Fossa Trump seria justa homenagem


Pedro Correia,
Presidente dos EUA cada vez mais viciado em si próprio

Donald Trump actua como toxicómano, viciado em drogas duras. Mas com uma originalidade: é viciado em si próprio. Isto ficou patente logo no discurso de posse, a 20 de Janeiro de 2025 – o discurso do “ai… ai… ai… ai…” Quando proferiu trinta e quatro vezes a palavra eu – aberração que constitui todo um programa, como na altura aqui escrevi.

Insaciável no consumo de si próprio, sem metadona que lhe valha, o bilionário de Mar-a-Lago fez rebaptizar com o seu nome o prestigiado Centro Kennedy, em Washington – medida digna de Rei-Sol felizmente revogada pela justiça federal meses depois. Mas a principal auto-estrada de Marrocos, com mais de mil quilómetros de extensão, irá chamar-se Donald Trump, tal como já acontece com o aeroporto internacional de Palm Beach, no sul da Florida. E tem feito máxima pressão para que a nova nota de 250 dólares (até agora inexistente nos EUA) seja ilustrada com as ventas dele.

A legião de lambe-botas que o rodeia vem fazendo novas sugestões para imortalizar o Supremo Líder das formas mais estrambólicas. Eis um exemplo: incluir aquela cabeça de abóbora junto a Lincoln, Washington, Jefferson e Teddy Roosevelt no emblemático Monte Rushmore. Outro: designar 14 de Junho, data de aniversário do sucessor de Joe Biden, como feriado federal. Coladinho ao Santo António, feriado municipal em Lisboa.

Ainda me parece pouco: há que ser mais arrojado e criativo. Proponho desde já que o Triângulo das Bermudas passe a denominar-se Triângulo Trump. E que a Fossa das Marianas – o ponto mais fundo do planeta, no Oceano Pacífico – fique a partir de agora conhecida por Fossa Trump.

Seria homenagem bem merecida.

Lanço a ideia para debate, aguardo opiniões e contributos.

A batota não compensa


Pedro Correia,

A manobra baixa da parceria Trump-Infantino não funcionou. Ou antes: funcionou ao contrário, dando moral à excelente selecção belga que esta madrugada impôs à anfitriã, em Seattle, a maior goleada da prova até agora. O banalíssimo conjunto dos EUA, com o punido-mas-perdoado dianteiro Balogun no onze titular, sai de cena nos oitavos-de-final, aliás como as selecções do Canadá e do México, países também palco de jogos deste Mundial-26.

Confirma-se assim que a batota não compensa. A Bélgica, mesmo com a grave lesão de Onana, um dos seus melhores, foi muito superior, vulgarizando a turma dos Estados Unidos. Afinal de contas os “esteróides” trumpistas redundaram em insucesso. MAGA virou MATA: Make America Tiny Again.

E eis-me assim, graças às contingências da política quando se intromete no desporto, agora inesperado apoiante da selecção belga – algo que jamais me passaria pela cabeça. Deve ser por coisas destas que alguns catedráticos do esférico tanto falam no “sortilégio do futebol”.

“Magistratura de influência”


Pedro Correia,

Com Gianni Infantino, a FIFA bateu no fundo.

Ao ponto de bastar um telefonema de Donald Trump para o líder máximo da Federação Internacional de Futebol se envolver pessoalmente numa decisão da arbitragem, em pleno Campeonato do Mundo disputado na América do Norte. E reverter um cartão vermelho exibido a Balogun, goleador da selecção dos EUA, que assim contará com ele no desafio dos oitavos-de-final, contra a Bélgica.

Trump meteu a cunha – e, como é seu hábito, não fez segredo disso. Infantino dobrou-se a tal ponto, em vénia ao poderoso inquilino da Casa Branca, que terá tocado com o queixo no chão. A última vez que houve notícia de um jogador despenalizado por interferência directa da FIFA foi em 1962, no Mundial do Chile.

Caso óbvio de “magistratura de influência”? Sem dúvida. Talvez inserida no programa das celebrações do 250.ª aniversário da independência dos Estados Unidos da América.

Se o belicista Trump ficou sem Nobel da Paz, Infantino não rejeita oferecer-lhe de bandeja o campeonato do mundo de futebol e proclamá-lo até como imperador do esférico, rei universal dos pontas-de-lança, monarca absoluto da impunidade desportiva.

