O legado da década de Marcelo (2016-26)


Pedro Correia,

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«Portugal enfrenta desafios estruturais que se arrastam há tempo demais. Crescimento económico insuficiente, economia baseada em baixos salários, dificuldades persistentes, pobreza constante, envelhecimento demográfico, morosidade na justiça, burocracias públicas, dificuldades nos acessos à saúde e à habitação, falta de mão-de-obra, escassez de oportunidades para os mais jovens, insegurança para os mais idosos, desconfiança nas instituições e na política.»

O fim dos mandatos de “Marcelo”


jpt,

Marcelo inaugurou um hotel, aconselhou dialogos com elefantes e renunciou a um mergulho no Índico. “Custa muito ser Presidente”

(Rebelo de Sousa em Moçambique. Visita para a inauguração de um hotel do grupo Visabeira, Março de 2022. Fotografia de autoria não explicitada (talvez da jornalista Eunice Lourenço, que retirei do “Expresso”)

Neste fim-de-semana Marcelo Rebelo de Sousa termina o seu segundo mandato como presidente da República. Ao longo dos anos fui escrevendo vários postais em diferentes blogs sobre este Rebelo de Sousa, homem que sempre desconsiderei. 

Neste postal no meu blog “O Pimentel” congreguei dez desses textos – o primeiro de 2008, bem antes de eu imaginar que o homem viria a ser PR. Nele apenas ecooei como a minha filha, apesar de então nos seus cândidos seis anos, desvendou a populista de popularucha vacuidade daquele “Marcelo”. Os outros escritos entre 2016 – antevendo o que aconteceria, que ele nada mais faria do que aplicar a receita populista que seu pai utilizara como Governador de Moçambique – e 2024, num roteiro de dislates presidenciais.

Recoloco aqui a ligação na presunção de que a sua leitura possa ser interessante, neste final de mandato, recordar o rumo do pior presidente da República que este regime teve.

Acabou


jpt,

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Acabou! Convirá lembrar que o rasteiro populismo que ontem foi derrotado na votação chegara a Belém há 10 anos. Rebelo de Sousa, desde o mariola mergulho no Tejo aos patéticos banhos nas praias das “ex-colónias” até às loquazes passeatas desta semana, foi o grande introdutor do populismo como modo de vida política. Com os efeitos que teve. Acabou ontem. Uma incompetência e uma inconsciência inenarrável. Fim!

Tempestades e Eleições


jpt,

Tempestades e Eleições

 

(Fotografia de António Pedro Santos/LUSA, feita nas cercanias do Lis, que ficará simbólica das ocorrências neste Inverno)

Sempre me irritou o hábito de se atribuírem nomes próprios às tempestades, dizendo-as Joseph, Kristin, Leonardo, etc. De facto, é um resquício do pensamento “animista” – como antes se lhe chamava. Nisso de se atribuirem características humanas à Natureza circundante, assim entendendo-a – mesmo que só de modo inconsciente – como determinável pelas nossas acções. As de nós próprios e as dos nossos ancestrais, quantas vezes temidos como guardiões da ordem, atentos censores até vingativos, as tais “almas” que os “animistas” presumiam activas mundo afora.

Alguns dirão que hoje em dia ninguém crê que a “Kristin” que agora nos devastou seja a emanação de defuntos “cristãos” irados pelo nosso (aparente) racionalismo, ou uma avoenga despeitada por não a invocarmos em missas e com desperdícios nas campas. Ou mesmo uma bruxa viking saudosa das razias costeiras. Ou um “castigo divino” exarado pelo Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente Uno.

Mas trato de algo diferente. De um modo de pensamento que restringe as intempéries a cadeias de causas-efeitos de estrito âmbito humano. É a tal irreflexão feiticista (isso do “animismo”), sempre obrigada a encontrar os bodes expiatórios, cuja imolação permita acalmar o futuro. É certo que, ao invés do que vigorava no passado, agora não se procura determinar o vizinho responsável, esse que invocou a ventania, a desgraça. Mas sim o vizinho responsável, o que não vedou a tal ventania. E nisso não se atentam nas condições materiais (“estruturais”, se se quiser) dos fenómenos, nos feixes multicausais a exigirem actuações complexas. E assim tantos (quase todos?) se satisfazem na demanda dos culpados a lapidar nos rossios, televisivos que sejam estes.

