Quem terá sido?


Pedro Correia,
Fontes Pereira de Melo (1819-1887)

No Palácio da Bolsa, no Porto, existe este busto daquele que considero ter sido o melhor chefe do Governo português do século XIX: António Maria de Fontes Pereira de Melo, que liderou o executivo em 1871-1877, 1878-1879 e 1881-1886.

Tarefa nada fácil, num século que começou com as invasões francesas e praticamente terminou com o Ultimato inglês pondo fim às nossas ambições territoriais em África. Pelo meio, a traumática perda do Brasil e a sangrenta guerra civil 1828-1834.

Apetece-me perguntar aos leitores: na vossa perspectiva, quem terá sido o melhor chefe do Governo português do século XX?

O Prémio Camões 2026


jpt,

File:Prémio Camões logo.png - Wikimedia Commons

Ontem foi atribuído a Lídia Jorge o Camões 2026 . Sorri! Pois se o Prémio é consagrador de carreiras literárias é também político. Ou melhor, é ideológico!

Desde logo, pois instaurado para afirmar uma ideológica – que se quer política – “comunidade lusófona”, um velho anseio salazarista. E também pelos seus procedimentos. Não só pela instituída, mesmo se dita apenas implícita, rotatividade nacional dos premiados, assim subordinando os méritos literários às nacionalidades dos escritores – anualmente alternando entre portugueses e brasileiros, de vez em quando a um “africano” e quando o rei fizer anos a um asiático… E pela constituição internacional dos júris que seleccionam os galardoados – postulando uma equidade entre campos académicos julgadores, a qual intenta simular uma igualdade da densidade dos ambientes intelectuais dos vários países.

E também o é, ideológico, por vezes com descaro, pelos critérios de premiação. Para disso exemplo recordo que aquando da sua atribuição a Chiziane tamanha foi a minha surpresa – pelas características literárias da sua obra mas também, secundariamente, pela excentricidade das perspectivas metafísicas da autora (as quais, e isso é bem significativo, não são publicadas em Portugal) – que fui ler a justificação do júri. E lá estava, explicitado até de modo cândido, o que eu antevira: a obra fora considerada premiável por ser alvo de muita investigação académica! Entenda-se, a premiação literária radicara no excêntrico factor das características identitárias apostas à autora serem atractivas para alguns meios universitários brasileiros, mais atreitos a temas como a “consciência africana” ou a visões simplistas do “género”.

Enfim, dado tudo isto desde há muito que pouco ligo ao Prémio Camões. Aliás, de facto, deixei de o considerar quando morreu o grande Ruy Duarte de Carvalho sem que lhe tivesse sido outorgado, ele autor de obra plural e gigante, mais relevante do que o rosário de premiados daquela época.

Ainda assim nesta madrugada atentei no prémio dado a Lídia Jorge. Não sou especialista de literatura – nem sou grande leitor de ficção contemporânea. Portanto nada adianto sobre os méritos literários da escritora. Mas devido à evidente dimensão ideológica do Prémio Camões reflicto sobre a pertinência desta atribuição, exactamente neste ano.

A maior honraria que o Estado pode conceder a um intelectual é atribuir-lhe o estatuto de orador no Dia Nacional, o 10 de Junho. Momento no qual se espera que divulgue ele junto da sociedade um diagnóstico, um “estado da arte” nacional, e até um rumo desejado, pistas de reflexão que sejam. Em 2025 Lídia Jorge foi convidada para essa tarefa. Proferiu um discurso lamentável – abordei-o aqui. A pretexto de causas benfazejas patenteou uma atrevida ignorância, demagógica até, desde o perorar inanidades raciológicas, tipo o patético “somos todos mulatos”, até desembainhar as culpas históricas e uma malvadez ontológica nacionais. E descendo à desonestidade, na verdadeira fraude de truncar o Zurara de que se socorrera para ilustrar os dislates proferidos.

Claro que o discurso foi bem recebido pela “imprensa de referência”. Numa disparatada entrevista à televisiva Davim, fértil em elogios à decana escritora, Lídia Jorge continuou a sua pose de sábia faroleira, espantando-se das reacções adversas ao seu discurso, “escrito em dois dias” e para o qual “li dois livros”, como se atreveu a gabar-se.

