
Começou a época da lenha e vou abrir uma box de crossfit a que vou chamar “Faça alguma coisa de útil.” Quem quiser ficar em forma pode inscrever-se.
De acordo com a preferências partidárias, os particantes poderão ser insentados de jóia.

Começou a época da lenha e vou abrir uma box de crossfit a que vou chamar “Faça alguma coisa de útil.” Quem quiser ficar em forma pode inscrever-se.
De acordo com a preferências partidárias, os particantes poderão ser insentados de jóia.
Bastaram três horas para que Rita Matias, deputada do Chega, partilhasse, ontem durante a tarde, na sua conta na rede social X quatro teorias falsas e desinformadas sobre uma atleta olímpica.
As mulheres também produzem testosterona naturalmente, já que esta não é uma hormona exclusiva dos homens. Uma mulher pode ter, inclusive, níveis altos de testosterona, uma condição conhecida como hiperandrogenismo que pode ser provocada pela síndrome do ovário policístico, sem que isso afecte o seu sistema reprodutor, algo que Rita Matias considera essencial para definir alguém como mulher. E com que Khelif nasceu.
Grace Huckins, doutoranda em neurociências na Universidade de Stanford, argumenta: “Porque é que a baixa produção de ácido láctico de Michael Phelps (que ajuda a evitar a fadiga muscular) ou a altura incomum do falecido jogador da NBA Manute Bol devem ser recompensadas, enquanto que o nível um pouco mais alto de testosterona numa mulher basta para a desqualificar?”
Esta gente nunca viu minhotas de bigode, com filhos a tiracolo? Hoje em dia, as mulheres depilam-se e esmeram-se nos seus cuidados de beleza, caso contrário, continuaríamos a ver muitas de bigode, barba, sobrancelhas unidas e pernas peludas (muitas delas, superando as dos homens). Em criança, tive uma vizinha, em Vila Nova de Gaia, com um bigode mais farto do que o do meu pai. Era casada e nunca ninguém a impediu de exercer a sua profissão de “mulher a dias” (como se dizia antigamente). Muita gente até lhe confiava a sua roupa para passar a ferro, imaginem! Se fosse hoje, a pobre da mulher bem ficava sem o seu pé-de-meia.
E depois as feministas é que são histéricas…
Há dois conceitos que evito associar às minhas reflexões ocasionais sobre o fenómeno desportivo – e o futebol em particular.
O primeiro é o conceito de justiça. Escuto e leio muitas análises aos jogos ancoradas neste conceito – «se houvesse justiça, a equipa X teria ganho»; «a vitória da equipa Y foi justa».
Ora, salvo no que se refere a procedimentos disciplinares, a justiça não é para aqui chamada. Um desafio de futebol não é uma audiência de tribunal. Aqui o importante é vencer – por uma margem muito dilatada, de preferência, mas se for pela diferença mínima também serve. Que se vença até por «meio golo», como na velha boutade das conversas de café.
Ao pretendermos explicar tudo em futebol recorrendo ao conceito de justiça, acabamos por não explicar nada. Porque aquilo a que por comodidade chamamos injustiça é uma espécie de lei não escrita imanente a todo o jogo. Uma das mais brilhantes proezas técnicas da carreira em campo de Cristiano Ronaldo foi aquilo a que se chama um golo limpo, “injustamente” anulado pelo árbitro por alegada deslocação de Nani numa vitória da selecção portuguesa contra a Espanha.
Eu estava lá – e vi. Nunca hei-de esquecer aquele golo, reproduzido aqui mais acima.
É inútil insistir no contrário: não existe uma justiça poética nos estádios que resgata os verdadeiros campeões, projectando-os da relva dos estádios para esse simulacro de Campos Elíseos a que se convencionou chamar verdade desportiva. Penso nisto todas as vezes que me lembro de um dos jogadores mais celebrados da história do futebol. Diego Maradona, ele mesmo. Um dos seus golos mais famosos – e decisivos – foi marcado com a mão, à margem das leis do jogo. Passou à eternidade não como infractor, mas como lenda viva.
Onde mora a justiça em tudo isto?
O segundo conceito é o de sorte.
Diz-se que Fulano é um sujeito com sorte ou que Beltrano, figura estimável, padece no entanto do facto confirmado por todas as evidências de não ser acompanhado por essa cobiçada deusa a que chamamos Sorte. E ninguém quer figuras tocadas pelo estigma do azar na sua equipa do coração.
A sorte conquista-se, constrói-se. Dá muito trabalho. Prefiro sempre usar a palavra mérito em vez da palavra sorte. E volto a Cristiano Ronaldo: desde cedo, ainda na escola desportiva de Alvalade, onde se formou para o futebol e para a vida, o campeão madeirense prolongava as sessões de treino, continuando a exercitar-se mesmo após a partida dos colegas. Aperfeiçoou e desenvolveu da melhor maneira as suas aptidões naturais. Ultrapassou a fronteira que separa os jeitosos (que é quanto basta quase sempre em Portugal) daqueles que têm verdadeiro talento.
A sorte ajuda? Pois ajuda. Mas não explica nada. Quando Cristiano, com um remate bem colocado, cheio de força, faz tremer o poste da baliza adversária, os analistas que adoram cultivar o lugar-comum dirão: «Teve azar.» Ele será o primeiro, no entanto, a reconhecer que esteve quase mas terá de esforçar-se ainda um pouco mais para a bola entrar na próxima vez. Que poderá ser já no minuto seguinte.

Foto de Robert Capa no Dia D (Normandia, 6 de Junho de 1944)
Experimentem usar mérito ou competência no lugar da palavra sorte.
Não é uma simples questão semântica: há toda uma filosofia de vida subjacente às palavras que escolhemos.
Cristiano Ronaldo está para o futebol como Robert Capa estava para as reportagens de guerra. Merecidamente distinguido em vida com o título de melhor repórter fotográfico da sua geração, Capa costumava dizer: «Se a foto não estava suficientemente boa é porque não estavas suficientemente perto.»
A sorte é isto. E constrói-se a todo o tempo por aqueles que beneficiam dela.
(créditos: Helsinki Times)
Marcados pelas medidas extremas relacionadas com a pandemia, pela falta de neve natural, um boicote político por parte de alguns países, a ausência de público, as más condições oferecidas a alguns, uma comida que ficou a desejar, a subserviência do COI aos interesses económicos, o impedimento e a criação de obstáculos ao livre acesso dos participantes à informação e à Internet, e uma intensa máquina de propaganda, os Jogos Olímpicos de Inverno chegaram ao fim.
Tal como em edições anteriores, não faltaram momentos de alegria e de drama, os recorrentes casos de doping, muitas lágrimas e sorrisos. E também choveram medalhas.
Se no tempo da Guerra Fria era por via dessa contabilidade medalhística que os blocos de então se procuravam afirmar para justificarem a superioridade dos modelos políticos e sociais que representavam, não menos verdade será que nos dias de hoje e com o reavivar de tensões à escala global se volte de novo a esse padrão.
É por isso inevitável, perante as bandeiras que foram agitadas e as acusações mútuas de politização dos Jogos, agora que as competições chegaram ao fim, que se volte a olhar para os quadros. Muitos balanços e análises poderão ser feitas, embora seja previsível que se termine sempre a olhar para as medalhas.
E quanto a estas há sempre duas maneiras de olhar para elas. Há quem privilegie o número total. Há quem prefira colocar a tónica apenas nas medalhas de ouro.
