Ainda a propósito do Mundial…


Cristina Torrão,

… permitam-me quatro coisitas:

1 – Afinal, foi o “handsome” do casaco amarelo que “ofereceu” o título mundial à sua selecção.

2- Apesar de Didier Deschamps e Lionel Scaloni terem copiado a tática de Martinez, Portugal fez muito melhor figura contra a Espanha do que a França e a Argentina.

3 – O Messi jogou a final?

4 – Inconvenientes de um intervalo tão comprido à parte, Shakira é absolutamente fantástica. Uma profissional de alto nível.

«Venceu o futebol»


Pedro Correia,

Não fixei onde li este comentário, no caudal de artigos sobre a final do Campeonato do Mundo que devorei de manhã, bem cedo, mas é notável pela síntese certeira: «Venceu o futebol».

Assim aconteceu, para bem da modalidade. Espanha foi uma selecção compacta, organizada, praticante de um futebol fluido e ofensivo, de olhos na baliza adversária. Os argentinos, pelo contrário, pareciam ter mais vontade de praticar kickboxing. Interessados nas canelas dos adversários e alheados das redes espanholas. Distribuíram sarrafada desde o primeiro minuto e viram um árbitro muito benévolo perdoar-lhes em larga medida o jogo violento.

A chamada «identidade alviceleste», que tem Enzo Fernández e Otamendi como dois expoentes, deriva em grande parte disto. E não se recomenda.

 

Lionel Messi esteve alheado da partida, vendo os colegas distribuir fruta enquanto percorria a passo fatigado o péssimo relvado do estádio de Nova Jérsia, sem condições adequadas para a prática do futebol de alto nível. Os 27 minutos de intervalo pontuado por show musical, muito à americana, danificaram-no mais ainda.

Tão elogiado em Portugal, sobretudo por aqueles que adoram denegrir Cristiano Ronaldo, o veterano avançado do Inter Miami saiu desta final sem cumprir um só objectivo.

Não se sagrou bicampeão mundial, não foi o melhor marcador do torneio (Mbappé superou-o marcando dez) nem é o rei dos artilheiros em campeonatos do mundo (Mbappé, aos 27 anos, j´a lidera a lista, com 22). Não fez sequer um remate `à baliza neste embate decisivo.

Foi, de resto, a primeira vez que uma selecção disputou a final de um campeonato do mundo sem um remate enquadrado em toda a partida (12 para os espanhóis) e zero tentativas de golo ao minuto 90 (a Espanha teve 20).

Superioridade, muito duvidosa, só em cartões: quatro amarelos e dois vermelhos. Com Espanha em branco neste capítulo.

 

Os idiotas que desataram aos urros contra Cristiano Ronaldo após o embate ibérico, com a eliminação da selecção lusa no tempo extra, certamente já terão percebido que essa derrota, aliás pela margem mínima, se inscreve na ordem natural das coisas: nuestros hermanos apresentaram a melhor selecção no torneio da América do Norte, confirmando os pergaminhos que a levaram há dois anos a sagrar-se campeã da Europa. Tão simples como isto.

Apoiei Espanha nesta final – porque do outro lado estava a Argentina e no seu onze titular figurava Pedro Porro, que em 2021 se sagrou campeão nacional pelo Sporting, onde consolidou um bem-sucedido trajecto como futebolista profissional. Não esqueço as suas palavras logo após o recente Portugal-Espanha quando aproveitou para enviar um abraço a todos os sportinguistas.

Venceram com mérito. Rodri, melhor médio defensivo do futebol contemporâneo e Bola de Ouro 2024, foi justamente eleito figura-chave do Mundial. Unai Simón, com apenas um golo sofrido em oito jogos, destacou-se sem surpresa como melhor guarda-redes. Titular indiscutível da selecção aos 19 anos, o catalão Pau Cubarsí mereceu a designação como melhor futebolista jovem: foi ele quem anulou Messi na final de ontem. Sem margem para dúvidas.

Sim, venceu o futebol.

O nosso jornalismo


jpt,

Às vezes critica-se a imprensa com excessiva rudeza, esquecem-se as limitações existentes, de recursos humanos e financeiros, e também aquilo de trabalhar sob a pressão do urgente, imediato até… E também a necessidade de captar atenção, associar-se aos interesses da clientela.