Nestes já longos dias parece que a administração pública titubeou – numa ineficiência similar à acontecida em outros recentes desastres. Porventura por falta de planificação central, decerto que por deficiente organização. E, quero crer, devido à má influência do (constante) clientelismo no preenchimento das chefias intermédias.

Também é evidente que o nosso governo meteu os pés pelas mãos ao enfrentar esta crise. Demonstrando um remanso prévio e um desnorte no momento, patente na atrapalhação executiva e comunicacional de vários ministros, até pungente em alguns casos. Com a evidente excepção de Maria de Graça Carvalho, a ministra do Ambiente, uma mulher desde há muito reconhecida como tendo grande gabarito, e que aparece assim como imerecendo estar acantonada nesta verdadeira “turma de repetentes”, agregada por Montenegro.

Ainda assim, e porque sem qualquer vontade de assistir a autos-de-fé, parece-me descabido o rumo do presidente da república. Já várias vezes resmunguei – e aqui me sumarizei – com o real populismo de Marcelo Rebelo de Sousa. E é óbvio que a histriónica personagem acolheu esta crise para fazer o seu “grand finale” presidencial, nisso não se coibindo de invectivar algumas instituições, num registo descabido. Para o momento e para o futuro. Sobre isso, o facilitismo (populista) do nosso PR, recomendo a leitura deste texto de Henrique Pereira dos Santos, tão apropriadamente chamado “Marcelo Ventura”.

(E, a latere, a imprensa não segue muito melhor: caso extremo, até inaceitável foi a actuação das estações televisivas CNN e TVI, a deturparem conscientemente a acção das Forças Armadas.)

Finalmente há dois pontos políticos que me surgem face a estas ocorrências e à atrapalhação estatal:

1) é-me evidente que se estas tempestades e cheias tivessem ocorrido umas semanas antes o Almirante Gouveia e Melo, devido ao seu prestígio, teria sido votado o suficiente para chegar à segunda volta e, depois, a presidente da República;

2) não me parece que estes acontecimentos reforcem a votação em André Ventura – porventura reforçarão a sua percentagem final, ao contribuirem para um aumento da abstenção, a qual será mais fácil aos apoiantes de um Seguro que aparece como “já eleito”. Mas decerto que a atrapalhação estatal e ministerial sedimentarão os queixumes contra a “bandalheira”, o grande mote do movimento do agora candidato presidencial.

Ou seja, para enfrentar este venturismo o necessário não é gritar “vêm aí os fascistas”. É só preciso… uma melhor organização estatal! Não será impossível. Mas para isso muito será necessário que os políticos saiam das suas bolhas… de interesses.

(Este é um dos dez textos que incluí na “Gazeta Semanal” do meu “O Pimentel“)

Marcelo a ser Marcelo


Pedro Correia,

 

Numa decisão aberrante, o Presidente da República acaba de convocar o Conselho de Estado para 9 de Janeiro. Com a intenção declarada de debater a guerra na Ucrânia e as suas implicações para Portugal.

Aberrante por vários motivos. Porque a dita reunião ocorre a meio da campanha oficial para a eleição de 18 de Janeiro. Porque dá palco suplementar a dois candidatos presidenciais, André Ventura e Marques Mendes, ambos com assento no Conselho de Estado, em desfavor dos restantes. E porque a guerra de agressão da Rússia à Ucrânia começou há quase quatro anos, sem que Marcelo tenha sentido necessidade de auscultar os conselheiros sobre o tema até agora. Como diria António José Seguro noutro contexto: Qual é a pressa?

Enfim, nada de novo: é Marcelo a ser Marcelo. Já estamos habituados.

Deste Marcelo, com toda a franqueza, não sentiremos saudades.

Ele há coisas…


Cristina Torrão,

Ou seja, com esta história dos hambúrgueres, Ventura transformou a imagem de um Presidente tagarela e meio gagá, num Presidente simpático e bem visto, até pela esquerda. Os memes que se vêem, nas redes sociais, são todos muito generosos com Marcelo Rebelo de Sousa. Como se fosse ele o autor de um humor fino e descontraído. E isto, vindo de vários quadrantes políticos. É obra!