Admiração? Nenhuma. Este é o mesmo Infantino que em Dezembro do ano passado se apressou a distingui-lo com o “Prémio da Paz da FIFA”, galardão criado só para o magnata de Mar-a-Lago.

É verdade que os EUA nasceram em 1776 como acto de rebeldia de 13 colónias inglesas no Novo Mundo contra a monarquia hereditária em Londres, mas no mundo contemporâneo não existe conceito tão fluido como república. Como se comprova, por exemplo na “República Popular Democrática” da Coreia e na “República” Islâmica do Irão.

Trump, que nunca aceitou a derrota de Novembro de 2020 contra Joe Biden, não se calaria perante um cartão vermelho ao seu avançado de eleição. Exarou decreto – e o submisso Infantino obedeceu.

Dizem-me, e com razão, que critico com liberalidade o esposo de Melania Trump. Agradeço o elogio, mas faço uma ressalva: verdadeiramente desprezível, para mim, é a corte de invertebrados que o rodeiam e lhe prestam vassalagem a toda a hora.

Trump só faz o que faz porque eles são como são.

Diamonds Are a Girl’s Best Friend


jpt,

 

 

(“Diamonds Are a Girl’s Best Friend”, de Jule Styne. Canção escrita para o musical na Broadway ficou celebrizada no filme “Os Homens Preferem as Louras” de 1953, assinado por Howard Hawks e assente no duo Jane Russell e Marilyn Monroe)

Trump é um incessante tópico. Imensa gente escreve sobre ele, tentando interpretá-lo e prever o futuro que influencia. Na Notus-News of United States, John Judis, publicou “Trump as Alexander the Great: A Theory That Explains Iran (And Everything Else)”, coincidente com o artigoThe YOLO Presidency: Trump is focused on becoming one of history’s “great men”, de Ashley Parker and Michael Scherer. Em ambos os textos (críticos) Trump surge como imbuído do estatuto hegeliano de “Grande Homem” (herói universal), essas personagens históricas que carregam o “Espírito” do tempo, e transformam a realidade global, mesmo que não compreendam os motivos e as direcções das suas acções – como Júlio César causando o Império e Napoleão exterminando o feudalismo europeu, para seguir os exemplos de Hegel. E agora Trump assassinando a era do liberalismo, a ordem internacional aparentemente vigente pelo menos desde o colapso do comunismo europeu.

Pouco importa se os textos sobreviverão aos tempos – ou seja, se são diagnósticos com “pernas para andar…”. Mas o certo é que todos – dos populares nos cafés e redes sociais aos dignitários em conciliábulos internacionais – cirandamos em torno do que o homem vai dizendo e fazendo, pois não deixa ninguém indiferente.

Nessa azáfama opinativa e reactiva têm surgido algumas peças relevantes, Trump é um bom dínamo de oratória. Pois o contexto internacional decerto que influenciou o importante discurso do Papa em Luanda (que referi aqui), politicamente mais incisivo do que o habitual em “Santos Padres” – isto para além do inusitado “bate-boca” entre a Casa Branca e o Vaticano que então ocorria. Mas mais explícito foi o aclamado discurso – até manifesto liberal – do canadiano Mark Carney em Davos (que abordei aqui, ecoando as perspicazes reservas de Kasparov com os efeitos do discurso).

E agora a verdadeira pérola, o discurso de Carlos III no Congresso nos EUA (coloquei aqui a gravação completa) – momento sublime que decerto ocasionará um filme que virá a ser galardoado, pelo menos nos britânicos Prémios BAFTA. Como referi neste meu postal, no Congresso norte-americano o Rei Carlos III clamou “No Kings”. Com verdadeiro brilhantismo e finíssima ironia, defendendo a ordem democrática, a coesão intra-social, a solidariedade internacional, a coexistência ecuménica. Uma verdadeira Lição, que lhe garantiu um lugar mais elevado na História do seu país.

Ouvindo o discurso lembrei-me das acusações de “racismo” à família real inglesa, há anos colocadas na imprensa americana mais “liberal” (no sentido americana de “esquerda”) pela actriz Meghan Markle, a duquesa nora de Carlos III – entretanto saída de cena, tal como o seu marido. Que logo foram adoptadas não só nesse meio jornalístico, como também nas elites intelectuais-artísticas do Partido Democrata, enlevadas no frenesim “identitarista”. E até, com evidente desnorte diplomático, pela célebre mulher do antigo presidente Obama. E perguntei-me: o que dirão agora os “identitaristas”-“democratas” norte-americanos? Face ao garbo e à pertinência do Rei britânico?

