CR7 e o seu abandono da Selecção Nacional


Paulo Sousa,

Há poucos dias atrás falei aqui sobre o facto de Ronaldo, aos 41 anos, continuar a ser convocado para a Selecção Nacional.

Depois disso, foram vários os desenvolvimentos e, conforme o Pedro Correia já aqui registou, tornou-se impossível não se ter conhecimento deles. Por não ter entrado no jogo com a Noruega e após as declarações de Jorge Jesus, CR7, o capitão de equipa, falhou o treino e abandonou o estágio no seu avião particular.

As conversas de café vivem de assuntos deste calibre e até o Primeiro Ministro já mergulhou na panela mediática. As redes sociais, sempre ao rubro, foram assim injectadas com o nitro que nos jogos de vídeo transformam os carros de Fórmula 1 em aviões e existe sempre imaginação para mais uns lotes de mêmes e piadólas.

Tornar pública a minha reflexão sobre tudo isto não irá resolver coisa nenhuma, mas, enquanto direito que me assiste, avanço com ela.

Estrelas altamente mediáticas, como é o caso de Cristiano Ronaldo, são uma mistura do indivíduo, que tal como cada um de nós é enfermo das suas humanidades, com um objecto de marketing especializado em angariar visualizações, sem que existam fronteiras nesta mistura. A marca global confunde-se com a pessoa e é assim que se cria uma entidade compósita. Imagino que para o próprio seja difícil distinguir estas duas naturezas e isso terá implicações até na ideia que fará de si próprio.

Enquanto adepto pouco praticante do futebol, vergo-me ao profissionalismo, à ambição e aos resultados alcançados por Cristiano Ronaldo na sua carreira. As suas origens humildes, que não esconde, reforçam esta minha opinião. Tem talento sim senhor, mas jogadores talentosos há muitos e nenhum outro da sua geração o ultrapassa na capacidade de entrega.

E foi perante toda esta combinação de características que aqui lamentei a sua incapacidade em entender que está na hora de se retirar. O momento adequado teria sido após o Mundial, eventualmente no jogo com o País de Gales no Estádio de Alvalade, de onde partiu para o mundo. Ninguém lhe iria negar muitíssimos aplausos de pé, aos quais eu me juntaria e com empenho. Ele acenaria para as bancadas, em lágrimas, como se exige a um veículo de marketing especializado em vender emoções. No dia seguinte iria amanhecer de novo, a imprensa internacional teria assunto para as suas capas, o algoritmo estaria em brasa e ele poderia ir fazer o que quisesse, nem que fosse regressar à Arábia para sacar mais uns milhões e, entretanto, lá marcar o milésimo golo.

Tudo isto seria bastante provável, mas para pessoas com características diferentes das dele. Como disse acima, a combinação de características não tem fronteiras e poucos são os que conseguem ser Álvaro de Campos de manhã, Ricardo Reis depois do almoço e Alberto Caeiro à noite. Tal e qual como as boas personagens de um romance, Ronaldo é excessivo e contraditório e é por isso que não se consegue ser indiferente a ele e eu estou para aqui a debitar teorias.

De monotema em monotema


Pedro Correia,

 

Inacreditável. Horas e horas nisto. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da selecção portuguesa de futebol e durante um dia inteiro ninguém fala noutro assunto em Portugal. O mesmo país onde há duas semanas só se falava em Luís Neves, igualmente em exclusivo.

Esquizofrenia jornalística e comentarística. De monotema em monotema.

Palminhas, palminhas…


Paulo Sousa,

A fadista Amália Rodrigues faz parte da identidade nacional. Não irei aqui elaborar sobre a sua carreira nem sobre a forma como, na sua voz, transportou o fado por todo o mundo, mas todos sabemos que, depois dela, qualquer pessoa no planeta com o mínimo de cultura geral associa este género musical a Portugal. Tornar-se num símbolo nacional não é coisa pouca e, recordo-me de como achei embaraçoso vê-la a cantar (seria exagerado dizer: ouvi-la) até a uma idade tão avançada. Quem, como eu, só a conheceu já no crepúsculo da sua vida, teve de ir à procura das gravações antigas para entender e então vergar-se à sua grandeza.

Veio-me isto à ideia depois de saber que o Ronaldo foi convocado por Jorge Jesus para os próximos jogos da Selecção. Não precisava de ser uma Greta Garbo, mas também não havia necessidade de nos forçar a assistir a um atleta a arrastar-se pelos relvados em fase de negação.