A responsabilidade política


jpt,

Palácio de Belém - PRESIDENCIA.PT

 

Há 3 dias deixei uma nota – invocando os velhos Doors e Floyd – mostrando o meu nojo pela partidarite abutrista, desbragada após o acidente do Elevador da Glória. Trata-se de uma guerra de narrativas, entrincheirada – sobre a vontade de apear Moedas ninguém será convencido de que não tem a razão apriorística que decidiu ter. Decidi passar…

 

Mas li hoje que o Presidente da República surgiu a comentar (como lhe é típico), assim com o seu estandarte de Belém entrando na peleja, anunciando a “responsabilidade política” de Moedas. Uns concordarão com o PR – as hostes do CHEGA, do PS e à esquerda deste; outros não – os simpatizantes do “bloco do poder”.

 

Estou um bocado à vontade nisto. Na semana passada publiquei este postal, que é o meu rescaldo do que tem sido Rebelo de Sousa, personalidade política que abomino. E nesse postal congreguei vários textos anteriores (o primeiro de 2008!) que lhe dediquei, apontando este quase inenarrável rumo, que despercebo ter tido o sucesso que teve. Seria suficiente para me expurgar deste “Marcelo”.

 

Mas este novo “comentário” de MRS, esta sua declaração – que quer doutrinária – da obrigatória “responsabilidade política” sobre um acidente, faz-me lembrar um episódio deste PR. Em 2016/17 o então novo governo fez várias alterações nas chefias das instituições estatais ligadas ao “combate ao fogo florestal”. No início da tarde de um sábado deflagrou um incêndio em Pedrogão Grande. Horas depois tinham morrido 66 pessoas. Às 20 horas, no telejornal, MRS já se pronunciava, dizendo que todo o possível tinha sido feito e ladeando um responsável policial que apontou o réu culpado, uma criminosa árvore que tinha entrado em “downburst” (usando o termo estrangeiro, prática comum quando se quer velar o real). Abraçou, beijou, prometeu, fez-se fotografar com a população devastada. E não aludiu a qualquer “responsabilidade política”.

 

É para apear Moedas? Façam-no. Mas, por favor, desprezem este Rebelo de Sousa. É o Presidente da República, é uma infracção (“crime”) adjectivá-lo de modo negativo. Mas é credor de profundo desprezo.

Efeitos do entretenimento político: Marcelo Rebelo de Sousa e o “activo soviético”


jpt,

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O Presidente da República lançou mais uma atoarda, dizendo que Trump é um “activo soviético… ou russo”. Uns dizem a situação inadmissível, outros apoucam-na, julgando – com alguma pertinência – que o governo dos EUA nem atentará no dislate. De facto, o fundamental nem é a possível repercussão diplomática do episódio. Mas sim utilizar mais esta tropelia para reflectir sobre como o rumo do regime chegou até aqui.

O mais relevante destas declarações é que divulgam ter o PSD convidado Rebelo de Sousa para falar num curso de Verão organizado para a sua “juventude”. Ou seja, ao fim de uma década de um pungente, de incompetente, exercício presidencial o partido actualmente no governo ainda recorre a este homem para “formar” os seus futuros quadros.

“Marcelo” não é um símbolo destes 50 anos de regime. É – desde o início – um seu agente, até frenético. Convertendo-o na república da politiquice (sumariado no célebre caso da vichyssoise) e da jornalice (o rio de insinuações no velho “Expresso” e o jorrar das “fontes próximas de Belém” no actual “Expresso”). O verdadeiro arauto da deriva populista – “eu com o povo”, num além-partidos, isso que tantos julgam ter sido (re)criado por aquele mais novo professor de Direito, que agora se agita.

É ele também o fruto da incultura generalizada – num país ainda do “respeitinho”, de mesuras diante de um mero lente de Direito, e que se espanta diante de quem “mostra livros”, mesmo que nada de substantivo deles diga. E é, acima de tudo, um agente incompetente, por “bem sucedido” que pareça ser pois alcandorado a Belém – um pouco também por não ter quem o rodeie, não só pela sua adesão ao populismo egocentrado mas também pelas suas consabidas características pessoais, murmuradas por aqueles que com ele interagiram (por mais que, volta e meia, haja “artigos” jornalísticos louvando a sua pessoa). Enfim, MRS é uma mácula, que espero não venha a ser indelével.

A grande interrogação é a de saber como é que um pequeno homem destes chegou até a PR e ali se vem mantendo. Isso só foi possível devido à inculcação do eleitorado através do entretenimento político televisivo. Emitir canais generalistas é algo caro. Sentar pessoas a falar em estúdio, fazer “rádio” com imagem, é forma menos dispendiosa de o fazer. Para isso o melhor, o mais apreciado pelos “caros telespectadores”, é distribuir “comentários” futebolísticos e políticos.

