
Faz hoje 25 anos ocorreu o dia mais longo nas vidas de muitos de nós. Uma data que poderia passar à História como o Dia da Infâmia se essa designação não tivesse sido escolhida por Franklin Roosevelt para reagir ao cobarde bombardeamento de Pearl Harbor pela aviação nipónica, em 7 de Dezembro de 1941.
Parecia uma tranquila terça-feira de Verão como qualquer outra em Nova Iorque. Mas aquele 11 de Setembro de 2001 – quando o século XX terminou de vez e este século teve o seu verdadeiro início, afogado em estilhaços e cinzas – assinalava afinal uma fronteira histórica.
Daqui a centenas de anos os herdeiros dos nossos herdeiros evocarão esta data como nós hoje lembramos a queda de Constantinopla (29 de Maio de 1453, outra terça-feira) ou a tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789, também numa terça-feira). Uma data que fez vacilar, talvez para sempre, as linhas divisórias que julgávamos imutáveis entre segurança e liberdade.
Naquela trágica manhã, as Torres Gémeas do World Trade Center – símbolos do orgulhoso poderio financeiro norte-americano que pareciam desafiar o céu com a sua aura de fortalezas inexpugnáveis – desmoronaram-se como pedras de dominó. E pressentimos logo ali que um pedaço da nossa existência mudaria para sempre.
A era global tornava-se também na era do terror sem fronteiras nem barreiras, à mercê dos caprichos homicidas de uma guerra insidiosa que passou a ter por palco os mais inesperados e banais pontos do quotidiano de qualquer de nós. Uma estação ferroviária, um bar, um autocarro, um hotel, uma praia, uma avenida, um templo, um pátio de escola.
O casamento do impiedoso fanatismo ideológico com a tecnologia de vanguarda consumava-se ali, naquelas torres em chamas – prelúdio de muitos outros incêndios que devastariam tantos países nas duas décadas e meia subsequentes. Com múltiplos pontos negros em cidades-mártires: Londres, Madrid, Barcelona, Paris, Istambul, Bombaim, Bagdade, Moscovo, Haifa, Jerusalém, Ancara, Beirute, Riade, Cabul, Grozni, Bruxelas, Tunes, Mombaça, Dacao, Casablanca, Carachi, Charm el-Cheik, Amã, Mossul, Islamabade. E nas ilhas de Bali, Djerba e Mindanau. E na Península do Sinai. E no Quénia. E na Nigéria.
Estava em casa à hora do almoço e assisti a tudo na televisão, como aconteceu a tantos de nós. Logo acorri ao jornal, integrando-me numa das equipas de trabalho que se mantiveram em laboração contínua, produzindo sucessivas edições. Surgiria nas bancas um jornal diferente, praticamente sem outro tema: naquele dia, na redacção do Diário de Notícias, estávamos convictos de que não escrevíamos só para o leitor da manhã seguinte. Estávamos também a dar um contributo para o rascunho da História.
E sabíamos, de algum modo, que tudo seria diferente a partir daí.
Cerca das três da madrugada de 12 de Setembro, quando abandonei enfim as instalações do jornal e cruzei em ritmo fatigado as ruas circundantes, entretanto despovoadas, percorreu-me uma sensação de estranheza: havia calor mas senti frio. As imagens das vítimas indefesas de Nova Iorque, com os seus apelos lancinantes e as suas preces desesperadas, não me saíam da cabeça.
Ainda cá estão, vinte e cinco anos depois.

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