Blogue da semana


Pedro Correia,

Tempo de férias para muitos. Tempo propício a deslocações: os dias longos desafiam-nos a isso.

Daí a recomendação que hoje faço. De um blogue escrito a dois. Por uma geógrafa e um físico, Carla Mota e Rui Pinto. Ambos devotos de passeios e excursões e deambulações por países e continentes – quanto mais longe do sofá, melhor.

Antes da guerra mais recente passaram por Ormuz, visitando o Forte de Nossa Senhora da Conceição mandado erguer por Afonso de Albuquerque no século XVI e lá descobriram inscrições portuguesas que têm resistido à erosão do tempo. Sentiram orgulho: «Estas ruínas com 400 anos demonstram que os portugueses tiveram a visão e coragem de criar um mundo novo, e souberam-no fazer contra a vontade de impérios maiores e mais poderosos.» Bem os compreendo.

«No final da visita queremos pagar e [o guia] diz-nos que não. É oferta, o forte, afinal, era vosso!» Orgulho redobrado.

Eis Viajar Entre Viagens, nosso blogue da semana.

Dentro do péssimo, o menos mau


Pedro Correia,

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Anda por aqui gente com pouca ou nenhuma fé, navegando no derrotismo militante. Pois eu, contrariando a tendência, insisto em ver o copo meio cheio, mesmo em circunstâncias difíceis. E não me arrependo.

Releio o que escrevi nesta caixa de comentários do DELITO a 4 de Janeiro, após a captura de Nicolás Maduro numa operação-relâmpago dos EUA com óbvias cumplicidades ao alto nível do corrupto regime da Venezuela. O que mais me interessou ali foi ver o colapso de um precioso aliado da Federação Russa. E logo vaticinei a queda de outros dois: o ditador russo «está a escassos meses ou até semanas de perder o Irão» (aconteceu a 28 de Fevereiro) e «em Abril perderá o amigo Orbán, por derrota nas legislativas da Hungria» (aconteceu a 12 de Abril, no passado domingo). 

É verdade que neste atribulado 2026 o mundo está muito perigoso. Mas todo o negativo acaba por ter o seu reverso. E até dentro do péssimo é sempre possível vislumbrar o menos mau.

Notas sobre a guerra


José Meireles Graça,

O pior inimigo de Trump é Trump: Quem tiver amor à retórica e à oratória abomina-lhe o discurso primário, infantil e grosseiro; quem apreciar diplomacia detesta-lhe a ignorância da História e o comportamento de elefante desbocado e insolente nas relações internacionais; quem tiver amor à verdade e à consistência que vá bater a outra porta, que o que é verdade hoje amanhã será mentira e o fiel amigo de hoje pode passar a traidor e o traidor a amigo do peito, tudo dentro do mesmo mês; e quem entender que falar à Nação (e a outras nações) é um acto solene em que as palavras devem ter peso, conta e medida, que fuja da rede social que o próprio fundou porque lá, no meio da vozearia, o bully espalha jactâncias em linguagem de furioso do teclado.

A imagem de AI, que correu mundo e que Trump publicou representado-se como Cristo (entretanto apagada) é uma incompreensível provocação aos Cristãos, que Trump agravou com uma desculpa esfarrapada e admoestações ao Papa, que naturalmente não tinha apreciado o abuso. Trump resolveu responder precisamente nos mesmos termos que usaria para com um líder de um qualquer país, numa mais do que evidente manifestação de total incompreensão da diferença entre esferas religiosa e política e significado do papado. Ou não está bom da cabeça ou o seu narcisismo é do domínio patológico. Mas isto não nos desobriga de tentarmos ver a racionalidade das decisões por trás da cortina dos disparates.

Ah, fosse Presidente um Obama II e o que teríamos seriam palavras inspiradoras em discursos bem lidos no teleponto; fosse um Biden de saias, isto é, Kamala, nas relações internacionais pairariam doses imensas de compreensão e diálogo e na ordem interna a luta contra injustiças sociais, raciais e de género, a protecção de minorias e o combate às alterações climáticas, tudo a somar a outras causas e bandeiras que entretanto a esquerda inventasse para se confortar na sua imaginária superioridade moral.

Israel que se amanhasse lá com os atentados, e os mísseis, e os drones, e as organizações terroristas que o Irão tradicionalmente financia, e que desse o exemplo da contenção apresentando protestos na ONU, que contariam com a profunda preocupação de Guterres e diligências de um Alto Comissário, naturalmente Francês, que manteria negociações com todas as partes resultando em Acordos inócuos.

Que Israel se amanhasse com isso e a perspectiva da bomba atómica iraniana, que a Mossad acha que está a ser desenvolvida e o bem-pensismo ocidental acha que não porque Israel é um país belicista, o Irão amigo da paz, e de armas de destruição maciça já ficamos escarmentados com o que se passou no Iraque.

Sucede que Trump, que apesar de primário tem um instinto geralmente acertado, achou que era boa altura para sossegar Israel definitivamente, ou pelo menos por alguns bons anos, liquidando a ameaça iraniana e aproveitando para se vingar de décadas da hostilidade aiatolesca. Haverá outras complicadas motivações que têm a ver com a China, a manutenção do dólar como moeda internacional e outras peças do xadrez planetário. A isso me poupo por serem voos especulativos quando prefiro o chão do que se conhece. E pelos motivos evidentes e talvez pelas que se imaginam foi ao Irão escavacar o aparelho político e militar, começando por remeter para Alá e um número indeterminado de virgens uma quantidade de clérigos e dirigentes daquele Estado terrorista.

