Comer (23)


Pedro Correia,

Gosto de ter um restaurante favorito nas principais cidades portuguesas – hábito que iniciei há largos anos. Alguns já não existem, o que lamento. Fecharam o Rolo em Portalegre, Os Infantes em Beja, a Praça Velha em Castelo Branco. Há dois meses, quando me desloquei ao Porto, percebi com tristeza que também a minha Adega Vila Meã encerrou de vez.

Em Coimbra, frequento os clássicos da restauração caseira: Cantinho dos Reis, A Taberninha, Zé Manel dos Ossos. Mas gosto de variar. Há sete anos comi a melhor açorda de camarão da minha vida na outra margem do rio, servida n’ A Açorda. Ficou-me na memória. Regressei agora para confirmar que as impressões do passado nem sempre se recuperam.

Mantinham o prato na ementa, mas sem possibilidade de o servirem em dose individual: do anterior grupo de três ali só restava eu. Ainda brinquei: «Façam duas doses. Como hoje a primeira e venho comer o resto amanhã.» Não pareciam em maré de graças, recomendaram-me o prato do dia: peixe-galo no forno. Caí na asneira de dizer que sim.

Deixo o alerta geral: não cometam o mesmo erro. Este peixe jamais deve ser tratado desta forma: perde por completo a frescura, fica seco que nem bacalhau. Sem o sabor do dito. Não merece tal tratamento.

 

Restaurante Cordel Maneirista (Calçada de Santa Isabel, 1 – Coimbra)

Tiro ao lado, portanto. Procurei alternativa. E felizmente encontrei, no almoço seguinte. À mesa do Cordel Maneirista (Cordel, só para os íntimos), que a meus olhos redimiu Coimbra da sensaboria e dos lugares-comuns.

Gostei  de tudo, a começar na localização. Mesmo ao lado do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, bem perto do Portugal dos Pequenitos a que me ligam excelentes memórias – como filho e como pai.

Tem mercearia no rés-do-chão. O espaço para refeições – distribuído por duas salas e terraço anexo – fica no primeiro andar. Com cuidada decoração interior e desafogadas vistas para o exterior.

Terraço convidativo com vistas desafogadas

Chego cedo, como sempre faço: gosto que me atribuam prioridade na cozinha. Avançou sem demora um pratinho de perdiz fria de escabeche à moda de Coimbra. Temperatura certa, textura adequada, nem uma gota de vinagre em excesso. Na generosa companhia líquida de São Domingos, espumante bairradino.

Havia apetite para mais.

Compareceu então uma saborosa coxa de pato, devidamente acolitada: com arroz de frutos secos e salada de laranja. Veio já empratada, mas não em dose mínima – ao contrário do que sucede noutras casas, com mais fama do que proveito.

Perdiz fria de escabeche
Coxa de pato com arroz de frutos secos

Na ementa destacavam-se outros petiscos tentadores, que guardei para futura deslocação, em data próxima: arroz de carqueja beirão, arroz caldoso de robalo, arroz de polvo e camarão. Tendo como protagonista o macio bago de carolino do Baixo Mondego, um dos nossos emblemas gastronómicos.

Fiquei cliente. De tal maneira que acabo de eleger o Cordel como meu restaurante favorito na cidade dos doutores.

O Açude foi destronado. Só faço votos para que este não encerre também.

Passo a ter novo restaurante favorito em Coimbra

Comer (22)


Pedro Correia,
Restaurante Verde Maçã (Rua Direita, 113 – Angra do Heroísmo)

O responsável foi Miguel Monjardino. No excelente livro em forma de diário que recentemente publicou, lembrando o que foram os tempos da pandemia, deu nota de duas ou três incursões a este restaurante – então com poucos clientes, à semelhança de qualquer outro.

São tempos que nos parecem já recuados, embora ninguém responsável deva apostar que não poderão repetir-se.

Decoração cuidada: o verde do nome também no painel da parede

Entrei lá, portanto, confiante de que iria comer bem. E não saí decepcionado. De tal maneira que regressei: sinal inequívoco de que esta casa já clássica, de idade respeitável e decoração retocada, me conquistou como cliente.

Senti-me aconchegado logo de entrada, quando chegou à mesa uma promissora tábua de azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta. Acepipe de inconfundível travo açoriano.

Azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta

Travo acentuado na etapa seguinte, com a tradicional alcatra de vaca – elemento essencial da gastronomia terceirense. Geralmente preparada num alguidar de barro untado com banha de porco onde se vão depositando sucessivas camadas de carne intercaladas com cebola picada, toucinho fumado, louro, cravinho e pimenta – tudo amplamente regado com o vetusto vinho de cheiro da região.

Segue-se lenta cozedura, durante horas, em forno de lenha até que a carne esteja imaculadamente tenra. Pronta a ser degustada.

Recomendo-a sem hesitar, tal como o prato que ali comi na visita seguinte: atum selado com esmagada de batata aromatizada e misto de cebola em tempura.

Alcatra de vaca
Atum selado

Passei ao lado dos bifes flamejantes, que parecem ser o grande cartaz do Verde Maçã. Ao ponto de não faltarem clientes a fazer-se fotografar junto ao carrinho onde as labaredas se levantam.

Mas não dispensei um copo de branco terceirense para aumentar a minha cultura vinícola de âmbito geral. Serviram-me Materramenta, de Biscoitos – castas Verdelho e Arinto dos Açores. Agradável.

O preço é proporcional à localização, na mais emblemática rua da cidade, e no respeito da promessa de só utilizarem ingredientes biológicos de alta qualidade e honrarem as boas tradições da confecção caseira dos alimentos. Sob a experiente batuta do chefe Alberto Silva, digno de elogio.

Mesmo sem trincar maçã alguma, devo concluir que valeu a pena. E aqui me confesso publicamente agradecido a Miguel Monjardino pela dica que, sem ele fazer ideia, forneceu a este leitor d’A Grande Ruptura em jornada pela sua ilha de que passei a gostar ainda mais.

Comer (21)


Pedro Correia,
Restaurante Tasca das Tias (Rua de São João, 113 – Angra do Heroísmo)

Para o bem e para o mal, não há impressões gastronómicas como as primeiras. A minha estreia à mesa, em Angra do Heroísmo, não podia ter corrido melhor. A hora de almoço ia adiantada, o apetite era muito e a falta de paciência para andar em busca de restaurantes impunha esta regra básica: teria de confiar em exclusivo na minha intuição.

Assim foi. 

A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado. Ali abanquei em busca de retemperador repasto.

Fiz bem. Gostei logo do que vi: decoração, atmosfera, atendimento. A ementa escrita a giz num quadro, como nas tabernas antigas. Pratos verdadeiramente tentadores, a preços razoáveis. Ambiente descontraído, propício à conversa. Sem pressa: os prazeres da vida devem ser prolongados, não abreviados.

Ementa à moda antiga, escrita a giz num quadro. Como nas tabernas clássicas

Não tardei a decidir: atum braseado. De excelente qualidade e confeccionado como eu gosto, de forma muito simples. Mal passado, apenas com sal e ervas aromáticas. Chega à mesa acolitado com batata doce e salada de tomate – esta servida em recipiente autónomo, como mandam as boas regras.