Em memória do colega falecido


Pedro Correia,

Ao contrário do que alguns pensam, futebol não é só bola. É muito mais do que isso – incluindo a expressão de sentimentos nobres. Começando pela gratidão.

Foi inesquecível a madrugada de hoje em Toronto, que mais parecia cidade portuguesa, mal terminou o jogo Portugal-Croácia. Com milhares nas ruas celebrando um saboroso triunfo por 2-1 (golos de Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos) que transporta a equipa das quinas aos oitavos-de-final do Campeonato do Mundo.

Agora vamos defrontar Espanha. Já na segunda-feira, em Dallas, a partir das 20 horas. Alguns – os derrotistas de sempre – antecipam que se trata de missão quase impossível. Esquecendo que nos últimos 15 anos as duas selecções se enfrentaram oito vezes, com este saldo: seis empates, uma vitória espanhola e outra nossa. Nada que deva atemorizar seja quem for. Sabendo-se que no mais recente embate, há um ano, a vitória sorriu-nos em momento crucial: na final da Liga das Nações. Os tais derrotistas, sempre prontos a antever desaires, lá tiveram de engolir essa.

Mas porque falo em gratidão? Hoje os jogadores portugueses dedicaram a difícil vitória contra os croatas a um colega e amigo que morreu a 3 de Julho de 2025, com apenas 28 anos, em trágico desastre de automóvel. Diogo Jota, esse elemento nuclear da selecção portuguesa, não foi esquecido. Cristiano Ronaldo fez até questão de vestir a camisola n.º 21, que o malogrado futebolista costumava usar. Sem reprimir as lágrimas, pois um homem também chora.

Foi o momento mais bonito desta festa portuguesa no Canadá.

O ódio ao sucesso alheio


Pedro Correia,


Os mesmos que diziam que ele estava paralítico e parecia uma estátua agora gritam até à rouquidão com os dois golos que acaba de marcar no Mundial, na goleada (5-0) frente aos usbeques em Houston.

Cristiano Ronaldo surge hoje nas manchetes da imprensa de todo o globo. Por excelentes motivos: é o primeiro futebolista a marcar em seis campeonatos do mundo, tornou-se o maior artilheiro português de sempre na única competição da modalidade à escala planetária. E é o segundo goleador mais velho a metê-la lá dentro em mundiais.

Enfim, nada de novo. O ódio ao sucesso alheio, sobretudo se for de um compatriota, é mais antigo do que o Condado Portucalense.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Triste figura, a de Ronaldo. Ombrear com um traste medíocre e falso e com um ditador que não hesita em ordenar a execução daqueles que não lhe prestam vassalagem – líder de um país que trata as mulheres abaixo de camelo, confesso de uma religião castrante e fundamentalista. O cartão vermelho a Ronaldo foi duplo. Um grande atleta, um benfeitor em muitos aspectos, mas nesta cerimónia na Casa Branca representou apenas os interesses dele, não os portugueses com vergonha na cara.»

 

Do nosso leitor João Guimarães. A propósito deste meu texto.

Cristiano Ronaldo e a magia do futebol


Pedro Correia,

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O futebol faz mover paixões e lega-nos memórias inesquecíveis devido à sua imparável força icónica. Pensei nisto ao ver anteontem Cristiano Ronaldo marcar o golo oficial número 900 da sua longuíssima carreira como futebolista profissional. Foi no estádio da Luz, correspondendo da melhor maneira a um soberbo cruzamento de Nuno Mendes. Em posição frontal, sem deixar a bola tocar no chão.

Aconteceu aos 34 minutos do Portugal-Croácia, jogo inaugural da Liga das Nações que vencemos por 2-1. O primeiro havia sido marcado por Dalot logo aos 7′, portanto aquele golo do melhor jogador do mundo revelou-se decisivo contra a excelente selecção croata, onde pontifica outro jogador fantástico: Luka Modric, que depois de amanhã festeja 39 anos – os mesmos que Ronaldo já tem.

Ao contrário do que se esperava, CR7 não celebrou o quase mítico n.º 900 – e o n.º 131 ao serviço da selecção nacional – com aquele seu salto que muitos tentam imitar nos relvados ou fora deles. Dirigiu-se a um dos cantos e ajoelhou. Como em prece de agradecimento por ter sido tão fadado com o dom do golo.