“Marcelo” foi hábil e vácuo nisso. Produziu boas receitas para as estações televisivas, e por isso estas ao longo dos anos fizeram-no “parte da família” das audiências. E assim há uma década que perora, de forma cruelmente incompetente, em Belém. Espero que nas próximas presidenciais, com vários candidatos já enfileirados, possamos eleger alguém bem diferente, venha lá de que área política vier. Com a ponderação e a cultura que este medíocre Rebelo de Sousa nunca teve.

Presunção e água benta, cada um toma a que quer… De presunção eu tomo esta dose: ao longo dos anos fui escrevendo vários postais em diferentes blogs sobre este Rebelo de Sousa, homem que sempre desconsiderei. Recolho agora alguns deles, e congrego-os aqui, na tal presunção de que a sua leitura possa a alguém ser interessante – recordando este rumo do pior presidente da república que a nossa democracia já teve.

Sublinho que o primeiro postal que sobre ele recupero é de 2008, bem antes de eu imaginar que o homem viria a ser PR. Nele apenas ecooei como a minha filha, apesar de então nos seus cândidos seis anos, desvendou a desonesta vacuidade daquele “Marcelo”. Pois, de facto, só não viu quem ele é quem não quis. E, agora, só a organização da “Universidade de Verão” do PSD é que não vê quem ele é. Nisso se tornando ferrenha cúmplice desta desgraça intelectual. E política.

Declaração de Votos


jpt,

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1. Hoje é o “dia de reflexão”, esse anacrónico paternalismo estatal que quer impor à imprensa e aos legítimos partidos e associações cívicas o silêncio político-partidário. E que os ignorantes julgam também abarcar o vulgar cidadão. Nos últimos anos o voto antecipado foi-se estabelecendo – li algures que este ano terão sido 300 000 os eleitores inscritos para o fazerem. O próprio PR o fez. Ou seja, o presidente da república eximiu-se ao “dia da reflexão”, assim explicitando a sua desnecessidade. Ao fim de dois mandatos, durante os quais nada induziu para terminar este bafiento item da mundividência estatista, atreve-se a votar antes de tempo. É um pormenor? É. Mas é denotativo da vácua superficialidade de Rebelo de Sousa, um penoso desajuste da nossa democracia.

2. Ontem fui a um encontro político – vou votar IL, fui a uma “cerveja liberal”. Entre um grupo com cinco interlocutores – dos quais só conhecia um – perguntaram-me o que penso do “almirante” (Gouveia e Melo).

Não mudei de opinão, apenas a sublinhei após a sua intervenção desta semana anunciando a sua candidatura. Assim desvalorizando as eleições legislativas, mostrando que se pensa (e sente) acima dos partidos e até da assembleia da república. Podemos pensar que os partidos vão fracos, contestar a qualidade do pessoal partidário. Mas a democracia faz-se com partidos. Não com homens “acima” dos partidos, julgando-se salvíficos. E, já agora, a sociedade não é um quartel, uma fragata (ou mesmo um submarino), para sermos apostos numa qualquer parada ou convés, a receber instruções emanadas do topo hierárquico. Ou seja, o que o nosso almirante precisa – e nesta semana mostrou-o bem – é de ser posto em sentido. E depois nós, comandantes-em-chefe, poderemos instruí-lo. Num simpático “à vontade” ou mais ríspido “pode retirar-se” (não se diz “destroçar” a um almirante). Entenda-se bem, Gouveia e Melo não é o homem para o lugar… Nem nós-todos somos objectos para um paternalismo estatista militarizado.

Que farei eu? Esperar pelo rol de candidatos e sopesar. Até agora só poderei dizer: malgré tout, votarei Marques Mendes.

3. Estamos em plena campanha eleitoral para as legislativas. A péssima equipa da Junta de Freguesia dos Olivais está desagregada, em compita interna – há pouco abordei o assunto aqui. E de súbito os fregueses são surpreendidos com o anúncio – neste contexto poder-se-á dizer “pela calada” – da extensão do parqueamento pago controlado pela EMEL. O qual agora irá abranger mais zonas residenciais, com algum até decadente pequeno comércio local, e nas quais não há peculiar pressão de estacionamento.

