Eternos passos rumo a lugar nenhum


Pedro Correia,

Tão fatal como o Outono seguir-se ao Verão: há sempre batalhões de psicólogos e esquadrões de sociólogos prontos a justificar os maiores crimes, as mais gritantes atrocidades, os mais impensáveis atentados a direitos fundamentais – desde logo o direito à vida. Transformando criminosos em entes sem vontade própria, desprovidos de livre-arbítrio. À mercê de impulsos incontroláveis. Vítimas da envolvente social, capturados pela má sorte, prisioneiros do destino. «Não estava em si», dizem uns. «A culpa é da sociedade, não existem culpas individuais», alegam outros. Inutilizando milénios de civilização, invalidando séculos de iluminismo.

«Um mundo sem moral é um universo sem força da gravidade», observou com precisão o grande escritor egípcio Naguib Mahfouz, Nobel da Literatura, no seu livro O Ladrão e os Cães.

Sem essa força da gravidade, no limite, dissolve-se a distinção entre Bem e Mal. Tudo se torna lícito. Inútil supor que o ideal ficará a meio caminho, amálgama de pólos contrários. Assim é impossível evoluir para novos patamares éticos: como Sísifo, estaremos condenados a dar eternos passos rumo a lugar nenhum.