Coisa curiosa: cedendo à imensa superioridade militar americano-israelita não ficou pedra sobre pedra da Força Aérea, da Marinha e de estruturas científicas e militares iranianas. Mas veio-se a descobrir que o regime tinha criado condições (espalhando instalações secretas pelo imenso país, diversificando e descentralizando comandos, mantendo fábricas de mísseis e drones) que agora lhe permitem continuar a atacar, sobretudo outros países que não participam na cruzada anti-Judeu.

Este aparelho militar surpreendente era necessário porquê, para resistir a quê? Só podia ser a retaliações porque os EUA nunca atacariam um país que não lhes hostilizasse os interesses, nem Israel sonharia em atacar se não se visse seriamente ameaçado. Donde o que se pode concluir é que a tenaz resistência do Irão, e os surpreendentes meios que ainda tem para a sustentar, são a prova das suas, aliás mais do que confessadas, intenções de obliterar Israel, o Pequeno Satã, e humilhar o Grande Satã.

Os ataques do Irão a países que não eram parte no conflito destinam-se a alargá-lo, arrastando mais e mais de modo a alarmar as opiniões públicas do Ocidente com as consequências económicas do prolongamento da guerra. Opiniões públicas que, pela sua maior parte podem não apreciar o Irão mas ainda apreciam menos apertar o cinto. E o bloqueio do estreito de Ormuz foi uma jogada de mestre, talvez curto-circuitada pela reacção americana de dobrar a parada daquele bloqueio: a disrupção do fornecimento mundial de petróleo traduz-se no aumento do preço de combustíveis, fertilizantes e, por arrasto, quase todos os outros bens, mesmo nos EUA, que são relativamente autossuficientes em matéria energética.

Sucede que no Irão não se requer inspiração de Allah para saber que o consumidor americano vota com a carteira e que, com a vida mais difícil, o Partido Republicano vai de vela nas eleições de Novembro, Trump perdendo a maioria no Congresso e expondo-se a impeachments e bloqueios de toda a espécie, incluindo nas guerras.

(Uma nota para lembrar que Trump, que numerosos sábios descrevem como fundamentalmente antidemocrata, senão fascista, tem um medo pânico da opinião pública e do resultado das eleições, atitude surpreendente da parte de um protoditador).

Na América é assim e na Europa pior: guerras são coisas obsoletas, o que se passa no Médio Oriente é assunto de Judeus que não cessam de arranjar problemas, o imperialismo americano que se desenvencilhe, de preferência ganhando mas, se isso não puder ser, sem nos estragar a vidinha, e Ormuz que abra, e depressa, senão vamos de greve que isto não se pode. De modo que se, para abrir, for preciso os petroleiros pagarem portagem, pois que seja – gasolina a 3 Euros o litro é que não pode ser.

(A ideia das portagens é engraçada porque há muito mais estreitos e não parece que haja grande empenho em pagar à Turquia no Bósforo ou em Gibraltar à Espanha e a Marrocos, se é que os filhos da Ilha também não quereriam a sua pitança porque têm lá um enclave. E só cito estes dois porque, no seu ponto mais estreito, ainda são mais apertados do que o de Ormuz).

Com as opiniões públicas assim, os líderes europeus esbracejam e dizem piedades, que Trump, e bem, ignora. E naqueles distingue-se Macron, que há tempos enviou meios navais para Chipre (sempre ficavam mais perto do conflito) e não cessa de fazer exigências como, no momento em que escrevo, as de que as partes respeitem o cessar-fogo, incluindo no Líbano. Que o Irão exija que Israel deixe de atacar um movimento terrorista num país vizinho de Israel, e que não é parte da guerra senão indirectamente porque as autoridades locais não conseguem controlar o que se passa dentro das suas fronteiras, é caso extraordinário. Macron é um excelente exemplo da actual (aflautar a voz) grandeur de la France – De Gaulle não deve cessar de dar voltas no túmulo. Diz umas vezes “agarrem-me senão eu mato-os”, outras que a França exige não sei quê e, se houvesse uma vitória final, improvável mas não impossível, iria a correr apanhar as canas.

Tudo visto e ponderado, o grande amigo do Irão e portanto inimigo dos EUA é o tempo. É tempo o que o Irão está a comprar e qualquer acordo dificilmente será cumprido, a menos que lhe seja claramente favorável, toda a declaração contemporizadora de dirigentes europeus (não fazem outras) é bem-vinda, e todo o arrastar da situação o favorece porque uma guerra da qual as opiniões públicas das democracias desconfiam acaba por gerar reacções internas invencíveis.