Assim decorreu o meu baptismo gastronómico em Angra. Enquanto esperava, experimentei um croquete de alcatra – carne moída com queijo de São Jorge, em adequado conúbio. Com um copo de vinho branco dos Açores que passou no teste: Lira, produzido na freguesia de Biscoitos, zona de solos vulcânicos da Terceira. Aromático e encorpado. Boa surpresa.

Atum braseado com batata doce. Vinho branco açoriano: Lira, de Biscoitos

Ficou aprovado? Claro. A tal ponto que, dias depois, repeti a dose. Trocando apenas o croquete inicial por uma sopa de tomate igualmente digna de elogio.

Até gostei do nome do restaurante, inaugurado em 2014. Estive na Tasca sem vislumbrar as Tias, porventura pessoas tímidas. Nem por isso deixo de lhes dar os parabéns.

Comer (19)


Pedro Correia,
Restaurante Beira Mar (São Mateus, Terceira)

«Faz marcação», haviam-me avisado. Não segui o conselho, mas tive sorte: consegui mesa no restaurante que mais queria conhecer na ilha Terceira. O Beira Mar, na atraente vila piscatória de São Mateus, a uns cinco quilómetros de Angra do Heroísmo. Ouvi falar dele pela primeira vez no programa Mesa Nacional, de saudosa memória, muito bem confeccionado pelo jornalista Paulo Salvador na TVI.

Cheguei cedo, ouviam-se as badaladas do meio-dia. Valeu-me isso para ficar bem sentado, de frente para o oceano – enquanto saboreava o fruto das suas águas.

Sabendo que estamos mesmo no fim da estação das lapas, evitei este petisco, aqui muito consumido no auge do Verão. Também não cedi à tentação de encomendar a sopa de marisco no pão, prato emblemático do restaurante fundado há mais de 60 anos como humilde casa de pasto e hoje procurado por clientes das mais diversas paragens. A sua fama galgou fronteiras.

Decidi-me pela sopa de peixe. Confesso: é uma das minhas iguarias de eleição. Estava exactamente como gosto: sem excesso de condimentos nem escassez de matéria piscícola. Na dose certa para me estimular as papilas gustativas, mais exigentes e reivindicativas do que a Comissão Executiva da CGTP.

Nas mesas em redor via gente aparentemente saciada com peixe grelhado – outro dos emblemas da casa. Mas preferi dar um passo adiante, procurando algo mais original. Fiz bem: os filetes de abrótea com molho de camarão recomendam-se. Fugindo à banalidade, escapando ao previsível. Só falta servir a salada mista em recipiente autónomo para merecer cotação máxima.

Inútil, neste estabelecimento, pedir vinho açoriano: é do Douro aquele que nos vem apresentado como sendo «da casa». Pormenor de somenos quando consumimos parte do nosso tempo a beber a paisagem. Os olhos comem, como é sabido. Falta acrescentar isto ao truísmo: eles também bebem.

Sei do que falo: senti isso à mesa do Beira Mar. Sem surpresa, reconheço. Hei-de voltar. Para travar conhecimento com aquela sopa de marisco no pão que primeiro recusei e depois me ficou atravessada.

Os olhos também bebem – aqui mais ainda

Outro jantar


Ana CB,

Caloira nisto de eventos delituosos, toca-me a mim a tarefa de escrever sobre o mais recente jantar que reuniu alguns dos escrevinhadores do Delito de Opinião. Portanto, lamento, mas desta vez a crónica não terá o brilhantismo habitual, pois já devem ter percebido que “eu é mais viagens”. Vou tentar desenvencilhar-me o melhor que souber.

Consta que houve quem se queixasse, num jantar anterior, da falta de representatividade feminina à mesa. Pois desta vez a coorte masculina não pôde reclamar – em termos matemáticos houve um aumento de duas unidades do dito género. Pela parte que me toca, senti-me muito bem acompanhada.

O restaurante escolhido para o convívio foi o Entre Copos. Apesar de estar perto do Campo Pequeno, fica meio escondido junto à linha de comboio, longe da confusão das ruas adjacentes. E, coisa rara, havia lugares para estacionar bem perto, apesar de ser uma noite de sexta-feira, quando toda a gente decide ir jantar fora.

Por fora, parece um restaurantezinho sem importância, assim meio atascado, e até passa despercebido. A fachada não dá nas vistas; a única nota fora do comum é o “burro”, de ar paciente e resignado, colocado ao lado da esplanada. Fiquei por isso surpresa quando entrei e percebi que afinal o restaurante é bem maior do que o exterior dá a entender. O espaço é amplo e tem uma atmosfera “regional”: madeiras escuras, ferro forjado, toalhas de xadrez, paredes brancas cobertas de quadros e fotografias, chão de mosaico cor de tijolo e algumas plantas a quebrar a sobriedade. E, claro, não faltava o habitual ecrã de televisão, onde passava – adivinhem… – um jogo de futebol, pois claro. Noviça neste restaurante, descobri entretanto que tem uma história com mais de cem anos (que podem ler neste artigo do blogue Beco das Barrelas), tendo mudado de nome e propriedade várias vezes desde os seus primórdios. A versão actual data do início deste século.

No menu, uma oferta generosa de grelhados, entre peixe e carne, razão pela qual apenas um de nós optou por arroz de cabidela, contrariando a maioria. Para acompanhar, vinho branco ou cerveja e, claro, água fresca, que as temperaturas destes últimos meses parecem apostadas em desidratar-nos. Houve uns quantos gulosos que não saíram sem sobremesa – sendo que aqui o uso do masculino é genérico e não literal, pois assumo que um desses gulosos fui eu.

As conversas giraram, como é óbvio, à volta dos assuntos mais caros aos escribas habituais do Delito, alguns deles recorrentes, intervalados com memórias e histórias pessoais, e uma ou outra incursão pelo mundo das viagens – uma concessão à minha pessoa, pela pouca apetência e pelos parcos conhecimentos políticos que tenho para emitir opiniões abalizadas sobre o tema. Os desentendimentos foram zero, as gargalhadas foram muitas.

Saímos já assim para o tarde, que de rápido o serviço teve muito pouco, talvez por o restaurante estar cheio. Despachada a foto de família, como a vontade de continuar o convívio ainda não se tinha esgotado e um passeio depois de comer faz sempre bem, ainda fomos até ao Campo Pequeno, hoje em dia rodeado de esplanadas cheias de gente, onde abancámos para mais uma bebida e dois dedos de conversa. Só quando um grupo alargado e barulhento de cachopas – tão iguais umas às outras que pareciam passadas a papel químico – veio instalar-se nas mesas ao pé da nossa, tornando impossível comunicarmos sem ser aos berros, é que decidimos que estava na hora de recolher a casa.

Resumindo: foi muito bom. Espero que o próximo não demore.

Comer (11)


Pedro Correia,

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Verão, para mim, é sinónimo de peixe em termos gastronómicos. Assado, cozido, estufado. Em escabeche, em caldeirada. Mas sobretudo grelhado: cherne, garoupa, robalo, dourada, sargo, solha, peixe espada – o que houver vindo da lota. Em zona balnear, de preferência. Com mar à vista.

Assim fiz, assim tenho feito, num dos meus poisos favoritos: o Clube Naval da Ericeira. Situa-se em zona adjacente ao porto de pesca da vila que tão generosamente me acolhe há um par de anos. 

