Séneca na Fábrica Lisboeta


jpt,

Cruzei a cidade até à Fábrica Lisboeta, um velho reduto fabril que há anos passou a arremedo de feira popular bon chic bon genre, aspiração que terá obrigado os “empreendedores” a estrangeirarem-lhe o nome.

Ali fui para assistir a uma conversa sobre um livro que tem sido (merecidamente) cumulado de elogios. Após a qual me sentei numa esplanada defronte à Ler Devagar, lendo devagar o livro que levara e bebericando uma caneca. Passou uma amiga e desafiou-me para jantar com um pequeno comité.

Agradado aprestei-me a isso. Pedi a conta – 5 euros pela tal caneca! Murmurei “da-sse” – or should I say, fuck!?, pois esse é linguajar adequado àquele amontoado de barracões que anuncia devotar-se a manter um “look & feel industrial”, espaço que sociólogos dizem “icónico” e “democratizador” pois dinamizador da “rede global de circulação de pessoas, ideias e capitais”, incentivado pelos decerto que ilustrados documentos Plano Diretor Municipal de 2012 e Estratégias para a Cultura da Cidade de Lisboa.

Enfim, paguei e juntei-me ao grupo comensal. Um quarteto da literatura, eles em animada conversa sobre temas e gentes – livros, poetas, os podcasts de agora… – que desconheço. É um ambiente que me é excêntrico, com alguma tendência para uma (para mim) além-realidade. Mas ali representado por gente sedimentada e desprovida do mero “name-dropping” (como aqui comprovo os anglicismos não me são tabu, malgré tout…) tão habitual no lisboetismo. Pois estes cultos e diligentes. Por isso tão agradável me foi o convívio, fruindo aquela diversidade de interesses e saberes.

De súbito um deles anunciou saber da iminente edição um livro com textos de Séneca sobre morte – notícia que eu decerto não ouviria se estando entre os meus. Retive, sorrindo para dentro. Pois essa morte anda frenética na minha vizinhança, tanto que venho dando conta do meu desconforto. E há muito que não leio Séneca…

Regresso a casa, da estante retiro o “Cartas a Lucílio”, passeio pelos sublinhados. Onde há já décadas assinalei os verdadeiros valores civilizacionais ali apostos, o real sagrado da vida que estes supersticiosos ultra-católicos de agora ainda tanto combatem: “Um homem corajoso e sábio não deverá fugir da vida, mas sim sair dela; acima de tudo importa evitar uma paixão que tem assaltado muita gente: a paixão pela morte (…) muitos são (os) que através dos tempos têm demonstrado desprezo pela morte (…) nós não devemos recear a morte, como a ela devemos o termo dos nossos receios!” “Ninguém pode obter uma vida segura se continuamente pensar em prolongá-la, se considerar entre os bens mais preciosos um grande número de anos”.

Há uma ano deixei o postal “Eutanásia”, usando um filme do insuspeito John Wayne para referir a inércia cultural portuguesa sobre a matéria, agora até com uma lei deixada em processo de infundice. Neste mês em França – país cuja cultura antes nos foi tão influente – foi aprovada a lei da eutanásia. O que por cá foi ignorado, enquanto todos se animam a discutir … o atrelado do ministro, as notas dos putos charilas e os dislates de Trump… charilas. E, mais ainda, as contratações dos clubes de futebol…

E, entretanto, também reparo noutro sublinhado, algo que Séneca escreveu em meados do século I: “verificarás que a ira dos escravos não fez menor número de vítimas que a dos reis!”. Como dois mil anos de “activismo” vieram provar.

Enfim, ainda bem que fui à Fábrica de Lisboa. E que fui convidado para jantar.

(Este é uma parte da “gazeta” que deixo no meu “O Pimentel“, esta tendo levado o título “Um bimbo em Belém etc.”)

Não quero acreditar


Paulo Sousa,

Há algumas horas que anda a circular pelas redes, o que poderá vir a ser o próximo emblema da Federação Portuguesa de Futebol.

O primeiro comentário que ouvi, referia a vontade de vender camisolas da selecção em regiões do globo onde um crucifixo possa ser  incómodo.

Espero que seja apenas uma brincadeira de mau gosto.

