O Socratismo Perene


jpt,

 

A imprensa já esmiuçou o caso da derrotada candidatura do antigo governante socialista Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça. PS e PSD acordaram na sua eleição. O deputado Rui Rocha (IL) – antigo bloguista – recordou que Antunes havia tido uma participação activa no núcleo propagandístico digital de José Sócrates. E a Assembleia da República não o elegeu.

Entretanto, é muito interessante a jeremíada socialista “Tiago Antunes e a “maldição Sócrates”” da antiga directora do sempre empenhado “Público”, Bárbara Reis, uma contestação do repúdio parlamentar encetada com ênfase: “A minha alma está parva e a minha cabeça pergunta: até onde vai durar a “maldição Sócrates?”.

Reis defende o candidato por três razões: 1) na audição parlamentar prévia à eleição, ele usou um alfinete de peito (Reis usa o termo “pin” por razões que não explicita) com a imagem de uma prestigiada jurista americana, cuja biografia a jornalista condensa neste artigo; 2) aduz que ele trabalhara no núcleo socratista entre os seus 26 e 32 anos, deduz-se como se tal tivesse sido – e dado aquilo que agora (e já então, mas enfim…) se sabe do antigo primeiro-ministro – uma “irresponsabilidade” ou “devaneio” juvenil; 3) Reis afirma que todos os governos propagandeiam, e se Antunes nisso participou nada de estranho se deve concluir.

Sobre o broche que Antunes usou nada adianto, mas mal seria se os critérios de escolha para os cargos públicos fossem os adornos de cada candidato. Já sobre a “juventude” já tenho algo a dizer. Incorrecções ou disparates juvenis são outra coisa: roubar um cigarro no maço do pai, ou a este sacar o carro para uma passeata com amigos (ou amiga), beber demasiadas tequillas e vomitar na rua, faltar às aulas, não estudar o suficiente e reprovar num exame, acordar na cama com uma parceira desconhecida sem saber como aquilo aconteceu, vestir-se com despropósito para uma entrevista de emprego, usar drogas químicas “só para experimentar”, guiar sob influência, etc, pois há um enorme rol de disparates disponíveis. A maioria apenas merece … conselhos, alguns mesmo sanções morais. Outros, poucos, são crime: guiar sob influência será exemplo maior.

Mas como é evidente não se trata disso. Os mais veteranos, em particular (ex-)bloguistas – como o deputado Rui Rocha – e jornalistas, lembram-se do que foi uma verdadeira verdadeira rede de contra-informação. Que unia blogs anónimos e remunerados – o mais célebre foi o Câmara Corporativa, do “incógnito” “Miguel Abrantes” – com outros assinados de frenética actividade socratista (como o Jugular e tantos mais).. Que se dedicavam a uma espécie pré-robótica de produção de “fake news” conjuntamente com um desbragado espírito confrontacional, de arrogância extrema, face aos críticos do socratismo. Aquilo era uma barricada em torno do poder. Alguns dos seus agentes era remunerada de modo esconso, como se veio a comprovar. E tantos outros vieram a ser … recompensados: das simples avenças televisivas até postos governamentais, basta vasculhar os nomes dos “activistas” de então.

Sem rodeios, durante anos foi evidente a personalidade de Sócrates, os seus desmandos e o clientelismo vigente. Os colaboracionistas com aquele rumo, defendendo-o de modo indigno, devem ser inelegíveis para os cargos fundamentais do nosso ordenamento estatal. Independentemente das qualidades científico-académicas que possam ter. E dos adornos que usam.

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E isto não se trata de uma “maldição”, como lacrimeja Bárbara Reis. Trata-se de uma desconfiança fundamentada. Face às opções pessoais desses colaboracionistas, gente de difícil regeneração. Mas também, talvez até mais, diante das práticas do Partido Socialista. O qual insiste em não se expurgar, não se regenerar, como o demonstra esta indicação de Antunes. O PS sob Costa, limitou-se a seguir um Socratismo 2.0, numa estratégia de apenas minorar os danos. Durante anos tentando proteger o próprio Sócrates. Até àquela semana de 2018 em que 3 dos seus próximos (Fernanda Câncio, João Galamba – ambos fervorosos bloguistas socratistas – e Carlos César) o vieram repudiar, uma “coincidência” demonstrativa que o partido decidira deitar borda fora o seu ex-líder, tornado demasiado lastro para a borrasca que semeara.

