História ao vivo, com luzes e sombras


Pedro Correia,
Actual Regimento de Guarnição n.º 1, antigo Batalhão de Infantaria 17

Por cá, chamam-lhe Castelo. Não é bem isso: trata-se de uma fortaleza. Estamos no aquartelamento de tropas operacionais mais antigo situado em território português com presença ininterrupta há mais de quatro séculos. Refiro-me ao Regimento de Angra do Heroísmo – o núcleo militar mais ocidental da Europa.

É visita obrigatória para quem vem à capital da Terceira. Domina o panorama como elemento tutelar do Monte Brasil, neste extremo sul da ilha. Desde a ´´ultima década do século XVI, estava Portugal sob domínio espanhol. Esta foi a parcela de território nacional que o rei Filipe mais tardou a submeter. Daí ter conjecturado sobre uma grande estrutura defensiva destinada a travar não apenas insurreições lusitanas mas também o ataque de corsários à cidade, situada na rota da prata americana e das especiarias das Índias.

São mais de cinco quilómetros de muralhas: envolvem todo o istmo e insinuam-se monte adentro, em curvas sinuosas e caprichosas. Em Portugal, só as de Elvas são mais extensas.

Passou a chamar-se Fortaleza de São João Baptista após a Restauração, em homenagem não apenas ao santo, primo de Jesus, mas ao primeiro rei Bragança, João também ele – o quarto com este nome.

Ganhou fama de inexpugnável nesta ilha dotada de oitenta fortes. Alguns transformados em deploráveis ruínas, como o das Cinco Ribeiras.

Estas muralhas existem há mais de 400 anos

Quem aqui entra, em visita organizada pelo Museu de Angra, depara logo com um painel de propaganda do Exército onde se lê: «Segurança hoje, bem-estar amanhã.» Há uma crise assumida de efectivos, o fim do serviço militar obrigatório encerrou uma longa etapa deste aquartelamento como pólo de encontro de mancebos oriundos de todos os cantos dos Açores e de outras partes do País. Socialização com farda no antigo Regimento de Infantaria n.º 17, agora Regimento de Guarnição n.º 1. Chegou a acolher 1500 militares, hoje reduzidos a escassa centena.

Diz-se que há cerca de 400 peças de artilharia espalhadas por aí – relíquias de outros tempos, ainda mais conturbados do que os actuais. As mais vistosas são as baterias aéreas – ainda apontadas aos céus – mandadas instalar em 1943 por Oliveira Salazar, que nunca pôs os pés nos Açores mas temia a ocupação do arquipélago por forças estrangeiras, durante a II Guerra Mundial, apesar da não-beligerância portuguesa.

Praça de armas. Ao fundo, o Palácio do Governador. Ali esteve detido Afonso VI

Aqui respira-se história por vários motivos.

Entre 1669 e 1674, foi local de degredo do deposto Rei Afonso VI, que se manteve como monarca nominal enquanto a condução do reino era confiada a D. Pedro II, seu irmão mais novo. Esteve recolhido num edifício anexo ao Palácio do Governador, este ainda hoje habitado, na soberba praça de armas. Viria a morrer em 1683, ainda enclausurado, no Palácio da Vila de Sintra.

Fez-se História também a 22 de Junho de 1828, quando aqui foi solenemente hasteada, pela primeira vez, a bela bandeira azul e branca da monarquia constitucional – símbolo do combate ao jugo absolutista, pavilhão nacional até 1910.

Esta cidadela viria a ser presídio noutros ciclos políticos. Entre 1896 e 1906 viveu aqui exilado o célebre Gungunhana, régulo dos vátuas de Gaza, no sul de Moçambique, derrotado por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite. Um dos três parentes que o acompanharam integrou-se na sociedade local, empregou-se como vigilante do parque e aqui constituiu família. Tem descendentes em Angra.

Gungunhana, detido em Chaimite (1895) viveu aqui dez anos

Após a implantação da ditadura militar e a instauração do regime salazarista, entre 1926 e 1943, o presídio filipino foi reaberto para receber opositores políticos, sobretudo anarquistas e comunistas, em condições degradantes, nomeadamente nas celas do isolamento, sem janelas nem acesso a luz solar.

