem a lucrar milhões, as crianças assassinadas serão apenas apontamentos colaterais na tabela de vendas.

https://sicnoticias.pt/mundo/pelo-menos-14-criancas-mortas-em-tiroteio-numa-escola-primaria-no-texas-eua/

(Foto Google )

Prisões


jpt,

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Leio no Facebook várias pessoas – e até “doutores”, “altos quadros” como se dizia – lamentando o destino de Rendeiro mas alinhavando que o homem pagou assim os seus crimes. Que gente hedionda, uns com Cristo na boca e nas teclas, outros sem o tal Cristo. Mas todos demoníacos. Pois Rendeiro terá sido trapaceiro, fraudulento. E decerto que arrogante e descuidado – ao sabê-lo preso em Durban logo me perguntei, sem saber dos trâmites que se seguiriam, e até julgando que seriam rápidos, “o que é que passou na cabeça ao mariola para se arriscar a ser prisioneiro na África do Sul?”. Enfim, um criminoso antipático, sem sequer pitada de romantização possível, daquela com que tantos outros são aspergidos. Agora considerar que é expiação um velho enforcar-se – porventura porque “não aguento mais!” ou, e espero bem que assim fosse, um apenas “que se foda!” – depois de seis meses de inferno concentracionário?

 

Entretanto e porque já me cheira ao choradinho de que lá nas Áfricas as prisões são horríveis – e, grosso modo, são-no – quais as “selvas” dos “selvagens” que antes se diziam, recordo os dados a estes deslizes da ignorância o que se passa na pérfida Albion: o (meu) grande Boris Becker, ídolo da juventude, está preso por uma falência fraudulenta, mais um desportista campeão arruinado. Encarcerado numa prisão de Londres, onde penou Oscar Wilde, e que segue em regime qual romance de Dickens.

 

Os prisioneiros são todos iguais: nenhum deles expia crimes suicidando-se. E nenhum deles merece prisões execráveis. Das quais os “doutores” (de Cristo ou sem Cristo) só se lembram quando há um preso “notável”.

A barbárie está no meio de nós


Pedro Correia,

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O Mal existe. Tem nome e rosto. Tem identidade própria. Tem alegadas «motivações», propaladas aos quatro ventos através da caixa de ressonância dos órgãos de informação. Tem até defensores – uns por razões políticas, porque interessa «destruir o sistema», outros simplesmente porque sim.

Não faltam aqueles que procuram negar a existência do Mal. Desde logo por crerem na bondade intrínseca à natureza humana: essas excelentes almas acreditam convictamente que não há rapazes maus. Ou por negarem validade às estruturas axiológicas: esses são os que argumentam pela irrelevância das fronteiras entre o Bem e o Mal, sobretudo porque as imaginam sempre contaminadas de conteúdo religioso. Sem repararem que tantas vezes, ao difundirem tal crença, assumem com frequência um fervor simétrico ao dos mais ortodoxos fiéis de uma determinada igreja.

E no entanto o Mal existe. Podemos vislumbrá-lo em múltiplas erupções quotidianas. No indivíduo que pela calada da noite, há poucos anos, punha uma bomba no carro de um autarca basco e encolhia indiferentemente os ombros quando a explosão desse veículo matava crianças que ignoravam o significado da palavra nacionalismo, considerando-as «danos colaterais» – o homicídio mais aleatório elevado à categoria de instrumento de acção política. O monstro de sorriso gélido que planeou friamente a execução sumária de algumas dezenas de adolescentes num acampamento de férias na Noruega e acabou classificado de inimputável por um colégio de psiquiatras. O fanático anti-semita que transforma o ódio étnico, cultural ou religioso em senha de identidade à margem de todos os considerandos de ordem moral, convertendo o massacre de seres humanos numa espécie de mandamento ditado pelo sectarismo mais irracional.

