Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

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Garrowby Hill, de David Hockney (1998) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O’Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), João Abel Manta (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Manuel Cargaleiro (97 anos), Arnulf Rainer (96 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Frank Auerbach (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Georges Mathieu (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, Jasper Johns (96 anos) e Jorge Pinheiro (94 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande David Hockney se despediu de nós a 11 de Junho, com 88 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Borges: maior depois da morte


Pedro Correia,

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É possível fazer a lista dos cem melhores livros de todos os tempos? Parece que sim. Mesmo que se trate de uma lista como esta, que resultou de uma parceria entre Le Monde e a FNAC, o que talvez justifique a aparição do Astérix cinco lugares acima do Ulisses, de Joyce.

É possível fazer a lista das cem melhores frases iniciais de livros? Parece que sim: esta, por exemplo, da American Book Review. Que não esquece, entre outras, o inesquecível arranque d’ O Estrangeiro, de Camus: «Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.» Ou o insuperável começo d’ A História de Duas Cidades, de Charles Dickens: «It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair.» Ou a célebre frase inicial d’ O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald: «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.» Já para não falar do início da Lolita, de Vladimir Nabokov: «Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma.» Ou do modo como Tolstoi começou a escrever a sua imortal Anna Karenina: «As famílias felizes são todas parecidas, mas cada família infeliz vive a infelicidade à sua própria maneira.»

 

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Sem dúvida um dos melhores começos é o dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» Mas sinto-me levado a concordar com Jorge Fernández Díaz, que escreve no diário argentino La Nación: o parágrafo inicial d’ O Aleph, de Jorge Luis Borges, fica-nos na memória para sempre: «La candente mañana de febrero en que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonía que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de Plaza Constitución habían renovado no sé que aviso de cigarrillos rubios; el hecho me dolió, pues comprendí que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que ese cambio era el primero de una serie infinita.» Verdadeiramente excepcional.

O autor de Ficciones morreu há 40 anos. Mas «Borges se agranda después de Borges», como justamente titulava o El País já em 2011. De quantos outros autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?

Dezassete anos de obituários no DELITO (6)


Pedro Correia,

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Pedro Rolo Duarte (1964-2017). «Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.»

 

Peter Bogdanovich (1939-2022). «Chegou a ser um dos meus realizadores favoritos. Por filmes como A Última Sessão (1971) e Lua de Papel (1973). Pertencia à geração de George Lucas, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que sacudiu a poeira acumulada nos velhos estúdios da Califórnia, refrescando e revitalizando o cinema.»

 

Pôncio Monteiro (1940-2010). «Nada artificial, nada postiço. Dizia o que realmente sentia e o que realmente pensava, com o coração ao pé da boca, sem nunca deixar de ser um gentleman. Há poucos como ele: basta reparar noutros comentadores de futebol, noutros canais, para se perceber a diferença. Até por isso, o vazio que deixa será mais difícil de preencher.»

 

Quino (1932-2020). «O argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón (imortalizado com o nome artístico Quino, diminutivo que era aumentativo) não conseguiria hoje encontrar espaço para publicar as suas vinhetas. Muito menos de exportá-las para o mundo inteiro, como sucedeu com a Mafalda. Basta ver o que acontece cá: a banda desenhada desapareceu dos jornais.»

 

Riccardo Ehrman (1929-2021). «Trocou em 1991 Berlim por Madrid, onde chefiou a delegação da agência até se aposentar e ali se radicou até ao fim da vida. Certamente orgulhoso de ter cumprido a sua obrigação profissional naquele dia inesquecível. Assumindo o único verdadeiro poder de um jornalista: o de fazer perguntas. Esqueçam as tretas do “quarto poder”: não existe nenhum outro.»

 

Rubem Fonseca (1925-2020). «Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas (…). O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado. Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado.» 

 

Santiago Carrillo (1915-2012). «Desaparece no momento em que nacionalistas radicais e extremistas de esquerda vociferam contra a lei fundamental e o espírito de conciliação que caracterizou as últimas décadas da política espanhola. Com isso, procuram destruir o admirável legado de lucidez e tolerância que Santiago Carrillo soube legar aos seus compatriotas. Consciente de que as fogueiras do passado podem sempre regressar, lançando cinzas irreversíveis sobre a Espanha do futuro.»

 

Sebastião Fernandes (1947-2018). «Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim – embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs – unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.»

 

Shirley Temple (1928-2014). «Regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme. Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.»

 

Sidney Poitier (1927-2022). «Pioneiro ao quebrar as barreiras raciais numa América ainda segregada. Primeiro actor negro a receber o Óscar para melhor intérprete masculino em Hollywood – por Lírios do Campo, em 1963. Só 40 anos depois houve outro a conseguir o mesmo: Denzel Washington, galardoado pela sua actuação em Dia de Treino

 

Sócrates (1954-2011). «Um dos jogadores mais influentes dessa selecção declarou, em jeito de remate: “A coisa mais gostosa era jogar ali, era uma delícia.” Palavras de um homem que encarava o futebol como arte e não como indústria. Era um verdadeiro desportista: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, agora falecido aos 57 anos. Um dos meus heróis não volta a jogar.»

 

Tom Moore (1920-2021). «Mesmo frágil, mesmo muito idoso, mesmo caminhando com manifesta dificuldade, este veterano da II Guerra Mundial soube ser um homem inteiro até ao fim. Combatendo o coronavírus como pôde. Fazendo muito mais do que quase todos – sem lamentos, sem lamúrias, sem choraminguices. Sem o menor vestígio de ódio. Dando-nos a todos uma vibrante lição de vida.»

 

Toots Thielemans (1922-2016). «Legou-nos a música – e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.»

 

Václav Havel (1936-2011). «Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do “socialismo real” checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos. Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória.»

 

Vasco Graça Moura (1942-2014). «Fica-nos dele a memória de um intelectual à moda antiga: alguém que nunca deixa a cultura para segundo plano sem perder um olhar crítico perante a actualidade, como demonstra o seu último texto, publicado há quatro dias no Díário de Notícias. Fica-nos também o exemplo: devemos travar um combate persistente e bem fundamentado pelas causas que acreditamos serem justas.»

 

Vasco Pulido Valente (1941-2020). «Ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo. Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias (…). Eis o fardo insustentável de um comentador – mesmo o melhor de todos. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.»

 

Vicente Jorge Silva (1945-2020). «Era um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor – e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao “desconcerto do mundo”, como bem expressa a redondilha camoniana.»

 

Walter Cronkite (1916-2009). «Era um jornalista a cem por cento. Fez de tudo na profissão, esteve em todos os momentos decisivos da história que lhe coube em sorte testemunhar. Foi repórter na II Guerra Mundial, acompanhou o Dia D, cobriu os julgamentos de Nuremberga, chefiou a delegação da CBS em Moscovo no tempo da Guerra Fria, regressou à reportagem de guerra no Vietname, relatou a histórica emissão da conquista da Lua há exactamente 40 anos, acompanhou de perto o caso Watergate.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (5)


Pedro Correia,

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Maria Barroso (1925-2015). «Dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.»

 

Maria Cabral (1941-2017). «Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela – corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.»

 

Maria José Nogueira Pinto (1952-2011). «Mantive um gosto enorme em conversar com ela, mesmo quando deixei de ser repórter parlamentar. Porque havia sempre alguma coisa a aprender com Maria José Nogueira Pinto. E houve, até ao fim: a extraordinária coragem física e a dignidade de que deu provas nestes últimos dias, enfrentando a terrível doença que há poucas horas a vitimou, constituiu um admirável – embora doloroso – exemplo para todos nós.»

 

Marie Colvin (1956-2012). «Figura quase lendária do jornalismo contemporâneo, herdeira directa dos maiores repórteres de guerra do século XX. O seu último texto, publicado no Sunday Times, é um arrepiante testemunho das atrocidades que estão a ser cometidas na Síria. A todo o momento. No próprio instante em que escrevo, no próprio instante em que são lidas estas linhas.»

 

Mário Bettencourt Resendes (1952-2010). «Pela vida fora encontramos dois géneros muito diferentes de pessoas: aquelas que gostam de se rodear de muros e as que preferem construir pontes em direcção aos outros. A natureza vital do Mário levava-o a construir essas pontes – nas mais diversas direcções e nas mais diversas circunstâncias. Casos como o dele vão sendo cada vez mais raros neste pequeno mundo cheio de desencontros que é o da “comunicação”.»

 

Mário Moniz Pereira (1921-2016). «Foi o melhor representante da cultura leonina, pelo ecletismo de que sempre deu provas no seu percurso pessoal enquanto praticante de ginástica, futebol, andebol, basquetebol, ténis, ténis de mesa, hóquei em patins, natação, tiro, equitação e esgrima. Onde mais se distinguiu foi no voleibol, tendo sido duas vezes campeão nacional (1953-1954 e 1955-1956), a última também como treinador. E acima de tudo no atletismo.»

 

Mário Soares (1924-2017). «Acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da “lusofonia”.»

