O pior inimigo de Trump é Trump: Quem tiver amor à retórica e à oratória abomina-lhe o discurso primário, infantil e grosseiro; quem apreciar diplomacia detesta-lhe a ignorância da História e o comportamento de elefante desbocado e insolente nas relações internacionais; quem tiver amor à verdade e à consistência que vá bater a outra porta, que o que é verdade hoje amanhã será mentira e o fiel amigo de hoje pode passar a traidor e o traidor a amigo do peito, tudo dentro do mesmo mês; e quem entender que falar à Nação (e a outras nações) é um acto solene em que as palavras devem ter peso, conta e medida, que fuja da rede social que o próprio fundou porque lá, no meio da vozearia, o bully espalha jactâncias em linguagem de furioso do teclado.
A imagem de AI, que correu mundo e que Trump publicou representado-se como Cristo (entretanto apagada) é uma incompreensível provocação aos Cristãos, que Trump agravou com uma desculpa esfarrapada e admoestações ao Papa, que naturalmente não tinha apreciado o abuso. Trump resolveu responder precisamente nos mesmos termos que usaria para com um líder de um qualquer país, numa mais do que evidente manifestação de total incompreensão da diferença entre esferas religiosa e política e significado do papado. Ou não está bom da cabeça ou o seu narcisismo é do domínio patológico. Mas isto não nos desobriga de tentarmos ver a racionalidade das decisões por trás da cortina dos disparates.
Ah, fosse Presidente um Obama II e o que teríamos seriam palavras inspiradoras em discursos bem lidos no teleponto; fosse um Biden de saias, isto é, Kamala, nas relações internacionais pairariam doses imensas de compreensão e diálogo e na ordem interna a luta contra injustiças sociais, raciais e de género, a protecção de minorias e o combate às alterações climáticas, tudo a somar a outras causas e bandeiras que entretanto a esquerda inventasse para se confortar na sua imaginária superioridade moral.
Israel que se amanhasse lá com os atentados, e os mísseis, e os drones, e as organizações terroristas que o Irão tradicionalmente financia, e que desse o exemplo da contenção apresentando protestos na ONU, que contariam com a profunda preocupação de Guterres e diligências de um Alto Comissário, naturalmente Francês, que manteria negociações com todas as partes resultando em Acordos inócuos.
Que Israel se amanhasse com isso e a perspectiva da bomba atómica iraniana, que a Mossad acha que está a ser desenvolvida e o bem-pensismo ocidental acha que não porque Israel é um país belicista, o Irão amigo da paz, e de armas de destruição maciça já ficamos escarmentados com o que se passou no Iraque.
Sucede que Trump, que apesar de primário tem um instinto geralmente acertado, achou que era boa altura para sossegar Israel definitivamente, ou pelo menos por alguns bons anos, liquidando a ameaça iraniana e aproveitando para se vingar de décadas da hostilidade aiatolesca. Haverá outras complicadas motivações que têm a ver com a China, a manutenção do dólar como moeda internacional e outras peças do xadrez planetário. A isso me poupo por serem voos especulativos quando prefiro o chão do que se conhece. E pelos motivos evidentes e talvez pelas que se imaginam foi ao Irão escavacar o aparelho político e militar, começando por remeter para Alá e um número indeterminado de virgens uma quantidade de clérigos e dirigentes daquele Estado terrorista.
Coisa curiosa: cedendo à imensa superioridade militar americano-israelita não ficou pedra sobre pedra da Força Aérea, da Marinha e de estruturas científicas e militares iranianas. Mas veio-se a descobrir que o regime tinha criado condições (espalhando instalações secretas pelo imenso país, diversificando e descentralizando comandos, mantendo fábricas de mísseis e drones) que agora lhe permitem continuar a atacar, sobretudo outros países que não participam na cruzada anti-Judeu.
Este aparelho militar surpreendente era necessário porquê, para resistir a quê? Só podia ser a retaliações porque os EUA nunca atacariam um país que não lhes hostilizasse os interesses, nem Israel sonharia em atacar se não se visse seriamente ameaçado. Donde o que se pode concluir é que a tenaz resistência do Irão, e os surpreendentes meios que ainda tem para a sustentar, são a prova das suas, aliás mais do que confessadas, intenções de obliterar Israel, o Pequeno Satã, e humilhar o Grande Satã.
Os ataques do Irão a países que não eram parte no conflito destinam-se a alargá-lo, arrastando mais e mais de modo a alarmar as opiniões públicas do Ocidente com as consequências económicas do prolongamento da guerra. Opiniões públicas que, pela sua maior parte podem não apreciar o Irão mas ainda apreciam menos apertar o cinto. E o bloqueio do estreito de Ormuz foi uma jogada de mestre, talvez curto-circuitada pela reacção americana de dobrar a parada daquele bloqueio: a disrupção do fornecimento mundial de petróleo traduz-se no aumento do preço de combustíveis, fertilizantes e, por arrasto, quase todos os outros bens, mesmo nos EUA, que são relativamente autossuficientes em matéria energética.
Sucede que no Irão não se requer inspiração de Allah para saber que o consumidor americano vota com a carteira e que, com a vida mais difícil, o Partido Republicano vai de vela nas eleições de Novembro, Trump perdendo a maioria no Congresso e expondo-se a impeachments e bloqueios de toda a espécie, incluindo nas guerras.
(Uma nota para lembrar que Trump, que numerosos sábios descrevem como fundamentalmente antidemocrata, senão fascista, tem um medo pânico da opinião pública e do resultado das eleições, atitude surpreendente da parte de um protoditador).