Foi preciso correr o sangue de inocentes para também a França republicana e laica reparar que albergava a semente do Mal no seu seio iluminista com atentados como o de 2016 em Nice ou o massacre na redacção do Charlie Hebdo.

 

Não adianta proclamar, como fazem saudosos discípulos de Sartre, que o inferno são os outros. Não tenhamos ilusões: a barbárie está no meio de nós. E ganha terreno quando tentamos justificá-la com indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas. Como se os fins justificassem todos os meios. Como se houvesse equivalência moral entre carrascos e vítimas. Não há, em absoluto: a tragédia na Ucrânia bem o demonstra.

«Observar um crime em silêncio é cometê-lo», ensinou-nos José Martí. Nada mais certo. Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem «compreendê-la». Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença. Enquanto os cadáveres se amontoam e mastigamos qualquer coisa à hora do telejornal.

 

Imagem: O Massacre dos Inocentes (1609-11), de Rubens

Uma carnificina é um «incidente»


Pedro Correia,

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«Eu não tenho elementos suficientes para corroborar [acusações de crimes de guerra praticados por militares russos contra civis ucranianos]. Poderão (sic) haver, mas de ambas as partes. Temos que analisar estas questões com muita cautela, com extremo cuidado, porque podemos cair nalguns engodos. Existem coisas que se chamam operações psicológicas, informações de operações… há que ter sempre muita cautela.»

 

«Reparei que algumas pessoas que estavam no chão tinham uma faixa branca no braço. Essa faixa branca era utilizada pelos civis de Butcha que eram pró-russos ou coniventes com os russos e são esses indivíduos que estão no chão. Eu tenho algumas dúvidas sobre a razoabilidade dos russos matarem os indivíduos que estavam com eles.»

 

«A situação é extremamente sensível e precisa de ser analisada de forma extremamente profissional, neutral e com moderação. E fora de grandes ansiedades e de grandes excitações, de paixões. Tem de ser analisado por profissionais tecnicamente habilitados para o fazer.»

 

«Temos de ver a credibilidade dessas testemunhas. Isto é uma coisa extremamente sensível, extremamente complicada. Estamos a jogar não só no domínio das emoções como no domínio das percepções, no domínio comunicacional. Por isso aconselho muita ponderação, muita moderação, quando somos confrontados com este tipo de incidentes.»

 

Declarações do major-general Carlos Branco, apresentado como «especialista em temas militares da CNNP», neste canal televisivo (3 de Abril de 2022)

 

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Leitura complementar:

El PaísLa matanza de Bucha muestra la barbarie de la guerra de Putin

The GuardianThe bodies of Bucha have set a difficult test for the west

Libération — Guerre en Ukraine: Boutcha, ville meurtrie et jonchée de cadavres après le retrait russe

O assassinato nunca prescreve (2)


Cristina Torrão,

Servindo-me de um policial, já aqui tinha referido a importância de não haver prescrição, em caso de assassinato, aproveitando as técnicas hoje possíveis. Desta vez, não se trata de ficção.

Um homem foi detido e acusado hoje pelos assassínios da mulher e filha, que também foi violada, ambas encontradas mortas e degoladas em 1993 perto de Grenoble, no sudeste de França.

Vinte e oito anos depois faz-se justiça. Em Portugal, isto seria possível? O facto de o suspeito ter já 72 anos é-me indiferente. Até podia ter noventa! Crimes destes não podem ficar impunes. Não sou a favor da pena de morte, nem da castração química. Mas encontrar um assassino e responsabilizá-lo é essencial.

A glamorização dos assassinos


Pedro Correia,

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Se há coisa que me repugna, entre os péssimos hábitos que começam a instalar-se na indústria mediática portuguesa, é a glamorização dos assassinos. 