Estas opiniões públicas são alimentadas pelos magistrados da opinião. Quem são eles e os que, não sendo intelectuais (graças a Deus) têm uma palavra a dizer:

  1. Os inimigos de Trump, que são legião porque não apenas lhe detestam a personalidade (que é, na verdade, detestável) mas também as ideias, que têm o grande defeito de não serem de esquerda, antes portadoras de um implícito desprezo pelos ares ideológicos do tempo, além de com um carácter nacionalista que o cosmopolitismo odeia. Contam para isso, para lá da genuína aversão pessoal, com a confusão dos eleitores, que tendem a achar que pessoas boas dão bons políticos, e más, maus;
  2. Os antiamericanos, que estão fatalmente do lado oposto ao dos cowboys porque aquela terra é a da liberdade económica (menos do que se imagina, mas deixemos isso), dos multimilionários, da riqueza ostensiva e da muito pequena vénia à retórica da igualdade. Isto inclui comunistas genuínos (em vias de extinção, com grande desgosto das pessoas amantes de antiguidades), e comunistas reciclados em paladinos de causas avançadas, que de mil maneiras explicam que, não fosse a ganância americana na versão trumpista, o mundo seria um lugar de paz e concórdia em que a comunidade LGBTurbo festivalaria sossegada (excepto nos países muçulmanos, onde aliás as mulheres, usando da sua liberdade, se vestem de toldos de guarda-sóis, mas não se pode ter tudo);
  3. Os cidadãos americanos que sempre foram, pela maior parte, isolacionistas (foram os ataques do Japão que convenceram a opinião pública a aceitar a participação na II Guerra) e deram a vitória nas eleições a Trump, entre outras razões, pelas suas promessas de não envolver os EUA em guerras. Que o galão da gasolina, que está a cerca de 4 dólares, ultrapasse os 5, que os preços no supermercado subam muito, e que militares americanos regressem à pátria dentro de sacos de plástico, e Trump terá a burra nas couves, daí que vá provavelmente sair daquele vespeiro logo que puder;
  4. Os dirigentes europeus, que verdadeiramente não dirigem nada além das suas carreiras porque papagueiam o que acham que os eleitores querem ouvir.

E uma cabeça bem ordenada, pensa o quê?

  1. A desistência de Trump, mesmo que embrulhada numa retórica de vitória, é uma derrota do Ocidente e dos seus valores porque do outro lado está uma teocracia medieval irreformável;
  2. Contar exclusivamente com Americanos para reabrir um estreito cujo desimpedimento é ainda mais necessário na Europa do que nos EUA, é uma atitude de cobardia. Acaso seria diferente se Trump tivesse tido o cuidado de informar previamente os aliados da NATO das suas intenções bélicas, como deveria? Não, ouviria recomendações de prudência, aulas de geoestratégia, mas de apoio nicles;
  3. Um acordo tíbio significa a derrota parcial de Israel porque o Irão terá tempo e meios para se rearmar e continuar a financiar movimentos terroristas;
  4. A sobrevivência do regime é uma derrota do povo iraniano, que perde a oportunidade de se livrar de um regime celerado;
  5. É possível que fique um sinal de que o poderio americano aguenta pouco tempo e poucos sacrifícios, o que inspirará outros potenciais agressores;
  6. A desistência prematura é uma garantia de guerras futuras porque esse é o preço das mal-ganhas ou meio-perdidas.

De modo que podemos ser a favor de Trump, apesar dele; ou contra ele, o que quer dizer a favor dos aiatolas. Terceira via? Não há.

Hoje. Ou talvez haja daqui a uns dias porque com Trump podemos ter a certeza de não podermos ter certezas.

O fiasco do século


Cristina Torrão,

Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem.

 

Estas foram palavras de Donald Trump, a 28 de Fevereiro passado, ao anunciar o ataque militar ao Irão. Antes disso, com o povo iraniano a revoltar-se e a ser dizimado, Trump encorajou esse mesmo povo a resistir e a lutar, prometendo-lhes apoio, que a ajuda não tardaria. Quantos iranianos e iranianas, que não planeavam sair à rua, o fizeram, despois destas palavras? E quantas dessas pessoas morreram e/ou foram torturadas?

Já aqui o disse e torno a dizer: Trump está a marimbar-se para os Direitos Humanos, para a liberdade, para a democracia, para o povo iraniano e… para as mulheres de cabeça coberta. Nada lhe podia ser tão indiferente. A única coisa que talvez incomode Trump, é não lhes poder apreciar o cabelo. Trump é um psicopata pedófilo, misógino e machista

Aliás, as muçulmanas de cabeça coberta, ou, ainda melhor, de burca, dão muito jeito aos misóginos ocidentais. É vê-los a defenderem acirradamente os direitos das mulheres, a igualdade, a emancipação… Enfim, mais uma maneira de se servirem delas e de iludirem as ocidentais, que se deviam envergonhar de ainda serem feministas. Simplesmente lamentável

Estamos a ver os resultados dos ataques ao Irão: além das inevitáveis destruição e mortandade, temos a inflação galopante a aumentar o fosso entre ricos e pobres, a iminência de uma crise petrolífera sem precendentes, Trump metido num beco sem saída e… o povo iraniano mais oprimido do que nunca! Nem sequer sabemos a que escala estão a ser torturados e executados.

