Cuba e a crise do jornalismo


Pedro Correia,

Valdés com Fidel Castro: o braço e o cérebro da repressão

 

Há dias morreu um dos maiores torcionários da ditadura cubana implantada em 1959. Dirigiu durante décadas a polícia política do castrismo que provocou um número incalculável de vítimas, em violação flagrante dos mais elementares direitos humanos.

Nos meios de informação de língua portuguesa, este membro da cúpula do regime comunista foi enaltecido com hossanas. «Morre Ramiro Valdés, herói revolucionário e ex-vice-presidente de Cuba, aos 94 anos», titulou O Globo com base num despacho da Reuters. «Morreu Ramiro Valdés, lendário comandante dos Serviços Secretos de Cuba» (assim mesmo, em vénia maiúscula ao aparelho repressivo de Havana), lia-se no digital ZAP, aproveitando texto da France Presse. «Morre Ramiro Valdés, herói da Revolução Cubana e ex-vice-presidente, aos 94 anos», proclamou a Folha de S. Paulo, juntando-se ao coro. A SIC Notícias não quis fugir ao padrão, usando este título: «Morreu Ramiro Valdés Ramírez, histórico da revolução cubana».

Nunca a palavra ditadura é usada nestes cabeçalhos laudatórios que transformam o jornalismo em veículo de propaganda de uma das mais velhas tiranias ainda vigentes no planeta. Só meios independentes cubanos repuseram a verdade. O “herói”, “histórico” e “lendário” camarada dos irmãos Castro ostentava sangue no currículo após «uma vida dedicada ao terror» (Martí Notícias), tendo sido um «executor histórico da repressão em Cuba» (jornal 14 y Medio, de Yoani Sánchez) ao longo de décadas em que «defendeu a violência como princípio político e moral».

 

O perfil de Valdés, longe dos ditirambos heróicos, está bem ilustrado aqui: foi ele o responsável por «olear o macabro mecanismo do totalitarismo castrista com o sangue de milhares de homens que fuzilou e das centenas de milhares que encarcerou».

Em Cuba, era conhecido pelos piores motivos. Como dirigente do temível G2, a polícia secreta estabelecida em 1961 com forte apoio do KGB soviético e da Stasi leste-alemã, que não tardou a encher as masmorras do Castelo do Morro, os fossos secos de La Cabaña ou o presidio da ilha de Pinos.

Tantos anos depois, tantos testemunhos depois, com tanta evidência acumulada, questiono-me como continua o jornalismo do lado de cá a sucumbir aos cânticos de propaganda daquela decrépita ditadura, enaltecendo os verdugos que funcionaram como vassalos da família Castro. Como se fossem mais benévolos e recomendáveis do que os carrascos de Videla na Argentina, Pinochet no Chile, Stroessner no Paraguai ou Trujillo na República Dominicana – todos já varridos para o caixote do lixo da História.

Quando tentamos indagar as causas da crise do jornalismo, é também aqui que devem ser procuradas – na apropriação e distorção dos factos ao serviço de cartilhas ideológicas.

Como se houvesse ditaduras más e ditaduras boas. Como se algumas merecessem vénia. Como se não fossem todas péssimas.

O nosso jornalismo


jpt,

Às vezes critica-se a imprensa com excessiva rudeza, esquecem-se as limitações existentes, de recursos humanos e financeiros, e também aquilo de trabalhar sob a pressão do urgente, imediato até… E também a necessidade de captar atenção, associar-se aos interesses da clientela.

Ainda assim – e mesmo sendo sportinguista -, caramba! A final do Mundial foi ontem (já agora, e porque falei em clientela: o Porro dos sportinguistas lá esteve, o Otamendi dos benfiquistas também…). E o diário desportivo “Record” dá o enorme destaque ao… Zalazar, no lado está um bocado de Schjelderup e uma pitada para os andrades.

E em nota de rodapé lá está, acabou o Mundial.

Isto não tem ponta por onde se lhe pegue. Depois lamuriam-se que a tal clientela não lê jornais.