Não há crime mais repugnante e hediondo sem que os protagonistas mereçam todos os holofotes jornalísticos, com ampla revelação dos seus nomes e rostos. Agora tornou-se moda picar fotografias nas redes sociais – e eis, portanto, as imagens de duas mulheres que assassinaram um homem, desmembraram o corpo e andaram a espalhar pedaços do cadáver por todo o Algarve difundidas com poses suaves e requintadas. Imitando actrizes de cinema, imortalizadas em jornais e televisões.

Mulheres, repito. Mas nas notícias recebem tratamento adocicado: chamam-lhes “jovens” enquanto repetem uma vez e outra os nomes, como se fosse gente íntima cá da casa. Algumas notícias emprestam até uma aura romântica à coisa, sublinhando que as criminosas andavam muito apaixonadas. Possuídas pelo fogo que arde sem se ver.

 

Um youtuber que “espanca namorada até à morte em directo por dinheiro” vê a sua foto estampada nos jornais, com nome associado. Foto de rede social, não da polícia: tem ares de artista em voga, não faltará quem o ache simpático. É “jovem” também, sublinham as notícias. Matar a namorada em directo talvez seja um inócuo pecadilho de juventude. E ela – sabe-se lá – pôs a jeito…

Um dia destes o assassino vai ao “confesso-me”, num programa de telelixo qualquer, e obtém absolvição do respeitável público ali reunido. Também em directo. 

E siga o baile: este espectáculo alimenta-se de sessões contínuas.

O assassinato nunca prescreve (“Mord verjährt nie”)


Cristina Torrão,

Prescrição de assassinato (1).jpg

No passado dia 17 de Abril, o canal alemão ZDF transmitiu um policial sobre a tentativa de resolução de um assassinato acontecido há trinta anos (“30 Jahre”, no texto em baixo).

 

Prescrição de Assassinato (2).jpg

Tratava-se de um telefilme, mas, na Alemanha, investigações deste tipo não são ficcionais. O assassinato nunca prescreve. Sobretudo, quando existem meios de identificar um assassino, mesmo passada uma eternidade sobre o crime (como a descodificação do ADN). Já em Portugal, não se investiga um assassinato que tenha ocorrido há quinze anos ou mais. Porque, se os crimes não prescrevem, a possibilidade de instauração ou continuação de um processo penal ou ainda, noutros casos, a execução da sanção aplicada, prescrevem.

 

Vem isto a propósito de mais um policial de Mario Lima, o pseudónimo de um escritor alemão que vive em Portugal e do qual já aqui falei. Neste seu terceiro livro, cujo título Die Mauern von Porto é um pouco difícil de traduzir (talvez “Emparedadas no Porto”), ele ocupa-se precisamente com a prescrição de um assassinato.

 

Die Mauern von Porto.jpeg

Um incêndio num prédio do Bairro da Sé, mais precisamente, na Rua da Bainharia, provoca estragos numa casa ao lado, vazia há várias décadas. Bombeiros e polícia penetram na casa, a fim de melhor avaliarem os estragos e, na mansarda, deparam com uma parede que, tudo indica, foi levantada à pressa e não tem qualquer passagem para o resto da divisão. Resolve-se mandar deitar a parede abaixo e surgem dois esqueletos, um deles ainda com restos de roupa.

 

A PJ é accionada e os exames de peritagem revelam tratar-se dos restos mortais de duas mulheres, mais precisamente, de uma adulta e de uma jovem de treze ou catorze anos. Porém, quando a equipa do inspector Fonseca se prepara para investigar o caso, a peritagem revela ainda que, apesar de os restos mortais indiciarem morte violenta, o crime terá acontecido há cerca de vinte anos. É um duro golpe, principalmente, para as duas investigadoras da equipa, que logo suspeitam que se trataria de mãe e filha e são firmes no pressuposto de que a culpa nunca prescreve.