Fui logo respondido, nos dias seguintes mesmo. Há poucos meses Zohran Mamdani fora eleito presidente da câmara de Nova Iorque, propagando uma agenda política de grandes investimentos estatais benevolentes. A nossa imprensa – e não só – acolheu o facto com júbilo. Jornalistas e comentadores fiéis à mundividência racialista viram a vitória do “socialista” como racialmente importante. E saudaram o sucesso de um filho de imigrantes, “racializados”. (De facto, Mamdani é um filho de expatriados – o grande académico Mahmood Mamdani e a conhecida realizadora Mira Nair – , coisa sociologicamente diferente, mas isso pouco conta para os empenhados alunos de raciologia).

Nos dias prévios à visita de Carlos III Mamdani anunciou-se bloqueado por problemas orçamentais. Não dei grande atenção, apenas me lembrei, por evidente associação de ideias, do dueto Tsipras & Varoufakis, que tanto mimo colheu há uma década por parte da nossa imprensa e políticos então geringôncicos.

Entretanto Carlos III fez o seu discurso fundamental em Washington, aclamado pelos democratas de diferentes tendências. E seguiu para Nova Iorque, em homenagem às vítimas do atentado às Torres Gémeas, ocorrido há já 25 anos. Mamdani, o “socialista” identitarista, que fez? Apesar do contexto geral, apesar da prestação do rei britânico, renuncia a um encontro individual com o real visitante. E faz constar que se o fizesse seria para lhe “exigir” a restituição do diamante the Koh-i-Noor, tudo assim subordinando à agenda “decolonial” em voga.

É de uma superficialidade inenarrável, típica deste esquerdismo global. De facto, só lhe(s) fica mesmo isso do “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Bem ao invés, diga-se, das magníficas Jane Russell e Marilyn Monroe que acima coloco. Pois essas eram actrizes, excelentes. E este é só isto…

(Postal que é a primeira parcela da Gazeta Semanal no meu blog “O Pimentel“)

Trump


Pedro Correia,

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Repetem-se imagens de Trump, declarações de Trump, comentários sobre comentários sobre comentários acerca de Trump.

Que indigestão. Não se aguenta.

O calcanhar do menino do papá


Pedro Correia,

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Incapaz de desatar o nó do Golfo Pérsico, onde as forças armadas norte-americanas estão atoladas, Donald Trump diz agora que ele teria vencido a guerra do Vietname «muito rapidamente».

É fácil falar, mais de meio século depois. Demasiado fácil até, tratando-se de alguém que fugiu dessa guerra quando foi chamado a prestar serviço militar.

Nascido em 1946, Trump festejou 20 anos no auge da intervenção norte-americana na Indochina. Mas esquivou-se a vestir farda, com cinco adiamentos sucessivos – os quatro primeiros invocando a sua condição de estudante de Economia, o quinto alegando ter um «esporão num calcanhar». Assim se safou à tropa, com o precioso auxílio de um médico amigo do papá.

Anos depois, bem ao seu estilo, o actual inquilino da Casa Branca gozou com o sucedido, garantindo já não saber em que pé teria o suposto esporão. Gozou ainda mais, observando que «o seu Vietname particular» havia sido a trepidante vida nocturna de Nova Iorque, onde o risco de contrair doenças vénereas era elevado para alguém com o comportamento dele, público e notório.

Escarrou sobre as campas dos 60 mil soldados norte-americanos que morreram no Vietname, sem fugirem à incorporação obrigatória. E em heróis de guerra, como o falecido John McCain, que ele insultou sem um pingo de vergonha. 

Não admira que os seus parceiros ideológicos na Europa tenham começado a demarcar-se dele. Já perceberam que apoiar Trump é um suicídio político. E um tombo moral. 

MAGA patológico


Pedro Correia,

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Ele é o “Messias”. Está mesmo convencido disso. “Oblitera” Cristo, para se retratar a si próprio como rei dos milagres. Capaz de dar luz aos cegos, consolar aflitos, ressuscitar defuntos e pôr qualquer moribundo a dançar o cancã. 