Ainda assim – e mesmo sendo sportinguista -, caramba! A final do Mundial foi ontem (já agora, e porque falei em clientela: o Porro dos sportinguistas lá esteve, o Otamendi dos benfiquistas também…). E o diário desportivo “Record” dá o enorme destaque ao… Zalazar, no lado está um bocado de Schjelderup e uma pitada para os andrades.

E em nota de rodapé lá está, acabou o Mundial.

Isto não tem ponta por onde se lhe pegue. Depois lamuriam-se que a tal clientela não lê jornais.

Rescaldo do Mundial


jpt,

Deve ser isto aquela coisa da idade, andar de tal forma no regime do deitar cedo e cedíssimo erguer que se adormece sem ver a final do Mundial. Acordei, estremunhado vi o golo espanhol, lá aguentei até ao final. E pronto. Vira todas as finais desde o Alemanha-Holanda de 1974. Fiquei agora com o registo incompleto.

Isto também devido ao meu desinteresse real, afinal. Pouco acompanhei o Mundial, até os jogos portugueses: adormecera no contra o Colômbia, não vi o com a Croácia. Mergulhado noutros afazeres – que me levaram ao tal horário “das galinhas” – mas muito pela falta de “fé”. E não me lembro de quase nenhum dos outros jogos, restringi-me a alguns resumos. Vi os de Cabo Verde e o Argentina-Inglaterra, claro – nas “redes” vou lendo alguns invectivando Messi, uma coisa absurda para quem goste de futebol: mesmo para quem cresceu a ver Sepp Maier, Cruyff, Keegan, Platini, Maradona, e amadureceu com holandeses, Zidane, os vários Ronaldos e os espanhóis do Barcelona cruyffiano, nunca houve génio continuado como Messi… Há quem resmungue que a Argentina “mete o pé”, ríspido. Sim, é futebol.

Quanto ao resto, ainda mais do que a Alemanha (Ocidental) regeu em décadas passadas, a Espanha é o futebol de XXI. Não tenho a noção do que esta Espanha 26 joga – vi-a no jogo com Cabo Verde, tornando-se pobre, e com Portugal, tornada curta. Mas dizem-na a melhor, para além de campeã.

Ou seja, a nossa selecção – apesar de jogar pouco (devíamos introduzir a palavra “demenia” em homenagem à Federação Portuguesa de Futebol) – foi eliminada pelos melhores do mundo, com um golo mesmo no final. É futebol.

E isso faz-me lembrar outras eliminações face à Espanha. Em 2010, com um golo alheio que hoje teria sido anulado, em 2012 por desempate a penalties. Com plantéis mais fracos e diante de uma Espanha lendária… Eram tempos em que para a “equipa de todos nós” se seleccionavam os melhores… treinadores. Depois, após Paulo Bento, a corporativa FPF escolhe os treinadores que … dão jeito, não “levantam ondas”. (E não me falem de 2016, um troféu que caiu do céu para uma equipa mesmo medíocre, pior de que esta última). Nisso se foram desperdiçando levas de belíssimos jogadores.

Enfim, meu rescaldo deste Mundial 26 que mal acompanhei? Pior jogador: o nosso Pedro Proença. Melhor jogador? Messi, claro. Melhor equipa? Cabo Verde, e seu Vozinha, a “alegria do povo” (mundial).

Melhor jogada? Felipe Borbón a erguer a taça, depois do morcão (finalmente) sair de palco…

Prefiro a França


Pedro Correia,

Faltam cinco dias para terminar o Mundial-2026. Terá sido o maior e, num certo sentido, o melhor de sempre – em termos de receitas, de audiências, de equipas participantes e de golos marcados. Foi também o primeiro a realizar-se em três países – embora na percepção comum este seja o campeonato “dos Estados Unidos”, com México e Canadá a figurarem como locais muito secundários. Prenunciando a posição subalterna de Portugal no Mundial-30 face a Espanha e até a Marrocos. O alerta fica desde já.

Restam quatro semifinalistas: Argentina, Espanha, França e Inglaterra. Cada qual com a sua figura mais emblemática: Messi, Yamal, Mbappé e Kane.

Não sei quais as vossas opções, mas eu sinto-me agora apoiante de França – algo que creio suceder-me pela primeira vez. Pelo mais simples dos motivos: é a selecção que tem jogado melhor. E também a que vem ganhando sem qualquer favor dos árbitros ou videoárbitros. Já o mesmo não se pode dizer dos ingleses e dos argentinos.

