Penso rápido (119)


Pedro Correia,

Um europeísta convicto tem de ser crítico. O espírito crítico faz parte da cultura europeia. Mas a crítica deve ser feita, acima de tudo, aos populismos identitários, aos nacionalismos extremistas, à cultura xenófoba em ascensão, ao egoísmo separatista transformado em bandeira política. Tudo isto representa um enorme retrocesso na Europa. Por desenterrar os piores fantasmas da História do continente, escrita em letras de sangue ao longo do último milénio.

A União Europeia, agora tão criticada, foi um dique contra estes extremismos que vão despontando um pouco por toda a parte impulsionando “lideranças carismáticas” e “homens providenciais”.

Se isto continua, não tardaremos muito a sentir saudades das actuais lideranças sem carisma que tomam assento no Conselho Europeu.

A doença auto-imune do nacionalismo


Paulo Sousa,

Em resultado das perdas territoriais húngaras da Primeira Guerra Mundial, vivem na Transilvânia (Roménia) mais de um milhão de húngaros étnicos. Na região designada por País Székely (Székelyföld), onde esta “minoria” corresponde a mais de 80 por cento da população, a língua húngara é a oficial. É usada pela polícia, administração pública, hospitais e sinalização rodoviária.

Quem visitar Budapeste, não pode deixar de apreciar a arquitectura do seu imenso Parlamento, que foi projectado para um país bem maior e que em 1920 teve de ceder territórios à Roménia, Eslováquia, Sérvia e Ucrânia. As cláusulas do Tratado de Trianon determinaram que o território húngaro, de cerca de 325.000 km2, fosse reduzido para aproximadamente 93.000 km2, uma redução superior a 70 por cento.

Na fachada do Parlamento, para além da bandeira nacional e da União Europeia, em datas alusivas à sua identidade nacional, poderá também observar a bandeira da Transilvânia, azul clara com uma faixa dourada.

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Aos olhos de um português, para quem os conceitos de pátria, nação, língua e identidade coincidem com um território definido há quase 800 anos, isto é tudo um bocado esdrúxulo, mas as identidades nacionais por essa Europa fora são um poço sem fundo de particularidades.

Em 2011, graças a uma nova lei de cidadania proposta pelo governo de Viktor Orbán, mais de 600 mil destes cidadãos romenos passaram a poder participar nas eleições magiares. Desde então, este tem sido um eleitorado fiel do Fidesz, o partido do governo, quer em reconhecimento por este privilégio de participação, quer pela sua mensagem nacionalista, que é muito apelativa a uma minoria territorialmente deslocada. Segundo algumas fontes, o Fidesz arrecada habitualmente entre 90 e 96 por cento dos votos da diáspora.

E é aqui que a coisa anima. Em 2019, durante um evento do partido romeno nacionalista de extrema-direita AUR, ocorreram confrontos num cemitério onde estão sepultados soldados húngaros, tendo sido vandalizadas algumas campas. Este episódio foi traumático para a minoria Székely e causou até alguma tensão diplomática entre Budapeste e Bucareste.

O partido AUR é liderado por George Simion, que não esconde as suas simpatias com Moscovo. Em 2025, Simion concorreu às eleições presidenciais romenas, tendo sido o mais votado na primeira volta, mas acabou derrotado na segunda. Ora, como as ordens de Moscovo não se discutem, Viktor Orbán veio a público manifestar o apoio ao seu parceiro putinista. A minoria húngara, sem surpresa, sentiu-se traída e nos círculos eleitorais onde têm mais peso, Simion não foi além dos 8 por cento.

Em Abril próximo, decorrerão na Hungria as eleições para o parlamento, e segundo as últimas sondagens, o Fidesz de Orbán será substituído pelo Tisza, liderado por Péter Magyar. Actualmente estão separados por cerca de dez por cento.

Era bom para a Europa livre, muito bom mesmo, que o fantoche putinista que governa a Hungria fosse afastado da liderança do seu país, mas o tema do postal é o dilema dos nacionalistas. Pela definição da sua orientação política, gabam a sua identidade e elogiam a maravilha que ocorreu nas suas terras por tão ilustre povo ter gerado, melhor do que em qualquer outro poiso terrestre e, por isso, definem-se por oposição aos estrangeiros. Quando pensam em se associar a um nacionalista de outro país, inevitavelmente entram em rota de colisão. Tinham interesse em se associar contra outros competidores? Claro que sim. Mas como é que o podem fazer se não confiam em ninguém? Este dilema, que já foi definindo como a doença auto-imune do nacionalismo, ganha assim um novo corolário.