A SIC celebra data que nada mudou


Pedro Correia,

 

A SIC não cessa de me surpreender. No dia 3 apareceu com este título bombástico: «Um dia que mudou o mundo».

Pus-me a pensar: que raio de dia seria aquele?

Passou-me pela cabeça o ataque a Pearl Harbor, em 1941. Mas não: ocorreu a 7 de Dezembro. Seria a bomba atómica despejada em Hiroxima em 1945? Dia e mês inadequados: aconteceu a 7 de Agosto. A edificação do infame Muro de Berlim, em 1961, também não: sucedeu a 13 de Agosto. E o derrube daquele monumento ao totalitarismo comunista, em 1989, está inscrito num 9 de Novembro em todas as agendas de efemérides.

O primeiro homem passeou na Lua num mês de Julho, sim, mas foi em 1969, no dia 20. Massacre de Tiananmen? 4 de Junho de 1989. Fim da URSS? 26 de Dezembro de 1991. Destruição das Torres Gémeas em Nova Iorque? 11 de Setembro de 2001 – há quem diga que esta foi, verdadeiramente, a primeira manhã do século e do milénio.

 

Aquele dia tão celebrado na redacção da SIC, onze anos depois, não mudou coisa alguma excepto ter posto fim à prosápia que restava ao Syriza, o Bloco de Esquerda grego, então no Governo.

Dia em que os eleitores helénicos foram às urnas para recusarem medidas de austeridade impostas pelos credores internacionais.

Alguma imprensa portuguesa entrou em êxtase. Recordo o Público: «A Grécia gritou não – Os gregos festejaram a vitória da dignidade numa consulta que mostrou que a democracia não pode ser chantageada.»

Era efabulação precoce: Tsipras marimbou-se para o referendo e vergou-se aos ditames de Bruxelas, ainda mais severos do que os do memorando rejeitado.

«O respeito da direção do Syriza pelo resultado durou apenas dois ou três dias», reconhece a insuspeita Esquerda.net. A tal data que a SIC garante ter «mudado o mundo» só mudou, afinal, a popularidade e a credibilidade da esquerda radical grega, que caiu a pique desde então.

O partido conservador Nova Democracia venceu as legislativas seguintes, em 2019, e reforçou o poder quatro anos depois, com maioria absoluta.

 

A SIC anda a precisar de meter explicador para perceber que datas mudaram realmente o mundo.

Posso garantir que 3 de Julho de 2015 não foi uma delas.

Um insulto à democracia verdadeira


Pedro Correia,

Nada tenho contra os congoleses, mas vi com agrado que a selecção deles tenha sido eliminada do Mundial de Futebol. Porque já não suportava ouvir jornalistas repetir, continuamente, “República Democrática do Congo”.

Dizendo sempre por inteiro a designação oficial deste país. Apenas Congo não lhes bastava.

Os mesmos jornalistas que, se fossem fiéis a esse critério, nunca se limitariam a dizer Portugal mas República Portuguesa, nome oficial da pátria lusa. Ridículo? Sim. Mas não menos do que a menção por extenso ao tal Estado que nada tem de democrático. Tal como acontecia com a defunta República Democrática Alemã, liberticida por natureza. E acontece ainda hoje com a República Popular Democrática da Coreia – mais conhecida por Coreia do Norte, onde vigora há 80 anos uma feroz ditadura comunista.

 

Sobre o Congo que se tornou independente da Bélgica em 1960, a Freedom House diz hoje o seguinte:

«Os cidadãos estão cada vez mais impossibilitados de exercer livremente as liberdades civis básicas. A corrupção é endémica. A segurança física é precária devido à violência e às violações de direitos humanos cometidas por forças governamentais e grupos rebeldes armados.»

E o que reportou a Amnistia Internacional no seu relatório de 2025?