Olhando apenas para o total verifica-se que a Noruega sai a ganhar com 37, logo seguida da Rússia, com 32 – dizer que a Rússia não pode participar e que quem participa é o Comité Olímpico Russo é uma falácia do COI para enganar os tolos –, da Alemanha com 27, do Canadá com 26, dos EUA com 25, da Suécia e da Áustria ex aequo com 18, e dos Países Baixos e da Itália, ambos com 9.
Pela contabilidade dos ouros, a Noruega volta a vencer com 16 medalhas, seguida da Alemanha com 12, da China com 9, dos EUA, Suécia e Países Baixos todos com 8, da Áustria e da Suíça com 7, da Rússia com 6 e da França com 5.
Não deixa de ser curioso que países com uma população reduzida, e alguns também de pequenas dimensões, consigam estar à frente de outros muito maiores e mais poderosos que sentem uma necessidade quase permanente de vincarem o seu nacionalismo e patriotismo. A Noruega tem apenas 5,379 milhões de nacionais, a Suécia, a Suíça e a Áustria têm menos de 10 milhões, os Países Baixos menos de 18 milhões, enquanto a China tem 1,4 mil milhões, a Rússia 144 milhões, os EUA 329 milhões.
E se estabelecermos o paralelo com os Jogos Olímpico de Verão, em Tóquio, verificamos que aqui os EUA ficaram à frente tanto em medalhas de ouro (39) como no total (113), com a China em segundo lugar (38 ouro, 88 no total), surgindo logo a seguir o Japão (27 de ouro, 58 no total), a Grã-Bretanha (22 de ouro, 65 no total), a Rússia (20 de ouro, 71 no total), a Austrália (17 de ouro, 46 no total), os Países Baixos (10 de ouro, 36 no total) e a França (10 de ouro e 33 no total).
Há, todavia, uma contabilidade que nestes tempos conturbados que atravessamos também não pode deixar de ser feita. Porque se a Guerra Fria ficou lá atrás, se não faz muito sentido ver estes números em termos de blocos e alianças, há, todavia, uma comparação que se torna inevitável, posto que é essa que já no presente define as nossas escolhas e estará cada vez mais presente no futuro.
Trata-se da contabilidade entre os resultados obtidos por países democráticos e não-democráticos ou autocráticos. Por mais que nos tentem atirar areia para os olhos, ditaduras e totalitarismos não são conceitos diferentes de democracia. Não é possível falar de liberdade onde os nossos passos são permanentemente vigiados, seguidos e controlados, o acesso à informação é limitado, a liberdade de imprensa não existe, onde não é permitido o livre exercício de direitos básicos fundamentais consagrados internacionalmente, o número de filhos é controlado pelo Estado, onde é impossível afastar os incompetentes que exercem o mando e criticar o partido no poder ou o seu líder é um crime contra a segurança nacional e dá direito a prisão.
E quanto à contabilidade medalhística entre as democracias e autocracias, a verdade é que as primeiras dão uma cabazada às segundas. Até para proporcionarem condições de treino. O que só prova que também no desporto é necessária a liberdade para se garantir a prevalência de bons resultados. Por mais bandeirinhas que se agitem, por mais esmagadora que seja a propaganda, ou por todos os dólares que selem a “amizade” com os responsáveis do COI.

No desporto a regra é simples. Todos conhecem a regra. As infracções têm um preço.
Ou não terão?
“O Santos enfrentaria a seleção olímpica da Colômbia em jogo amistoso no dia 18 de Junho de 1968 em Bogotá.
Um estádio lotado ficou atônito quando o árbitro Guillermo Velasquez disse a Pelé para deixar o campo (os cartões vermelhos só seriam introduzidos em 1970) depois que o brasileiro cometeu uma falta em sobre um e, segundo Velázquez, o insultou.
Então, armou-se uma grande confusão : os jogadores do Santos cercaram furiosamente o árbitro e as fotos do jogo mostram Velázquez com um olho roxo.
A multidão também protestou contra a decisão.
Em uma entrevista de 2010, o árbitro disse que foi então instruído a deixar o jogo e ceder o apito a um dos fiscais de linha.
Pelé foi readmitido rapidamente no jogo.”
Grandes estrelas estarão acima da regra?
Perguntemos a Guillermo Velasquez! Aposto que ficou vacinado contra “ decisões precipitadas”.
Imagem do Google
![thumbnail_20210807_112049[1].jpg](https://delitodeopiniao.pt/images/2021/22145919_UwJRM.jpeg)
Parece-me haver aqui uma enorme contradição. Mais uma. O Governo mantém fortíssimas restrições à presença de público nas bancadas dos estádios – onde só um terço dos lugares podem ser preenchidos – enquanto decretou a partir de ontem o fim dos limites da lotação dos transportes públicos, que voltam a andar à pinha após ano e meio de drástica contenção.
Tenho dificuldade em descortinar um fio de lógica entre duas medidas tão díspares. Será mais provável alguém – mesmo exibindo certificado digital à entrada – ser contagiado com Covid-19 num espectáculo desportivo do que se for entalado entre dezenas de pessoas num transporte público onde ninguém pergunta a ninguém se já tomou vacinas?
Enfim, a meu ver isto apenas confirma o preconceito do Executivo relativamente ao desporto. Nada a que não estejamos habituados.


Não lhe basta ser medalhada na pista: também merece medalha pelo exemplo cívico que nos deu após ter subido ao pódio em Tóquio. Patrícia Mbengani Bravo Mamona, nascida há 32 anos no bairro lisboeta de Arroios, filha de pais angolanos, remou contra a maré com palavras simples e genuínas. Falando sem o menor complexo sobre a alegria que sente em ser portuguesa. Afirmando-se crente no trabalho metódico, na disciplina física e mental, no saudável espírito de competição capaz de ultrapassar obstáculos e derrotar inibições.
Tudo isto no rescaldo imediato do magnífico salto que a fez transpor a marca dos 15 metros no triplo salto. Só 24 outras mulheres alcançaram tal proeza no desporto mundial. Ela lutou durante anos para atingir este patamar. Já era a melhor de Portugal desde 2009, quando saltou 13,83m. Faltava-lhe a consagração olímpica, agora alcançada em Tóquio.
«É um orgulho para mim representar esta nação. Quero deixar o meu agradecimento a Portugal. Somos pequenos, mas somos grandes», afirmou a atleta do Sporting. Tinha motivos para isso: acabara de saltar 15,01m, sagrando-se vice-campeã olímpica e superando duas vezes o recorde nacional.
No seu português vibrante e límpido, com palavras que todos entendemos, disse o que por estes dias não escutamos a nenhum político – muito menos ao ministro da Educação, avesso a provas, exames, patamares competitivos. Politicamente incorrecta, Patrícia enalteceu o esforço, destacou a importância de fixar metas, garantiu que sem tenacidade nada se consegue. Exibindo brio patriótico, promovendo a cultura do mérito, dizendo que devemos ver-nos não como país pequeno mas como povo grande.
Não podia ser maior o contraste entre a refrescante mensagem de Patrícia e a rancorosa oratória daqueles que, como Joacine Katar Moreira e Mamadou Ba, jamais falam para o cidadão comum mas para claques tribais, num estendal de vitimização e ressentimento. Incapazes de abraçar a bandeira que tem a esfera armilar no centro, ao contrário do que fez a recordista nacional do triplo salto.