 

Mario Vargas Llosa (1936-2025). «Equiparo-o a Kafka, Orwell, Camus, Hemingway, Greene. Escritores que não apenas admiro e considero, mas que estimo muito. Como se integrassem a minha família alargada – desde os anos da adolescência, quando comecei a conhecê-los e a conviver com eles sem nunca me cansar.»

 

Maureen O’Hara (1920-2015). «Retirou-se cedo dos estúdios de Hollywood, no início da década de 70. Ainda faria um filme em 1991 e trabalhou esporadicamente na televisão quando já tinha sido elevada à categoria de mito. Era uma das raras e mais queridas lendas vivas do cinema. Morreu hoje, tranquilamente, aos 95 anos. Deixando-nos a nós, que fomos seus fãs, com vontade de revisitar os seus melhores filmes em sessões contínuas.»

 

Miguel Macedo (1959-2025). «A sua voz apagou-se cedo de mais. Faz-nos falta como alerta contra os demagogos de turno que andam por aí sem freio nos dentes, mais assanhados que nunca. Agitando o espantalho da insegurança para apertarem o torniquete à liberdade.»

 

Miguel Portas (1958-2012). «Era capaz de congregar a admiração sincera de muitos que não pensavam como ele. Por ser veemente na defesa dos seus ideais, transparecendo calor humano e convicção, sem nunca confundir claras divergências políticas com animosidades pessoais.»

 

Millôr Fernandes (1923-2012). «Despeço-me dele quase como de uma pessoa de família: há 40 anos que o lia – sempre com gosto, sempre com prazer, sempre com proveito. Procuro um obituário digno desse nome na imprensa portuguesa e quase nada encontro (…) . Millôr merecia mais. Merecia melhor do que estes parágrafos de amanuenses produzidos provavelmente por quem nunca o leu. Nem se sentiu mais pobre de espírito por causa disso.»

 

Monica Vitti (1931-2022). «Ainda há dias a revi emoldurada em tela, fascinante como sempre a conheci – o olhar fugidio, os lábios entreabertos, aquele enigmático semblante em que se espelhavam tantas perplexidades da aventura humana. De outras me despedi. A ela só consigo sussurrar um a presto comovido e deslumbrado.»

 

Neil Armstrong (1930-2012). «O que restava da minha infância eclipsou-se ontem, com a inesperada morte do astronauta norte-americano que liderou a missão da Apolo XI. Sinto-me de luto. Era de noite quando me chegou a notícia: procurei a Lua no céu e não a encontrei. Como se ela estivesse de luto também.»

 

Nicolau Breyner (1940-2016). «Nicolau, o Sr. Contente, teve uma vida cheia, repleta de episódios que dariam para vários livros e muitos filmes. Partiu hoje sem avisar, como por vezes lhe sucedeu em vida quando decidia pôr fim a uma etapa e iniciar outra. Para ele o tédio era uma espécie de pecado mortal. Deixa-nos um pouco mais pobres e muito mais tristes. Mas com a recordação inapagável do seu talento, capaz de suscitar lágrimas e provocar sorrisos – numa perfeita simbiose da dualidade humana.»

 

Nuno Rocha (1933-2016). «Tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.»

 

Odete Santos (1941-2023). «Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético “camarada Álvaro” que a levou à militância no pós-25 de Abril.»

 

Olivia Newton-John (1948-2022). «Foi um dos meus primeiros amores de adolescência. Linda: parecia uma princesa. Invejei o imbecil do Travolta: queria estar no lugar dele na película que ambos fizeram lá para finais dos anos 70. Filme foleiro, disseram alguns, sem perceberem que aquilo era uma festiva celebração da vida. Fugaz instante que tão cedo se esvai.»

 

Oscar Niemeyer (1907-2012). «Prefiro recordar Niemeyer olhando a maqueta do Palácio do Planalto, na segunda metade da década de 50, capaz de transformar o mais arrojado sonho em pura arte. A meio de uma vida longa, que foi também uma vida frutuosa, a deste homem que imaginava o universo como uma superfície interminável, livre e sensual, em forma de curva projectada no infinito.»

 

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). «Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela “democracia burguesa”, como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (4)


Pedro Correia,

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Jorge Silva Melo (1948-2022). «Nunca conheci Jorge Silva Melo. Sabia ter fama de feitio difícil, dizem-me que viveu os últimos anos ensimesmado e recolhido. Mas as crónicas dele – que li sobretudo no Público – pareciam raios de luz, trespassadas de vitalidade mesmo quando nubladas de nostalgia. Se as lêssemos com a atenção devida, cada uma delas ensinava-nos a escrever.»

 

José Alberto de Sousa (1954-2013). «Despeço-me dele, como tenho a certeza de que gostaria, com esta morna na voz do Ildo Lobo que escutámos num dos nossos jantares na cidade da Praia. Quando havia muitos amanhãs no horizonte e a Morte era uma dama distante a que nenhum de nós sonhava passar cartão.»

 

José Loureiro dos Santos (1936-2018). «Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo – outra palavra hoje fora de moda.»

 

José Medeiros Ferreira (1942-2014). «Apesar do preço que pagou pela independência de espírito, nas saborosas conversas que travámos nos corredores parlamentares e na sua casa de Lisboa, na Calçada Miguel Pais, nunca lhe ouvi uma palavra desprimorosa em relação aos tiranetes de turno que lhe foram cortando o passo nos meandros partidários. Era um cavalheiro à moda antiga.»

 

José Paulo Canelas (1963-2016). «Foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco. Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.»

 

José Saramago (1922-2010). «É incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.»

 

Júlio Pomar (1926-2018). «O grande Júlio Pomar despediu-se de nós, com 92 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem. Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.»

 

Julião Sarmento (1948-2021). «Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil. De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura.»

 

Kirk Douglas (1916-2020). «Na tela foi Van Gogh, Ulisses, Doc Holliday, Ned Land, o general Patton. Entrou num dos melhores noirs de sempre (O Arrependido, 1947), na mais genial sátira ao jornalismo (O Grande Carnaval, 1951), numa assombrosa viagem aos bastidores de Hollywood (Cativos do Mal, 1952), numa fabulosa película anti-guerra (Horizontes de Glória, 1957).»

 

Laborinho Lúcio (1942-2025). «“A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis”, declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.»

 

Lancelote Rodrigues (1923-2013). «Há pessoas que têm o dom de espalhar alegria em seu redor: pensei nisso muitas vezes ao escutar a gargalhada bem sonora do padre Lancelote, contagiante como poucas. Ou ao ouvi-lo cantar, com o seu vozeirão bem afinado, acompanhado à guitarra, em longos serões de divertido convívio no Clube Militar, na pousada de Coloane ou num dos típicos restaurantes chineses da Rua da Felicidade.»

 

Lauren Bacall (1924-2014). «Steve/Bogart ficou preso para sempre àquela voz, àquele olhar só gélido na aparência. Juntaram os lábios, os corpos, as almas e viveram felizes como nos filmes. Até a morte dele os ter separado. Hoje bem cedo, tantos anos depois, alguns cinéfilos escutaram um assobio vindo de muito longe. Sinal inequívoco: eles voltaram a encontrar-se

 

Luís Fernando Veríssimo (1936-2025). «Há 20 anos lia com imenso gosto os seus textos e comprei até vários livros que publicou, como Sexo na Cabeça Comédias para se ler na escola. Tal como 20 anos antes tinha sido leitor compulsivo dos romances do seu pai, o grande Érico Veríssimo. Mestres da língua portuguesa, cada qual no seu registo.»

 

Manoel de Oliveira (1908-2014). «Ao tomar conhecimento do seu desaparecimento físico, é deste singelo episódio que me lembro. E volto a sorrir à simples menção daquela frase que ficou a ecoar-me na memória: “Não tens pernas para andar?” Teve-as até ao fim.»

 

Manuel António Pina (1943-2012). «Um dos nossos melhores cronistas, um escritor “condenado à poesia”, um grande jornalista que foi capaz de manter através dos anos um olhar de espanto jovial e juvenil perante os pequenos milagres quotidianos sem calar palavras de indignação perante todas as formas de injustiça que ainda sufocam o ser humano.»

 

Manuel Serra (1931-2010). «Vivia há anos longe da ribalta. Quase ninguém das gerações mais jovens ouvira sequer falar do nome deste socialista libertário e “autogestionário” que nunca encarou a política como uma “carreira”. Muitas ideias que defendia estavam erradas. Mas a defesa da liberdade, de que foi um dos raros arautos em tempo de servidão, estava certa.»

 

Margaret Thatcher (1925-2013). «Pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas – um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.»

 

Margarida Marante (1959-2012). «Pagou um preço elevado pela súbita glória televisiva, em regra tanto mais ilusória quanto mais ofuscante. Demasiado cedo chegou, demasiado cedo partiu. Seremos cada vez menos os que se recordarão dela eternamente jovem, naquela época em que suscitava amores e ódios, dividindo irremediavelmente opiniões naquele Portugal pós-revolucionário. Tempo fugaz, como é e será sempre o tempo.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (3)


Pedro Correia,

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Isabel II (1926-2022). «Num tempo que presta culto ao provisório, ela simbolizava a permanência – desde logo pelos laços de sangue que a ligavam aos seus remotos antepassados normandos fundadores da monarquia há quase mil anos. Parecia imune a toda a erosão e nunca se deixou contaminar pelas paixões políticas.»