A introdução da EMEL neste bairro tem sido muito polémica, ao longo de anos – como aqui ecoei. Os Olivais têm particularidades: sociológicas mas também geográficas, no seu relevo, na sua extensão, que apartam a sua situação das de outras freguesias urbanas. Em algumas das suas zonas a pressão de estacionamento automóvel decorreu não da estreiteza de espaço mas da radical inexistência de políticas camarárias desde a década de 1990. Desde então foi criada a EXPO 98, a construída a adjacente Ponte Vasco da Gama, introduzidas estações de metropolitano, erguido um sobredimensionado complexo em torno do centro comercial (que fora planeado como um mais modesto “centro cívico”). E proliferaram os serviços internos ao aeroporto. Nada disso foi acompanhado pela introdução de parques de estacionamento. Nada!, repito. A câmara municipal / o Estado abstraíu-se.

Como consequência, em algumas zonas do bairro aumentou a pressão do parqueamento temporário durante os períodos laborais. A solução camarária foi a típica deste nosso Estado: fazer pagar. Alguns dos vizinhos, residentes nas áreas mais pressionadas até defendem isso. Munícipes de outras freguesias apoiam, num pobre “se nós pagamos vocês também devem pagar”, desatendendo às diversas características do bairro.

Vivi em Bruxelas – tal como o actual presidente da câmara. Cidade que sofreu tamanho impacto com a tranformação em capital europeia que brotou o termo “Bruxelização” como conceito urbanístico. Onde a pressão do trânsito automóvel é enorme. Mas onde o sistema de parqueamento pago é muito mais diferenciado do que o lisboeta, com alguma criatividade, convocando autoresponsabilização dos automobilistas, e nisso ordenando o parqueamento e o próprio trânsito. Mas não esbulhando o automobilista (e seus passageiros) – como este modelo “cego” a la EMEL faz.

Pois esta EMELização do espaço público lisboeta tem subjacente essa mundividência: os cidadãos são meros pagadores de impostos e taxas, as suas vivências “ordenam-se” fazendo-os pagar. É um esbulho! No caso do nosso extenso bairro implicará redução da mobilidade intra-freguesia, redução de frequência do empobrecido comércio local, e o acréscimo do isolamento dos habitantes mais velhos – e são muitos ainda, nesta freguesia construída durante os 1960/70.

Carlos Moedas pode argumentar que é um presidente minoritário, que pouco pode mudar. Mas a esta questão vital, do “império” das taxas, virou costas. Demonstrando ser mais um “dos do Estado”, o partilhar dessa mundividência estatista, altaneira e medíocre. (Uma ressalva: há uma década que não tenho carro, não é por mim que protesto).

Aqui em Lisboa há hoje um jogo de futebol decisivo: o Sporting tenta ganhar o campeonato, um segundo título consecutivo pela primeira vez em 70 anos. Os sportinguistas estão ansiosos por comemorar isso. Encherão o estádio. Carlos Moedas manda fechar os cafés e restaurantes circundantes. Afirma que o faz por conselho policial, para minorar os perigos dos festejos. É a tal mundividência estatista a sobrepor-se. Um paternalismo patético. Há perigo no futebol? Todos sabemos que há – em particular nos “jogos grandes”. Então siga-se mesmo esta mentalidade policiesca: proíba-se a assistência, façam-se os jogos “à porta fechada”, ficará a PSP descansada. Agora isto, encerrar os sítios onde a rapaziada sportinguista quererá beber um copo para comemorar (ou lavar as mágoas, longe vá o agoiro)? É de uma tacanhez intelectual, de um “estatismo”, inaceitável.

Nas últimas eleições não só votei Moedas como muito saudei a derrota daquele Medina. Mas se os restaurantes e bares circundantes do nosso Estádio não abrirem hoje – se a câmara não reverter a decisão – não mais votarei em Moedas. É um pormenor? É. E eu nem sequer irei ao estádio e casas de pasto adjacentes. Mas é também um pormaior porque denota a mentalidade de Moedas, da sua concepção de exercício do poder político. E em assim sendo irei votar noutro, pois estou cansado deste tipo de políticos.

Não se enxerga


Pedro Correia,

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No início da campanha oficial das legislativas, o Presidente da República, passeando despreocupado por Beja, deixou-se fotografar e filmar com André Ventura, que já lhe chamou “traidor à Pátria” e alimentou durante longos meses uma comissão de inquérito na Assembleia da República em que o acusou de “abuso de poder” no chamado caso das gémeas (entretanto morto e enterrado).