Condição obrigatória: chegar cedo. Vai-se formando fila à porta, a partir do meio-dia e pouco. Ouvem-se conversas de circunstância dos frequentadores habituais, sábios conhecedores do que ali se petisca.

Impera a boa disposição. O tempo convida a relaxar.

Não é espaço para sofisticações. Nem para aquela comida da moda – com fusões, tofu, muita rúcula, muita espuma que parece ser da barba, fruta tropical misturada com leguminosas e tretas do género.

Tudo clássico, à moda antiga. Pratos do dia escritos a giz num quadro, as gaivotas rondando quase como animais domésticos.

Alargando o olhar, confirmo: aqui o mar é mais azul.

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Há choco à lagareiro, sardinha assada, carapaus. Nos pratos de carne, nem reparo.

Vou para o linguado grelhado: é o que me está a apetecer. Ali ao lado os pescadores reparam as redes, secam peixes em estendais, trocam dois dedos de conversa: a faina do dia está cumprida. 

A casa já encheu. 

Vem para a mesa um jarro de vinho branco – fresco, não gelado. Como mandam as boas regras. Em sequência lógica, surge um queijinho fresco com o magnífico pão local. Confirmo: estou numa das zonas do País onde há melhor pão.

Lição fundamental à mesa em férias: mastigar bem, saborear, aproveitar cada momento prolongando o prazer de partilhar refeições sem agenda profissional para cumprir. Há quem não saiba desligar-se do ritmo laboral, sem perceber como é indispensável fazer pausas para que o trabalho renda plenamente. 

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Chega então o linguado. Vem como gosto: grelhado no ponto certo.

Em Portugal, quase todos se gabam de saber grelhar peixe. Estão profundamente equivocados: abundam os locais, alguns até com fama, em que a grelha mal calibrada ou um cozinheiro negligente secam o peixe, retirando-lhe o suco natural.

Aqui há manifesta competência nesta função: excepto as espinhas, nada se desaproveita deste elegante bicho que há menos de 24 horas nadava no oceano. Até a pele. 

Casa muito bem com as batatinhas cozidas com casca, o feijão verde que serve de complemento e a salada fresca temperada com abundante azeite, um golpe de vinagre, umas gotas de limão.

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A praia, ali a dois passos, pode esperar. A tarde é longa, há sol até depois das oito. 

Nada de pressas, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Faz parte da magia do Verão: é quando mais vezes somos invadidos pela doce ilusão da eternidade. 

Hei-de voltar ao Clube Naval. Tem lugar cativo no meu roteiro gastronómico. Ponto de romagem sempre que as saudades do bom peixe apertam.

Doses fartas. A preços imbatíveis.

Por mais vezes que regresse, a conclusão é sempre a mesma: daqui nunca saio desiludido.

 

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Uma bifana no Porto


jpt,

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Vim ao Porto. O motivo oficial para isso foi um outro, mas o verdadeiro era uma pesquisa. Pois o blog Gastronautas publicara há pouco tempo um Manifesto apologético das bifanas da consagrada Cervejaria “O Astro”, sita ali mesmo em Campanhã. Acorri logo que chegado, mas para enfrentar a desilusão do “estabelecimento encerrado para férias do pessoal”, hiato anunciado até 25, o domingo de ontem. Eu regressaria à moirama na sexta-feira seguinte, tombei cabisbaixo.

Os dias passaram. Neste Porto, que em eras antigas justificou o cognome “Invicta”, a derrota é agora iminente, ainda que prossigam ferozes combates rua a rua, casa a casa, homem a homem. Mas se às forças locais, traídas pelo generalato nacional, ainda assiste alma, escasseiam já os recursos, desabam as trincheiras. Sobre os escombros de Porto Cale chorei diante de viçosos “pizzaria – sushi”, “wine bar”, “hamburgarias” e, até, “empanadas argentinas”… 

Por tudo isto, em assomo patriótico prolonguei por uns dias a minha estada a Norte de Gaia. E hoje mesmo, atrevendo-me entre a artilharia de kebabs, cariladas, goulash, spare ribs, chinoiseries e japonices, regressei a Campanhã, fiel seguidor dos Gastronautas. E confirmo, a bifana da “O Astro” é Invicta.

As tripas no Porto


jpt,

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há alguns anos deixara eu um escrito narrando a minha iniciação às tripas portuenses, aquela sempre ansiada, mas também temida de angustiada, “primeira vez”. Fora-me tardia, já proto-cinquentão. Então homem feliz – ainda que nisso matizadamente, dadas as reservas face ao mundo e ao destino, próprio e alheio, devidas a quem se imagina(va) intelectual -, pois de família, viera de Maputo nesse vigente presépio mostrar o Porto avoengo à petiza Carolina. Num desses dias de andanças visitámos aquela Serralves, pausa dita obrigatória em todos os roteiros, e até assim sentida pelo então quase-jovem Zé Teixeira, esse que fora já, imagine-se, “curador” e anunciado como “especialista” em coisas de artes. Enfim, dessa pose armado lá calcorreei, decerto que palavroso maçando amadas mulher e filha, as esquecíveis (e esquecidas) serralvices então apostas. Fôramos nisso surpreendidos pelo almoço, ao qual nos dedicámos em pleno restaurante da “fundação” (sinónimo de “serralves” no dialecto local, equivalendo ao “pingo doce” do linguajar lisboeta). E nesse elegante bufete deparei-me com um dístico anunciando as célebres “tripas à moda do Porto”. Avancei nisso, claro, para me desiludir num genuíno “ora esta!?, isto é apenas uma dobrada!!!”. Desse episódio dei conta publicamente, causando ira entre arreigados… tripeiros, que me invectivaram a opção serralvística e afiançaram a artificialidade falsária daquelas putativas “tripas”. 

Passaram os anos, uma década talvez, entretanto desabou-me a pose, a essência e os adornos. Mas para alguns ficou, indelével, a nódoa daquela ofensa. E ontem obrigaram-me a uma penitência, longa qual Calvário. Para esse efeito fui convocado para o restaurante O Rápido, que me afiançaram ser o verdadeiro produtor do arquétipo das tais tripas. Apresentei-me, ao encontro do Zé Carneiro Pinto e do Jorge Romualdo, aos quais não via há uma década, desde Maputo – e ambos estão com o saudável ar de quem frequenta, amiúde, os melhores restaurantes da cidade, e arredores, isto enquanto lá a Sul eu vou mirrando, até já engelhado. 

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Seja dito que ao leme esteve o José Pinto, reservando-se o Romualdo à função de imediato algo contestatário. O processo foi encetado por umas “entraditas”, que consistiam nuns bolinhos (como eles aqui chamam aos pastéis) de bacalhau – que eu avalizei como deliciosos mas que o Jorge considerou não estarem tão bons “como de costume” -, um “pratinho” (!) de salpicão, exigido pelo Jorge, de excelência, daquele que logo sentimos mesmo a entupir as artérias. E acima de tudo, umas tripas enfarinhadas, algo de que eu nem sequer ouvira falar, um petisco verdadeiramente pecaminoso. Tudo isto foi acompanhado de um verde branco AJTS, uma breve garrafa que veio a ser substituída, devido à contestação (mais uma) do Jorge, por um branco do Douro, Maritávora n. 5, cuja qualidade é inversa à fealdade do nome.