Menos conhecida – mas igualmente vergonhosa – foi a transformação da cidadela em campo de concentração para mais de 700 cidadãos de ascendência germânica residentes em todas as parcelas de Portugal, entre 1916 e 1919, a pretexto de se tratar de gente “inimiga” no contexto da I Guerra Mundial. Este número abrangia cidadãos integrados na nossa sociedade, naturalizados portugueses e até com filhos a servir no exército, após juramento perante a bandeira verde-rubra.

“Depósito de concentrados”, assim lhe chamaram na I República. Típico eufemismo à portuguesa.

Baía de Angra vista da fortaleza. Em primeiro plano, o parque do Relvão

Águas passadas. Nos dias actuais, mantendo a função militar que lhe deu fama, a Fortaleza de São João Baptista integra o conjunto arquitectónico que levou a UNESCO a proclamar Angra património mundial da humanidade, em 1983. Três anos após o devastador sismo que arruinou cerca de três quartos dos edifícios da cidade.

É também paisagem protegida, integrada no conjunto do Monte Brasil – um dos mais deslumbrantes cenários naturais do País.

Motivo de orgulho para os angrenses, para os terceirenses, para todos nós.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

Passámos a década de 90 a discutir se a História tinha acabado. Bons tempos esses, totalmente irrepetíveis. Assim nos despedimos do milénio anterior. A partir de 2001, ao contrário de muitos vaticínios, a História tem acelerado – sem limite de velocidade. Toda a poeira levantada por aquelas frenéticas discussões jaz sepultada sete palmos abaixo do chão.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a seman

EUA sob o signo do medo


Pedro Correia,

O maior presidente norte-americano de sempre, Abraham Lincoln, foi assassinado enquanto assistia a uma representação teatral em Washington. Foi um dos dias mais fatídicos da história dos EUA, esse 14 de Abril de 1865. A partir daí, os americanos começaram a aguardar uma nova fatalidade. Que foi surgindo sempre, a intervalos regulares de cerca de 20 anos.

A tragédia seguinte ocorreu em 2 de Julho de 1881, quando o presidente James Garfield – empossado escassos quatro meses antes – foi alvejado numa estação ferroviária da capital americana e morreu após penosa agonia, a 19 de Setembro. Esteve 200 dias em funções: foi até hoje o segundo presidente que permaneceu menos tempo na Casa Branca. Ultrapassando apenas William Harrison, morto de pneumonia a 4 de Abril de 1841: liderou o executivo norte-americano só 30 dias, 12 horas e 30 minutos, segundo a minuciosa contabilidade oficial.

Há quem diga que a maldição teve início aí.

 

O século XX envergou luto ainda no berço: uma sombra negra voltava a projectar-se sobre os EUA. O presidente William McKinley morreu assassinado por um anarquista que o alvejara oito dias antes, a 6 de Setembro de 1901. Para os americanos, o século XX começava da pior maneira.

Decorridos pouco mais de 20 anos, a 2 de Agosto de 1923, registava-se outra morte: o presidente Warren Harding sucumbia a um enfarte do miocárdio durante uma visita à Califórnia.

Em 7 de Dezembro de 1941, ocorria o Dia da Infâmia, como lhe chamou o presidente Franklin Roosevelt. Os japoneses atacaram Pearl Harbor, provocando a morte de 2403 militares e 68 civis. Os americanos entravam na mais mortífera guerra de todos os tempos, sob o comando de Roosevelt, que só viveria pouco mais de três anos: faleceu em 12 de Abril de 1945, vítima de uma hemorragia cerebral, duas semanas antes de Hitler se suicidar no bunker da chancelaria em Berlim.

Decorridas outras duas décadas, a 22 de Novembro de 1963, John Kennedy era assassinado em Dallas. E em 30 de Março de 1981 o presidente Ronald Reagan escapou por um triz a um grave atentado a tiro em Washington que lhe perfurou um pulmão.

 

«Têm sido cometidos atentados contra as vidas de muitos dos nossos presidentes; quatro foram assassinados. Seria relativamente fácil proteger as vidas dos nossos presidentes contra ataques de estrangeiros, mas é praticamente impossível protegê-los dos americanos. E depois vem a tristeza – a terrível sensação da perda de um membro da família. Diz-se que, quando Lincoln morreu, os tambores africanos levaram até ao centro do continente negro a notícia de que um salvador fora assassinado.»