Foi um momento de redobrada alegria para quantos a vimos à distância nas primeiras Olimpíadas sem público da história, com bancadas vazias a pretexto do coronavírus, símbolo de uma civilização que troca o real pelo virtual e vive cercada de interdições. Num certame desportivo que se proclama de 2020 quando ocorre em 2021, como se o planeta tivesse ficado congelado no ano em que começou a pandemia.
O salto largo de Patrícia teve o condão de nos devolver um fragmento do mundo real. E a mensagem que nos transmitiu após ter concretizado o sonho foi mais inspiradora do que qualquer cartilha contaminada de ranço ideológico ou da nova tendência em curso que presta tributo à desistência. «Só queria dizer que todos são capazes. Pode demorar um bocadinho, mas pode acontecer», disse-nos ela.
Tão simples como isto.
Texto publicado no semanário Novo

Sim, o Governo trata os portugueses como cidadãos de segunda: sentimo-nos como gente estranha na nossa própria terra.
Isto tornou-se evidente quando as autoridades sanitárias viabilizaram a presença de público no jogo Chelsea-Manchester City, enquanto interditavam o acesso, mesmo muito limitado e circunscrito a pessoas devidamente testadas, de espectadores à partida final do campeonato nacional de râguebi, realizada no Jamor. A federação da modalidade fez um pedido formal, prontamente recusado pela DGS. Alegando razões de saúde pública inexistentes no desafio do Porto, também ocorrido a 29 de Maio.
Mesma data, mesma entidade pública, duas deliberações de carácter oposto: 500 portugueses proibidos de aceder às bancadas do Estádio Nacional, 16.500 ingleses autorizados a ver a final da Liga dos Campeões no Estádio do Dragão.
Uma discriminação totalmente intolerável.
Mas a duplicidade não termina aqui. Na véspera do jogo que opôs as duas equipas inglesas no Porto, a Assembleia da República aprovou a Lei n.º 33-A/2021, isentando do pagamento de IRS e de IRC todas as entidades estrangeiras envolvidas na organização daquela final. Incluindo «representantes e funcionários, clubes de futebol, respectivos desportistas e equipas técnicas, nomeadamente treinadores, equipas médicas e de segurança privada e outro pessoal de apoio».
Reza o diploma, espantosamente, que «esta isenção é apenas aplicável às entidades que não sejam consideradas residentes em território português». Um regime fiscal de excepção. Com Governo e Parlamento de cócoras perante os interesses futebolísticos da UEFA, organização internacional privada.
Fazem-nos sentir estrangeiros neste país a que chamamos nosso. Estranha sensação, inaceitável condição.
Alguns deles são capazes de cantar o hino de mão no peito, à americana. E de entoar loas patrioteiras no Dia de Portugal prestes a chegar. Já nada me espanta.

Em Agosto de 2019 tive a oportunidade de passar duas semanas a trabalhar na Malásia na companhia de colegas com os quais até aí só falara por telefone ou chat. Quis a sorte que os astros se alinhassem e que cá em casa pudéssemos tirar partido disto: a minha companheira conseguiu tirar férias, conseguimos comprar-lhe um bilhete, e lá fomos até ao Sudeste Asiático (em vôos separados, o que foi uma chatice, mas valeu a pena). Enquanto eu passei os dias a trabalhar, ela entreteve-se a passear por Kuala Lumpur – algo bastante conveniente também para mim, pois provavelmente não teria ido a metade dos sítios que visitei naqueles finais de tarde se não estivesse acompanhado (não sou grande turista, admito, enquanto a Ana planeou tudo, tratou de comprar bilhetes para os monumentos a visitar, etc).
No início da primeira semana calhou a visita à Torre de Kuala Lumpur. Saí do trabalho, meti-me num Grab (a versão local da Uber), e fui ter com a Ana à entrada da torre. Vista magnífica do topo, a dar a dimensão real da capital malaia. Naquele tempo ainda se viajava, pelo que não faltavam por ali turistas de inúmeras nacionalidades – percebíamos pelas palavras que íamos ouvindo, de idiomas europeus como o francês ou o italiano a idiomas asiáticos para nós incompreensíveis. E, como não podia deixar de ser, não éramos os únicos portugueses nas imediações – identificámos o casal como sendo português assim que saíram do elevandor, mesmo antes mesmo de os ouvirmos falar, pois o rapaz vestia uma camisola do Sporting.
Aqui talvez valha a pena explicar que dois dias antes (um dia e meio se considerarmos o fuso horário?) o Benfica tinha derrotado o Sporting por 5-0 na Supertaça.
Inevitavelmente, o primeiro pensamento que me ocorreu foi aproximar-se do meu compatriota, levantar a mão e dizer-lhe na língua de Camões “dá cá mais cinco”. Ainda nos rimos a imaginar a cena, eu e a Ana, que como eu é também benfiquista. Já o segundo pensamento – não sou muito impulsivo – foi um pouco mais empático: a dezasseis mil quilómetros de casa, com ar de quem tinha discutido com a namorada no elevador, e ainda a ressacar pela derrota distante contra o eterno rival, decerto que a última coisa que aquele rapaz quereria encontrar no topo daquela torre naquele magnífico fim de tarde seria um sacana de um benfiquista a gozar o prato. Seria cruel, convenhamos. Com isso em mente (e com algum instinto de auto-preservação, confesso – não sou especialmente bem constituído, estava para aí a trezentos metros de altitude, e a ciência ainda não me deu um jetpack), optei por não dizer nada. E continuámos, eu e a Ana, a deliciar-nos com aquela vista espantosa de Kuala Lumpur, que com o cair da noite se assemelhava mais e mais às vastas metrópoles da ficção científica cyberpunk de que ambos somos fãs (a fotografia lá no topo não é grande coisa pois nem a câmara nem o fotógrafo eram grande coisa, mas fica o registo).
Recupero esta memória, que hoje parece tão distante, no dia em que o Sporting se sagra campeão nacional de futebol. A esta altura do campeonato já não tinha nenhum cavalo nesta corrida – do pouco que vi do Benfica em campo não me pareceu que merecessem ganhar o que quer que seja, e fora do campo a coisa dá asco – pelo que o resultado do jogo de hoje me era mais ou menos indiferente. Por norma, se tiver de escolher entre o Porto e o Sporting até prefiro ver os leões a vencer, se bem que nunca saia a perder dos confrontos – afinal, as derrotas leoninas são sempre um bom pretexto para provocações malandras aos meus amigos sportingistas.
Mas a verdade é que são justamente esses amigos quem importa hoje. Os anos têm-me tornado mais introvertido, mas tenho a sorte de manter muito bons amigos – e, entre eles, vários sportinguistas. Alguns já ouviram (leram) as inevitáveis provocações em privado, claro, e ainda terei mais algumas para os próximos dias. As piadas, admita-se, até se escrevem sozinhas (da última vez que isto tinha acontecido ainda andava eu na escola secundária, agora só em 2040, etc). Mas hoje esses amigos estão felizes, tão felizes como eu estava naquele entardecer há dois Verões, numa cidade espantosa que até então nunca tinha pensado visitar; e eu, pela parte que me toca, fico feliz pelos meus amigos. Por isso, e porque o desporto vale nada sem fair play, dedico esta memória, estas provocações bem intencionadas e este texto mal amanhado (começa a faltar-me prática, a Teresa Ribeiro bem me avisou há uns anos num jantar do Delito) aos meus amigos lagartos de tantos e tantos anos – ao João e ao Jorge, ao Miguel e ao Fernando, à Susana e ao Ricardo. E ao nosso Pedro Correia, claro, e aos leões e às leoas do Delito. Hoje a festa é vossa – aproveitem!