Intitulei este post de “fiasco do século”. Mas não, não me estava a referir à guerra contra o Irão. Estava a referir-me a Trump, himself. Já há apoiantes dele a caírem na realidade, a darem conta da sua retórica balofa. As palavras de Trump são como farófias inchadas, claras em castelo que, metidas na boca, se transformam em nada, numa fracção de segundo. Trump diz e desdiz-se, confunde, desrespeita as leis, provoca o caos, espalha o ódio. E, na Casa Branca, os pastores evangélicos rezam por ele, de mãos pousadas nele em profunda veneração, enquanto o seu Ministro da Guerra afirma ser o ataque ao Irão vontade de Deus.

 

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Imagem Instagram (vaticannewspt)

 

Acreditar em Trump é a mesma coisa que acreditar no Pai Natal. Ilusão infantil, de quem julga possível vivermos num mundo ideal, onde não haja crime, nem pobreza, nem gente diferente a vaguear pelas nossas ruas (porque ser diferente é sinónimo de ser perigoso), onde as famílias e as “pessoas de bem” vivam em paz e harmonia.

Esse mundo não existe, nem nunca irá existir. Mas o mundo tem épocas, em que, no seu conjunto, é mais, ou menos, perigoso. Neste momento, o mundo é um lugar muito perigoso. E isso o devemos, em larga escala, ao fiasco deste século: Donald Trump.

Não é messias quem quer. Muito menos um criminoso. Messias, só houve um! Devíamos ler e reflectir mais vezes sobre as palavras do verdadeiro e único Messias.

Leitura de fim-de-semana


Paulo Sousa,

«Para muita gente, o que está em causa no Irão é apenas a presidência de Donald Trump num ano de eleições legislativas intercalares nos EUA. Os inimigos de Trump, com esperança, mas também alguns dos seus partidários, com apreensão, encaram a guerra como um erro fatal. Por isso, só conseguem ver como os mullahs podem vencer. Por exemplo, prolongando e alargando a guerra, de maneira a provocar uma crise económica que os eleitores de Trump não lhe perdoarão.

É possível que isto aconteça? É. O Irão vive sob uma ditadura apocalíptica que, como o Hamas em Gaza, não terá problemas em sujeitar o país a todas as destruições, à espera que Trump se inquiete com os custos da guerra e desista, ou que os Democratas, vitoriosos nas eleições de Novembro, o obriguem a desistir. Mas tem de ser assim? Não tem. O objectivo dos EUA e de Israel é acabar com o Irão como fonte de ataques de mísseis e de terroristas. Isso pode ser obtido mudando o regime, ou privando-o de meios. Não é impossível. A população iraniana, como se viu em Janeiro, ressente a ditadura de um clero que vê como arabizado. O Irão está sem defesa aérea, o que tem permitido a americanos e israelitas destruir os seus recursos militares sistematicamente. Isolou-se, ao atacar os países vizinhos e bloquear o estreito de Ormuz. Nem a China e a Rússia impediram que fosse condenado no conselho de segurança da ONU.

Trump pode perder, mas também pode ganhar. Porque é que tão pouca gente admite isso? Por duas razões. Primeiro, porque os críticos da economia de mercado e da democracia liberal criaram no Ocidente uma cultura de derrotismo que contrabalança a sua superioridade tecnológica e financeira. Assenta na ideia de que, por mais recursos que o Ocidente tenha, falta-lhe força moral, por exercer uma “opressão” capitalista sobre o mundo. Os “oprimidos” estariam destinados a vencer. Segundo, porque os políticos ocidentais estão habituados a permitir-se tudo, inclusive usar derrotas no exterior para marcarem pontos uns contra os outros nas suas lutas domésticas. Como neste caso: o que interessa é que Trump vá abaixo, e por isso não importa que os mullahs ganhem.

Importa, sim. Essa nonchalance fazia sentido quando o Ocidente era tão predominante que nenhum revés podia abalar esse domínio. Já não é assim. Há outras potências a emergir no mundo. O Ocidente acolheu muitas populações vindas do exterior, e a sua assimilação depende também da força que for capaz de demonstrar. Uma vitória do Irão seria aproveitada pelos radicais islâmicos para assinalar aos muçulmanos no Ocidente que não têm de se integrar em sociedades afinal decadentes, mas subvertê-las. Foi o que já começaram a conseguir no Reino Unido, ao obterem, a pretexto da “islamofobia” e portanto só a favor do Islão, uma potencial proibição da blasfémia. Voltaire teve esta semana a sua maior derrota num país ocidental. Talvez só Trump o possa salvar.

A guerra com o Irão vai definir o resto do século XXI. Uma vitória dos EUA e de Israel confirmará a supremacia do Ocidente e dos seus valores, e uma vitória da ditadura clerical iraniana o seu declínio. Pode não ser o fim, mas talvez seja o princípio do fim. Terá o Ocidente força moral e histórica para lutar e vencer?  É verdade que a civilização ocidental é apenas uma entre outras civilizações. Não quer dizer que não devamos defendê-la como aquilo que valorizamos e nos define. Também é verdade que nenhuma civilização durou sempre, e a das democracias ocidentais talvez acabe um dia. Não quer dizer que não devamos fazer todos os esforços para prolongar o que tem sido e ainda é um dos grandes momentos da humanidade. Temos esse direito – e esse dever.»

