História ao vivo, com luzes e sombras


Pedro Correia,
Actual Regimento de Guarnição n.º 1, antigo Batalhão de Infantaria 17

Por cá, chamam-lhe Castelo. Não é bem isso: trata-se de uma fortaleza. Estamos no aquartelamento de tropas operacionais mais antigo situado em território português com presença ininterrupta há mais de quatro séculos. Refiro-me ao Regimento de Angra do Heroísmo – o núcleo militar mais ocidental da Europa.

É visita obrigatória para quem vem à capital da Terceira. Domina o panorama como elemento tutelar do Monte Brasil, neste extremo sul da ilha. Desde a ´´ultima década do século XVI, estava Portugal sob domínio espanhol. Esta foi a parcela de território nacional que o rei Filipe mais tardou a submeter. Daí ter conjecturado sobre uma grande estrutura defensiva destinada a travar não apenas insurreições lusitanas mas também o ataque de corsários à cidade, situada na rota da prata americana e das especiarias das Índias.

São mais de cinco quilómetros de muralhas: envolvem todo o istmo e insinuam-se monte adentro, em curvas sinuosas e caprichosas. Em Portugal, só as de Elvas são mais extensas.

Passou a chamar-se Fortaleza de São João Baptista após a Restauração, em homenagem não apenas ao santo, primo de Jesus, mas ao primeiro rei Bragança, João também ele – o quarto com este nome.

Ganhou fama de inexpugnável nesta ilha dotada de oitenta fortes. Alguns transformados em deploráveis ruínas, como o das Cinco Ribeiras.

Estas muralhas existem há mais de 400 anos

Quem aqui entra, em visita organizada pelo Museu de Angra, depara logo com um painel de propaganda do Exército onde se lê: «Segurança hoje, bem-estar amanhã.» Há uma crise assumida de efectivos, o fim do serviço militar obrigatório encerrou uma longa etapa deste aquartelamento como pólo de encontro de mancebos oriundos de todos os cantos dos Açores e de outras partes do País. Socialização com farda no antigo Regimento de Infantaria n.º 17, agora Regimento de Guarnição n.º 1. Chegou a acolher 1500 militares, hoje reduzidos a escassa centena.

Diz-se que há cerca de 400 peças de artilharia espalhadas por aí – relíquias de outros tempos, ainda mais conturbados do que os actuais. As mais vistosas são as baterias aéreas – ainda apontadas aos céus – mandadas instalar em 1943 por Oliveira Salazar, que nunca pôs os pés nos Açores mas temia a ocupação do arquipélago por forças estrangeiras, durante a II Guerra Mundial, apesar da não-beligerância portuguesa.

Praça de armas. Ao fundo, o Palácio do Governador. Ali esteve detido Afonso VI

Aqui respira-se história por vários motivos.

Entre 1669 e 1674, foi local de degredo do deposto Rei Afonso VI, que se manteve como monarca nominal enquanto a condução do reino era confiada a D. Pedro II, seu irmão mais novo. Esteve recolhido num edifício anexo ao Palácio do Governador, este ainda hoje habitado, na soberba praça de armas. Viria a morrer em 1683, ainda enclausurado, no Palácio da Vila de Sintra.

Fez-se História também a 22 de Junho de 1828, quando aqui foi solenemente hasteada, pela primeira vez, a bela bandeira azul e branca da monarquia constitucional – símbolo do combate ao jugo absolutista, pavilhão nacional até 1910.

Esta cidadela viria a ser presídio noutros ciclos políticos. Entre 1896 e 1906 viveu aqui exilado o célebre Gungunhana, régulo dos vátuas de Gaza, no sul de Moçambique, derrotado por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite. Um dos três parentes que o acompanharam integrou-se na sociedade local, empregou-se como vigilante do parque e aqui constituiu família. Tem descendentes em Angra.

Gungunhana, detido em Chaimite (1895) viveu aqui dez anos

Após a implantação da ditadura militar e a instauração do regime salazarista, entre 1926 e 1943, o presídio filipino foi reaberto para receber opositores políticos, sobretudo anarquistas e comunistas, em condições degradantes, nomeadamente nas celas do isolamento, sem janelas nem acesso a luz solar.

Menos conhecida – mas igualmente vergonhosa – foi a transformação da cidadela em campo de concentração para mais de 700 cidadãos de ascendência germânica residentes em todas as parcelas de Portugal, entre 1916 e 1919, a pretexto de se tratar de gente “inimiga” no contexto da I Guerra Mundial. Este número abrangia cidadãos integrados na nossa sociedade, naturalizados portugueses e até com filhos a servir no exército, após juramento perante a bandeira verde-rubra.

“Depósito de concentrados”, assim lhe chamaram na I República. Típico eufemismo à portuguesa.

Baía de Angra vista da fortaleza. Em primeiro plano, o parque do Relvão

Águas passadas. Nos dias actuais, mantendo a função militar que lhe deu fama, a Fortaleza de São João Baptista integra o conjunto arquitectónico que levou a UNESCO a proclamar Angra património mundial da humanidade, em 1983. Três anos após o devastador sismo que arruinou cerca de três quartos dos edifícios da cidade.