Entretanto fora ao Brasil, a uma Feira do Livro, afirmar que em Portugal fervilha um projecto colonial. Nenhum “jornalismo de referência” ou académico dos “estudos literários” ou “culturais” indagou quais são essas actuais (ressurgidas ou inovadoras) dinâmicas políticas, económicas, até diplomáticas, mesmo culturais, que encarnam ou divulgam o tal “projecto colonial” português nesta década. Mas decerto que em alguns “campos” intelectuais e campi brasileiros muitos gostaram da atoarda falsária.

Finalmente, para acabar o seu bem sucedido 2025, a escritora Lídia Jorge associou-se à campanha de recuperação de Boaventura Sousa Santos, o “abissal” vulto de alguma “esquerda” alterglobalista, um acto inqualificável.

Todos estes meneios ideológicos, todas estas atitudes, são remuneradas. Como corolário desta fiada de indecências, há meses a decana recebeu o Prémio Pessoa. E agora o Camões. Ou seja, as instituições, neste mesmo imediato ano, a aprestarem-se a sufragar e consagrar a demagogia. E a vilania.

A diferença


Pedro Correia,

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Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.

Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»

Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»

Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»

A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.

Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.

Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.

O ódio move montanhas


Pedro Correia,

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O ódio é uma poderosa força motriz que jamais deve ser subestimada. Muito menos na vida política. O ódio faz congregar esforços, mobilizar vontades, mover montanhas. Sem ódio quase toda a actividade política estaria condenada ao fracasso. Sem ódio talvez até nem houvesse política. É certo que existiram Gandhi e Luther King. Mas esses, como é sabido, acabaram mal.

 

Imagem: Robert Mitchum no filme A Sombra do Caçador (The Night of the Hunter, 1955)

Diálogos políticos


Pedro Correia,

 

Ela – Há muito tempo que não te vejo ler um jornal…

Ele – Não me revejo na linha editorial de nenhum. Gostava de um jornal que saísse em defesa dos mais aptos e dos mais fortes.

Ela – Que raio de ideia! Eu sou defensora dos fracos e oprimidos. E com muita honra.

Ele – Dos fracos não reza a história. Os fortes é que têm de ser defendidos.

Ela (cantarolando) – “Nous sommes nés le même jour / mon frère…”

Ele – Cala-te! Odeio isso.

Ela (cantarolando) – “Avante camarada, avante! / Junta a tua à nossa voz…”

Ele – Odeio. Se eu mandasse, bania conceitos como igualdade e fraternidade. That’s bullshit.

Ela – Os direitos são iguais!

Ele – Não existe igualdade. Não existe sociedade. Só existe o indivíduo. Cada um por si. Este é o conceito que deve unir-nos.

Ela – É o conceito que vos une a vocês, neoliberais. Mas tu vais sair da caverna, a bem ou a mal. E sou eu quem vai reabilitar-te para a sociedade.

Ele – Na caverna é que os homens eram iguais. A esquerda nunca saiu da caverna. A desigualdade é o motor do mundo.

Ela – Há-de haver sempre desigualdades. A esquerda democrática assume isso. O nosso objectivo não é acabar com as desigualdades mas diminuí-las.

Ele – A esquerda, se fosse verdadeiramente pela igualdade, seria igual à direita.

Ela – Mas a direita não quer nem ouvir falar de igualdade de oportunidades!

Ele – Quem chega primeiro dita as regras. A direita chegou primeiro. Se vocês defendem a igualdade então tornem-se iguais a nós.

Ela – Estás a irritar-me. Hei-de evangelizar-te, nem que seja à porrada.

Ele – Hum. Dessa linguagem já estou a gostar. Vê-se que começas a assimilar as minhas lições.

Não de todos: só da maioria


Pedro Correia,

O Presidente da República não tem de ser “de todos os portugueses”: esta foi uma fórmula encontrada em 1976 por António Ramalho Eanes, num contexto histórico muito específico, quando o regime democrático estava a definir os seus contornos e o País escapara à tangente de uma guerra civil que só poderia ter consequências devastadoras. Carlos III é que é o soberano de todos os súbditos do Reino Unido, Naruhito é que é o imperador de todos os japoneses. Eis uma das diferenças essenciais entre monarquia e república: um Presidente não pode, e em muitas ocasiões não deve, esconder as suas convicções. Em Portugal compete-lhe – isso sim – cumprir e fazer cumprir a Constituição: se necessário, contra uma parte dos portugueses.

Só isto. Que é tudo.