Palavras de John Steinbeck no seu magnífico ensaio A América e os Americanos (1966), que foi também o seu livro-testamento.

 

Mas o pior estava por vir – e chegaria, como uma espécie de imperativo do destino, 20 anos depois da tentativa de assassínio de Reagan. Em 11 de Setembro de 2001, os EUA descobriam da forma mais trágica que não eram uma nação invulnerável a ataques do exterior. O território norte-americano foi poupado durante a I Guerra Mundial e na II Guerra Mundial a destruição ficou-se pelo arquipélago do Havai. Os americanos envolveram-se nas guerras da Coreia e do Vietname, mas sem um só disparo nos EUA. A destruição das Torres Gémeas por suicidas estrangeiros virou uma decisiva página da História. E ninguém acreditou tratar-se de um acto irrepetível: pode acontecer de novo. Em qualquer altura, em qualquer lugar.

Foi há 25 anos. A cada atentado cometido, a cada atrocidade que todos são incapazes de travar, a quase lendária confiança norte-americana vai-se diluindo. Começam a ficar longínquos os dias em que nos EUA habitava o povo mais seguro de si de todo o planeta. A América vive hoje sob o signo do medo. E parece disposta a abdicar de parcelas da liberdade a troco da segurança. Este pode ser um dos dos factos mais dramáticos do nosso tempo, herança inevitável do 11 de Setembro.

Memória da efémera “muralha de aço”


Pedro Correia,

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Tomada de posse do V Governo Provisório (8 de Agosto de 1975)

Houve vários governos muito efémeros em Portugal. Mas nenhum no último século teve vida tão curta como o governo mais à esquerda que até hoje vigorou entre nós: durou 42 dias — entre 8 de Agosto e 19 de Setembro de 1975 — e só mereceu o apoio do PCP, que havia recolhido apenas 12,5% dos votos na eleição para a Assembleia Constituinte, realizada três meses antes. PS, PPD e CDS, cujos deputados somavam quase 75% dos lugares no hemiciclo de Sao Bento, não estavam representados nem se reconheciam neste Executivo liderado pelo general Vasco Gonçalves, compagnon de route dos comunistas.

Foi o tristemente célebre V Governo Provisório. Tão distante da vontade popular que começou a dissolver-se mal foi empossado. Tão extremista e tão sectário nas suas proclamações doutrinárias que cavou logo à nascença um abismo face à esmagadora maioria dos portugueses.

 

«Unificação progressiva da vanguarda política da revolução e do seu suporte social; estruturação progressiva dos órgãos unitários de base em ligação com o M.F.A. [Movimento das Forças Armadas]; desenvolvimento da consciência social do processo em curso, pela revolução cultural e utilização correcta e responsável dos meios de comunicação social; superação da crise resultante do desmantelamento do poder monopolista do grande capital; criação de condições para uma economia planificada, controlada pelos trabalhadores e orientada eficazmente para a transição para o socialismo; descentralização administrativa em articulação com a orgânica do planeamento; adopção de acções consequentes na política externa, em obediência ao princípio da independência nacional e promovendo esquemas de cooperação que contribuam efectivamente para a construção do socialismo em Portugal.»

Eis algumas frases-chave do programa do V Governo Provisório. Que pretendia intensificar o “processo revolucionário rumo ao socialismo”, procurando “acelerar a intensificação de relações com os países socialistas do Leste” [pertencentes ao bloco soviético].

 

Em matéria económica, previa-se a “socialização dos meios de produção”, o “controlo organizado da produção pelos trabalhadores” e a “ultimação da fase de nacionalização sistemática”. Além (pasme-se!) da “completa reestruturação de todo o sistema de relações sociais”. Como se Lisboa, nesse Verão quente de 1975, fosse uma réplica da efervescente Petrogrado de 1917.

Era um Governo tão sui generis que incluía até uma inédita Secretaria de Estado da Cooperação Económica com os Países Socialistas. O que diz tudo sobre o seu pendor ideológico.

 

«Melhorar é mudar, ser perfeito é mudar regularmente.» Palavras de Winston Churchill, o mais reputado conservador de sempre. Palavras que bem podiam aplicar-se aos que pugnaram em 1975 pelo “desmantelamento do poder monopolista do grande capital” e hoje, mais comedidos, apenas querem “reestruturar a dívida pública para libertar e canalizar recursos minimamente suficientes a favor do crescimento”.