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O branco duriense escoltou até à mesa o caldeirão das tripas. O qual umas horas depois veio a ser reforçado – “este tipo vem de Lisboa para repetir três ou quatro vezes!”, recordo ter sido um dos simpáticos tópicos da conversa do Romualdo… Não posso indexar os seus componentes, tal a profusão constituinte, mas comprovo a saborosa viscosidade de narizes, entranhas, entrefolhos e quejandas parcelas que envolviam os feijões, empanturrado-me eu, desvanecido, enquanto o arquitecto Romualdo exarava um compungido “não, isto não está tão bom como de costume!!!…”. Entretanto aparecera à mesa, dando-se assim a conhecer, o João M Taborda, há pouco chegado de Nampula, que nem sessenta anos ainda passaram…, o qual se furtou às tripas, com o álibi de provir de uma outra almoçarada, mas que ainda bebericou um vinho, tal como depois comeu uns pastéis – aos quais esqueci o nome -, e ainda uns outros mimosamente ditos “matateus”, excelsa doçaria que ali veio convidada apenas para acompanhar um espumante bruto, dito Ortigão, e também não se tendo negado ao cálice, verdadeiro dedal, de aguardente que foi nosso corolário.

Em suma, magnífico almoço, maravilhosas, viscerais até, tripas. Momento inolvidável. E o preço?, perguntarão os mais meticulosos. Como bem sabem os que acompanham no blog (e no FB) a minha filha e a minha irmã insistem para que não escreva eu palavrões…

Comer (6)


Pedro Correia,

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                   Arroz de galo e cogumelos                                                  Arroz nero com camarão, lula e amêijoa

 

Ainda existe algum preconceito contra restaurantes situados em centros comerciais. Como tantos outros, também este não tem o menor fundamento. Foi nisto que pensei ao visitar o acolhedor Müla, recém-inaugurado no espaço exterior do centro comercial Alvalade, em Lisboa.

Aludir a espaço exterior parece mero pormenor, mas não é. Faz toda a diferença, um restaurante ter esplanada. Esta é aprazível, numa varanda com visão panorâmica da Praça de Alvalade, a que alguns chamam “praça do Santo António”, apontando a estátua do célebre alfacinha que chegou a doutor da Igreja, concebida pelo escultor António Duarte e erguida em Outubro de 1972.

Ignoro por que motivo o restaurante se chama Müla – assim mesmo, à alemã, com trema. Mas tem pelo menos a vantagem de ser um nome que se fixa de imediato. Está colado ao Mercantina, ali existente desde 2013 e que já se tornou referência entre os comensais do bairro, vocacionado sobretudo para comida italiana.

 

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A esplanada, com 40 lugares, é espaçosa. Sem o defeito, frequente em tantos outros poisos, de ter as mesas do lado demasiado próximas da nossa.

Aqui a comida tradicional portuguesa alia-se a sabores sul-americanos, com incursões na culinária espanhola. Havendo aposta deliberada em petiscos, que podem ser apreciados a partir das cinco da tarde. 

Já lá fui três vezes – e nunca saí decepcionado, longe disso. 

Na primeira, arrisquei bastante para noite de estreia. Optando por um prato que muito aprecio mas raras vezes consumo longe do Alentejo: sopa de cação. Passou no teste, com nota positiva. Pela espessura do caldo, pelo casamento do peixe com os coentros e pelo magnífico pão alentejano que lhe serve de complemento.

Na segunda incursão, decidi-me pelo arroz de galo e cogumelos em forno a lenha com manteiga de tomate seco e queijo da ilha. Imaginativo, ambicioso e suculento: teste superado também. Pela qualidade dos ingredientes e pelo esmero na confecção. A impressão muito favorável consolidou-se na terceira visita, quando experimentei um louvável arroz nero em forno de lenha com camarão, lula, amêijoa, mexilhão e tomate confitado. Respeitando os pergaminhos mediterrânicos que lhe servem de referência e daí rumaram à América de expressão castelhana. 

Os gulosos têm boas opções à escolha. Da acolhedora mousse de chocolate com praliné de avelã, azeite e flor de sal ao capitoso cheesecake da ilha, com goibada e bolacha de manteiga queimada – que deve ser partilhado para evitar excessos calóricos. Também a tarte de lima merengada justifica boa nota.

 

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Cheesecake da ilha com goiabada

 

Enfim, um local a que apetece regressar. Até por ser inspirador de boas conversas. Precisamos de recuperar a arte do convívio, que anda a ser desprezada nesta era em que tantos preferem passar o tempo de olhos fixos num ecrã. Esquecidos de que há mais mundo para além dos dispositivos tecnológicos e daquilo a que erradamente chamamos “redes sociais”.

Verdadeira rede social é a que se estabelece em torno de uma mesa.

Comer (3)


Pedro Correia,

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Por estes dias, como creio já ter dito, é muito raro comer fora. Cozinho quase sempre e sem sacrifício algum. Cozinhar tornou-se um dos meus passatempos favoritos. É um desafio que começa antes de me aproximar do fogão: também gosto de elaborar ementas, de preparar os ingredientes, de descobrir novas receitas. É algo que me relaxa enquanto me desafia não apenas na criatividade mas também na precisão: um minuto de diferença, a mais ou a menos, pode estragar um prato. 

Foi este o desafio que lancei a mim próprio ao iniciar-me nestas lides. Jurei jamais recorrer a um restaurante como via alternativa (tenho sete a poucos metros da porta de casa). Comeria sempre o que fizesse, fosse qual fosse o desfecho. Esta exigência pessoal reforçou a necessidade de me safar bem entre caçarolas e frigideiras.

 

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Mas por vezes abro uma excepção. Aconteceu há poucos dias: quis matar saudades de um dos meus restaurantes favoritos. O Nortada, a curta distância da Praia Grande, no concelho de Sintra.

Há uns tempos que lá não ia. Soube-me bem contemplar de novo aquela paisagem inigualável, na sala exterior do restaurante. É cenário que nunca me canso de desfrutar, mesmo em dias de Primavera envergonhada.

Sala espaçosa, desafogada, inundada de luz, com amplas vistas sobre o jardim adjacente e o oceano um pouco mais abaixo. Toalhas de pano – hoje quase um anacronismo. E talheres de peixe, como mandam as boas regras. Serviço irrepreensível.

A nosso lado, um pequeno grupo de italianos fazendo jus à gastronomia lusitana. À mesa, poucos como eles sabem apreciar o que é realmente bom.

 

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Começámos por partilhar uma entrada soberba, só disponível naquele dia: tártaro de atum com manga. Casamento perfeito entre o peixe cru, marinado com sapiência, e o doce fruto tropical. Por ser dia de aniversário, justificava-se a escolha de um vinho especial: veio o Cartuxa, um dos meus brancos de eleição.

Seguiram-se filetes de pescada com arroz de berbigão: polme discreto, sem vestígio de gordura em excesso, confecção apuradíssima da popular gramínea que alimenta metade da população do mundo. Seco, consistente, apaladado. É assim que gosto dele.

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Depois fizemos honras ao polvo assado com batata doce – confesso que raros petiscos me mobilizam tanto como o octópode, que congrega adeptos de norte a sul do país. Tenro e sápido, em perfeita comunhão com a batatinha de Aljezur a que apetece dedicar um hino.

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Aniversário justificava sobremesa: compareceu um magnífico leite creme em massa filo. Para encerrar a refeição com chave de ouro.

