Ainda a propósito do Mundial…


Cristina Torrão,

… permitam-me quatro coisitas:

1 – Afinal, foi o “handsome” do casaco amarelo que “ofereceu” o título mundial à sua selecção.

2- Apesar de Didier Deschamps e Lionel Scaloni terem copiado a tática de Martinez, Portugal fez muito melhor figura contra a Espanha do que a França e a Argentina.

3 – O Messi jogou a final?

4 – Inconvenientes de um intervalo tão comprido à parte, Shakira é absolutamente fantástica. Uma profissional de alto nível.

«Venceu o futebol»


Pedro Correia,

Não fixei onde li este comentário, no caudal de artigos sobre a final do Campeonato do Mundo que devorei de manhã, bem cedo, mas é notável pela síntese certeira: «Venceu o futebol».

Assim aconteceu, para bem da modalidade. Espanha foi uma selecção compacta, organizada, praticante de um futebol fluido e ofensivo, de olhos na baliza adversária. Os argentinos, pelo contrário, pareciam ter mais vontade de praticar kickboxing. Interessados nas canelas dos adversários e alheados das redes espanholas. Distribuíram sarrafada desde o primeiro minuto e viram um árbitro muito benévolo perdoar-lhes em larga medida o jogo violento.

A chamada «identidade alviceleste», que tem Enzo Fernández e Otamendi como dois expoentes, deriva em grande parte disto. E não se recomenda.

 

Lionel Messi esteve alheado da partida, vendo os colegas distribuir fruta enquanto percorria a passo fatigado o péssimo relvado do estádio de Nova Jérsia, sem condições adequadas para a prática do futebol de alto nível. Os 27 minutos de intervalo pontuado por show musical, muito à americana, danificaram-no mais ainda.

Tão elogiado em Portugal, sobretudo por aqueles que adoram denegrir Cristiano Ronaldo, o veterano avançado do Inter Miami saiu desta final sem cumprir um só objectivo.

Não se sagrou bicampeão mundial, não foi o melhor marcador do torneio (Mbappé superou-o marcando dez) nem é o rei dos artilheiros em campeonatos do mundo (Mbappé, aos 27 anos, j´a lidera a lista, com 22). Não fez sequer um remate `à baliza neste embate decisivo.

Foi, de resto, a primeira vez que uma selecção disputou a final de um campeonato do mundo sem um remate enquadrado em toda a partida (12 para os espanhóis) e zero tentativas de golo ao minuto 90 (a Espanha teve 20).

Superioridade, muito duvidosa, só em cartões: quatro amarelos e dois vermelhos. Com Espanha em branco neste capítulo.

 

Os idiotas que desataram aos urros contra Cristiano Ronaldo após o embate ibérico, com a eliminação da selecção lusa no tempo extra, certamente já terão percebido que essa derrota, aliás pela margem mínima, se inscreve na ordem natural das coisas: nuestros hermanos apresentaram a melhor selecção no torneio da América do Norte, confirmando os pergaminhos que a levaram há dois anos a sagrar-se campeã da Europa. Tão simples como isto.

Apoiei Espanha nesta final – porque do outro lado estava a Argentina e no seu onze titular figurava Pedro Porro, que em 2021 se sagrou campeão nacional pelo Sporting, onde consolidou um bem-sucedido trajecto como futebolista profissional. Não esqueço as suas palavras logo após o recente Portugal-Espanha quando aproveitou para enviar um abraço a todos os sportinguistas.

Venceram com mérito. Rodri, melhor médio defensivo do futebol contemporâneo e Bola de Ouro 2024, foi justamente eleito figura-chave do Mundial. Unai Simón, com apenas um golo sofrido em oito jogos, destacou-se sem surpresa como melhor guarda-redes. Titular indiscutível da selecção aos 19 anos, o catalão Pau Cubarsí mereceu a designação como melhor futebolista jovem: foi ele quem anulou Messi na final de ontem. Sem margem para dúvidas.

Sim, venceu o futebol.

Nos 90 anos da Guerra Civil de Espanha


Pedro Correia,

Assinala-se agora o 90.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha quando as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939.

Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 14 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras como La Pasionaria e o poeta Rafael Albertí, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha «enterrado os seus mortos e os rancores», decidindo «apagar o passado de uma vez para sempre». Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938 pelo presidente espanhol. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos.

Manuel Azaña proferiu então as palavras que se impunham:

«Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: a desses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já não sentem ódio, já não alimentam rancor, e nos enviam a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.»

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

Prefiro a França


Pedro Correia,

Faltam cinco dias para terminar o Mundial-2026. Terá sido o maior e, num certo sentido, o melhor de sempre – em termos de receitas, de audiências, de equipas participantes e de golos marcados. Foi também o primeiro a realizar-se em três países – embora na percepção comum este seja o campeonato “dos Estados Unidos”, com México e Canadá a figurarem como locais muito secundários. Prenunciando a posição subalterna de Portugal no Mundial-30 face a Espanha e até a Marrocos. O alerta fica desde já.

Restam quatro semifinalistas: Argentina, Espanha, França e Inglaterra. Cada qual com a sua figura mais emblemática: Messi, Yamal, Mbappé e Kane.

Não sei quais as vossas opções, mas eu sinto-me agora apoiante de França – algo que creio suceder-me pela primeira vez. Pelo mais simples dos motivos: é a selecção que tem jogado melhor. E também a que vem ganhando sem qualquer favor dos árbitros ou videoárbitros. Já o mesmo não se pode dizer dos ingleses e dos argentinos.

Allez, allez!

 

ADENDA: A selecção espanhola venceu 2-0, carimbando a presença na final de domingo. França, com 16 golos marcados no Mundial, desta vez nem beliscou a baliza adversária. Aplauso aos vencedores: comprovam que não eliminaram Portugal por acaso. Destaque para Rodri, Cucurella e o grande Pedro Porro, campeão nacional pelo Sporting em 2020/21: hoje o segundo golo foi dele.

Andaluzia? Onde fica isso?