Permaneceu assim longos segundos, como se alheado da multidão que o ovacionava, até Bruno Fernandes ir ter com ele, fazendo sinal para que se levantasse. Então lá vimos o Ronaldo a que nos habituámos. Já quase quarentão mas exibindo ainda sorriso de criança cada vez que marca mais um golo. Como fazia em miúdo, quando jogava à bola na rua.

Querem um exemplo da magia do futebol? Pois é este mesmo.

 

Publicado originalmente aqui.

A ralé britânica


jpt,

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A BBC, que não é um tablóide mas sim a estação pública da pérfida Albion, esse decrépito e abjecto antigo império de onde vem essa ralé turística, tatuada e bêbeda, decidiu-se gozar com o grande atleta e nosso ídolo CR7, chamando-lhe “Misstiano Penaldo”. Abandalhar um atleta numa falha é uma vergonha. Sendo uma estação de serviço público é miserável.

 

Isto é mesmo o exemplo da célebre “fleuma britânica”. Ou seja, da arrogância daqueles imundos bárbaros, que nem os romanos conseguiram civilizar. Seria bom, desejável, que pelo menos durante dois ou três dias a escumalha britânica que por cá anda em veraneio não fosse servida em bares e restaurantes. Que fossem confinados aos kebabs e quejandos que por cá pululam. E que a razão para tal lhes fosse explicada, naquele profundo e singelo “Fuck off”. E isso serviria para nos mostrar – até fazer – menos servis. Até porque “contra os bretões marchar, marchar,” sempre!

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A inveja é mesmo o mais rasteiro, o mais ranhoso dos sentimentos. A imagem mais comovente que guardo de Ronaldo é a de um rapazinho tímido, a entrar sozinho no enorme autocarro que o levaria de volta ao centro de treinos, creio eu, depois de um jogo da selecção para o campeonato da Europa, se não estou em erro, em que se entrevira já o talento que era seu. E onde estavam os outros, que tinham vindo com ele? Era madeirense, possivelmente viera sem família, os outros tinham ido para as suas casas, voltariam no dia seguinte, disse o meu marido.

Desde aí segui Ronaldo, e a mim, que nem costumo ver futebol, quantas alegrias me deu, a que verdadeiras obras de arte sublimemente efémeras assistimos em quase todas as suas exibições. Além do mais, um exemplo, num tempo em que o trabalho e a persistência parecem ter deixado de ter lugar e, a existirem, não andam bem considerados. O talento é uma coisa, o génio outra, mas sem muito trabalho o talento morre como rosa sem ser regada.

Ronaldo é genial, mas fez muito por si a partir de quase nada, só que o nada era esse talento imenso de que incansavelmente se ocupou. Por mim, tenho orgulho em que ele seja português, conto que continue a sê-lo, e espero que por muito tempo nos continue a dar alegrias como tem dado, desta ou de outras formas – no futebol há muitas casas e ele saberá reinventar-se.

Tem defeitos, mesmo na sua imagem pública? Decerto que tem, mas subam ao Olimpo e vejam os terríveis, crudelíssimos defeitos dos deuses que por ali moram. Cristiano vive por lá, mas é apenas um homem, para sossego nosso. Quando de lá desce, não será um santo… E que santos somos nós?

É afinal um homem do tempo e do mundo em que vivemos, das suas circunstâncias, e há indícios de ser boa pessoa… Quanto ao resto, à mesquinhez não se liga, pois mina tudo à sua volta. E quanto à inveja, diz o povo que nem o invejoso medrou nem quem ao seu lado morou.

Viva Cristiano Ronaldo! Deus o abençoe.

 

PS – Para que saibam, se quiserem saber:

Nunca vi o Cristiano Ronaldo, vejo futebol na televisão só quando o Sporting joga com o Benfica ou quando há jogos da selecção, nunca leio nada sobre futebol, escrever então… enfim, hoje deu-me para isto.»

 

Da nossa leitora Margarida Palma. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes

(Após) Portugal-Turquia


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Repito a ligação para esta minha historieta, com mais de uma década (gosto tanto dela que a agreguei ao meu “Torna-Viagem“, o livrinho que impingi aos amigos e conhecidos), uma conversa com uma polícia de trânsito sul-africano sobre Cristiano Ronaldo.