Assim se fez retratar ontem durante horas na sua rede, TrashSocial. Enquanto disparava raios e coriscos contra o Papa, acometido da habitual logorreia, cada vez mais patológica.

O líder supremo dos EUA chegou a rabiscar isto: «Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano.» E a evacuar isto: «Eu gosto do seu irmão Louis, muito mais do que gosto dele, porque o Louis é MAGA.»

Sentirá vontade de lançar uma “operação militar especial” contra o Vaticano, tanta é a sua fúria contra o Pontífice? Leão XIV já declarou não sentir receio das alucinadas birras do bilionário de Mar-a-Lago. Dias depois de ter feito um vibrante apelo a favor da paz e contra a «idolatria do ego e do dinheiro», como lhe compete, enquanto referência moral entre os cristãos e todos os seres humanos de boa-vontade.

O que dirão destas imprecações de Trump os católicos J. D. Vance e Marco Rubio?

Dois amigos do melhor amigo de Putin


Pedro Correia,

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Donald Trump e J. D. Vance, apesar da guerra no Golfo Pérsico, arranjaram tempo para dar uma ajudinha ao amigo Viktor Orbán na recta final da campanha eleitoral da Hungria, que vai a votos no próximo domingo. Vance compareceu no comício do Fidesz em Budapeste, algo inédito num vice-presidente norte-americano em funções, enquanto o magnata de Mar-a-Lago participou com a inconfundível voz, via telefone. 

O amigo e aliado deles é também o maior cúmplice e compincha de Vladimir Putin, funcionando como autêntica toupeira de Moscovo na União Europeia. As últimas dúvidas dissiparam-se com a revelação de que o chefe da diplomacia húngara tem funcionado, nas cimeiras comunitárias, como bufo de Serguei Lavrov, o sinistro braço direito de Putin para os assuntos internacionais.

Vance, sempre contra Bruxelas e jamais contra Moscovo, aproveitou o comício para disparar novas críticas à UE, acusando-a de «interferência» no processo eleitoral húngaro. Espantosamente, quando ele estava ali, naquele palco, a fazer precisamente aquilo de que acusa outros. 

Por sua vez, Trump elogiou o primeiro-ministro húngaro por não ter permitido que «as pessoas invadissem o país». Não pode haver louvor mais envenenado, vindo da boca de alguém que não tem feito outra coisa senão invadir países alheios enquanto cobiça velhos e novos alvos, de Cuba à Gronelândia.

 

Orbán diz-se “soberanista” – mas parece disposto como nunca a vergar-se aos apoios estrangeiros. Venham de Washington ou de Moscovo, tanto faz. Talvez por saber que se sujeita agora a uma derrota eleitoral após 16 anos no poder, num país com economia estagnada desde 2022, uma das mais elevadas taxas de inflação e o terceiro mais baixo de poder de compra (após Bulgária e Grécia) a nível comunitário. Além de figurar há quatro anos consecutivos no topo da lista de corrupção em Estados da UE elaborada pela Transparência Internacional.

Quantos votos lhe terão rendido estas descaradas interferências de Trump e Vance, cada vez mais impopulares nos EUA? Suspeito que poucos. Ou nenhuns.

Faltam poucos dias para sabermos.

Contraste total


Pedro Correia,

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O excelente discurso do primeiro-ministro canadiano – a quem Donald Trump chama “governador“, cheio de azia depreciativa – no Fórum Mundial de Davos foi notícia em todo o mundo.

É fácil perceber porquê. 

Mark Carney, ao contrário do sucessor de Joe Biden, não padece de logorreia. Fala pouco, mas com clareza, recorrendo às formas clássicas – com elegante acutilância. Nunca diz “eu“: prefere “nós”, sabendo que nenhum homem é uma ilha. Em total contraste com o vizinho do Sul.

Cultiva a relação especial com os aliados – com destaque para os membros da NATO, organização que o Canadá ajudou a fundar, em 1949. Também ao contrário de Trump, como se tem visto. 

Mas a maior diferença é que Carney invoca algo que deixou de integrar o glossário da administração norte-americana: valores. Ele proferiu a palavra e desenvolveu o conceito em Davos. 

À luz do mundo actual, sobretudo desde a vergonhosa cimeira de Agosto em Anchorage entre Trump e Putin, parece hoje quase um termo subversivo. Mas, até por isso, é urgente recuperá-lo.