«Os casos de violência sexual atingiram níveis alarmantes no leste da RDC, onde, segundo a ONU, ocorreram mais de 81 mil violações entre Janeiro e Setembro — um aumento de 31,5% em relação ao mesmo período de 2024. Membros de grupos armados e de forças de segurança do Governo foram os principais autores.»

Enfim, eis o que conclui o Observatório de Direitos Humanos:

«A situação em todo o país permanece crítica. Conflitos internos e a má governação contribuem para uma grave crise alimentar e o deslocamento interno de 5,8 milhões de pessoas — o maior número registado em África. (…) Os direitos de liberdade de expressão, de reunião pacífica e de liberdade de imprensa sofrem ataques frequentes.»

 

Proferir vezes sem conta a palavra Democrática, num panorama destes, insulta o sofrimento dos congoloses. E a inteligência de todos nós.

Não é próprio de jornalistas, lamento. É mais próprio de papagaios.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

 

A ética jornalística consiste na permanente procura da verdade com a noção antecipada de que não existem verdades absolutas. O jornalista tem o dever deontológico de contrariar a propaganda, de desmascarar falsidades, de combater a mentira. Só assim cumpre realmente a sua função.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Tenho de rever o que significa exclusivo


Pedro Correia,

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6 de Maio, canal Now: entrevista de 39 minutos

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12 de Maio, canal CNN Portugal: entrevista de 53 minutos

Nos meus dicionários, exclusivo significa algo raro, restrito, reservado, especial, específico. Único.

Terei de rever este conceito, desmentido na prática pelos canais de TV portugueses. Cada vez que entrevistam André Ventura, o que acontece a uma cadência acelerada, colam-lhe a fatal palavra de nove letras. Já sem significado algum, à força de ser repetida até à náusea.

 

«A reforma laboral é a escravatura moderna.»

«As pessoas não querem ouvir falar de reforma laboral, querem ouvir falar de reforma salarial.»

«Se ser de direita é trabalhar até morrer então eu não sou de direita!»

«Devia era haver uma reforma laboral para os políticos!»

Na mais recente, disparou rajadas como estas, cada qual mais demagógica do que a outra. É o primeiro político em Portugal inteiramente moldado pelas redes sociais: diz cada frase, a todo momento, a pensar nelas.

E que mais? Quer em Portugal 27 dias úteis de férias anuais como na Alemanha, 28 como no Reino Unido ou até 30 como na Áustria. «Porque é que os portugueses hão-de ter menos férias do que os outros?»

Despudorada caça ao voto, mesmo sem eleições no horizonte. O camarada Raimundo até se rói de inveja.

 

Vai prosseguindo assim, de “exclusivo” em “exclusivo”. Aumentar salários, aumentar pensões, aumentar dias de férias, baixar todos os impostos, baixar a idade da reforma – enquanto a amiga Giorgia Meloni, em Itália, se prepara para a subir até aos 67 anos já em 2027.

Tudo ao mesmo tempo, sem uma palavrinha sobre a necessidade de robustecer o anémico PIB nacional.

Eis o país das maravilhas no discurso venturista – o de alguém que no fundo não aspira a ser governo. Entende-se porque atrai hoje tanto antigo voto comunista. Exibe a mesma retórica, alude à mesma economia baseada no pensamento mágico. Usa e abusa do palavreado que durante 40 anos mobilizou a esquerda à esquerda do PS

Ventura roubou-lhes esse vocabulário, esse método, essas bandeiras. Apropriou-se desses eleitores. Tem sucesso garantido como nunca – no campeonato da demagogia. Talvez a única conquista verdadeira que o seu currículo registará.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

 

Uma democracia sem jornalismo – forte, vigilante, incómodo – está condenada à exaustão ou à irrelevância. E não se presuma que o combate pelo direito à informação é tarefa exclusiva dos jornalistas: esse combate só terá êxito se for uma exigência permanente da cidadania.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

O derrotado


Pedro Correia,

 

O Presidente da República tem competências específicas em questões militares e de política externa. Mas nem parece. Ao longo de hora e meia, no debate esta noite transmitido em simultâneo pelos três canais generalistas, registou-se a ausência de qualquer pergunta sobre forças armadas (das quais o inquilino de Belém é o “comandante supremo”) e surgiu apenas uma, à beira do fim, sobre política internacional. 