Insuportáveis reformistas, diriam de si próprios naquele tempo em que se imaginavam a “ultimar a fase de nacionalização sistemática” integrando a “muralha de aço” do “companheiro Vasco”.

Para que Portugal fosse mais uma estrela de cinco pontas a brilhar no incomparável firmamento socialista.

Quem terá sido?


Pedro Correia,
Fontes Pereira de Melo (1819-1887)

No Palácio da Bolsa, no Porto, existe este busto daquele que considero ter sido o melhor chefe do Governo português do século XIX: António Maria de Fontes Pereira de Melo, que liderou o executivo em 1871-1877, 1878-1879 e 1881-1886.

Tarefa nada fácil, num século que começou com as invasões francesas e praticamente terminou com o Ultimato inglês pondo fim às nossas ambições territoriais em África. Pelo meio, a traumática perda do Brasil e a sangrenta guerra civil 1828-1834.

Apetece-me perguntar aos leitores: na vossa perspectiva, quem terá sido o melhor chefe do Governo português do século XX?

Mário Soares 50 anos depois


Pedro Correia,
Fundador do PS foi empossado como chefe do Governo faz hoje meio século

Mário Soares, que tomou posse como primeiro-ministro do I Governo Constitucional a 23 de Julho de 1976, traçou linhas essenciais. Que são as grandes linhas que subsistem no nosso regime político-constitucional meio século depois.

A linha de fronteira entre democracia e ditaduras de vários matizes.

A linha de fronteira entre regime civilista e tutela militar (que em Portugal durou até 1982).

A linha de fronteira entre a Europa e o “terceiro-mundismo” pró-soviético que seduziu a fina flor da intelectualidade lusa até à antevéspera da queda do Muro de Berlim.

 

Recordo-me de ter visto Soares enxovalhado e até insultado, anos a fio, por quem à esquerda recusava essas linhas fronteiriças. Por quem enaltecia os militares como “garantia” da “verdadeira democracia”. Por quem entoava hossanas à “democracia popular”. Por quem urrava de indignação contra a “Europa capitalista” e ansiava ver Portugal como uma nova Albânia.

Esses ambicionam apoderar-se da memória dele. Mas não conseguem. Porque nos momentos decisivos combateram em trincheiras irremediavelmente opostas.

A História é o que é, não aquilo que alguns gostariam que tivesse sido.

Nos 90 anos da Guerra Civil de Espanha


Pedro Correia,

Assinala-se agora o 90.º aniversário do início da Guerra Civil de Espanha quando as marcas deste conflito permanecem cristalizadas em sectores políticos e mediáticos do país. Há referências insistentes às “duas Espanhas” – a franquista e a republicana – e reedita-se em colunas de jornal o espírito de trincheira que dilacerou o país durante um triénio sangrento – de Julho de 1936 a Março de 1939.

Não falta quem procure fazer tábua rasa do espírito da transição protagonizada nos anos imediatos do pós-franquismo pelo Rei Juan Carlos e pelo então primeiro-ministro Adolfo Suárez, um dos mais hábeis estadistas europeus da segunda metade do século XX.

A Lei de Amnistia, de 14 de Outubro de 1977, e a Constituição, aprovada pelas Cortes em 31 de Outubro de 1978, selaram um pacto duradouro entre essas duas Espanhas que se defrontaram ferozmente nos campos de batalha. Desenterrar os fantasmas do passado é de uma irresponsabilidade sem limites, numa proporção inversa ao espírito de concórdia que animou todos os sectores da sociedade espanhola naqueles dias de recuperação da liberdade após os anos de chumbo do franquismo – da Aliança Popular liderada por Fraga Iribarne, ex-ministro de Franco, ao Partido Comunista de Espanha (PCE), onde então pontificavam figuras como La Pasionaria e o poeta Rafael Albertí, além do próprio secretário-geral, Santiago Carrillo.

No debate da Lei de Amnistia, falando precisamente em nome do PCE, o sindicalista Marcelino Camacho, líder histórico das Comissões Operárias, deixou bem claro que o seu partido tinha «enterrado os seus mortos e os rancores», decidindo «apagar o passado de uma vez para sempre». Pondo assim em prática a política de reconciliação nacional aprovada pelo Comité Central em Junho de 1956.