“Double portugais au Mans. Filipe Albuquerque premier et António Félix da Costa deuxième en LMP2“”, titulava a notícia desta manhã. E não é caso para menos. O resultado fala por si num ano que está a ter tanto de estranho quanto de fantástico para o automobilismo e o motociclismo nacionais. A classe dos pilotos portugueses continua a brilhar mundo fora. Enquanto Miguel Oliveira ganhava lugares na Riviera de Rimini, depois de duas quedas nos treinos, partindo de 15.º para alcançar um notável quinto lugar e ser actualmente o primeiro dos pilotos da KTM no MotoGP, outros dois portugueses mostravam toda a sua classe nas 24 Horas de Le Mans na super competitiva classe de LMP2.
Para quem ainda tivesse dúvidas, caíram todas pouco depois da vigésima quarta hora no circuito de La Sarthe com a vitória de Filipe Albuquerque nas 24 Horas de Le Mans, no seguimento da pole position que fez para a corrida.
Com o António Félix da Costa, já campeão do mundo de Fórmula E, em segundo lugar na prova francesa deste fim-de-semana, Portugal passará a ter dentro de alguns dias dois campeões do mundo. Ao Filipe bastar-lhe-á alinhar à partida da última prova, no Barém (Bahrein), para inscrever o título de campeão do mundo de resistência no seu palmarés.
Para todos todos eles, mais do que um abraço de parabéns, segue daqui o meu obrigado pela classe que vão exibindo dentro e fora das pistas, e pela forma como, com o seu profissionalismo, honram o nome de Portugal.
Quem nos dera que fôssemos todos como estes.

(créditos: Arhur Chopin, ACO)
Foto: Tiago Petinga / Lusa
Para não variar, a directora-geral da Saúde voltou a fazer uma declaração inaceitável. Em que, uma vez mais, menospreza e subalterniza o desporto. Como se uma sociedade em que a prática desportiva organizada, promovida por agremiações clubísticas, não fosse parte iniludível da saúde, tanto na componente individual como colectiva.
A mesma responsável que autorizou viagens aéreas em voos lotados, o regresso dos concertos, das sessões de cinema, dos espectáculos teatrais, dos circos e das touradas, a mesma alta funcionária governamental que deu luz verde às manifestações e concentrações de rua promovidas por forças partidárias, movimentos cívicos ou grupos espontâneos de cidadãos, a mesma senhora que permitiu eventos tão diversos como a Festa do Avante no Seixal ou a realização do Grande Prémio de Fórmula 1 em Portimão continua a vetar o regresso do público aos recintos desportivos.
Com argumentos sem pés nem cabeça, confundindo aquilo que não deve ser confundido e até fazendo alusões demagógicas ao início do ano escolar, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as modalidades colectivas em geral e o futebol em particular.
«Público nos estádios e reabertura das discotecas não será certamente nos próximos tempos. Temos de ver esta grande experiência que é o retorno às aulas e qual será o seu impacto nos números», afirmou anteontem Graça Freitas. Equiparando assim as bancadas de um estádio – onde os lugares estão marcados, é muito fácil estabelecer limite máximo de entradas e o espectáculo decorre ao ar livre – ao interior de uma discoteca, onde o espaço é fechado, as pessoas estão sempre em trânsito e não há possibilidade de assegurar distanciamento físico.
Pior: ao englobar na mesma frase bancadas de estádios e discotecas nocturnas, Graça Freitas confirma ter absurdos preconceitos contra o futebol e não fazer a menor ideia sobre a importância do desporto no “desconfinamento” cada vez mais urgente da sociedade.
Como aqui assinalei, futebol sem público é futebol moribundo a curto prazo. Porque os clubes vivem de receitas – e as receitas de lugares nas bancadas ou camarotes, associadas à compra de adereços desportivos em complemento aos espectáculos, é fundamental para a sobrevivência de agremiações desportivas que põem centenas de milhares de portugueses a fazer exercício físico. Porque uma sociedade onde não se pratica desporto é uma sociedade doente.
Não compreender isto é nada compreender de essencial.
Noutras circunstâncias, eu recomendaria que Graça Freitas se aconselhasse com o secretário de Estado do Desporto. Mas não o faço porque João Paulo Rebelo já demonstrou ser tão insensível e tão ignorante na matéria como ela. Só isso explica que, numa recente entrevista, este governante tenha desvalorizado o facto de largos milhares de jovens continuarem impedidos de treinar ou competir sem restrições, dando-se até ao luxo de fazer uma graçola com a brutal quebra de receitas das agremiações desportivas: «Não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas.»
Seria simplesmente ridículo se não fosse grave.
Uma directora-geral que mete estádios e discotecas no mesmo saco, um secretário de Estado totalmente alheado do dramático quotidiano do sector confiado à sua tutela: assim vamos, seis meses após a declaração da pandemia.
De improviso em improviso, de disparate em disparate.

Apesar de já algumas vezes ter escrito sobre desporto aqui, habitualmente debruço-me sobre futebol. O curioso é que nunca o joguei de forma oficial, apenas com amigos. O desporto que pratiquei um total de cerca de 10 anos (entre adolescência e depois a partir dos 28) foi o basquetebol. Comecei a jogar basquetebol quando a RTP começou a mostrar aos domingos alguns resumos da NBA, com o seu clipe ao som de Joe Cocker a cantar You are so beautiful e que capturava o fascínio que o desporto e a liga ofereciam. Não comecei a jogar basquetebol por causa disso. Tinha apenas, a convite de um amigo, ir experimentar um treino e fiquei agarrado.
Ainda hoje não sei exactamente porquê. Talvez porque eu não era grande jogador de futebol e, aos 14 anos, isso condenava-me a uma existência fora do campo ou à defesa a dar pontapés na bola “lá prá frente”. O basquetebol obrigava todos os jogadores a envolverem-se na defesa e no ataque e introduzia um elemento de intelectualidade extra que não estava presente da mesma forma no futebol. No futebol havia tempo para pensar e a técnica (para quem a tinha) resolvia muitos problemas. O basquetebol exigia um pensamento mais rápido, a criação de padrões de movimentos (as jogadas) e acções pré-definidos. Havia, para um jogador menos talentoso como eu sempre fui, mais possibilidade de evoluir: Se soubesse compreender bem o jogo, poderia acompanhar jogadores de maior qualidade, coisa que não me era possível no futebol.
Nessa altura a referência da NBA eram os Detroit Pistons. Apanhei a fase dos Bad Boys, de Isiah Thomas, Joe Dumars, Dennis Rodman, Bill Laimbeer, Rick Mahorn, etc. Foram campeões em 1989 e 1990 e, apesar de não serem preferidos por muitos, ressonavam comigo, por terem encontrado uma forma diferente de competir e vencer. Ainda apanhei um pouco de Larry Bird (embora o tenha descoberto já bem mais tarde) e Magic Johnson e depois dos Pistons veio a era Chicago Bulls e Michael Jordan. Ainda acompanhei mais uns anos e segui a espaços a era de Popp (Gregg Popovich, o treinador actual e de então dos San Antonio Spurs) e o início dos Lakers de Kobe (Bryant). Depois disso perdi um pouco de vista a liga e não vi a revolução que surgiu nos últimos anos, muito graças a análises estatísticas do jogo.