 

Despedi-me do Nortada com um “até já”. Fazendo votos para que nunca figure num guia Michelin. Prefiro-o assim, sem ceder a padrões alheios, tão avessos à nossa tradição gastronómica e tão propícios a preços que se tornam proibitivos.

Para que possa haver outros dias de celebração como este. Com sol ameno e o mar amigo ali tão perto, num cíclico sussurro de parabéns.

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Delito à mesa (18)


Pedro Correia,

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Peixe fresquíssimo no extremo sul, onde a terra acaba e o mar começa. Aqui é aconselhável evitar o pecado da carne.

 

Sim, é verdade. Os olhos também comem. Quando o panorama é soberbo, como sucede aqui, o apetite desperta com mais vigor. Estamos nas imediações de Lagos, no alto de uma falésia. Lá em baixo, a bela praia do Camilo. Cá em cima, o restaurante homónimo. Aberto desde 1980, há nove anos nas mãos do actual proprietário. Que se preocupa em acorrer ao mercado, ainda o sol é mal nascido, em busca do peixe mais fresco. Nada de produto de viveiro.

 

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Corvina grelhada, horas depois de sair do mar

 

Chego cedo, reservei lugar de véspera: é fundamental telefonar a marcar mesa. Na chamada época alta, como se presume ser a actual, a lista de espera pode ser longa: só há cerca de 40 lugares sentados no Camilo distribuídos entre a sala interior, com amplas vidraças sobre o mar, e a esplanada, noutros anos atulhada de turistas – em grande parte ingleses, agora quase desaparecidos do litoral algarvio. Muitos sem fazerem a menor ideia da riqueza piscícola aqui disponível: mandam vir, por exemplo, costeletas de carneiro. Como se estivessem ancorados num pub britânico em vez de disfrutarem de bom ar e bom clima num dos recantos da Europa onde se come melhor peixe.

      

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                      Sopa de peixe                             Tarte de limão

 

À entrada, um amplo mostruário do pescado do dia. Quem quiser, basta escolher. Aconteceu comigo: apontei para uma enorme corvina recém-chegada. Pedi que me fornecessem uma posta, bem grelhada. E assim veio à mesa, na companhia de batatas cozidas e legumes salteados, tudo em recipientes autónomos.

Noutra incursão, optei pelo bife de espadarte – que chegou igualmente bem acompanhado, em dose generosa: ninguém sai com fome daqui. Sobretudo se iniciar a refeição com uma sopa de peixe, bem fornecida de material piscícola. Recomendo.

 

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Um senão: ainda não me habituei a comer peixe com talheres de carne, como aqui sucede. Será a nova moda – tal como dispensar toalhas na mesa. Lamento: não faz o meu género.

Mas o essencial é a qualidade da matéria-prima. E neste teste o Camilo passa com distinção. Apostei num branco algarvio, o Paxá, e fiz bem: funcionou como adequado actor secundário para fazer brilhar ainda mais a corvina. Na segunda visita, pedi um rosado algarvio, a copo: Barranco Longo, uma boa surpresa para quem não conhece. 

O preço – contemplando ainda uma tarte de lima que superou a prova – foi uma agradável surpresa. Em qualquer outro país europeu com panorama similar, pagaríamos talvez o dobro. Valeu por uma sinfonia em homenagem ao oceano que o Infante D. Henrique tantas vezes dali avistou.

 

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Restaurante Camilo

Praia do Camilo, Lagos

Telefone 281 322 050

Não encerra

Pequenas vaidades


Pedro Correia,

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Ao longo de muitos anos no jornalismo entrevistei líderes partidários, ministros, deputados, artistas, escritores, actores, prémios Nobéis, celebridades várias: Jorge Amado, Bjorn Borg, Peter Ustinov, Alvin Toffler, Fernando Arrabal, Ramos-Horta, José Saramago, Julião Sarmento – só para citar uns quantos. Tenho autógrafos concedidos em missão profissional por todos os jogadores da selecção portuguesa que ficou em terceiro lugar no Europeu de Futebol em 1984 (saravá, Rui Jordão!) e de Maurício de Sousa (sim, o criador da Mônica e do Cebolinha, uma simpatia de pessoa).

Nunca me envaideceu o convívio com gente que – para utilizar a bela expressão de Camões – se vai da lei da morte libertando. Nem as centenas de notícias que levei às primeiras páginas em onze jornais ou revistas. Nem os muitos “prémios cacha” que ganhei no Diário de Notícias quando era liderado por esse grande director (e um inesquecível ser humano) chamado Mário Bettencourt Resendes, tão cedo desaparecido. Sempre considerei cada momento desses como mais um dia no trabalho. “Business as usual”, na sagaz e concisa fórmula norte-americana.

 

Mas confesso-vos uma pequena vaidade: ter o meu nome associado, enquanto jornalista, a dois restaurantes que muito prezo. O Poleiro, em Lisboa, e a Adega Vila Meã, no Porto. Lá estão, emoldurados nas paredes, textos meus alusivos a estas casas de bem-comer.

O da adega portuense, datado de 2019, só há pouco o vi, na minha mais recente visita à Invicta, era o primeiro sábado deste ano. Ia com vontade de matar saudades do cabrito assado no forno, mas já não constava do cardápio. Optei então pelos filetes de polvo com arroz do dito. Era dia de muita afluência, a hora já a pender para o tardio, diz-me a patroa que chegara ao fim. Expressei um lamento. Ela faz uma rápida incursão à cozinha e diz-me que ainda se arranja meia dose de meia dose. Mais que suficiente para mim. «Venha ela», ordenei.

Meia dose ali, como sabem os comensais, dá para encher o papo. E meia dose de meia dose, digo-vos eu agora, também. Voltei a fazer jus à fama e ao proveito do estabelecimento, ali tão discreto na baixa do Porto. Ao sair, descubro o meu texto já consagrado na parede, à vista de quem lá vai.

Sorri para dentro: eis talvez o único troféu que gosto de exibir na profissão.

 

É a hora de pagar, alguém avisa a patroa lá do fundo, na cozinha: «É a minha filha a dizer-me para não me esquecer de só lhe cobrar a meia dose da meia dose.»

Saravá, Adega. A partir de agora és um pouco minha também.

Delito à mesa (17)


Pedro Correia,

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Uma das salas do Medieval

 

As cidades também nos conquistam pelo estômago: eis dois restaurantes clássicos de Évora agora revisitados para proveito de quem não anda em busca de modernices de importação nem da última moda mastigatória.

 

Já não é a primeira vez que menciono isto: considero Évora uma das capitais da gastronomia portuguesa. Regresso sempre com a certeza antecipada de que farei por cá refeições dignas de guardar na memória. E a convicção reforçada de que as cidades também nos conquistam pelo estômago.

Volta a acontecer-me. Comecei por matar saudades do Dom Joaquim, que já apresentei aqui: lá me esperava desta vez uma salada de camarão com papaia e manga (entrada), seguida de terrina de bochechas de porco estufadas em vinho tinto com esmagada de batata trufada e legumes salteados.

Mantém o patamar de excelência que me levou a elegê-lo como melhor restaurante da nobre e bela urbe alentejana.

 

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Superada a prova inicial com gosto e proveito, em dias subsequentes tenho lançado âncora noutras enseadas gastronómicas eborenses, aproveitando esta época em que por cá se circula com muito mais tranquilidade e desafogo do que nos Verões recentes, insuflados de turismo internacional.