Rui Ramos – Observador

Festival de inanidades


Pedro Correia,

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Não imagino quais sejam os critérios de recrutamento de comentadores da SIC Notícias. Sejam quais forem, devem ser revistos. Para evitar a exibição de gente a fazer figuras tristes na pantalha, sobretudo em temas internacionais. 

Noutro dia, se me apetecer, mencionarei outros casos. Hoje fico-me por este, que já basta para amostra. A comentadora Maria João Tomás parecia decidida a bater um recorde pessoal do dislate ao irromper em antena várias vezes, na tarde e na noite de anteontem, a propósito da “intervenção militar especial” dos EUA no Irão. 

Às 17.12 garantiu isto, mandando os factos às malvas: «A Guarda Revolucionária [iraniana] tem mais poder agora do que tinha antes.» Contra todas as evidências, pensemos o que pensarmos deste conflito bélico.

Às 17.32, contrariando o que afirmara solenemente 20 minutos antes, saiu-lhe isto: «A Guarda Revolucionária está desesperada para se manter no poder e para manter o regime.» A bota não batia com a perdigota, o que não parece tê-la incomodado.

Um minuto depois, carregando nas tintas do tremendismo, agoirou o impensável sabe-se lá com base em que fontes, confundindo guerra com futebol: «Nesta altura do campeonato [sic] eu não descarto o nuclear, quer num lado quer no outro.»

Já bastava para um dia só. Mas ela estava embalada e regressou com o serão avançado, eram 23.37, pondo a cereja em cima do bolo: «A questão das mulheres oprimidas e dos trans oprimidos no Irão é igual à dos Estados Unidos.»

Autêntica cacha mundial. Nem sei como é que não veio replicada, logo a seguir, nos noticiários da SIC. Talvez por ser frase tão absurda que na própria estação tiveram vergonha do que ouviram. Se é que ainda têm paciência para escutar o festival de inanidades protagonizado por esta senhora, antes e depois do pôr-do-sol.

De traidores e fanáticos religiosos


Cristina Torrão,

Aviso: vou expressar esta opinião, liberta de tendências políticas.

Vivemos tempos confusos, há mais cinzentos do que nunca. Alegro-me com a libertação dos iranianos de uma tirania inconcebível. Por outro lado, o narcisista Trump não é um defensor dos Direitos Humanos. Os seus interesses são outros. Aliás, não censuro essa posição. Havendo uma conjugação de interesses, pode surgir a tal situação de “win-win”, com vantagens para dois lados que, em princípio, se consideram opostos.

Mas aplicar-se-á essa circunstância na guerra contra o Irão? O Irão está mesmo a caminho de uma democracia? Tudo indica que está, isso sim, a caminho de uma guerra degastante com Israel. Mas alguém acredita que Israel algum dia irá ajudar o Irão? Alguém acredita que Israel está interessado no bem-estar dos iranianos? O Próximo Oriente ficará mais imprevisível do que nunca. Um clima destes propricia o surgimento de grupos radicais. E olha com quem…

E o que se passa na Venezuela? Já vive numa democracia? Está a caminho dela? E, já agora, Cuba, anunciada por Trump como o seu próximo objectivo: estamos a caminho de uma “Cuba livre”? Não me façam rir!

Não há como não ficar insensível ao regozijo dos iranianos, perante o desaparecimento dos aiatolas. Mas (sacrilégio!) compreendo a posição de Pedro Sanchéz, ao recusar apoio à guerra de Trump. A Espanha pertence à União Europeia. E, desde que subiu ao poder, Trump tem espezinhado e humilhado a Europa, tanto em palavras, como em actos. Também Vance, por várias vezes, ultrapassou a linha vermelha. Como europeia, repudio totalmente comportamentos deste tipo.

Posso até compreender que Trump considere a Europa ter feito pouco pela NATO e se acomodado à acção dos EUA, descurando os seus meios militares e defensivos. Mas a Europa e os EUA são aliados há mais de oitenta anos, numa relação de confiança mútua. E, numa relação, entre pessoas educadas, os problemas resolvem-se “em privado”.

Trump poderia ter abordado os problemas e fazer as suas exigências de forma civilizada, em conversações directas com as entidades europeias. De forma severa, se achasse conveniente. O que não se aceita é que ele o faça em público, humilhando e insultando, sem antes ter falado com a parceira de décadas. A isto se chama traição! Trump traiu a Europa. Dir-me-ão que, numa relação a este nível, onde está em causa a geopolítica, não há privacidade completa. Pois não. Mas os governantes civilizados costumam alternar conversações à porta fechada, com conferências de imprensa, em que declaram haver discordâncias, mas estando convencidos de chegar a um acordo satisfatório para ambas as partes.

Porque, afinal, Trump precisa da Europa! Perante a recusa de Sánchez, ele logo anunciou corte de relações comerciais com Espanha. Se as bases espanholas não lhe interessassem, porque reagiria ele à decisão do Primeiro Ministro espanhol? Porque não ignorou, pura e simplesmente?

E, perante a evidência de que acordos comerciais entre a Espanha e os EUA são negociados no âmbito da União Europeia, o que faz a Casa Branca? Recorre à mentira, como sempre. A marioneta trumpina Karoline Leavitt anunciou que a Espanha havia concordado cooperação militar com os EUA, na guerra contra o Irão. Declaração já desmentida por Sánchez.