Após isso César continuou impante presidente do partido, Galamba ascendeu da Assembleia ao governo, e Câncio mantêm o posto honorário de “grande repórter”, mesmo tendo passado mais de uma década em esbanjo de arrogância e sem perceber o que se passava à sua volta. Ou seja, nenhum deles sofreu qualquer “maldição”. Tal como não a sofreu o próprio António Costa, veemente nº 2 do antigo primeiro-ministro – tanto que até coordenador da moção de estratégia “Defender Portugal, Construir o Futuro”, a de Sócrates ao congresso do PS em 2011, já tudo aquilo há muito que fedia.

Agora muitos discutem as nomeações de juízes para o Tribunal Constitucional. Pois então convém lembrar que em 2020 o PS de Costa – fiel a essa melíflua estratégia de “evolução na continuidade” – nele tentou colocar Vitalino Canas. Então escrevi sobre essa absurda candidatura, tanto pelo desajuste do candidato, alheado do sentir democrático, como pela sua profunda ligação ao socratismo – e deixo acima a fotografia, tirada no dia em que Sócrates saíra da prisão e se juntou aos seus íntimos. Vitalino Canas não foi eleito pelo parlamento não por causa de uma “maldição”. Mas devido a uma avaliação política, tal como agora Antunes o foi. Sobre a incompatibilidade entre a comunhão com o desmando socratista e a elevação necessária ao desempenho das funções políticas e jurídicas.

O “Público” e os socratistas não o percebem? Paciência. O importante será (ou apenas seria?) que o próprio PS o perceba. Mas esta indicação de Antunes faz duvidar que a autocrítica partidária tenha acontecido.

(Este é um dos 8 textos da minha Gazeta Semanal no meu blog)

ADENDA:

O Pedro Correia deixou em comentário esta memória sobre o candidato ao cargo de Provedor de Justiça. Mas antes de a replicar deixo esta nota: no “Expresso” de ontem Tiago Antunes escreve sobre este episódio. Depois de um longo auto-ditirambo termina “Assim não contem comigo“, devido a ter sofrido “campanhas persecutórias absolutamente infundadas e ridículas“. Mas na sua narração transparece uma mundividência política peculiar: diz que há 9 meses foi escolhido por acordo entre Carneiro e Montenegro. O qual não foi agora votado pelos deputados. Para Antunes isso significa que estes “desrespeitam acordos, brincam com o bom-nome das pessoas e alimentam campanhas persecutórias…”, o que é “lamentável“. Esta é concepção que o jurista e o político Antunes tem do exercício parlamentar, ser eleito para estar subjugado aos ditames do “chefe”. E o docente universitário nem dá conta do verdadeiro conteúdo antidemocrático do que escreve…

PEDRO CORREIA: Sobre Tiago Antunes escrevi três vezes no DELITO. Aproveito para lembrar essas ocasiões.

Quando ele, na altura blogonauta do “País Relativo” (sugestivo nome), procurou suavizar os inaceitáveis “corninhos” de Manuel Pinho, o ministro avençado pelo BES. 

Quando ele, já na dependência directa de António Costa no governo pós-geringonça, teorizava sobre a necessidade de “assustar as pessoas” a pretexto da pandemia.

Quando ele procurou impor ao País restrições só possíveis em estado de emergência sem fundamento legal para o efeito nem o indispensável escrutínio parlamentar.

Nada deste passado o recomendaria hoje como Provedor de Justiça.
É por isso que a memória dos blogues é preciosa. É também por isso que ela não pode ser silenciada. Nem pensar.

Descubra as diferenças


Pedro Correia,

 

ALEXANDRA LEITÃO, 8 de Março, CNN-P:

«O Governo deve ser criticado pelo pacote laboral, que ainda continua em cima da mesa.»