Pedro Correia,

mw-694.webp

Pedro Sánchez de recuo em recuo: quatro derrotas em cinco meses 

 

Ontem, entre as oito e as nove da noite (uma hora mais tarde em Espanha), espreitei os telejornais da RTP e da TVI. Em vão: nem uma noticiazinha sobre as eleições na Andaluzia. Como se fosse coisa de somenos. Como se não fosse a região mais povoada do país vizinho: 8,7 milhões de habitantes. Como se não concentrasse cerca de um quinto dos eleitores de toda a Espanha.

Como se não fizesse fronteira com Portugal. 

Havia notícia, claro. Mas os telediários tugas ignoraram-na. Espanha, por estes dias, só parece interessar como próximo destino profissional do inefável José Mourinho.

Eis a notícia: Pedro Sánchez – que mentes delirantes cá no burgo enaltecem como suposta «consciência moral» do continente europeu – acaba de registar ali a sua quarta derrota consecutiva em escrutínios regionais.

 

Este descalabro teve início a 21 de Dezembro na Extremadura, onde o Partido Socialista Operário Espanhol recuou 14 pontos percentuais e viu o Partido Popular alcançar uma confortável maioria (43,2% contra apenas 25,7%) no conjunto das duas províncias, Badajoz e Cáceres.

Seguiram-se, a 8 de Fevereiro, as eleições em Aragão: outra clamorosa derrota do partido de Sánchez, que recuou 5,3 pontos e estacionou a menos dez do que o PP, ali também vencedor. Com domínio nas três províncias: Huesca, Saragoça e Teruel.

A 18 de Março, outro escrutínio autonómico, desta vez em Castela e Leão. O filme repetiu-se, embora sem recuo eleitoral do PSOE, que se manteve pelos 30% mas com menos cinco pontos percentuais do que o PP, também aqui vencedor – tal como em sete províncias da região: Ávila, Burgos, Palência, Salamanca, Segóvia, Valladolid e Zamora. O PSOE só foi primeiro em Leão e Sória.

 

Agora, Andaluzia. Novo triunfo eleitoral do PP, que regista ligeiro recuo mas conserva um sólido primeiro lugar. Com quase mais 20 pontos do que o PSOE. E triunfos nas oito províncias: Almeria, Cádis, Córdova, Granada, Huelva, Jaén, Málaga e Sevilha. 

Balanço: vitória dos populares em vinte das 22 províncias do país vizinho mobilizadas para as urnas em cinco meses.

Vale mais do que qualquer sondagem. E torna inequívoco o enorme desgaste de Sánchez, cada vez mais impopular. Registando a maior derrota de sempre dos socialistas em território andaluz, que durante quatro décadas foi o maior bastião eleitoral do PSOE. Com Felipe González, o partido da rosa e do punho chegou a ter ali 66 deputados autonómicos. Restam-lhe 28. 

O facto de a lista socialista ter sido encabeçada pela número dois do Governo central – a ministra cessante das Finanças, María de Jesús Montero, torna ainda mais evidente o declínio do consulado de Sánchez. O próprio González – a mais relevante figura viva do socialismo espanhol – já revelou que não votará no PSOE enquanto o actual presidente do Governo se mantiver em funções. 

 

E, no entanto, quase nada disto foi notícia por cá quando a actualidade se impunha. A Andaluzia, pelos vistos, só justifica destaque nas televisões deste terrunho quando os portugueses lá vão atestar o depósito das viaturas.

Com tanta ignorância, não admira que alguns ainda ululem por aí em louvor e hossana ao tetraderrotado Sánchez. Fingindo não ver o enorme pântano político e moral em que se transformou o PSOE sob o seu domínio.

Um jornal com 50 anos


Pedro Correia,

el pais.jpg

Capa da edição inaugural do El País (4 de Maio de 1976)

A primeira edição do El País – que não tardou a tornar-se um dos diários de referência em Espanha – surgiu nas bancas faz hoje 50 anos. Ainda em tempos pré-democráticos. Tinha como grande desígnio editorial contribuir para a construção da democracia, objectivo concretizado apesar de diversos acidentes de percurso. Com três etapas fundamentais: as eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas a 15 de Junho de 1977; a aprovação da Constituição nas Cortes, a 31 de Outubro de 1978; e a ratificação da lei fundamental por sufrágio universal e directo dos espanhóis, no referendo de 6 de Dezembro do mesmo ano. Validada por 87,8% dos votos expressos nas urnas.

El País estava lá – e relatou tudo. Tal como documentou os marcos essenciais da vida espanhola e mundial deste meio século. O diário do grupo Prisa culmina hoje um período de celebrações que incluiu, há dias, um almoço com vários dos jornalistas sobreviventes desses tempos pioneiros, fulcrais para o jornalismo e para a política. Nem todos se revêem na actual linha editorial, demasiado colada ao executivo de Pedro Sánchez e com algumas das suas melhores penas entretanto excluídas das colunas de opinião – casos de Fernando Savater, Félix de Azúa, Teodoro León Gross, Antonio Elorza ou Francesc de Carreras. 

Um dos mais críticos é o próprio fundador e primeiro director, José Luis Cebrián – que liderou o jornal nos primeiros doze anos e permaneceu na administração da Prisa até 2018. Outro é António Caño, que dirigiu El País de 2014 a 2018. Na última década sucederam-se cinco jornalistas no posto máximo do diário, num claro sintoma de instabilidade ao qual não são alheias as pressões políticas do poder socialista e o próprio modelo do negócio devido aos novos hábitos de consumo.

Mas é, inegavelmente, uma data bonita na vida de um jornal. Que merece ser assinalada, nomeadamente por aqueles que – como eu – ainda conservam memória do seu aparecimento, revolucionando o panorama global da imprensa no país vizinho, e se mantiveram fiéis leitores durante grande parte destas cinco décadas. Com votos de que tenha muito mais anos de vida.

 

Leitura complementar:

El País, con la Constitución. De Juan Luis Cebrián.

En el aniversário de El País. De Antonio Caño.