Política é civismo


Teresa Ribeiro,

Constato, desde há muito, que mais depressa as pessoas falam publicamente da sua intimidade do que de política. Ainda há pouco tempo li, no Público, uma crónica que começava com a afirmação: “Não gosto de falar de política”. Um desabafo tranquilo, de quem sabe que está a exprimir uma posição consensual. Este pudor sempre me intrigou, visto que não há nada que tenha mais impacto no “condomínio” social em que vivemos do que a política. Discutir política é, em última análise, um acto cívico. Exprime envolvimento, preocupação, sentido crítico e desejo de clarificar tudo o que de polémico vai acontecendo neste âmbito. 

Ao contrário, cultivar a reserva e o distanciamento sobre este tema é negar uma dimensão muito importante da nossa vida colectiva e passar a mensagem errada para as gerações vindouras, a de que a política não interessa a ninguém. Nada mais falso, nada mais perigoso.

Lembrando outra campanha a duas voltas


Pedro Correia,

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Mário Soares e Freitas do Amaral, os finalistas da corrida para Belém há 40 anos

Vivi apaixonadamente os tempos da campanha eleitoral de 1985-1986, como é próprio de quem chegou aos 20 anos na década de 80. Mas ninguém me dirá sem desmentido que foram os melhores tempos de que há memória em Portugal seja sob que ângulo for. Começando, claro, pelo futebol – que funciona como espelho da sociedade muito mais do que alguns intelectuais da treta admitem.

Há quem jure que as pessoas então eram mais felizes. Duvido muito. 

 

A esquerda extremista anti-NATO e anti-CEE valia 20% nas urnas. Havia populismo em doses abundantes. Um partido político criado a partir de Belém com a esposa do Presidente “enviada especial” do marido para comícios desse partido. Um dos candidatos presidenciais anunciando a intenção de fundar uma “nova república” (!) com uma “nova democracia”. Dez anos após o início do regime constitucional.

Tudo isto fazia as pessoas mais felizes? Não creio. 

 

O melhor em Portugal, naquela turbulenta década iniciada com a trágica morte de um primeiro-ministro, foi a nossa adesão em 1985 à Comunidade Europeia, ferozmente combatida pelo PCP, então ainda cheio de força, como vassalo da União Soviética. Quando a inflação no País subia aos 20%, o desemprego afectava 10% da população activa, proliferavam os salários em atraso e milhares de pessoas viviam na cintura de Lisboa em barracas imundas, sem água potável nem saneamento básico. A cólera era doença que ainda assombrava os portugueses em surtos ocasionais.

Em segundo lugar destaco a revisão constitucional de 1989, que nos pôs enfim na rota das democracias liberais europeias com algumas décadas de atraso – e que decorreu da nossa entrada na CEE. Só a partir daí fomos autorizados a ver canais privados de TV, pondo-se fim ao monopólio da RTP.

 

Saudades, todos temos. Sobretudo de sermos muito mais novos.

Mas basta pesquisar com atenção imagens dessa década para se perceber até que ponto hoje habitamos um país diferente. Para muito melhor.

Mais instruídos, mais dinâmicos, mais viajados, mais cosmopolitas, mais europeus.

Tanta coisa muda em cinco anos


Pedro Correia,

Evitemos previsões sobre o que se passará daqui a cinco meses, quanto mais daqui a cinco anos.

Faz hoje cinco anos o primeiro-ministro português era António Costa e o “líder” do PSD era Rui Rio. Um ano depois o PS venceria as legislativas com maioria absoluta. Depois sucederam-se dois outros governos. Costa foi tratar da vida para Bruxelas, Rio recolheu a Viana do Castelo. O ostracizado Montenegro saiu vencedor em quatro eleições – uma interna, três nacionais. No PS, Santos substituiu Costa e Carneiro substituiu Santos – que já nem deputado é.

Hoje há 74 novos lugares parlamentares reservados a partidos inexistentes ou residuais em São Bento no dia 29 de Janeiro de 2021.

Todas as previsões se arriscam a sair furadas.

Antigamente é que tudo isto era bom? Olhem que não, olhem que não


Pedro Correia,

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A RTP exibiu há poucos dias, no seu canal de notícias, o documentário A Duas Voltas, que recorda a mais emocionante campanha eleitoral da democracia portuguesa, ocorrida faz agora 40 anos.