É criminoso fomentar o mito das duas Espanhas. Convém ter sempre presente, a propósito disto, um dos mais notáveis discursos de que há memória no país vizinho, proferido no município de Barcelona em 1938 pelo presidente espanhol. A guerra estava no auge, com centenas de milhares de vítimas já contabilizadas e anteviam-se ainda muitos combates sangrentos.

Manuel Azaña proferiu então as palavras que se impunham:

«Quando a tocha passar a outras mãos, a outros homens, a outras gerações, se alguma vez sentirem que lhes ferve o sangue iracundo e outra vez o génio espanhol voltar a enfurecer-se com a intolerância e o ódio e o apetite de destruição, devem pensar nos mortos e escutar a lição que nos transmitem: a desses homens que caíram embravecidos na batalha, lutando magnanimamente por um ideal grandioso e que agora, abrigados na terra materna, já não sentem ódio, já não alimentam rancor, e nos enviam a mensagem da pátria eterna que diz a todos os seus filhos: paz, piedade, perdão.»

Estas palavras imortais de Azaña, figura trágica desses anos em que o incêndio de Espanha antecipou a mais devastadora de todas as guerras, deviam ressoar hoje como o dobre de um sino em sinal de alerta. Quem não aprende com os erros da História está condenado a repeti-los.

A paz é a mais frágil das conquistas


Pedro Correia,

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Releio o fabuloso livro de memórias de Stefan Zweig, intitulado O Mundo de Ontem. Foi, dramaticamente, um livro-testamento: o célebre escritor judeu austríaco, refugiado no Brasil, suicidou-se em Janeiro de 1942 logo após a conclusão deste manuscrito.

Retenho, em particular, o capítulo em que Zweig nos descreve a atmosfera europeia nas semanas que antecederam a I Guerra Mundial. «Se hoje, reflectindo com toda a calma, perguntarmos por que motivo a Europa entrou na guerra em 1914, não encontramos uma única razão plausível e nem sequer um pretexto. Não estavam em jogo ideias, mal estavam em jogo as pequenas regiões fronteiriças; não encontro outra explicação que não seja o excesso de energia, consequência trágica daquele dinamismo interno que se tinha vindo a acumular ao longo desses 40 anos de paz e que queria agora libertar-se com toda a violência. Cada Estado adquirira subitamente uma sensação de força e esquecera-se de que o outro sentia exactamente o mesmo: cada um queria ainda mais e cada um queria tirar partido do outro.»

Um testemunho dilacerante. E cheio de lições para os dias de hoje: a paz é a mais frágil conquista das civilizações contemporâneas. E nunca está plenamente garantida: é um erro profundo pensar o contrário.

A reforma que faz mais falta


Pedro Correia,

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Cortes Constituintes de 1821 (óleo de Veloso Salgado)

 

De todos os cantos irrompem comentadores angustiados com a ofensiva “liberal”, o que sempre tem o condão de me deixar perplexo: se há característica dominante na sociedade portuguesa, perpetuada nos nossos costumes políticos, é o seu extremo iliberalismo. Péssimos hábitos tão arreigados entre nós como a “cunha”, o “favorzinho”, o amiguismo, a benesse partidária, as teias burocráticas e as mordomias emanadas dos mais diversos poderes públicos – tantas vezes em confronto com a iniciativa individual – derivam desta presença excessiva do estado na sociedade.

Nenhuma reforma é tão urgente em Portugal como a reforma desta tendência secular de esperarmos que o Paço Real, nas suas emanações contemporâneas, ou algum dos chamados poderes fácticos decidam conceder-nos uma tença, uma prebenda, uma “atençãozinha” ou a simples autorização para registar uma patente ou inaugurar uma empresa.

 

A revolução liberal de 1820 pôs-nos a par da Europa civilizada.

A Constituição liberal de 1822 foi um inegável salto civilizacional num país abúlico e intolerante.

Um rei liberal – D. Pedro IV – fundou o Brasil.

Escritores liberais como Alexandre Herculano e Almeida Garrett rasgaram-nos horizontes mentais e estéticos.