Permiti-me revisitar o Medieval, um dos meus portos de abrigo na cidade, chova ou faça sol. Sei de antemão, por experiência acumulada, o que encontro nesta casa: genuína comida tradicional do Alto Alentejo, sem concessões a modernices de importação nem às mais recentes modas mastigatórias.

Antecipo um conselho: evitem trazer pressas. A cozinha cá do burgo tem o seu ritmo muito próprio de elaboração, nada condizente com o frenesim lisboeta daqueles que chegam afogueados e pedem «o que estiver mais pronto a sair» porque têm o carro «mal parado», não desgrudam os olhos do telemóvel e alegam «não ter tempo a perder com refeições».

Coitados. Sabem lá eles o que é perder ou ganhar…

 

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Migas com carne de porco preto

 

Abanquei aqui pronto a matar saudades das típicas migas com carne de porco preto. Ele, o bicho, com fritura adequada. Elas como eu gosto: moldadas com água a ferver numa massa de pimentão e alhos pisados, depois douradas em frigideira ou tacho de barro antes de rumarem à mesa.

Casamento perfeito. E abençoado com um jarro de tinto da casa, oriundo da região de Borba.

 

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Noutro dia, pousei n’ O Trovador. Menos popular e mais sofisticado do que o anterior, mas respeitando os pergaminhos gastronómicos locais. E mantendo a atmosfera caseira que tanto aprecio nestas incursões.

Aqui optei pela clássica sopa de cação, prato que só consumo no Alentejo. Chegou à mesa em dose abastada, convenientemente repartida: travessa reservada ao peixe cartilaginoso, parente dos tubarões, e a terrina onde repousava o caldo – numa base de azeite, cebola, alho, louro e abundantes coentros – e generosas fatias de bom pão de trigo alentejano.

A mistura é feita no prato, ao gosto de cada um.

Garanto-vos: em qualquer dos casos, apetece regressar. Não só pela qualidade do que se come mas pelo módico preço que se paga. E pelo incomparável sossego que se desfruta: o tempo aqui rende sempre mais.

 

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Sopa de cação

 

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Restaurante Medieval                                                                                     

Rua do Raimundo, n.º 47, Évora.

Telefone 266 744 116.

Horário: 10.00-22.00. Encerra à segunda-feira.

 

Restaurante O Trovador                                                                                       

Rua da Mostardeira, 4-6, Évora.

Telefone 266 707 370.

Horário: 12.30-15.30, 19.30-23.00. Encerra ao domingo.

Delito à mesa (16)


Pedro Correia,

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Num restaurante, o cenário conta muito. No Gilão, contribui imenso para cativar os clientes, encostado ao rio que lhe empresta o nome. Mesmo no centro de Tavira, no recuperado Mercado da Ribeira, dotado de uma ampla esplanada onde é preferível escolher mesa. Porque os olhos também comem.

 

Mas as virtudes desta casa comandada por duas mulheres – Ângelo Botelho, a proprietária, e Cecília Paixão, a chefe da cozinha – estão longe de esgotar-se no panorama.

Aqui é perfeito o cruzamento da tradicional comida algarvia com uma culinária criativa, aberta a novos paladares. Desde logo nas entradas: imperdíveis, as chamuças de cavala em molho de caril e gengibre. Superlativa, a tempura de polvo e mel picante. Mas há mais: camarão em molho de mostarda e laranjas; ceviche de atum e lima em emulsão de manga; empada de pato com redução de Porto e salada de rúcula e laranja.

 

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Tempura de polvo e mel picante

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Lombo de atum com migas de broa e azeitonas

 

Como prato principal, recomenda-se lombo de atum com migas de broa e azeitonas, polvo na frigideira com batata doce ou peito de frango e camarão em molho de caril com arroz de coco. Tudo provado, tudo aprovado. E bem regado, a combater a canícula, com um simpático rosado algarvio, o Barranco Longo.

Também se servem cataplanas (robalo com camarão, por exemplo) e pratos vegetarianos. Nas sobremesas, recomenda-se o cheesecake e a tarte de alfarroba.

Com qualidade garantida tanto nos petiscos que chegam à mesa como no atendimento atento e profissional, este Gilão é um excelente cartaz gastronómico de Tavira. Onde apetece sempre voltar.

 

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Restaurante Gilão

Rua do Cais, Mercado da Ribeira, Loja 2A, Tavira

Telefone 281 322 050

Não encerra

Delito à mesa (15)


Pedro Correia,

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Empadas de galinha, arroz de perdiz, tarte de requeijão: a refeição ideal no lisboeta Salsa & Coentros, onde se presta tributo à cozinha do Alentejo e Trás-os-Montes. Mick Jagger gostou do que aqui comeu.

 

É o melhor restaurante do meu bairro. O bairro de Alvalade, em Lisboa, onde não faltam espaços capazes de satisfazer os palatos mais exigentes. Mas tenho uma especial predilecção por este, a cuja inauguração praticamente assisti. Aqui presta-se tributo à cozinha tradicional portuguesa – sobretudo de inspiração transmontana e alentejana – aliada à arte de bem-receber, cultivada pelo seu proprietário, José Duarte, diplomado pela Escola de Hotelaria de Lisboa e com uma longa experiência anterior na Adega da Tia Matilde, também na capital.

No Salsa & Coentros sinto-me sempre em casa, sobretudo à hora do jantar, quando o ambiente ganha tons familiares e as conversas são ainda mais amenas: percebe-se que tem clientes incapazes de trocá-lo por outro restaurante da zona. No final do Verão, o espaço foi remodelado e adquiriu um toque suplementar de sofisticação.

 

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Empadas de gallinha

 

Mal nos sentamos, somos brindados com acepipes que contribuíram para a boa fama da casa. Favinhas de coentrada, pimentos com coentros, cogumelos de coentrada – e sobretudo as empadas de galinha: ainda não encontrei melhores em Lisboa. Elas contribuem para esta minha longa fidelidade ao restaurante, fundado em 2006, a curta distância do Mercado de Alvalade, na rua em frente aos bombeiros.

 

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Arroz de perdiz

 

Mas aquilo de que mais gosto são os arrozes de caça. Sobretudo o arroz de perdiz, com um toque adequado de vinagre. Nesta época, quando aqui venho, nem preciso de espreitar a ementa: é o prato que peço sempre. 

Feito no momento, demora a chegar à mesa. Mas asseguro que vale a pena esperar. E o apetite pode ser entretido com um apreciável naipe de entradas: recomendo os espargos com ovos ou as migas de batata e ovo.

 

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Empada de perdiz com arroz de grelos

 

Todas as semanas há opções novas em vinhos – em garrafa ou servidos a copo. Na minha mais recente incursão, apreciei um tinto do Douro, Raposeira, colheita de 2015. Acompanha bem outros pratos fixos: empada de bacalhau, pato borracho com arroz malandro ou os suculentos lombinhos de porco preto fritos com pimentão. Sem esquecer a empada de perdiz com arroz de grelos.

 

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Tarte de requeijão

 

Em 2014, Mick Jagger jantou aqui – por sugestão da fadista Ana Moura, sua amiga e cicerone no roteiro gastronómico alfacinha. Consta que saiu satisfeito, desde logo com as favinhas, o que constitui prova inegável de bom gosto. Se não provou a tarte de requeijão, fez mal: é imperdível.