Houve algum derrotado no debate? Sim. Foi o jornalismo: capturado pela espuma dos dias, preso à agenda doméstica, sem golpe de asa nem capacidade de discernir entre uma eleição legislativa e uma eleição presidencial.

A pergunta que ainda ninguém fez


Pedro Correia,

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Durante este par de meses, ouvimos vezes sem conta aludir ao Presidente da República como “comandante supremo das “forças armadas”. Acontece que até ao momento nenhum jornalista, tanto quanto sei, indagou junto de todos os candidatos presidenciais civis (Henrique Gouveia e Melo fica excluído por motivos óbvios) que experiência militar ostentam nos seus currículos.

É pergunta simples, básica, mas que tarda a ser feita. O que diz muito sobre o jornalismo que se pratica hoje em Portugal.

Ultracatólico


Pedro Correia,

 

O jornal digital Observador, transcrevendo uma notícia da Lusa sobre a primeira volta da eleição presidencial no Chile, chama «advogado ultracatólico» ao candidato conservador José Antonio Kast, que enfrentará no segundo e decisivo escrutínio, em Dezembro, a comunista Jeanette Jara – por sua vez ali identificada como «progressista».

Interrogo-me o que será um «ultracatólico».

O Papa?

O Estado do Vaticano?

O putativo líder bloquista José Manuel Pureza, apresentado há dias no Público como «católico-militante», será igualmente ultra? 

Interrogo-me também se a Lusa e o Observador, por coerência, usarão as designações “ultra-islâmico” ou “ultra-muçulmano”. Havendo critério uniforme, dir-se-ia que sim. Mas fiz a pesquisa e recebi esta resposta: «nenhum resultado».

Só haverá “ultras” entre os católicos? Talvez um futuro texto do Observador me esclareça.

Irei esperar. Sentado.

Diz que é uma espécie de jornalismo


Pedro Correia,

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André Ventura, o tal que se queixa de ser menosprezado pela “comunicação social falida”, não perde uma oportunidade para aparecer nesses mesmos órgãos de informação. Logo à noite vai protagonizar a sua 38.ª entrevista televisiva do ano, desta vez na RTP. Em “rigoroso exclusivo” – tal como as 37 anteriores. 

Desproporção brutal: nenhum outro dirigente partidário português surge tantas vezes na pantalha. Uma dessas entrevistas – transmitida a 19 de Agosto, já em pré-campanha autárquica – durou duas horas e dois minutos. Algo inaudito: quanto mais ele “arrasa” os jornalistas, para gáudio da claque venturista, mais eles lhe dão palco. 

Mas não só os jornalistas: também a tribo comentadeira não passa sem Ventura. E promove-o até à náusea. Atingiu-se o cúmulo do ridículo há três dias, na noite de sábado, quando Ventura foi “entrevistado” por dois políticos travestidos de jornalistas: o conservador Francisco Rodrigues dos Santos, que em Janeiro de 2022 conduziu o CDS ao pior resultado eleitoral da sua história, e o socialista Pedro Costa (filho do actual presidente do Conselho Europeu), que em Abril de 2024 abandonou a presidência da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, muito antes do fim do mandato para que havia sido eleito. 

Ambos proporcionaram ao líder do Chega outro dos seus habituais momentos de show off – daqueles que aproveita para transformar a nossa vida pública numa telenovela mexicana em sessões contínuas.

 

Terão aqueles dois fracassados na política competência e aptidão para conduzir entrevistas num canal televisivo? Adquiriram carteira profissional de jornalista? E como reagirão os profissionais da informação da CNN Portugal perante esta insólita concorrência que os desconsidera de forma tão ostensiva?

