Amamentar o ogre


Sérgio de Almeida Correia,

TrumCorina Globo.jpg(créditos: Globo)

Esta manhã leio uma notícia e vejo uma fotografia. A fotografia é do Presidente do EUA e da mais recente vencedora do Prémio Nobel da Paz, a oposicionista venezuelana María Corina Machado. Na imagem que acima reproduzo vê-se o primeiro com a medalha que a segunda recebeu em Oslo.

Depois de se ter auto-proposto como candidato ao Nobel da Paz, com uma contabilidade e revelando uma ignorância e argumentos que envergonhariam qualquer aldrabão de feira, e de por várias vezes ter publicamente afirmado que gostaria de ser o escolhido e de receber o Nobel, tal o despeito por o mesmo ter sido atribuído a um dos seus antecessores na presidência; e de ter recebido das mãos do indiscritível Infantino, primeiro responsável da FIFA, um “prémio” criado à pressão para lhe satisfazer o ego e a idiotia, chegou agora a vez de se predispor a aceitar da política venezuelana o galardão que a esta fora atribuído. 

A academia sueca já tinha avisado, ao saber das primeiras intenções de Corina, de ceder o prémio ao fulano, que tal não seria possível.

Os prémios, independentemente da justiça ou injustiça da escolha e dos méritos dos galardoados, são pessoais e intransmissíveis. Obedecem normalmente a um regulamento, sendo certo que podem sempre ser recusados, o que a venezuelana não fez.

Que Donald Trump, com toda a sua estultícia, rodeado por uma corte de outros como ele e uma multidão de esquizofrénicos, energúmenos e boçais, mais o seu vasto lençol de inanidades, insultos e crimes estivesse disponível para receber a medalha, aquela ou outra qualquer, nos dias que correm não será motivo de estranheza para pessoa medianamente informada. 

Saber que a dirigente politica venezuelana, depois de destratada e ridicularizada pelo próprio Trump, e do telefonema que lhe fez na sequência do recebimento do prémio, como se estivesse a desculpar-se pelo facto de ter sido escolhida, aceitou deslocar-se à Casa Branca para  oferecer a sua própria medalha e posar para as câmaras ao lado do anfitrião é do domínio do vexame. 

Duvido que o seu gesto possa trazer quaisquer frutos para o seu povo, melhore a sua qualidade de vida, reduza a conflitualidade, aumente a paz no mundo – que seria sempre um factor a considerar –, contribua para a sua causa ou restitua a democracia, a liberdade e algum amor-próprio aos venezuelanos.

Posso estar enganado, mas um ser humano, uma mulher, uma política que diariamente se rebaixa perante aquele ogre, saído directamente das profundezas da Idade Média para as margens do Potomac, mostra não estar à altura do prémio. Desse ou de qualquer outro.

Mais ainda da sua condição e do papel desempenhado antes da atribuição.

Mas que maldade!


Cristina Torrão,

Esses tipos do Instituto Nobel não passam de ditadores!

Quem aguenta cumprir regras tão desumanas?

Bora organizar uma petição para pôr o Trump à frente desse Instituto?

Nobel da Paz para Trump, da Medicina para Musk e da Literatura para Vance!

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Um prémio mais que merecido


Pedro Correia,

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Donald Trump andava a fazer figuras ridículas, implorando que lho concedessem, como fedelho birrento em véspera de Natal. Mas o Prémio Nobel da Paz, hoje anunciado em Oslo, distingue quem realmente o merece: a intrépida líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, há mais de um ano clandestina no seu próprio país, que Nicolás Maduro converteu em narco-estado. Onde os mais elementares direitos humanos são espezinhados. Onde há cerca de dois mil presos políticos. Onde a fraude eleitoral inutilizou os mecanismos formais da democracia representativa ainda vigentes no consulado de Hugo Chávez, o autocrata que precedeu Maduro. Onde o destino de grande parte da população é emigrar em massa: mais de sete milhões cruzaram a fronteira na última década, fugindo ao pesadelo do “socialismo bolivariano”, que converteu o país dotado das maiores reservas de petróleo do mundo numa ruína económica em ameaça permanente de colapso social.