Recorrendo ao valioso espólio documental da televisão pública, esta instrutiva série em cinco episódios devia ser exibida nas escolas secundárias. Por recordar um período de extrema polarização política, quando o regime já tinha dez anos e o País permanecia na cauda de vários indicadores económicos, apesar de termos ingressado pouco antes na Comunidade Económica Europeia. A inflação rondava os 20%, havia meio milhão de desempregados, a chaga dos salários em atraso instalara-se em muitas empresas.

Foi a primeira vez – e única, até agora – em que uma eleição presidencial se decidiu a duas voltas – disputadas a 26 de Janeiro e a 16 de Fevereiro de 1986. Na ronda inicial, venceu Freitas do Amaral com larga vantagem: 46,3%, muito acima de Mário Soares, que recolheu 25,4% dos boletins. Na ronda decisiva, as posições inverteram-se: Soares derrotou Freitas, com 51,2% contra 48,8%. Triunfo à tangente: menos de 140 mil votos de diferença num universo de quase 6 milhões de eleitores.

Para trás ficaram outros aspirantes a Belém: o ex-número 2 do PS, Francisco Salgado Zenha, teve 20,9%, e a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo ficou com 7,4%. 

 

Este documentário – que recomendo sem reservas – é muito interessante pela abundância de pormenores que fornece e pela ampla gama de depoimentos que recolhe, mas também por nos traçar um expressivo retrato do que era o Portugal político de 1986.

Eu vivi esse período histórico já como jornalista profissional e confirmo: o país aqui descrito estava muito longe do cenário idílico que alguns comentadores tocados pela nostalgia nos querem descrever hoje, sob o princípio “no meu tempo é que era bom”. Insistindo na tese de que se registou séria degenerescência na democracia portuguesa ao longo destas quatro décadas. Excelente então, péssima agora.

Não é verdade. Basta recordar em traços largos o que sucedeu em 1985-1986. Pintasilgo atraiçoada por Ramalho Eanes, inquillino do Palácio de Belém que a incentivou a avançar na batalha da sucessão e depois lhe tirou o tapete, deixando-a sozinha em palco. Zenha e Soares rompendo em definitivo uma camaradagem de 30 anos, envolvendo-se numa luta fratricida. O Presidente da República mandando às malvas o dever de isenção, enviando a esposa para comícios em apoio expresso a Zenha enquanto formava um partido político a partir do palácio. O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, tirando da cartola um candidato fictício, Ângelo Veloso – mera manobra para obter tempo de antena favorável a Zenha, que contaria com os votos comunistas na primeira volta.

Tacticismo, intriga, traição, populismo do mais rasteiro: nenhum destes ingredientes faltou.

 

Falta acrescentar, em pano de fundo: o Partido Comunista de férrea obediência soviética valia ainda 15,5% de votos neste país membro da NATO, em plena Guerra Fria. Quando toda a Europa de Leste permanecia amordaçada, no lado de lá da Cortina de Ferro. Com 38 deputados e 47 presidências de câmaras municipais, o PCP mantinha enorme influência nas ruas, nos sindicatos e nas redacções dos órgãos de informação, onde facilmente impunha a sua narrativa.

Era tão influente que bastava a vontade de um só homem, neste caso o próprio Cunhal, para decidir o desfecho de um escrutínio. Aconteceu a 2 de Fevereiro, com a convocação de um congresso extraordinário do PCP: o líder do partido, renegando tudo quanto dissera desde sempre contra Soares, recomendou aos militantes que votassem no socialista, mesmo tapando-lhe a cara e o nome no boletim de voto. E a multidão comunista obedeceu cegamente à ordem do “camarada Álvaro”.

Soares deve a Cunhal – seu inimigo histórico – o primeiro mandato como presidente. Tudo a pretexto de travar o passo ao “reaccionário” Freitas do Amaral, que por ironia do destino viria a encerrar a carreira política como ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates

 

Era este o país que alguns lembram agora com suspiros nostálgicos.

Um país em que o moderadíssimo Freitas não virava uma esquina sem ouvir alguém chamar-lhe “fascista”. Um país em que milhares de militantes partidários obedeciam cegamente à voz de comando do dirigente máximo, seguindo-o sempre em rebanho após cada decisão contraditória. Um país em que o Presidente conspirava contra governos e a sua esposa surgia como réplica serôdia de Evita Perón, beijando criancinhas em comícios renovadores.

Um país em que toda a imprensa diária estava “nacionalizada” e a televisão livre do monopólio estatal ainda soava a utopia. 

