Séneca na Fábrica Lisboeta


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Cruzei a cidade até à Fábrica Lisboeta, um velho reduto fabril que há anos passou a arremedo de feira popular bon chic bon genre, aspiração que terá obrigado os “empreendedores” a estrangeirarem-lhe o nome.

Ali fui para assistir a uma conversa sobre um livro que tem sido (merecidamente) cumulado de elogios. Após a qual me sentei numa esplanada defronte à Ler Devagar, lendo devagar o livro que levara e bebericando uma caneca. Passou uma amiga e desafiou-me para jantar com um pequeno comité.

Agradado aprestei-me a isso. Pedi a conta – 5 euros pela tal caneca! Murmurei “da-sse” – or should I say, fuck!?, pois esse é linguajar adequado àquele amontoado de barracões que anuncia devotar-se a manter um “look & feel industrial”, espaço que sociólogos dizem “icónico” e “democratizador” pois dinamizador da “rede global de circulação de pessoas, ideias e capitais”, incentivado pelos decerto que ilustrados documentos Plano Diretor Municipal de 2012 e Estratégias para a Cultura da Cidade de Lisboa.

Enfim, paguei e juntei-me ao grupo comensal. Um quarteto da literatura, eles em animada conversa sobre temas e gentes – livros, poetas, os podcasts de agora… – que desconheço. É um ambiente que me é excêntrico, com alguma tendência para uma (para mim) além-realidade. Mas ali representado por gente sedimentada e desprovida do mero “name-dropping” (como aqui comprovo os anglicismos não me são tabu, malgré tout…) tão habitual no lisboetismo. Pois estes cultos e diligentes. Por isso tão agradável me foi o convívio, fruindo aquela diversidade de interesses e saberes.

De súbito um deles anunciou saber da iminente edição um livro com textos de Séneca sobre morte – notícia que eu decerto não ouviria se estando entre os meus. Retive, sorrindo para dentro. Pois essa morte anda frenética na minha vizinhança, tanto que venho dando conta do meu desconforto. E há muito que não leio Séneca…

Regresso a casa, da estante retiro o “Cartas a Lucílio”, passeio pelos sublinhados. Onde há já décadas assinalei os verdadeiros valores civilizacionais ali apostos, o real sagrado da vida que estes supersticiosos ultra-católicos de agora ainda tanto combatem: “Um homem corajoso e sábio não deverá fugir da vida, mas sim sair dela; acima de tudo importa evitar uma paixão que tem assaltado muita gente: a paixão pela morte (…) muitos são (os) que através dos tempos têm demonstrado desprezo pela morte (…) nós não devemos recear a morte, como a ela devemos o termo dos nossos receios!” “Ninguém pode obter uma vida segura se continuamente pensar em prolongá-la, se considerar entre os bens mais preciosos um grande número de anos”.

Há uma ano deixei o postal “Eutanásia”, usando um filme do insuspeito John Wayne para referir a inércia cultural portuguesa sobre a matéria, agora até com uma lei deixada em processo de infundice. Neste mês em França – país cuja cultura antes nos foi tão influente – foi aprovada a lei da eutanásia. O que por cá foi ignorado, enquanto todos se animam a discutir … o atrelado do ministro, as notas dos putos charilas e os dislates de Trump… charilas. E, mais ainda, as contratações dos clubes de futebol…

E, entretanto, também reparo noutro sublinhado, algo que Séneca escreveu em meados do século I: “verificarás que a ira dos escravos não fez menor número de vítimas que a dos reis!”. Como dois mil anos de “activismo” vieram provar.

Enfim, ainda bem que fui à Fábrica de Lisboa. E que fui convidado para jantar.

(Este é uma parte da “gazeta” que deixo no meu “O Pimentel“, esta tendo levado o título “Um bimbo em Belém etc.”)

Livros para o lixo


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Um amigo olivalense enviou-me ontem – dia da tomada da Bastilha, putativa celebração do velho Iluminismo – esta fotografia com a legenda: “mesmo ao pé da Gulbenkian”. Caixotes pejados de livros e revistas no centro de Lisboa…

Dizem-me que cá no bairro dos Olivais também isso ocorria de vez em quando, junto à biblioteca local – presumo que pessoas deixem lá os seus indesejados livros, convictas de que instituição tenha a obrigação de os cuidar…

Não se trata de sacralizar a livralhada. Mas, caramba, deitá-la assim fora? Sem dar hipótese a hipotéticos interessados?

Como venho referindo – ainda há dias repeti a demonstração, no item “A vida é feita de pequenos nadas” – nós cá nos Olivais desde há já mais de um mês temos o Evaldo, na sua barraca na Cidade de Bissau (junto ao metro), a animar uma dádiva de livros. Não os deitem fora, passem por lá. Nem sequer é uma troca de livros, leva-se os que se quiserem, deixa-se o que se entender. E enquanto se  folheia na esplanada pode-se aproveitar para beber uma cerveja gelada, um qualquer refresco, comer um petisco.

Pois o “Iluminismo” exilou-se nos Olivais. A barbárie está lá na Avenida de Berna. E não só.

Coitados dos Pangolins


jpt,

O António Cabrita acaba de publicar uma ficção, romance-sátira sobre Moçambique, assim o disse (e fez). Lá compareci no “lançamento”, ao abraço devido. Depois li. Entretanto um amigo moçambicano pediu-me para lhe enviar um exemplar, comprei-o. Nas delongas para encontrar um portador para Maputo acabei por o dar a alguém interessado.

Agora a Lisboa chegou alguém disponível para lhe levar o livro. Acorri à livraria vizinha, de “cadeia” renomada. Aporto ao balcão para perguntar ao livreiro se o tem disponível. Mas dá-me uma “branca”, esqueço-me do título… Resta-me perguntar-lhe se “têm um livro de António Cabrita cujo título é qualquer coisa com pangolins“, informação que será suficiente para a pesquisa – o título é “Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins”. Pressuroso e simpático o trabalhador (agora dito “colaborador”) investiga o assunto nos meandros da rede digital da sua afamada – e secular – “cadeia” empregadora.

E lamenta-se, “não temos nada desse autor” – o Cabrita tem vinte e tal livros publicados, já agora. E culmina, em cúmulo de solicitude, “é um cozinheiro?“… Agradeço-lhe, deixo-lhe o “boa noite” devido. E saio gemendo, até aflito: “coitados dos pangolins…

A Feira do Livro nos Olivais


jpt,

 

(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)

Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” – a clientela – a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e – no caso dos mais-velhos – pela infinitude de canais televisivos.

E também pelo lado da “oferta” – dos proprietários – não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço – vão de escada com postigo que seja – tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.

Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.

Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.

Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…

Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.

O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano – não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.

Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, e muitos outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda – nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.

À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.

O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.

E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, o “gosta de ler livros?” – que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.

Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.

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(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

Os ciclos longos


Paulo Sousa,

Há algum tempo atrás tropecei num alfarrabista que vende velhas relíquias on-line e, desde então, já adquiri vários clássicos sobre os quais me tenho debruçado. Se a estória ficasse por aqui não teria o merecimento de chegar a postal, mas após a compra mais recente, a surpresa foi para além da sempre agradável sensação de cheirar um livro antigo. A obra em causa foi incluída no lote para que conseguisse atingir o valor de compra que dispensava a cobrança dos custos de envio. Poderá não ser um mui nobre motivo de escolha, mas as glórias e as misérias andam frequentemente de mão dada.

O livro é o “Noventa e três” de Victor Hugo. Do que me recordo do momento da escolha foi qualquer coisa como, o autor tem algumas obras mais conhecidas, mas, quem sabe, vamos lá ver o que é que sai daqui.

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Um par de dias volvidos, na volta do correio, que é como quem diz, depois de ir buscar a encomenda ao quiosque contratado pela distribuidora, abri o livro e reparei que, logo na primeira página, tinha uma nota manuscrita.