Nas palavras do presidente do Comité Nobel, Corina é laureada por «manter acesa a chama da democracia na crescente escuridão» vigente na Venezuela, outrora a mais próspera nação da América hispânica. Maduro impediu-a de concorrer à eleição presidencial de Julho de 2024. Ela não desistiu: convenceu o antigo diplomata Edmundo González a avançar contra o déspota, mobilizando largos milhões de eleitores. Fechadas as urnas, contados os votos, ficou claro que a vitória coube ao candidato da oposição. Mas a clique militar alimentada pelo narcotráfico que domina o regime de Caracas com mão de ferro mandou a vontade popular às urtigas, impondo Maduro como “triunfador” sem se dar sequer ao incómodo de divulgar as actas eleitorais. Seguiu-se nova onda repressiva, forçando González a pedir asilo político à embaixada espanhola na Venezuela. Hoje vive exilado em Madrid.

Ela, no entanto, resiste no lugar próprio: a terra onde nasceu. Por meios pacíficos, apelando à resistência cívica, condenando sempre o recurso à violência sob o lema «votos em vez de balas». Mas sem temor dos verdugos, obcecados em depositá-la numa masmorra: a sinistra Sebin, polícia política da ditadura, tem ordens expressas para continuar a procurá-la em cada recanto do país. Felizmente sem sucesso até agora, o que não ilude esta inquietante evidência: María Corina arrisca não só a liberdade, mas a própria vida.

Recebi a notícia do Nobel da Paz 2025 com imensa satisfação nesta semana tão fértil em acontecimentos. E concluo: raras vezes este prémio foi tão merecido.

 

Leitura complementar:

A Mulher do Ano (1 de Agosto de 2024)

Pela liberdade, contra a ditadura (21 de Setembro de 2024)

A minha preferência: o Nobel para Atwood


Pedro Correia,

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Dizem-me que o Nobel da Literatura adoptou na última década “quotas de género”: passou a premiar, alternadamente, escritores de ambos os sexos. Não sei se já vigoram também quotas étnicas – como nos Óscares de Hollywood – ou geográficas. Pouco me surpreenderia se assim fosse.

Quero lá saber. Como leitor, escolheria sem hesitar Margaret Atwood – autora de extraordinários romances, como Ressurgir ou O Assassino Cego. O primeiro, incluído por Harold Bloom no seu imprescindível Cânone Ocidental; o segundo justamente galardoado com o Pulitzer de 2000.

No ano passado o Nobel coube à coreana Han Kang: isto indicia que desta vez o galardoado será do sexo masculino, segundo determina a severa lei das quotas. Mas laurear duas mulheres em anos consecutivos seria verdadeira inovação: nunca o mais cobiçado prémio das letras mundiais se atreveu a tanto.

Deixo, portanto, a minha preferência – repetindo um voto já aqui feito em 2019: o Nobel para Atwood, que nesse ano recebeu o Booker, em jeito de compensação. Falecidos Rubem Fonseca, John Le Carré, Javier Marías e Milan Kundera, que também o mereciam, seria hoje um dos mais justos.

Preferência, não prognóstico. Porque Atwood estará excluída, in limine, por ousar dizer aquilo que realmente pensa. Contra os torquemadas do momento e as novas censuras. Tal como Salman Rushdie, neste caso por veto explícito do islamismo radical perante a cobarde complacência dos profissionais da indignação selectiva.

Pouco importa. Tanto a escritora canadiana como o romancista anglo-americano nascido na Índia já receberam o melhor dos prémios: a admiração e o respeito de milhões de leitores. De todos os cantos do planeta, sem anátemas nem exclusões.

 

Leitura complementar:

Os meus 50 livros preferidos escritos por mulheres (2 de Setembro de 2023)

Literatura é feminina


Pedro Correia,

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Aos poucos, nesta era que presta culto ao género neutro, espalhou-se a tendência: comecei a ver por quase toda a parte alusões ao Prémio Nobel “de” Literatura. Por óbvia influência brasileira.

