Desde 2009, ano da fundação deste blogue, escrevi aqui dezenas de obituários. Acabo de contabilizá-los: terão sido cento e oito. (Não garanto que a lista esteja completa.)
De portugueses e estrangeiros, de figuras célebres ou pouco famosas, de gente que tive o privilégio de conhecer pessoalmente ou de quem apenas tomei conhecimento por ver, ouvir e ler.
Uns mais sentidos, outros mais formais. Uns mais extensos, outros mais sucintos. Mas todos, creio, merecendo uns minutos de releitura e talvez de comentário.
Em seis dias consecutivos, a partir de hoje, deixo-vos uma súmula desses textos organizados por ordem alfabética – a benefício de inventário, como testemunho ou documento, para registo histórico. Porque a História com maiúscula vai sendo escrita, em forma de rascunho, também aqui.
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Adolfo Suárez (1932-2014). «Ninguém como ele — a par do Rei Juan Carlos — fez tanto para pôr fim às “duas Espanhas” que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas — numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.»
Adriano Moreira (1922-2022). «Apaga-se aos cem anos, recém-completados. Numa espécie de círculo perfeito, tanto quanto pode ser uma existência humana – que, mesmo quando longa, nunca deixa de ser breve.»
Albano Matos (1955-2015). «Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa “reestruturação” (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.»
Alexei Navalny (1976-2024). «Detido, à margem de todas as regras civilizacionais. Torturado. Condenado a 19 anos de cárcere por delito de opinião. Tratado como lixo humano, partilhando cárcere com violadores e pedófilos. Empurrado para uma das cloacas do planeta, um local com 45 graus negativos para onde o czarismo e o estalinismo desterravam milhares de presos políticos.»
Amy Winehouse (1983-2011). «Havia um funesto destino a marcar encontro com ela há muito tempo. Tinha um talento vocal ímpar – bem expresso nas interpretações que nos deixou em temas como Back to Black, Rehab, Love is a Losing Game e You know I’m no good – e, ao mesmo tempo, uma absoluta incapacidade para lidar com a fama.»
António Almeida Santos (1926-2016). «Guardarei dele a memória de um senhor sábio e paciente, de pose amena e voz pausada, cioso da sua privacidade sem esquecer que nenhum homem é uma ilha, capaz de resistir à cruel erosão do tempo como se o calendário fosse um aliado e não um inimigo. Daí ter permanecido interventivo e activo até ao fim.»
António Borges Coelho (1927-2025). «Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa e A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos.»
António Dias Lourenço (1915-2010). «Tive o privilégio de falar algumas vezes com ele: já com uma idade muito avançada, mantinha a fibra de resistente. Era uma lenda viva entre os comunistas mas jamais se comportava como tal. E nunca o ouvi referir-se a um adversário político em termos deselegantes, o que é um exemplo para muitos outros que são incapazes de separar a crítica do insulto e confundem o confronto de posições com a piada rasteira ou a insinuação soez.»
António Feio (1954-2010). «Há pouco mais de um mês vi-o ser entrevistado pela Fátima Lopes na televisão: bastou ver o seu rosto, ouvir a sua fala já arrastada e algo hesitante, reparar naquele olhar que parecia já despojado da centelha da vida para se perceber cruamente que o fim estava próximo. Chegou agora, mais cedo do que muitos esperavam – a morte chega sempre cedo de mais. Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos.»
António-Pedro Vasconcelos (1939-2024). «Apreciava uma boa conversa, uma boa refeição, um bom jogo de futebol. Homem multifacetado, por vezes contraditório, com amigos de todas as idades e convicções. Homem que não escondia aquilo de que gostava nem o que detestava, sem se refugiar em meias-palavras e recusando precauções sonsas, tão frequentes em Portugal. Homem que amava a arte porque amava a vida.»
Aretha Franklin (1942-2018). «Ela sim, genial. Ela sim, uma das gigantescas personalidades do mundo da música popular, em que deixou o seu traço singular muito para além do rótulo de “rainha da soul” que lhe colaram os cultores de etiquetas.»
Artur Correia (1950-2016). «Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol – nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a última partida no traiçoeiro campeonato da vida. Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”»
Bebo Valdés (1918-2013). «Quando Fidel mandou expropriar os 955 bares e cabarés existentes na capital cubana, em Março de 1968, Bebo percebeu que era tempo de partir. A mãe fê-lo prometer que não regressaria enquanto vigorasse a ditadura e ele cumpriu a promessa: disse adeus à ilha, tornou-se cidadão do mundo. A Havana que transportava consigo era uma Havana mítica, há muito sepultada na poeira da memória.»
Ben Bradlee (1921-2014). «Permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal.»
Carlos do Carmo (1939-2021). «Esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O’ Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la. Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.»
Carlos Santos Pereira (1950-2021). «Foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.»
Carme Chacón (1971-2017). «Quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés. Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de como é ilusória e transitória a espuma da política.»
Chavela Vargas (1919-2012). «Mexicana de adopção e coração, sonhou e cantou até ao fim: a sua voz inconfundível apagou-se ontem, aos 93 anos. Mas continuará a ser admirada pelas gerações futuras que a escutarão décadas adiante em temas imortais como Adoro, La Llorona, Obsesion, Volver, Cruz de Olvido, No soy de aquí, ny soy de allá.»
Chuck Norris (1940-2026). «Sempre de bom humor, ele comentava assim a passagem do tempo: “Eu não envelheço, subo de nível.” Gosto imenso desta frase: já a tornei minha. Desaparece agora, aos 86 anos, no belo Havai onde estava há muito radicado. Apetece-me passar o fim-de-semana a rever as cassetes VHS de Walker, Ranger do Texas.»