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Março de 1955, Maria José … não consigo entender o apelido. O meu primeiro pensamento foi para a data. Já lá vão 71 anos. O propósito, ser lido, continua funcional assim como a mensagem de Victor Hugo.

Na página seguinte, outra surpresa.

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Desde que foi impresso, este livro nunca foi devidamente aberto e, como é óbvio, nunca foi lido. Olhado para todas aquelas folhas em continuo simplesmente dobradas e encadernadas, entende-se o método de fabricação, assim como o pouco rigor no corte das páginas o que, não sendo nada que impeça a sua leitura, é algo a que já não estamos habituados.

Quem o editou, a Livraria Editora Guimarães & Cª, sediada na Rua da Misericórdia, 68/70, em Lisboa, assim como quem o compôs e imprimiu, a firma Lucas & Cª, sediada na Rua do Diário de Notícias, 61, Lisboa, nunca imaginou que, mesmo tendo sido adquirido em 1955, só em 2026 é que iria finalmente ser lido. É um longo ciclo que se encerra.

Será que daqui a 71 anos alguém irá igualmente consubstanciar um propósito de algumas das nossas intenções de hoje?

A Páginas Tantas, de Carlos Brito


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Após a sua morte li alguns livros de Carlos Brito, entre os quais este romance “A Páginas Tantas” (2000). A trama é pouco refinada – mas suportaria um folhetim televisivo. Decorre durante a queda do muro de Berlim, entre personagens algo tipificadas, representativas do espectro de sensibilidades políticas dos resistentes ao Estado Novo. O mote político é a ascensão ao poder – então o PSD de Cavaco Silva – de Valdez. Este fora um exilado, líder de um pequeno grupo maoísta avesso aos “sociais-fascistas e revisionistas do PCP”, que refutavam a luta armada e por isso vistos como instrumentos “para controlar a classe operária”.

Brito recupera o diagnóstico de Cunhal sobre os radicais “pequeno-burgueses de fachada socialista”, alertando não serem (todos) “más pessoas” (p. 77), mas faz desse Valdez um arquétipo. Rodeado de uma “fauna dos gabinetes” (os futuros “boys”, diz mesmo), literalmente gulosa e voraz – enquanto os camaradas surgem em cenas comensais com apetite jubiloso, pois legítimo, um traço moralista evidente -, o ex-maoísta é desprovido de valores, tendo ascendido a Secretário de Estado da Cooperação e rumar a Ministro dos Negócios Estrangeiros (é impossível não pensar tratar-se de um decalque de Durão Barroso). Mas pressionado por uma conspiração através dos “serviços de informação” – o que traduz a percepção de uma omipresença de uma “Pide” na democracia – acaba por sair do governo e transitar para a administração dos grandes interesses económicos, o verdadeiro poder.

Mas o mais interessante, pois tão actual, deste Valdez é uma sua antiga proposta – que lhe causa a demissão governamental. Pois em finais do Estado Novo, o líder maoísta exilado havia defendido fazer confluir vagas de emigrantes portugueses para o pequeno Luxemburgo, numa “substituição demográfica” que o tornasse trampolim contra a ditadura portuguesa. Ou seja, o ficcional Valdez surge como um precursor da actual e explícita Irene Montero do PODEMOS, e de tantos outros implícitos, na ânsia de que a imigração altere os contextos políticos nacionais.

O outro mote do livro é a apresentação da mundividência dos “antifascistas” naquele final de ciclo histórico, em particular a dos comunistas. Num ambiente em que “não há separação das vidas pessoais da política” (p. 122). Tão nítido quando Rogério e Ester, antigos maoístas convertidos aos partidos sistémicos, se casam e “selaram a união com os papéis oficiais e uma pequena festa que reuniu os correligionários mais próximos de cada um, visto que tinham divergido politicamente e rumado para diferentes destinos partidários” (45). Nesse registo existencial a prática comunista surge assente na moral. Diz um militante, dos rijos: “Temos um coração maior… Recuso qualquer insinuação de fanatismo. Chamo-lhe antes amor pelos outros, especialmente pelos mais sofredores e injustiçados… parece que bebi a punção de advogados dos oprimidos, seja qual for o lugar do mundo onde se encontrem…” (p. 123).

A “queda do muro”, a desagregação comunista, é sofrida, pois os “americanos” recuperam terreno com “o fim das democracias populares”. E vista através do alijar de consequências teóricas e políticas, pois devida a “meros erros de prática6 dos “gorbatchoves” (p. 189). Face à catadupa das notícias entre os militantes invectivam-se “as barbaridades” da televisão, contra a “hedionda manipulação histórica” esquecendo a “luta contra os nazis” (p. 160), esta sempre justificativa da realidade posterior.

E a isso se alia o diagnóstico sobre a correcção do PCP. Um calibrado militante esclarece terem um programa pluralista e já feito profíqua e suficiente autocrítica face aos rumos soviéticos (pp. 174-175). Alertando para a “furiosa” “campanha anticomunista” que adviria e refutando o fraccionismo “divisionista” (pp. 170-171) – a realçar pois Brito terá tido invectivas desse teor. O cerne do livro surge na explicação do título, en passant, numa recusa que é lamento: “E de repente, a páginas tantas, querem transformar-nos, a nós que sempre fomos vítimas, em carrascos” (p. 176).

É certo que Brito faz falar várias personagens, nisso várias perspectivas sobre as ocorrências passadas e contemporâneas. Mas do global não se retira algum nítido afastamento do autor das visões mais generalizadas entre os seus camaradas. E, acima de tudo, resta um substrato moral como justificativo da vida política. Moralista, de facto. O que é escasso para quem se dedicou à militância através de uma perspectiva que se disse – e impôs com extrema acidez e virulência – como “científica”. Mas das leituras ficou-me também outra visão: a de que o autor terá sido um homem firme mas plácido, com a qualidade de leitor de Simenon. E bem-intencionado. O que é, moralismos à parte, mau na política, pois originando rumos tétricos, comprova-o a história.

[Parcela de um texto mais longo, “O anticomunista primário“, que publiquei no meu blog “O Pimentel“]

O 25 de Abril na Freguesia


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Pode ser uma imagem de livro, diário e texto

 

Cá nos Olivais este ano o 25 de Abril comemora-se não descendo a “Avenida” mas sim a Bissau, numa agitada Feira da Bagageira, depois parando na boa “Barraca do Evaldo” – essa a que alguns “habituais” chamam “o Leblon”, pois é ele brasileiro por cá há décadas, gente boa, feito símbolo desse Abril democrata, avesso a grunhidos xenófobos/racistas pois fiel à sageza do sábio povo afixada no tradicional mandamento “bem-vindo seja quem vier por bem”.

 

Antes vasculhei a Feira, de quinquilharia, trapos e monos feita… Os livros nada valem!, como é sabido. Por 2,30 euros, as moedas que tinha, saio com um Tolstoi, que terei em casa mas apenas por este ser exemplar em estado impecável da lendária colecção Unibolso (e com tradução – presumo que do francês – de António Sérgio), mais um de crónicas do Rui Zink, também intocado. E ainda uma História da Literatura Grega, nunca folheado apesar de publicado pela velha Estúdios Cor em 1973 (!).

 

Mas os livros nada valem!, repito. Pois reparo nem neste 25 de Abril alguém leva (por meros 50 cêntimos, presumo), o “Portugal e o Futuro” do general Spínola, que tanta lama agitou naquele tempo.

 

Enfim, para os que resmungam com a data: a gente passou a poder ler o que quer. O problema está mesmo nisso que aqui resmungo: agora os livros nada valem!

Morreu Desmond Morris


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O macaco nu, Desmond Morris Almada, Cova Da Piedade, Pragal E Cacilhas •  OLX.pt

Aos 98 anos morreu Desmond Morris. Como aconteceu com tantos dos seus leitores da minha geração, conheci-o através do célebre “O Macaco Nu”, que li aos 17 anos.