Allez, allez!

 

ADENDA: A selecção espanhola venceu 2-0, carimbando a presença na final de domingo. França, com 16 golos marcados no Mundial, desta vez nem beliscou a baliza adversária. Aplauso aos vencedores: comprovam que não eliminaram Portugal por acaso. Destaque para Rodri, Cucurella e o grande Pedro Porro, campeão nacional pelo Sporting em 2020/21: hoje o segundo golo foi dele.

As individualidades fazem a diferença


Pedro Correia,
A lesão de Nuno Mendes aos 55′ no Portugal-Espanha

 

Futebol é desporto de equipa, sim. Mas nele as individualidades fazem a diferença. Daí tanto se falar nas chamadas estrelas dos estádios – aqueles que atraem multidões aos espectáculos e à mercadoria que gira em torno deles.

Nem têm de marcar qualquer golo – podem estar lá até para impedi-los. Foi o caso de uma das atracções deste Campeonato do Mundo: o guarda-redes Vozinha, que se comportou, logo no confronto com Espanha, como um gigante na baliza nesta sua estreia absoluta na alta-roda da modalidade.

Aos 40 anos, idade em que a maior parte dos futebolistas já pendurou as chuteiras, Josimar José Évora Dias – seu nome no registo civil – deu uma lição de profissionalismo e talento entre os postes.

Sem ele, a modesta selecção caboverdiana não teria chegado aos oitavos-de-final da prova. Caiu de pé, impondo um prolongamento à Argentina, actual campeã do mundo.

 

Senti algo semelhante ao ver o Bélgica-Espanha, na sexta-feira. O desafio estava empatado desde a primeira parte quando o veterano guardião belga (e do Real Madrid), Thibaut Courtois, se viu forçado a abandonar o campo por lesão. Saiu em lágrimas aos 70′, consciente de que perdia uma oportunidade irrepetível de inscrever o seu nome em letras de ouro na história do futebol a nível de selecções.

Parecia adivinhar: o seu jovem substituto, Lemmens, deixou escapar a bola com uma defesa incompleta, proporcionando a Merino, aos 88′, o golo do triunfo espanhol.

Ninguém duvida: a saída de Courtois fez a diferença. Para pior, infelizmente para os belgas.

Como fez, no nosso caso, a lesão de Nuno Mendes – também contra os espanhóis. Melhor jogador em campo no embate ibérico, faz hoje oito dias, o lateral esquerdo português neutralizou o seu oponente directo, Lamine Yamal, dominando aquela ala tanto no plano defensivo como ofensivo, como se comprovou no seu fortíssimo remate aos 40′ que embateu com estrondo na trave.

Houve dois jogos neste jogo. Equilibrado, com oportunidades repartidas, enquanto Nuno – antigo campeão nacional pelo Sporting e actual bicampeão europeu pelo PSG – esteve em campo. E outro, muito diferente, depois de ele sair coxeando, aos 55′, após mais um confronto com Lamine. A selecção portuguesa ficou irreconhecível a partir daí. Até o fatal Merino ditar o resultado marcando o golo solitário dos espanhóis mesmo ao cair do pano (90’+1).

Sim, as individualidades fazem a diferença nos chamados “desportos colectivos”. Sem elas, o futebol não teria – nem de longe – este sortilégio que faz apaixonar o mundo.

Arte sobre a relva


Paulo Sousa,

Já lá vão uns largos anos. Um professor de filosofia, que julgo não ter estado muito tempo na Escola Secundária de Porto de Mós, um dia revelou à minha turma que quando via futebol na televisão tirava-lhe o som e punha a tocar um disco de música clássica. Avisou logo que, até se experimentar, poderia parecer uma coisa estapafúrdia. O primeiro encanto residia em deixar de ouvir as idiotices dos comentadores. Os relatadores da rádio eram coisa diferente. Recorrendo apenas a palavras, desenhavam os movimentos dos jogadores na imaginação de quem os escutava e com metáforas e mudanças na intensidade da voz, coloriam o éter da rádio. Essa era uma arte maior. Agora, ter de ouvir comentadores a explicar-nos as imagens televisivas que estamos a ver, podia aproximar-se perigosamente de uma forma de tortura. Com música clássica de fundo, e mesmo sem que os jogadores tenham consciência disso, o futebol, o jogo do pontapé na bola, podia transformar-se num bailado.