 

Passou a tal década (ou mais). Cristiano Ronaldo é o maior atleta da história portuguesa. Um símbolo, admirado por muitos de nós. E também mundo afora, polícias do Mpumalanga e outros – como a menina que ontem se perfilava diante dele durante os hinos, com as mãos na cara tamanha a emoção espantada, tocando-lhe para ver se ele era real, ou o petiz (malandrete), que aos 10 anos se escapou campo adentro para tirar uma fotografia com ele.

 

Mas CR7 é também um barómetro, mede o cretinismo nacional. Pois desde há décadas que é perene a raiva contra ele, as críticas constantes, a vir ao de cima a maldita inveja lusa contra o sucesso (se obtido “lá fora” então é pior). O que vem muito do mais rasteiro do clubismo, alguns, apesar de tudo, ainda o apupam pelas origens sportinguistas – e outros, ainda mais abjectos, pelas origens humildes. (E não esqueço o povo de Guimarães, num particular de 2013, a gritar vivas a Messi apenas para o macerar, a mostrar como é escumalha o “berço da Nação”).

 

É já um veterano – a sua idade acerca-se da que tinha Lopes quando foi campeão olímpico, Livramento campeão europeu de clubes, Agostinho no cume do Alpe d’Huez, Pepe na sua lenda de central insigne. É um veterano goleador… Os cretinos, que são minoria mas vasta, continuam a bolçar que “está velho”, que “joga à mama”, que “é egoísta”, que “não joga nada”.

 

Ontem, por parvas razões, vi parte do jogo da selecção num café lisboeta. A clientela, uma mole sorvedora de caracóis, passou a tarde clamando esses impropérios, enquanto perdigotava a repugnante molhanga. Retirei-me para casa, vi um John Ford que nunca vira (“Os Cavaleiros“, com o Duke e o grande William Holden). Depois passei pelo FB, onde – apesar do “banho turco” – ainda havia básicos a repetirem impropérios contra o CR7.

 

Deitei-me, a ler o Dalton Trevisan que trouxera da Feira do Livro. Não haja dúvida, aquela desgraçada Curitiba de Trevisan é aqui mesmo.

O culto fanático a CR7


João Pedro Pimenta,

Nos últimos dias, mais precisamente no rescaldo da eliminação da Selecção Nacional aos pés de Marrocos, dir-se-ia que boa parte dos país está tomado pelos espírito das manas Aveiro. Parece que o facto de Cristiano Ronaldo não ter sido titular nos últimos dois jogos da Selecção é um crime de lesa-Deus. Da primeira (e tardia) vez que Fernando Santos o colocou no banco, chamaram ao treinador de poltrão para baixo, ingrato, traidor, falso amigo e em certos casos, como nos comentários a este post do JPT, insinuaram que tinha sido pago para o fazer. Não, não se trataram de críticas normais a opções do treinador, mas acusações de um autêntico crime, como “impedi-lo de atingir o recorde de golos de Eusébio num Mundial”. E para todos os que ousaram, já nem digo criticar CR7 pelas suas atitudes recentes, mas apenas compreender a posição de Santos, também ouvi coisas como “invejosos”, ingratos”, etc.

 

Tudo isso porque Ronaldo é “um deus”, o Maior do Mundo”, “maior que este país de invejosos que tudo lhe deve”, e que “já deu milhões a hospitais e a obras de caridade”. Isto são meros resumos de tudo o que tenho lido. Houve mais, muito mais, como compete a qualquer fanatismo que não admite réplica.

 

Não tenho a menor dúvida de que Ronaldo é um homem não só com um talento raro e um desportista inacreditável mas também uma determinação que ultrapassa o absurdo. Que há um antes e um depois de CR7 para a Selecção, a começar pela conquista do Euro 2016. Que deu muito a Portugal, incluindo beneficência. E que, com Messi, é o melhor futebolista dos anos 2010, talvez do Séc. XXI até agora.

 

Só que não é uma divindade nem maior que o país. Se deu muito a Portugal, Portugal também lhe retribuiu. Ronaldo há não sei quantos anos que não ia ao banco da Selecção e só esteve ausente uma vez A SEU EXCLUSIVO pedido. Está sempre debaixo dos holofotes da imprensa, assim como a sua família, cujos méritos desconheço. Participou em inúmeras campanhas publicitárias, certamente rentáveis. Recebeu todas as homenagens possíveis e imagináveis. E já agora, sabem de muitos casos de aeroportos ou estátuas em vida dos homenageados, para mais aos trinta e tal de idade? 