Para ver Portugal jogar


Maria Dulce Fernandes,

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Ontem fiz rissóis de camarão. Comecei pelo recheio, sem pressa, com a calma adquirida em quatro meses de convalescença e recuperação física, que felizmente já está no bom caminho. Passei em seguida para a massa, que sovo ainda quente e deixo arrefecer durante um par de horas. Entretanto preparo os ingredientes para a confecção de um arrozinho de tomate com coentros, que é petisco que muito me apraz.

Com creme e massa arrefecidos quanto baste, é altura de abrir as hostilidades e começar a luta com o rolo da massa. É esticar até obter uma translucidez firme, centrar uma colher creme e cortar com ajuda de um aro (a minha mãe esticava a massa com uma garrafa vazia e cortava com um copo, com extraordinária mestria). Repeti o processo sessenta vezes, com alguns minutos de intervalo entre cada dúzia. Mais uma hora de frigorífico e ficaram prontos para panar. Mais um pouco de frio, e ficaram no ponto para congelar ou fritar. Fritei oito. Muito bons que estavam.

Dão trabalho? Claro, mas o que é que não dá trabalho?

E diz-me a entourage amico-familiar: “Mas porque é que não compras feito? Em AB os croquetes são muito bons! Em CD os rissóis até têm camarão! Em EF fazem uns pastéis de bacalhau de truz! Só mesmo tu para estares com esse trabalho todo.” Não é mentira o que dizem, mas nunca fui grande fã de andar a correr capelinhas e depois onde é que está o gozo de comprar comida feita? Uns frangos assados, ainda vá…

Hoje vou fritar mais uma mancheia deles. Tenho tremoços e asinhas de frango caseiras, também  acabadas de fritar e vão ser  acepipes de truz a ver Portugal jogar.

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Pedro Correia,

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Neste 10 de Junho, apetece-me escrever sobre escritores portugueses. Para mencionar os romances do século XX escritos no nosso idioma que captam as luzes e sombras da portugalidade. Do ponto de vista histórico, social e até geográfico.

Conjunto capaz de proporcionar ao leitor uma visão abrangente da nossa Psicopátria. Ignoro se já foi tema para tese de doutoramento, mas a ideia aqui fica.

 

Entre as melhores narrativas portuguesas do século passado constam obras que descrevem o homem enquanto ser introspectivo – é o caso de Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Ou o definem como membro da sociedade – sucede com Nome de Guerra, de Almada Negreiros. Ou o projectam no mundo e aí o entregam à sua sorte – temos como expoente A Selva, de Ferreira de Castro. Ou retiram coordenadas espaciais e temporais para exporem o ser humano na sua nudez elementar perante um cataclismo global – acontece no emblemático Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.

Mas a Psicopátria surge noutros romances que nos desvendam enquanto povo neste concreto chão que nos coube em sorte e foi moldando um carácter colectivo.

Se me pedirem para indicar dez, são estes: Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca, Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, A Sibila (1954), de Agustina Bessa-Luís, A Casa Grande de Romarigães (1957), de Aquilino Ribeiro, Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol, A Torre da Barbela (1964), de Ruben A., O Delfim (1968), de José Cardoso Pires, O Milagre Segundo Salomé (1975), de José Rodrigues Miguéis, Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena, e O Esplendor de Portugal (1997), de António Lobo Antunes.

Cada qual no seu estilo, constitui uma ode em prosa à portugalidade. Num tempo e num espaço muito precisos.

 

Escrevo com a satisfação de saber reeditado, na histórica Bertrand, esse monumento à língua portuguesa que é A Casa Grande de Romarigães.

O autor, com excessiva modéstia, procurou desvalorizar esta obra chamando-lhe «crónica romanceada». É definição que desconsidera um dos melhores romances escritos neste idioma de Camões, Vieira e Pessoa. Romance sobre o apogeu e decadência de um solar brasonado no Alto Minho e da família que o foi habitando ao longo de sucessivas gerações. Na peculiar sintaxe barroca de mestre Aquilino, semeada de coloquialismos e neologismos da sua lavra. Com diálogos saborosíssimos e episódios exemplares que nos perduram na memória.