 

SÉRGIO SOUSA PINTO, 13 de Março, CNN-P:

«O Presidente da República, António José Seguro, tem condições para pressionar um acordo e tenho esperança de que seja bem sucedido. Os problemas da economia portuguesa não se vão resolver todos na reforma laboral, mas a reforma laboral tem de participar nisto

É preciso ter descaramento


Pedro Correia,

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Lata não lhe falta. Augusto Santos Silva andou meses a fazer campanha pública contra a candidatura presidencial de António José Seguro. Ele e outras proeminentes figuras do PS, como José António Vieira da Silva, Ferro Rodrigues, Marta Temido, Alexandra LeitãoEduardo Cabrita ou Mariana Vieira da Silva

Mas ninguém foi tão longe como ele nas palavras desabonatórias visando quem acabou por vencer a corrida presidencial com a maior votação popular de sempre. Ninguém mais ousou dizer, como ele disse, que Seguro «não [cumpria] os requisitos mínimos» para ser candidato a Belém com o apoio do PS.

Recomendaria o elementar pudor que cumprisse um acto de contrição após os eleitores portugueses terem mandado às urtigas os palpites que ele foi dando ao longo de 2025. Nada feito: inútil esperar tal coisa do antigo presidente da Assembleia da República, que gosta de «malhar na direita» e também na esquerda, e em tudo quanto mexe.

No entanto, em Seguro não malha ele agora. Pelo contrário, até lhe dá jeito apropriar-se desse triunfo para o colar ao partido. Isso fica bem claro na entrevista que deu à edição de sábado do Público. O que diz ele? «O PS teve um resultado muito mau nas eleições legislativas, mas teve um bom resultado nas eleições autárquicas (…) e teve também uma vitória nas eleições presidenciais»

Seguro, o tal que não cumpria «requisitos mínimos», afinal «mostrou que era a única personalidade razoável e ganhou eleições». Vitória dele, sim, «mas também das forças democráticas e progressistas».

Eis Santos Silva, portanto, já a bordo do carro vencedor. Parecendo até com vontade de ser ele a segurar o volante, de pé na tábua.

De facto, é preciso ter descaramento. Muito. Demasiado.

Aviso à navegação


Pedro Correia,

«O PS está muito doente e convinha que os militantes tivessem noção da situação em que está o partido. (…) Os dirigentes do PS dedicam hoje muito mais tempo a falar do Chega e de Donald Trump do que a falar dos portugueses. Nas redes sociais dos dirigentes do PS, a realidade portuguesa é quase inexistente.»

Ascenso Simões, militante e antigo dirigente do PS (ontem, na SIC Notícias)

Seguro: a vingança serve-se fria


Pedro Correia,

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Aconteça o que acontecer a partir de agora, António José Seguro tem motivos para se alegrar nesta campanha presidencial que se aproxima do fim. Todos aqueles que no PS andaram anos a denegri-lo levaram um duche gelado ao verem-no como candidato a Belém. Suspiravam por alternativas que nunca se concretizaram: o Dom Sebastião canhoto não se dignou vir em socorro dos aflitos.

Este mesmo Seguro que o ex-secretário-geral Pedro Nuno Santos atirou para a praça pública em Outubro de 2024 não a sério mas com intuitos irónicos, embrulhado entre vários outros nomes. Também isto – como quase tudo – lhe saiu ao contrário. O feitiço virou-se contra o feiticeiro: o “neto de sapateiro” acabou enfim, há escassos dias, por anunciar que irá votar nele, com adjectivos do mais fino quilate. Num cortejo de serôdios apoiantes do candidato que inclui Fernando Medina, Ana Catarina Mendes, Carlos César e Ferro Rodrigues, entre outros.

Até o inenarrável Augusto Santos Silva, que nunca se coibiu de zurzir o antigo secretário-geral do partido, se verga agora ao peso da conveniência política, revelando que votou em Seguro por antecipação no passado domingo por ter concluído ser «aquele que mais se aproxima dos requisitos mínimos» para assumir a chefia do Estado.

Virou por completo a casaca: em Janeiro de 2025 dizia exactamente o contrário. Com a arrogância dos pseudo-iluminados, imaginando que a nação lhe bebia as palavras, concluiu em voz alta que Seguro «não [cumpria] os requisitos mínimos»

Nem agora parou de destilar veneno: mais valia ter ficado em silêncio. Tal como alguns palradores da pantalha que, em sintonia com Silva, foram disparando farpas ao candidato presidencial socialista, sem lhe reconhecerem pedigree de esquerda. Lá terão também eles (e elas) de enfiar a viola no saco, ensaiando novas piruetas verbais para fingirem que nunca afirmaram o que realmente disseram.