Aviso ao leitor: os dois pisos do restaurante estão sempre cheios. É indispensável fazer marcação prévia, de segunda a sábado, para evitar ir a outro lado. Seria uma pena. 

 

Restaurante Salsa & Coentros

Rua Coronel Marques Leitão, 12, Lisboa.

Telefone 21 841 09 90

Horário: 12.30-15.00, 19.30-23.00. Encerra aos domingos.

Delito à mesa (14)


Pedro Correia,

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Requinte e tradição conjugam-se à mesa, a poucos metros do local onde decorre uma cena fundamental desse monumento do romance português que é Os Maias. Eça haveria de gostar.

 

Não podemos deixar de pensar que pouco metros acima de nós se desenrolou uma cena fulcral do melhor romance português de todos os tempos, Os Maias, quando Carlos é apresentado à fogosa Condessa de Gouvarinho. Eis-nos num dos mais belos recantos de Lisboa, marcado por referências melómanas, ou não estivéssemos no rés-do-chão do Teatro Nacional de São Carlos, e também literárias: no majestoso prédio fronteiro, num 4.º andar, nasceu a 13 de Junho de 1888 um tal Fernando António Nogueira Pessoa, figura cimeira da nossa poesia.

Mas o que hoje aqui nos traz é algo prosaico: comer. Neste Café Lisboa – um dos estabelecimentos com a marca de José Avillez, cada vez mais influente no circuito gourmet do Chiado – tudo é recomendável. O cenário, o ambiente, o serviço, o vinho JA (exclusivo dos restaurantes deste chefe, em produção conjunta com o enólogo e gastrónomo José Bento dos Santos), os preços razoáveis para tão inspiradora localização, no centro cultural e turístico de Lisboa.

Aconselha-se reserva: a oferta de lugares não é escassa, mas a procura abunda. Se o tempo estiver convidativo para tomar um copo para celebrar o fim da tarde, prefira a esplanada. Onde poderá jantar também.

 

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Bacalhau à Brás com azeitonas explosivas

 

Tem muito por onde escolher em matéria comestível, de matriz bem portuguesa.

Nas entradas, por exemplo, tártaro de polvo ou favinhas de coentrada.

Nos pratos principais, bacalhau à Brás com azeitonas explosivas (ou moleculares, segundo a patente registada por Ferran Adrià no mítico El Bulli), bacalhau assado com cebolada, pastéis de Lisboa com arroz de grelos, cachaço de porco com favinhas guisadas e enchidos.

Confesso: o meu preferido é bife de atum com manjericão – servido sobre migas de batatas.

 

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Bife de atum com manjericão

 

Nas sobremesas, queijos vários. Para os mais gulosos, torta de laranja com sorvete de laranja ou toucinho-do-céu de Lisboa com sorvete de framboesa. Ou um simples pastel de nata – outra forma de promover a doçaria nacional e alfacinha.

Para degustar num ritmo compassado, apreciando o panorama circundante e o prazer da companhia. Este Café Lisboa não merece menos.

 

Restaurante Café Lisboa

Largo de São Carlos, 23, Lisboa

Telefone 211 914 498

Horário: do meio-dia à meia-noite, todos os dias

Delito à mesa (13)


jpt,

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O “Ponto de Encontro” é o meu porto de abrigo aqui em Schaerbeek. Por cá a um estabelecimento como este chamam “petite restauration”, o que pode esconder muito, até apoucando-o. Por isso prefiro, e muito, tratá-lo pelo nosso antigo termo casa de pasto, o qual deixa antever um local de alimento e estada, convívio.

A gente sabe-o, negócios destes não vivem das “estrelas” dos críticos ou da publicidade. Mas muito dependem dos patrões, de como estes sabem acolher a clientela, vinculá-la. E aqui é mesmo a casa do casal Belchior, o Luís e a Sónia, que muito justificam o “cinco estrelas”, pois são gente com muito boa onda. Daquela rara de encontrar. Da qual se gosta não por qualquer atendimento particular, por alguma “atençãozinha” feita, pequeno favor ou informação. Simpatiza-se, e chega. E volta-se no dia seguinte.

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Alentejanos de Elvas, mas o Luís cresceu aqui no bairro (na “comuna”) até à adolescência, quando a sua família fez “torna-viagem”. Chegada a recente crise, trancada a actividade económica na zona, para cá voltou, num verdadeiro regresso à “origem”. E se a história local da imigração portuguesa sempre remete para a praça Flagey, em Ixelles, onde se agregaram os patrícios desde os anos 1960s (por lá está o Fernando Pessoa a simbolizá-lo), desde então que também houve um menos conhecido fluxo alentejano ancorando a Schaerbeek – e tanto que no quarteirão acima está ainda a antiga sede do clube “Campomaiorense”, encerrado há um ano. Por isso chegar ao “Ponto de Encontro” é encontrar um núcleo alentejano residente, de elvenses e de campomaiorenses em particular. Desde uns poucos de jovens recém-chegados, ainda quase glabros, até outros bem mais antigos, com meio século de Bruxelas, alguns também veteranos da guerra de Angola, com tanto mundo marchado.

Mas o que é muito significativo, demonstrando a qualidade do serviço e a excelência dos donos, é que tendo aberto o “Ponto de Encontro” em Outubro – antes exploraram um café distante apenas dois quarteirões – a casa não se encerrou na clientela portuguesa. Pois abundam os belgas, tantos deles acotovelando-se para o jogo das setas (o Luís é jogador federado, os jogos do campeonato nacional são constantes). Chegam espanhóis, romenos, ocasionais turcos, há um inglês habitual, e brasileiros, pois claro. É Schaerbeek, é Bruxelas, com a bela marca “Elvas”, “Alentejo” mas não nela encerrada. Anima. 

E há a comida. Sim, com a tal marca alentejana. Almoços durante a semana, e também jantares aos fins-de-semana. Nos quais a cozinha é reforçada pela amiga Sandra Madeira, elvense, claro está, imigrada há pouco e que antes explorou restaurantes em Elvas e Borba (“Sabores do Alentejo”). O cardápio é curto e variado, 3 pratos do dia nos sábados e domingos, 2 nos dias úteis. E o sistema é o de preço pelo “menu” (exceptuando a sobremesa).

Aqui partilho a bela memória do almoço de sábado passado:

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A sopa Juliana, que estava como deve-de-ser, e que fora antecipada pela mini Super-Bock e por um apetitoso cacho de azeitonas, que se apresentavam em estado muito meritório.

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O cesto de pão, com legítima manteiga Gresso, aqui acompanhado da até mítica água de Carvalhelhos.

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E o que convocara a atenção, migas com entrecosto. Não me é necessário adjectivar a qualidade do prato. Apenas refiro que os três convivas à mesa não deixaram migalha de migas, e roeram, despudoradamente, todas as fibras do saudado entrecosto. Saciados, com extremo agrado, foi como ficámos. Foi esta parte do repasto acompanhado de vinho da casa, dois copos de tinto Ermelinda Freitas por pessoa.

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Para a sobremesa aportou o não tão regional pudim Molotov, símbolo do acima referido cosmopolitismo da casa. Foi comido com agrado geral.

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E para rematar o café e a aguardente Mosca. A “bica” bem tirada, algo não tão usual assim por estas paragens (e outras). E a água-da-vida bem aprazível. Foi, aliás, repetida.