 

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CR7 tem inúmeras qualidades mas também imensos defeitos, por muito que isso custe aos fanáticos. Tem tido uma época péssima, com pouquíssimos golos, que era o que ele fazia melhor. Tem quase 38 anos. Neste momento não é de todo o “Melhor do Mundo”, nem da Europa nem sequer da Selecção. E tem tido um comportamento na equipa no mínimo dúbio, parecendo estar à parte; acima de tudo faltou ao respeito ao treinador quando saiu no jogo contra a Coreia. Se já havia razões para não o pôr a jogar, essa era a maior de todas e absolutamente inatacável. Ronaldo não pode ser um exemplo se começa com má-criações dignas de miúdos birrentos. Se Fernando Santos não o tivesse tirando do banco, aí sim, haveria razão para críticas a um treinador que não se sabia dar ao respeito. E essa opção é, ao contrário do que a histeria propalou, um sinal de coragem. Uma das poucas que Santos teve nos últimos anos. De resto, viu-se o efeito contra a Suíça, da mesma forma que nada mudou quando entrou contra Marrocos.

 

Por isso, a histeria ronaldística é totalmente injustificada. Se Ronaldo está psicologicamente em baixo por razões familiares, então é mais uma razão para não ser titular. Se é pelas suas acções de beneficência, nesse caso qualquer milionário septuagenário que dê mundos e fundos a boas obras merece ser convocado (não é muito diferente das indulgências pela salvação das almas que levaram à revolta de Lutero, pois não?). Se é para bater recordes, disso já ele tem muito e inverter-se-ia a lógica de que os jogadores devem estar ao serviço da Selecção e não esta a servir um determinado jogador. Se acham que dizer isto é ser “ingrato”, “poltrão”, “invejoso”, etc, eu devolvo: não queriam fazer as mesmas figuras dos tontos da “Igreja Maradoniana” com um culto idêntico numa qualquer “igreja cristianornaldiana”. Todos estes episódios serão esquecidos e CR7 ficará na história, mas não façam deste atleta excepcional a divindade que não é.

 

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Catar – a sociedade das ordens


jpt,

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[(Magnífico) Cartoon de Gargalo]

Tão falado tem sido o caso, verdadeiro drama nacional, que nem é necessário resumir os episódios que o vêm alimentando: é chegado o ocaso de Ronaldo, fenece irremediavelmente o maior atleta português, o mais célebre desportista mundial? Ou, de maneira mais chã e imediata, deve ele ser ainda titular nesta campanha do mundial de futebol? E, ainda mais, é ele ainda credor de algum apreço dos patrícios?

Grassa o azedume avesso ao CR7. O qual não nasceu agora – convém lembrar que ainda em 2013, já ia o homem basto titulado e na ombreira dos 30 anos, ainda era recebido por adeptos portugueses com provocações elogiando Messi. E quem ao longo aos tempos tenha lido jornais digitais bem terá visto constantes coros de invectivas patrícias contra ele (tal como contra Mourinho, um fenómeno similar). Saudando insucessos, anunciando-lhe a degenerescência, a queda iminente, apupando-lhe feitio pessoal e a família, jurando-lhe malfeitorias sexuais ou aventando práticas consideradas “desviantes”. Muito disso terá tido uma origem linear, o clubismo: formado no Sporting ele foi mal-amado e, depois  – principalmente após um grandioso hat-trick na Suécia -, apenas pouco-amado por adeptos benfiquistas, monoteístas fanáticos sempre ciosos de garantirem o lugar supremo no panteão do King Eusébio, um pouco à imagem dos velhos (e já quase todos falecidos) sportinguistas irredentistas no clamor de que Peyroteo marcava mais golos do que Eusébio… Só que estes não tinham redes sociais nem jornais digitais para verter o fel.

Mas há uma outra razão, muito mais estrutural – cultural, se se quiser – para este azedume para com Cristiano Ronaldo, o qual agora irrompe de modo desbragado. É a sua personalidade, apupada como “egocêntrica”. Nisso sendo considerada como desrespeitadora dos seus colegas de equipa e, por extensão, de todos nós, pois constitutivos da “equipa de todos nós”, a sacralizada selecção nacional.  E tantos reclamam face à inexistência de “humildade” no atleta.