Por vezes vejo conversas sobre quais os melhores “começos” literários (”Já não temos começos!”, queixou-se George Steiner, não exactamente sobre essa questão…), os grandes arranques romanescos. Não sou eleitor nessa matéria, mas não contestarei a primazia dada ao “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença...” de Dickens (no “História de Duas Cidades”).

Mas sobre começos de ensaios? Caramba, voto sempre neste, pois ainda me lembro do júbilo nesse imediato pós-Natal ao deparar-me com esta viril entrada:

Existem actualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que igualmente o maior pénis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila.

E segui a leitura, encantando-me com o etólogo.

(Versão curta de postal no meu “O Pimentel“)

Quantos destes cem?


Pedro Correia,

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Tenta ser uma lista canónica. Conseguirá alcançar este objectivo? Os leitores que julguem. Os cem melhores romances de autores britânicos de todos os tempos – títulos escolhidos por 82 críticos de vários países anglófonos espalhados pelo mundo a pedido expresso da BBC. 

Entre os quinze primeiros, figuram sete obras escritas por mulheres: Middlemarch (George Eliot), To the Lighthouse e Mrs. Dalloway (Virginia Woolf), Jane Eyre (Charlotte Brontë), Wuthering Heights (Emily Brontë), Frankenstein (Mary Shelley) e Pride and Prejudice (Jane Austen). Merecem ou não este destaque? Que outros títulos deviam aqui figurar mas estão ausentes?

E, dos cem aqui seleccionados, quantos vocês já leram?

Quem quiser, responda.

Eu já contei, revelo depois. 

Doze sugestões de Natal


Pedro Correia,

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O ÚLTIMO AVÔ, de Afonso Reis Cabral (D. Quixote). De novo a família no eixo ficcional, onze anos após O Meu Irmão, que projectou de imediato o autor para o primeiro plano da novelística nacional. Aqui revisitando os traumas da guerra em Angola num cenário pós-colonial – a guerra menos falada mas mais devastadora, a que sepultou os sonhos da libertação, tornados pesadelos totalitários já em esboço sangrento nos dias crepusculares da administração portuguesa. Onde terminam os factos e começam lendas e mitos? Eis a interrogação fundamental deste romance sem uma palavra a mais. Com o jovem protagonista convicto de que «o passado dos pais é muitas vezes o presente dos filhos».

 

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A CASA DOS KRULL, de Georges Simenon (Cavalo de Ferro). Romance sem o comissário Maigret, quase sem temática policial. Publicado originalmente em 1939, com toque premonitório: fala-nos de uma família originária da Alemanha mas residente em França, entalada entre dois mundos sem pertencer a qualquer deles: «Embora sejamos naturalizados, tratam-nos como estrangeiros.» Com os ecos da I Guerra Mundial ainda frescos e a segunda já tão próxima, a pretexto de insanáveis ódios transfronteiriços. Drama doméstico marcado por pulsões xenófobas prenunciando a tragédia colectiva prestes a incendiar outra vez a Europa. Obra-prima de Simenon (1903-1989) com irrepreensível tradução de Diogo Paiva.

 

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A HORA DOS PREDADORES, de Giuliano da Empoli (Gradiva). O autor recorre à sua experiência como conselheiro do antigo primeiro-ministro italiano Matteo Renzi (2014-2016) para descrever os meandros da política mundial em linguagem sofisticada mas cáustica. Relatando neste curto ensaio o que testemunhou na sede da ONU, no hotel Ritz em Riade perante o príncipe herdeiro saudita ou num hotel de Lisboa onde escutou Henry Kissinger. O tom geral é pessimista face ao predomínio dos oligarcas da tecnologia e à generalizada incompetência da nova casta dirigente: «A guerra está de novo na moda. Os dirigentes que a invocam ganham eleições. Alguns passam seguidamente aos actos.» Temos imensa informação, mas nunca o futuro foi tão imprevisível.

 

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PORQUE SOU LIBERAL, de João Cotrim de Figueiredo (Zigurate). Raras vezes vemos políticos no activo escreverem com tanto desassombro sobre si próprios. Respondendo a um repto lançado pelo editor ainda antes de ter decidido candidatar-se a Belém, o eurodeputado liberal aceitou desfiar memórias – da família, dos estudos, das várias etapas profissionais e da sua tardia iniciação à vida partidária que o levaria em 2019 à estreia em São Bento. Não conta tudo, mas desvenda muito. Com escrita elegante e sem pedir licença seja a quem for por pensar como pensa. Com a consciência plena de que «tudo é uma escolha, tudo tem um custo», e «nada de verdadeiramente importante se consegue sem trabalho». 

 

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JOSÉ SÓCRATES: ASCENSÃO, de João Miguel Tavares (D. Quixote). Certos livros são puro jornalismo: eis um deles. Durante anos, João Miguel Tavares acumulou informação de todo o tipo sobre o primeiro chefe de um governo português levado a tribunal por ilícitos criminais. Este volume – que inaugura um tríptico – segue o percurso do “animal feroz” desde a infância transmontana até à vitória de 2005, por maioria absoluta. Nessa era de ilusão, muitos portugueses apostaram todas as fichas nele, enquanto uma imprensa desatenta permanecia alheia aos sinais. Aqui se explica como e porquê: é serviço público. «Sem a história completa dos anos Sócrates corremos o risco de continuar a fingir que o tempo em que estivemos doentes foi passado de óptima saúde.» Dá vontade de assinar por baixo.

 

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D. JOÃO VI E A DESGRAÇADA FAMÍLIA, de José António Saraiva (Gradiva). O século XIX, para nós, começou mal: Portugal foi três vezes invadido pelos franceses, depois ocupado por forças inglesas, entretanto a família real fugiu para o Brasil, acabando esta jóia da coroa por cortar laços com a metrópole europeia. Seguiu-se a súbita morte do rei, envenenado, e uma sangrenta guerra civil que fracturou o país em duas parcelas, cada qual liderada por um infante. Drama em vários actos que tantos ainda ignoram: o antigo director do Expresso relata-os nesta envolvente obra terminada pouco antes de morrer, a 6 de Março. Merece leitura atenta, mesmo com erros de pormenor a remover de edições futuras.

 

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RECORDAÇÕES E ANDORINHAS, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal). Registo de três anos (2007, 2008, 2009) na vida do autor de Ernestina, dividido entre a aldeia transmontana dos ancestrais e a cosmopolita Amesterdão, onde ancorou há décadas sem afrouxar os intensos laços afectivos que o ligam à pátria-mãe. Diário de temas muito variados, ora em registo de crónica de costumes (deliciosa, a das andorinhas que pousaram no título da obra), ora de evocação de outras gentes noutras eras, ora de discreto confessionalismo em diálogo tantas vezes irónico com o leitor tornado cúmplice. «Mal vai aquele a quem o mundo não surpreende.» Voz inconfundível, a de Rentes: hoje com 95 anos e ainda tanto por dizer.

 

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ALMAS ARTIFICIAIS, de Luís Naves (Astrolábio). Catorze histórias com fundo comum: um presente carregado de incertezas, um futuro sem amanhãs que cantam. Personagens que funcionam como arquétipos da inadaptação: o desempregado, o divorciado, o mendigo – seres bloqueados no elevador social. Aqui pairam ecos de Kafka, Vonnegut, Dino Buzzati, Philip K. Dick – em registos que vão da literatura do absurdo à ficção científica. Alguns contos dignos de antologia: “A Última Greve”, “Baltasar e Joaninha, o Primeiro Casal no Espaço”. Ou “Máscaras”, a propósito da pandemia: as pessoas andam dois anos de cara oculta com receio do vírus e perdem a identidade quando a máscara cai. O reconhecimento facial torna-se impossível, todas as aparências podem iludir.