Reflexão do dia


Pedro Correia,

«O PSOE tornou-se um lúmpen político de atmosfera infrequentável, ao ponto de o mítico Felipe González ter marcado distâncias. Há de tudo, de juridicamente ilegal a eticamente insustentável: suspeitas de chapelada eleitoral na eleição interna, corrupção, prostituição. Nem vale sequer a pena ir para questões de governação, o sacrifício aos separatistas para manter o poder, que isto é quase alta política face ao dinheiro vivo na sede do partido, à amante de um ministro paga pelo Estado, aos contratos de máscaras, ao caso dos hidrocarbonetos. Sánchez, para já, está ileso, mas o cheiro é nauseabundo. Dos quatro homens que circularam por Espanha no Peugeot, em 2016, que o levou ao poder, dois têm o passaporte apreendido, o terceiro está preso. O quarto, o próprio Sánchez, já não serve para virgem vestal e Portugal é o último país a poder fazer de conta que não vê. É absolutamente misterioso que por cá, com mais de uma década de Operação Marquês, se escolha ver em Sánchez apenas o arauto de uma esquerda à procura de ser feliz com pouco. Não serve para este papel.»

Maria Henrique Espada, na Sábado

De traidores e fanáticos religiosos


Cristina Torrão,

Aviso: vou expressar esta opinião, liberta de tendências políticas.

Vivemos tempos confusos, há mais cinzentos do que nunca. Alegro-me com a libertação dos iranianos de uma tirania inconcebível. Por outro lado, o narcisista Trump não é um defensor dos Direitos Humanos. Os seus interesses são outros. Aliás, não censuro essa posição. Havendo uma conjugação de interesses, pode surgir a tal situação de “win-win”, com vantagens para dois lados que, em princípio, se consideram opostos.

Mas aplicar-se-á essa circunstância na guerra contra o Irão? O Irão está mesmo a caminho de uma democracia? Tudo indica que está, isso sim, a caminho de uma guerra degastante com Israel. Mas alguém acredita que Israel algum dia irá ajudar o Irão? Alguém acredita que Israel está interessado no bem-estar dos iranianos? O Próximo Oriente ficará mais imprevisível do que nunca. Um clima destes propricia o surgimento de grupos radicais. E olha com quem…

E o que se passa na Venezuela? Já vive numa democracia? Está a caminho dela? E, já agora, Cuba, anunciada por Trump como o seu próximo objectivo: estamos a caminho de uma “Cuba livre”? Não me façam rir!

Não há como não ficar insensível ao regozijo dos iranianos, perante o desaparecimento dos aiatolas. Mas (sacrilégio!) compreendo a posição de Pedro Sanchéz, ao recusar apoio à guerra de Trump. A Espanha pertence à União Europeia. E, desde que subiu ao poder, Trump tem espezinhado e humilhado a Europa, tanto em palavras, como em actos. Também Vance, por várias vezes, ultrapassou a linha vermelha. Como europeia, repudio totalmente comportamentos deste tipo.

Posso até compreender que Trump considere a Europa ter feito pouco pela NATO e se acomodado à acção dos EUA, descurando os seus meios militares e defensivos. Mas a Europa e os EUA são aliados há mais de oitenta anos, numa relação de confiança mútua. E, numa relação, entre pessoas educadas, os problemas resolvem-se “em privado”.

Trump poderia ter abordado os problemas e fazer as suas exigências de forma civilizada, em conversações directas com as entidades europeias. De forma severa, se achasse conveniente. O que não se aceita é que ele o faça em público, humilhando e insultando, sem antes ter falado com a parceira de décadas. A isto se chama traição! Trump traiu a Europa. Dir-me-ão que, numa relação a este nível, onde está em causa a geopolítica, não há privacidade completa. Pois não. Mas os governantes civilizados costumam alternar conversações à porta fechada, com conferências de imprensa, em que declaram haver discordâncias, mas estando convencidos de chegar a um acordo satisfatório para ambas as partes.

Porque, afinal, Trump precisa da Europa! Perante a recusa de Sánchez, ele logo anunciou corte de relações comerciais com Espanha. Se as bases espanholas não lhe interessassem, porque reagiria ele à decisão do Primeiro Ministro espanhol? Porque não ignorou, pura e simplesmente?

E, perante a evidência de que acordos comerciais entre a Espanha e os EUA são negociados no âmbito da União Europeia, o que faz a Casa Branca? Recorre à mentira, como sempre. A marioneta trumpina Karoline Leavitt anunciou que a Espanha havia concordado cooperação militar com os EUA, na guerra contra o Irão. Declaração já desmentida por Sánchez.

A União Europeia declarou solidariedade total com Espanha. E eu gostei. Não morro de amores por Costa, embora goste de von der Leyen. Acima de tudo, porém, gostei porque sou europeia! E porque não confio minimamente em Trump. Lembrem-se: ainda está por esclarecer qual a sua verdadeira relação com Putin. O interessante é que os europeus, que normalmente acusam a Europa de ser submissa a Trump, reagem indignados à posição do único político europeu que ousou enfrentar o presidente norte-americano, esse energúmeno que convenceu tanta gente a votar nele, apenas porque fala grosso e usa bonés à jogador de baseball.

Ainda por cima, a China meteu-se ao barulho, saindo em defesa de Espanha. Choveram críticas: o Sánchez feito com os chineses! Eu também não simpatizo minimamente com essa potência mundial governada por uma tirania. Mas sejamos claros: quem é o responsável pela situação? Trump! Foi ele que repudiou (e repudia) a Europa (à excepção das suas bases militares). Se ele não o tivesse feito, alguma vez a China vinha em defesa de um país da União Europeia?

Trump é narcisista, psicopata, imprevisível. Trump quer acabar com a democracia nos EUA. Nunca a instaurará num outro país, muito menos, no Irão. Nem na Venezuela, nem em Cuba, nem na Gronelândia, nem em lado nenhum.

A inspiração de Trump está no Mein Kampf. Trump irá destruir o mundo que conhecemos. Aliás, já começou. 

Há dias, Marco Rubio disse o Irão ser governado por “fanáticos religiosos lunáticos” (ou coisa parecida). O rapaz tem razão. Mas pergunto-me se ele estava mesmo a pensar no Irão… Não se estaria a referir ao seu próprio país?

Deixo-vos com a cena comovente de um grupo de pastores evangélicos a rezarem pelo seu líder Trump, que, todos sabemos, é de uma moral indiscutível. Pela sua cara, deve estar a pensar numa das meninas que comeu na ilha do Epstein. Mas adiante! A cena aconteceu ontem. E os mais sensíveis talvez se previnam com um lenço, a fim de limparem as lágrimas.