Romance que ironiza sobre o País mas sente imensa ternura por ele. Como muitos de nós fazemos, afinal.

 

texto reeditado

Os melhores ficam à margem


Pedro Correia,

            Eça_de_Queirós_c._1882.jpg fernando-pessoa-l.jpg

Em 1887, Eça de Queiroz concorreu com A Relíquia ao Prémio D. Luís, instituído por este monarca e atribuído pela Academia Real das Ciências de Lisboa. O júri, presidido por Manuel Pinheiro Chagas (oficial do Exército e historiador menor, um homem que havia sido ministro da Marinha e detestava Eça) excluiu aquele romance, conferindo o galardão à peça teatral O Duque de Viseu, assinada por Henrique Lopes de Mendonça, oficial da Armada, contista e dramaturgo, autor da letra do actual hino nacional.

Cento e trinta e nove anos depois, A Relíquia é um dos títulos fundamentais da ficção portuguesa do século XIX enquanto o drama de Lopes de Mendonça jaz sepultado na poeira de velhas bibliotecas.

 

Em 1934, Fernando Pessoa concorreu com Mensagem à primeira edição dos prémios literários promovidos pelo Secretariado de Propaganda Nacional. O júri, presidido por António Ferro, elegeu A Romaria, de Vasco Reis (pseudónimo do padre franciscano Manuel Reis Ventura), como melhor livro de poesia do ano, atribuindo-lhe o Prémio Antero de Quental, enquanto relegava a obra de Pessoa para uma “segunda categoria” com valor pecuniário cinco vezes inferior. Ferro, que presidia ao júri por ser director do SPN, não votou: só lhe caberia escolha num eventual caso de empate. Três dos quatro restantes membros – Alberto Osório de Castro, Acácio de Paiva e Mário Beirão – optaram por Reis (pelo menos dois deles detestavam Pessoa e não guardavam segredo disso). A única mulher com voto, Teresa Leitão de Barros, ficou isolada ao enaltecer a «beleza literária» dos versos pessoanos.

Noventa e dois anos depois, a Mensagem é um dos títulos fundamentais da poesia portuguesa do século XX enquanto a lírica de Reis desapareceu do mapa e hoje só é lembrada por este triste exemplo de miopia de um júri literário.

 

Lembro-me sempre destes dois casos cada vez que oiço falar na atribuição de prémios. Tantas vezes os juízos contemporâneos enaltecem a incompetência. Estas escolhas são condicionadas por inaceitáveis preconceitos estéticos ou mesquinhas animosidades pessoais. Assim os Mendonças e os Reis acabam levados em ombros enquanto os talentosos ficam à margem, como autores sem préstimo.

É verdade que o tempo acaba por repor a escala de valores, conduzindo cada qual ao lugar que merece. Mas não é menos certo que isso costuma suceder tarde de mais. Eça e Pessoa – figuras incontestáveis do património cultural português, com leitores em todo o mundo – nunca recuperaram por completo destas humilhações que lhes foram infligidas pelos referidos grupúsculos de pequenos e médios literatos. O segundo nem sequer viveria um ano mais: o resto da sua obra acabaria por ser póstuma, aliás à semelhança do que ocorreu com Eça, exceptuando Os Maias, já concluído em 1887 e lançado logo no ano seguinte.

 

Serão casos isolados? Nem por isso. Pelo contrário, ambos ilustram um velho mal português: acontece asneira quando o critério de julgamento e o poder de decisão são confiados aos medíocres.

O que, para nossa desgraça, ocorre com excessiva frequência. Não só na literatura, mas em tudo o resto.

O melhor de Portugal são as vilas


Pedro Correia,

Ainda bem para qualquer delas, que persistem em não ser cidades. Assim valorizam-se muito mais, evitando banalizar-se com a mania das grandezas.