Ignoro se já houve reacção da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que há um ano emitiu sinal de vida ao investir contra Maria João Avillez – jornalista comprovada e consagrada, com mais de meio século de actividade profissional – chegando ao ponto de admitir uma participação ao Ministério Público contra ela por alegada “usurpação de funções”.

Vou aguardar que a mesma CCPJ ouse agora acusar Chicão e Costa júnior de “usurpar funções” por entrevistarem candidatos a Belém em canal informativo de televisão. Mas esperarei sentado. Com a certeza antecipada de que não se atreverá a tanto. É mais cómodo fingir que nada disto alguma vez aconteceu.

Entrevistadores da treta, falsos jornalistas, espaços informativos tornados sessões de entretenimento. Qualquer indignação contra fake news, neste panorama, soa fatalmente a hipocrisia: ninguém poderá levá-la a sério.

Pioneiro na democracia e no jornalismo


Pedro Correia,

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Francisco Pinto Balsemão, falecido na noite de anteontem com 88 anos, era um dos escassos sobreviventes daquele tempo pioneiro em que se instaurou a democracia em Portugal. A democracia genuína, não o regime censitário da monarquia constitucional nem a caótica década e meia da ilusória “aurora republicana” de 1910. Como fundador do PSD – então crismado Partido Popular Democrático – de que era militante n.º 1, integrou o núcleo de protagonistas daquela irrepetível era iniciada com a Revolução dos Cravos e que teve como marco essencial a Constituição, prestes a completar meio século de existência.

A importância de Balsemão começara ainda antes do 25 de Abril como administrador de jornais, sendo ele próprio jornalista. Ao transformar o Diário Popular num periódico ousado e de grande audiência no crepúsculo do salazarismo e sobretudo a partir de 1972, ao preparar a fundação do Expresso, cujo primeiro número surgiu em 6 de Janeiro de 1973, prenunciando a derrocada do Estado Novo e a instauração do liberalismo político que aqui chegou com décadas de atraso. 

Hoje, aos olhos de muitos, parece ter sido um percurso linear. Nada mais equívoco. Balsemão acreditou nas promessas liberalizantes de Marcello Caetano, que fora seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa, e aceitou integrar – como independente – as listas da União Nacional em 1969. Mas o jogo estava viciado – desde a escassa dimensão do universo eleitoral até à impossibilidade de fiscalização real dos votos pela oposição, passando pelas fortes restrições à liberdade de associação e reunião. Sem esquecer o papel castrador da censura à imprensa.

A Primavera virou Inverno. Balsemão e os restantes membros da Ala Liberal nesse falso parlamento que integrava 100 por cento de eleitos pela UN (Sá Carneiro, Magalhães Mota, Miller Guerra, José Pinto Leite, Mota Amaral, Raquel Ribeiro, Correia da Cunha, Pinto Machado e alguns outros) distanciaram-se do sucessor de Salazar, que se limitara a introduzir medidas de cosmética – a PIDE passou a designar-se Direcção-Geral de Segurança, a Censura derivou para Exame Prémio, a anacrónica UN deu lugar à Acção Nacional Popular – produto igual com rótulo novo.

A guerra sem solução política à vista nos três palcos africanos paralisava o regime e condenou-o à extinção.

 

Seguiram-se outros desafios, com novas frentes de combate. Balsemão resistiu quando, no frenesim revolucionário, o Expresso chegou a ser rotulado de «voz do fascismo»: foi essencial a luta que travou pela liberdade de imprensa recorrendo até aos seus numerosos contactos internacionais. Como também marcou o País pela legislação que regulou o sector da informação – e que, no essencial, subsiste nos dias de hoje.

Sem esquecer a sua acção como deputado constituinte, eleito naquela gloriosa jornada libertadora de Abril de 1975 em que pela primeira vez todos os portugueses maiores de 21 anos puderam ir a votos. Foi vice-presidente da Assembleia Constituinte. Manteve sólida parceria com Francisco Sá Carneiro no partido e mais tarde, naquele efémero Governo que durou de 3 de Janeiro a 4 de Dezembro de 1980. 

