
Por cá, chamam-lhe Castelo. Não é bem isso: trata-se de uma fortaleza. Estamos no aquartelamento de tropas operacionais mais antigo situado em território português com presença ininterrupta há mais de quatro séculos. Refiro-me ao Regimento de Angra do Heroísmo – o núcleo militar mais ocidental da Europa.
É visita obrigatória para quem vem à capital da Terceira. Domina o panorama como elemento tutelar do Monte Brasil, neste extremo sul da ilha. Desde a ´´ultima década do século XVI, estava Portugal sob domínio espanhol. Esta foi a parcela de território nacional que o rei Filipe mais tardou a submeter. Daí ter conjecturado sobre uma grande estrutura defensiva destinada a travar não apenas insurreições lusitanas mas também o ataque de corsários à cidade, situada na rota da prata americana e das especiarias das Índias.
São mais de cinco quilómetros de muralhas: envolvem todo o istmo e insinuam-se monte adentro, em curvas sinuosas e caprichosas. Em Portugal, só as de Elvas são mais extensas.
Passou a chamar-se Fortaleza de São João Baptista após a Restauração, em homenagem não apenas ao santo, primo de Jesus, mas ao primeiro rei Bragança, João também ele – o quarto com este nome.
Ganhou fama de inexpugnável nesta ilha dotada de oitenta fortes. Alguns transformados em deploráveis ruínas, como o das Cinco Ribeiras.

Quem aqui entra, em visita organizada pelo Museu de Angra, depara logo com um painel de propaganda do Exército onde se lê: «Segurança hoje, bem-estar amanhã.» Há uma crise assumida de efectivos, o fim do serviço militar obrigatório encerrou uma longa etapa deste aquartelamento como pólo de encontro de mancebos oriundos de todos os cantos dos Açores e de outras partes do País. Socialização com farda no antigo Regimento de Infantaria n.º 17, agora Regimento de Guarnição n.º 1. Chegou a acolher 1500 militares, hoje reduzidos a escassa centena.
Diz-se que há cerca de 400 peças de artilharia espalhadas por aí – relíquias de outros tempos, ainda mais conturbados do que os actuais. As mais vistosas são as baterias aéreas – ainda apontadas aos céus – mandadas instalar em 1943 por Oliveira Salazar, que nunca pôs os pés nos Açores mas temia a ocupação do arquipélago por forças estrangeiras, durante a II Guerra Mundial, apesar da não-beligerância portuguesa.

Aqui respira-se história por vários motivos.
Entre 1669 e 1674, foi local de degredo do deposto Rei Afonso VI, que se manteve como monarca nominal enquanto a condução do reino era confiada a D. Pedro II, seu irmão mais novo. Esteve recolhido num edifício anexo ao Palácio do Governador, este ainda hoje habitado, na soberba praça de armas. Viria a morrer em 1683, ainda enclausurado, no Palácio da Vila de Sintra.
Fez-se História também a 22 de Junho de 1828, quando aqui foi solenemente hasteada, pela primeira vez, a bela bandeira azul e branca da monarquia constitucional – símbolo do combate ao jugo absolutista, pavilhão nacional até 1910.
Esta cidadela viria a ser presídio noutros ciclos políticos. Entre 1896 e 1906 viveu aqui exilado o célebre Gungunhana, régulo dos vátuas de Gaza, no sul de Moçambique, derrotado por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite. Um dos três parentes que o acompanharam integrou-se na sociedade local, empregou-se como vigilante do parque e aqui constituiu família. Tem descendentes em Angra.

Após a implantação da ditadura militar e a instauração do regime salazarista, entre 1926 e 1943, o presídio filipino foi reaberto para receber opositores políticos, sobretudo anarquistas e comunistas, em condições degradantes, nomeadamente nas celas do isolamento, sem janelas nem acesso a luz solar.
Menos conhecida – mas igualmente vergonhosa – foi a transformação da cidadela em campo de concentração para mais de 700 cidadãos de ascendência germânica residentes em todas as parcelas de Portugal, entre 1916 e 1919, a pretexto de se tratar de gente “inimiga” no contexto da I Guerra Mundial. Este número abrangia cidadãos integrados na nossa sociedade, naturalizados portugueses e até com filhos a servir no exército, após juramento perante a bandeira verde-rubra.
“Depósito de concentrados”, assim lhe chamaram na I República. Típico eufemismo à portuguesa.

Águas passadas. Nos dias actuais, mantendo a função militar que lhe deu fama, a Fortaleza de São João Baptista integra o conjunto arquitectónico que levou a UNESCO a proclamar Angra património mundial da humanidade, em 1983. Três anos após o devastador sismo que arruinou cerca de três quartos dos edifícios da cidade.
É também paisagem protegida, integrada no conjunto do Monte Brasil – um dos mais deslumbrantes cenários naturais do País.
Motivo de orgulho para os angrenses, para os terceirenses, para todos nós.