Aqui fica o quadro de honra, não exaustivo:

 

Alcochete

Alcoutim

Aljezur

Almeida

Alpiarça

Alvor

Arcos de Valdevez

Arganil

Arouca

Batalha

Belmonte

Caminha

Cascais

Castelo de Vide

Castelo do Neiva

Colares

Constância

Crato

Ericeira 

Ferragudo

Manteigas

Marvão

Mértola

Monsaraz

Montemor-o-Velho

Nazaré

Óbidos

Palmela

Penamacor

Penela

Ponte de Lima

Porto de Mós

Sintra

Torre de Moncorvo

Vila Viçosa 

 

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Alcoutim

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Ferragudo

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Manteigas

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Palmela

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Ponte de Lima

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Porto de Mós

A reforma que faz mais falta


Pedro Correia,

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Cortes Constituintes de 1821 (óleo de Veloso Salgado)

 

De todos os cantos irrompem comentadores angustiados com a ofensiva “liberal”, o que sempre tem o condão de me deixar perplexo: se há característica dominante na sociedade portuguesa, perpetuada nos nossos costumes políticos, é o seu extremo iliberalismo. Péssimos hábitos tão arreigados entre nós como a “cunha”, o “favorzinho”, o amiguismo, a benesse partidária, as teias burocráticas e as mordomias emanadas dos mais diversos poderes públicos – tantas vezes em confronto com a iniciativa individual – derivam desta presença excessiva do estado na sociedade.

Nenhuma reforma é tão urgente em Portugal como a reforma desta tendência secular de esperarmos que o Paço Real, nas suas emanações contemporâneas, ou algum dos chamados poderes fácticos decidam conceder-nos uma tença, uma prebenda, uma “atençãozinha” ou a simples autorização para registar uma patente ou inaugurar uma empresa.

 

A revolução liberal de 1820 pôs-nos a par da Europa civilizada.

A Constituição liberal de 1822 foi um inegável salto civilizacional num país abúlico e intolerante.

Um rei liberal – D. Pedro IV – fundou o Brasil.

Escritores liberais como Alexandre Herculano e Almeida Garrett rasgaram-nos horizontes mentais e estéticos.

Políticos liberais do século XIX, como Mouzinho da Silveira, Passos Manuel e Fontes Pereira de Melo, foram dos melhores governantes que tivemos desde sempre.

Lamentavelmente, o liberalismo em Portugal foi interrompido da pior forma. Primeiro pelo jacobinismo exacerbado da I República, depois pela longa ditadura que se auto-intitulou Estado Novo, a seguir com um regime constitucional que tardou oito anos a libertar-se da tutela militar e década e meia a eliminar as “nacionalizações irreversíveis” da sua lei fundamental.

 

Não existe verdadeiro liberalismo em Portugal há mais de cem anos. E mesmo no simples debate de ideias, neste nosso século XXI, o liberalismo continua a ser causticado, chegando quase a ser equiparado a um surto de peste bubónica. Não tenhamos ilusões: esta é uma das consequências do nosso endémico atraso estrutural.

Pior do que isso: esta é uma das causas desse atraso.

O legado da década de Marcelo (2016-26)


Pedro Correia,

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«Portugal enfrenta desafios estruturais que se arrastam há tempo demais. Crescimento económico insuficiente, economia baseada em baixos salários, dificuldades persistentes, pobreza constante, envelhecimento demográfico, morosidade na justiça, burocracias públicas, dificuldades nos acessos à saúde e à habitação, falta de mão-de-obra, escassez de oportunidades para os mais jovens, insegurança para os mais idosos, desconfiança nas instituições e na política.»

Acabou-se o recreio


Sérgio de Almeida Correia,

AJS JFosenca Fernadnes Expresso.jpg(créditos: José Fonseca Fernandes/Expresso)

1. Quando ainda há poucas horas António José Seguro (AJS), o vencedor das eleições presidenciais de 2026 e próximo Presidente da República, fazia o seu discurso de vitória aos portugueses, afirmando que não será por ele que a legislatura será interrompida, muitos terão suspirado de alívio. A começar por Luís Montenegro. Porém, nem tudo nesta vida é linear, e facilmente apreensível pela generalidade dos cidadãos, pelo que convém colocar a frase do presidente eleito no seu devido lugar. Vamos por partes. 

2. Qualquer que seja o prisma de análise, e por muito grande que seja a má vontade do analista, AJS conseguiu um resultado extraordinário. Extraordinário pelas circunstâncias em que o obteve, mas igualmente pelos números. 