Dever cívico de todos nós, aqueles que não queremos ver o globo transformado numa imensa selva, à mercê de quem berra e agride e viola e mata mais.

Unhappy birthday, Mr. President


Pedro Correia,

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Um ano de Donald Trump: balanço calamitoso. «O ano da anarquia», como titula a Foreign Affairs. Com o mundo acelerando rumo a uma guerra global, à mercê dos amuos e das birras diárias do sucessor de Joe Biden.

A Casa Branca deslocou-se para Mar-a-Lago, com todo o seu patético simbolismo. O aliado torna-se inimigo, o adversário é acolhido com abraços fraternos – até tudo voltar a baralhar-se se novo ao impulso das madrugadas de insónia nas redes digitais. Com a jornada oficial do Presidente cada vez mais encolhida: começa em regra por volta do meio-dia e não costuma prolongar-se além das 17 horas.

 

A sua capacidade cognitiva vai sendo posta em causa, tanta é a incoerência do seu discurso, falado e escrito.

A missiva que endereçou no início da semana ao primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre – queixando-se pela enésima vez de não ter sido brindado com o Nobel da Paz, o que o deixa predisposto a desencadear guerras – funcionou como forte sinal de alarme. Nos últimos dias sucedem-se os artigos na imprensa norte-americana pondo em dúvida a sanidade mental de Trump.

«Decretos, perdões e golfe»: eis uma síntese deste ano, em versão benigna, difundida pela NBC, que fornece dados estatísticos. Em toda a história dos EUA, só Franklin Roosevelt o ultrapassou em número de decretos (381 contra 229, no seu terceiro mandato, marcado pelo envolvimento norte-americano na II Guerra Mundial). Trump visitou 13 países estrangeiros e fez 106 digressões por campos de golfe – uma das suas paixões, a par do consumo imoderado de coca-cola e de programas televisivos.

 

Nestes 367 dias, com ele no posto de comando, a ordem internacional transformou-se num barril de pólvora, cedendo terreno à semente totalitária.

Trump faz a apologia sem freio da lei da selva, do império absolutista assente na ponta das baionetas.

Rasga o direito internacional, proclama o primado do “eu” soberano todo-poderoso, renega os princípios republicanos que funcionaram como alicerces dos Estados Unidos da América.

 

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A carta ao PM da Noruega com queixinhas e ameaçando fazer birrinha

 

Esbulhou o Nobel da Paz de Maria Corina Machado, a corajosa líder da oposição venezuelana, que durante anos correu sério risco de vida no seu próprio país e liderou o admirável levantamento popular de 2024, afogado em sangue pela camarilha bolivariana. Autorizou a remoção do ditador Maduro mas manteve intacta a ditadura, que lhe faculta o acesso aos combustíveis. Nada mais lhe interessa.

Encorajou os jovens iranianos a saírem à rua em protesto contra a tenebrosa tirania dos talibãs, implantada há 47 anos, prometendo-lhes auxílio norte-americano. Quando os cadáveres se amontavam um pouco por toda a parte, com mais de cinco mil mortos contabilizados, virou as costas e optou por nada fazer. Traiu quem confiou nele.

Contemporiza com o ditador russo, implacável agressor da Ucrânia desde 2014, e estendeu-lhe até a passadeira vermelha no Alasca, comportando-se a seu lado como se fossem almas gémeas. Enquanto enxovalhava o herói da resistência ucraniana, Volodomir Zelenski, tratando-o como se ele tivesse peste ao recebê-lo pela primeira vez na Sala Oval. A guerra, a que prometeu pôr fim em poucos dias, prossegue. Mais acesa e mortífera que nunca.

 

Recentemente, apoderou-se dele a obsessão de invadir a Gronelândia, território sob tutela dinamarquesa, assim reconhecido pelo direito internacional. Alega motivos de segurança dos EUA para anexar a maior ilha do globo, como se o Reino da Dinamarca não fosse um país amigo dos EUA, seu aliado na NATO e parceiro leal em todas as circunstâncias, como se comprovou na sequência dos dramáticos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, única ocasião na história da Aliança Atlântica em que foi accionado o célebre artigo 5.º que mobiliza todos os Estados membros num pacto de solidariedade automática.