No passado Sábado, enquanto assistia ao jogo Noruega-Inglaterra, depois de me arrepiar ao ouvir uma qualquer inanidade emitida pelos comentadores, lembrei-me do meu professor de filosofia do décimo ano. Baixei o volume da TV até ao zero e procurei uma lista de temas para violoncelo no Spotify.

O que se seguiu, fez-me escrever este postal. Sem entender como é que os movimentos de um arco sobre as cordas de um violoncelo podiam coincidir com os arranques, as simulações, as fintas e as fitas, as quedas, os remates e as defesas dos jogadores, o que é certo é que comecei a chamar quem estava comigo em casa para confirmar se viam o mesmo que eu estava a ver, e a ouvir. O Bellingham empatou ao som da Méditation de Thaïs, de Massenet e, já no prolongamento, confirmou a reviravolta durante a Sicilienne, de Fauré. Estávamos a torcer pela Noruega, o underdog merece sempre uma simpatia especial, mas mesmo quando o árbitro meteu o bedelho no resultado, coisa que não tem faltado neste Mundial, entreolhávamo-nos sorrindo pelo acerto dos artistas. Uns à frente da partitura e os outros de chuteiras a transpirar sobre a relva.

Futebol: a minha melhor memória


Pedro Correia,

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Tínhamos tudo contra nós. Jogávamos em casa da selecção adversária, perante um público maioritariamente hostil e tradicionalmente muito arrogante. Éramos apontados como “patinho feio” em todas as casas de apostas desportivas. Para cúmulo, vimos o nosso melhor jogador – e melhor jogador do mundo – inutilizado a partir do minuto 8 por falta que o árbitro entendeu não assinalar.

Mas soubemos resistir a todas as adversidades. Abdicámos do tradicional futebol-espectáculo que durante décadas nada mais nos trouxe senão umas quantas “vitórias morais” e trouxemos para Portugal o mais cobiçado troféu até hoje conquistado pelo futebol português: o Campeonato da Europa ao nível de selecções seniores, arrebatado na épica final do Parque dos Príncipes, em Paris.

Aconteceu a 10 de Julho de 2016.

 

Como de costume, não faltaram desde o início os profetas da desgraça ao nível do comentário desportivo, prontos a vaticinar o desaire da equipa das quinas. Um desses comentadores destacou-se mesmo por ir criticando sempre a exibição dos jogadores comandados por Fernando Santos.

«A selecção nacional está transformada no clube do Ronaldo», começou por dizer (19 de Junho) esse idiota, corporizando todos os Velhos do Restelo cá do burgo. Uma semana depois (26 de Junho) proclamava com gravidade perante das câmaras da estação televisiva que lhe serve de palco: «Nós ainda não entrámos no campeonato da Europa! Nós ainda não entrámos no campeonato da Europa!» Dias depois (2 de Julho), assinalava: «Nada do que aconteceu neste Campeonato da Europa deve ser considerado um êxito, bem pelo contrário.» A uma semana do jogo decisivo (3 de Julho), não encontrou nada melhor para dizer senão isto: «Eu só dou grande mérito a Portugal quando ganhar a final.» Ainda antes da final (6 de Julho), torcia pelos nossos adversários: «A França é uma equipa que me encanta.» No fim de tudo (11 de Julho), lá teve de meter a viola no saco, mas resmungando ainda: «A selecção nacional, na final, foi melhor sem Ronaldo do que com Ronaldo.»

 

Indiferente a esta e muitas outras aves agoirentas, a selecção trilhou a sua rota ascendente, passo a passo, com persistência, sem nunca perder: 1-1 com a Islândia, 0-0 com a Áustria, 3-3 com a Hungria, 1-0 com a Croácia, 1-1 com a Polónia (vitória no desempate por penáltis), 2-0 com o País de Gales e 1-0 na final de 10 de Julho frente à anfitriã, França.

Cristiano Ronaldo (3), Nani (3), Renato Sanches, Quaresma e Éder marcaram os golos portugueses. Rui Patrício foi designado melhor guarda-redes deste torneio que nos encheu de orgulho e júbilo.

Nota adicional: nos 23 seleccionados de Fernando Santos havia quatro jogadores do Sporting (todos titulares) e dez formados na Academia leonina.