3. Começando pelos números, quando ainda faltam apurar os resultados de 20 freguesias, pertencentes a oito municípios, num total de 36.852 inscritos, num universo de 3259 freguesias, sendo por isso mesmo previsível que o vencedor venha ainda aumentar o número de votos obtidos, verifica-se que AJS conseguiu 3.482.481 sufrágios, que correspondem a 66,82% do total de votos válidos. Mais do que Mário Soares, Sampaio, Eanes, Marcelo ou Cavaco. O segundo em percentagem, logo a seguir aos históricos 70,35% de Soares em 1991. Para quem ainda há um ano era acusado de ser um candidato que nem sequer cumpria os requisitos mínimos, olhado de soslaio pela indigente burguesia política dos socialistas, ainda mais notável se torna.

4. Repare-se que AJS na 1.ª volta destas eleições presidenciais só conseguiu 1.755.764 votos. Se somarmos os votos conseguidos pelos outros candidatos de esquerda há três semanas, estes só somavam 258.829 votos (Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto e André Pestana). Se somarmos estes votos aos anteriores, o resultado dá 2.014.593. Fora deste universo considerado de esquerda, AJS foi buscar mais 1.467.888 votos. E onde foi ele buscá-los? À direita, obviamente, posto que Cotrim de Figueiredo (903.201 votos), Gouveia e Melo (695.244 votos) e Marques Mendes (637.535 votos) juntos chegavam aos 2.235.970 votos. Ou seja, há quase um milhão e meio de eleitores que votaram à direita na 1.ª volta que se sentiram mais confortáveis em votar em AJS na 2.ª volta do que em AV. E isto, como veremos, tem consequências políticas profundas.

5. Mas não só. AJS consegue este resultado sem o endosso de Luís Montenegro e no silêncio de Pedro Passos Coelho. Se em relação a Montenegro, que optou pelas habituais meias-tintas, os seus eleitores poderiam ser tentados a ficar em casa, os poucos que ficaram não tiveram qualquer significado. Admitindo, o que seria impensável, que todos os eleitores de Marques Mendes, na 1.ª volta, votaram em AJS, isso significa que este ainda foi buscar mais de 830 mil votos a Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo. Para Luís Montenegro e o seu clã é mais uma pesadíssima derrota. O eleitorado do PSD mostrou ao primeiro-ministro a sua falta de visão política, o seu desfasamento em relação ao eleitorado potencial do partido e o quanto errado está. Será difícil encontrar na história do país um líder mais míope e com piores conselheiros.

6. Por outro lado, se Passos Coelho nada disse para não o confundirem com AJS, e o acusarem no futuro de ter alinhado ao lado do socialista, e também não aconselhou o voto em Ventura para não dar um sinal errado aos seus apoiantes, escudando-se no silêncio, também não me parece que essa posição, muito menos este resultado, admitindo que admite um regresso à política activa, possam convidar agora a um eventual regresso. Se foi essa a sua aposta errou o alvo e, lamentando desiludir os seus admiradores, não pode vir a obter dividendos futuros. Qualquer regresso será agora mais difícil, periclitante e dependente de terceiros. A começar pelo próprio AV que numa eventualidade dessas não deixará de lhe recriminar o silêncio num momento crucial para o seu eleitorado.

7. E se AV, o derrotado, saiu logo à rua para se reclamar o “líder da direita”, agitando os seus 33,18%, será bom notar que a percentagem é enganadora e o fulano só fala nela, oportunista e chico-esperto como é, porque agora lhe dá jeito. E a desfaçatez é tão extraordinária que o número de votos que obteve ainda é inferior ao conseguido pela AD e Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. Em Maio de 2025, Montenegro conseguiu 1.975.558 votos (sem contarmos com mais 36.879 votos que recolheu em locais onde os partidos da AD se coligaram ao PPM). Então Ventura quer liderar a direita com menos 250 mil votos do que aqueles que Montenegro arrecadou há menos de um ano? Só se for uma direita e extrema-direita “poucochinha”. Uma direita que só venceu em Elvas e em São Vicente, e que em Lisboa e Porto, onde AJS ultrapassou os 70%, foi passada a ferro por um rolo compressor. Que direita é essa que AV quer liderar? A dos tristes, ressabiados, rufias, aldrabões e ignorantes?