A vingança é um prato que se come frio. Seguro não será pessoa vingativa, mas certamente vai sorrindo. Seja qual for o veredicto que sair das urnas, a vitória sobre os detractores internos já não lhe escapa.

Nem um


Pedro Correia,

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Se há candidato presidencial marcado pela solidão, é António José Seguro. Dos seis outros ex-secretários-gerais do PS ainda vivos e com saúde, nenhum lhe manifestou apoio até agora. Nem Vítor Constâncio, nem António Guterres, nem Ferro Rodrigues, nem José Sócrates, nem António Costa, nem Pedro Nuno Santos. O “animal feroz”, aliás, já expressou a intenção de votar no Almirante.

Mas a solidão não é só dele. É também do actual líder do PS. José Luís Carneiro, após quatro longos meses de reflexão, manifestou enfim apoio ao homem que dirigiu o partido da mãozinha durante os três anos que separaram os consulados de Sócrates e de Costa. Mas esse apoio está longe de ser unânime na cúpula socialista. Basta lembrar que a Comissão Política Nacional inclui Manuel Pizarro, destacado apoiante de Gouveia e Melo. E a deputada Isabel Moreira já disse que prefere votar na bloquista Catarina Martins, enquanto paira um silêncio ensurdecedor sobre as opções de voto de figuras como Marta Temido, Augusto Santos Silva ou Mariana Vieira da Silva. 

Daí compreender-se muito bem o ar triste que Seguro tem exibido nos debates televisivos. É caso para isso.

O PS de Lisboa


jpt,

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O tribunal voltou a condenar a Câmara Municipal de Lisboa a uma pesada multa devido às suas práticas delatórias, no caso cognominado “Russiagate”. A primeira condenação acontecera há um ano e a CML recorrera. Agora o tribunal confirmou a condenação mas reduziu a quantia a pagar – devido à prescrição de vários dos delitos (delações). O executivo municipal prepara-se para mais um recurso, decerto intentando promover mais prescrições, assim reduzindo os seus gastos finais.

É compreensível – neste caso custa-me dizer louvável – o rumo da administração de Carlos Moedas. Pois não se trata de indemnizações a alguém prejudicado mas de uma sanção estatal. Deste modo procura minorar os danos financeiros que lhe são causados por inaceitáveis acções dos seus antecessores. As quais são politicamente inadmissíveis. E, mais ainda, moralmente execráveis.

Não é necessário ilustrar este texto com fotografias das acções desse poder israelita em Gaza ou do moscovita na Ucrânia, nem das gigantescas vagas de refugiados da Venezuela. Nem vasculhar imagens sobre repressões na insondável China. Foram esses os regimes cujos serviços de “informações” foram beneficiados pela CML com informações sobre dados pessoais dos seus opositores em território português – inclusivamente, ao que foi noticiado, de cidadãos portugueses! Nem preciso de apor o rol de cidadãos russos que o regime de Putin vem eliminando mundo afora. Nem afixar a fotografia de Alexei Navalny, o oposicionista russo que morreu aprisionado na Sibéria. E cujos apoiantes aqui, ao terem feito mais uma denúncia pública das delações da CML, causaram o final dessas malvadas práticas – as quais eram conhecidas pela imprensa e público pelo menos desde 2019. Mas nem essa anterior repercussão pública fizera o executivo municipal socialista – que as conhecia sobejamente desde há muito – interrompê-las.

Abaixo reproduzo o postal que escrevi há um ano sobre este caso: “Medina e o Russiagate“. Mais centrado na imagem de Fernando Medina, que perspectivei (e ainda perspectivo) como ambicionando ascender a secretário-geral do PS, apesar desta chaga imorredoira no seu percurso político.

Mas agora – face à herança jurídica recebida por este executivo municipal, mas também diante das próximas eleições autárquicas – é necessário recordar que então sobre este caso o PS “cerrou fileiras” em torno de Medina e do seu antecessor Costa, ambos responsáveis nesse rumo delatório. Não falo do PS histórico, sempre invocado como motor da democracia – esse agora epitomizável pelo sonante Manuel Alegre, esse do “a mim ninguém me cala”. Falo do PS actual, falo do PS da concelhia de Lisboa, falo dos autarcas eleitos, dos candidatos, dos militantes. Ao longo dos anos em que isto se soube, nenhum deles saiu à rua, “desceu a Avenida”, fez abaixos-assinados que fosse, invectivando esta desgraça democrática. Foram cúmplices, veementes cúmplices.