Não existem acasos na política. Sabendo isto, observo a indecorosa foto e concluo: este homem não se enxerga. O outro, sem surpresa para ninguém, também não.

Dinamarca-Portugal


jpt,

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Ontem ao fim da tarde fui ao “Cabeça de Touro” ouvir o que têm para dizer os membros de uma lista que se candidatará à Junta de Freguesia dos Olivais. Gostei – aqui a IL já está a reflectir, nisso a trabalhar, saúdo isso.

 

Depois segui ao vizinho “Flor do Minho”, partilhei uma boa dobrada com amigo “dos tempos”. A menina-minha-mais-que-querida foi mais frugal. Ao sentarmo-nos, eu a escolher ficar de costas para a televisão, perguntou-me ela – e também ele – “não queres ver o jogo?“. “Não me interessa“, ripostei, abancando sem cerimónias. “É a selecção…!“, resmunguei, já com a manápula nas azeitonas.

 

Fernando Gomes era braço direito de Pinto da Costa. Depois foi delegado para a FPF. Ali escolheu Fernando Santos para seleccionador. Este teve o bambúrrio de ganhar um Europeu com uma equipa que não jogava nada. Depois, aquando da primeira Liga das Nações fez aquilo para o qual esta fora criada: jogar com os putos e os secundários. Ganhou!

 

Entretanto a FPF de Fernando Gomes fez com Santos um contrato para “dar a volta” ao fisco. E arrastou-o anos a fio como seleccionador, de desilusões e mau futebol feitos. Os ministros das finanças, o primeiro-ministro e o presidente? Adoravam-no, ao Gomes.

 

Depois, quando “aquilo” ficou insustentável, Gomes – presidente da federação de futebol num país onde há uma extraordinária “escola” de treinadores (4 na 1ª Liga inglesa, vários triunfantes no Brasil, outros nos luxos árabes, imensos mundo afora) – contratou um estrangeiro mediano, tornou-o – se calhar já sem contratos mariolas – um dos seleccionadores mais bem pagos do mundo. E o septuagenário Santos lá foi, mundo afora, amealhar porventura para pagar as inesperadas coimas.

 

Gomes foi condecorado (aquilo do contrato não o maculou). E foi para presidente do Comité Olímpico (aquilo do contrato não o maculou). E deixou-nos amarrados ao tal seleccionador. E a selecção nacional não joga nada, está até pior do que no tempo de Santos.

 

Não queres ver o jogo?“, surpreende-se a menina-minha-mais-que-querida, “Então, pá?“, surpreende-se o meu-padrinho. Sorvo o gole da imperial, com as costas da mão limpo a espuma alojada na bigodaça. E ouço o Comendador Teixeira a perguntar: “como é que se condecora um gajo destes?“, “isso é que eu queria ver, o marcelo a responder a isso“.

 

Ainda a lambuzar-me com a dobrada (aviso, é boa a do “Flor do Minho”) dizem-me que o jogo acabou. Perderam? Claro, “não jogam nada….” E não adjectivo nem aduzo interjeições. Pois está ali a menina-minha-mais-que-querida. Apenas reduzo tudo ao óbvio “não é a minha selecção“.

Tudo ao contrário


Pedro Correia,

O Presidente da República apressou-se a anunciar datas para as prováveis eleições legislativas antecipadas – 11 ou 18 de Maio – sem ouvir o Conselho de Estado nem os partidos políticos, como a Constituição da República lhe impõe. Em sessão de tagarelice com um grupo de jornalistas em Viseu. E no tom que usaria se estivesse a falar do clima ou de futebol.

Agora, que tanto se fala em populismo, eis um exemplo evidente desse fenómeno. Como se a democracia não implicasse formalidades e estas devessem ser mandadas às malvas com ligeireza de catavento no Palácio de Belém.

Tudo ao contrário, portanto.

Depois venham dizer que populista é o Almirante – alguém que ainda mal abriu a boca para dizer fosse o que fosse. Pode ter muitos defeitos, mas não parece padecer de logorreia. Valha-nos isso.

Frase nacional de 2024


Pedro Correia,

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«O primeiro-ministro António Costa era lento, era oriental. Este [Montenegro] não é oriental mas é lento, tem o tempo do país rural.»