8. E de nada serve a AV vir falar na sua percentagem, porque qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe que não é o mesmo obter 33,18% num universo de apenas dois candidatos ou de mais de uma dezena de outros concorrentes. Em especial se a taxa de abstenção, como foi o caso, for de 49%, e os votos nulos e brancos e abstenção não tiverem atingido os números que muitas aves de mau agoiro agitavam. Não houve nenhum abstenção histórica – a abstenção em eleições presidenciais nos anos de 2001, 2011, 2016 e 2021 foi, respectivamente, de 50%, 53,5%, 53,1 % e 60,8% – e os portugueses que foram às urnas não se revendo em nenhum dos candidatos foram uma ínfima parte – nem por isso desprezível e a exigir atenção –, cerca de 271 mil, ou seja, pouco mais do que a soma dos votos na 1.ª volta de Catarina Martins (116.413), António Filipe (92.634), Manuel João Vieira (60.266), Jorge Pinto (38.568) e André Pestana (10.896). Em relação à 1.ª volta AV só recolheu mais 400 mil votos. Isto não é nada. É menos do que os votos de Marques Mendes sozinho que ficou em 5.º lugar na 1.ª volta e ainda assim teve mais de 600 mil votos.

9. Mas a derrota maior de AV, que nem sequer conseguiu vencer na sua terra natal, bem ao contrário de AJS, foi a sua tentativa de, depois de ter dito que não via razão para se adiarem as eleições, tentar, de novo, tirar partido de uma tragédia e vir passar um atestado de “coitadinhos” aos eleitores das zonas afectadas pelas intempéries. A resposta dada nas urnas foi esmagadora, um murro no estômago de AV: não só AJS venceu em todos os concelhos afectados pelas calamidades, como a taxa de abstenção nos concelhos nesta situação foi idêntica à média nacional, inferior a 50%, havendo concelhos como Vila de Rei, Sardoal, Mação, Constância e Penamacor em que foi inferior a 35%.

10. Aqui chegados, percebe-se bem o que aí vem e volto ao princípio deste texto. Não é AJS quem vai interromper a legislatura, até porque neste momento, e depois do que prometeu, seria um suicídio político e iria romper com o contrato que estabeleceu com os portugueses. Quem vai querer interromper a legislatura e rapidamente é AV e o Chega. Porque apesar do sofrível resultado conseguido está convencido de que ainda pode “liderar a direita”. Não pode.

11. AV e o Chega atingiram o limite superior do seu potencial crescimento. Daqui para a frente, se AJS e os demais partidos políticos forem inteligentes, e Montenegro não fizer mais asneiras, começando a governar para os portugueses e não para o seu umbigo, será sempre a cair. Este cenário não convém a AV nem ao Chega, que vão continuar a apostar no caos. Porque só no caos, sem ideias, sem programa e apenas com chavões, insultos, papões e slogans, é que sabem que podem medrar. Farão tudo para que o Governo caia, votarão contra qualquer orçamento que não acolha as suas medidas populistas e alimente o seu eleitorado. E será sempre pouco.

12. Se Montenegro ceder às exigências do Chega poderá, com mais ou menos tombo, aguentar-se no poder, mas acabará com o que resta do PSD a tentar manter-se à tona, engolindo pirolito a seguir a pirolito. Se, entretanto, Poiares Maduro, Miguel Morgado, e outros como estes, não resolverem juntar os cacos que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro têm vindo a espalhar com os jarrões, uns de barro, outros de porcelana, que têm escaqueirado no recreio, reconstruirem o partido, ou criarem um novo, quem sabe se com Cotrim de Figueiredo, esvaziando o IL e acabando com a choldra que serve AV na perfeição.

13. Com AJS em Belém, imune ao clientelismo e ao compadrio – longe de socratistas, nunistas, sanguessugas e afins, incluindo uns quantos daqui da minha rua que estão sempre prontos a pendurarem-se nos vencedores –, um PSD renovado de alto a baixo por gente séria e bem formada, e um PS reformado – se é que tal coisa será alguma vez possível num Largo do Rato e numa bancada parlamentar atravancada de monos –, as presidenciais de 2026 podem ser o canto do cisne de André Ventura.