Pacto que Trump dá todos os sinais de querer rasgar, indiferente às vozes críticas do próprio Partido Republicano, como a de Mike Pence, seu vice-presidente no primeiro mandato.

 

E que mais?

Insulta o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, a propósito da cedência da soberania do arquipélago Chagos à Maurícia, no Oceano Índico – decisão de Londres que ele próprio havia aplaudido em Maio do ano passado. Agora classifica-a de «enorme estupidez» e reclama a posse das ilhas – talvez para lá implantar os resorts que ainda não conseguiu edificar em Gaza. Enquanto declara guerra tarifária ao Reino Unido, com aparente intenção de quebrar a economia do país, há longas décadas o principal aliado geoestratégico de Washington.

Divulga mensagens pessoais que lhe chegaram de personalidades como o seu homólogo francês, Emmanuel Macron, e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte. Algo absolutamente indigno no campo das relações internacionais. Algo incompatível com a mais elementar decência cívica.

Ontem, no Fórum de Davos, confessou ter sentido a tentação de recorrer à «força excessiva» para se apoderar da Gronelândia, como um bucaneiro do século XVIII nas Caraíbas.

Cada vez que ele abre a boca, seja a bordo do avião presidencial seja nas desvairadas conferências de imprensa em Washington cada vez com menos jornalistas realmente dignos desse nome, o secretário de Estado Marco Rubio deve tremer: a instabilidade mental do chefe do Executivo dinamita todas as normas e todas as regras.

 

Os tantans bélicos do bilionário de Mar-a-Lago já prenunciam um quadro orwelliano com a sua “ministra do interior” a justificar a execução de civis desarmados nos EUA pela polícia migratória de gatilho fácil, já embriagada também ela pelos tambores da guerra, em nome do combate ao “terrorismo doméstico”.

No plano externo Trump estilhaçou a ordem internacional que os EUA construiram em 1945-1949. No plano interno o trumpismo conduz os EUA a uma guerra civil larvar, cada vez mais ostensiva. O país nunca esteve tão perto de se fracturar desde 1860.

Enfim, uma distopia ao vivo.

Questiono-me se este mandato será levado até ao fim. A cada dia que passa, sinto mais dúvidas. Já se fala sem reservas na possibilidade de Trump vir a ser removido, com base na 25.ª adenda à Constituição. Quanto tempo poderá o botão nuclear permanecer à mercê dele?

Unhappy birthday, Mr. President.

De mal a pior, um ano depois


Pedro Correia,

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Não nos iludamos: o mundo está mais perto de uma guerra global do que alguma vez esteve desde 1945. Esta é a angustiante lição extraída do primeiro ano – ontem concluído – do segundo mandato de Donald Trump como dirigente máximo dos EUA. Um ano de fortíssimo recuo institucional e moral na liderança do pais, outrora referência do mundo livre. Um ano em que a Casa Branca cedeu terreno simbólico e real a Mar-a-Lago. Um ano que começou mal e tem tudo para terminar muito pior.

Motivo para celebrar? Nenhum.

Como figura central em fita de corsários


Pedro Correia,

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Sensação crescente de que vivemos um momento sério e grave, com evidente erosão da ordem global tal como a conhecíamos há quatro gerações. O direito internacional fundado em 1945 com a Carta da ONU – estabelecida em larga medida por iniciativa dos EUA – acaba de ser torpedeado, sem paliativos, pelo próprio país que o impulsionou.

Donald Trump envia um grupo de operações especiais à capital de um Estado distante com o qual Washington mantém relações diplomáticas, ordena que o seu homólogo local voe algemado para Nova Iorque e proclama-se de imediato regedor supremo dessa nação, sem qualquer mandato para o efeito. Do mesmo passo, desconsidera a oposição democrática, sem lhe reconhecer estatuto para assumir o poder na Venezuela após um quarto de século no combate à clique mafiosa do Palácio de Miraflores. Imitando um senhor feudal, com direito de pernada.

Para já, tolera a posse da número dois da ditadura bolivariana, inaugurando um insólito madurismo sem Maduro. Segue-se o quê? A designação para Caracas de um vice-rei, um alto-comissário ou um governador-geral replicando os modelos coloniais? Logo nos EUA, que fundaram a sua soberania, no século XVIII, em luta aberta contra o colonialismo inglês.