E são estas gentes que agora se coligam com aqueles partidos LIVRE e BE, esses compostos de gentes tão prenhes de superioridade moral e racional democrática. E é de evitar que eles voltem ao poder.

*****

Medina e o Russiagate (8.8.2024)

O Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa aplicou agora à Câmara de Lisboa uma multa de um milhão de euros devido ao ao envio para a embaixada russa, durante largos anos, de dados pessoais de organizadores – portugueses e estrangeiros – de acções avessas ao regime de Putin decorridas no município. Ao escândalo chamou-se “Russiagate”, epíteto minimalista pois a Câmara enviava também dados do mesmo teor, e por razões similares, às embaixadas da Venezuela, da China e de Israel. 

A delação municipal ocorreu durante a presidência de Fernando Medina. Quando foi confrontado com a ignomínia Medina sacudiu a água do capote, tendo imolado um qualquer quadro médio camarário, feito “bode expiatório”. Depois seguiu a Ministro das Finanças, cargo no qual soube embelezar as contas. Os correligionários gabaram-no. Entretanto o governo caiu, o PS fez ascender o truculento Santos. 

Medina, sagaz, querendo-se qual “peixe de águas profundas” 2.0, recuou, e deixa-se marinar aguardando o óbvio, que Santos esboroe. Após esse futuro evidente os da “esquerda democrática” acolherão o seu regresso, lembrarão o quanto retocou os recantos da baixa lisboeta e as referidas contas públicas. Ser-lhes-ão indiferentes as denúncias dos que se erguiam contra Putin, Maduro, Xi Jinping. E dos defensores da Palestina. E se confrontados com a ignomínia de Medina argumentarão que a responsabilidade foi de um… bode expiatório, já imolado.

Sobre isto escrevi em 11 de Junho de 2021: Que a Câmara de Lisboa informe as embaixadas locais sobre os organizadores de manifestações é inaceitável. Que Medina venha clamar que se está a fazer um “aproveitamento político” mostra bem que segue alheio ao fundamental: pois isto é algo “político”, remete para os valores fundacionais da democracia. E mostra uma mundividência antidemocrática (policiesca, mesmo) no topo da administração. 

Há quem o queira eximir, aventando que nada soube disto – e mesmo quem aluda aos milhares de trabalhadores da câmara, mole que será suficiente para nela se encontrar um atávico amanuense expiatório. Esta notícia (em 2019 o gabinete de Medina confirmava esta prática) comprova o contrário. Medina está há muito tempo na Câmara, o seu gabinete há pelo menos dois anos que sabe destes procedimentos – muito provavelmente conhece-os e pratica-os desde que entrou em funções. Ou Medina não sabe o que se passa no seu gabinete, mesmo sobre uma matéria tão delicada e fundamental como esta – o que seria um caso de incompetência funcional e de incapacidade em seleccionar os colaboradores mais próximos. Ou sabe, e “deixou correr” ao longo de anos – até aos protestos dos cidadãos luso-russos em Janeiro passado, que a imprensa foi calando mas decerto fazendo chegar ao pessoal camarário. 

Se não é diante de algo desta monta, que remete para os valores centrais de democracia, que se pede “responsabilidade política” esta deixa de ser convocável. Deixemo-nos de rodeios, este homem não serve, nem para a Câmara nem para quaisquer postos políticos. Pois, como isto mostra, não serve a democracia. E não é um qualquer apressado face-lifting que o esconderá.

A cisão do PS.


Luís Menezes Leitão,

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Os sinais que têm surgido nos últimos dias parecem indicar que o PS está à beira da cisão. Na verdade, o PS teve desde sempre uma ala esquerda e uma ala direita, que rivalizavam no poder. Essa situação ficou logo expressa no congresso de Janeiro de 1975, quando Manuel Serra, próximo do PCP, desafiou o líder Mário Soares que, apesar disso, conseguiu vencer. Desde então Mário Soares colocou o PS na área do centro-direita, tendo ficado célebre a sua afirmação de que iria colocar o “socialismo na gaveta“.

