Em resultado das perdas territoriais húngaras da Primeira Guerra Mundial, vivem na Transilvânia (Roménia) mais de um milhão de húngaros étnicos. Na região designada por País Székely (Székelyföld), onde esta “minoria” corresponde a mais de 80 por cento da população, a língua húngara é a oficial. É usada pela polícia, administração pública, hospitais e sinalização rodoviária.
Quem visitar Budapeste, não pode deixar de apreciar a arquitectura do seu imenso Parlamento, que foi projectado para um país bem maior e que em 1920 teve de ceder territórios à Roménia, Eslováquia, Sérvia e Ucrânia. As cláusulas do Tratado de Trianon determinaram que o território húngaro, de cerca de 325.000 km2, fosse reduzido para aproximadamente 93.000 km2, uma redução superior a 70 por cento.

Na fachada do Parlamento, para além da bandeira nacional e da União Europeia, em datas alusivas à sua identidade nacional, poderá também observar a bandeira da Transilvânia, azul clara com uma faixa dourada.

Aos olhos de um português, para quem os conceitos de pátria, nação, língua e identidade coincidem com um território definido há quase 800 anos, isto é tudo um bocado esdrúxulo, mas as identidades nacionais por essa Europa fora são um poço sem fundo de particularidades.
Em 2011, graças a uma nova lei de cidadania proposta pelo governo de Viktor Orbán, mais de 600 mil destes cidadãos romenos passaram a poder participar nas eleições magiares. Desde então, este tem sido um eleitorado fiel do Fidesz, o partido do governo, quer em reconhecimento por este privilégio de participação, quer pela sua mensagem nacionalista, que é muito apelativa a uma minoria territorialmente deslocada. Segundo algumas fontes, o Fidesz arrecada habitualmente entre 90 e 96 por cento dos votos da diáspora.
E é aqui que a coisa anima. Em 2019, durante um evento do partido romeno nacionalista de extrema-direita AUR, ocorreram confrontos num cemitério onde estão sepultados soldados húngaros, tendo sido vandalizadas algumas campas. Este episódio foi traumático para a minoria Székely e causou até alguma tensão diplomática entre Budapeste e Bucareste.
O partido AUR é liderado por George Simion, que não esconde as suas simpatias com Moscovo. Em 2025, Simion concorreu às eleições presidenciais romenas, tendo sido o mais votado na primeira volta, mas acabou derrotado na segunda. Ora, como as ordens de Moscovo não se discutem, Viktor Orbán veio a público manifestar o apoio ao seu parceiro putinista. A minoria húngara, sem surpresa, sentiu-se traída e nos círculos eleitorais onde têm mais peso, Simion não foi além dos 8 por cento.
Em Abril próximo, decorrerão na Hungria as eleições para o parlamento, e segundo as últimas sondagens, o Fidesz de Orbán será substituído pelo Tisza, liderado por Péter Magyar. Actualmente estão separados por cerca de dez por cento.
Era bom para a Europa livre, muito bom mesmo, que o fantoche putinista que governa a Hungria fosse afastado da liderança do seu país, mas o tema do postal é o dilema dos nacionalistas. Pela definição da sua orientação política, gabam a sua identidade e elogiam a maravilha que ocorreu nas suas terras por tão ilustre povo ter gerado, melhor do que em qualquer outro poiso terrestre e, por isso, definem-se por oposição aos estrangeiros. Quando pensam em se associar a um nacionalista de outro país, inevitavelmente entram em rota de colisão. Tinham interesse em se associar contra outros competidores? Claro que sim. Mas como é que o podem fazer se não confiam em ninguém? Este dilema, que já foi definindo como a doença auto-imune do nacionalismo, ganha assim um novo corolário.