Num país em choque pelo desaparecimento simultâneo do primeiro-ministro e do ministro da Defesa, Amaro da Costa, na queda da fatídica avioneta em Camarate, foi Balsemão quem pegou no leme: era o sucessor natural de Sá Carneiro no PSD e no Executivo. O Expresso ficara confiado a Marcelo Rebelo de Sousa: nenhum outro jornal criticou então tanto o Governo.

Era um teste decisivo ao fair play democrático do seu fundador. Superado com distinção.

 

Permaneceu cerca de dois anos e meio à frente do Executivo – até Junho de 1983. Tempo suficiente para ficar ligado a dois marcos essenciais: a revisão constitucional de 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução, último resquício de tutela militar num regime que só a partir daí adoptou a matriz civilista integral das democracias ocidentais. Nascia o Tribunal Constitucional, consolidava-se a divisão de poderes no Estado, deram-se passos decisivos rumo à economia de mercado que a revisão de 1989 iria acentuar.

Foi também um período decisivo para a futura adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia graças à acção de ministros como o titular dos Negócios Estrangeiros, André Gonçalves Pereira, e o da Integração Europeia, Álvaro Barreto.

Com Balsemão a liderar o processo.

Era um senador da república. Chegou a alimentar ambições presidenciais, mas Cavaco Silva cortou-lhe duas vezes o passo: primeiro em 1996 (quando perdeu para Jorge Sampaio), depois em 2006 (quando derrotou Manuel Alegre e Mário Soares).

Ocupava há 20 anos um merecido assento no Conselho de Estado.

 

Mas foi mesmo no jornalismo que a sua acção se revelou fundamental. Após ter fundado o primeiro semanário português com figurino internacional, voltou a ser pioneiro ao lançar o primeiro canal privado de televisão a nível nacional: a SIC, cuja emissão inaugural ocorreu a 6 de Outubro de 1992. Em Janeiro de 2002 iniciaram-se as emissões regulares da SIC Notícias, primeiro canal televisivo noticioso a transmitir 24 horas. 

«Tinha a elegância do risco», como acertadamente observou Rui Moreira em reacção ao seu falecimento. Também nisto protagonizou tempos irrepetíveis. Tempos em que os grupos informativos se algutinavam em torno de um clã familiar e mantinham como líder de referência alguém com manifesta paixão pelo jornalismo. 

Com a morte de Balsemão, também isto desaparece: na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. 

Tanta coisa se perdeu pelo caminho – desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão.

Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.

 

Leitura complementar: A arte de resistir à sedução do poder (16 de Setembro de 2021)

Justiça e jornalismo, viveiros de populistas


Pedro Correia,

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Encerra hoje a campanha eleitoral para as autárquicas do próximo domingo. Ignorada em larga medida pela generalidade dos órgãos de informação, que adoptaram a mesma grelha editorial aplicada às eleições para a Assembleia da República. Vigora a lei do menor esforço: as equipas de reportagem seguem a agenda diária dos “líderes”, mesmo sabendo que nenhum deles é candidato a lugar algum neste escrutínio. Estão em Vinhais, Alcobaça ou Alhos Vedros integrados na comitiva dos caudilhos partidários como se caminhassem numa rua de Lisboa. Não fazem qualquer pergunta de âmbito local ou regional: só se interessam pela politiquice nacional.

Toda a campanha foi percorrida por temas laterais. Desde a ardilosa travessia mediterrânica da doutora Mortágua até ao famigerado “caso Spinumviva” – enésima intromissão do Ministério Público em campanhas eleitorais, repetindo o sucedido em Março. Na altura o tiro saiu-lhes pela culatra: a AD ampliou o elenco parlamentar e o PS sofreu a mais humilhante derrota da sua história. Faltam 48 horas para sabermos se isto vai repetir-se, desta vez no plano autárquico. 