É também paisagem protegida, integrada no conjunto do Monte Brasil – um dos mais deslumbrantes cenários naturais do País.

Motivo de orgulho para os angrenses, para os terceirenses, para todos nós.

Os grafitos no Padrão dos Descobrimentos


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Alguém foi-se ao Padrão dos Descobrimentos e escreveu uma qualquer tralha. Caiu “o Carmo e a Trindade”. Gente “saiu à rua” (hoje em dia é “aos teclados”) arrepenhando os cabelos, rasgando as vestes, acorrendo à honra pátria, a Câmara aprestou-se a limpar a ofensa aos ancestrais, a célere Polícia Judiciária pôs-se em campo e logo desvendou ser o crime uma agressão estrangeira, assim sossegando-nos por não se tratar de uma sempre temível traição.

 

Todo este disparate dá-me vontade de… também bramir. Desde há imensos anos que está Lisboa (e não só) carregada dos tais grafitos. Boçais e imundos. Dizeres estapafúrdios, desenhos indigentes, rabiscos, miríades de “bastos” de todos os tamanhos e posições. Toda essa tralha amadora e morcona de facto legitimada e potenciada pela consagração – pela academia, pelas instituições estatais, pelo “gosto informado”, agora até pelos construtores civis – da “street art” (de facto, uma mera “street curio”), que nada mais é do que o piroso desta era – a patética Pasionaria da Graça, os “Pierrot com lágrima” a louvar os profissionais de saúde ditos a “linha da frente” contra o Covid, etc. No fundo, tudo isto seguindo a coberto pelo culto da “intervenção”.

 

E agora todo este “ó da Guarda!”, “Aqui-d’el-rei!”? Recordo que há uns tempos o jornal “Público” (claro) publicou um artigo de 4 universitários sitos em universidades americanas. Portugueses, brancos, de meia-idade, e de nome compósito. Defendiam a prática espontânea da “intervenção” “decolonial” sobre os monumentos. E desvalorizavam os críticos dessa festança como meros “homens, velhos, brancos e de certa classe social” [burgueses, entenda-se. Ou seja, os que tendem a assinar com nomes compósitos, para quem não perceba]. Alguém deu porrada nesse “paper curio”? Nada, que ninguém se vira a esta gente dos ademanes.

 

Enfim, vai um ror de disparates. E nisso lembrei-me de um texto que escrevi há sete anos quando encontrei uma “intervenção” “decolonial” no ex-libris colonial em Bruxelas. Para quem tiver paciência aqui deixo a ligação.

Estátua ao deputado desconhecido


Pedro Correia,

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Nunca percebi o que simboliza no alto do Parque Eduardo VII aquela pedrinha fálica lá implantada há mais de 20 anos. Sem volumetria para aquele espaço, em óbvia colisão com o enquadramento paisagístico, dando a sensação de que aterrou no local por erro no endereço: garantem-me que estava destinada não a um jardim de Lisboa mas das Caldas da Rainha.

Já que ali se encontra, convém dar um significado à coisa. Inspirado pela verve de um parlamentar socialista, que anda por aí num frenesim a exigir o camartelo para o belo Padrão dos Descobrimentos concebido em 1940 pelo arquitecto Cottinelli Telmo e pelo escultor Leopoldo de Almeida, eu – que milito na facção oposta à dele, contrária à demolição de monumentos – proponho que o “pirilau” do Parque passe a homenagear o Deputado Desconhecido.

Como a imagem mostra, com ejaculação incluída. O tal parlamentar ainda agradece. Eis algo que talvez não lhe agrade derrubar.

Lugares verdadeiramente históricos


João Pedro Pimenta,

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Os lugares e monumentos, testemunhas do passado e da História, moldaram o povo que somos hoje.

Falo, como já certamente repararam, daquele casarão amarelo torrado à esquerda. Ali começou Jorge Mendes a sua carreira de agente futebolístico, quando, ao explorar a discoteca Alfândega, conheceu o jovem guarda-redes Nuno Espírito Santo, que, entre investidas nos bares da Rua Direita e farto dos humores de Pimenta Machado, queria mudar de ares. Mendes tratou de tudo, levou-o num processo turbulento de Guimarães para o Deportivo da Corunha e mais tarde para o Porto, e ainda hoje Nuno, agora treinador do Wolverhampton, é representado por ele. Não fosse esse encontro e as carreiras de Cristiano Ronaldo, Mourinho, Di Maria, James Rodriguez e tantos outros seriam provavelmente diferentes.

Já agora, na casa em ruínas à esquerda, em baixo, nasceu o “Presidente-Rei” Sidónio Paes, uma das figuras mais marcantes da 1ª república. Deixou como legado à terra que o viu nascer um bolo de amêndoa e ovos que é altamente aconselhável.

Não interessa nada, mas a meio, entre a Rua Direita, a torre do relógio e a muralha em frente ao rio vemos a matriz de Caminha, do séc. XV, um dos mais belos edifícios religiosos em Portugal, com o seu exterior gótico e, dentro, um tecto de madeira em estilo mudéjar, com inúmeros motivos marinhos.