 

Javier Marías (1951-2022). «Era culto, cáustico e corajoso – três características que aprecio num cronista. Não hesitava em remar contra a maré das modas dominantes, não perdia tempo com bajulações nem ocultava a erudição para seduzir “novas camadas de leitores” em busca da facilidade. Se havia que romper consensos, contassem com ele. Para integrar coros afinados, podiam dispensá-lo.»

 

Jeanne Moreau (1928-2017). «Mesmo sem a sua presença física entre nós, ela é daquelas que sempre povoarão os sonhos cinéfilos, fazendo da arte das imagens em movimento uma singular liturgia dos sentidos.»

 

Jerry Lewis (1926-2017). «Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.»

 

Jimmy Carter (1924-2024). «”Aliviar o sofrimento” era um dos lemas deste cristão convicto, que se manteve fiel à fé que professava. Quando falhou, nunca foi por défice de idealismo mas talvez por acreditar em excesso na bondade humana. Até nisto dir-se-ia hoje um homem de tempos muito distantes. De tempos que parecem nunca mais voltar.»

 

Jô Soares (1938-2022). «Era mais que um intérprete ou humorista: era uma genial criação de si próprio. Soube superar eventuais problemas de imagem, transformando defeito em virtude e assim se tornou ídolo de multidões. Sem ceder à facilidade. Muito menos à ordinarice própria dos ineptos, infelizmente hoje tão em voga. Com ele ausente, ficamos um pouco mais tristes a partir de agora.»

 

Joana Lopes (1938-2026). «Muitas vezes discordámos, mas sempre de forma civilizada – algo que parece em desuso agora. Sempre respeitei o seu percurso, marcado por convicções fortes e uma coerência que merece ser assinalada.»

 

Joana Marques Vidal (1955-2024). «A investigação criminal, com Joana Marques Vidal no vértice supremo do Ministério Público, deixou de fingir que os ilícitos de ricos e poderosos não existiam. Com ela, impôs-se a sensação generalizada de que ser influente e endinheirado não é passaporte para escapar às malhas da justiça. Com ela, terminou enfim a inércia no combate à corrupção, um dos cancros que corroem a democracia.»

 

João Carvalho (1952-2013). «Sintomaticamente, a última marca que aqui deixou foi um postal de parabéns a uma colega de blogue. Já muito doente, mas ainda fiel a um mandamento que sempre cultivou: a amizade é um posto, há que honrá-la a cada momento. Como dizer-lhe adeus? Não consigo. A um amigo como o João diz-se até sempre ou até já.»

 

João Lobo Antunes (1944-2016). «O seu desaparecimento, de algum modo prematuro, deixa-nos um pouco mais desamparados. Por andarmos tão carecidos de personalidades inspiradoras num tempo em que a mediocridade impera e a mediania se exibe travestida de excelência.»

 

João Paulo Guerra (1942-2024). «Ourives da escrita, capaz de escrever centenas de textos sem os polvilhar de palavras inúteis. Mestre dessa arte de narrar pequenas histórias de que é feito o grande jornalismo. Homem coerente, de causas assumidas, mas sem cortar pontes com quem pensava de maneira diferente. Excelente conversador, com discurso mesclado de ironia fina.»

 

João Rendeiro (1952-2022). «À glória fácil sucede-se a queda sem remissão. Aconteceu com o banqueiro que teve parte da classe dirigente e da constelação jornalística a seus pés, quando ganhou fama de multiplicar os dividendos de ricos e poderosos. Triste ironia, terminar os seus dias tão longe desse mundo de seda e cetim, num país distante, entre os escorraçados da sociedade.»

 

João Semedo (1951-2018). «Merecia ter sido senador da República Portuguesa. Um senador a sério, não daqueles que aparecem de ar conspícuo e discurso redondo nas pantalhas, serão após serão, dizendo coisa nenhuma.»

 

Joaquim Coutinho Ribeiro (1960-2014). «É com esta sensação de ter levado um murro que releio uma das mensagens que o Quim nos deixou, na caixa de comentários deste blogue que continuou a ser dele também. (…) Dia 8 de Janeiro de 2013, à meia-noite e 48: fica registado para sempre nesta espécie de máquina de perpetuar instantes, imprimindo-lhes a marca da eternidade, em que se tornou a Internet. (…) Tinha apenas 53 anos e mil projectos por concretizar.»

 

Jorge Coelho (1954-2021). «Alguém capaz de estabelecer laços com gente das mais diversas filiações partidárias, convicções ideológicas e simpatias clubísticas. Um agregador de talentos dispersos e um mobilizador de vontades individuais, muito para além do que o caderno de encargos oficial lhe exigia.»

 

Jorge Ferreira (1961-2009). «Éramos parceiros de geração, conhecíamo-nos há mais de três décadas, e nunca deixámos que as frequentes divergências de opinião perturbassem uma amizade já tão antiga. É outro companheiro de juventude de quem me despeço, cedo de mais, num dia chuvoso que também parece estar de luto por um amigo que partiu.»

 

Jorge Sampaio (1939-2021). «Eis talvez o maior dos legados do antigo Presidente da República: demonstrar aos compatriotas que é possível pertencer de corpo inteiro a uma facção política sem jamais encarar as restantes como inimigas, sem rebaixar um adversário, sem deixar de atender aos argumentos opostos.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (2)


Pedro Correia,

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Clara Pinto Correia (1960-2025). «Era uma das mulheres mais belas da nossa geração, uma das mais belas que até hoje conheci. A Clara Pinto Correia – tínhamos o mesmo apelido, mas nenhum parentesco nos ligava – não se limitava a ser bonita e a escrever num estilo muito próprio, com linguagem solta, ousada, que parecia brotar-lhe de geração espontânea, à maneira da escrita automática de um Jack Kerouac.»

 

Corazón Aquino (1933-2009). «Ao vê-la em cima do palco, falando com desenvoltura às massas que vibravam mal a viam desenhar com os dedos da mão a letra L, como símbolo de liberdade, poucos acreditariam tratar-se de alguém que nunca foi profissional da política antes de ascender à Presidência. Era também difícil adivinhar estarmos perante uma pessoa que sofria de incurável timidez.»

 

Eduardo Azevedo Soares (1941-2010). «Mantive com ele diversos contactos profissionais, por vezes a propósito de assuntos muito polémicos, e nunca o vi perder uma das suas características principais, que bem o definiam: era um gentleman. Assim o recordo, na hora triste da sua partida. Precisamente por ser um atributo cada vez mais raro na sociedade portuguesa, tomada de assalto nos últimos anos por uma fornada de “animais ferozes”.»

 

Emídio Rangel (1947-2014). «Criou um estilo muito próprio. Com um talento que já lhe vinha de trás, dos tempos em que trabalhou na rádio pública e foi justamente galardoado com um prestigiado prémio de jornalismo. Foi amado e odiado, mas nunca deixou de ir à luta. Perdeu algumas batalhas, mas venceu as mais decisivas. Deixando a sua impressão digital em todos os sítios por onde passou.»

 

Eugénio Lisboa (1930-2024). «Cultivava uma prosa densa e límpida ao mesmo tempo. Era um erudito quase sem reparar: interessava-lhe comunicar com o leitor, tanto em prosa como em poesia, no ensaio como na crónica. Proeza alcançada sobretudo na sua monumental obra memorialística, espalhada em seis volumes sob o título genérico Acta est Fabula

 

Eunice Muñoz (1928-2022). «Nunca entrevistei a Eunice – e tenho pena. Era assim que os portugueses a conheciam: Eunice. Representou durante mais de sete décadas, até há poucos meses. A bem dizer, até ao fim. Só lhe faltou morrer em palco para avolumar o mito. Mas teve uma carreira artística plena e foi consagrada pelo maior dos títulos: a ovação contínua dos espectadores.»

 

Eurico Figueiredo (1939-2025). «Recordo as longas conversas que partilhámos, pontuadas pelas calorosas gargalhadas deste transmontano cosmopolita que nos ensinava a valorizar o lado solar da existência. Guardarei para sempre esta e outras lições que generosamente me transmitiu.»

 

Fernando de Sousa (1949-2014). «Era um profissional mais preocupado com o rigor dos factos do que com adornos de qualquer espécie, fiel à escola da BBC, onde trabalhou vários anos e ganhou aquela entoação tão específica. Foi aliás lá que o conheci, em 1989, no majestoso edifício da Strand, quando estive a um passo de aceitar uma proposta de trabalho na secção portuguesa da BBC, de tão boa memória. (…) Morreu com as botas calçadas, a trabalhar. Honra à sua memória.»