Agora que tanto se fala em populismo, aqui fica o sucinto balanço desta campanha em que foi notória a falta de sintonia entre o país mediático e o país real. Tanto o manifesto desinteresse dos jornalistas pelo Portugal profundo como a crescente politização dos órgãos de investigação criminal apenas contribuem para o aumento das forças populistas que uns e outros dizem desprezar.

André Ventura certamente agradecerá: desta vez nem precisou de protagonizar nenhum psicodrama hospitalar para levar a água ao seu moinho. A desvalorização do carácter local e regional desta campanha beneficia o Chega, menos implantado no terreno do que as forças políticas tradicionais. E a instrumentalização de jornais e televisões pelas habituais fontes anónimas do Ministério Público contaminou fatalmente o debate político, induzindo a noção de que a “roubalheira” é endémica neste país carente de uma falange salvadora contra a “impunidade”.

Depois não se queixem.

O amigo de nazis era “figura da esquerda”


Pedro Correia,

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Juan Perón – admirador de Mussolini, comparsa de centenas de nazis (incluindo Mengele e Eichmann) a quem deu asilo na Argentina depois da guerra e “hóspede” de Franco durante 12 anos de exílio em Madrid – é “figura histórica da esquerda”.

As coisas que eu aprendo no Público

 

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Evita Perón com Franco em Madrid (1947)

“Populares”, repórteres e teleteóricos


Pedro Correia,

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Meio Portugal continua a arder: cerca de 275 mil hectares calcinados, correspondentes a quase 3% do território nacional.

Vejo imagens do incêndio na Gardunha com um nó na garganta. Imagens que me são familiares desde a infância: Alpedrinha, Castelo Novo, Alcongosta, Souto da Casa, São Vicente da Beira. Dez aldeias do concelho do Fundão ameaçadas. A impotência das pessoas (que alguns repórteres improvisados designam “populares”, com indisfarçável desdém classista) perante o macabro anel de fogo que a todo o momento ameaça destruir-lhes os parcos haveres reunidos em décadas de esforço ininterrupto.

No conforto dos estúdios climatizados, legiões de teleteóricos debitam soluções mágicas para este terror que nos assombra Verão após Verão: de repente, os tudólogos tornam-se também especialistas no combate aos incêndios agrícolas e florestais. Enquanto o vedetismo mais desbragado floresce graças ao drama: há os “enviados especiais aos fogos” com direito a apelido em caixa alta, ao encontro dos “populares” que falam português com cerrada pronúncia beirã, levando alguns editores televisivos a legendar o que dizem.

Sinal, entre tantos outros, de que existem dois países dentro do País.

 

Oiço com atenção os repórteres em diferentes canais. Há uma enorme diferença entre os que aterram lá de pára-quedas sem nada saberem e aqueles que têm ligação à terra, à província e à escassa gente que ainda lá mora. Os primeiros nunca ouviram falar num aceiro, numa cumeada, em corta-fogos, em máquinas de arrasto. Não distinguem giesta de tojo nem carvalho de castanheiro. Os segundos sabem tudo isto. E valorizam a intervenção dos aviões Fire Boss no combate ao inferno das chamas no mato deixado ao abandono – anfíbios e versáteis, aterram em pistas curtas, são mais úteis nestas operações do que os Canadairs de que tanto se fala a propósito ou despropósito.

Se há jornalistas que merecem Prémio Gazeta são estes profissionais da reportagem pura e dura que trabalham com conhecimento e sensibilidade, sem horários e quase sem descanso. Tantas vezes esquecidos nas promoções internas das empresas onde trabalham. Eles são a “malta da ferrugem”, operários do ofício de relatar notícias.

Nenhum deles se imagina vedeta: vedetas são os que aproveitam estas tragédias para exibições de obsceno narcisismo defronte das câmaras. Nenhum deles se imagina herói: heróis são aqueles portugueses em desespero a quem eles dão nome e voz.