 

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A NOVA PESTE, de Manuel Maria Carrilho (Desassossego). Desassombrado libelo contra os novíssimos torquemadas embalados por conceitos como “apropriação cultural” e “micro-agressões” enquanto entoam hossanas ao transexualismo e praticam o cancelamento ameaçando a liberdade de expressão e, no limite, a própria democracia. Este ensaio rema contra os ventos dominantes, por isso não admira o manto de silêncio que o rodeou – como se fosse um livro maldito. E assim será para alguns: o antigo ministro da Cultura vergasta aqui os apóstolos da ideologia de género: «O seu mundo é o mundo do impensar, é como designo a forma hoje dominante do politicamente correcto e da sua fábrica de ignorâncias.»

 

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ASSASSINATO NO COMITÉ CENTRAL, de Manuel Vázquez Montalbán (Quetzal). Reedição que já tardava. Policial atípico, cruza tópicos do género com sátira política. Teve êxito imediato, em 1981: Montalbán (1939-2003) estava no auge do seu talento ao relatar as peripécias do detective Pepe Carvalho, ex-agente da CIA, gastrónomo impenitente e leitor compulsivo que alimenta a lareira com livros – O Problema da Habitação, de Engels, é aqui devorado pelas chamas. Excelente crónica da Espanha pós-franquista, quando a democracia ainda gatinhava. Cheia de críticas mordazes à bússola errante dos comunistas sem revolução no horizonte: «Abandona-se o marxismo e acaba-se a acreditar no zodíaco e sem saber distinguir o bem do mal.» Imperdível, a receita de arroz de amêijoas.

 

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PORQUE SE ENGANAM OS INTELECTUAIS, de Samuel Fitoussi (Bertrand). Alguns dos mais afamados pensadores do século XX vendiam gato por lebre. Enganaram-se em quase tudo – e levaram muitos incautos por maus caminhos. Acolheram com bonomia os regimes totalitários e chegaram a cantar-lhes odes por cegueira ideológica ou irreparável má-fé. Gente como George Bernard Shaw, que comparava Estaline a Voltaire. Ou Simone de Beauvoir, que no regresso da China «publicou um livro de 500 páginas em louvor do maoismo». Ou Bertrand Russell, que desvalorizou a ameaça nazi exigindo o desarmamento unilateral do Reino Unido já com Hitler no poder. Disto fala o autor, jovem investigador e ensaísta francês. Sem ocultar nomes nem venerar vacas sagradas.

 

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QUE SE PASSA COM O BAUM?, de Woody Allen (Edições 70). Vítima da “cultura do cancelamento”, impedido de filmar no seu país e na cidade natal que tanto ama, o criador de Annie Hall reconverte-se em romancista aos 90 anos – completados no passado dia 30. Esta sua memorável estreia lembra as comédias que rodou na década de 70, em torno de um judeu novaiorquino envolto em crises emocionais. Apresenta-nos um alter ego chamado Asher Baum, escritor hipocondríaco que ao dobrar os cinquenta adquire o hábito de falar sozinho, sem filtro, um pouco por toda a parte. Marcado pela culpa, «esse poderoso elemento envolvente, tão predominante como o oxigénio e porventura tão necessário quanto ele». 

Sentido Obrigatório


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Neste meu afã de ser moderno, acabo de organizar uma edição em livro electrónico (e-book na vigente língua de trapos) do meu “Sentido Obrigatório: Acerca de Moçambique” – no qual juntei 30 textos sobre Moçambique e também sobre como em Portugal se vai vendo aquele país.

 

Para quem se possa interessar – mas queira evitar os portes de correio e/ou tenha as estantes domésticas já atafulhadas – aqui deixo a ligação ao livro: basta “clicar” neste “Sentido Obrigatório”.

 

Para quem prefira o livro em papel encontra-o nesta ligação.

Hoje recomendo estes três


Pedro Correia,

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Três livros recém-surgidos, três livros que recomendo: estive aliás nas sessões de lançamento de dois, hoje estarei na do terceiro. Serei algo suspeito: conheço bem os autores, tenho consideração por eles, estou em sintonia com grande parte do que afirmam e praticam. Um deles (o Adolfo) foi até meu colega aqui no DELITO e participámos num volume colectivo que em 2018 reuniu dezenas de textos seleccionados deste blogue. 

Já li um dos livros e vou quase a meio de outro enquanto tomo balanço para mergulhar no terceiro. São Algoritmocracia (Adolfo Mesquita Nunes, edição D. Quixote), Porque Sou Liberal (João Cotrim de Figueiredo, edição Zigurate) e Introdução ao Liberalismo (Miguel Morgado, edição D. Quixote).

Motivo acrescido para deixar aqui estas recomendações: são todos escritos sem mutilar consoantes, em rejeição categórica do aborto ortográfico. O que só os valoriza aos meus olhos e de muitos outros que pensam como eu.

Astérix na Lusitânia


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Astérix na Lusitânia - Livro 41 - 1

Nós leitores há cinquenta anos que estamos órfãos de Goscinny. A morte – injusta de precoce, cruel de inesperada – do pai René foi-nos tão traumática que nos tornou ingratos. E passámos a tratar o extremoso pai Albert como se este mero tio Uderzo – resmungando nós que se com este nada nos faltava à mesa ainda assim ele não nos dava o carinho, a “joie de vivre”, do qual o pai René fora tão pródigo. E depois continuámos a recusar-nos a crescer, a ascender à adultice. Nisso, acoitados nesta família de acolhimento sempre criticámos, rebeldes, serôdios “problem children”, o gentil casal FerriConrad. Mais ainda, até, após o seu divórcio, com este novo casamento do esforçado Senhor Conrad.

É evidente que há sequelas fajutas – Corto era Pratt, e morreu mesmo… E a profusão de “novidades” Blake & Mortimer torna aquilo pechisbeque (Schuiten fez um belo álbum, mas porque foi Schuiten, recusou “jacobinar-se”). Mas Goscinny preparou-nos para a vida, avisando que “Je ne suis pas Madame Bovarix!” – moldado que fora na Argentina e nos EUA, onde por regra os heróis da banda desenhada não tinham “dono-autor”. Pouco importou pois, distraídos, nisso insistimos, mimados contraditórios. Por um lado, crentes na patranha de que Clemenceau ou Churchill ou qualquer outro desses, havia dito que “quem não é socialista aos 20 anos não tem coração…”, recusamos a continuidade da série, vêmo-la como a via da meretriz Empresa, da busca do vil Lucro, arruamos avenidas abaixo em nome do “primado da Arte”. Mas, por outro lado, não arredamos pé, na ânsia do novo álbum, dos “irredutíveis (reconfortantes) gauleses”. Para depois a cada novidade criticarmos, deseducados.

Por isso tantos destes “Astérix na Lusitânia? Ah, lê-se, mas não é como os antigos…”, ladainha constante, nisso do “dantes é que era bom”. Que seja constatação, mas não desilusão! Acorri a comprá-lo, à hora de abertura da livraria do bairro logo no primeiro dia. Para de imediato encontrar vários sorridentes com o livro debaixo do braço – mesmo no comboio. É óbvio, este Astérix é global, apetecido, amado: o Astérix, o Gaulês teve uma tiragem inicial de 6000, o A Volta à Gália teve 60 000, o Astérix e Cleópatra (a reboque de Hollywood) de 100 000. Sessenta anos depois, com tudo o que mudou no consumo de livros, este Astérix na Lusitânia teve 5 milhões na primeira fornalha … Dantes é que era bom? E quantos dos que agora compram a novidade irão comprar os “antigos”? E quantos os irão reler? Revivê-los? Assim reviver?

Astérix é global. Foi dito reaccionário – gaulista também -, xenófobo. Racista até – Goscinny irava-se, descendente de polacos judeus, fugidos e vítimas dos pogroms sucessivos. Nacionalista – rir-se-iam disso os seus pais-autores, filhos dos tais polacos e de italianos. Michel Serres – talvez por ser tintinófilo militante, justiça lhe seja feita – disparatou que ali havia “nazismo”, devido à tendência para a bordoada e o uso do “doping”. Ou seja, este afã de “cancelamento” não é de agora, desde sempre que acompanhou as aventuras destes gauleses.