 

Fernando Sobral (1960-2022). «Ao Fernando, homem tímido, não faltavam amigos, leitores ou admiradores de vários quadrantes. Mas como lhe escasseava vocação para se pôr em bicos de pés ou integrar a academia do elogio mútuo em que Lisboa é fértil, ficou sempre um pouco aquém do que o seu talento merecia e a sua seriedade profissional recomendava como cartão de visita.»

 

Francisco (1936-2025). «“Regressa à Casa do Pai” – terminologia oficial hoje usada na Santa Sé – neste momento em que tanto precisávamos dele, neste momento em que a Igreja tanto necessita de um sucessor à altura do seu legado – o do retorno à pureza da mensagem evangélica, contrariando a volúpia da guerra e a cupidez da plutocracia.»

 

Francisco Pinto Balsemão (1937-2025). «Na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. Tanta coisa se perdeu pelo caminho – desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão. Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.»

 

Gabriel García Márquez (1927-2014). «Edificador de sonhos, cultor do sortilégio da palavra escrita, criador de personagens inconfundíveis, partiu hoje numa viagem sem regresso a Macondo. Ao encontro de Malquíades e dos Buendía, de Ursúla Uguarán e de Santiago Nasar.»

 

Gal Costa (1945-2022). «Romperam o tecto e chegaram ao céu. Ao Olimpo da Música onde a partir de hoje ela mora. Cantará só para os anjos, não mais para os pecadores como qualquer de nós.»

 

Guida Maria (1950-2018). «Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido. Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.»

 

Henry Kissinger (1923-2023). «Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível – para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.»

 

Hubert Matos (1918-2014). «Os restos mortais de Huber Matos — exilado até na morte — só serão depositados em Cuba, por sua vontade expressa, quando a liberdade por que ele tanto lutou ali enfim chegar. Pode ser a passo de tartaruga, como ironiza Yoani Sánchez no seu blogue, mas chegará. Como escreveu Padilla, um dos poetas banidos pela ditadura, “protege-te dos vacilantes / porque um dia saberão o que não querem”.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (1)


Pedro Correia,

 

Desde 2009, ano da fundação deste blogue, escrevi aqui dezenas de obituários. Acabo de contabilizá-los: terão sido cento e oito. (Não garanto que a lista esteja completa.)

De portugueses e estrangeiros, de figuras célebres ou pouco famosas, de gente que tive o privilégio de conhecer pessoalmente ou de quem apenas tomei conhecimento por ver, ouvir e ler.

Uns mais sentidos, outros mais formais. Uns mais extensos, outros mais sucintos. Mas todos, creio, merecendo uns minutos de releitura e talvez de comentário. 

Em seis dias consecutivos, a partir de hoje, deixo-vos uma súmula desses textos organizados por ordem alfabética – a benefício de inventário, como testemunho ou documento, para registo histórico. Porque a História com maiúscula vai sendo escrita, em forma de rascunho, também aqui.

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Adolfo Suárez (1932-2014). «Ninguém como ele — a par do Rei Juan Carlos — fez tanto para pôr fim às “duas Espanhas” que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas — numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.»

 

Adriano Moreira (1922-2022). «Apaga-se aos cem anos, recém-completados. Numa espécie de círculo perfeito, tanto quanto pode ser uma existência humana – que, mesmo quando longa, nunca deixa de ser breve.»

 

Albano Matos (1955-2015). «Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa “reestruturação” (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.»

 

Alexei Navalny (1976-2024). «Detido, à margem de todas as regras civilizacionais. Torturado. Condenado a 19 anos de cárcere por delito de opinião. Tratado como lixo humano, partilhando cárcere com violadores e pedófilos. Empurrado para uma das cloacas do planeta, um local com 45 graus negativos para onde o czarismo e o estalinismo desterravam milhares de presos políticos.»

 

Amy Winehouse (1983-2011). «Havia um funesto destino a marcar encontro com ela há muito tempo. Tinha um talento vocal ímpar – bem expresso nas interpretações que nos deixou em temas como Back to BlackRehabLove is a Losing Game e You know I’m no good – e, ao mesmo tempo, uma absoluta incapacidade para lidar com a fama.»

 

António Almeida Santos (1926-2016). «Guardarei dele a memória de um senhor sábio e paciente, de pose amena e voz pausada, cioso da sua privacidade sem esquecer que nenhum homem é uma ilha, capaz de resistir à cruel erosão do tempo como se o calendário fosse um aliado e não um inimigo. Daí ter permanecido interventivo e activo até ao fim.»

 

António Borges Coelho (1927-2025). «Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos.»

 

António Dias Lourenço (1915-2010). «Tive o privilégio de falar algumas vezes com ele: já com uma idade muito avançada, mantinha a fibra de resistente. Era uma lenda viva entre os comunistas mas jamais se comportava como tal. E nunca o ouvi referir-se a um adversário político em termos deselegantes, o que é um exemplo para muitos outros que são incapazes de separar a crítica do insulto e confundem o confronto de posições com a piada rasteira ou a insinuação soez.»

 

António Feio (1954-2010). «Há pouco mais de um mês vi-o ser entrevistado pela Fátima Lopes na televisão: bastou ver o seu rosto, ouvir a sua fala já arrastada e algo hesitante, reparar naquele olhar que parecia já despojado da centelha da vida para se perceber cruamente que o fim estava próximo. Chegou agora, mais cedo do que muitos esperavam – a morte chega sempre cedo de mais. Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos.»

 

António-Pedro Vasconcelos (1939-2024). «Apreciava uma boa conversa, uma boa refeição, um bom jogo de futebol. Homem multifacetado, por vezes contraditório, com amigos de todas as idades e convicções. Homem que não escondia aquilo de que gostava nem o que detestava, sem se refugiar em meias-palavras e recusando precauções sonsas, tão frequentes em Portugal. Homem que amava a arte porque amava a vida.»

 

Aretha Franklin (1942-2018). «Ela sim, genial. Ela sim, uma das gigantescas personalidades do mundo da música popular, em que deixou o seu traço singular muito para além do rótulo de “rainha da soul” que lhe colaram os cultores de etiquetas.»

 

Artur Correia (1950-2016). «Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol – nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a última partida no traiçoeiro campeonato da vida. Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”»

 

Bebo Valdés (1918-2013). «Quando Fidel mandou expropriar os 955 bares e cabarés existentes na capital cubana, em Março de 1968, Bebo percebeu que era tempo de partir. A mãe fê-lo prometer que não regressaria enquanto vigorasse a ditadura e ele cumpriu a promessa: disse adeus à ilha, tornou-se cidadão do mundo. A Havana que transportava consigo era uma Havana mítica, há muito sepultada na poeira da memória.»

 

Ben Bradlee (1921-2014). «Permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal.»

 

Carlos do Carmo (1939-2021). «Esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O’ Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la.  Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.»

 

Carlos Santos Pereira (1950-2021). «Foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.»

 

Carme Chacón (1971-2017). «Quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés. Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de como é ilusória e transitória a espuma da política.»

 

Chavela Vargas (1919-2012). «Mexicana de adopção e coração, sonhou e cantou até ao fim: a sua voz inconfundível apagou-se ontem, aos 93 anos. Mas continuará a ser admirada pelas gerações futuras que a escutarão décadas adiante em temas imortais como Adoro, La Llorona, Obsesion, Volver, Cruz de Olvido, No soy de aquí, ny soy de allá

 

Chuck Norris (1940-2026). «Sempre de bom humor, ele comentava assim a passagem do tempo: “Eu não envelheço, subo de nível.” Gosto imenso desta frase: já a tornei minha. Desaparece agora, aos 86 anos, no belo Havai onde estava há muito radicado. Apetece-me passar o fim-de-semana a rever as cassetes VHS de Walker, Ranger do Texas

Morreu Desmond Morris


jpt,

O macaco nu, Desmond Morris Almada, Cova Da Piedade, Pragal E Cacilhas •  OLX.pt

Aos 98 anos morreu Desmond Morris. Como aconteceu com tantos dos seus leitores da minha geração, conheci-o através do célebre “O Macaco Nu”, que li aos 17 anos.

Por vezes vejo conversas sobre quais os melhores “começos” literários (”Já não temos começos!”, queixou-se George Steiner, não exactamente sobre essa questão…), os grandes arranques romanescos. Não sou eleitor nessa matéria, mas não contestarei a primazia dada ao “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença...” de Dickens (no “História de Duas Cidades”).

Mas sobre começos de ensaios? Caramba, voto sempre neste, pois ainda me lembro do júbilo nesse imediato pós-Natal ao deparar-me com esta viril entrada:

Existem actualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que igualmente o maior pénis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila.

E segui a leitura, encantando-me com o etólogo.