Nota: tentem não me insultar, nos vossos comentários. Obrigada.

Sánchez a ser Sánchez *


Paulo Sousa,

As inúmeras polémicas e escândalos em que o “governo” de Pedro Sanchez tem estado envolvido, não têm tido a devida cobertura noticiosa neste lado da fronteira. Será por Espanha ser um país distante e sem importância para Portugal? Não. Além de ser o nosso único vizinho terrestre e da profunda ligação económica, se a integridade territorial de Espanha fosse posta em causa (e isso é uma das possíveis consequências das acções de Sanchez) as consequências para o nosso dia-a-dia seriam profundas. A imprensa portuguesa prefere apontar noutras direcções.

Perante a guerra em curso no Irão, Pedro Sanchez, que se colocou na mão dos partidos mais radicais de Espanha, lá teve de vir a público armado em campeão da independência (maior contradição seria difícil) e disse aos EUA que não contassem com facilidades de Espanha para as ligações aéreas necessárias à logística desta operação. A memória do fim do império espanhol, nas Filipinas e em Cuba, está associada à ascensão dos EUA como potência, além de que Espanha tem tentado manter muito boas relações com o mundo árabe. Tudo parecia fazer sentido.

sanches.jpeg

O comentariado de esquerda tremeu de emoção. Isto sim é que é um líder que não envergonha a Europa. Portugal devia aprender com ele… blá, blá, blá… Haja “huevos” que aqui é só desgraça.

Ontem à tarde, a porta-voz da Casa Branca anunciou que afinal Sanchez reconsiderou e decidiu cooperar com os EUA. Além da reprimenda vinda de Washington, a Moncloa lá terá entendido que todo o mundo árabe apoia esta acção dos EUA e Israel. Sim, os países árabes aplaudem este ataque ao regime iraniano e não é por Israel estar ao lado dos EUA que os faz mudar de opinião.

À noite, no telejornal a RTP, provavelmente por desconhecerem esta novidade, insistiu na primeira versão dos factos. Sanchez, o intrépido líder, fazia frente aos americanos.

A essa mesma hora já a Força Aérea dos EUA usava o espaço aéreo espanhol rumo ao conflito.

flight radar.jpeg

Fico a aguardar pela actualização dos factos por parte dos media portugueses, assim como reacções dos mesmos comentadores.

 

* Estava a aportuguesar o nome do presidente do Governo de Espanha. Já temos cá malucos que cheguem, não precisamos de mais…
Obrigado, Pedro.

Pela Europa


Cristina Torrão,

Faço hoje uma pausa nas Rapidinhas de História, voltarão no próximo ano. E aproveito para pôr aqui outro vídeo: “Da Alemanha até Portugal, em três minutos”. Uma viagem pela Europa sem fronteiras. Para quem gosta de liberdade.

Trump e Putin são psicopatas invejosos. O seu discurso anti-Europa é apenas mais um, entre os disparates que debitam, todos os dias. Esperam desmoralizar-nos. E não podemos deixar que isso aconteça.

Faço viagens entre a Alemanha e Portugal, maioritariamente de carro, há trinta e três anos. Sinto-me bem-vinda em qualquer local, sou uma europeísta convicta. Não sei de outro lugar do mundo, onde se viva melhor, com mais liberdade.

Mensagem de resistência para 2026:

VIVA A EUROPA!

 

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (6)


Cristina Torrão,

Continuamos pelo planalto do Norte de Espanha, Comunidade Autónoma “Castela e Leão”, rota: Burgos, Valhadolid, Salamanca (parcialmente ao longo do Duero/Douro) – uma região inóspita, esparsamente povoada, mas cheia de gente capaz de reconhecer e recompensar a coragem de uma jovem.

A Cavalo Tag 55 5.jpg

A 1 de Novembro, 55.º dia de viagem, Jette montava a tenda, quando um homem veio ter com ela, perguntando se precisava de ração para a égua. Ela aceitou logo, Pinou necessitava de mais do que apenas relva. Foram a casa dele. O homem tinha dois cavalos e Pinou acabou por ser levada para junto deles. O espanhol acabou por dizer a Jette que ela podia dormir no seu quarto de hóspedes. Ao pensar no frio da tenda, ela aceitou, apesar de ele viver sozinho (ou, pelo menos, estar sozinho, naquela altura). Ele encomendou pizza para o jantar. E tudo correu bem, sem surpresas desagradáveis. No dia seguinte, à partida, a moça recebeu ainda um saco de comida.

A Cavalo Tag 55 1.jpg

Quatro dias mais tarde, Jette recebeu uma mensagem desse mesmo espanhol, perguntando-lhe onde estava e se a podia ajudar a encontrar um local para dormir. A moça deu-lhe as informações e, dez minutos depois, ele enviou-lhe um endereço de uma família que se prontificava a alojá-la, com lugar para a Pinou.

A Cavalo Tag 56 1.jpg

Numa manhã, um homem veio ter com ela ao caminho, de tractor, dizendo-lhe que gostaria de lhe mostrar os seus cavalos. Além de admirar os belos animais, Jette já não seguiu viagem, acabou por ficar a dormir nessa quinta.

A Cavalo Tag 54 5.jpg

A Cavalo Tag 53 2.jpg

A próxima cena é tipicamente ibérica, poderia ter acontecido também em Portugal: Jette chegou à praça principal de uma aldeia e, de repente, tinha cerca de quinze pessoas à sua volta. Falavam todas ao mesmo tempo, fazendo-lhe perguntas, mas a moça não as entendia. Uma mulher acabou por surgir com alguém que sabia inglês. E convidou Jette para ficar na sua quinta, que, além da família, albergava um rebanho de trezentas ovelhas.

A Cavalo Tag 58 1.jpg

A Cavalo Tag 59 1.jpg

A 7 de Novembro, 60.º dia de viagem, Jette chegou a Moríñigo, perto de Salamanca. Pernoitou, mais uma vez,  em casa de uma família e, no dia seguinte, “um homem muito simpático, sobre um belo cavalo espanhol”, acompanhou-a, mostrando-lhe o caminho para Arapiles, onde lhe tinha arranjado estadia.

