
Amanhã, sábado dia 19 de Setembro, a partir das 15.30 h., descerei do Marquês de Pombal até à Praça do Comércio, numa pacífica manifestação contestando o actual rumo político em Moçambique, a perseguição jurídico-política ao oposicionista Venâncio Mondlane e a violência assassina sobre inúmeros oposicionistas ao regime. Explico-me:
Vivi 18 anos em Moçambique, entre os meus 30 e os 50. E calcorreei-o. Foi o que foi, fui o que fui, o que consegui ser. Terei compreendido o substancial? Talvez não. Terei aprendido algo? Sim. Sim, mesmo. Às vezes através de um relance, numa imagem denotativa do englobante. Como neste charco com a tabuleta “Futuras Instalações do Gabinete Provincial de Combate à Corrupção”, com o qual me deparei em Nampula, cerca de 2006.
Não vou aqui repetir o que várias vezes escrevi sobre aquele processo nacional. Por coincidência, faz hoje exactamente um ano que apresentei o meu livro Sentido Obrigatório (só se compra através desta ligação – ou encomendando-me). [Deixei resumo do livro e eco da festa neste postal]. Nele juntei 30 textos sobre a percepção portuguesa daquele país e o ambiente ideológico lá reinante. E culminei-o com um texto mais longo, “Rumo de Moçambique”, um ensaio sobre o processo político nacional – está também aqui, apenas para subscritores pagantes (escrevê-lo foi trabalhoso, é justo que eu seja remunerado por tal, por pouco que seja).
O Sentido Obrigatório vendeu muito pouco – uns 80 exemplares. E poucos o leram – foram escassíssimos os comentários que me fizeram. Talvez as minhas arengas não mereçam mais atenção. É certo que eu já o previa, também por isso deixei-lhe como epígrafe um dito de Graham Greene: “Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós”.
Ainda assim, é comum compatriotas dizerem-me, amigos em viva-voz ou leitores de blog/FB em comentários, que mais apreendem sobre Moçambique comigo do que na nossa imprensa. Pois tamanho é o silêncio que nela vigora sobre aquele país – ainda há pouco a isso aludi no “Apologia da mira técnica”, pois nem um filme com um grupo de polícias a assassinarem no interior de um restaurante captou a atenção dos jornalistas, habitualmente vorazes face a esse tipo de acontecimentos (imagine-se o alarde se tivesse sido nos EUA, Brasil, Bélgica ou similares…).
Por isso mais uma vez deixo um sumário: em Moçambique houve um inicial momento comunista, na matriz da FRELIMO reforçada após a morte de Eduardo Mondlane e vigorosa na primeira década e meia do país. Seguiu-se uma inflexão, sob o mesmo partido, assumindo o modelo de uma democracia liberal e economia de mercado. Desde a primeira década de XXI que o poder instituído degenerou radicalmente. Nele não há resquícios da pretérita ideologia socialista, nem há quaisquer intuitos democratizadores, ou da manutenção de uma “boa governação” de cariz liberal.
Cá há exemplos do repúdio a esta tétrica situação moçambicana, oriundos de partidos bem diversos: em 2024-2025, a Iniciativa Liberal foi incansável na denúncia dos acontecimentos. Catarina Martins do Bloco de Esquerda, não hesitou em denunciá-los no Parlamento Europeu. Invoco-os para sublinhar não haver quaisquer motivos para a manutenção de solidariedades de cariz ideológico ou afectivo para com aquele poder, desde a nossa direita “profunda” até à nossa esquerda “profunda”, passando pelos eixos mais “centristas”.
O movimento de libertação, anticolonial, já não existe. O partido marxista, crente numa revolução nacional e desenvolvimentista, já não existe. O partido que se readaptou a um molde capitalista, construindo uma economia de mercado, obrigatoriamente algo assimétrica sob o ponto de vista social, já não existe. O partido agregado à Internacional Socialista já não existe. O partido congregador de uma tecnocracia crente no possível desenvolvimento do país, inserido numa desigual economia mundial, já não existe.