 

Nunca me tinha ocupado do assunto e confesso que não sabia que um assassinato prescreve ao fim de quinze anos. O que são quinze anos? Nada! Neste livro, através de uma agente que é inserida na equipa do inspector Fonseca depois de ter trabalhado no departamento de combate à corrupção, o autor aflora ainda a prescrição de crimes de corrupção, alguns já ao fim de dois anos, assim como o enriquecimento ilícito de pessoas à frente de uma Fundação. E não é esquecido o facto de estas leis favorecerem os poderosos e os ricos, que, além de terem influência, estão em condições de contratarem advogados capazes de protelarem a investigação, até que os crimes prescrevam. Como se vê, Mario Lima aborda um tema bem actual. Já por isso, se aconselha a tradução deste seu livro.

 

A equipa do inspector Fonseca vai ser dada enfim a possibilidade de encontrar o culpado, pois um crime perpetrado há um tempo não tão longo assim despoleta acontecimentos fatais. O assassino fica nervoso com a descoberta dos esqueletos das suas vítimas. E há quem ainda não tenha digerido o desaparecimento de duas familiares, embora lhe tenha sido dada uma explicação plausível para a ausência delas. Porém, há sempre dúvidas que não se esclarecem, causando discussões, chantagens. E, numa hora de aperto, um assassino bem pode cometer novo crime…

 

Excelente policial de Mario Lima, que criou uma bela equipa de investigadores da PJ e que, como de costume, descreve na perfeição a atmosfera da cidade do Porto.

 

 

Adenda: o post estava programado há alguns dias e soube hoje, dia 30/04, que o ZDF vai transmitir um documentário, às 00:30 horas, sobre novas técnicas de investigação criminal, apresentando o exemplo de um especialista em ADN que ajudou a localizar o assassino de um rapazinho desaparecido em 1996.

Os méritos da comunicação social


João Pedro Pimenta,

Tenho lido por aí que só agora é que a comunicação social tem dado atenção ao caso Homenyuk, que durante nove meses não se ouviu nada, etc, etc. Lê-se isso nas redes sociais mas também de outras paragens inesperadas, como alguns jornalistas em guerra autofágica contra a própria classe. Nada mais injusto, nesta ocasião.

Pegando nas palavras de um dos responsáveis do que sucedeu, houve quem não ouvisse nada. Porque desde fins de Março que se conhecia o casos e os seus contornos, que se sabia que algo de muito errado se tinha passado com o ucraniano e os agentes do SEF, e tudo isto porque a comunicação social o divulgou. Se o caso não teve mais repercussões é porque as pessoas até agora tinham ligado pouco.

Em lugar de bater sempre na imprensa, que tantas vezes e ao contrário do que se passou agora não cumpre as suas funções, seria bom pensar que talvez as redes sociais não sejam assim tão informativas ou eficazes. Afinal de contas, soube-se disto em fins de Março, quando a pandemia tinha repentinamente surgido e estava tudo em casa. Lembro-me aliás de ter sido o primeiro caso que não o covid-19 a abrir os noticiários em muitos dias. E não foram com certeza os “jornalistas” de smartphone que divulgaram a situação. Algumas pessoas ligaram mais, de certa forma para se libertar do totalitarismo informativo covidiano, mas outras pouco terão ligado. Até agora, quando a viúva do pobre Homenyuk disse “odiar Portugal”(e poderemos nós censurá-la, por muito que nos custe?). Através da comunicação social, claro.

Por isso, culpe-se o SEF, a ANA, o governo que só agora é que resolveu dar uma compensação à família, o ministro Cabrita, o presidente ou outros, mas deixem de se atirar à comunicação social. Há imensas razões e oportunidades para criticá-la. Eu próprio já o fiz, aqui no Delito. Mas ao menos, e ao contrário do que acontece com inumeras páginas manhosas da net, que atraem sempre alguns discípulos hipnotizados, os artigos vêm sempre assinados e podemos saber quem foram os seus autores. Aqui é manifestamente injusto que assaquem as culpas à CS, porque é graças a esta que sabemos os contornos do caso.