 

Na corrida eleitoral nem faltava o candidato ungido por Belém com este discurso: «É necessária uma nova democracia e uma nova república. Uma nova democracia, porque a que temos é uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo e a desigualdade perante a lei.»

Assim falou Zenha ao apresentar-se como concorrente à chefia do Estado. Soa-vos a algo familiar? Pois.

Não acreditem quando vos disserem que antigamente era tudo melhor.

 

A Duas Voltas, documentário de Ivan Nunes e Paulo Pena, pode ser visto ou revisto na RTP Play.

O que parece nem sempre é


Pedro Correia,

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A autoconfiança é um atributo fundamental num político. John Kenneth Galbraith notou certa vez que nunca tinha conhecido um homem tão confiante em si próprio como John Fitzgerald Kennedy – o que serve para explicar grande parte do sucesso do 35.º presidente norte-americano, ainda hoje uma das personalidades mais aclamadas do século XX. No fascinante livro The Best and the Brightest, dedicado aos bastidores da presidência Kennedy, David Halberstam mostra-nos outra característica do jovem presidente que acabaria por ser assassinado em Dallas: ele era exactamente como parecia. Ao contrário de outros políticos, que fazem tudo para parecer o que não são, Kennedy tinha uma autenticidade que empolgava os seus adeptos e desarmava os seus adversários.

Há um episódio da disputadíssima campanha eleitoral de 1960 que ilustra bem tudo isto: a certa altura alguém pergunta a Kennedy se não se sente exausto. A resposta, negativa, veio num sorriso. Mas o então senador do Massachusetts que se candidatava à Casa Branca pelo Partido Democrata acrescentou ter a certeza de que o seu antagonista republicano, Richard Nixon, se encontrava à beira da exaustão (o que mais tarde se provaria ser verdade). E como é que Kennedy sabia isto? O futuro presidente esclareceu o seu interlocutor: «Sei bem quem sou e não tenho de me preocupar em adaptar-me ou transformar-me. Tudo quanto tenho de fazer, em cada etapa da campanha, é mostrar-me tal como sou. Mas Nixon não sabe bem quem é. Portanto, cada vez que faz um discurso tem de decidir que face dele próprio irá mostrar, o que deve ser extenuante.»

Este episódio ajuda a demonstrar a importância da autenticidade na política. Um dirigente postiço, plastificado, sempre em pose, acaba cedo ou tarde por ser desmascarado. Perde grande parte da sua capacidade de atracção quando lhe desvendam o verdadeiro rosto. E termina esgotado por ter consumido energias em excesso ao tentar parecer o que não é.

Nada é estático na política


Pedro Correia,

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Freitas do Amaral, Sá Carneiro, Mário Soares e Álvaro Cunhal (Dezembro 1976)

Foto: Inácio Ludgero

 

É sempre muito subjectivo falar-se em direita e esquerda na política. Conceito fluido, que depende sobretudo do ponto de vista de quem cola as etiquetas.

Sou de um tempo em que o PS chegou a ser rotulado de “partido de direita” e até com erupções de “extrema-direita”.

Também sou de um tempo em que o PSD se proclamava de “centro-esquerda” cuja fronteira terminava no centro geométrico (que, em política, é sempre uma abstracção). Aí não havia rotuladores externos: quem assim o definia era Rui Rio, na altura “líder” do partido. Alguém que tinha como alter-ego Pacheco Pereira, hoje espécie de alma gémea de Alexandra Leitão, candidata da “frente de esquerda” em Lisboa.

Como os anos já pesam, sou até de um tempo em que o meu antigo professor de Direito Administrativo, Freitas do Amaral, chegou a ser considerado em editorial de imprensa “o homem mais a direita de Portugal”. Para acabar como ministro de Sócrates e parceiro de palco de Francisco Louçã.

Nada é estático na política. Tudo é dinâmico.

Definir essa dinâmica é tarefa de quem sabe observar os fenómenos políticos com atenção.

Férias meditativas*


José Meireles Graça,

Começo a apreciar este Governo, embora não esteja a apreciar este Governo. Esta declaração esquizofrénica requer explicação, mas primeiro vou dar uma volta. Com licença:

Suponho que não há quem não seja (tirando eu e um ou outro ocasional maduro) a favor da justiça social e da diminuição das desigualdades.