Marcelo Rebelo de Sousa, falando muito informalmente aos jornalistas durante um jantar com a Associação da Imprensa Estrangeira, a 23 de Abril

(eleita por maioria, pelo DELITO DE OPINIÃO)

 

Também mereceram destaque estas frases: 

 

«Mas o que é que não funciona?»

Pedro Nuno Santos, secretário-geral do PS, a 5 de Fevereiro em debate eleitoral na SIC com Rui Rocha, da IL

 

«Quando eu era mais novo, a minha avó dizia assim […] `isto já só vai lá com dois Salazares`. Era o que ela dizia, é verdade. E hoje eu orgulho-me muito quando as pessoas sabem que, afinal, já não é preciso Salazar nenhum

André Ventura, a 6 de Junho

 

«Algo falhou, porque senão as pessoas não tinham fugido.»

Rui Abrunhosa, director-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, a 8 de Setembro, sobre a fuga de cinco presos muito perigosos do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus 

 

«Sobre os meus estados de espírito, não vou alimentar especulações.»

Almirante Gouveia e Melo, a 4 de Outubro, sem confirmar nem desmentir se será candidato presidencial

 

«Se disparassem mais a matar, o país estava mais na ordem.»

Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, a 23 de Outubro, num debate na RTP3

 

«A comunicação social está um bocadinho com anemia.»

Cristina Vaz Tomé, secretária de Estado da Gestão da Saúde, a 9 de Novembro, confundindo amnésia com anemia

 

«O desmantelamento do SNS continua.»

Alexandra Leitão, líder parlamentar do PS, a 29 de Novembro, durante o debate da votação final do Orçamento do Estado para 2025

 

«Éramos felizes e não sabíamos.»

Marcelo Rebelo de Sousa, a 4 de Dezembro, lembrando com nostalgia a coabitação com António Costa, agora presidente do Conselho Europeu

 

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Frase nacional de 2010: «O povo tem de sofrer as crises como o governo as sofre.»

(Almeida Santos)

Frase nacional de 2011: «Estou-me marimbando para os nossos credores.»

(Pedro Nuno Santos)

Frase nacional de 2013: «Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer.»

(Paulo Portas)

Frase nacional de 2014: «Sinto-me mais livre que nunca.»

(José Sócrates)

Frase nacional de 2015: «Temos os cofres cheios.»

(Maria Luís Albuquerque)

Frase nacional de 2016: «Já avisei a famíia que só volto no dia 11 [de Julho] e vou ser recebido em festa.»

(Fernando Santos)

Frase nacional de 2017: «Este ano foi um ano particularmente saboroso para Portugal.»

(António Costa)

Frase nacional de 2020: «Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?»

(Ferro Rodrigues)

Frase nacional de 2021: «Já posso ir ao banco»?

(António Costa)

Frase nacional de 2022: «Haver 400 casos de abusos não me parece particularmente elevado.»

(Marcelo Rebelo de Sousa)

Frase nacional de 2023: «O Governo pôs-se a jeito, cometeu erros.»

(António Costa)

Moçambique pós-Natal


jpt,

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Antes do Natal aqui deixei o meu repúdio pelo seguidismo – típico de “deficientes intelectuais” – do governo e do presidente da República às posições do poder de Maputo. É um assunto que pouco interessa aos portugueses. Tal como pouco lhes interessará que nenhum dos nossos países congéneres ou das multilaterais a que pertencemos se aprestaram a fazer comunicados com o mesmo teor acrítico. Bem pelo contrário, todos se vêm distanciando do rumo daquele poder instituído.

Logo então referi que o candidato oposicionista Venâncio Mondlane – actualmente no exílio em parte incerta – fez declarações muito explícitas, criticando a posição portuguesa, sem abordar outras posições internacionais. Mas também alertou os seus seguidores no sentido de salvaguardar os “nossos irmãos portugueses” que no país habitam, irresponsáveis da irresponsabilidade dos seus governantes. (Mas quem acompanha a situação moçambicana também sabe que Mondlane não tem controlo total sobre a contestação. Entenda-se bem: não tem um partido organizado, não tem “milícias” – como especulavam os parcos apoiantes do poder -, tem “apenas” uma enorme influência “moral” / política mas a qual não é espartilho total das massas contestatárias). 