Há no basquetebol um manancial de formas de análise estatística. Os mais conhecidos da maioria são os pontos, ressaltos e assistências por jogo. Eram basicamente os valores que eu via nos tempos em que seguia o desporto. A estes acresciam roubos de bola, blocos, turnovers (perdas de bola sem lançamento, só às vezes referidas) e dividiam-se os ressaltos em defensivos e ofensivos. E era essencialmente tudo. Hoje o jogo mudou e muito. Primeiro eu comecei a ver referência a percentagens de lançamento: de forma simples, qual a frequência com que um lançamento resultava num cesto. Estas eram tratadas de forma completamente global, no máximo separando os lançamentos livres. Um lançamento junto ao cesto era tratado da mesma forma que um lançamento a 2 metros da linha de 3 pontos. Com o tempo estes dados foram sendo expandidos.
As primeiras indicações vieram com a percentagem de lançamento efectiva (Effective Field Goal Percentage, eFG%, no original). Este dado veio mudar os cálculos, pois compreende que um cesto de 3 pontos vale 50% mais que um cesto de 2 pontos. Isto parece óbvio, mas veio mudar os valores das eficiências de lançamento. Uma vez que os lançamentos de 3 pontos tinham menos sucesso, quem os fazia com mais frequência era prejudicado quando olhando para as eficiências totais. Com o eFG%, jogadores mais pequenos que vivem no perímetro (i.e., mais afastados do cesto, habitualmente para lá da linha de 3 pontos) viram-se valorizados. Isto veio depois mudar tudo, ao trazer o foco do jogo para a eficiência de lançamento (já lá chegamos).
Outra revolução no cálculo do valor de equipas e jogadores surgiu com o Box Plus/Minus (BPM). Já existia desde os anos 70 mas eu pessoalmente não tinha visto muita informação sobre isso, talvez porque as minhas fontes até há pouco tempo eram os jornais portugueses e recentemente comecei a ler artigos em media (jornais, blogues, sites) americanos, que usam esta métrica em todas as análises. O BPM é essencialmente uma medida de quanto um jogador contribui em pontos, de forma positiva ou negativa, durante 100 posses de bola, em comparação com um jogador médio e a jogar numa equipa média na NBA. Essencialmente, qual a contribuição positiva ou negativa que um jogador terá.
Outros aspectos têm sido adicionados para refinar ainda mais a informação. Não só a maioria dos cálculos de eficiência são feitos por 100 posses de bola, quando é calculado um valor para um determinado jogador, não é feito tanto por jogo mas antes por 36 minutos, que é o tempo mais comum de jogo que a maior parte dos jogadores costumam ter (um jogo de basquetebol na NBA tem 4 partes de 12 minutos cada). Há ainda quem se dedique a calcular os valores retirando o que chamam de tempo-lixo (garbage time) que é o tempo em que um jogo está já decidido. Assim, se uma equipa entra nos últimos 2 minutos com uma vantagem de 20 ou mais pontos, habitualmente os treinadores começam a sentar os titulares para os poupar e ninguém se preocupa muito com o que acontece. Alguns jogadores aproveitavam no passado para melhorar as estatísticas nestas alturas, mas com as estatísticas a removerem este período, isso pouco adianta.
(Nota: há quem tenha tentado extender este conceito ao futebol e remover estes valores das estatísticas de marcadores de golos. De certa forma seria como dizer que os 3 golos que um Messi ou um Ronaldo marcariam nos últimos 20 minutos a terminar uma vitória por 6-0 não teriam valor (porque com 25 minutos para terminar o jogo estaria já a 3-0, essencialmente decidido). Isto contudo não faz sentido, porque no futebol os golos marcados e sofridos (especialmente a diferença entre os dois) conta para a classificação final. No basquetebol não serve para nada. Uma vitória por 60-40 ou 120-119 vale exactamente o mesmo.)
Esta foi a introdução ao nível de profundidade que a análise estatística no basquetebol conseguiu atingir. Note-se que se os americanos são obcecados por estatísticas, a maior parte das vezes costumávamos associá-las a desportos com paragens frequentes e programadas, como o futebol americano e o basebol. Um jogo mais fluido como o basquetebol habitualmente não era condizente com análises estatísticas complexas. Mas apesar de tudo isto, aquilo que veio mudar o basquetebol foi a reanálise da importância dos lançamentos de 3 pontos.
Os 3 Pontos

Quando eu jogava basquetebol (“jogava”, para ser generoso), não só seguia o basquetebol da NBA como o do campeonato nacional. Nessa altura as duas potências eram o Benfica e a Ovarense. O Benfica era treinado por Mário Palma e tinha jogadores como Jean Jacques, Guimarães, Mike Plowden e Carlos Lisboa (entre outros). A Ovarense tinha duas super-potências individuais: DJ (não consegui descobrir o seu nome completo) e Mario Ellie (que viria mais tarde a ser campeão da NBA com os San Antonio Spurs). O Benfica vencia mais (tinha maior quantidade de melhores jogadores e um treinador também muito bom) e o seu jogador mais destacado era Carlos Lisboa (hoje treinador, se não me engano). Era frequentemente falado, pelo menos entre os miúdos da minha idade, como o único jogador português que teria qualidade para jogar na NBA. O maior crime que lhe era apontado era a quantidade de triplos (lançamentos de 3 pontos) que tentava durante o jogo. (Isto era irónico porque pelo menos entre os meus amigos essa crítica vinha de adeptos do Sporting, que esqueciam que Lisboa tinha sido formado no clube deles).
Hoje a crítica seria dissipada e o valor de Lisboa visto mais pelo prisma da sua percentagem de lançamento de triplos (3PA). Isto porque desde há uns anos que as equipas na NBA se têm focado em aumentar, por vezes de forma dramática, o número de triplos tentados por jogo. Tudo começou em 2014 com um artigo científico que reflectia sobre a eficiência dos lançamentos em relação à sua localização, presença de defesas, e se tentados a partir do drible (off the dribble) ou após um passe (catch-and-shoot). Num artigo mais recente no site Fivethirtyeight, um estudo essencialmente cartográfico demonstra de forma mais simples esta importância. Abaixo mostro um dos gráficos deste artigo.

O gráfico demonstra de forma simples a importância do triplo. Apesar de ter percentagem mais baixa de concretização, os 50% extra de pontos mais que compensam essa perda de eficiência. Basicamente, cada triplo valerá pelo menos um ponto e só lançamentos perto do cesto valerão mais.
Isto significa que as equipas começaram a focar-se cada vez mais nos triplos. Os Houston Rockets desenvolveram toda a sua estratégia baseada nisto e têm como principal estrela James Harden, um jogador que não tem percentagens muito elevadas de triplos (36,5% ao longo da carreira, comparado com 41,9% e 43,6% para Klay Thompson e Stephen Curry, respectivamente, os chamados Splash Brothers dos Golden State Warriors). A diferença é que James Harden é capaz de tentar os triplos a um ritmo bastante mais intenso que Curry ou Thompson. Harden tentou 8,9 triplos por 36 minutos pelos Houston Rockets, com 9,3 de média desde 2014 e sempre a subir culminando numas ridículas 12,9 tentativas por jogo nesta última época. Para comparação, Thompson tentou de forma regular cerca de 8 tentativas por 36 minutos (8,2 de média) no mesmo período de tempo. Já Curry tentou 11.0 de média, mas de forma distinta, com uma enorme percentagem das suas tentativas a virem de bastante longe da linha de 3 pontos.