A União Europeia declarou solidariedade total com Espanha. E eu gostei. Não morro de amores por Costa, embora goste de von der Leyen. Acima de tudo, porém, gostei porque sou europeia! E porque não confio minimamente em Trump. Lembrem-se: ainda está por esclarecer qual a sua verdadeira relação com Putin. O interessante é que os europeus, que normalmente acusam a Europa de ser submissa a Trump, reagem indignados à posição do único político europeu que ousou enfrentar o presidente norte-americano, esse energúmeno que convenceu tanta gente a votar nele, apenas porque fala grosso e usa bonés à jogador de baseball.

Ainda por cima, a China meteu-se ao barulho, saindo em defesa de Espanha. Choveram críticas: o Sánchez feito com os chineses! Eu também não simpatizo minimamente com essa potência mundial governada por uma tirania. Mas sejamos claros: quem é o responsável pela situação? Trump! Foi ele que repudiou (e repudia) a Europa (à excepção das suas bases militares). Se ele não o tivesse feito, alguma vez a China vinha em defesa de um país da União Europeia?

Trump é narcisista, psicopata, imprevisível. Trump quer acabar com a democracia nos EUA. Nunca a instaurará num outro país, muito menos, no Irão. Nem na Venezuela, nem em Cuba, nem na Gronelândia, nem em lado nenhum.

A inspiração de Trump está no Mein Kampf. Trump irá destruir o mundo que conhecemos. Aliás, já começou. 

Há dias, Marco Rubio disse o Irão ser governado por “fanáticos religiosos lunáticos” (ou coisa parecida). O rapaz tem razão. Mas pergunto-me se ele estava mesmo a pensar no Irão… Não se estaria a referir ao seu próprio país?

Deixo-vos com a cena comovente de um grupo de pastores evangélicos a rezarem pelo seu líder Trump, que, todos sabemos, é de uma moral indiscutível. Pela sua cara, deve estar a pensar numa das meninas que comeu na ilha do Epstein. Mas adiante! A cena aconteceu ontem. E os mais sensíveis talvez se previnam com um lenço, a fim de limparem as lágrimas.

Nota: tentem não me insultar, nos vossos comentários. Obrigada.

Sánchez a ser Sánchez *


Paulo Sousa,

As inúmeras polémicas e escândalos em que o “governo” de Pedro Sanchez tem estado envolvido, não têm tido a devida cobertura noticiosa neste lado da fronteira. Será por Espanha ser um país distante e sem importância para Portugal? Não. Além de ser o nosso único vizinho terrestre e da profunda ligação económica, se a integridade territorial de Espanha fosse posta em causa (e isso é uma das possíveis consequências das acções de Sanchez) as consequências para o nosso dia-a-dia seriam profundas. A imprensa portuguesa prefere apontar noutras direcções.

Perante a guerra em curso no Irão, Pedro Sanchez, que se colocou na mão dos partidos mais radicais de Espanha, lá teve de vir a público armado em campeão da independência (maior contradição seria difícil) e disse aos EUA que não contassem com facilidades de Espanha para as ligações aéreas necessárias à logística desta operação. A memória do fim do império espanhol, nas Filipinas e em Cuba, está associada à ascensão dos EUA como potência, além de que Espanha tem tentado manter muito boas relações com o mundo árabe. Tudo parecia fazer sentido.

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O comentariado de esquerda tremeu de emoção. Isto sim é que é um líder que não envergonha a Europa. Portugal devia aprender com ele… blá, blá, blá… Haja “huevos” que aqui é só desgraça.

Ontem à tarde, a porta-voz da Casa Branca anunciou que afinal Sanchez reconsiderou e decidiu cooperar com os EUA. Além da reprimenda vinda de Washington, a Moncloa lá terá entendido que todo o mundo árabe apoia esta acção dos EUA e Israel. Sim, os países árabes aplaudem este ataque ao regime iraniano e não é por Israel estar ao lado dos EUA que os faz mudar de opinião.

À noite, no telejornal a RTP, provavelmente por desconhecerem esta novidade, insistiu na primeira versão dos factos. Sanchez, o intrépido líder, fazia frente aos americanos.

A essa mesma hora já a Força Aérea dos EUA usava o espaço aéreo espanhol rumo ao conflito.

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Fico a aguardar pela actualização dos factos por parte dos media portugueses, assim como reacções dos mesmos comentadores.

 

* Estava a aportuguesar o nome do presidente do Governo de Espanha. Já temos cá malucos que cheguem, não precisamos de mais…
Obrigado, Pedro.

Curiosidade histórica


Paulo Sousa,

O General Ateniense Címon viveu entre os anos 510 e 450 a.C.. Era filho de um herói da Batalha de Maratona e alcançou a sua maior vitória na Batalha de Eurimedonte contra o Império Persa. Participou em diversas batalhas em que ajudou a consolidar a superioridade marítima ateniense e acabou por morrer durante uma expedição militar contra os Persas no Chipre. A sua morte foi mantida em segredo durante trinta dias, o que permitiu que assim fosse alcançada mais uma vitória. Graças a isso, o relato dos seus feitos termina com a frase “mesmo na morte, saiu vitorioso”.