Mas Astérix é global. Assim cresceu e ficou. Porque, ao contrário dos críticos, é inteligente. Ele e os seus turbulentos vizinhos camaradas. Por isso herói alegre e nisso cómico, portanto complexo. Brinca-se com os estereótipos. Ou seja, com os pré-conceitos, não vistos como desvalorizadores mas como itens típicos, reconhecíveis, factos de distinção. Matéria única de reconhecimento, de pensamento. E joga-se com os anacronismos, colocando os problemas de hoje num “irredutível” passado, assim demonstrando-os, evidenciando-os aos distraídos de hoje.

Agora, finalmente (!), na 41ª aventura vem à Lusitânia. Alguns dizem que pouco a esmiúça. Sim, de facto apenas a Gália é vasculhada ao longo da série, numa glosa dos manuais escolares e patrióticos de então. Tenho cá em casa, herdado, o Le Tour de France par Deux Enfants, de G. Bruno (1913), depósito do que fora a visão da França (Gália) querida como verdadeira. Algures li que foi matéria-prima para o A Volta à Gália e tantos outros álbuns. Mas para nenhuma das outras excursões internacionais teve Astérix tantos guias Michelin (ou Lonely Planet) …

Do Astérix na Lusitânia já todos saberão da história. Chamados – como tantas vezes – para acudir contra um poder discricionário, Astérix, Obélix e Ideafix (demasiado secundário nesta aventura), aportam às Azenhas do Mar.

Obélix terá os seus recorrentes problemas de dieta, devido à omnipresença do bacalhau. Mas apreciará os pastéis de nata – e assim sendo é lamentável que Álvaro Santos Pereira não surja na festa na galera romana, entre os poderosos, seria uma boa homenagem… Insurgir-se-á ainda contra a delapidação pétrea dos nossos artífices, dados à calçada portuguesa. E apreciará os nossos excêntricos vinhos, uma “lança na Gália”, tão xenófobos vinícolas continuam a ser os gauleses. A actualidade impõe-se, na crítica contra os capitalistas omnívoros, corruptores – de facto – dos Estados. E, hélas, na canelada à espécie de “coletismo amarelo” surgindo nos afinal simpáticos turistas franceses, histéricos quanto às respectivas reformas… A trama também se adequa, centrada na exportação de … conservas portuguesas – a salmoura garo (que surge intraduzida, por razões que desconheço).

E os Lusitanos? Tipificados, claro, com o anacronismo devido. Sem regionalismos – como aconteceu no Astérix na Hispânia, por exemplo, completamente andaluz… Vigora o turismo, a omnipresente quinquilharia, a calçada portuguesa. E a melancolia, junto ao fado, esses pressupostos tão exportados que até julgamos serem nossos. O Estado (Novo) padronizou o fado o mais-que-pôde, embrulhou-o como canção de “alma triste”, contestou o vadio desgarrado, gentrificou-o. Entretanto um conjunto de poetas burgueses trinou a “saudade” e quejandas coisas, dizendo-as “Portugal”. Depois, o nosso actual regime panteonizou as generalizações “psicossociológicas” de Eduardo Lourenço. E assim vemo-nos e exportamo-nos como tristes… Os outros acreditam. Até nós o fazemos, como se de chapéu retorcido na mão diante desses doutos “senhores doutores”.

Enfim, o Pai René não está lá? Sim, eu já sabia disso. O Pai Albert também não? Sim, soube-o há pouco, ele também partiu. Em suma, gostei imenso do livro, que me importa se o desenho não tenha a densidade, espessura, do “antigo”, que Goscinny não brinque sobre nós? Pois ali é o meu mundo, a minha vida. A minha meninice?, sim, mas acima de tudo a minha felicidade. E logo fui reler os antigos, como sempre, como sempre…

Do que não gostei? Do português do Astérix na Lusitânia. Não por preciosismo linguístico. Há a questão de fundo, a malvada e disparatada tradução dos nomes das personagens, algo que a editora decidiu há anos e que é sinal de menoridade intelectual – os editores nem percebem que não estão a publicar para petizes, a necessitarem de traduções de nomes para se aproximarem das personagens.

Mas neste caso é pior. Pois o corpo do texto é violado. Diz-se sempre traduttore, traditore mas isso é um extremismo, até falacioso. A correspondência total é sempre impossível. Mas a lealdade para com o texto é um valor fundamental, e permite a fidelidade para com o sentido. Ao invés aqui aconteceu mesmo uma tradução que atraiçoa. Pois enfatiza os estereótipos usados pelos autores: basta isto, as personagens não se chamam Saudade, nem Tristês, nem Sacanês. Quem canta não é Amália, nem entoa a “Estranha Forma de Vida”. E a aldeia lusitana nada tem a ver com o manguito do Zé Povinho (nada melancólico, diga-se). E este enfatizar, esta manipulação através dos (significantes) nomes apostos à revelia, é uma traição. Aos nossos “irredutíveis gauleses”.

Em suma, “estes tradutores são loucos”…

(Também no meu “O Pimentel“)

Oferendas


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Apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas. Espirituais, em regime de abundância. E materiais…

Ontem encontrei-me no Restelo com um casal de amigos, daqueles desde há quarenta anos. Nas despedidas levaram-me até ao carro e disparou ele “toma lá” um pacote precioso. No qual, entre outras pepitas, estava a tradução policopiada do “Defeating Communist Insurgency: Experiences from Malaya and Vietnam”, de Sir Robert Grainger Ker Thompson, um célebre especialista em contra-insurgência na Ásia, distribuída na Escola de Estudos Superiores da Força Aérea em 1969! E – com as páginas ainda por abrir!!! – os dois volumes de “África e o Comunismo”, de Alejandro Botzàris, publicados em 1959/1961 pela Junta de Investigações do Ultramar…

Ajoujado pelo júbilo recuei aos Olivais, na senda de companhia mimosa. Ao invés deparei-me com máscula camaradagem, a qual me presenteou com sacos bibliófilos. Nos quais constavam meia dúzia de obras de Jorge Amado que não estavam nas minhas estantes – cá em casa a “dissidência” do autor havia minorado o fervor leitor do Senhor meu pai, naquilo do consabido (e não tão errado…) “o Jorge Amado não é um grande escritor”, e a Senhora minha mãe era demasiado francófona para tais tropicalices; 25 volumes das Obras Escolhidas “do Camilo” – é assim que os propagandeados leitores de Camilo Castelo Branco se lhe referem -, para mim preciosos, pois aqui a prateleira do autor é composta por livros legados pelos bisavô e avô paternos, edições de Lello e Irmão, Lopes e Companhia, Civilização e assim, tudo lá do Porto, de finais de XIX e inícios de XX, alguns encadernados mas a maioria puídos, quase se desfazendo ao toque, efeitos dos ancestrais fervores leitores e da incúria do tempo… E uma outra preciosidade – se cá tenho a “Anna Karénina” traduzido do russo para a Relógio d’Água por António Pescada ( e nisto dá sempre para lembrar a atoarda de Mega Ferreira, que preferia as traduções de Tolstoi via francês) juntou-se-lhe agora o “Ana Karenine”, luxuosa edição da Estúdios Cor (75 escudos em 1959!!!!) traduzida por… José Saramago!

E várias outras curiosidades, entre as quais este quase célebre “Férias com Salazar”, pelo qual começarei a excursão – não que queira eu ter “Férias com Ventura”, afianço.

Em suma, e repito-me, apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas…

Sentido Obrigatório


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Há alguns dias o meu amigo fotógrafo Pedro Sá da Bandeira inaugurou no Camões (Lisboa) a sua exposição “Senda Índica” (aqui deixei o que Graça Gonçalves Pereira escreveu para a “folha de sala” e o que eu naquele momento disse sobre este seu trabalho).

Nessa mesma sessão apresentei o meu livro “Sentido Obrigatório“, (que pode ser comprado através da ligação colocada no título), o qual é uma colecção de 30 textos dedicados a Moçambique.