Tenham lá paciência: é algo que soa muito mal. Literatura é palavra feminina. Para quê desfigurá-la? 

Não existe Prémio Nobel “de” Química. Nem oiço menções ao Nobel “de” Economia. Ainda menos ao Nobel “de” Paz, o tal que Donald Trump sonha receber naquela delirante competição com o laureado Barack Obama, seu antecessor na Casa Branca. 

Nem escrevemos prêmio, como os brasileiros. Acento agudo, não circunflexo.

Basta de complicar o que é simples, deixemos de alterar o que já foi consagrado. E percamos o péssimo hábito de correr atrás de tudo aquilo que nos pareça a moda mais recente. Nada é tão velho como certas coisas que parecem novas.

«I could shoot somebody and I wouldn’t lose any voters»


Pedro Correia,

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Parece que Donald Trump sonha ganhar o Nobel. Não o da Química ou da Medicina, mas o da Paz – logo ele, que em sete meses tornou o mundo ainda mais perigoso e se revelou absolutamente incapaz de pôr fim aos devastadores conflitos bélicos na Ucrânia e no Médio Oriente. Enquanto decretava uma guerra tarifária à escala planetária e ameaçava até nações aliadas, como o Canadá ou a Dinamarca, de invasão ou anexação.

Sonhar é fácil, mas a disparatada aspiração do marido de Melania jamais se tornará realidade. O que não constitui injustiça alguma. Injusto foi o boicote do Comité Nobel norueguês ao Papa Francisco, que faleceu em Abril, após 12 anos de pontificado, sem ter recebido o galardão que tanto merecia: ele sim, foi um incansável promotor da paz. 

 

O prémio que Trump tanto cobiça já distinguiu quatro presidentes norte-americanos – o primeiro republicano, os restantes do Partido Democrata.

Por esta ordem:

Theodore Roosevelt, em 1906:

«Pela sua intervenção para pôr fim à sangrenta guerra travada entre duas das maiores potências mundiais, Japão e Rússia.»

Woodrow Wilson, em 1919:

«Pelo seu papel na fundação da Sociedade das Nações.»

Jimmy Carter, em 2002:

«Por décadas de incansáveis esforços para encontrar soluções pacíficas para conflitos internacionais, impulsionar a democracia e os direitos humanos, e promover o desenvolvimento económico e social.»

Barack Obama, em 2009:

«Pelos seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos.»

 

Trump não fez nada semelhante. Da sua boca, aliás, saem com muito mais frequência expressões de rancor e raiva do que proclamações de concórdia entre povos e nações – começando pelos insultos que ainda dirige a Joe Biden, seu sucessor e antecessor na Casa Branca. Como se estivesse em perpétua campanha eleitoral.

Martin Luther King, um dos cidadãos norte-americanos que receberam o Nobel da Paz, costumava dizer: «Não deves recusar apenas disparar sobre um homem: tens de recusar odiá-lo.» Premiado em 1964, viria a morrer assassinado quatro anos depois – por um bandido que fazia do ódio racial uma senha de identidade.

Ninguém imagina Donald Trump a pronunciar tão sábias palavras, enraizadas nas nossas melhores bases civilizacionais. Uma das suas frases mais tristemente célebres aponta até na direcção oposta: «Podia dar um tiro em alguém na Quinta Avenida e não perdia votos.»

Alguém que ousa afirmar isto fica moralmente impedido de pronunciar a palavra paz.

O fosso


Cristina Torrão,

Dois livros, alguns excertos.

O primeiro livro:

“As crianças do 25 de Abril foram expostas à pornografia antes de saberem como se faziam bebés (…). A despontarem para a vida, viviam numa espécie de terra de ninguém, pela qual não se encontravam responsáveis. Pairavam no vazio formado entre o culto da liberdade sem limites e a crença salazarista mantida pelas mães e avós de que Portugal era um país mais temente a Deus, de melhores costumes, um oásis de santidade perante um estrangeiro devasso”.

“Ainda apática, saída de um mundo desprovido de sexo, um mundo em que os genitais eram porcos, males necessários para se expelirem os detritos do corpo, ela espantava-se com os cartazes e os títulos sugestivos das películas em cena no Sá da Bandeira, um verdadeiro templo da arte pornográfica, enquanto esperava pelo autocarro”.