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Em Janeiro de 2026 a Marinha Grega lançou a sua mais moderna fragata de fabrico francês, HS Kimon, a que atribuiu o nome do General Ateniense, mantendo assim a tradição de baptizar navios com nomes de personalidades históricas.

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Após o recente ataque iraniano contra o Chipre, a fragata HS Kimon foi destacada para a protecção desta ilha. Esta será a sua primeira missão.

Viagem no tempo: voltamos ao século XIX


Pedro Correia,

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Redesenhar as fronteiras do planeta em função dum pretenso “espaço vital”, da pureza étnica ou linguística ou da ameaça da bomba mais devastadora é consequência directa da era inaugurada a 24 de Fevereiro de 2022. Que abriu a caixa de todos os trovões. Com o aplauso de uns quantos basbaques.

Embarcamos numa longa, penosa e terrífica viagem no tempo. De volta ao século XIX.

Vai valendo tudo, sob a lei do mais forte.

A nova desordem mundial


Pedro Correia,

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Vladimir Putin abriu a caixa de Pandora há quatro anos, com a invasão em massa da Ucrânia. Tudo quanto se seguiu é consequência dessa agressão – o maior conflito bélico em território europeu desde a II Guerra Mundial. 

A ordem internacional vigente desde 1945 foi pulverizada. António Guterres arrasta-se penosamente no comando simbólico da ONU, que na prática deixou de existir: a sua patética mensagem de «calorosas felicitações» aos aiatolas pelo 47.º aniversário da “revolução islâmica” – no preciso momento em que ali se instalava nova onda de terror – foi um sinal evidente de que a decadência da organização é já irreversível.

Nessa mensagem, difundida há 16 dias, Guterres insultou a memória de dezenas de milhares de cidadãos torturados e mortos pelos torquemadas de Teerão. Dificilmente algum opositor à ditadura teocrática poderá perdoar-lhe o gesto leviano.

 

O déspota do Kremlin sofre hoje os danos colaterais da “operação militar especial” que desencadeou naquela trágica madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, crente de que ressuscitaria a glória imperial dos czares defuntos. Os seus maiores aliados têm caído um a um, como pedras de dominó: primeiro a Síria, depois a Venezuela, agora vai tombando o Irão, maior fornecedor de drones mortíferos a Moscovo para chacinas na Ucrânia.

Que esta onda de sucessivos desaires geopolíticos da Federação Russa aconteça quando está ao leme dos EUA o homem que lhe dispensou acolhimento régio na vergonhosa cimeira de Anchorage é uma daquelas ironias em que a História é fértil.  

 

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Donald Trump, que ansiava pelo Nobel da Paz, mete os Estados Unidos em nova aventura bélica. Com ele ao leme em Mar-a-Lago, desde Janeiro de 2025, o mundo foi-se tornando sempre mais perigoso, mês após mês. As promessas que fez aos eleitores de que Washington deixaria de ser “polícia do mundo” eram apenas tretas para caçar votos, como se tem visto. Outra ironia: é curioso ver um presidente “republicano” patrocinar o eventual regresso da monarquia ao Irão

A nova desordem internacional nasce assim, envolta em sucessivos actos de canhoneira. Só falta agora o regime comunista de Pequim – com vontade de também premir o gatilho – tentar engolir Taiwan.

Na prática, a III Guerra Mundial já está em marcha.

Uma enorme falta de Xá


Paulo Sousa,

Depois da captura de Maduro e do afastamento da Venezuela do eixo anti-Ocidente, as atenções poderiam virar-se para o que se passa no Irão. Os noticiários não lhe estão a dar muita cobertura, mas isso não é o que acontece nas mal-amadas redes sociais.

Os aiatolas estão mais fracos do que nunca. Depois das tremendas derrotas dos seus vários braços armados, que designavam por Eixo da Resistência, onde se incluía o regime sírio, o Hezbolah no sul do Líbano, o Hamas em Gaza, a já referida Venezuela, a que se pode juntar o isolamento logístico com a Rússia (depois do imprevisível acordo entre a Arménia e o Azerbaijão), tudo se encaminha para que a elite iraniana já esteja a tirar bilhetes de avião para Moscovo, outra capital que dia após dia vai ficando mais isolada.

As mulheres iranianas, amputadas há muito dos seus legítimos direitos, não merecem a simpatia das ditas feministas que, por cá, tentam erradicar a palavra MULHER do léxico comum, para a substituírem por “pessoas com útero” e outras irracionais irracionalidades.

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O herdeiro do Xá deposto pela Revolução Islâmica em 1979 é o rosto do poder que se segue na Pérsia. A bandeira do Leão e o Sol, Shir-o Khorshid, voltou a ser agitada nos céus iranianos e o seu regresso como símbolo oficial parece ser apenas uma questão de tempo. 

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O impulso pela liberdade continua a ser forte o suficiente para motivar o ser humano a arriscar a vida contra os tiranos. Apesar dos prognósticos pessimistas, o ano 2026 pode vir a ser um ano histórico para a liberdade no mundo.

 

PS: Para os bandidos de Cuba, o ano de 2026 também não está a correr nada bem. Esperemos que a ruptura também aí se concretize. Parece mesmo que estamos a viver um ano memorável.