(Versão curta de postal no meu “O Pimentel“)

Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

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Acrílico sobre tela, de Armando Alves (2009) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O’Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Manuel Cargaleiro (97 anos), Arnulf Rainer (96 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Frank Auerbach (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Georges Mathieu (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, João Abel Manta (98 anos), Jasper Johns (94 anos) e Jorge Pinheiro (94 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Armando Alves se despediu de nós a 31 de Março, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Chuck Norris em África


jpt,

Morreu o Chuck Norris, o tipo dos filmes de porrada. Os tipos flanantes acorrem às redes sociais para o menosprezar, em dichotes sobranceiros, vejo até mortais a dizê-lo já morto há anos – o homem tinha 86 anos…. Nestes tempos “higiénicos” este tipo de humor cruel seria pontapeado se este azedume patente não fosse “apenas” de idadismo alimentado, de desrespeito gerontófobo. Enfim, como bem disse o verdadeiro cinéfilo que é o José Navarro de Andrade, os filmes do Chuck Norris “se algum mérito tiverem, é o de serem mais genuínos do que as contrafacções de Tarantino”.

Nas suas detalhadas matizes, a filmografia de pancada americana desde há (muitas) décadas que serve – embrulhada no plástico charme da passadeira vermelha “liberal” de Hollywood – para produzir os valores (lá) patrióticos do “America First”, num verdadeiro MAGA (Make America Great … Always). Desde o mais explícito “vamos lá dar cabo deles” a la “Boinas Verdes” do Duke, até à incessante produção de filmes denunciando perversões no “sistema”, mas afinal resolvidas pelo corajoso herói – a mitografia das pradarias do “western” trazida para os meandros de “Washington D.C.” -, o individualismo salvaguardando a virtude da “pax americana”, mesmo se esta poluída pelas maldades de alguns conluios.

Mas, com menor relevância, este eixo fílmico serve também para aqueles dos ademanes que querem reproduzir a imagem, que sentem correcta, da nossa hierarquia, como se procurando avariar o propalado “elevador social”, remetendo os ditos “arrivistas” para as escadarias de serviço. A classe média “culta” deliciada com as tais vacuidades de Tarantino e seus epígonos, a classe média “dos serviços” vendo e revendo os frenéticos Jason Bournes até à exaustão, a malta reduzida aos subúrbios vendo esses Stallones, até já congregados na verdadeira saga Mercenários. E, lá longe no sopé, os silvestres – rurais ou das “hortas urbanas” -, uma espécie em extinção, diante do Chuck Norris.

Mas ao sucesso deste Chuck Norris, naquelas tramas lineares e no viço da pancadaria, vim-lhe a encontrar o atractivo. Pois ali vigora o anseio de justiça, rude, face a um mundo violento e… injusto, vergado ao poder dos colectivos mais fortes. Alguns mais delicados preocupam-se que tudo aquilo seja a apologia da violência, inculcando sanguinolências nos incautos espectadores. É a tal percepção altiva, elitista, que apregoa serem as pobres massas capazes de se aperceberem de tudo aquilo ser ficção, acima de tudo divertimento onírico. O que está reforçado exactamente pela platitude das narrativas. E, por isso, tanto aderindo ao veterano Chuck Norris.

Na malha de cinemas “do mato”, rurais de facto, em Moçambique, um arquipélago de cabanas transmitindo as vídeo-cassetes, Chuck Norris era omnipresente. Seus filmes vistos e revistos com gáudio. E sim, tal como em vários dos seus parceiros da porradaria, as rapaziadas (às vezes também as raparigadas, mas isso muito mais raro) saíam das salas em exaltadas mímicas “marciais”, eterno que vem sendo o apelo Bruce Lee. Mas acima de tudo vigorava a alegria da vítoria do (ríspido e valente) David contra o Malvado Golias.

À notícia da morte do Chuck Norris logo me lembrei de uma história que o amigo Jorge Leão me contara há já três décadas – e agora telefonei-lhe para ele, entre risadas, me confirmar os detalhes…

O Jorge é um tipo da minha idade, tão (pouco) entroncado como eu, um pouco mais baixo (mas maior do que o Chuck), mais ou menos parecido comigo – mesmo se me pareça ser ainda mais tipo “português” pois eu, ao longo da vida, às vezes passava por “grego” ou “argelino”. Enfim, qual de nós o menos feioso venham outros para avaliar, mas insisto que temos mais ou menos o mesmo aspecto.

Ele era especial entre todos os portugueses que conheci em Moçambique – onde ainda vive. Pois, com excepção de poucos antropólogos, era o único verdadeiramente curioso, capaz de arrancar mochila às costas, boleia em boleia, “chapa” após “chapa”, a conhecer o país. Mas mais ainda, foi o único que se comportava em África como a nossa geração o fazia noutros continentes afora, mochileiros de tenda armados e dedos estendidos em demanda de solidariedades. Nisso correu não só Moçambique como vários países da África oriental, julgo que até aos Grandes Lagos. Um dia descansou disso, garantindo que o fazia apenas porque “esgotarem-se-me as probabilidades de sobreviver”, tantas viagens de “chapa” havia feito, todas elas subjugado ao terror das demenciais formas de condução que lhes são tão típicas.

Enfim, nessas andanças, no já longínquo 1996, estava ele um dia no extremo nortenho de Moçambique. Calcorreava há horas uma esfuziante zona de mangal quando deu de caras com um “maluco de um holandês” pois ali caminhando “com água pelos joelhos” – e depois ri-se e confessa “tal como eu…”. Logo se impôs a consabida solidariedade entre andarilhos. E avançaram durante horas até Quionga, então um verdadeiro ermo, onde montaram as tendas e pernoitaram junto à pau-a-pique que era posto fronteiriço. No dia seguinte, passaportes carimbados, cruzaram o mítico Rovuma rumo à Tanzânia. Fizeram-no num barquito, no qual eram ombreados por um tanzaniano que se dedicaria a um qualquer contrabando então mais em voga, coisas que “a gente nem pergunta”…

Chegados à margem tanzaniana cumpriram o lhes havia sido recomendado pelos guardas fronteiriços em Quionga. E assim marcharam uns 20 kms de matope e terra batida até à primeira aldeia, onde noutra pau-a-pique os aguardaria o relevante carimbo, agora de entrada no país. Se a sul era um ermo ali ainda mais o era, um longo desabitado de ninguém avistar durante aquelas 4 ou mais horas a fio de andança, estugada pela bonomia. Finalmente avistaram a tal primeira povoação, uma – de facto – recôndita aldeola dotada da necessária “fronteira”. Aproximando-se cruzaram a primeira habitação, ainda um pouco afastada, uma paupérrima cabana emparelhada com um alpendre, no qual se afixava o habitual chá junto a um qualquer assado. E do seu interior logo emanou uma velha, irrompendo rumo a eles, num sorridente e bem sonoro “Chuck Norrissiii!!!” dado ao holandês. E, depois, virando-se para o Jorge, e com ar de “vá lá, tu também…”, um menos entusiástico “Stallone!”.

Até ali…

(Um postal entre outros no meu “O Pimentel“)

So long, Chuck


Pedro Correia,

Durante um quarto de século foi um verdadeiro ídolo das matinés, daqueles que atingem o patamar das lendas. Construiu o seu próprio género cinematográfico e televisivo desde que atingiu a fama num filme com Bruce Lee – sua estreia no cinema. Dele se dizia: «Quando Chuck Norris nasceu, Noé construiu uma arca para salvar as outras espécies». E também: «Chuck Norris não faz flexões, empurra a Terra para baixo.»

Sempre de bom humor, ele comentava assim a passagem do tempo: «Eu não envelheço, subo de nível.» Gosto imenso desta frase: já a tornei minha.

Desaparece agora, aos 86 anos, no belo Havai onde estava há muito radicado. Apetece-me passar o fim-de-semana a rever as cassetes VHS de Walker, Ranger do Texas.

So long, Chuck.

Ali viveu-se um tocante, irrepetível e perpétuo amor


Pedro Correia,

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Quarto em Nova Iorque (1932), de Edward Hopper

 

Uma das mais belas crónicas de um escritor português que li desde sempre foi publicada há vários anos num jornal espanhol. O escritor era António Lobo Antunes e o jornal era o suplemento literário do El País. Adorava reler essa crónica, que tanto me deslumbrou. Lobo Antunes falava da primeira mulher e dos tempos felizes que partilhou com ela num apartamento da Rua D. Filipa de Vilhena, em Lisboa, quando a vida era sinónimo de eternidade e todos os sonhos pareciam possíveis. O casamento desfez-se, a mulher e musa morreu. Lobo Antunes confessa, num daqueles parágrafos que só podem ser escritos com o coração, que nunca mais foi capaz de voltar a passar naquela rua.

Reflecti nesta fabulosa crónica que tanto gostaria de reler em livro quando há dias caminhava pelo pacato bairro do Arco do Cego, no coração da Lisboa burguesa e “remediada”, como dantes se dizia. Nesse bairro morou outro grande escritor português: Aquilino Ribeiro. Por coincidência ou talvez não, foi também escolhido por José Saramago quando se demorava por Lisboa.

 

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Já houve um tempo em que Saramago vivia noutra zona da capital – a Madragoa popular, numa rua com um nome muito bonito: Rua da Esperança. Fui lá uma vez. Era um terceiro andar modesto, sem qualquer luxo, mas cheio de luz natural e com uma decoração elegante e sóbria. As casas dizem-nos muito sobre quem lá mora: havia um fundo de harmonia naqueles aposentos inundados da música de Bach e Mozart.