Deuses reaccionários


Diogo Noivo,

José Álvarez Junco é decano dos historiadores espanhóis e autor de Dioses Útiles, uma genealogia intelectual brilhante das nações e dos nacionalismos na Europa. Por mero acaso, mas muito a propósito do julgamento que hoje se iniciou em Madrid, cruzei-me com um ensaio por ele publicado no El País, em Outubro do ano passado. O texto é de antologia e o último parágrafo a melhor síntese que encontrei sobre o “problema catalão”:

“A História um dia julgará as elites nacionalistas. Culpá-los-á, creio, pela grave deterioração da cultura catalã, outrora cosmopolita e agora ensimesmada, e pela divisão da sociedade, anteriormente satisfeita com o bilinguismo e a dupla identidade. Irá culpá-los pela criação um Estado na sua pior versão possível: decidido a impor a homogeneidade cultural, de acordo com seu modelo preconcebido de nação e, portanto, a reduzir a liberdade e o pluralismo da sociedade que governa.“

A extrema-direita flamenga em Bruxelas e os portuguesitos lá por Lisboa


jpt,

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Tão (abissalmente) estuporado ando que esquecera o aviso que um patrício me dera para hoje, para ter cuidado “que o problema destes gajos é com os turcos, os pretos e os árabes mas depois começam e vai tudo, nós, os espanhóis, todos …“. Saio de manhã, como sempre viro à direita, na via de Schaerbeck, o “bairro turco” como ironizo, a 200 metros a mercearia portuguesa, plácida conversa sobre o cartaz (ontem afixado) de “Roberto Carlos em Bruxelas” enquanto me abasteço das cápsulas Nicola. Avanço mais 500 metros, ao café-restaurante compatriota, nada bebo que ainda não é meio-dia, resmunga-se o pequeno nevão de ontem e a reviravolta do Porto, ainda hesito se beberei um bagacinho “só para aquecer”, mas há que manter o nível. Volto a casa, enquanto cozinho uma destas minhas trapalhadas vou fumar à varanda e ouço tantos estampidos e gritaria que julgo haver festa ali ao Cinquentenário, que raio de dia, com este frio, para a fazerem. Senil estou, é a minha filha que me convoca para todas estas sirenes. Pois aqui mesmo, a 500 metros, se virando à esquerda, na via do “bairro europeu” estão os fascistas flamengos (ou flamões, como aqui dizemos) a manifestar-se, a armarem confusão entre o tal Cinquentenário e o Berlaymont, esse que dista cá de casa tanto como o café Luanda se aparta do café Polana (ao lado do Frutalmeidas, para os distraídos). Não que seja eu europeísta radical, e que apupe a “nação”, patriota que sou (sim, sei que o termo provoca o sorrisinho adamado dos esquerdinhas funcionários públicos). Mas um tipo vê, na vizinhança literal, esta turba fascista – não muitos, 5000 numa cidade onde há pouco 75000 desfilaram por uma melhor política climática. Mas violentos. -, carregada de estandartes nacionalistas, os desses que apoiaram a ocupação alemã na I GM, o dos rexistas que apoiaram a Alemanha nazi, e percebe-os. Têm tanta legitimidade como os catalães, e têm os mesmos propósitos, não nos enganemos com as retóricas e os meneios.

Os estampidos já pararam, agora escasseiam as sirenes, a família está na calma dominical. E o pai a blogar o seu desprezo pelos fascistas portugueses, esses que desde Bolsonaro gozam com os “moderados”, pequena gente sem mundo (“sem cabaret” como li o outro dia) e sem dignidade. Gente incapaz de perceber o até egoísta “mas depois quando começam vai tudo, nós, os espanhóis, todos …“. E para com os patetas que foram à escola e chegaram a doutores que vêm falar da importância das “identidades históricas”, como se estes nacionalismos fossem um minério semi-precioso, coisa natural, inultrapassável. Pois se assim é convirá lembrar que os primos destes gajos emigraram para a África do Sul onde eram uns pés-rapados imundos. E horríveis seguidores da jihad da sua igreja reformada. E que os avós destes gajos emigraram para o Congo. E disso é melhor nem falar. Ou seja, para quem não gosta de imigrações bem que podiam ter vergonha na cara. Tal como os “venturinhas” e os CDS-Bolsonaros que se meneiam por Lisboa. É mandá-los para Ramallah. Parece que ficarão bem servidos.