Neste postal coloquei a gravação de uma entrevista televisiva ao programa Mar de Letras, meia hora de conversa dedicada às vivências que conduziram aos meus livros “Torna-Viagem” e “Sentido Obrigatório”. E juntei-lhe o “improviso escrito” que fiz para a sessão de apresentação deste novo livro.

Fica a referência para quem se queira interessar.

Uma Exposição Fotográfica, um Livro, uma Entrevista Televisiva


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Hoje mesmo, 18 de Setembro, ao fim da tarde no (Instituto) Camões, sito exactamente no Marquês de Pombal, eu junto-me ao Pedro Sá da Bandeira, ele inaugura a sua exposição “Senda Índica” – que ficará até 2 de Outubro -, eu apresento o meu “Sentido Obrigatório”, 30 textos de opinião sobre Moçambique (e algo de Portugal). Fica aqui o convite para quem quiser comparecer…

Quem tiver paciência para me ver a tentar divulgar este “Sentido Obrigatório” (e o anterior “Torna-Viagem“), aqui deixo ligação para a minha entrevista no “Mar de Letras“, transmitida ontem, meia hora de conversa sobre Moçambique. Os livros podem ser adquiridos através desta ligação.

Ler (38)


Pedro Correia,

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Eu sei que estamos a meio do ano, não é tempo para balanços. Mas por motivos vários não pude trazer antes o das minhas leituras de 2024. Referindo-me, em concreto, às melhores obras literárias, de vários géneros, que me passaram pelas mãos no ano passado. 

Confirmo agora: li 85 livros completos, sem fazer oscilar muito a média da década. Em dose menos elevada do que e2020 e 2021, quando li duzentos – uma centena em cada ano, nesses tempos que propiciavam poucas saídas e quase nenhumas viagens devido à pandemia. Mais próxima de 2022, ano do desejável e tão ansiado desconfinamento, quando me fiquei pelos 88. E claramente acima dos 71 lidos em 2023.

 

Deixo ali em baixo as doze obras que mais me empolgaram, por motivos diversos, em 2024. Anotando, de passagem, que certos títulos acumulados perto da minha cabeceira voltaram a ficar adiados: Herzog – Um Homem do Nosso Tempo (Saul Bellow), A Piada Infinita (David Foster Wallace), Na Minha Morte (William Faulkner), Os Sonâmbulos (Hermann Broch), Auto-de-Fé (Elias Canetti), A Consciência de Zeno (Italo Zvevo) e Rua Principal (Sinclair Lewis).

Isto só nos romances. Porque nos livros de História ou ensaio permanecem por ler vários outros. Estes, por exemplo: Jerusalém, de Simon Sebag Montefiore (657 pp.), Rússia – Revolução e Guerra Civil 1917-1921, de Anthony Beevor (671 pp.), O Novo Czar – Ascensão e Reinado de Vladimir Putin, de Steven Lee Myers (670 pp.), Mao – A História Desconhecida, de Jung Chang (803 pp.), O Século de Sartre, de Bernard-Henry Lévy (712 pp.) e Entrevistas, de Jorge de Sena (483 pp.).

Muitas páginas, pouco tempo. Que é o nosso bem mais precioso. Não se iludam: vamos tomando consciência disto a cada ano que passa. 

 

Seguem breves apontamentos dedicados a cada um destes doze. Por ordem alfabética: é a que prefiro.

 

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A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS, de Yasunari Kawabata (1961). Espantosa meditação sobre o sexo, a infância, a velhice, a vida e a morte nesta novela carregada de simbolismo sobre um homem de 67 anos que procura a juventude perdida frequentando uma estranha casa nocturna onde paga sonos sobressaltados partilhando o leito com jovens adormecidas. Prosa poética, escrita com perfeição quase inultrapassável nesta obra tingida de melancolia crepuscular. Decorre no Japão, em época imprecisa, mas podia situar-se noutro quadrante porque fala de fantasmas que rondam tantos de nós. Do Nobel de 1968. Tradução de Luís Pignatelli. Edição D. Quixote.

 

COMO ESCREVER, de Miguel Esteves Cardoso (2024). Abundam hoje os livros de “escrita criativa”, assinados por gente com reduzida aptidão tanto para escrever como para ensinar. Um dos mais influentes e experientes cronistas portugueses, com suave intenção irónica, desmonta nas entrelinhas esses manuais que enxameiam as prateleiras. E diz-nos, muito a sério, como tudo deve começar. Terá sido assim com ele ao vencer pela primeira vez o fantasma da folha em branco. Passo a passo, sem ter medo. Edição Bertrand.

 

KAPUTT, de Curzio Malaparte (1944). Uma das obras mais pungentes, dolorosas e originais sobre a II Guerra Mundial, cujos ecos voltam a assombrar a Europa. Malaparte cria aqui um género literário que viria a chamar-se “novo jornalismo” – reunindo crónica, reportagem, testemunho directo e óbvia efabulação com tintas de realismo mágico. O horror da guerra sempre em pano de fundo. Escrita superior, mesmo em trechos quase insuportáveis. Edição Cavalo de Ferro, recuperando e actualizando tradução de Amândio César.

 

JORNADA PARA A NOITE, de Eugene O’Neill (1956). Está em lugar cimeiro entre os dramas teatrais do século XX. Centrado numa família cheia de cicatrizes: droga, alcoolismo, desamor. Mãe, pai e dois filhos encerrados numa mansão povoada de memórias funestas que vão surgindo à superfície. A acção decorre num “medonho dia em quatro actos e cinco quadros”, na definição de Jorge de Sena, cuja tradução valoriza ainda mais esta obra-prima de O’Neill, Nobel da Literatura em 1936. O cunho autobiográfico da peça, escrita em 1941, era óbvio ao ponto de levar o dramaturgo a exigir que só viesse a público após a sua morte, em 1953. Com aplauso generalizado e ampliado pela adaptação ao cinema por Sidney Lumet, em 1962, com Katharine Hepburn e Jason Robards nos papéis do casal Tyrone. Edição Cotovia.

 

LOS SANTOS INOCENTES de Miguel Delibes (1981). Prémio Cervantes de 1993, Delibes (1920-2010) continua ignorado pelas editoras portuguesas. Omissão imperdoável. Uma das suas melhores obras é esta novela desenrolada na Castela rural do início dos anos 60, próxima da fronteira portuguesa – com os seus fantasmas, os seus atavismos, as suas obsessões. Todos os condimentos do drama clássico, linguagem depurada com mão de mestre. Deu filme homónimo, realizado por Mario Camus e premiado em Cannes. Edição Planeta (Barcelona).

 

MATADOURO CINCO, de Kurt Vonnegut (1969). Romance em cenário bélico percorrido pela frase-chave “é a vida”. Sempre com pinceladas de humor sombrio no rasto do anti-herói, Billy Pilgrim, americano mobilizado para a II Guerra Mundial e feito prisioneiro dos alemães em Fevereiro de 1945. O autor cruza literatura de guerra com ficção científica, de modo criativo, e marca também presença no enredo  – ele que testemunhou o massacre de Dresden em tempo real. O estilo, novidade quase absoluta para a época, não terá hoje o mesmo impacto. Mas ainda é obra marcante, também como reflexão sobre a vida. Tradução de Miguel Cardoso. Edição Alfaguara.

 

O GANGUE DA CHAVE-INGLESA, de Edward Abbey (1975). Originalíssimo romance norte-americano, com vários níveis de leitura – desde as típicas bravatas dignas de qualquer livro de aventuras, com toque juvenil, até um manifesto ecológico contra a falsa modernidade. Sem perder o fundo humanista nem deixar de ser um retrato genuíno da época em que surgiu, assinalada nos EUA pela contracultura e pelo pesadelo da guerra do Vietname que se arrastava sem fim à vista. Exemplar tradução de José Miguel Silva. Edição Antígona.