14. E o caminho para a recuperação de Portugal. Haja inteligência e capacidade dos actores políticos para compreenderem o que os portugueses querem, darem respostas aos esquecidos e descontentes que se refugiaram nas franjas do sistema e viram no arruaceirismo uma forma de se fazerem ouvir. Está na hora de mandar o sobretudo cor de camelo para a lavandaria.

15. É preciso fazer alguma coisa pelos portugueses, por nós – todos –, e por Portugal. Agora que a Primavera está a chegar, os rios voltam aos leitos, os dias se tornam mais longos, e antes que chegue a noite.

16. Precisamos todos de ter uma vida normal. Decente. De voltarmos a falar uns com os outros. Como gente civilizada, com maneiras. De falar de política e de futebol sem ser aos berros e insultando os parceiros. E de nos reproduzirmos para deixarmos de definhar enquanto nação. Só precisamos de começar a fazer uma boa cama. Dêem-nos condições em vez de palavras.

Lembrando outra campanha a duas voltas


Pedro Correia,

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Mário Soares e Freitas do Amaral, os finalistas da corrida para Belém há 40 anos

Vivi apaixonadamente os tempos da campanha eleitoral de 1985-1986, como é próprio de quem chegou aos 20 anos na década de 80. Mas ninguém me dirá sem desmentido que foram os melhores tempos de que há memória em Portugal seja sob que ângulo for. Começando, claro, pelo futebol – que funciona como espelho da sociedade muito mais do que alguns intelectuais da treta admitem.

Há quem jure que as pessoas então eram mais felizes. Duvido muito. 

 

A esquerda extremista anti-NATO e anti-CEE valia 20% nas urnas. Havia populismo em doses abundantes. Um partido político criado a partir de Belém com a esposa do Presidente “enviada especial” do marido para comícios desse partido. Um dos candidatos presidenciais anunciando a intenção de fundar uma “nova república” (!) com uma “nova democracia”. Dez anos após o início do regime constitucional.

Tudo isto fazia as pessoas mais felizes? Não creio. 

 

O melhor em Portugal, naquela turbulenta década iniciada com a trágica morte de um primeiro-ministro, foi a nossa adesão em 1985 à Comunidade Europeia, ferozmente combatida pelo PCP, então ainda cheio de força, como vassalo da União Soviética. Quando a inflação no País subia aos 20%, o desemprego afectava 10% da população activa, proliferavam os salários em atraso e milhares de pessoas viviam na cintura de Lisboa em barracas imundas, sem água potável nem saneamento básico. A cólera era doença que ainda assombrava os portugueses em surtos ocasionais.

Em segundo lugar destaco a revisão constitucional de 1989, que nos pôs enfim na rota das democracias liberais europeias com algumas décadas de atraso – e que decorreu da nossa entrada na CEE. Só a partir daí fomos autorizados a ver canais privados de TV, pondo-se fim ao monopólio da RTP.

 

Saudades, todos temos. Sobretudo de sermos muito mais novos.

Mas basta pesquisar com atenção imagens dessa década para se perceber até que ponto hoje habitamos um país diferente. Para muito melhor.

Mais instruídos, mais dinâmicos, mais viajados, mais cosmopolitas, mais europeus.

Facto nacional de 2025


Pedro Correia,

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O APAGÃO

Ocorreu a 28 de Abril, pouco depois das 11 da manhã. Começou de repente em Espanha e em dois minutos afectou a distribuição de electricidade em quase todo o território português. Espécie de eclipse em pleno dia – o pior acontecimento do género de que havia memória entre nós, o mais grave em duas décadas à escala europeia. 

Durante cerca de 12 horas, pairou a incerteza. Quem podia, recuperou velhos transístores de pilhas. E antigas lanternas, também iluminadas por pilhas alcalinas. E voltaram a ver-se velas nas habitações citadinas – cenário que remonta aos tempos dos nossos avós.

Este Apagão, que durante meio dia fez subir os níveis de ansiedade numa população muito pouco preparada para situações de emergência, foi destacada pelos autores do DELITO DE OPINIÃO, como Acontecimento Nacional de 2025 pelo impacto, pela surpresa e pelo seu carácter inédito.