Ou seja, as posições de Montenegro e do nosso Presidente da República – esse Dâmaso Salcede da política nacional -, pressurosos em caucionar o poder Frelimo, não só descuram o processo democrático moçambicano, não só destoam das posições dos nossos aliados. Mas também perigam o bem-estar dos nossos compatriotas no país. E a estes nossos dois próceres some-se o MNE Rangel, cujas actuais contradições sobre Moçambique o recobrem da peçonha da indignidade pessoal.

Nesta alvorada deixava eu no meu blog uma plácida memória, até íntima, sobre este meu Natal. Quanto atentei, via Whatsapp, no massacre ontem acontecido em Maputo – e que talvez hoje continue. Dado o desnorte estatal houve fugas massivas das prisões de Maputo, para as quais as autoridades, já incapazes de susterem as fugas, apontam contraditórias causas: a ministra da Justiça refere que tiveram origem interna às cadeias, o comandante da polícia afirma terem sido promovidas por manifestantes oposicionistas – o que parece desmentido pelas imagens das saídas em barda, portões afora, dos prisioneiros. E figuras oposicionistas clamam que foram organizadas pelo poder, para criar uma situação de insegurança que legitime o recurso à força, para reestabelecer uma “ordem” pública, uma pax frelimica

Entretanto, a polícia – que nos últimos meses tem vindo a reprimir “sem fé nem lei” os contestatários do poder instaurado – conseguiu recuperar algumas dezenas de fugitivos. Filmes de telemóvel realizados por agentes policiais mostram-no. Congregaram esses fugitivos, transportaram-nos, interrogaram-nos, abateram-nos. Com júbilo! Filmam os cadáveres, para registo e “relatório”. “Estes julgavam que as armas não disparam“, clamam, apoucando aqueles restos mortais. Deixo acima a imagem de um desses assassinados – em vários filmes aparece detido, entrevistado, transportado: diz-se um “brigadista” (entenda-se, um criminoso de baixo risco, perto de ter cumprido metade da pena e passível de liberdade condicional, já com autorização para saídas diurnas laborais nas imediações da prisão). Passadas horas está cadáver, amontoado entre dezenas de corpos, e dito pelos polícias como “nigeriano” e “agitador”…

Trata-se de um massacre em curso em Maputo. Levado a cabo pelos agentes dos poderes lestamente caucionados por este trio: Rebelo de Sousa, Montenegro, Rangel. Malditos sejam estes. E malvistos, pois execráveis.

Para quem se interesse por este assunto, mas julgue ser imperscrutável em Portugal o actual processo moçambicano, aconselho a que na SIC Notícias recue até ontem, dia 25 de Dezembro, às 21.25 h., quando decorre um desses programas de comentário político – que agora me recomendaram ver… O comentador Miguel Morgado (militante do PSD) tem uma análise informada e totalmente pertinente do que se passa em Moçambique, e uma visão radicalmente crítica das posições havidas sobre o governo e o presidente (que são do seu partido). Ou seja, é possível estar aqui e perceber não só a situação moçambicana como entender o profundo despautério que grassa em Belém, em São Bento e nas Necessidades.

E ouça-se também o que diz sobre o assunto o militante do PS e antigo governante Prata Roque, o outro comentador. Pois é amplamente denotativo do que como o poder português impensa e, em particular! Defende o homem as posições pró-regime de Maputo – cabal defensor das solidariedades internas à Internacional Socialista e, porventura, das ligações privadas entre respectivas elites políticas. Mas atente-se mais ainda na abjecta, obtusa, cavernícola mediocridade dos seus argumentos: o que lhe importa é lamentar que em Moçambique “se fale cada vez menos português” (uma imbecilidade factual), e que a população seja cada vez menos sensível à “lusofonia” e – ainda por cima – à “portugalidade”… Não é apenas uma patetice, trata-se mesmo de um escarro intelectual, para além da imoralidade ululante.

E é isto, esta nulidade, esta esterqueira, que ascende a governos do PS. É  isto que é docente na actual Faculdade de Direito de Lisboa (!). E é isto, já agora, a que as televisões pagam para “informar” e “fazer opinião” as gentes de cá. Enfim, é a tralha imunda que vem grassando, há décadas, no “Bloco Central”.

Entenda-se, conhecendo e sentindo Moçambique, vendo na alvorada pós-Natal o que estou a ver a acontecer em Maputo, vomito impropérios, jorram-se-me. Nenhum dos quais tão ordinários, javardos, como dizer “Prata Roque”. Sem com isso salvaguardar de desprezo similar os actuais incumbentes.