Outro escritor que visitei foi Dinis Machado. Morava na Rua Sacadura Cabral, ao Campo Pequeno. Num apartamento escuro e acanhado, repleto de livros e papéis onde parecia mover-se como um rei no seu palácio. Acendia incontáveis cigarrilhas enquanto discorria com um conhecimento enciclopédico sobre cinema e literatura policial.

Nas minhas deambulações diárias por Lisboa associo sempre ruas a diversos escritores – vários dos quais conheci pessoalmente. Fernando Namora e Vergílio Ferreira, parceiros de geração literária, moravam em avenidas largas e bem rasgadas: o primeiro na Infante Santo, o segundo na dos Estados Unidos da América. José Gomes Ferreira escolhera a zona de Alvalade: morava na Avenida Rio de Janeiro. Ali perto, junto à Igreja de São João de Brito, vivia José Cardoso Pires.

Outras ruas e avenidas da Lisboa burguesa acolhiam escritores que fui conhecendo: Couto Viana na Marquês de Tomar, Alice Vieira na Luís Bívar, Natália Correia na Rodrigues Sampaio. Sophia vivia na Graça: nada mais certo. Jorge de Sena tinha morada no Restelo – zona adequada para este incansável andarilho. Já Alexandre O’Neill, um sedentário, tinha poiso na Rua da Escola Politécnica: aquele cedro do Príncipe Real, ali a dois passos, inspira qualquer poeta. Vários outros escritores viviam nesta zona. Muitas vezes vi Augusto Abelaira, mergulhado nos seus papéis, de cachimbo na boca, à mesa da Alsaciana – também na Escola Politécnica. Quase ao Príncipe Real, vivia Agostinho da Silva. Já a caminho de São Bento, morava Alçada Baptista. E por aí vi ainda o poeta Ruy Cinatti, distribuindo versos seus, policopiados, como quem oferece flores a quem passa.

 

Desconheço onde mora agora Lobo Antunes, autor daquela crónica que li em espanhol mas que não hesito em considerar uma das mais belas de sempre da língua portuguesa. Penso nesse texto sempre que passo na Rua D. Filipa de Vilhena. Tento imaginar qual seria o prédio, qual seria o andar. Ignoro. Mas só pode ser um local trespassado de magia. Por ali se ter vivido um tocante, irrepetível e perpétuo amor.

 

 

Texto reeditado. Originalmente publicado no DELITO a 14 de Novembro de 2009.

A crónica de Lobo Antunes a que faço referência (soube depois, graças a uma leitora) é esta.

Bolhas?


jpt,

Entre as Brumas da Memória

Há dias estava sentado no café aqui do bairro, junto a bons vizinhos que ali se aprestavam a almoçar. Um deles, decano à mesa, recebeu uma mensagem telefónica, a qual leu enquanto esperava a sua meia-dose. E lamentou-se, partilhando ter sabido da morte de uma antiga amiga e colega. Ficara condoído – até porque a morte nos vem constantemente cercando, apesar das duas décadas que nos apartam. Também por isso nos proporcionou – sem a nomear – um breve resumo do rico percurso biográfico, pessoal e profissional, dessa sua amiga. Culminando num enfático mas sentido “era a mulher mais inteligente que conheci na vida“.

A comida chegou. Eu, que ali apenas bebericava uma cerveja, deixei a mesa e fui fumar à esplanada, abrigando-me da implacável chuva sob o pequeno toldo disponível, pois recolhidos todos os outros devido às ventanias agora residentes. Nessa solidão puxei do telemóvel e dedilhei o Facebook. Ali encontrei algumas notas de pesar devidas à morte da nossa veterana consóror bloguista Joana Lopes, do Entre as Brumas da Memória. Provinham de vários (ex-)bloguistas, sendo significativo que proferidas por indivíduos de diferentes quadrantes, ideológicos e etários. Através dados biográficos profissionais nelas referidos foi-me evidente a coincidência. Voltei à mesa e o meu bom amigo olivalense confirmou-me, fora de Joana Lopes que ele falara.

Expliquei-lhe que não a conhecera, tivera apenas uma relação digital – típica daqueles velhos tempos da blogosfera, feita de interligações, comentários mútuos e, às vezes, de mensagens privadas -, que fora interrompida há já muitos anos. A qual se teria originado devido a então viver eu em Moçambique, onde escrevia no ma-schamba, o que decerto que lhe despertara o interesse por ser ela natural daquele país.

Também aqui o Pedro Correia lhe deixou homenagem.  E o José Meireles Graça, explicitando o seu agrado quotidiano com o blog, para além das suas discordâncias ideológicas com a autora. Um interesse sedimentado, di-lo, por não gostar ele de se restringir a “bolhas”. Convivenciais digo-as, essas nas quais nos recolhemos repousados, apenas entre aqueles com os quais concordamos.

Também a mim me interessara o seu blog. Por ser bastante activo, culto, opinativo. Mas ainda mais por saber eu – mesmo se então ainda não o lera – ser Joana Lopes autora de um livro homónimo ao blog (“Entre as Brumas da Memória – os Católicos Portugueses e a Ditadura“), pois a oposição católica ao Estado Novo tardio convocava a minha atenção. Por interesse geral, claro.  Mas também pessoal, pois esse heterógeneo contexto abarcara não só o Graal, por onde haviam passado mulheres da minha família, para além de movimentações menos institucionais (também tantas vezes reduzidas à célebre “Capela do Rato”) onde haviam participado vários pais de amigos meus. E, até mais, pelas ligações daquele catolicismo progressista às dinâmicas anticoloniais, tendo eu nesse âmbito particular interesse no historiador José Capela (pseudónimo de José Soares Martins), homem que em mim teve grande influência pessoal e intelectual.

E, tal como o Meireles Graça, também não gosto de “bolhas”. Aprendi desde cedo, em casa, serem elas descabidas. O meu pai, o Camarada Pimentel foi durante décadas, e até à sua morte, arreigado militante do PCP. O seu cunhado, e meu único tio (o outro, seu irmão, morreu antes de eu nascer quando explodiu o caça que pilotava, um dos aviões recondicionados da guerra da Coreia que devastaram os nossos aviadores), foi deputado da Acção Nacional Portuguesa. Sempre se deram muito bem! Sendo o benjamim da minha geração  bem percebi que as simpatias políticas dos meus três irmãos abarcavam os partidos que foram estruturantes do nosso regime. E agora vejo que as opções dos meus sobrinhos – e já alguns sobrinhos-netos – percorrem o eixo partidário actual. Também entre os meus amigos – desde a mais estreita intimidade com o eleitorado chegano  até a uma íntima memória com o bloquista -, tudo me vem ocorrendo. Com alguns e algumas evito falar de política, mas isso quase independe das opções de cada um. Há tempos um vizinho, recente amigo, de pendor esquerdista, dizia-me “do que não gosto em ti é dessa tua mania de que és de direita“. E tem ele razão, não se trata de ser de “direita” ou “esquerda”, trata-se de ser democrata desenvolvimentista. E de não ter paciência para os ciosos de si-mesmos e das suas imbecilidades. E para as malevolências. Sendo nisso evidente que, em falando de política, se torna difícil conversar quando o interlocutor não sabe, nem quer saber, a diferença entre “igualdade” e “equidade” – casos, frequentes, em que é melhor discutir a vergonhosa ordem dada pelo Futebol Clube do Porto aos seus apanha-bolas, a de esconderem as bolas suplentes quando o seu clube estiver a ganhar…

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Por tudo isto li, com prazer e atenção, o Entre as Brumas da Memória durante alguns anos. Um dia, no já tão longínquo Abril de 2011, Joana Lopes publicou (sem qualquer ressalva, assim subscrevendo o texto) uma “Carta Aberta a Otelo Saraiva de Carvalho”, escrito pela investigadora do CES de Coimbra, Maria Manuela Cruzeiro. Aos críticos de Saraiva de Carvalho, a autora (e a bloguista acolhedora) chamava(m) ordinários praticantes de “batota” pois “Fazem já parte do jogo viciado da contra-revolução, que em vez de argumentos, usa o golpe baixo, o ataque pessoal, o descrédito dos homens para descrédito da obra“. E sublinhava que aos executantes do 25 de Abril “Todas os defeitos se lhe podem perdoar, até porque de alguns deles a história se serviu para concretização dos seus enigmáticos planos.” E a tudo isto associava o diagnóstico da situação política de então: “Este Abril que vivemos hoje [2011] é o tempo da comissão liquidatária do pouco que restava de um outro tão diferente de há 37 anos…“. Ou seja, não só se equiparava a situação política de então ao regime do Estado Novo (era um tópico demagógico de então – os ditâmes impostos pela crise financeira e os partidos PSD e CDS eram constantemente ditos “fascistas”), como todos os que critica(va)m Saraiva de Carvalho eram soezes “batoteiros”, adeptos da “contra-revolução“, inimigos da democracia.