“Sentindo-se impotentes perante o fenómeno e na sua tentativa desesperada de a manter agarrada às antigas convenções, os pais empurravam-na para uma dualidade de comportamentos, criavam a cultura do fingimento: a nossa casa é uma coisa e o mundo lá fora é outra. Dentro de casa, é feio falar de sexo; lá fora, o sexo é exibido em todo o lado. No meio, ficava o vazio, a tal terra de ninguém, (…) o fosso, que se cavava cada vez mais fundo”.

 

E o segundo livro:

“Nada, nem a inteligência, nem os estudos, nem a beleza, contava tanto como a reputação sexual de uma rapariga, o mesmo é dizer o seu valor no mercado de casamentos, onde as mães, seguindo o exemplo das suas próprias mães, se armavam em guardiãs”.

“Ao sábado, em fila, casavam as raparigas de véu branco, que davam à luz seis meses mais tarde uns rapagões considerados prematuros. Presas entre a liberdade de Bardot, o gozo dos rapazes a dizer que ser virgem era doentio, as recomendações dos pais e da Igreja, não tínhamos escolha”.

“Os discursos e as instituições estavam atrasados em relação aos nossos desejos, mas o fosso entre o dizível da sociedade e o nosso indizível parecia-nos normal e irremediável”.

 

O primeiro livro é de minha autoria: A Revolução da Verónica. Nunca me tinha acontecido sentir tão grande afinidade com um escritor, ou escritora. O mais interessante é que, quando comecei a ler o livro alheio, não o achei muito promissor.

Não comparo a qualidade da escrita. Aí, sinto-me como São João Baptista: não sou digna de lhe apertar as sandálias. Está em causa a comunhão de pensamentos, a complementação de ideias. E a escolha de palavras. Como “o fosso”. “Cada vez mais fundo”, num caso; “normal e irremediável”, no outro. Encaixam como duas peças de Lego.

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Nota: plágio de ideias (da minha parte, claro), está fora de questão. Comecei a ler Os Anos, de Annie Ernaux, pela primeira vez, há dias. Por seu lado, A Revolução da Verónica existia há muito tempo, na minha gaveta. Na verdade, tentei, sem sucesso, publicá-lo por ocasião do 40º aniversário da Revolução de Abril. Acabou por acontecer apenas dez anos mais tarde.

O Museu da Inocência


Paulo Sousa,

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A partir de uma recomendação ouvida num podcast e no seguimento de alguma curiosidade anterior sobre o Nobel turco Orhan Pamuk, dei por mim com o “Museu da Inocência” nas mãos.

Confesso que logo após o arranque do livro me questionei se a história não se estaria a tornar demasiado obsessiva, melancólica e irremediável. No entanto o ritmo da narrativa e as descrições da classe rica, e menos rica, de Istambul dos anos 70, e também alguma curiosidade de como é que aquilo poderia terminar, levou a que insistisse na leitura.

Não quero estragar a boa surpresa de quem não conhece a obra e por isso serei económico nos detalhes, mas, como ocorre apenas depois da leitura de alguns livros, não pude deixar de ficar impressionado com o super-poder que alguns romancistas têm ao conseguirem criar um universo denso, cheio de detalhes tão credíveis que nos levam a acreditar que tudo aquilo poderia ser real. As particularidades que aproximam a história à realidade resultam da forma como o romancista transporta a sua vivência para dentro da sua obra, o que nesta caso acaba por acontecer de uma forma literal. Como quem faz um cozinhado, o autor mistura aquilo que já viu, viveu e sentiu, com ingredientes criados pela sua imaginação. É como se quem escreve fosse um alambique que destila a sua realidade, sendo que quem se dispõe a contar uma história o faz de uma forma única e irrepetível, moldando o produto final com se de uma impressão digital se tratasse.

Como já senti noutras vezes, terminei o livro com vontade de realizar uma viagem, desta vez a Istambul de onde tenho boas recordações, mas que numa próxima oportunidade me obrigará a circular pelo tradicional bairro de Çukurcuma e a visitar o chão pisado pela bela Füsum e pelo seu obsessivo amante Kemal Bey.