Aquilo que acontece com este aumento de lançamentos, especialmente na NBA, é que mais espaço acaba por surgir perto do cesto. Dado que na NBA só a defesa homem a homem é permitida (embora exista um pouco de flexibilidade nesse conceito), basta as equipas colocarem os seus jogadores no perímetro do ataque (junto à linha de 3 pontos) para atrair defesas e criar espaço para penetrações, assim aumentando a probabilidade de cestos de valor elevado: os que valem 1,20 pontos por lançamento no gráfico acima.

James Harden cumpre também este outro requisito, dado que é um jogador forte e rápido, portanto capaz de penetrações para o cesto e de concretizar outro tipo de tentativas. Além disso, sendo forte, também procura muito o contacto e consegue assim atrair faltas, o que o leva para a linha de lançamento livre e aumenta a sua produtividade. Neste último ano, com a segunda principal estrela dos Rockets (Chris Paul) lesionada por largos períodos de tempo, Harden atingiu valores estratoféricos de 35,4 pontos por 36 minutos.
Este último ano viu ainda a explosão de Giannis Antetokounmpo (Milwaukee Bucks), um jogador de uma capacidade de explosão impressionante e que beneficiou de um estilo de jogo onde os seus colegas se colocaram no perímetro e, sendo bons lançadores de triplos, atraíram os defesas abrindo espaço para as cavalgadas de Antetokounmpo que se tornou o jogador mais devastador da época regular.
Para permitir um bom uso dos lançadores de triplos, o jogo comçou a focar-se em jogadores capazes de ter um bom pick and roll, o movimento em que um jogador (sem bola) vai fazer o screen para impedir o movimento do defesa do colega que tem a bola (o pick) e depois roda na direcção do basquete para oferecer a esse mesmo colega a opção de passe (o roll). Como a maior parte das defesas trocam quando o screen é feito (o defesa do jogador com bola passa a defender o jogador que fez o screen), jogadores capazes de receber a bola e lançar ou distribuir tornam-se essenciais (o que explica a importância de um jogador como Draymond Green nos Golden State Warriors).
Temos então que os jogadores mais valiosos da NBA hoje em dia serão aqueles capazes de boas médias de triplos e capazes de penetrar facilmente para o cesto. Como para maximizar o seu jogo é importante ter bons jogadores no pick and roll, estes são também excelentes adições, especialmente se capazes de defender bem jogadores de tamanhos e estilos diferentes. Por fim, se além de terem bons lançamentos, os jogadores forem altos e tiverem boa envergadura para poderem lançar acima dos braços dos defesas, podem ser estrelas. É por isso que um jogador como Kawhi Leonard, que este ano foi o MVP das finais com os Toronto Raptors, é tão importante. É dos melhores defesas da NBA, tem uma envergadura invejável, lança bem e penetra bem.
Tudo isto significa que muita gente considera que a NBA é menos interessante de ver. Antigamente valorizavam-se mais os jogadores capazes de lançamentos de média distância com oposição. O jogo vivia mais das penetrações no meio de defesas densas (as regras também mudaram para punir mais as defesas) e jogadores como Jordan, Barkley e outros beneficiavam. Hoje a importância recai em jogadores capazes de jogar mais afastados do cesto e criarem os seus próprios lançamentos (especialmente de 3 pontos). É por isso que Lebron James, provavelmente o melhor jogador desde Jordan (alguns dirão de sempre) foi evoluindo o seu jogo, desde um penetrador explosivo para um lançador de distância. Claro que Jordan se teria provavelmente adaptado a esta era. A marca que o definia era a sua capacidade de se adaptar a cada situação e a encontrar sempre as soluções necessárias, mas o Jordan de 1995 não teria grande sucesso na NBA actual.
E assim vemos a evolução deste desporto. O estilo é menos espectacular, mas o númro de pontos por jogo aumentou dramaticamente. Há quem não goste, mas é o caminho que a análise estatística do jogo descobriu. No futuro irão surgir outros e espero que sejam tão fascinantes como este.
E Carlos Lisboa? Bom, a sua percentagem talvez não fosse muito elevada. Esta página indica um valor de 34,6% para triplos e 53,0% para eFG% em 15 jogos nas competições europeias, semelhantes aos valores de Harden. Isso não significa que tivesse capacidade de ser estrela (Harden distribuiu ao longo da carreira uma média de 6,5 assistências, contra as 1,1 de Lisboa, por exemplo), mas poderia ter sido um bom jogador a ter na equipa, para ajudar a espaçar o jogo (criar espaço para os colegas). Tivesse nascido 30 a 35 anos mais tarde, e Lisboa poderia de facto ter sido o primeiro português na NBA.
Outras leituras:
O lançamento de 3 pontos
Mais sobre a matemática dos lançamentos de 3 pontos
Mais sobre a análise dos 3 pontos, por um treinador
Continuando sobre a análise dos 3 pontos
A evolução dos Houston Rockets
A importância de Stephen Curry e a revolução que ele causou
Marcelo Gutierrez, um dos riders de downhill de topo a nivel mundial, veio em 2016 experimentar um dos trilhos na Serra de Sintra com os riders locais/Fotos: Red Bull
Um santuário pode ser um local de culto, de oração, mas pode ser também um refúgio, um sítio onde se encontra tranquilidade e distanciamento daquilo que é o tradicional quotidiano, com as suas rotinas e gentes. Cada pessoa terá o seu próprio conceito de santuário, o local que serve de escape àquilo que é a sua vivência diária, um espaço de índole quase sagrado, onde cada um vai explorar outros limites, viver diferentes experiências com outras pessoas, outras “tribos”.
“Apanhar” uma onda, escalar uma montanha, descer um trilho, mergulhar nas profundezas do mar ou fazer base jumping, são daqueles momentos pelos quais se anseia durante toda a semana e que assumem uma obrigação quase religiosa que, durante algumas horas, se sobrepõem à realidade diária, ao trabalho, à família, ao círculo dos amigos de sempre… É todo um outro mundo. São tempos de “retiro” físico e também espiritual, onde os cânones da normalidade não se aplicam e o que conta é explorar ao máximo os nossos limites. São aqueles momentos de libertação dos constrangimentos diários e das convenções sociais, dos problemas e das pressões, para dar lugar à adrenalina, a um estado de satisfação quase transcendente.
Nesses santuários encontramos outras gentes, normalmente ausentes do nosso circuito do dia-a-dia, mas que naquele contexto quase tribal são companheiros de aventura. Provavelmente, a maioria das pessoas não terá essa necessidade ou o ímpeto intrínseco para procurar outras realidades mais “extreme” que, de certa forma, sejam disruptivas mental e fisicamente com o quotidiano. Nunca perceberão a vontade suprema de uma pessoa, sem qualquer ambição de ser pró seja no que for, se “fazer” a uma onda, ou de pegar no seu skate para sacar umas manobras num qualquer cenário urbano e decadente da cidade, ou ainda de se meter em cima da “bike” e fazer umas descidas serra abaixo.