Ao ler o miserável texto saltei da cadeira. E lá comentei (os comentários estão no postal, confirmando que fui ríspido mas curial). Considerei ser uma atoarda demagógica comparar a situação do Estado Novo com a da democracia de XXI, em última análise constituindo uma elisão das características do chamado “fascismo”, até paradoxal se oriunda de gentes que assenta(va)m muito do seu prestígio de cidadania e legitimidade intelectual na sua trajectória oposicionista ao anterior regime. E clamei contra a evidente indignidade do referido sobre Saraiva de Carvalho, apagando/escondendo um vector fundamental do seu trajecto político. Ainda por cima chamando “batoteiro” a quem se recusava a isso esquecer.

Joana Lopes respondeu-me suavemente. Depois, em mensagem privada, solicitou-me que não voltasse eu a comentar no seu blog. Anuí, claro. Nos dias seguintes deixou-me (em blog ou no meu mural de Facebook, já não recordo) dois ou três comentários simpáticos. Tive de lhe enviar uma mensagem, lembrando-lhe que o “evitamento” teria de ser recíproco. Concordou, em silêncio. Nisso  fui deixando de frequentar o seu blog. Voltei lá agora. Para encontrar entre um dos seus últimos seis postais um típico exemplar de demagogia. Falsária. Daquela que se abomina nos “populares” (agora ditos “cheganos”) mas que tantos respeitam se oriundos dos que surgem com património “intelectual” e “biográfico”, nisso sobranceiros. Numa usual evidente altivez das gentes que se revêm como de “esquerda”, daquele estrado altivo a que Cunhal chamou “o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”.

Joana Lopes, a amiga do meu querido amigo, a respeitada bloguista – e militante antifascista e mulher de letras – morreu agora, aos 84 anos. É evidente que o lamento. Espero (e acredito) que tenha tido uma vida feliz. E um passamento indolor. 

Mas lembro também que viveu mais 40 anos do que os 18 assassinados pela organização terrorista comandada num regime democrático por Otelo Saraiva de Carvalho. Esse vulto que ela co-louvava, sem rebuço. Apodando de batoteiro e ordinário quem a ele se opunha, quem o criticava. Aos que se recusavam à “amnésia organizada”. Essa que ela, conjuntamente a tantos outros, cultivava.

E é por isto – por eu  não viver em “bolhas” – que o Entre as Brumas da Memória nunca foi o meu “blogue da semana“. E é também por isso que aqui suspendo a usual burguesa contenção crítica diante da morte.

Blogue da semana


Pedro Correia,

 

Vai fazer-me falta, a Joana Lopes.

Habituei-me a lê-la desde que nasceu o DELITO. Ela não tardou a acarinhar este blogue, tendo sido das primeiras a espalhar a notícia do “parto”, em Janeiro de 2009. Muitas vezes discordámos, mas sempre de forma civilizada – algo que parece em desuso agora. Sempre respeitei o seu percurso, marcado por convicções fortes e uma coerência que merece ser assinalada. E desafiei-a até a escrever aqui, como convidada especial, o que aconteceu a 4 de Maio de 2017.

Doutorada em Filosofia pela Universidade de Lovaina, na Bélgica, dedicou-se à programação informática enquanto engenheira de sistemas da IBM portuguesa, sendo a primeira mulher a integrar o conselho executivo do ramo português desta multinacional. Antes do 25 de Abril colaborou na emblemática revista O Tempo e o Modo e integrou a Junta Central da Acção Católica. 

Em 2007 fundou o seu blogue, descendente do livro homónimo editado no mesmo ano: Entre as Brumas da Memória – Os Católicos Portugueses e a Ditadura. Testemunho pessoal de uma época que já pertence à História.

Recebi ontem a triste notícia do seu falecimento. No dia em que decorrem as cerimónias fúnebres, presto-lhe homenagem elegendo pela última vez Entre as Brumas da Memória como nosso blogue da semana. Ela parte, as palavras ficam.

Mamede, um Maior


jpt,

Pode ser uma imagem de texto que diz "NISSAN 3 DN DNGalan84 GAlan 3.. 84"

O desporto serve de propaganda dos países – por isso todas as manipulações estatais desse património, desde a simples associação dos políticos aos ídolos até aos apoios cirúrgicos a actividades que possam fazer resplandecer os Estados e seus próceres. Mas ao mesmo tempo – numa confluência avessa a leituras lineares, encomiásticas ou denunciatórias -, o desporto é o espelho das sociedades, assim não só matéria através da qual se descortinam características fundamentais mas também dinâmicas transformativas emergentes ou existentes.

Em Portugal tal complexidade foi patente durante as guerras coloniais, com as espantosas epopeias do Benfica europeu – e, em menor escala, do Sporting – e, ainda mais, dos “Magriços”. Equipas que eram amálgamas de filhos de operários e agricultores miserabilizados, pejadas, estreladas e até capitaneadas por mulatos “filhos do Império” (estes assim elevados a “brancos”, como lembrou o Monstro Sagrado Mário Coluna na sua biografia). As quais se poderiam dizer símbolos do então propagandeado “luso-tropicalismo”, quase como se o seu seleccionador fosse, afinal, o brasileiro Gilberto Freyre.

Depois, naquele ocaso de regime, e já na minha atenta meninice – durante a qual entreguei ao Sporting o monopólio dos meus ídolos (Damas, Livramento, Lopes, Jordão, Theriaga, Aldegalega, até os estrangeiros Yazalde e Keita, etc.) -, foi o advento de Joaquim Agostinho, ídolo do povo, na sua força heróica até algo simplória impondo-se lá nas “franças”, para onde haviam partido tantos dos seus, esses labutando nos sopés das sociedades ricas. Na enorme rudeza daquele rumo ciclista, Agostinho representava-os, até alijando-os daquilo a que os seus netos haveriam de chamar “discriminação” – e também por isso que avassaladora foi a comoção popular aquando da sua tão injusta morte, tanto ainda lembro o vítreo silêncio da nossa multidão em torno do velho José de Alvalade, diante do seu féretro!

Entretanto, vigorando uma sociedade atrapalhada, pobre e anacrónica, sob um Estado quase pária, o desporto-rei entricheirara-se no “ferrolho” quando “lá fora”, no culto do singelo “brilharete” – como sempre titulava o então bíblia “A Bola”, num de facto envergonhado miserabilismo – que iluminasse o negrume em que isto ia. Quanto à “glória nacional” ela vinha dos triunfos no hóquei em patins, esse esconso desporto restrito a um país, o nosso, a uma província espanhola, a uma cidade italiana e a uma avenida argentina, como alguém, décadas depois, tão bem o veio a definir…

Após a revolução de Abril foi-se instaurando o desporto democrático, na paulatina profissionalização tecnocrática, num ambiente menos paternalista e sob uma organização cada vez mais autónoma. Ainda rústico e pobre, por isso nada atreito a modalidades colectivas ou à complexidade das então disparatadamente chamadas “disciplinas técnicas” – como se outras não o fossem -, afirmaram-se os corredores de fundo, heróis solitários quais novos Agostinhos, feitos da força inata e do esforço incessante. O Grande Carlos Lopes, também Fernando Mamede, e – já algo depois – Rosa Mota, essa que revolucionou o lugar das mulheres neste mundo luso, até porque prosseguida por outras campeãs (Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro). Todos estes mostrando que o sucesso “lá fora” era possível, apesar do nosso tudo…

Foi nesse país trôpego que Carlos Lopes mostrou que se podia vencer na “estranja”, veio ele fazer sonhar ganhar. Que efeito a sua saga teve sobre uma população ainda de “chapéu na mão”: o querer de um homem humilde; o duro, longo, e or-ga-ni-za-do trabalho; a esperança e o sofrimento. Sob a direcção de um Mestre-pai sabedor, rigído mas amigo – Mário Moniz Pereira, que para sempre ficou um ícone da competência humanista. E, finalmente, até já inesperada, a recompensa da sua veterana vitória total, do sucesso, da liberdade, a conquista da Maratona Olímpica.

Antes, em 1977, ele capitaneara o Sporting na inédita vitória europeia no corta-mato – quando o grande rival, o espanhol Mariano Haro, por ele esperou ao vê-lo escorregar e cair no lamaçal da pista, desportista assim firmando-se eterno campeão, tão para além de uma mera vitória em corrida. Eufórico com o triunfo, no dia seguinte de manhã baldei-me às aulas aqui nos Olivais, juntei-me a colegas da turma dos Viveiros, e fui esperar os campeões ao aeroporto – foi a única vez que pedi autógrafos: ao Lopes, ao Mamede, ao Aniceto Simões, ao Carlos Cabral.