Isto é interessante, pois qualquer “campeão” tem de ser egocêntrico. Só se é campeão, mestre e sábio numa actividade, através de uma dedicação afectiva e intelectual extrema: o “nerd” da informática, o “grande-mestre” de xadrez, o enorme maestro clássico, o prolífico romancista, o pintor abrasivo, etc., são indivíduos que podem ser mais ou menos simpáticos mas são aquilo a que chamamos “aéreos”, “distraídos”, vão “na sua”… Seguem ensimesmados – o que não sinónimo de enclausurados -, egocentrados. Por maioria de razão segue isso num atleta de alta (altíssima) competição, não só uma vida dedicada a uma disciplina férrea como a uma rotina total. E em que o egocentramento não é apenas uma predisposição para o devaneio imaginativo (do excelso programador informático ou do poeta esconso) mas muito mais o desvelo pelo próprio corpo – nisso assim um Ego hipercorporizado, em que uma leve cárie, o simples quisto, o comichoso calo são prementes questões sobre si-mesmo e não ligeiros incómodos dos quais tantas vezes nós, vulgo, nos abstraímos imersos nos nossos afazeres e mundanidades, dadivosos até.

Ou seja, a “humildade” do (grande) atleta (e do grande artista, do grande criador) é para consigo mesmo, existe na fidelidade às rotinas que o potenciam e possibilitam, e a sua altivez é a descrença na necessidade dessa auto-disciplina. E o “egocentrismo” é a sua condição, sine qua non, de existência – essa existência que nós tanto ansiamos, louvamos e até cantamos, berramos e abraçamos nos momentos de gáudio.

Vejo agora constantes queixas sobre a tal arrogância desmedida do CR7, sempre comparada com a humildade (generosa) dos campeões anteriores, nossos ídolos. Mas isso é tudo falso, pois os anteriores grandes campeões tiveram processos similares, principalmente os surgidos no sempre difícil ocaso das carreiras: Luís Figo, também ele um dia eleito Melhor Futebolista do Mundo, também ele já super-estrela neste mundo globalizado, em pleno estádio português durante a orgia nacionalista do Euro-2004 zangou-se por ser substituído e fugiu para os balneários (“foi rezar à Virgem Maria”, veio depois dizer o sabido Scolari, pondo àgua na fervura naquele ambiente…); Futre (eleito apenas o 2º melhor do Mundo) fez birras clamorosas no Atlético de Madrid; o agora falecido bi-bota, Fernando Gomes, protestava durante o Euro-84 estar a viver “o pior momento da carreira” por não ser titular e depois veio a entrar em conflito com o seu tão querido clube devido a ser considerado algo vetusto; António Oliveira (um génio do futebol) e Rui Jordão (outro) nem se falavam na mesma equipa, tamanho o choque de egos, para sofrimento dos sportinguistas. O Enorme Carlos Lopes, ainda que tendo sido uma criatura de Mário Moniz Pereira, teve com este profundos desaguisados após a vitória olímpica. Joaquim Agostinho, tão simbólico do povo, era uma personagem irada, e ficou célebre a birra que fez durante o Tour de France, parando durante uma etapa (dez minutos ou mais) deixando o pelotão ir embora, apenas porque não lhe deram uma Coca-Cola (o falecido Carlos Miranda contava essa e tantas outras histórias em magníficas crónicas no “A Bola”). Etc.

Enfim, os grandes campeões não podem ser “humildes” (no sentido vulgar do termo). Podem ser dadivosos, até filantropos (CR7 é-o), mas têm de ser egocentrados, extremamente ciosos de si mesmos e nisso absolutamente convictos. “Férreos” “como o aço”! E a todos custa envelhecer, pois acham que ainda têm dentro de si algo que os outros não vêem – como não viram ao longo de todos os seus trajectos. Caso contrário não são grandes campeões, serão atletas talentosos, até bem sucedidos. Mas não extra-ordinários (assim mesmo, com hífen, para sublinhar que não são pessoas normais).