 

O OLHAR MAIS AZUL, de Toni Morrison (1970). Aqui testemunhamos a perda da inocência numa comunidade cheia de racismo e preconceitos diversos na chamada “América profunda” (Ohio), no início dos anos 40, quando o segregacionismo ali imperava e as memórias esclavagistas mal se tinham dissipado. Partindo dos olhares de três crianças negras – uma das quais é a menina que sonha ter olhos azuis, como as deslumbrantes actrizes que ela observa nas revistas. Comovente romance de estreia da escritora que receberia o Nobel em 1993. Tradução de Tânia Ganho. Edição Presença.

 

O OUVIDOR DO BRASIL, de Ruy Castro (2024). Conjunto de 99 crónicas originalmente publicadas na imprensa tendo como denominador comum um nome maior da música popular do século XX: Antônio Carlos Jobim (1927-1994). O melhor biógrafo brasileiro desvenda aqui segredos de Jobim com uma leveza de escrita que nunca deixa de ser profunda. Mergulhamos na paisagem artística e boémia do Rio de Janeiro e no inigualável mundo da bossa nova, precioso contributo do Brasil para o mundo. Edição Tinta da China.

 

SAGARANA, de João Guimarães Rosa (1946). Extraordinário livro de contos ambientados no sertão de Minas Gerais nas décadas iniciais do século XX. Guimarães Rosa regressa aqui ao mundo primordial e primitivo da sua infância, recriando-o com admirável talento literário. Já tomando balanço para Grande Sertão: Veredas, romance que viria a imortalizá-lo dez anos depois. São oito histórias redigidas com sábio ouvido para captar falares regionais, sugestivas metáforas e um vasto cortejo de neologismos, à semelhança do que Aquilino Ribeiro fazia na mesma altura em Portugal. Histórias povoadas de personagens castiças, confrontadas com a inclemência da natureza e rudes paixões humanas. “O Burrinho Pedrês”, “O Duelo”, “O Regresso do Marido Pródigo” e “A Hora e Vez de Augusto Matraga” são tão vibrantes hoje como quando foram escritas. Edição Nova Fronteira (Rio de Janeiro).

 

TEMPESTADES DE AÇO, de Ernst Jünger (1920). Talvez o melhor livro jamais escrito sobre a I Guerra Mundial, apesar da forte concorrência de autores como Ernest Hemingway e Erich Maria Remarque. Estamos envolvidos nas trincheiras, no lodo e na lama, nas longas esperas ansiosas, nos combates mais ferozes. Com fome, sede e frio. Chegamos a sentir repugnância pelo género humano e a duvidar de todas as crenças e todas as utopias. Entregues à missão primordial de sobreviver. Reportagem-romance ou romance-reportagem do grande prosador e pensador alemão? Os rótulos pouco importam. A ler ou reler com urgência. Tradução: Maria José Segismundo Santos. Edição Guerra & Paz.

 

TORNA-VIAGEM, de José Pimentel Teixeira (2024). Digressão literária, no tempo e no espaço, centrada na experiência deste antropólogo – um dos autores do DELITO DE OPINIÃO – como residente de longa duração em Moçambique, país que abraçou como segunda pátria. Espécie de Ulisses do avesso, agora no regresso melancólico ao torrão natal. Crónicas de torna-viagem, antigo termo de ressonância náutica criado a partir das odisseias dos portugueses pelo mundo. Algumas são, de facto, excelentes contos, justificando futura publicação autónoma com essa etiqueta. Edição Bookmundo.

Em Évora


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No passado sábado fui apresentar o meu “Torna-Viagem” – a tal centena de crónicas, dois terços das quais dedicadas a Moçambique – na belíssima Biblioteca de Évora, dirigida pela nossa co-bloguista Zélia Parreira. Fui nisso acompanhado pelo escritor moçambicano José Paulo Pinto Lobo – que teve a paciência de elogiar o livro – e por uma trintena de amigos, numa verdadeira excursão que muito bem nos soube. Pois foi um dia memorável.

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Estando eu agora na posse do tão útil passe ferroviário – esse que alguns propagandistas avençados julgam ser “rodoviário” -, viajei de comboio, na companhia de uma parcela da escolta que me rodeava. Entre eles o também nosso co-bloguista Zé Navarro de Andrade. E assim, ali sobre carris, fui ofertado com o seu  recentíssimo (apresentado na véspera) “Toque de Jazz“, um “Dicionário Subjectivo” que garanto ser precioso , em particular para os que não somos os “amadores” de jazz, esse clã tão peculiar…

Oriundos de várias proveniências congregámo-nos na célebre Praça do Giraldo.  E seguimos a um magnífico almoço, em boa hora reservado na “Associação Cultural É Neste País“, naquelas cercanias. Foi o manjar aplaudido, em pé! E ficou o local como nossa referência eborense.

(Bem) Saciados seguimos à sessão, animada pelo belo texto do Pinto Lobo, pelo que eu balbuciei e ainda por um debate final, mais entusiástico do que eu esperaria. E depois o prato-forte: a directora da Biblioteca conduziu-nos numa visita pelas instalações, discorrendo sabiamente sobre as actividades que a sua equipa conduz. E terminou com uma demonstração de alguns dos livros antigos que abrilhantam a espantosa biblioteca. Algumas imagens apostas nos livros ficaram-nos impressionantes. Umas mais ligadas ao historial de Moçambique. Mas aqui partilho esta deliciosa Virgem Amamentando, claro que prévia ao concílio de Trento, no qual foram proibidas estas representações.

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Todos viemos encantados. E imensamente gratos à Zélia Parreira. Pois foi um grande dia. Melhor dizendo, um g’anda dia!

Adenda: deixei mais detalhes do dia – gastronómicos e não só -, e mais imagens, para além do texto do Pinto Lobo, neste postal mais extenso na minha recente página. Fica a ligação para quem tenha curiosidade.

A “lisboa” Literária


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Há três anos fui beber um copo de fim-de-tarde com a minha querida amiga Ana Leão, que chegara de Moçambique. Disso deixei esta croniqueta – de que gostei, tanto que a meti no pacote “Torna-Viagem” que venho impingindo. Nostálgica, até saudosista, muito resmungona. Mas também esperançosa. Pois foi o dia em que descobri a Livraria Martins na Guerra Junqueiro – era muito recente, dela não ouvira falar, desconhecia a origem, até a julguei ser coisa de “carola” livreiro mas afinal é de grupo editorial (o que é bom, garantir-lhe-á alguma sustentabilidade).

 

Não fiquei cliente – não posso comprar livros. Mas fiquei simpático. E, passados anos, ao descobrir que organiza um “podcast” Quinteto Literário ouvi duas sessões. Agora a terceira deu imensa polémica. Pois o crítico e escritor João Pedro George espalhou-se, e muito (e muito mesmo…) ao falar da escritora Madalena Sá Fernandes, e com o beneplácito do moderador do programa (que também meteu os pés pelas mãos, já agora). George já fez a sua samokritica mas quero crer que não lhe chegará para acalmar más vontades e abrenúncios.

 

George é um tipo interessante de acompanhar (ler). É uma espécie de “etnógrafo” do “campo literário” português – e como é usual entre os etnógrafos quando se abalança às suas “monografias” escreve de modo insistente, repetitivo, até cansativo, tamanha a sanha expositiva. Nesse registo lembro quando dissecou o Cotrim e quando abocanhou o Mega Ferreira – então ainda vivos -, textos relevantes pois demonstrativos do “campo cultural-político” da “lisboa” em que vivemos.

 

Neste caso borregou. Porque falou em termos descabidos de uma escritora, e isso será uma conclusão unânime. Inventa-lhe uma auto-erotização publicitária que não é verdadeira. E critica-a por divulgar os seus livros (“so what?”, perguntar-se-á em bom português). Mas a matéria mais relevante é o conteúdo da sua anunciada “abordagem sociológica” à escritora.