Políticos liberais do século XIX, como Mouzinho da Silveira, Passos Manuel e Fontes Pereira de Melo, foram dos melhores governantes que tivemos desde sempre.

Lamentavelmente, o liberalismo em Portugal foi interrompido da pior forma. Primeiro pelo jacobinismo exacerbado da I República, depois pela longa ditadura que se auto-intitulou Estado Novo, a seguir com um regime constitucional que tardou oito anos a libertar-se da tutela militar e década e meia a eliminar as “nacionalizações irreversíveis” da sua lei fundamental.

 

Não existe verdadeiro liberalismo em Portugal há mais de cem anos. E mesmo no simples debate de ideias, neste nosso século XXI, o liberalismo continua a ser causticado, chegando quase a ser equiparado a um surto de peste bubónica. Não tenhamos ilusões: esta é uma das consequências do nosso endémico atraso estrutural.

Pior do que isso: esta é uma das causas desse atraso.

Todos os nomes – reis e presidentes


Pedro Correia,

 

 

Ao longo de 770 anos da monarquia portuguesa, houve apenas 16 nomes no cargo supremo do Estado – 15 masculinos e um feminino. Concretamente, sentaram-se no trono seis reis de nome Afonso, outros seis de nome João e cinco reis chamados Pedro. Nomes de monarcas foram também Sancho (dois reis), Dinis (um), Fernando (dois), Duarte (um), Manuel (dois), Henrique (um), Sebastião (um), Filipe (três), José (um), Miguel (um), Luís (um) e Carlos (um). Além de duas rainhas chamadas Maria, que ascenderam ao trono por morte ou abdicação de seus pais, D. José e D. Pedro IV.

A implantação da república, há cem anos, permitiu elevar à chefia do Estado alguns nomes próprios que seriam inimagináveis num monarca. Só a república nos deu Teófilos, Sidónios, Bernardinos, Óscares, Higinos e Américos. Só em república alguém chamado Aníbal atingiu o cume da pirâmide do Estado. E também um Marcelo.

 

Mas o nome mais republicano, seguramente, é António – único com que foram baptizados presidentes dos três ciclos republicanos ao longo deste quase século. Na I República houve António José de Almeida (1919-1923), único presidente que completou o seu mandato durante os anos inaugurais do regime. No Estado Novo, pontificou o presidente António Óscar Fragoso Carmona (1926-1951), o de mais longo mandato durante a ditadura. E no regime subsequente ao 25 de Abril de 1974 já vamos em quatro chefes do Estado com esse nome: António Sebastião Ribeiro de Spínola (1974), António dos Santos Ramalho Eanes (1976-1986), Aníbal António Cavaco Silva (2006-2016) e agora António José Seguro.

 

Curiosamente, sendo António um nome tão português, nunca houve um rei António, legalmente reconhecido como tal, embora D. António, prior do Crato, tenha chegado a ser proclamado monarca em 1580 por sectores do povo, inconformados – ao contrário das supostas elites – com a anexação a Espanha. Já Manuel é um nome comum a reis e presidentes: o primeiro Chefe do Estado em república foi Manuel de Arriaga (1911-1915), o último da I República foi Manuel Teixeira Gomes (1923-1925). E também tinha esse nome o primeiro líder do regime ditatorial – o marechal Manuel Gomes da Costa (1926).

 

  

 

Nenhum presidente português terá sofrido tanto no exercício do mandato como o almirante João de Canto e Castro. Não só porque ascendeu ao poder quando era ministro da Marinha, na sequência da trágica morte de Sidónio Pais, baleado na estação do Rossio, em Dezembro de 1918, mas também porque era monárquico. E viu-se forçado a reprimir a revolta monárquica de Janeiro de 1919, restabelecendo a legalidade republicana contra as suas convicções mais íntimas. O seu mandato durou dez meses. Morreu 15 anos depois, totalmente retirado da vida política.

 

No século XIV, Portugal esteve quase a ter uma rainha chamada Beatriz: era a filha única do rei D. Fernando, falecido em 1383. Mas as cortes de Coimbra negaram-lhe essa pretensão, entregando a coroa a uma nova dinastia, protagonizada pelo Mestre de Aviz, D. João I. Outros príncipes reais faleceram antes de chegar a reis: D. Afonso (seria o VI), filho de D. João II, em 1491; D. Teodósio, primogénito de D. João IV, em 1653; D. José (seria o II), filho de D. Maria I, em 1788; e D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, em 1908.