Preço? Com Molotov à parte – e, pormaior que julgo relevante, a dez minutos pedestres do coração do “bairro europeu”, a praça Schuman e sua chusma de restaurantes “italianos”, “irlandeses” e quejandos – o “menu” importa em 13 euros.

Em suma, belo repasto, excelente acolhimento, clientela simpática, e preço mais do que acessível. Quereis melhor conselho?

Ponto de Encontro, Av. Dailly, 150, 1030 Bruxelles (encerra às segundas-feiras)

Delito à mesa (12)


Pedro Correia,

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Vai sendo tempo de reabilitar a comida de forno e tacho, para travar o crescente predomínio dos grelhados. É o que sucede neste restaurante situado no centro histórico de Castelo Branco.

 

Tal como o nosso vocabulário comum tem vindo a comprimir-se em proporções assustadoras, tornando-se mais esquemático que nunca, também os nossos gostos alimentares se vão estreitando, sujeitos a modismos de importação e à ditadura dos grelhados. Felizmente há locais como este, capazes de reabilitar a ancestral comida de forno e tacho, que exige vagar, minúcia e requinte culinário – muito mais do que uma chapa quente num fogão para satisfazer clientelas apressadas.

Esta Cabra Preta, inaugurada em 2016 no centro histórico de Castelo Branco, passa com distinção no teste. E assume-se como digna herdeira do encerrado Praça Velha, que durante anos honrou os pergaminhos gastronómicos albicastrenses. Sendo novo, este estabelecimento sabe cultivar a memória, trazendo-nos à mesa a melhor tradição gastronómica beirã.

Aos apreciadores, recomenda-se o serrabulho, recém-premiado em concurso regional. Pode chegar como entrada ou como prato principal, neste caso acompanhado de ovos de cebolada, finas fatias de pão regional, arroz e feijão. Opção alternativa, para entreter o apetite enquanto se aguarda o manjar central, é a tiborna – pão acabado de sair do forno, regado com um fio de azeite e coroado com uma fatia de bom presunto.

 

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Serrabulho: entrada premiada

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Ensopado de veado, ex libris da casa

 

Quem optar pelo arroz de pato não sairá desiludido. Mas o que mais recomendo é o ensopado de veado, um dos cartazes gastronómicos da casa. Sem prescindir, ainda como entrada, dos suculentos cogumelos emporcalhados – salteados em azeite, com pedacinhos e chouriço e lombo, também a evocar-nos refeições de outros tempos. Siga a opção vinícola da casa, em branco ou tinto: Conde Villar, belo vinho alentejano, da Herdade de Penedo Gordo (Borba).

Castelo Branco já merecia um restaurante como este.  

 

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Restaurante Cabra Preta

Rua de Santa Maria, n.º 13, Castelo Branco

Telefone 272 030 303

Horário: 11.30-22.45. Encerra às terças e ao almoço de quarta-feira

Delito à mesa (11)


Pedro Correia,

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Em equipa que ganha não se mexe. A Adega do Chico, em Caminha, entrou na sétima década de vida mantendo o bacalhau da casa como prato emblemático.

 

Há coisas que não mudam. Ir a Caminha, no extremo norte do País, e apreciar o bacalhau à Chico é um prazer antigo sempre renovado. A Adega do Chico chama-se assim por ter sido fundada em 1957 por uma figura bem conhecida na vila, que respondia pela alcunha de Francisco dos Jornais. Era um tasco de características muito populares, que granjeava clientela graças à qualidade da cozinha. Com destaque para o famoso bacalhau, muito bem demolhado e frito em abundante cama de azeite e cebolada, servido com batatas fritas às rodelas. Uma dose do apreciado bicho, pescado em águas islandesas, chega à vontade para duas pessoas.

 

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                   Bacalhau à Chico, confeccionado com a cozinha à vista dos clientes

 

Há 36 anos na mesma família, que adquiriu o estabelecimento ao senhor Francisco, esta acolhedora Adega situada junto ao pano da muralha medieval da vila soube cultivar as características originais, conservando o caldo verde e o bacalhau como cartões de visita. As alternativas são escassas, mas suculentas: arroz do mar à chefe, robalo à marinheira, polvo cozido, cabrito à Serra de Arga. Tudo confeccionado pela cozinheira Elsa, sempre de acordo com a matriz original. Para acompanhar, e visto estarmos em zona de vinho verde, nada melhor do que um branco de Ponte de Lima.

 

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Também no exterior, a paisagem do passado ecoa no presente: a matriz, as tílias na praça central, a torre do relógio, o Coura desaguando no Minho, a silhueta tutelar da Serra d’ Arga e a massa imponente do Monte de Santa Tecla, já na Galiza. Apetece sempre regressar, a caminho de Caminha. 

 

Adega do Chico

Rua Visconde Sousa Rego, n.º 30, Caminha.

Telefone 258 921 781.

Horário: 12.00-15.00, 19.00-22.00. Encerra às quintas.

Delito à mesa (10)


Pedro Correia,

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Há restaurantes que nos conquistam à primeira. É o caso deste, situado num espaço rural, a escassos quilómetros de Alcobaça, na saída para norte.

 

Estamos num cenário de quinta. Real, não encenada. Há cavalos, cabras, cães, muitas flores. No topo de um cabeço, para fazer jus ao nome do restaurante. Com um panorama deslumbrante sobre a cidade que alberga o mais célebre mosteiro cisterciense português.

Conjugar a envolvência rústica com um inesperado requinte de cozinha de autor é o segredo deste restaurante, inaugurado em 2011 por um casal, Evelina e Pedro João. Viviam-se tempos de crise, a clientela escasseava, estiveram quase a fechar portas. Mas o esforço e a persistência recompensaram: hoje é raro o dia em que não têm as duas salas cheias. Convém fazer reservas, de terça a sábado. O Cabeço encerra aos domingos e segundas: este é o único defeito que lhe encontro.

 

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Folhado de queijo de cabra e croquetes de farinheira

 

Também se recomenda muito apetite. Desde logo para as entradinhas – folhado de queijo de cabra, croquetes de farinheira, patês variados. Fuja aos lugares-comuns: se quer frango na púcara, prato típico da região de Alcobaça, tem alternativas na própria cidade. Opte pela originalidade, este é o sítio certo. Sem fugir às raízes portuguesas.

 

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Bife de atum braseado com escabeche de maracujá

20180922_131538-1.jpgStrudel de pato com cogumelos

 

Algumas sugestões: cataplana de polvo, camarão frito à Cabeço, risoto de polvo, camarão e cogumelos, coxa de pato confitada com cogumelos salteados. Para mim, elejo bife de atum braseado, com escabeche de maracujá, juliana de legumes e esmagado de batata doce (peixe) ou strudel de pato com cogumelos (carne). Há menu infantil e opções vegetarianas. Vinho? Um Dorna Velha, da Quinta do Silva (Douro), branco, passou com distinção.

O atendimento é cordial: sentimo-nos em casa. Enquanto comemos, espraiamos o olhar pela magnífica paisagem circundante: um cenário relaxante, apaziguador. E apetece voltar, uma vez e outra.

 

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Restaurante O Cabeço

Rua D. Elvina Machado, 65, Bemposta, Alcobaça.

Telefone 914  500 202.

Horário: 12.30-14.00, 19.30-22.00. Encerra aos domingos e segundas.