Motivos redobrados para eu festejar o maior título de sempre do futebol português, com imensa alegria ao ver a equipa das quinas campeã da Europa. Proeza inédita.

Não parece nada, mas já passaram dez anos.

Nós somos bestiais, eles umas bestas


Pedro Correia,

 

Então é assim. Não sei se também já repararam.

 

Enquanto a chama da conquista de um título permanece acesa, narradores e comentadores de futebol, cá no torrão pátrio, adoptam uma linguagem moldada ao colectivo, sentindo-se parte integrante de uma gesta épica. De uma nação valente, com egrégios avós. De um nobre povo que deu novos mundos ao mundo.

 

Dizem frases como estas:

Jogámos muito bem.

Demos uma lição de futebol.

Mantemos as esperanças intactas.

A nossa selecção é candidata à vitória final.

Os nossos jogadores são cada vez mais respeitados e até temidos no mundo inteiro.

Cristiano Ronaldo personifica o reavivar dos sonhos lusitanos na equipa de todos nós.

 

Quando o sonho se desmorona, logo o sujeito da oração se altera: deixa de ser colectivo. E a forma verbal dominante também sofre drástica mutação, transitando da primeira do plural para a terceira do singular no mesmo espaço de narração e comentário. Acentuando distâncias, com nítido tom de desprezo e até um certo esgar de nojo.

 

Com frases como estas:

A equipa vacilou nos instantes decisivos.

Os avançados ficaram muito aquém daquilo que os adeptos lhes exigiam.

O seleccionador escolheu mal os titulares e mostrou-se incompetente na gestão do onze. 

A selecção regressa a Portugal sem nenhum título conquistado, em clima de apagada e vil tristeza.

Cristiano Ronaldo comprovou que já não tem idade nem pedalada para competições de alto nível.

 

Do oito para o oitenta, enquanto o diabo esfrega um olho, quem era bestial vira besta.

Somos assim. Ou antes: eles são. Nunca me enganaram, eu bem os topo.

A batota não compensa


Pedro Correia,

A manobra baixa da parceria Trump-Infantino não funcionou. Ou antes: funcionou ao contrário, dando moral à excelente selecção belga que esta madrugada impôs à anfitriã, em Seattle, a maior goleada da prova até agora. O banalíssimo conjunto dos EUA, com o punido-mas-perdoado dianteiro Balogun no onze titular, sai de cena nos oitavos-de-final, aliás como as selecções do Canadá e do México, países também palco de jogos deste Mundial-26.

Confirma-se assim que a batota não compensa. A Bélgica, mesmo com a grave lesão de Onana, um dos seus melhores, foi muito superior, vulgarizando a turma dos Estados Unidos. Afinal de contas os “esteróides” trumpistas redundaram em insucesso. MAGA virou MATA: Make America Tiny Again.

E eis-me assim, graças às contingências da política quando se intromete no desporto, agora inesperado apoiante da selecção belga – algo que jamais me passaria pela cabeça. Deve ser por coisas destas que alguns catedráticos do esférico tanto falam no “sortilégio do futebol”.

“Magistratura de influência”


Pedro Correia,

Com Gianni Infantino, a FIFA bateu no fundo.

Ao ponto de bastar um telefonema de Donald Trump para o líder máximo da Federação Internacional de Futebol se envolver pessoalmente numa decisão da arbitragem, em pleno Campeonato do Mundo disputado na América do Norte. E reverter um cartão vermelho exibido a Balogun, goleador da selecção dos EUA, que assim contará com ele no desafio dos oitavos-de-final, contra a Bélgica.

Trump meteu a cunha – e, como é seu hábito, não fez segredo disso. Infantino dobrou-se a tal ponto, em vénia ao poderoso inquilino da Casa Branca, que terá tocado com o queixo no chão. A última vez que houve notícia de um jogador despenalizado por interferência directa da FIFA foi em 1962, no Mundial do Chile.

Caso óbvio de “magistratura de influência”? Sem dúvida. Talvez inserida no programa das celebrações do 250.ª aniversário da independência dos Estados Unidos da América.

Se o belicista Trump ficou sem Nobel da Paz, Infantino não rejeita oferecer-lhe de bandeja o campeonato do mundo de futebol e proclamá-lo até como imperador do esférico, rei universal dos pontas-de-lança, monarca absoluto da impunidade desportiva.