 

Nesse dia e nos seguintes, não faltaram aqui postais alusivos ao tema. 

«Com tantas Inteligências Artificiais a serem criadas, ainda iremos descobrir que este apagão foi o primeiro ataque do Skynet», ironizou o João Sousa.

«Tal como nos dias iniciais da pandemia, houve quem corresse a mercearias e supermercados em busca de garrafas de água, latas de atum e rolos de papel higiénico», observei eu.

O JPT exibiu imagem de uma T-shirt onde se lia: «Eu estive no Apagão de 2025».

Felizmente, pouco depois de cair a noite, a energia voltou. Não em todo o lado, mas em grande parte do País. A 29 de Abril, já ninguém se queixava de permanecer às escuras. Fora tudo causado por voltagem elevada na rede eléctrica de Espanha, confirmando como o nosso quotidiano é mais frágil do que parece. Estamos à mercê de muitos imprevistos.

 

O desastre de 3 de Setembro em Lisboa, com o descarrilamento do Elevador da Glória, ficou apenas com menos um voto, em segundo lugar, no nosso balanço do ano. Tragédia que mereceu destaque em toda a Europa e até noutros continentes: provocou 16 mortos e 22 feridos quando se partiu um cabo da centenária infraestrutura, ex libris lisboeta. Levando ao encerramento sine die de todos os elevadores históricos da capital.

Terceiro facto mais votado a nível nacional: a greve geral de 11 de Dezembro, convocada em simultâneo pela CGTP e pela UGT, em protesto contra as anunciadas alterações ao código laboral, que permanecem por decidir. Foi só a quarta vez, neste último meio século, em que as duas centrais sindicais se mobilizaram em simultâneo para a paralisação do trabalho, sentida sobretudo nos organismos públicos.

 

Outros factos de âmbito nacional, cada qual com um voto. Passo a enunciá-los:

Subida do Chega a segundo partido parlamentar, ao eleger 60 deputados nas legislativas de 18 de Maio.

Graves incêndios florestais no Verão: foram contabilizados 999 em 284.012 hectares, o dobro do registado em 2024. Nesta matéria foi o segundo pior ano desde 2010, embora muito aquém do extremo de 2017.

– O reconhecimento do PS que errou nas políticas de imigração – facto admitido expressamente por Pedro Nuno Santos.

– O lançamento da primeira biografia de Herberto Helder (1930-2015), obra de João Pedro George editada pela Contraponto.

 

Participaram na votação 15 membros do DELITO. Como sempre acontece, cada um pode votar em mais de um tema ou em nenhum, se assim o entender.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

Facto nacional de 2014: derrocada do Grupo Espírito Santo

Facto nacional de 2015: acordos parlamentares à esquerda

Facto nacional de 2016: Portugal conquista Europeu de Futebol

Facto nacional de 2017: Portugal a arder de Junho a Outubro

Facto nacional de 2018: incúria do Estado

Facto nacional de 2019: novos partidos no Parlamento

Facto nacional de 2020: o vírus que nos mudou a vida

Facto nacional de 2021: vacinação em massa

Facto nacional de 2022: o regresso da inflação

Facto nacional de 2023: queda do governo de maioria absoluta

Facto nacional de 2024: crise no SNS

Pela Europa


Cristina Torrão,

Faço hoje uma pausa nas Rapidinhas de História, voltarão no próximo ano. E aproveito para pôr aqui outro vídeo: “Da Alemanha até Portugal, em três minutos”. Uma viagem pela Europa sem fronteiras. Para quem gosta de liberdade.

Trump e Putin são psicopatas invejosos. O seu discurso anti-Europa é apenas mais um, entre os disparates que debitam, todos os dias. Esperam desmoralizar-nos. E não podemos deixar que isso aconteça.

Faço viagens entre a Alemanha e Portugal, maioritariamente de carro, há trinta e três anos. Sinto-me bem-vinda em qualquer local, sou uma europeísta convicta. Não sei de outro lugar do mundo, onde se viva melhor, com mais liberdade.

Mensagem de resistência para 2026:

VIVA A EUROPA!