 

Falando aos jornalistas junto ao WC do avião presidencial, mostrando a cara mas mantendo parte do corpo escondido, o chefe do Executivo norte-americano vai multiplicando ameaças: ao Irão, a Cuba, à Colômbia. Sem esquecer o México, vizinho do sul. E o Canadá, vizinho do norte.

As mais impensáveis, por visarem uma nação aliada, são as que tem dirigido ao Reino da Dinamarca com a intenção deliberada de tomar posse da Gronelândia – como se fosse figura central numa fita de corsários. «Precisamos dessa ilha, em nome da nossa segurança nacional», afirmou o inquilino da Casa Branca. Parecendo esquecer que os EUA já lá possuem uma base militar desde 1951.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu-lhe à letra. Com linguagem contundente – única que Trump parece entender. Se Washington cometer algum acto de agressão contra a Gronelândia, a OTAN termina nesse mesmo dia.

Teve o mérito de ser directa e clara, atributos que nem sempre caracterizam os líderes europeus, viciados no balofo linguajar diplomático.

 

Turbulência total: ainda antes de decorrer um ano desde que tomou posse, o sucessor de Joe Biden já subverteu o quadro de relações internacionais, tratando amigos e aliados como inimigos, a partir da sua mansão da Florida, entre duas tacadas de golfe. O cenário tornou-se caótico ao ponto de a República Popular da China surgir hoje como aparente sentinela da legalidade, apelando ao respeito pela soberania dos povos. 

Trump não tornou apenas o mundo muito mais perigoso: anda a voltá-lo do avesso. Isto tem tudo para acabar mal. E provavelmente terminará mesmo.

Se queres muito o Prémio Nobel da Paz… refunda o Departamento da Guerra


Pedro Correia,

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Sonha com o Nobel da Paz: não suporta que tenham premiado o seu antecessor Barack Obama enquanto a ele ainda não tocou nada. Omissão injusticíssima: todos sabemos que é um pacifista militante. Nem dorme bem à noite se souber que subsistem conflitos armados no planeta.

Perante isto, o que fez ele?

Com a habitual clarividência, decidiu alterar por decreto a designação do Departamento da Defesa dos EUA, que há 76 anos ostentava este nome, mudando-a para Departamento da Guerra, velho nome que vigorou entre 1789 e 1947, tendo sido considerado obsoleto pelo presidente Harry Truman.

Talvez seja este o argumento que faltava para convencer o júri de Oslo. Ou talvez não. 

 

Leitura complementar:

Obsceno (27 de Fevereiro)

Trump já encontrou a sua Ucrânia (27 de Março)

Trump entrega os Sudetas a Putin


Pedro Correia,

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O inquilino da Casa Branca estendeu-lhe passadeira vermelha, aplaudiu-o, deu-lhe boleia na sua bestial limusina. Partiu até para o Alasca dizendo que ia “à Rússia” – misto de confusão mental e capitulação psicológica. 

Mal pisou solo, na base militar de Anchorage inaugurada durante a Guerra Fria, Vladimir Putin conquistou o mais ambicionado triunfo político: o reconhecimento oficial dos EUA, dando-lhe face após três anos e meio de violações, pilhagens e homicídios sem fim na Ucrânia.

Toda a linguagem corporal do antecessor e sucessor de Joe Biden revelou submissão ao ditador russo, indiciado por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional. As “sanções” que anunciara ficaram prontamente esquecidas. O cessar-fogo que prometera exigir ao homólogo do Kremlin foi logo varrido para canto.

A “paz” de Putin prevaleceu: os Sudetas ser-lhe-ão entregues como troféu de caça. Donald Chamberlain Trump pode sonhar com o prémio. Não o Nobel, mas o Prémio Lenine.

Ele merece.

Infra-herói


Pedro Correia,

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A idade mental deste antigo empreendedor imobiliário que hoje supostamente «manda no mundo» vai regredindo: já recuou da adolescência à infância. Daí ter mandado publicar o seu retrato como Super-Homem nas redes institucionais da Casa Branca, coincidindo com a recente estreia da nova versão do filme – aliás muito criticado pela mais fervorosa militância trumpista.

Como qualquer puto de oito ou nove anos, em fase narcísica, na intimidade do seu quarto. Só pode produzir efeitos trágicos quando o puto passa do quarto à varanda e começa a imaginar que aquela horrorosa capa encarnada lhe permite voar como as rolas ou as andorinhas.