A Cavalo Tag 61 1.jpg

A Cavalo Tag 61 3.jpg

Depois do jantar, em Arapiles, Jette foi levada à bela Salamanca.

A Cavalo Tag 61 5.jpg

Na manhã seguinte, ela tornou a ser acompanhada, durante alguns quilómetros, por um cavaleiro, amigo da família onde pernoitara. O mesmo aconteceu dois dias mais tarde. Os espanhóis revelavam-se, não só bons cavaleiros, como também cavalheiros.

A Cavalo Tag 64 3.jpg

A Cavalo Tag 68 3.jpg

Nas últimas etapas, antes da fronteira portuguesa, Jette dava, constantemente, com portões. Deixavam-se aliás abrir facilmente e ela não hesitava em passar por esses terrenos, era-lhe difícil encontrar alternativas. Felizmente, não foi admoestada.

A Cavalo Tag 64 8.jpg

Passava por manadas de bovinos e a Pinou surpreendia-a, mantendo-se calma, contrariando o comportamento  apresentado, antes da viagem: sempre se mostrara nervosa na presença de vacas, ou mesmo de ovelhas e cabras.

A Cavalo Tag 65 1.jpg

Atrás de mais um portão, porém, Jette deparou com uma quinta de touros! A avaliar pelo vídeo (Tag 64), eu diria que eram de vinte a trinta animais. A moça ainda hesitou, mas acabou por entrar. Coragem, ou inconsciência, irresponsabilidade?

A Cavalo Tag 64 12.jpg

O certo é que o insólito aconteceu: os touros comportaram-se como cordeirinhos! Ficaram calmos, enquanto a moça passava por eles, sobre a égua. Nem sequer reagiram, quando Pinou não resistiu e começou a comer de um dos montes de palha espalhados pelo terreno.

A Cavalo Tag 64 1.jpg

Que conclusão tirar? Que os touros não são tão agressivos como se pensa? Que estes estavam habituados a ver cavaleiros e seus cavalos? Que sentiam a descontracção de Jette e de Pinou, respeitando-as e/ou não as vendo como ameaça? Os animais têm de facto sensibilidade especial para ler estados de espírito, digamos assim, uma espécie de sexto sentido. Aprendi isso com os cães. E todas as amizades entre humanos e animais, mesmo tratando-se de animais selvagens, como leões, por exemplo, são baseadas numa confiança incondicional, estabelecendo um compromisso que nunca lhes passa pela cabeça quebrar.

Muitos dirão ter sido apenas sorte, no caso de Jette. Não excluo essa hipótese. Mas é fascinante ver as fotografias e os vídeos postados pela moça.

A Cavalo Tag 64 4.jpg

Estava-se a 10 de Novembro. Nesse dia, Jette chegou a Sancti-Spíritus e tinha apenas mais três etapas, até à fronteira portuguesa: Ciudad Rodrigo, Gallegos de Argañán e La Alamedilla. O planalto ia dando lugar à região montanhosa, que plenamente se desenvolve no lado português. A paisagem já era mais verde. Jette acabou por apanhar alguma chuva, o que aliás, tem as suas vantagens.

A Cavalo Tag 63 1.jpg

Dez dias atrás, a moça lamentava, no seu diário, ainda lhe faltarem mais de 300 km até Castelo Branco. Nesse serão, escreveu que, apesar de se alegrar com a aproximação a Portugal, também se sentia um pouco triste, perante o fim da aventura. O fim desta viagem da sua vida.

A Cavalo Tag 67 2.jpg

 

Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (5)


Cristina Torrão,

Depois de ver o pai ir-se embora, deixando-a no meio daquela região seca e solitária, na região de Burgos, Jette não conseguiu evitar a tristeza. Preocupava-se igualmente com a Pinou, já um pouco emagrecida. Conseguiria encontrar relva fresca, por aqueles caminhos de cascalho, que tinham ainda a desvantagem de acelerar o desgaste dos  “sapatos” da égua?

A Cavalo Tag 47 4.jpg

A Cavalo Tag 47 1.jpg

Jette fixou a sua atenção nos aspectos positivos. O sol brilhava e a temperatura era amena (17ºC). E encontrava fontes pelo caminho, como aliás já lhe haviam dito ser usual em Espanha, onde a Pinou podia matar a sede.

A Cavalo Tag 47 3.jpg

Para a primeira noite, Jette encontrou, inclusive, um relvado com uma fonte, à saída de uma aldeia. Teve algumas reservas em montar a tenda em terreno público, sem permissão, mas ninguém reclamou. Pelo contrário. Várias pessoas passeavam por ali, com os seus cães, e cumprimentavam-na. Muitas tentavam conversar com ela, mas Jette quase nada entendia. Mesmo servindo-se do tradutor do Google, a comunicação era difícil. E ela estava cansada. Não obstante a simpatia das pessoas, a situação mostrava-lhe as dificuldades que teria de enfrentar, naquele país. Quando se recolheu na tenda, a moça sentiu-se muito sozinha.

A Cavalo Tag 48 2.jpg

Nos dias seguintes, Jette tinha dificuldades em encontrar onde dormir. Sucediam-se as aldeias e quintas abandonadas.

A Cavalo Tag 48 1.jpg

A Cavalo tag 51 3.jpg

Num certo serão, era já bem tarde, quando encontrou uma localidade habitada. Sem vontade de procurar um lugar adequado, montou a tenda num parque infantil relvado. Ainda ali brincavam algumas crianças, preocupando Jette, pois os pais poderiam não ficar satisfeitos.

Mas niguém reclamou. Na verdade, os petizes ficaram muito entusiasmados com aquelas viajantes exóticas e até arranjaram maneira de carregar o powerbank de Jette.

Numa outra aldeia, parcialmente abandonada, Jette sentia os olhares curiosos pousados sobre si, quando lá entrou. Acabou por encontrar os obrigatórios fonte e relvado. Montou a tenda e encontrava-se a planear a rota para o dia seguinte, quando um carro parou à sua frente. Um espanhol começou a falar com ela. Sem o entender, Jette acabou por responder apenas “Sí”. O homem abalou. Passado um quarto de hora, surgiu-lhe com um saco de comida. E a surpreendida Jette acabou por jantar bem melhor do que pensava.