Ryan Dicenzo, um dos skaters profissionais da equipa da Globe que esteve há uns meses em Lisboa, a sacar um ollie abusado sobre dois lanços de escadas algures num bairro nada turístico da cidade de Lisboa/Foto: Thrasher Magazine/Globe.
De certa maneira, tal como um crente procura conforto e uma certa paz interior numa missa de Domingo de manhã, junto de pessoas que naquela circunstância e momento partilham uma ideal comum, também um surfista, um skater ou um rider espera encontrar no seu santuário a serenidade necessária para se transcender para um outro estádio físico e mental. Quando encontramos esse tal santuário, normalmente é uma relação para a vida, porque dificilmente abdicaremos daquilo que nos proporciona sensações únicas. Infelizmente, os santuários não são locais herméticos e podem acabar por ser desvirtuados pelas dinâmicas das próprias sociedades, sendo que, muitas vezes, não há sequer essa consciência da parte de quem “invade” massivamente (com todo o direito, note-se) determinados espaços, que foram locais de conforto para tribos antigas.
Um dos exemplos desta realidade tem a ver com o recente fenómeno “trendy” dos “trail runners”, cuja massificação se faz sentir de forma particularmente intrusiva naquele que sempre foi o meu santuário na Serra de Sintra, tido há muitos anos como um dos melhores spots em Portugal e na Europa para a prática de BTT nas vertentes Enduro e Downhill. Desde sempre, houve uma relação harmoniosa entre a tribo local e o ambiente, com a aventura a iniciar-se no mesmo ponto de encontro, aos primeiros raios de sol dos sábados e domingos, juntando alguns riders, num clima sereno, mas devoto à aventura. Foi assim durante anos. Custa agora ver ali uma mudança praticamente imparável.
O brasileiro Gabriel Medina na final do Meo Rip Curl Pro Portugal de 2017, em Peniche
Aquele que foi um ponto de encontro sagrado dos riders nativos, é agora alvo de uma invasão massiva de carros que despejam dezenas de “trail runners”, muitos deles em grandes grupos, por vezes, ruidosos e demonstrando um entusiasmo histriónico na descoberta de um mundo novo, acabando por desrespeitar, de forma inconsciente, é certo, as tribos ali instaladas há muitos anos. É um pouco como no turismo de massas em Lisboa, no qual se reconhece o seu direito e algumas virtudes, mas é impossível negar o custo que isso implica na vivência das comunidades autóctones e na descaracterização dos locais. Os tais santuários que sempre foram local de culto ficam comprometidos.
Esta questão, no entanto, merece um olhar mais sociológico. Ao contrário daquilo que são as actividades mais “extreme” de carácter tribal que, por natureza, são disruptivas com o quotidiano e irreverentes com as normas sociais instaladas, o fenómeno do “trail running” resulta precisamente da aceitação das normas, numa lógica urbana e cosmopolita, associada a um estilo de vida regulado e organizado, dotado de um certo “status”. Não é por isso de estranhar que o “trail running” tenha surgido de rompante como uma tendência de massas, como tantas outras que surgem nestes tempos onde impera a ditadura do politicamente correcto e dos hábitos “saudáveis”, ao contrário de modalidades como o surf, o skate ou o BTT, que nos seus primórdios apareceram como elementos de contra-corrente ou contra-cultura.
Compreende-se, por isso, que o “trail running” esteja muito instalado em quadros de empresas e organizações, como elemento agregador e modernizador. Também no seio dos amigos e famílias, é uma actividade socializante e potenciadora de práticas “saudáveis”. No fundo, e é aqui que reside a grande diferença com as actividades de matriz “subversiva” ou “irreverente”, o “trail running” acaba por ser uma extensão social das vivências diárias, de uma lógica “mainstream”, fruto das novas tendências urbanas e cosmopolitas. Não é que isso tenha algum mal, até porque a prática do desporto é sempre louvável, mas para quem sempre ansiou pelo fim-de-semana, de modo a pegar na bike e ir ao santuário para se reunir com a tribo, é uma desolação espiritual começar a manhã rodeado de carros e pessoas, pondo em causa o equilíbrio de um ambiente que devia ser sagrado e imune à “contaminação” pelos hábitos e comportamentos das vivências diárias da urbe e das cenas “trendy” da sociedade cosmopolita.

No desporto há dois tipos de vencedores: aqueles que, de acordo com as suas competências e capacidades, vão gerindo a sua carreira de forma metódica e cuidada, com muito trabalho e empenho, apoiando-se e confiando numa equipa para alcançar os seus êxitos; e há aqueles que, para lá disso tudo e do talento que é sempre preciso ter, emanam uma forte paixão, uma estética intangível, uma irreverência e um espírito combativo destemido, muitas vezes em desafios quase condenados ao fracasso. São aqueles atletas que arriscam sempre, que vão contra tudo e contra todos. São aqueles atletas que emocionam, que fazem sonhar, que levam crianças e adultos a chorar pelos seus feitos ou desaires. Alberto Contador é um desses atletas. O que se viu este Sábado na penúltima e decisiva etapa da Vuelta na subida ao mítico Alto do Angliru foi grandioso e memorável, daqueles momentos que ficam na memória de todos os que gostam de desporto, em geral, e de ciclismo, em particular. Era o último desafio de Contador antes de terminar a sua carreira, com o fim da Vuelta este Domingo. Ele sabia que tinha de chegar em primeiro ao topo do “inferno” do Angliru. Todos nós esperávamos isso, como se tratasse de um final épico cinematográfico. Contador atacou logo ao início da subida e foi passando por todos os ciclistas à sua frente. Paixão, sacrifício, talento, arte… deixou tudo na estrada, ao mesmo tempo que era retribuído pela euforia de milhares de pessoas em delírio. No fim, ganhou. O desporto assim, é simplesmente belo.
Mais uma edição do Red Bull Rampage nas montanhas do Utah. Alucinante a run do vencedor.
E o tempo de Jogos Olímpicos e já tenho andado a ver nas redes sociais e nos jornais os comentários habituais às prestações de atletas portugueses. Em resumo, que é uma vergonha, que andamos a pagar para eles fazerem isto (seja lá o que “isto” for), que não trazem medalhas, que se é para baterem recordes nacionais também o podem fazer em casa (li em tempos um comentário do género salvo erro a Eduardo Pitta), etc e tal. Alguns dos comentários mais recentes debruçaram-se sobre o quinto lugar de João Pereira que não chegou a ser uma medalha, nos resultados dos canoístas que não chegaram lá e nos nossos triplistas em que pelo menos Nélson Évora é desculpado porque no passado já foi ouro.
Uma das respostas padrão passa por perguntar quem mais pode dizer que é dos oito melhores do mundo ou sequer o melhor português naquilo que faz. Outra passa por dizer que quem questiona não sabe do que fala (que será verdade na maioria das situações). Eu prefiro uma outra opção: respeite-se antes de mais o esforço de quem chegou àquele nível (passando por muitos sacrifícios pessoais ou não) e de quem estava a cumprir a sua função. É o mesmo respeito que é devido a um empregado de balcão, a um médico, a um varredor de ruas, a um padre, a um operário, a um ministro ou a um polícia. É o respeito devido a quem faz o seu trabalho.
Há no entanto a necessidade de dissecarmos as prestações por duas perspectivas: a) em comparação com as expectativas e, b) como resultado de um investimento no atleta. Farei isso abaixo.