 

Eu não conhecia Sá Fernandes até há umas semanas. Tenho uma filha de 22 anos – já agora, a Carolina, que apenas vivera em Portugal durante os confinamentos e no ano do seu primeiro mestrado, emigrou ontem, “foi lá para fora ganhar a vida” – que é uma jovem Senhora bem lida. O que é normal, pois com uma mãe leitora, um pai que também o é, ainda que anárquico, e avós leitores. Nenhum de nós, seus ancestrais, somos da “literatura” mas fomos dando “dicas”. E ela desde há anos que faz o seu rumo leitor. Há dias recomendou-me uma crónica de Sá Fernandes – sobre o Café Luanda e sua avó – na qual se reviu. Eu também, simpatizei. (E é ela quem agora me chama a atenção para este “caso”).

 

E julguei aquela crónica bem melhor do que inúmeros textos na imprensa de escritores renomados – “consagrados”, “canónicos”, indiscutíveis membros da “literatura” – que anunciam como “crónicas” meros textos de opinião política. Opiniões essas (mais ou menos justas ao olhar de cada um, isso não interessa) que são formas de construir, sedimentar, reproduzir, publicitar, a “personalidade literária” de cada autor. Uma auto-construção do “eu”, do “self” literário, que parece ofender os membros daquele podcast culto da Livraria Martins. Mas, de facto, alguém ficcionista/poeta que vai para os jornais escrever (sem sequer ser pago, como agora é norma) a favor/contra ucranianos, palestinianos, vítimas dos bancos, da violência doméstica, vacinas, trump e quejandos, está-se a “construir” / “divulgar” mais do que se for almoçar à bela Serpa e se deixar fotografar. Feliz.

 

(E, lamento, mas uma pessoa com 30 anos normalmente é mais bonita – fresca, que seja – do que com 50 ou 60. Estes últimos podem ter ganho prémios literários, terem sido louvados no Público e no JL, mas estarão encanecidos, engelhados, com papadas descendentes, barrigudos, carecas. Criticar-se os mais-novos por não estarem assim? E terem o desplante de sair à rua nesses mais ou menos belos modos?)

 

Enfim, a matéria da “abordagem sociológica” deste modo exercida desperta-me dois eczemas, ambos relacionados com a velha oposição “nós”/”outros”, o que bem ultrapassa os conteúdos das obras (até porque não sou especialista da “literatura”). No fundo, trata-se da tal “lisboa” a autodefinir-se. E resmungo com esses meus pruridos assim:

 

1. Abordar o trabalho de alguém segundo o paradigma “Joana Marques”. Ou seja, abandalhar. Acontece que Joana Marques tem humor, esse sacrossanto álibi. E de facto esmiuça, cruel, o lumpen do entretenimento nacional, o qual incessantemente produz mundividências muito criticáveis – o outro dia ouvi-a sobre um DJ que clamava que aqueles que não seguem boas “griffes” não saem da “sopa torta”, por exemplo.

 

Mas é impertinente abandalhar uma escritora, pacífica, apenas porque se considera que escreve segundo os modelos da “escrita criativa”, porque (!!!) não corresponde visualmente às angústias que (d)escreve. Francamente, esta é a tal “lisboa” – “eu sou escritor e crítico” diz George, como tal pertence à “literatura”. Já Sá Fernandes é gozada por ter o desplante de dizer “entrei na literatura“. Isto é mesmo a tal “lisboa” desbragada, a cagança…

 

2. O segundo ponto, meu eczema mais grave, pois é o que mais me irrita. Sá Fernandes é invectivada – “sabe como se mexer neste mundo de hoje” – por usar as “redes sociais” para se divulgar (a tik-tok, a instagram, se fosse há alguns anos seria no FB ou mesmo, antes, nos blogs, estes lugares de ilegitimidade…). Ao lado de George e do moderador (que aventa ser a escritora uma “destruidora de casamentos”, uma “boca” tétrica), está uma outra escritora, Ana Bárbara Pedrosa, da qual não li livros. Algo arredada do tom cáustico sobre a escritora, mas aproveitando para dissertar sobre a tal “construção” de “personalidades literárias” através do manuseamento da imagem nas redes sociais. Ou seja, as “redes sociais” (a exposição pública, entenda-se) e a conjugação com outros escritores são vistas como fenómenos “ilegitimadores” ou, pelo menos, apoucam…

 

É esta “lisboa” de novo. Desconhecia Pedrosa até há pouco. Há meses, numa alvorada, alguns amigos de Maputo avisaram-me de um texto dela, publicado (claro) no “Público“. Passado algum tempo insistiu e publicou outro na “Sábado“. Enviaram-me esses amigos a ligação ao primeiro texto acompanhada de questões, a mais simpática das quais era “quem é esta gaja?“.

 

Ambos os textos são “crónicas” de viagem, quase como se reportagens, dedicados à situação política moçambicana. Poupo nos adjectivos: são ignorantes. E absolutamente cagões. E uma verdadeira encenação, uma produção de “personalidade literária” – a escritora empenhada chegada ao país “em crise” (ou, se se preferir, “a África”), que logo percorre (enfim, a capital…) e que logo tudo percebe e sobre isso perora, ciosa opinativa. A clarividência “on the road”…

 

Ou seja, para George e para o moderador, uma jovem escritora que escreve como ensinam na “escrita criativa” e se divulga porque se sabe mexer nas “redes sociais” digitais não “faz parte” e é achincalhável. Mas uma jovem escritora que se mexe bem nas “redes sociais” da “lisboa”, a “secção africanista” do “Público” (sobre a qual é melhor nem discorrer) ou quejandos jornais, a “rede social” “activista”, e decerto que em “sites” decoloniais, etc.? Essa já “faz parte”. Pois “é das nossas”.

 

Não fosse eu ateu e diria que os espíritos do Cotrim e do Mega Ferreira – que bem mereceram ser escalpados, já agora – se estariam a rir. Pois, de facto, “les beaux esprits se rencontrent”.

O tempo de todos os perigos


Pedro Correia,

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Passo por uma das livrarias que mais frequento e reparo nestes livros em destaque. Todos com um traço comum: falam-nos de um mundo cada vez mais perigoso. Um mundo onde voltou a banalizar-se a palavra guerra – até nesta Europa que alguns imaginávamos imune a novos conflitos armados, iludidos pela ordem internacional nascida dos armistícios de 1945 e embalados pela utopia da paz perpétua.

 

A verdade é que estamos no quarto ano consecutivo de guerra no continente europeu – por enquanto apenas na extremidade oriental, com a martirizada Ucrânia a sofrer sangrentas investidas diárias do inimigo moscovita. Mas acumulam-se outros sinais preocupantes. Aumento intensivo do orçamento nos Estados membros da União Europeia para despesas ligadas à segurança e à defesa. Rearmamento alemão, agora consagrado em revisão constitucional. Prestação de serviço militar obrigatório reponderada ou já reposta em países como Finlândia, Suécia, Polónia e Estados bálticosClivagem evidente entre os EUA e o pilar europeu da NATO, com ameaças directas da administração Trump a alguns dos seus parceiros na Aliança Atlântica, como o Canadá e a Dinamarca, enquanto o chefe da Casa Branca declara abertamente a intenção de anexar a Gronelândia.

Que mais?

Proposta de Emmanuel Macron para garantir a força nuclear francesa como elemento dissuasor face às crescentes ameaças da Federação Russa. Balcãs e Cáucaso sacudidos por ruidosas manifestações de rua em países tão diversos como Sérvia, Bósnia, Roménia, Bulgária e Geórgia. Turquia em convulsão enquanto Erdogan implanta uma ditadura sem disfarce algum. Expansionismo neo-imperial de Moscovo projectando sombras sinistras do Báltico ao Mar Negro, com Putin indiferente às centenas de milhares de vítimas que já causou. Pequim cada vez mais disposta ao assalto bélico a Taiwan, enquanto disputa águas territoriais com Vietname e Filipinas. O tirano da Coreia comunista multiplicando ameaças contra o vizinho do Sul, entre alusões contínuas ao holocausto atómico.

 

Não posso criticar. Também eu, se fosse editor, daria primazia absoluta a estes livros.