Na América é assim e na Europa pior: guerras são coisas obsoletas, o que se passa no Médio Oriente é assunto de Judeus que não cessam de arranjar problemas, o imperialismo americano que se desenvencilhe, de preferência ganhando mas, se isso não puder ser, sem nos estragar a vidinha, e Ormuz que abra, e depressa, senão vamos de greve que isto não se pode. De modo que se, para abrir, for preciso os petroleiros pagarem portagem, pois que seja – gasolina a 3 Euros o litro é que não pode ser.
(A ideia das portagens é engraçada porque há muito mais estreitos e não parece que haja grande empenho em pagar à Turquia no Bósforo ou em Gibraltar à Espanha e a Marrocos, se é que os filhos da Ilha também não quereriam a sua pitança porque têm lá um enclave. E só cito estes dois porque, no seu ponto mais estreito, ainda são mais apertados do que o de Ormuz).
Com as opiniões públicas assim, os líderes europeus esbracejam e dizem piedades, que Trump, e bem, ignora. E naqueles distingue-se Macron, que há tempos enviou meios navais para Chipre (sempre ficavam mais perto do conflito) e não cessa de fazer exigências como, no momento em que escrevo, as de que as partes respeitem o cessar-fogo, incluindo no Líbano. Que o Irão exija que Israel deixe de atacar um movimento terrorista num país vizinho de Israel, e que não é parte da guerra senão indirectamente porque as autoridades locais não conseguem controlar o que se passa dentro das suas fronteiras, é caso extraordinário. Macron é um excelente exemplo da actual (aflautar a voz) grandeur de la France – De Gaulle não deve cessar de dar voltas no túmulo. Diz umas vezes “agarrem-me senão eu mato-os”, outras que a França exige não sei quê e, se houvesse uma vitória final, improvável mas não impossível, iria a correr apanhar as canas.
Tudo visto e ponderado, o grande amigo do Irão e portanto inimigo dos EUA é o tempo. É tempo o que o Irão está a comprar e qualquer acordo dificilmente será cumprido, a menos que lhe seja claramente favorável, toda a declaração contemporizadora de dirigentes europeus (não fazem outras) é bem-vinda, e todo o arrastar da situação o favorece porque uma guerra da qual as opiniões públicas das democracias desconfiam acaba por gerar reacções internas invencíveis.
Estas opiniões públicas são alimentadas pelos magistrados da opinião. Quem são eles e os que, não sendo intelectuais (graças a Deus) têm uma palavra a dizer:
- Os inimigos de Trump, que são legião porque não apenas lhe detestam a personalidade (que é, na verdade, detestável) mas também as ideias, que têm o grande defeito de não serem de esquerda, antes portadoras de um implícito desprezo pelos ares ideológicos do tempo, além de com um carácter nacionalista que o cosmopolitismo odeia. Contam para isso, para lá da genuína aversão pessoal, com a confusão dos eleitores, que tendem a achar que pessoas boas dão bons políticos, e más, maus;
- Os antiamericanos, que estão fatalmente do lado oposto ao dos cowboys porque aquela terra é a da liberdade económica (menos do que se imagina, mas deixemos isso), dos multimilionários, da riqueza ostensiva e da muito pequena vénia à retórica da igualdade. Isto inclui comunistas genuínos (em vias de extinção, com grande desgosto das pessoas amantes de antiguidades), e comunistas reciclados em paladinos de causas avançadas, que de mil maneiras explicam que, não fosse a ganância americana na versão trumpista, o mundo seria um lugar de paz e concórdia em que a comunidade LGBTurbo festivalaria sossegada (excepto nos países muçulmanos, onde aliás as mulheres, usando da sua liberdade, se vestem de toldos de guarda-sóis, mas não se pode ter tudo);
- Os cidadãos americanos que sempre foram, pela maior parte, isolacionistas (foram os ataques do Japão que convenceram a opinião pública a aceitar a participação na II Guerra) e deram a vitória nas eleições a Trump, entre outras razões, pelas suas promessas de não envolver os EUA em guerras. Que o galão da gasolina, que está a cerca de 4 dólares, ultrapasse os 5, que os preços no supermercado subam muito, e que militares americanos regressem à pátria dentro de sacos de plástico, e Trump terá a burra nas couves, daí que vá provavelmente sair daquele vespeiro logo que puder;
- Os dirigentes europeus, que verdadeiramente não dirigem nada além das suas carreiras porque papagueiam o que acham que os eleitores querem ouvir.
E uma cabeça bem ordenada, pensa o quê?
- A desistência de Trump, mesmo que embrulhada numa retórica de vitória, é uma derrota do Ocidente e dos seus valores porque do outro lado está uma teocracia medieval irreformável;
- Contar exclusivamente com Americanos para reabrir um estreito cujo desimpedimento é ainda mais necessário na Europa do que nos EUA, é uma atitude de cobardia. Acaso seria diferente se Trump tivesse tido o cuidado de informar previamente os aliados da NATO das suas intenções bélicas, como deveria? Não, ouviria recomendações de prudência, aulas de geoestratégia, mas de apoio nicles;
- Um acordo tíbio significa a derrota parcial de Israel porque o Irão terá tempo e meios para se rearmar e continuar a financiar movimentos terroristas;
- A sobrevivência do regime é uma derrota do povo iraniano, que perde a oportunidade de se livrar de um regime celerado;
- É possível que fique um sinal de que o poderio americano aguenta pouco tempo e poucos sacrifícios, o que inspirará outros potenciais agressores;
- A desistência prematura é uma garantia de guerras futuras porque esse é o preço das mal-ganhas ou meio-perdidas.
De modo que podemos ser a favor de Trump, apesar dele; ou contra ele, o que quer dizer a favor dos aiatolas. Terceira via? Não há.
Hoje. Ou talvez haja daqui a uns dias porque com Trump podemos ter a certeza de não podermos ter certezas.