 

Leitura complementar:

O pesadelo (17 de Setembro de 2024)

“La culpa es del eucalipto”. Bulos y medias verdades que avivan la tragedia de los incendios. (Maria Guerrero, El Confidencial)

Olhem-me isto


Pedro Correia,

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Há coincidências curiosas. A tal ponto que hesito até em chamar-lhes coincidências. Aconteceu-me esta manhã, ao pegar no Expresso. Tem uma falsa capa, invólucro publicitário de quatro páginas todo consagrado, vejam lá, ao concelho de Olhão. Com os maiores encómios, algo típico das peças de propaganda comercial. «Olhão tem alma», proclama a falsa manchete. «A beleza de Olhão», reza outro título. 

Caramba, já cheira a autárquicas – pensei, mal peguei no jornal. De facto, estamos a dois meses do próximo acto eleitoral. Olhão, município confiada pelos eleitores ao PS desde 1976, está ainda sob liderança de António Pina, que nestes 20 anos foi vereador (2005-2009), vice-presidente da câmara (2009-2013) e presidente (nos últimos 12 anos). Não será reconduzido por ter atingido o limite máximo de mandatos.

Quer transferir-se para um concelho vizinho: será o candidato socialista à câmara de Faro. E o que tem isto a ver com o Expresso? Nada. Ou tudo, depende do ponto de vista. É que nesta edição embrulhada em publicidade a Olhão, surge uma sondagem – amplamente publicitada no semanário – que atribui a vitória ao PS precisamente no principal município algarvio. «Tudo aberto em Faro, com ligeira vantagem socialista».

António Pina aparece duas vezes retratado: na publicidade e no espaço informativo. «Viver em Olhão é viver em equilíbrio entre o mar, a tradição e a autenticidade», enfatiza o ainda-olhanense autarca que sonha ser neo-farense já a 12 de Outubro. Na página 10 desta edição, outra imagem dele, caminhando na praia e esta legenda: «António Pina andou em campanha ao lado de José Luís Carneiro.»

As fotografias são diferentes, a pessoa em foco no Expresso é a mesma. Raio de coincidência. Não haveria outra semana para divulgar esta sondagem?

Desta vez serás tu, Rui Borges


Pedro Correia,

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Espero que a redacção do Expresso, daqui a cinco meses, eleja Rui Borges como Figura Nacional de 2025. Pela mesma lógica que a levou em Dezembro último a escolher Ruben Amorim só para não destacar Luís Montenegro. O primeiro venceu o campeonato nacional de futebol, repetindo uma proeza que já alcançara três anos antes. O segundo fez regressar o PSD ao Governo quase uma década depois. 

Pela mesma lógica de elevar a bola acima da política, Borges merece em 2025 muito mais do que Amorim há um ano. Os factos comprovam: conquistou o primeiro bicampeonato em 74 anos e a primeira dobradinha (Liga + Taça de Portugal) para o Sporting desde 2002. O antecessor, agora técnico do Manchester United, ficou em 15.º lugar no campeonato inglês e não conseguiu qualificar a equipa para nenhuma competição de âmbito europeu: o Expresso parece ter-lhe dado azar. «O magnetismo do líder sedutor e genuíno» andou ausente em parte incerta e o «gigante United» cumpriu a sua 12.ª temporada consecutiva sem vencer a Premier League. Nem parece gigante.

Sob este prisma, talvez Montenegro até agradeça ficar novamente excluído da escolha final do semanário que há um ano o ignorou: azar é coisa que o primeiro-ministro certamente dispensa. Mesmo tendo também vencido, à sua maneira, um bicampeonato: a AD, com ele ao leme, triunfou pelo segundo ano seguido numa eleição legislativa – desta vez com a «maioria maior» que o presidente do partido laranja pedira aos eleitores. Saindo das urnas, a 18 de Maio, com 31,8% (+ 1,7% do que em 10 de Março de 2024), 91 deputados (+ 11), 2 milhões de votos (+ 200 mil) e mais 9 pontos percentuais do que o segundo classificado (14 meses antes conseguira só +0,9).

Depois de Amorim, avança Borges. Antes assim. Viva o Sporting bicampeão!