Rota renovada


Sérgio de Almeida Correia,

AdamSismanRL2026.jpg

Terminou há pouco mais de uma semana a 15.ª Edição do Festival Literário de Macau, mais conhecido como Rota das Letras, ou Script Road na sua versão em língua inglesa. Gostaria de ter escrito mais cedo umas linhas sobre o que acompanhei, mas obrigações mais prementes impediram-me de fazê-lo antes.

Depois de despejado do edifício do antigo Tribunal de Comarca e de uma passagem efémera pelo velho Matadouro da Barra, o Festival instalou-se de armas e bagagens na Casa Garden, ali mesmo ao lado do Jardim Luís de Camões, que acolhe o busto do poeta, protegido pela sua gruta e toda a fauna e flora que disputam a pacatez do local. E em boa-hora o fez.

Embora o espaço disponibilizado pela delegada da Fundação Oriente em Macau se situe numa zona muito movimentada, de acesso nem sempre fácil e sem estacionamento automóvel, transmite a quem franqueia o portão, e assim que se abeira do jardim e do seu pequeno lago, uma sensação de serenidade e pacatez, protegidas pela dignidade, equilíbrio das linhas e simplicidade da construção.

Com dois espaços distintos e polivalentes para conferências e exposições, um auditório, um pequeno bar de apoio, salas acolhedoras, luminosas e bem decoradas, com uma livraria de ocasião, onde era possível adquirir exemplares de livros dos autores presentes, foi possível ali acomodar um conjunto de eventos, incluindo exposições de fotografia e sessões de cinema, com facilidade de movimentação e espaço suficiente para as pessoas conversarem e circularem sem terem de andar aos encontrões. Espero, por tudo isso, que nos próximos anos seja possível continuar a contar com o apoio de Catarina Cottinelli e uma morada certa para a Rota das Letras.

Bem sei que uma edição como a deste ano que se prolongou, em rigor, por duas semanas, e não se cingiu à Casa Garden, deambulando em passeios guiados pelos bairros antigos com Jason Wordie e pela cidade de Pessanha, que passou pelo terraço do Hotel Central, num final de tarde, pelas fotos que vi e do que me relataram, esplendoroso, na companhia do historiador Paul French e da jornalista Anne Marie Evans, e ainda pelo Centro Cultural de Macau e a Doca dos Pescadores, onde se assinalaram, noite fora, os 40 anos da Rádio Universidade de Coimbra, não é de fácil organização. E não fosse a ausência de Rodrigo Leão, a ser colmatada num futuro próximo, devido à desestabilização provocada por Trump e Netanyahu e as suas incursões no Irão, poder-se-ia dizer que a edição este ano, para os meios disponíveis, a dimensão da cidade e o público com que se pode contar, não desmereceu edições anteriores. Bem pelo contrrário, celebrou condignamente os seus 15 anos. Alguns eventos com salas cheias comprovam-no e constituem justo estímulo para a organização.

Quem ainda não o tinha podido fazer pôde visionar Ballad of a Small Player, A Herdade e Restos do Vento, estes dois filmes de Tiago Guedes, e o documentário Salatinas, de Filipa Queiroz, Rafael Vieira e Tiago Cerveira. E foi possível ouvir e declamar poesia, ver as fotografias de Alfredo Cunha e Liu Zheng, a banda desenhada de Guy Delisle, aprender algumas receitas da gastronomia local ou adquirir um guia de iniciação para candidatos a coleccionadores de arte.  

É verdade que há alguns nomes e caras que se repetem, mas isso é fruto das contingências locais, não tanto de um programa de protecção de minorias; antes de apadrinhamento de espécies em vias de extinção.

Dos que estiveram, e não possuindo o signatário propriedades ubíquas, salientaria, pela diferença e novidade num meio cada vez mais fechado e pouco dado a experimentalismos, os nomes de Adam Sisman, o biógrafo de John Le Carré, que nos trouxe o seu último livro, bem como Amitav Ghosh e Hernán Diaz, este último vencedor do Pullitzer e autor do incontornável Trust, Confiança na edição em língua portuguesa. Thomas Bird deu-nos a conhecer Harmony Express, China by Train, e Mark O’Neill o legado continental e celta em Hong Kong. A professora Ana Paula Barros apresentou o seu livro de crónicas, e não faltaram as homenagens a José Maneiras e Rodrigo Leal de Carvalho, figuras que marcaram a vida da cidade durante décadas, recentemente desaparecidos.

Nota alta para a participação dos jornalistas, aqui autores, Miguel Carvalho (“Por dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal”) e João Miguel Tavares (“José Sócrates – Ascensão, 1957-2005”) falando de democracia e política pura e dura num ambiente de elevado aprumo patriótico, contenção e auto-controlo, não deixando de ser curiosa a apresentação de um livro da jornalista Andreia Sofia da Silva com o título “O Lápis Vermelho, A censura à imprensa em Macau durante o Estado Novo”, enquanto não se escreve a história da censura, dos censores e dos seus escribas no segundo sistema.

Esta breve crónica não ficaria completa sem uma referência à apresentação da peça “À primeira vista, O outro lado do tribunal” (Prima facie, the Other side of the Courtroom”), um monólogo de Suzie Miller, pleno de actualidade, excelentemente encenado por Tiago Guedes e com uma magistral interpretação de Margarida Vila-Nova. A dificuldade do texto, a sua extensão e o exigente trabalho de memorização só contribuíram para realçar ainda mais o brilhantismo da interpretação.

Só com textos exigentes é possível reconhecer uma grande actriz. Margarida Vila-Nova, que cresceu muito na última década, mostrou que o é, teve uma performance de mão cheia, encheu o palco, dando ainda mais luz à sala de audiências, e fechou com chave de ouro a edição de 2026 do Festival Rota das Letras. Venha o próximo.

MC JMT RL 14032026.jpg