A Cavalo Tag 49 1.jpg

A Cavalo Tag 47 6.jpg

Depois de mais uma noite passada na tenda, uma mulher veio ter com ela, convidando-a para tomar o pequeno-almoço e autorizando-a a tomar duche em sua casa. Lá chegada, Jette constatou que o marido sabia falar inglês, tornando a comunicação bem mais fácil.

Surpreendeu-se com o pequeno-almoço, onde abundavam os croissants e as bolachas. À despedida, ainda lhe deram um saco de comida.

A Cavalo Tag 54 6.jpg

Numa outra aldeia, quando estava a montar a tenda, foi abordada por uma idosa, que tinha vivido oito anos na Alemanha e sabia falar alemão. Os outros habitantes aperceberam-se da conversa animada entre as duas e, inteirando-se da jornada de Jette, trouxeram-lhe o jantar. A idosa, apesar de não ter um quarto para a moça, quis mostrar-lhe a sua casa, onde vivia sozinha e onde as duas passaram o serão a ver fotografias da sua família.

A Cavalo Tag 50 5.jpg

Apesar destes bons momentos, Jette passava dias inteiros sem encontrar ninguém, pelo caminho, enquanto percorria o planalto seco. Além disso, os dias ficavam cada vez mais curtos e, à noite, a temperatura chegava a descer aos 8ºC, com vento. Condições difíceis para dormir na tenda.

A Cavalo Tag 49 3.jpg

A Cavalo Tag 51 1.jpg

A 31 de Outubro, o 54.º dia da viagem, Jette atravessou o Douro (Duero), a caminho de Traspinedo, perto de Valhadolid.

A Cavalo Tag 54 8.jpg

Ao serão, escreveu no diário (tradução minha): “Neste momento, apenas desejo chegar ao destino. Segundo o Maps, são ainda 330 km até Castelo Branco, embora eu saiba que acabarão por ser mais. Sinto-me esgotada e noto que também a Pinou está cansada. Talvez a bonita paisagem nos consiga ainda animar, mas, por agora, estamos as duas cheias desta jornada.”

A Cavalo Tag 48 3.jpg

Logo a seguir, porém, tentou animar-se (admiro esta sua capacidade de olhar, sempre, para os aspectos positivos): “Por outro lado, fascina-me a confiança total que a Pinou deposita em mim. Ela seguir-me-ia incondicionalmente para todo o lado. E constato que, em Espanha, as pessoas são generosas, muitas vezes, melhores do que se pensa. Tenho de ter sempre presente este tipo de experiências, nos meus pensamentos – uma oportunidade enorme, um presente inacreditável.”

A Cavalo Tag 50 2.jpg

Compensou acreditar na generosidade das pessoas. A hospitalidade de nuestros hermanos não deixou de surpreender Jette. Talvez eu própria, ao ler o seu diário, tenha ficado ainda mais surpreendida do que ela.

Num serão, depois de encontrar um relvado, a moça preparava-se para tirar a sela a Pinou, quando uma mulher veio ter com ela. Sabia falar inglês, morava ali mesmo ao lado e convidou-a para jantar e pernoitar em sua casa. Veio mesmo a calhar, sendo as noites já tão frias.

A Cavalo Tag 52 1.jpg

Numa outra aldeia, foi abordada por várias pessoas e, quando ela disse não falar espanhol, foram logo buscar quem soubesse inglês. Este “tradutor” convidou-a para jantar e pernoitar na casa da sua família, podendo a Pinou ficar no terreno relvado do vizinho. Além disso, entrou em contacto com conhecidos na aldeia onde Jette programara passar a próxima noite, logo lhe arranjando alojamento.

A Cavalo Tag 53 1.jpg

Talvez não fosse assim tão difícil continuar até à fronteira portuguesa, em pleno Novembro…

A Cavalo Tag 50 3.jpg

 

 

Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (4)


Cristina Torrão,

Além da alegria pelo reencontro com o pai, Jette passou um serão muito agradável, com a senhora que os hospedou, o seu neto e o cão da família.

A Cavalo Tag 41 3.jpg

Estavam apenas a 10 km da fronteira francesa e, num acto simbólico, Jette atravessou-a a cavalo, enquanto o pai esperou por ela do lado francês.

A Cavalo Tag 42 3.jpg

Depois de acomodarem a Pinou no atrelado, fizeram-se ao caminho, em direcção a Espanha.

A Cavalo Tag 42 1.jpg

A Cavalo Tag 42 2.jpg

Jette queria, porém, realizar um sonho: cavalgar ao longo do Atlântico. Fizeram, então, uma paragem em Capbreton, pequena localidade costeira perto de Bayonne. Aí, Jette e Pinou viveram momentos inesquecíveis.

A Cavalo Tag 43 3.jpg

A Cavalo Tag 43 2.jpg

A moça cavalgou durante cerca de uma hora, na praia. Jette escreveu (tradução minha): “Penso que nunca tinha galopado a tamanha velocidade. Depois de tanto tempo no atrelado, a Pinou estava cheia de energia, fazendo a areia voar à nossa volta. Um grande sonho meu tornou-se realidade e não consigo expressar em palavras os sentimentos que me abalroam. Tenho uma sorte incrível em poder viver tudo isto.”

Há um vídeo, feito pela própria Jette, a galopar. Quem tiver Instagram, pode vê-lo, no 43º dia de viagem (Tag 43). Ponho aqui um frame desse vídeo, onde se vê a crina da Pinou a voar.

A Cavalo Tag 43 7.jpg

Realizado este sonho, Jette e o pai retomaram a viagem. Atravessaram a fronteira e alojaram-se numa bonita quinta, nos Pirenéus, onde ficaram três dias.

A Cavalo Tag 45 3.jpg

A Cavalo Tag 45 10.jpg

A Cavalo Tag 45 11.jpg

Aproveitaram para visitar Bilbao, a cerca de hora e meia de distância.