Qual a razão de a tantos custar a aceitar estas características dos seus campeões – mesmo que tanto fruam dos seus sucessos, em particular os no “desporto-rei”, actual paixão nacional? Porque esta gente, estes atletas, quase sempre “vem de baixo”. Ou, alguns, agora, da “classe média remediada”. E ascendem ao topo, o das disponibilidades económicas e ao topo das propriedades simbólicas (a visibilidade é a moeda desta vertente). Transcendem as “ordens” pré-estabelecidas, as da velha sociedade tradicional. Fazem-no com estrondo. E nisso descuram demonstrar o “respeitinho”, aquele que “é muito bonito”, face ao “que deve de ser”, nesse entretanto retorcendo o chapéu entre mãos, servis diante do destino que os fez subir. Enquanto nós outros para aqui andamos, raisparta, nesta merda de vida…

Enfim, deve Cristiano Ronaldo jogar hoje? É evidente que a decisão compete ao seleccionador Fernando Santos. Sobre cujo trabalho já aqui opinei, sabiamente.

Lamento de quem admira o génio


Sérgio de Almeida Correia,

thumbs.web.sapo.io-2.webp(créditos: SAPO/Fabricce Cofrini/AFP)

A cena não é nova. De vez em quando, o tipo amua, torna-se ordinário, e comporta-se como um vulgar badameco desmerecedor do seu talento, sucesso, honras e encómios.

Confesso que não percebo porquê.

Todos temos os nosos egos. De um modo ou de outro vivemos os nossos momentos, os bons e os menos bons. Mas há alturas em que se exige a todos e a cada um de nós a superação. Não tanto enquanto desportistas ou heróis; antes como simples e discretas peças de um todo muito maior, que em cada dia nos obriga a elevarmo-nos, a procurar fazer sempre mais, a dignificarmos a nossa herança e a preparar o futuro das gerações vindouras na base do trabalho, da preserverança e do exemplo.

Vê-lo sair assim do campo, como se a festa não fosse também dele, como se não tivesse contribuído para o êxito, torna-o pequenino e distante. Como se afinal não fosse mais um de nós, um dos poucos que conseguiu elevar-se da medriocridade institucionalizada pela força do trabalho e carácter.

Os portugueses, a Nação, dispensavam estes amuos em final de carreira.

Tudo perdoamos, tudo esquecemos, e muitas vezes ignoramos o que não pode passar despercebido. Porque não somos ingratos e continuamos a acreditar. 

Certamente que não deixaremos de fazê-lo, de enaltecer os seus méritos e virtudes, porque os possui, dando-lhe toda a gratidão pelo que de bom fez e tem feito, talvez elevando-nos, algumas vezes, muito acima daquilo de que efectivamente somos merecedores. Mas depois de tudo o que dias antes aconteceu, que de tão feio deverá ser rapidamente esquecido, ao ver a atitude dos seus companheiros, sempre, que nunca lhe regatearam estatuto, apoio e aplausos, exigia-se outra grandeza na hora da celebração, dispensando-se desculpas estafadas, respostas para cretinos.

E quando se olha para a forma como um Hajime Moriyasu se dirigiu aos adeptos que acompanharam a sua equipa na hora da derrota, e o modo como os outros o viram, não deixa de ser penoso e triste, para mim, ver o princípe abandonar o campo da maneira que o fez.

É nos momentos difíceis que se reconhecem os que são capazes de se elevar acima do mundo, os que pela criação se fizeram e aprenderam a perdurar para além do tempo, os que à sua dimensão e no seu lugar, com a sua humildade e génio, foram absolutamente excepcionais. Em quase tudo; sempre no que é essencial, estruturante e nos define.

Eusébio foi um deles. Pelé também, uma espécie de segundo nós quando não havia mais Eusébio.

Gostava que Cristiano também o tivesse sido. E gostava, ainda mais, que fosse capaz de ainda o ser. Para bem dele, dos seus filhos, e satisfação de todos nós quando um dia falarmos dos seus feitos aos nossos, aos que um dia hão-de vir para nos ajudarem a recordá-lo. De sorriso largo e reconfortante. Como tantas vezes o vimos.

A propósito de justiça e sorte


Pedro Correia,

Há dois conceitos que evito associar às minhas reflexões ocasionais sobre o fenómeno desportivo – e o futebol em particular.

O primeiro é o conceito de justiça. Escuto e leio muitas análises aos jogos ancoradas neste conceito – «se houvesse justiça, a equipa X teria ganho»; «a vitória da equipa Y foi justa».