Admiração? Nenhuma. Este é o mesmo Infantino que em Dezembro do ano passado se apressou a distingui-lo com o “Prémio da Paz da FIFA”, galardão criado só para o magnata de Mar-a-Lago.

É verdade que os EUA nasceram em 1776 como acto de rebeldia de 13 colónias inglesas no Novo Mundo contra a monarquia hereditária em Londres, mas no mundo contemporâneo não existe conceito tão fluido como república. Como se comprova, por exemplo na “República Popular Democrática” da Coreia e na “República” Islâmica do Irão.

Trump, que nunca aceitou a derrota de Novembro de 2020 contra Joe Biden, não se calaria perante um cartão vermelho ao seu avançado de eleição. Exarou decreto – e o submisso Infantino obedeceu.

Dizem-me, e com razão, que critico com liberalidade o esposo de Melania Trump. Agradeço o elogio, mas faço uma ressalva: verdadeiramente desprezível, para mim, é a corte de invertebrados que o rodeiam e lhe prestam vassalagem a toda a hora.

Trump só faz o que faz porque eles são como são.

O Brasil no Mundial 2026


jpt,

Há uns meses o cidadão brasileiro Vinícius veio trabalhar a Lisboa. Aqui descrevi o momento, agora resumo-o. Tendo alcançado sucesso, comemorou publicamente de uma forma gestual que na cultura do seu país, na do país onde trabalha e na do nosso país, significa a sodomização imposta. Dedicada aos meus familiares, amigos, vizinhos e compatriotas de sensibilidade benfiquista. Depois arranjou uma polémica autojusticativa.

Agora, representando a selecção de futebol do país que idolatra tamanho energúmeno, foi surpreendentemente eliminado no torneio mais apetecido… Educadamente clamo “na pá.., fdp.!“, consabida forma matizada de me rir e responder à letra. E a todos os seus miseráveis admiradores.

Em memória do colega falecido


Pedro Correia,

Ao contrário do que alguns pensam, futebol não é só bola. É muito mais do que isso – incluindo a expressão de sentimentos nobres. Começando pela gratidão.

Foi inesquecível a madrugada de hoje em Toronto, que mais parecia cidade portuguesa, mal terminou o jogo Portugal-Croácia. Com milhares nas ruas celebrando um saboroso triunfo por 2-1 (golos de Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos) que transporta a equipa das quinas aos oitavos-de-final do Campeonato do Mundo.

Agora vamos defrontar Espanha. Já na segunda-feira, em Dallas, a partir das 20 horas. Alguns – os derrotistas de sempre – antecipam que se trata de missão quase impossível. Esquecendo que nos últimos 15 anos as duas selecções se enfrentaram oito vezes, com este saldo: seis empates, uma vitória espanhola e outra nossa. Nada que deva atemorizar seja quem for. Sabendo-se que no mais recente embate, há um ano, a vitória sorriu-nos em momento crucial: na final da Liga das Nações. Os tais derrotistas, sempre prontos a antever desaires, lá tiveram de engolir essa.

Mas porque falo em gratidão? Hoje os jogadores portugueses dedicaram a difícil vitória contra os croatas a um colega e amigo que morreu a 3 de Julho de 2025, com apenas 28 anos, em trágico desastre de automóvel. Diogo Jota, esse elemento nuclear da selecção portuguesa, não foi esquecido. Cristiano Ronaldo fez até questão de vestir a camisola n.º 21, que o malogrado futebolista costumava usar. Sem reprimir as lágrimas, pois um homem também chora.

Foi o momento mais bonito desta festa portuguesa no Canadá.

Não quero acreditar


Paulo Sousa,

Há algumas horas que anda a circular pelas redes, o que poderá vir a ser o próximo emblema da Federação Portuguesa de Futebol.

O primeiro comentário que ouvi, referia a vontade de vender camisolas da selecção em regiões do globo onde um crucifixo possa ser  incómodo.

Espero que seja apenas uma brincadeira de mau gosto.

A Febre de Sábado à Tarde


Maria Dulce Fernandes,

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Coleccionar é meu costume desde pequena. Selos, moedas, postais, talões de entradas em transportes e locais diversos… e cadernetas de cartas e cromos, primeiro apenas com a Neta e agora também com o Neto e a maluquice dos “bonecos da bola”.