Recomendo a leitura.

Cobardia física e miopia moral


Pedro Correia,

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Salman Rushdie fotografado por Murdo Macleod

 

Como era óbvio, mais um ano transcorrido, Salman Rushdie não foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. Nem o será. O Comité Nobel está infectado há muito tempo pelos vírus da cobardia física e da miopia moral. Se dois tradutores foram assassinados por terem ousado verter os Versículos Satânicos para outros idiomas, mais ameaçados ficariam os membros do aludido comité se prestassem justiça a um escritor que já merece o galardão desde 1981, quando publicou esse extraordinário romance que é Os Filhos da Meia-Noite

Como premiar um autor que caminha há décadas sob o fio da navalha, condenado à morte pelos inquisidores islâmicos e alvo de um miserável atentado em Agosto de 2022 que o deixou cego de um olho? Ninguém se atreverá a tanto. Sem desconsiderar Jon Fosse, o norueguês distinguido este ano, a sua reiterada omissão da lista de galardoados acaba por enobrecer o romancista britânico nascido em Bombaim — «o sobrevivente», como acertadamente lhe chamou a revista Le Point.

Está muito bem acompanhado nesta vergonhosa omissão, integrando um longo cortejo dos melhores do século XX, de Joyce a Borges, de Ibsen a Kafka, de Tolstoi a Orwell, de Malraux a Virginia Woolf. Todos superaram o maior dos desafios: o decurso do tempo. «Se conseguir passar no teste de mais uma ou duas gerações, poderá perdurar», escreveu Rushdie, precisamente n’Os Filhos da Meia-Noite, a propósito de outro assunto. Os prémios passam, os júris eclipsam-se, a obra fica.

Os cobardes


Pedro Correia,

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Notável peça jornalística da revista Le Point desta semana: entrevista exclusiva com Salman Rushdie. O grande escritor está de volta após ter sido quase assassinado a 22 de Agosto de 2022, em Nova Iorque, por um extremista islâmico armado com um cutelo. Em 27 segundos levou 15 naifadas, sobreviveu quase por milagre. Mas não saiu ileso: ficou cego do olho direito, como a fotografia de capa documenta.

Felizmente Rushdie é daqueles que não desistem. Aos 76 anos, tem outro livro já ao encontro dos seus numerosos leitores: A Cidade da Vitória, romance histórico, ambientado na Índia do século XIV, mas obviamente com a intenção de retratar os dias de hoje. «Este mundo imaginário fala do nosso mundo real, o que sempre acontece com os romances, a pretexto da ficção», assinala na entrevista.

Testemunho desassombrado: nem seria de esperar outra coisa dele. Arrasa os dogmas da correcção política, critica sem rodeios a esquerda e a direita que ameaçam a liberdade de expressão com o mesmo ímpeto censório, afirma a necessidade de militarmos em defesa dos direitos fundamentais pois nenhum está garantido a título perpétuo – muito longe disso. «Quando se trata da democracia, não estamos num salão de chá, temos de nos bater por ela.»

Perseguido, injuriado, ameaçado, alvo de tentativas de homicídio pelo criminoso regime de Teerão desde a publicação dos Versículos Satânicos, em 1988, ele não se verga. Evidenciando coragem física e moral. Em contraste absoluto com os cobardes membros do júri do Prémio Nobel da Literatura – que ano após ano o ignoram. Quando bastaria esse fabuloso romance intitulado Os Filhos da Meia-Noite, de 1981, para lhe valer este galardão que já distinguiu tanto autor medíocre.

«De que necessita realmente um ser humano quando vem ao mundo? De ser alimentado, de estar em segurança, de ser amado se tiver possibilidade disso. Mas que pede ele aos pais quando já comeu e se sente aconchegado na cama? “Conta-me uma história…” Esta necessidade de histórias acompanha-nos desde a origem.» Sabe do que fala, este escritor que tanto admiro. Tem fibra de resistente. É um exemplo para todos nós.