Deixemos em paz a justiça social, à qual cada um dá o conteúdo que quiser mas sempre se resumindo nisto: Fulano teve ou tem vantagens materiais sobre mim, uma grande injustiça, de modo que devo ser compensado e os meus filhos também no caso de não lhes ter podido dar vantagens sobre os filhos dos outros.

Se a diminuição da desigualdade é um bem, a igualdade é o maior bem que se pode obter. Mas como não há maneira de garantir que, na imensa variabilidade das competências, circunstâncias e interesses, todos atinjam os mesmos resultados materiais, haverá que pilhar os mais bem sucedidos a benefício dos restantes.

Nos bons tempos do marxismo não havia mistério: de cada qual segundo a sua capacidade (isto é, o que produzes não é teu), a cada qual segundo as suas necessidades (isto é, as que podem ser satisfeitas). A coisa ruiu porque implicava pessoas que não existem, aquelas que se esforçam a benefício não de si mesmas e dos seus filhos mas da comunidade. E como as que existem são as que sempre existiram, com o tempo os regimes ficaram igualitários mas com uns cidadãos mais iguais do que os outros; e o processo da criação de riqueza travou. Ainda há quem defenda este modelo falido e, por mim, são pessoas que encaro com ternura: quando ainda tinham poder, e portanto representavam um perigo, eu era novo e agora não sou. O perigo passou mas infelizmente também os anos, e de toda a maneira vejo com uma certa simpatia pessoas com ideias disparatadas; e, se se reclamarem de superioridade moral, acho-as até cómicas.

Quer dizer que a defesa explícita da igualdade absoluta na riqueza desapareceu; mas ficou a retórica e esta tem consequências até mesmo para aquelas pessoas exornadas de intelectos brilhantes e cultura histórica assinalável: a uma ouvi ser um atentado à humanidade a existência de magnatas americanos que têm riquezas superiores às do PIB de muitos países.

Têm sim senhor, e dificilmente teriam se não fossem americanos. O que é surpreendente é que não se ligue uma coisa à outra e não se perceba que é precisamente o culto da diferença e não da igualdade que explica o sucesso do modelo americano, em conjunto é claro com outros factores. Esses trilionários andam agora de faca nos dentes a investir em inteligência artificial sem que ninguém esteja certo de que seja uma aposta de sucesso, e menos ainda de que haja espaço para todos. Enquanto isso, a Europa social-democrata produziu já regulamentações daquela IA e os defensores da legislação, que são legião, e os críticos, que são menos, vão ventilar as suas divergências para as redes sociais… que são americanas porque o génio europeu está ocupado a produzir teorias, revoluções, regulamentações, redistribuições e perdigotos.

Para já, a Europa pode gabar-se da superioridade dos seus SNS, dos seus modelos sociais que se traduzem em férias pagas com muitos mais dias do que as americanas, protecção contra despedimentos e um imenso etc. que a faz olhar com desdém para o modo de vida americano. Excepto que a América, e a China, crescem muito mais do que a Europa, ano após ano, o que fará com que algures num futuro não muito distante o pobre americano seja tão rico como o médio europeu. Quem quer tudo e o seu contrário acaba por ficar mais do lado do contrário.

E então, que tem isto a ver connosco? Tem que nós temos um governo social-democrata, o que seria um mal com remédio, mas um eleitorado que também é, o que é difícil tenha emenda. O ministro da Reforma vai reformar mas sem despedir ninguém, credo; a da Saúde quer acabar com aldrabices no apoio à amamentação para além dos dois anos dos infantes, cai o Carmo e a Trindade (a misturada disto com o necessário apoio à natalidade é um equívoco – quem tem de fazer isso é quem beneficia, isto é, a comunidade, não as empresas, e os apoios necessários devem ir muito além dos que existem); o da Educação quer reformar uma estrutura vetusta, suspeita e provavelmente endogâmica e não só se vê nisso um imenso e atrevido passo como gente de representação apresenta a coisa, sem se rir, como um ataque à ciência. Também quer, o pobre homem, que os organismos que têm por missão dar números sobre Educação deem números fiáveis, um evidente exagero.

Eu destes escândalos recentes do Governo gosto, da dimensãozinha modesta deles não. Voltando ao princípio, que não sou desses que começam por uma ponta e a páginas tantas já não sabem onde estão com a cabeça: estes tímidos começos vão na direcção certa mas de passos grandes não estou à espera.