Com o advento do Mundial, começaram as cruzadas em busca da caderneta e seguidamente dos cromos. A distribuidora tem como estratégia de marketing oferecer cadernetas às crianças à saída das escolas, mas oferecem apenas vinte ou trinta, sabendo que uma escola não funciona com menos de duzentas crianças. O que acontece é que quem não foi contemplado com a oferenda vem para casa triste e a pedir para fazer a colecção.

É aqui que a porca torce o rabo, porque não há cadernetas para a venda, e dos cromos nem se fala.

Consegui a minha caderneta no princípio do mês de Maio, num obscuro quiosque perto de um Centro de Saúde onde fui fazer um rastreio de retinopatia diabética. Nesse dia trouxe a caderneta e um molhinho de saquetas de cromos. Nas semanas que se seguiram corremos todas as capelinhas conhecidas, o quiosque inclusive, mas de cromos, nada.

Num sábado à noite, passou no telejornal uma peça sobre um evento realizado aos sábados, a alguns metros da minha casa, numa lojinha para coleccionadores de um pequeno centro comercial, onde se compravam e trocavam cromos, de diversas categorias e variadas colecções. Não tardou que o toque do telefone interrompesse a nossa atenção à televisão. O Neto pedia para o levarmos à reunião de coleccionadores. Ficou combinado que iríamos no sábado seguinte.

Como o que é prometido, é devido, preparámo-nos e lá fomos. Com a grande publicidade obtida com a peça na TV, o número de pessoas que se propuseram participar no evento provavelmente decuplicou. No parque de estacionamento, na esplanada, nos passeios, nas escadas, no chão, por todo o lado, havia gente com cadernetas abertas, papéis com listas enormes, envelopes, bolsas, caixas, baús cheios de cromos, que compravam, vendiam e trocavam. O ambiente era de uma alegria contagiante, a música era envolvente, o convívio era total. Depois de três horas, de conseguirmos um lugar no chão e de conversarmos com sei lá quantas pessoas, cumprimos o nosso propósito e regressámos a casa com setenta novos cromos, trinta trocados e cinquenta comprados avulso.

Tivemos uma tarde bem passada, produtiva e divertida. Provavelmente voltamos no próximo sábado.

Falta muito para acabar a caderneta, mas sabemos agora que é possível chegar lá, sem ter de gastar centenas de euros e que as crianças encontram amigos e colegas, fazem novas amizades e divertem-se sem TVs ou telemóveis.

Relatores, relatadores, narradores


Pedro Correia,

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Fui tendo vários relatores (ou relatadores) de futebol preferidos, consoante as épocas. Do Artur Agostinho e do Fernando Correia, os primeiros que ouvi, até ao Miguel Belo, actualmente. Passando pelo Romeu Correia, o Manuel Fernandes (que morreu cedo, num acidente), o Nuno Brás, o Ribeiro Cristóvão, o Costa Martins, o David Borges, o Pedro Azevedo, o Pedro Sousa, o Fernando Eurico, o Carlos Daniel, o Paulo Sérgio…

Alguns – sobretudo os mais antigos – criaram expressões que fizeram escola e se incorporaram no vocabulário comum. “Bola à flor da relva”, “retenção de bola”, “tapete verde”, “no enfiamento da jogada”, “o pé que tem mais à mão”…

Houve uma época, aliás longa, em que o Jorge Perestrelo também era o que eu mais gostava de ouvir. Criou expressões que toda a gente passou a dizer, como a “revienga”, “ripa na rapaqueca”, “é disto que o meu povo gosta”, “o que é que é isso, ó meu?!” e “essa até eu marcava, com a minha barriguinha…”

Às vezes, nas partes mais chatas dos jogos, falava de outras coisas, como a deliciosa moamba que a mãe cozinhava. Era um espectáculo sonoro associado ao espectáculo visual.

 

Há histórias extraordinárias de relatores da bola – hoje gostam de intitular-se narradores. Lembro-me de uma do Artur Agostinho, nos velhos tempos em que andava “com a baliza às costas” – isto é, quando se trabalhava em precárias condições. Num jogo internacional, sem acesso à ficha com os nomes dos jogadores estrangeiros, inventou-os todos…

Hoje, claro, seria impossível. Aliás alguns passam mais tempo a olhar para o ecrã onde estão as estatísticas do que a ver o jogo. E não relatam nem narram. Só debitam nomes e números 

Se profissionalismo é isto, confesso sem hesitar que preferia o amadorismo anterior.