Cruzei a cidade até à Fábrica Lisboeta, um velho reduto fabril que há anos passou a arremedo de feira popular bon chic bon genre, aspiração que terá obrigado os “empreendedores” a estrangeirarem-lhe o nome.
Ali fui para assistir a uma conversa sobre um livro que tem sido (merecidamente) cumulado de elogios. Após a qual me sentei numa esplanada defronte à Ler Devagar, lendo devagar o livro que levara e bebericando uma caneca. Passou uma amiga e desafiou-me para jantar com um pequeno comité.
Agradado aprestei-me a isso. Pedi a conta – 5 euros pela tal caneca! Murmurei “da-sse” – or should I say, fuck!?, pois esse é linguajar adequado àquele amontoado de barracões que anuncia devotar-se a manter um “look & feel industrial”, espaço que sociólogos dizem “icónico” e “democratizador” pois dinamizador da “rede global de circulação de pessoas, ideias e capitais”, incentivado pelos decerto que ilustrados documentos Plano Diretor Municipal de 2012 e Estratégias para a Cultura da Cidade de Lisboa.
Enfim, paguei e juntei-me ao grupo comensal. Um quarteto da literatura, eles em animada conversa sobre temas e gentes – livros, poetas, os podcasts de agora… – que desconheço. É um ambiente que me é excêntrico, com alguma tendência para uma (para mim) além-realidade. Mas ali representado por gente sedimentada e desprovida do mero “name-dropping” (como aqui comprovo os anglicismos não me são tabu, malgré tout…) tão habitual no lisboetismo. Pois estes cultos e diligentes. Por isso tão agradável me foi o convívio, fruindo aquela diversidade de interesses e saberes.
De súbito um deles anunciou saber da iminente edição um livro com textos de Séneca sobre morte – notícia que eu decerto não ouviria se estando entre os meus. Retive, sorrindo para dentro. Pois essa morte anda frenética na minha vizinhança, tanto que venho dando conta do meu desconforto. E há muito que não leio Séneca…
Regresso a casa, da estante retiro o “Cartas a Lucílio”, passeio pelos sublinhados. Onde há já décadas assinalei os verdadeiros valores civilizacionais ali apostos, o real sagrado da vida que estes supersticiosos ultra-católicos de agora ainda tanto combatem: “Um homem corajoso e sábio não deverá fugir da vida, mas sim sair dela; acima de tudo importa evitar uma paixão que tem assaltado muita gente: a paixão pela morte (…) muitos são (os) que através dos tempos têm demonstrado desprezo pela morte (…) nós não devemos recear a morte, como a ela devemos o termo dos nossos receios!” “Ninguém pode obter uma vida segura se continuamente pensar em prolongá-la, se considerar entre os bens mais preciosos um grande número de anos”.
Há uma ano deixei o postal “Eutanásia”, usando um filme do insuspeito John Wayne para referir a inércia cultural portuguesa sobre a matéria, agora até com uma lei deixada em processo de infundice. Neste mês em França – país cuja cultura antes nos foi tão influente – foi aprovada a lei da eutanásia. O que por cá foi ignorado, enquanto todos se animam a discutir … o atrelado do ministro, as notas dos putos charilas e os dislates de Trump… charilas. E, mais ainda, as contratações dos clubes de futebol…
E, entretanto, também reparo noutro sublinhado, algo que Séneca escreveu em meados do século I: “verificarás que a ira dos escravos não fez menor número de vítimas que a dos reis!”. Como dois mil anos de “activismo” vieram provar.
Enfim, ainda bem que fui à Fábrica de Lisboa. E que fui convidado para jantar.
(Este é uma parte da “gazeta” que deixo no meu “O Pimentel“, esta tendo levado o título “Um bimbo em Belém etc.”)




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