Sucede porém que o Tribunal Constitucional acaba de dizer (creio, fui ler o Acórdão mas às tantas os olhos lacrimejavam de cansaço e a cabeça estava a começar a zunir por causa de tantos nós cegos que se acumulavam nas meninges, razões pelas quais desisti) que quem cá está manda vir quem diga que é filho e, parece, a mulher com quem estava casado (não apurei se isso também se aplica às outras, no caso de ser casado com várias), além dos pais, tudo provado com documentos dos países de origem, além de uma extensa lista de outras correcções, todas militando no mesmo sentido: o que está está muito bem, na realidade não são precisas alterações nenhumas.  Todavia, o TC não entende necessário, ao contrário do que pretendia o Presidente Marcelo, que para alterar as leis que regulam estas matérias fosse necessário ouvir cerca de 17.000 entidades, assim se garantindo a democraticidade e a entrada de mais algumas centenas de milhar antes de acabar a audição. Isto e muito mais, com tanta minúcia e tanta complicação inacreditavelmente prolixa que ninguém vai ler até ao fim, qualquer imigrante que tenha advogado poderá contestar tudo e o seu contrário e a Agência encarregada de regular o assunto fará o que lhe der na cabeça, certa de que encontrará sempre argumentos a favor nos dias ímpares do mês, e contra nos restantes,

Sobre este assunto há muitíssimo mais para dizer, mas o artigo não é sobre imigração mas sim sobre o pendor reformista do Governo. E aqui cabe tirar o chapéu porque comprar uma briga com o Presidente Marcelo, a personificação do consenso dissolvente, do porreirismo e das reformas de faz-de-conta, não é coisa pouca. Existe um problema de imigração, o Governo quer resolvê-lo e Marcelo quer, como sempre quis, a mesmice do atoleiro e uma fotografia com um coraçãozinho em todas as salas de todas as casas do país.

Antes desta parte gaga do Acórdão tinha escrito, para acabar:

É o que temos: A Europa perde lugar no mundo e nós com socialistas perdemos lugar na Europa e, com social-democratas, talvez o mantenhamos. Esta diferença que nos faz originais quer dizer um de centro-direita e outro de centro-esquerda. O centro, como bem sabemos, é o lugar geométrico de coisa nenhuma.

E agora acrescento que Marcelo baralha as contas porque me esqueci dele, que é um resquício dos tempos de Costa: Muita parra e nenhuma uva.

* Publicado no Observador

Desta vez serás tu, Rui Borges


Pedro Correia,

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Espero que a redacção do Expresso, daqui a cinco meses, eleja Rui Borges como Figura Nacional de 2025. Pela mesma lógica que a levou em Dezembro último a escolher Ruben Amorim só para não destacar Luís Montenegro. O primeiro venceu o campeonato nacional de futebol, repetindo uma proeza que já alcançara três anos antes. O segundo fez regressar o PSD ao Governo quase uma década depois. 

Pela mesma lógica de elevar a bola acima da política, Borges merece em 2025 muito mais do que Amorim há um ano. Os factos comprovam: conquistou o primeiro bicampeonato em 74 anos e a primeira dobradinha (Liga + Taça de Portugal) para o Sporting desde 2002. O antecessor, agora técnico do Manchester United, ficou em 15.º lugar no campeonato inglês e não conseguiu qualificar a equipa para nenhuma competição de âmbito europeu: o Expresso parece ter-lhe dado azar. «O magnetismo do líder sedutor e genuíno» andou ausente em parte incerta e o «gigante United» cumpriu a sua 12.ª temporada consecutiva sem vencer a Premier League. Nem parece gigante.

Sob este prisma, talvez Montenegro até agradeça ficar novamente excluído da escolha final do semanário que há um ano o ignorou: azar é coisa que o primeiro-ministro certamente dispensa. Mesmo tendo também vencido, à sua maneira, um bicampeonato: a AD, com ele ao leme, triunfou pelo segundo ano seguido numa eleição legislativa – desta vez com a «maioria maior» que o presidente do partido laranja pedira aos eleitores. Saindo das urnas, a 18 de Maio, com 31,8% (+ 1,7% do que em 10 de Março de 2024), 91 deputados (+ 11), 2 milhões de votos (+ 200 mil) e mais 9 pontos percentuais do que o segundo classificado (14 meses antes conseguira só +0,9).

Depois de Amorim, avança Borges. Antes assim. Viva o Sporting bicampeão!