A Cavalo Tag 45 2.jpg

A Cavalo Tag 45 7.jpg

A Cavalo Tag 45 8.jpg

Em princípio, Jette retomaria a sua viagem a partir do alojamento, mas, tanto ela, como o pai, pensaram ser melhor deixar os Pirenéus para trás. Uma boa ideia, sobretudo, tendo em conta que já se encontravam em fins de Outubro. Avançar sozinha com a Pinou, por zona tão montanhosa, onde não se exclui a caída de neve, podia tornar-se perigoso. Seguem-se algumas imagens minhas, igualmente frames, de um troço da auto-estrada entre Vitoria (Gasteiz) e Burgos. O vídeo foi feito durante a nossa viagem, em Abril do ano passado.

2024-04-22 20 A caminho de Burgos - frame at 0m4s.

2024-04-22 20 A caminho de Burgos - frame at 0m21s

2024-04-22 20 A caminho de Burgos - frame at 0m32s

A 24 de Outubro, o pai de Jette deixou-a na zona de Burgos. Confesso que esta era a fase da jornada que mais curiosidade me despertava: o longo planalto espanhol, entre Burgos e a fronteira portuguesa.

O Horst e eu já fizemos este caminho inúmeras vezes, nos últimos trinta e dois anos. Mesmo da auto-estrada, dá para perceber como a região é seca e solitária, quase um deserto de rochas e pó. Na Primavera, ainda se vê algum verde a cobrir as colinas, salpicado com o vermelho das papoilas. No Verão, há culturas de girassóis e, nos últimos anos, cada vez mais, de colza. No Outono, porém, já se colheu tudo, restando uma paisagem queimada, onde proliferam as aldeias abandonadas.

A Cavalo Tag 50 5.jpg

Como iria Jette dar-se nesta inóspita região, tendo ainda (evitando estradas principais) cerca de 500 km até à fronteira portuguesa, com apenas uma égua por companhia e sem saber falar espanhol? Conseguiria alimentação suficiente e lugares de pernoita? Seriam nuestros hermanos (os poucos que ela encontraria) hospitaleiros? Temos sempre a impressão de que os espanhóis são arrogantes, pouco amigos de ajudar…

Depois de ver o pai partir, Jette sentiu-se muito sozinha. Já não estava na Alemanha, onde podia comunicar na sua língua. E, já nem os pais, nem o namorado, podiam vir ter com ela, no espaço de meia dúzia de horas.

À despedida do pai, um sorriso para a fotografia.

A Cavalo Tag 47 2.jpg

 

Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas (à excepção dos frames na auto-estrada, como explicado) foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey

Um rei debruçado sobre a lama


João Pedro Pimenta,

Ainda sobre a recepção violenta às autoridades espanholas em Valência, parece claro que se deveu sobretudo aos membros do governo regional e a Pedro Sánchez. Seria ridículo assacar culpas aos soberanos que não têm a tutela da protecção civil e que estavam lá a prestar solidariedade.

 

Mas pelo arremesso de algumas pedras e lama, houve certamente reacções dirigidas ao Rei e à Rainha. Não é de espantar assim tanto. Naquele desespero, naquela impotência de se acudir aos vivos e desenterrar os mortos da lama, qualquer vislumbre de autoridade pode transformar-se no bode expiatório das desgraças à vista. Acresce que em Espanha há alguns elementos anti-monárquicos profundamente radicais, cuja motivação ideológica (ou niilista) transcende a do desespero do momento. É bem possível que lhes tenha dado para a selvajaria, ao ver ali o objecto máximo do seu ódio.

 

Certo é que Sánchez e o presidente do governo regional se puseram a andar, talvez para ruminarem as suas rivalidades partidárias, e Filipe e Letizia ficaram, cumprindo o seu dever como soberanos: consolando as vítimas e representando o Estado e a solidariedade do povo espanhol para com elas, também visível pelos milhares de voluntários que para lá se deslocaram, muitas vezes antes da própria ajuda estadual.

 

La prensa monárquica europea se pronuncia sobre la visita de los Reyes a  Paiporta: este es su veredicto

Juan Carlos com lugar garantido na História


Pedro Correia,

aaa.jpeg

Juan Carlos de Borbón com Adolfo Suárez, os dois artífices da exemplar transição espanhola

 

«El balance del reinado de Juan Carlos es extraordinariamente positivo.»

Felipe González (El País, 2 de Junho de 2014)

«El reinado de Juan Carlos I se corresponde con el tiempo de mayor estabilidad democrática, disfrute y ampliación de las libertades y de progreso social de la historia de España.»

José Luis R. Zapatero (El Mundo, 2 de Junho de 2014)

 

Faz hoje dez anos, Juan Carlos I anunciou que abdicava do trono de Espanha. Após quase 39 anos de reinado.

Quando ascendeu ao posto cimeiro do poder em Madrid, Espanha era um país isolado politicamente, com uma das ditaduras mais retrógadas do mundo ocidental, níveis socio-económicos muito abaixo da média europeia e divisões que pareciam insanáveis entre os herdeiros dos dois grupos que combateram na guerra civil. Em todos estes parâmetros é hoje um país incomparavelmente melhor. Dotado com a Constituição de 1978, autêntico marco civilizacional que já garantiu o maior período de vida democrática desde sempre existente no país.

Tendo nascido em 1938 no exílio em Roma, sete anos após o seu avô Afonso XIII renunciar ao trono, Juan Carlos de Borbón soube impor-se como expoente da restaurada monarquia – conquistada a pulso. Contra a vontade do próprio pai, o Conde de Barcelona. E contra os primos, que lhe cobiçavam o trono (um deles casou até com a neta primogénita do generalíssimo Franco, para lá chegar mais depressa). E contra a clique do ditador, que preferia outros. E contra os “ventos da história”. E contra a esmagadora maioria da “opinião pública”, dama mais volúvel do que Madame Bovary.

Entre Novembro de 1975 e Junho de 2014, fez mais do que qualquer outra personalidade para unir os espanhóis. Trabalhou com governos de diversas cores políticas, irrepreensível no plano institucional. Por isso foi elogiado pela larga maioria da sociedade espanhola – e desde logo pelos principais partidos, PP e PSOE: nenhum deles põe em causa o sistema monárquico, referência de estabilidade e concórdia.

O Rei emérito tem lugar garantido na História de Espanha. E será recordado, sem qualquer dúvida, como um dos maiores estadistas que o país vizinho já conheceu.