E ainda lembro, tão bem, como antes, nos Olímpicos de 1976, seguira num apinhado “Careca” da “rua dos cafés” de São Martinho do Porto, aquela final olímpica, em que Lopes foi batido na recta final pelo afinal sprinter Lasse Viren, o malvado finlandês, esse que fazia transfusões de sangue, assim ilegitimamente roubando-nos (sim, a todos nós!) a subida ao pódio máximo – e nem vimos em directo a cerimónia da “medalha de prata” de Lopes, diferida para que fosse transmitido um anúncio do Atum Tenório, esse que ainda hoje, 50 anos depois, nunca compro e por isso mesmo…

Mas de todos esses o meu preferido ficou Fernando Mamede. Não apenas por ter ele como píncaro da sua carreira o recorde mundial dos 10 000 metros (nuns incríveis 27.13. 81), algo que obteve em Estocolmo em 2 de julho de 1984: o dia em que fiz 20 anos! Que euforia, a de todos nós e a minha, reforçada em dia de tão especial aniversário!

Pois o que eu amei em Fernando Mamede foi aquela sua grandeza do insucesso. Heróica, qual mito grego – não a húbris de Aquiles, recusando-se a combater os troianos devido a mero assunto de saias, essa que Agostinho replicara parando de pedalar no Tour apenas por o treinador lhe recusar uma coca-cola durante a etapa… Mas sim a enorme fraqueza de ser humano (“demasiado humano”, terá dito algum escritor), de ser incapaz do sucesso máximo quando este se lhe apresentava. Tornando-se assim Mamede até odiado por adiar … as aspirações ao sonho dos compatriotas, pois tão igual ao comum era ele, tão pouco enorme parecia no momento decisivo. Pois, sem rebuço, a grandeza do falhanço nada colhe junto de quem sonha subir, a isso anseia, disso realmente necessita. Foi mesmo esse seu tropeçar junto ao cume que o tornou o meu preferido de todos. Respeitando, até amando, os Eusébios, os Figos, os Lopes, os Ronaldos, as Motas e Cunhas. Mas sempre adorando Mamede, esse sim um dos nossos. O maior dos nossos.

Lembro ainda a comoção que tive no dia seguinte à final olímpica dos 10 000 metros de 1984. Mamede super-favorito falhara mais uma vez, afundara-se. Naquela noite a loja de artigos desportivos que tinha na Avenida de Roma foi vandalizada por pretensos “adeptos”, irados por não ter sido ele campeão. Ainda hoje digo que face a essa notícia foi a única vez que senti vergonha de ser português – mas, de facto, terá sido apenas o momento em que percebi a “identidade” portuguesa, isso que tanta verborreia tem causado aos intelectuais, nesta gasta pátria tão prolixos são em meros mansos “ensaios” sobre tal espúria matéria.

Ao longo das décadas subsequentes Mamede foi sendo esquecido. Jamais idolatrado. Alguns, raros, textos aludiam a continuar ele – homem tão especial, tão precioso – algo acabrunhado. Devido às minudências que não conseguiu, talvez insensível ao gigante que foi. Um Maior. Pois o maior de todos nós. Amámo-lo pouco. Muito menos do que o devido.

(Postal também no meu “O Pimentel“)

Mamede e o Sporting


jpt,

Recorda-se de Fernando Mamede? O antigo atleta vive isolado ...

Conheci o Pedro Azevedo quando ambos escrevíamos no blog sportinguista És a Nossa Fé! Além de ser um grande adepto o Pedro é um tipo muito gentil (e faz anos hoje, já agora). E continua a blogar (A Poesia do Drible). Escreve muito bem. E aos escritos sobre o clube e seu futebol sempre junta humor e uma cultura refinada, a qual deixa correr sem vaidosices.

 

Ontem, dia da morte do nosso extraordinário atleta Fernando Mamede, o Sporting foi ao mítico estádio San Mamés, em Bilbau, alcançar uma vitória com efeitos extraordinários. Com um golo no final do jogo – e que ficará histórico – do Big Allison (como lhe poderão chamar os adeptos da minha geração, sempre gratos ao Big [Malcolm] Alisson).

 

Obrigado, Pedro. Parabéns. E passa hoje um bom dia!

Testemunho de um “filme” com Eurico Figueiredo


João Pedro Pimenta,
 
Regressado de Vila Real, da despedida e das cerimónias fúnebres de uma querida pessoa de família, sou informado da morte de outro ilustre vilarealense: Eurico Figueiredo, que sabia debilitado há já bastante tempo. Natural de Justes, tal como a minha avó, com cuja família aliás a sua nutria uma certa rivalidade pela velha questão monarquia-república, o Professor Eurico destacou-se como um dos mais radicais organizadores das greves estudantis dos anos 60, que o levaram a exilar-se na Suíça, país onde tirou o curso de psiquiatria e cujo modelo académico e social admirou sempre. As notícias referem a sua militância no PS, onde chegou a ser deputado e ministro-sombra para a saúde. Falam menos do seu percurso posterior, onde se envolveu na causa da regionalização e ajudou a fundar o PDR com Marinho “e” Pinto antes de romper definitivamente com o ex-bastonário e de ser cabeça de lista pelo Porto pelo MPT nas legislativas de 2015 (e não pelas Europeias de 2014, como a notícia do Observador estupidamente refere, até porque nas europeias não há listas por distritos).
 
Por concidência, também eu fui convidado para as listas desse partido fundado por Gonçalo Ribeiro Telles e que apresentava então outros nomes interessantes (na lista de Lisboa, por exemplo, constava Rodrigo Saraiva, hoje deputado pela IL, Manuel Ramos, recentemente advogado oficioso de Sócrates por 3 dias e Carmona rodrigues como mandatário). Conheci Eurico Figueiredo verdadeiramente aí, onde protagonizou alguns momentos de campanha insólitos, como a declaração de greve de fome (a fotografia no artigo da versão em papel do Público, junto à Segurança social do Porto, é precisamente desse momento), pelo facto de a Segurança social não lhe devolver uma quantia erradamente retida, mesmo contra decisão do tribunal, demonstrando o mau cumpridor que o Estado é), o protesto contra o preço do vinho dos pequenos produtores (que ele também era), convidando os transeuntes a beber um copo de vinho de baixo custo em frente a uma grande superfície, e sobretudo o gesto radical de defesa do património. A escolha recaiu, por sugestão minha, na Ponte D. Maria Pia. Eurico Figueiredo, que afirmava que “temos um Eiffell no Porto assim como outros têm Picassos na sala”, queria uma faixa atravessada a todo o comprimento da ponte, com os dizeres “reabilitem-me, carago”, inspirado no “construam-me, porra” do Alqueva. Decidiu-se por um mais heterodoxo “por favor, recuperem-me” e por colocar a faixa na base do pilar da margem direita, já que a primeira ideia era quase impossível, assim como a de lançar asas delta verdes com o mesmo propósito. O próprio Prof. Eurico encomendou a faixa a expensas próprias e numa manhã, nos dias finais da campanha, lá conseguimos, apenas duas pessoas, colocá-la. Digo “conseguimos” mas ele é que subiu aos pontos mais altos e difíceis. A coisa ainda teve alguma curta repercussão, assim como o manifesto a favor de entregar os transportes públicos a entidades metropolitanas públicas – nem privatização nem estatização – mas a escassez de meios e de publicidade e a sabotagem por parte de elementos do movimento de Marinho, que depois se transformaria no ADN, falhou a eleição por bastante.
 
Para piorar, a campanha da ponte tinha o conhecimento prévio de Paulo Cunha e Silva, o então imparável vereador da Cultura do Porto, e serviria para lançar um movimento que, ultrapassados os escolhos burocráticos, permitiria uma reabilitação prática do monumento. Antes que se pudesse fazer uma reunião definidora com Cunha e Silva, que não recusava uma boa ideia, este morreu subitamente, como se sabe. A ponte continua na mesma, dez anos volvidos.
 
Julgo não revelar nenhum segredo de estado ao relembrar esta história. Assim era Eurico Figueiredo, um enorme psiquiatra mas também um homem de acção, por vezes até demais, unindo genialidade a impulsividade. Era também um transmontano verídico, nunca se esquecendo de onde vinha. Houvesse mais como ele.
 
Desculpem a qualidade das fotografias, que são de um modelo sony de há dez anos, o meu primeiro smartphone. E bom 2026 a todos.

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Na morte de Eurico Figueiredo


Pedro Correia,

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Sou surpreendido com a notícia da morte de Eurico Figueiredo: sucumbiu a uma gripe traiçoeira após tantas lutas travadas ao longo de 86 anos bem vividos e preenchidos.

Convivi diariamente com ele nos anos em que integrou a bancada do PS na Assembleia da República. Politico e psiquiatra, resistente à ditadura, homem íntegro que nunca se deixou tentar por cargos nem deixou de dizer o que pensava.

Era personagem fascinante. Escrevo personagem porque a vida dele dava um filme. Ou vários filmes.

Recordo as longas conversas que partilhámos, pontuadas pelas calorosas gargalhadas deste transmontano cosmopolita que nos ensinava a valorizar o lado solar da existência. Guardarei para sempre esta e outras lições que generosamente me transmitiu. Não como mestre (que era), mas como uma espécie de irmão mais velho de todos nós – aqueles de gerações mais jovens que tivemos o privilégio de o conhecer nesses anos felizes em que raras vezes a morte parecia infiltrar-se no horizonte.