Comparação com as expectativas
Este é o ponto em que as críticas são mais fáceis. O atleta é o segundo ou terceiro do ranking e só conseguiu ir à final. Ou então o máximo que conseguiu foi bater o recorde nacional/pessoal e ficou nas eliminatórias. Ou então nem sequer bateu o recorde pessoal. Todas estas expectativas tendem a esquecer um aspecto simples: estas provas são de competição. Ou seja, mesmo que o atleta tenha a sua melhor prestação de sempre, há outros atletas que poderão ter uma prestação melhor. Nalguns casos esses mesmos atletas superar-se-ão com as suas melhores marcas de sempre ou perto disso. Nelson Évora foi campeão mundial em 2007 e olímpico em 2008 com as suas melhor e segunda melhor marcas por larga distância. Quem ficou abaixo dele não se poderia queixar do seu falhanço, antes e apenas do brilhantismo de Évora. Já quem bate recordes nacionais ou pessoais pode não conseguir ir muito longe, mas estará certamente a dar o seu melhor. Que a competição seja ainda melhor não é culpa pessoal.
Mesmo o caso de prestações abaixo do seu melhor podem ter fortes atenuantes. Há provas que nas grandes competições são exclusivamente tácticas e onde as marcas serão sempre abaixo do melhor dos atletas em prova )nas meia e longa distâncias no atletismo, por exemplo). Há também situações em que as condições não são iguais às ideais (uma prova de tiro com arco sob vento intenso, por exemplo). E ainda há os casos em que os atletas têm um mau dia ou estão a competir em condições de que não gostam (o maratonistas António Pinto não gostava de correr com calor, e o mal-amado Marco Fortes ficou para sempre marcado pelo comentário da caminha). Quem nunca teve um mau dia num dia importante que atire a primeira pedra.
As expectativas são importantes. Apresentam um objectivo a atingir, e oferecem a motivação para se seguir um plano para lá chegar. Há no entanto o simples facto de ser necessário ter condições – técnicas, humanas, médicas, etc – para atingir esse objectivo. E esse é um aspecto em que Portugal falha. O que nos leva às…
Expectativas em resultado de um investimento
O país investe, os atletas recebem e o povo espera… medalhas. É assim? Bom, numa palavra: não. Deveria ser de facto assim, mas há que considerar o investimento feito. Vamos a números. De acordo com o que eu leio no documento do Comité Olímpico Português “Programa Desportivo – Preparação Olímpica RIO 2016“, os montantes que um atleta de escalão máximo poderia receber seria de 1.375 € (para o atleta) e 1.100 € (para o treinador) por mês. Mesmo que estes valores sejam líquidos (não encontrei referência a tal), não se pode dizer que seja muito.
Para que se compreenda, lembremos que os atletas, além de serem pessoas que têm despesas normais (casa, transportes, água, luz, gás, roupa, etc), também têm despesas específicas. Entre elas estão:
Quando se levam estas despesas em consideração, a verdade é que 2.475 €/mês não é muito para a alta competição de nível internacional. Parte do tempo do atleta tem então de ser passado em angariação de fundos, seja em acções de publicidade (para aqueles que tenham a priori atingido notoriedade suficiente para tal) ou em busca de patrocinadores. Esse tempo é tempo que não é passado a treinar, competir ou descansar.
Para se ter uma ideia do que pode acontecer com os investimentos não é preciso ir mais longe que a Grã-Bretanha. Em 1996 tiveram uma colheita de 15 medalhas, apenas uma de ouro. Um investimento sem precedentes nas suas modalidades através das receitas da lotaria nacional e 16 anos depois, mesmo que em casa, chegaram às 65 (29 de ouro). O investimento para o ciclo dos JO de Londres de 2009-12 foi de 312 milhões de libras. O investimento para os 92 atletas portugueses, se tivessem sido todos de alta competição e os de modalidades colectivas recebessem o mesmo que os individuais, teria sido de cerca de 11 milhões de euros. A diferença é significativa.
A verdade é que para se ter acesso aos melhores métodos, melhores treinadores, melhores equipamentos, melhores competições (que implica aprender com os melhores adversários) para se poder ter a melhor preparação possível, tudo isto custa muito dinheiro. Muito mais dinheiro que aquele que se consegue obter através de uma mera bolsa olímpica, mesmo que de nível máximo. Se os portugueses não quiserem fazer investimento público nos atletas olímpicos, isso é uma opção como qualquer outra. Mas nesse caso não se venha pedir a quem sacrifica o seu tempo, os seus estudos, o seu trabalho, as suas horas de lazer, a sua vida familiar e privada, etc, em função das cerca de três semanas nuns longínquos 4 anos no futuro, que obtenha classificações com as quais só podemos sonhar.
Não são atletas a criticar. São pessoas para nos inspirar.
Li esta notícia ontem. Anuncia que Portugal terminou os Primeiros Jogos da Trissomia, em Itália, com 33 medalhas, seis delas de ouro, numa espécie de Olimpíadas que juntaram cerca de 750 competidores de 36 países.
Confesso que a princípio achei que estava no meio de um skech dos Gato Fedorento, tipo ah e tal, agora até os trissómicos portugueses são melhores do que os outros, querem lá ver. Mas depois pareceu-me óbvio o motivo que está por detrás deste sucesso.
Portugal é um dos países mais avançados em termos de integração. Neste momento, virtualmente todas as crianças com trissomia 21 frequentam sistema regular de ensino. E, a par com isso, praticam actividades em ambiente não exclusivo. Lá vão para a natação, para o judo, para os escuteiros, para o pingue-pongue, para a ginástica, ou seja lá para onde for, treinar em conjunto com crianças perfeitamente normais.
Isto torna a fasquia alta. Faz com que cada um deles, não obstante as suas dificuldades, se paute pela normalidade.
E este ambiente, que só é possível porque quer os pais, quer os treinadores, acreditam que eles são capazes, faz com que consigam realmente superar qualquer expectativa. É este ambiente que faz deles campeões.
Na maior parte dos países, mesmo nos mais avançados, estas crianças são colocadas em ambientes exclusivos. É perfeitamente defensável dizer que há vantagens nessa opção: trabalham com professores mais preparados, fazem desporto adaptado às suas dificuldades e convivem na maior parte do seu tempo com os seus pares. Mas, do meu ponto de vista, são menos desafiados. É como se criássemos escolas para crianças tímidas para não correrem o risco de sofrerem bullying. Seria certamente mais confortável, mas muito menos enriquecedor na preparação para a vida.
Como tenho um projecto de vida para a minha filha, que passa por muito mais do que assumir a sua deficiência e cruzar os braços, defendo ferozmente a integração.
Quero para ela o que quero para os outro filhos: que seja autónoma e feliz. Sei que, no caso dela, a rota é diferente e que vai tendo de ser adaptada. Mas tenho a certeza de que se não a puser a olhar para cima, ela não vai saber onde tem de chegar.
Portugal conquista sete medalhas na Taça do Mundo de Canoagem.
Primeira medalha portuguesa de natação ao fim de 31 anos.
Katarina Larsson, do Sporting, campeã europeia de triatlo.
Surfista portuguesa Teresa Bonvalot campeã europeia de juniores
Ciclismo: Ivo Oliveira sagra-se vice-campeão europeu de perseguição.
Portugal vence campeonato internacional de columbofilia.
Moscatel roxo de Setúbal traz título mundial para o nosso país.