Reflexão do dia


Pedro Correia,

«A cumplicidade da Rússia com o Irão não é um assunto para o qual possamos olhar descontraidamente. São dois regimes que integram vários aspectos de barbarismo, não só no que envolve o respeito pelos direitos humanos, como nos próprios costumes, e envolvimento da religião. É curioso como tanta gente que passa a vida a lembrar-nos que somos um país laico pouco ou nada tenha a dizer sobre o Irão ou a Rússia, onde não só não existe laicidade como a própria religião se coloca ao serviço do Estado.»

Henrique Monteiro, no Expresso

As rémoras dos desgraçados


Paulo Sousa,

Como aqui disse há dias, existe uma enorme distância entre o que os apoiantes da causa palestiniana imaginam para esse país e o que este possa vir a ser na realidade. Mas, como acontece frequentemente, a projecção de um desejo turva a capacidade de análise e até ajuda a fingir que não se vê quem são ou o que fazem os demais parceiros de barricada.

Nesse postal referi o paralelo com o que se passou em 1979, durante a Revolução Islâmica no Irão. Antes de saber o que viria a ser o regime teocrático dos aiatolas, o intelectual de esquerda Michel Foucault afirmava que essa revolução era “a primeira grande insurreição contra os sistemas de poder globalizados”. Afirmou que o Islão político poderia expressar o desejo de uma forma diferente de modernidade, uma que não fosse simplesmente cópia do Ocidente e chamou a este movimento, que se formara, uma “espiritualidade política”, que revelava “a possibilidade de uma política diferente da que conhecemos no Ocidente”. O radar da esquerda está sempre sintonizado para algo que surja e que seja contrário ao mundo onde vive. Para alguns, como Foucault, o marxismo ortodoxo era demasiado autoritário e por isso o Irão Imaginário de então encaixava como uma luva no seu caderno de encargos. Logo depois, esse exotismo e aparente pureza moral do regime teocrático mostrou ao que vinha, os inimigos da revolução passaram a ser arbitrariamente enforcados em locais públicos, os direitos das mulheres regrediram vários séculos, a brutalidade e a violência vulgarizaram-se como ferramenta ao serviço do Estado. Perante isso, Foucault nunca se retractou. Não precisava porque na altura em que disse o que disse, estava cheio de boas intenções. E foram essas mesmas boas intenções, e virtude a rodos, que tripulou a dita flotilha. Se ouvirmos que os clérigos palestinianos pensam sobre as demais causas da colorida tripulação que desde Agosto anda a velejar pelo Mediterrâneo, é fácil encontrar mais paralelos com o caso do Irão Imaginário. 

Posso estar enganado, o que não é invulgar, mas o sucesso do acordo de paz agora proposto por Trump, a verificar-se (o que olhando para o passado da região tem sempre uma forte possibilidade de não acontecer), não será bem visto por essa esquerda que agora interrompe comboios e grafita monumentos. Para começar porque a paz, a paz possível, seria sempre e inequivocamente um sucesso político de Trump, personagem que representa tudo o que eles abominam. Por todos os motivos e mais esse, digo eu, seria uma coisa bonita de se ver. Longe de simpatizar com o actual Presidente dos EUA, juntar-me-ia, e sem vacilar, aos que aplaudiriam tal êxito alcançado. Uma paz viável deixaria a essa esquerda aziada também por assim perderem outra das suas bandeiras. O wokismo já mostrou mais saúde e agora uma paz alcançada por Trump seria outro duro golpe. Lá teriam de se voltar a justificar com as suas permanentes boas intenções e lá teriam de ir desencantar outros oprimidos quaisquer para, quais rémoras, se colarem a eles.

Muito provavelmente estarei a pronunciar-me demasiado cedo, mas, a confirmar-se, será caso para dizer que quando os “bem intencionados”, mesmo sem o admitirem, se arrepiam com uma possibilidade de paz, é nesse momento que o diabo morde a própria cauda e o círculo se fecha sobre si próprio. Aguardemos.

A sinistra tirania dos aiatolas


Pedro Correia,

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O regime totalitário do Irão condena à morte por enforcamento quase mil pessoas por ano. Transformando cada execução num obsceno espectáculo público para gáudio dos instintos mais primários. É o segundo país do mundo com maior número de execuções “legais”, logo a seguir à China.

Estas condenações à pena capital ocorrem pelos mais diversos motivos: rebeldia política, activismo dos direitos humanos, ateísmo militante, hábitos sexuais vilipendiados no Alcorão, “cosmopolitismo ocidental”. Enquanto as mulheres – todas as mulheres – padecem numa subcidadania com resquícios medievais. Ao ponto de serem torturadas ou até mortas por se atreverem a sair à rua com parte do cabelo descoberto.

Há hoje um divórcio total entre a tirania dos aiatolas, vigente há 46 anos, e as gerações mais jovens (15-40 anos), que representam 55% da população.

 

Não concebo que alguém no Ocidente defenda esse regime sinistro, que mais ninguém no próprio Médio Oriente suporta e parece ameaçado de extinção, a curto prazo, por motivos óbvios.

Recordo que o extermínio de Israel está previsto nas bases constitucionais da chamada “República Islâmica do Irão”. É uma declaração de guerra permanente, totalmente inaceitável. Uma ameaça à paz a tempo inteiro que não pode ser ignorada.

 

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