Ora, salvo no que se refere a procedimentos disciplinares, a justiça não é para aqui chamada. Um desafio de futebol não é uma audiência de tribunal. Aqui o importante é vencer – por uma margem muito dilatada, de preferência, mas se for pela diferença mínima também serve. Que se vença até por «meio golo», como na velha boutade das conversas de café.

 

 

Ao pretendermos explicar tudo em futebol recorrendo ao conceito de justiça, acabamos por não explicar nada. Porque aquilo a que por comodidade chamamos injustiça é uma espécie de lei não escrita imanente a todo o jogo. Uma das mais brilhantes proezas técnicas da carreira em campo de Cristiano Ronaldo foi aquilo a que se chama um golo limpo, “injustamente” anulado pelo árbitro por alegada deslocação de Nani numa vitória da selecção portuguesa contra a Espanha.

Eu estava lá – e vi. Nunca hei-de esquecer aquele golo, reproduzido aqui mais acima.

 

É inútil insistir no contrário: não existe uma justiça poética nos estádios que resgata os verdadeiros campeões, projectando-os da relva dos estádios para esse simulacro de Campos Elíseos a que se convencionou chamar verdade desportiva. Penso nisto todas as vezes que me lembro de um dos jogadores mais celebrados da história do futebol. Diego Maradona, ele mesmo. Um dos seus golos mais famosos – e decisivos – foi marcado com a mão, à margem das leis do jogo. Passou à eternidade não como infractor, mas como lenda viva.

Onde mora a justiça em tudo isto?

 

 

O segundo conceito é o de sorte.

Diz-se que Fulano é um sujeito com sorte ou que Beltrano, figura estimável, padece no entanto do facto confirmado por todas as evidências de não ser acompanhado por essa cobiçada deusa a que chamamos Sorte. E ninguém quer figuras tocadas pelo estigma do azar na sua equipa do coração.

A sorte conquista-se, constrói-se. Dá muito trabalho. Prefiro sempre usar a palavra mérito em vez da palavra sorte. E volto a Cristiano Ronaldo: desde cedo, ainda na escola desportiva de Alvalade, onde se formou para o futebol e para a vida, o campeão madeirense prolongava as sessões de treino, continuando a exercitar-se mesmo após a partida dos colegas. Aperfeiçoou e desenvolveu da melhor maneira as suas aptidões naturais. Ultrapassou a fronteira que separa os jeitosos (que é quanto basta quase sempre em Portugal) daqueles que têm verdadeiro talento.

A sorte ajuda? Pois ajuda. Mas não explica nada. Quando Cristiano, com um remate bem colocado, cheio de força, faz tremer o poste da baliza adversária, os analistas que adoram cultivar o lugar-comum dirão: «Teve azar.» Ele será o primeiro, no entanto, a reconhecer que esteve quase mas terá de esforçar-se ainda um pouco mais para a bola entrar na próxima vez. Que poderá ser já no minuto seguinte.

 

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Foto de Robert Capa no Dia D (Normandia, 6 de Junho de 1944)

 

Experimentem usar mérito ou competência no lugar da palavra sorte.

Não é uma simples questão semântica: há toda uma filosofia de vida subjacente às palavras que escolhemos.

Cristiano Ronaldo está para o futebol como Robert Capa estava para as reportagens de guerra. Merecidamente distinguido em vida com o título de melhor repórter fotográfico da sua geração, Capa costumava dizer: «Se a foto não estava suficientemente boa é porque não estavas suficientemente perto.»

A sorte é isto. E constrói-se a todo o tempo por aqueles que beneficiam dela.

Cristiano Ronaldo


jpt,

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(Aqui torno a colocar uma história, acontecida em 2013 ou 2014, no Mpumalanga. Já a publicara aqui. Mas vem-me a propósito, quando ouço tantos a criticarem-no…)

À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de “stop”, pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. “Estou tramado!”, resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos (“Maputo“, respondo), de onde somos (“portugueses“, digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta “how are you, sissi (maninha)?” e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me “se você é português vou-lhe fazer uma pergunta” e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal “Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?“. Eu rio-me, num “Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais“, enfatizo, mas ele insiste, “mas qual é o melhor?“. “Ok“, e enceno-me, olhando à volta, “só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi“, e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. “Não, você está errado” riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), “Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!“. Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num “podem ir“. Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.