Sob o mesmo nome resta uma cleptocracia, uma heterogénea clique político-partidária rapace, voraz. Crente na sua sobrevivência através da violenta repressão política. Praticante de um “Ur-Fascismo”, o “fascismo eterno”, para lembrar Eco.
Sei – até pelo que refiro sobre a recepção ao meu último livro – que as minhas palavras têm pouco eco. Tenho em casa centenas de revistas antigas, legado dos meus pais. Para me socorrer neste apelo recorro a uma História (Novembro de 1999), ao artigo de opinião de José Mattoso, um dos intelectuais fundamentais da nossa era.
Nesse artigo Mattoso escreveu sobre “Timor” – friso que não comparo a situação de Moçambique com a que Timor-Leste então vivia, sofredor de uma invasão externa e, de facto, genocida. Mas convém (agora e sempre) recordar as sábias palavras do grande José Mattoso, pois deverão nortear-nos. Fazendo-nos sair amanhã, para “descer a Avenida”. E fazendo-nos pensar, todos os dias. Pois crendo que a opinião pública – a nossa opinião e as nossas demonstrações – importa na História. Enfrentando as ditaduras, mesmo se longínquas.


“Timor”
Nenhum observador suficientemente realista poderia suspeitar, há 10 anos, de que a causa de Timor viesse a ultrapassar a fase das declarações verbais inoperantes, por mais sinceras que elas fossem. Não se fala já naquelas que, por razões muito variáveis se podiam considerar interessadas ou pouco sinceras. A fraqueza dos timorenses era demasiado evidente, e os interesses em jogo, demasiado longínquos para se poder acreditar na sua eficácia. Ora, a voz dos destituídos de toda a força tornou-se um clamor insuportavelmente incómodo quando foi ampliada da maneira mais inesperada pela opinião pública, pelos jornais, pela rádio, pela TV, por toda a espécie de organizações e pelos cidadãos anónimos. De tal modo, que abalou os tratados – públicos ou secretos -, os compromissos económicos, os grandes interesses em jogo, os planos geoestratégicos, as prudências e os pruridos jurídicos. Obrigou a entenderem-se entre si interlocutores que nada tinham em comum, e a encontrar forma de fazer ceder um poder tão cheio de contradições como o do Estado indonésio. (…)
Que a opinião pública se tenha manifestado com tanta veemência, de formas tão inventivas e de maneira tão unânime, ao ponto de se tornar o factor decisivo para a resolução adoptada pela ONU, é um fenómeno que apesar de todas as atenuantes merece ser saudado como o triunfo da palavra, dos direitos e dos princípios sobre a força bruta dos interesses económicos e políticos. É uma boa notícia para os jornalistas e uma luz no panorama lutando sombrio do fim do milénio. (…)
Creio que o caso de Timor representa também um facto novo na história das relações políticas entre o Ocidente e Oriente. Trata-se de uma solução imposta à força a uma potência oriental em nome dos direitos humanos e dos princípios em que se baseia a democracia. Ora, o governo indonésio, como a maioria dos países do Oriente, tem noções completamente diferentes acerca do exercício do poder político. (…)
O referendo timorense e a intervenção da comunidade Internacional em Timor constitui, portanto, um fenómeno que mostra com que dificuldade se processa a expansão mundial das concepções políticas ocidentais. (…)
Temos de concluir que a expansão das concepções políticas ocidentais no mundo é muito mais difícil do que a das concepções económicas. Estas têm servido para a exploração de grandes massas de trabalhadores que vendem uma mão-de-obra barata. Acontece que com elas se vão propagando também os princípios da democracia e dos direitos humanos. Não sabemos como vai evoluir este fenómeno. Mas é provável que a luta que de certo se irá travar para a adopção da Democracia no Oriente se torne um dos mais importantes problemas da história da Humanidade nas próximas décadas.