 

Joaquim Teófilo Fernandes Braga (1915), Bernardino Luís Machado Guimarães (1915-1917; 1925-26), Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1917-1918), José Mendes Cabeçadas Júnior (1926), Francisco Higino Craveiro Lopes (1951-1958), Américo de Deus Rodrigues Thomaz (1958-1974), Francisco da Costa Gomes (1974-1976), Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1986-1996), Jorge Fernando Branco de Sampaio (1996-2006) e Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa (2016-2026) foram os outros chefes do Estado republicanos.

 

Nenhum Sancho, nenhum Dinis. Nem Henrique, Filipe, Miguel ou Carlos. E sobretudo nem vestígio de Maria: até hoje não houve qualquer mulher na chefia do Estado republicano. Neste ponto a monarquia estava mais avançada. Ou parecia. E, em política, o que parece é.

 

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Imagens: D. Afonso Henriques (1); Manuel de Arriaga (2); D. Maria I (3); João Canto e Castro (4)

Curiosidade histórica


Paulo Sousa,

O General Ateniense Címon viveu entre os anos 510 e 450 a.C.. Era filho de um herói da Batalha de Maratona e alcançou a sua maior vitória na Batalha de Eurimedonte contra o Império Persa. Participou em diversas batalhas em que ajudou a consolidar a superioridade marítima ateniense e acabou por morrer durante uma expedição militar contra os Persas no Chipre. A sua morte foi mantida em segredo durante trinta dias, o que permitiu que assim fosse alcançada mais uma vitória. Graças a isso, o relato dos seus feitos termina com a frase “mesmo na morte, saiu vitorioso”.

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Em Janeiro de 2026 a Marinha Grega lançou a sua mais moderna fragata de fabrico francês, HS Kimon, a que atribuiu o nome do General Ateniense, mantendo assim a tradição de baptizar navios com nomes de personalidades históricas.

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Após o recente ataque iraniano contra o Chipre, a fragata HS Kimon foi destacada para a protecção desta ilha. Esta será a sua primeira missão.

História


Maria Dulce Fernandes,

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Todos crescemos com histórias de deuses, demónios e anjos, de terras de oiro, fontes de juventude, animais monstruosos e homens capazes de feitos de tão grande heroísmo que os elevaram muito acima do comum dos mortais.

Quem não se lembra do panteão de deuses imortais e semideuses valorosos que decoram as raízes étnicas de todos os credos e culturas?

Quem nunca ouviu falar no heroísmo e tenacidade da padeira de Aljubarrota, de Rómulo e Remo, de Robin Hood, Wilhelm Tell, Paul Bunyan ou  Hans Brinker?

São lendas e mitos que fazem parte da história, porque afinal a história trata de compilar, avaliar e verificar todo o tipo de informação transcorrida desde que o conhecimento existe. Existe história em tudo, e tudo e todos fazemos parte da história com maior ou menor grau de relevância.

Há a história que nos contam os antigos, que a ouviram de outros que a sabiam porque alguém mais velho lhes contou; é a tradição oral de quem conta um conto, tão enraizada no folclore dos homens desde que existem em grupos nómadas ou sedentários.

Todas as histórias juntas perfazem a história que estudamos nos livros das escolas, colégios e universidades. A história de alguns, de muitos, de todos e a sua influência no Mundo para ter chegado ao dia de hoje nos moldes em que o conhecemos.

Por fim, há a história viva. São aqueles factos ou pessoas que não passaram à história, só porque fizeram parte dela. Não há muita gente que tenha sobrevivido à sua história. Pessoas maiores são diferentes e normalmente as diferenças assustam e o resultado é eliminá-las  antes que  aniquilem a nossa forma de vida. Aconteceu há mais de 2000 anos na Galileia.

O tempo é implacável e o mundo vai perdendo todos os dias pedaços vivos da sua história, da  história dos homens, aqueles que viveram e fizeram História.

Pena que muitas pessoas que deixaram marca no tempo, enquanto são vivas, caiam no esquecimento com tanta facilidade e só se volte a falar nelas quando morrem. Como só a morte lhes pudesse dar a devida grandeza.