Catalunha: amarga derrota do separatismo


Pedro Correia,

cata.jpg

 

Os separatistas catalães sofreram uma das suas maiores derrotas nas eleições regionais de domingo, que o Partido Socialista venceu por margem confortável. Perderam mais de 200 mil votos em relação ao escrutínio anterior, realizado em 2021. E conseguiram apenas 61 lugares – repartidos por quatro siglas partidárias – num parlamento autonómico com 135 assentos. Os restantes 74 cabem a partir de agora às forças políticas constitucionalistas, que combatem o separatismo.

Em percentagem a diferença é ainda mais expressiva: 53,4% para os diversos partidos que advogam a organização territorial inscrita na matriz constitucional espanhola e 43,2% para os que querem romper com ela. Incluindo os 4,1% da CUP (extrema-esquerda) e os 3,8% da novíssima Aliança Catalã (extrema-direita). 

Estas eleições confirmam uma evidência: existe em solo catalão uma facção separatista claramente minoritária, apostada em impor a sua cartilha ideológica à maioria dos habitantes da Catalunha, que não quer cortar os vínculos políticos com o Estado espanhol e se revê no actual quadro constitucional e estatutário.

 

Isto acontece enquanto alguns em Portugal teimam em reclamar aos gritos o «direito à autodeterminação», como se este não vigorasse já na Catalunha – autonomia dotada de mais poderes do que a esmagadora maioria dos Estados federados na União Europeia. Tem órgãos próprios em matéria política, judicial, policial, tributária, sanitária, educativa, linguística, cultural e desportiva.

Não existe democracia sem o império da lei. Neste caso, o conjunto do Estado espanhol – Catalunha incluída – rege-se pela Constituição de 1978 que, ao contrário da lei fundamental portuguesa, recebeu luz verde em referendo, com 95% de aprovação dos eleitores catalães (segunda maior percentagem a nível nacional). Rege-se ainda pelo Estatuto Autonómico da Catalunha, igualmente validado em referendo, a 25 de Outubro de 1979, com o voto favorável de 88% dos eleitores catalães. O mesmo sucedeu com o Estatuto Autonómico de 2006, que entrou em vigor precedido de referendo regional, realizado a 18 de Junho desse ano, com a aprovação de 73,9% dos catalães.

 

A comparação com Portugal é-nos desfavorável: nunca os eleitores da Madeira e dos Açores foram consultados para se pronunciarem nas urnas sobre os respectivos estatutos de autonomia política. 

Nesta matéria, a Constituição portuguesa tem uma visão mais estreita do que a espanhola. A tal ponto que a nossa proíbe expressamente a existência de partidos regionais, em manifesta tentativa de dissuadir movimentos de índole separatista nas regiões autónomas. No seu artigo 51, parágrafo 4, a lei magna de 1976 é categórica: «Não podem constituir-se partidos que, pela sua designação ou pelos seus objectivos programáticos, tenham índole ou âmbito regional.» Interdição repetida, palavra a palavra, no artigo 9 da Lei dos Partidos Políticos.

Esta sim, é uma norma absurdamente restritiva à luz dos padrões europeus. Basta recordar que Alemanha e França, por exemplo, autorizam partidos regionalistas na Baviera e na Córsega.

Se queremos defender o “direito à autodeterminação”, comecemos pela nossa própria casa, em defesa da revogação deste interdito constitucional.

Os que por cá dizem que a Constituição de Espanha é para rasgar são os mesmos que invocam a Constituição portuguesa com sacrossanta veneração. Os “direitos adquiridos” nas tábuas da lei afinal são só para alguns. Deste lado da fronteira, não do outro.

Ler (33)


Pedro Correia,

Kim.jpg

Kim Kardashian: «lábios de embuste»

 

Já falei aqui sobre o meu crescente interesse pela literatura espanhola. Ao ponto de vários dos meus romances ou novelas favoritos dos últimos cem anos serem de autores do país vizinho. Estes, por exemplo: Tirano Banderas (Ramón de Valle-Inclán), Nada (Carmen Laforet), Os Mares do Sul (Manuel Vásquez Montalbán), Coração Tão Branco (Javier Marías), Instruções Para Salvar o Mundo (Rosa Montero), Pátria (Fernando Aramburu) e Os Teus Passos nas Escadas (Antonio Muñoz Molina).

Este interesse estende-se aos colunistas da imprensa. Pelo mais óbvio dos motivos: escreve-se muito bem nos jornais espanhóis. São peças de literatura as crónicas, as reportagens, até os editoriais. Abundam os escritores que recusam enclausurar-se em torres de marfim, molhando os pés e exercitando a pena em colunas quotidianas onde exibem a sua prosa inconfundível, marcada pelo “ruído da rua” (título da coluna de Raúl del Pozo no El Mundo). E não faltam jornalistas que em nada se distinguem dos melhores prosadores contemporâneos de língua castelhana: Pedro Cuartango, Lucía Méndez, Ignacio Camacho, Jorge Bustos, Manuel Jabois, Emilia Landaluce, José Peláez, Maite Rico, Daniel Gascón, Rebeca Argudo. Falei de alguns aqui, em 2017, quando o El Mundo deixou de distribuir edição impressa em Portugal – decisão felizmente revertida algum tempo depois.

O melhor colunista é aquele que não se limita a emitir opinião: consegue criar metáforas e expressões tão sugestivas que se incorporam na linguagem comum. Tivemos nós também um deles, o melhor de todos: Vasco Pulido Valente, que cunhou o termo geringonça, aplicado à solução política que António Costa encabeçou entre 2015 e 2019. Mas, de modo geral, quem escreve na imprensa portuguesa perde fatalmente na comparação com Espanha. Mesmo nos temas mais fúteis.

Acabo de ler, no ABC de ontem, uma crónica de Ángel Antonio Herrera sobre a “influenciadora” norte-americana Kim Kardashian – talvez uma das mulheres mais fotografadas do mundo. Descreve-a com aquela linguagem castiça que tanto aprecio entre os espanhóis dizendo que ela tem «lábios de embuste». Espantosa expressão, tão inesperada e sugestiva.

Eis um caso concreto em que o jornalismo se transforma em literatura, libertando-se do estéril lugar-comum. Quem gosta de ler agradece. E que não restem dúvidas: continuamos a ser muitos.