Quando Mário Soares chegou à Presidência da República, foi eleito secretário-geral do PS Vítor Constâncio, claramente mais à esquerda do que o seu antecessor, tanto assim que até convidou Lurdes Pintasilgo para ser cabeça-de-lista ao Parlamento Europeu. Os resultados eleitorais foram, porém, sempre medíocres, levando a que em 1987 Cavaco Silva obtivesse uma maioria absoluta, com uns extraordinários 50% dos votos, depois de uma disparatada moção de censura dos partidos de esquerda, a única aprovada até hoje.

Tendo-se demitido, após um discurso dramático contra Soares, Vítor Constâncio viria a ser substituído por Jorge Sampaio, oriundo do GIS, e que colocou o PS ainda mais à esquerda, chegando a liderar uma coligação paritária com o PCP à Câmara de Lisboa. Essa coligação  saiu vitoriosa contra Marcelo Rebelo de Sousa, apesar de iniciativas mediáticas deste, como o mergulho no Tejo ou a condução de um táxi em Lisboa. A estratégia política de Jorge Sampaio foi, porém, claramente derrotada a nível nacional, levando a que Cavaco Silva reforçasse em 1991 a sua maioria absoluta, que já tinha sido um resultado surpreendente quatro anos antes.

Declarando-se “em estado de choque” com os resultados do PS, António Guterres avançou contra Jorge Sampaio, tendo vencido facilmente e voltado a permitir o domínio da ala direita no PS. Tal permitiu-lhe ganhar as eleições de 1995 e 1999 (esta última no limiar da maioria absoluta). Tendo saído por vontade própria, seria substituído por Ferro Rodrigues, mais uma vez da ala esquerda do PS, desta vez oriundo do MES, o qual perdeu as eleições contra Durão Barroso. Este, no entanto, abandonaria o país em busca dos prados verdejantes de Bruxelas, sendo substituído por Santana Lopes, que se revelou um desastre governativo. Ferro Rodrigues, revoltado com a não marcação de eleições pelo seu amigo Jorge Sampaio, deixaria também o cargo de secretário-geral, sendo substituído por José Sócrates.

José Sócrates também estava claramente colocado à esquerda, tendo apenas vencido as eleições de 2005 e 2009 devido ao mau desempenho dos então líderes do PSD. No entanto, acabou por perder as eleições em 2011 para Passos Coelho, depois de ter levado o país à bancarrota. António José Seguro voltou a recentrar o PS, e até ganhou as eleições europeias em 2014, mas viria a ser derrubado por António Costa, numa aliança com José Sócrates.

António Costa, desde sempre um antigo apoiante de Jorge Sampaio e por isso claramente da ala esquerda do PS, perdeu igualmente as eleições em 2015, mas conseguiria formar governo com o apoio do PCP e do BE, ainda que com a contrapartida de governar claramente à esquerda, o que não o incomodou nada. O país sofre por isso hoje com as medidas disparatadas dos seus governos, depois de o mesmo, à semelhança de Durão Barroso, ter também partido para os prados verdejantes de Bruxelas.

Pedro Nuno Santos, o tal que ameaçava pôr a tremer as pernas dos banqueiros alemães, foi eleito secretário-geral do PS, mais uma vez pela ala esquerda do partido, que sempre o viu como o delfim de António Costa. Apenas depois de perder duas eleições, a última das quais com estrondo, o mesmo desistiu, levando a que José Luís Carneiro assumisse o cargo.

Só que José Luís Carneiro não está a conseguir unir o partido, que vive presentemente num clima de guerra civil entre as duas alas esquerda e direita, como antes nunca se viu. António José Seguro candidata-se a Presidente da República e é violentamente atacado pelos apoiantes de António Costa, que se dedicam a empurrar outros candidatos. Ricardo Leão, autarca de Loures, toma medidas de demolição de construções ilegais no espaço público, como a lei expressamente impõe, e é atacado com cartas abertas, mais uma vez de militantes do PS, isto na véspera de umas eleições autárquicas, que o partido deveria estar empenhado em vencer.

A conclusão só pode ser uma. Os militantes do PS, em lugar de fazerem oposição ao Governo e aos partidos que o apoiam, fazem oposição a outros militantes do PS. Quando isso acontece num partido, só se pode concluir que o mesmo está à beira da cisão.

Sócrates em tribunal


jpt,

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Isto era eu em 2007, fotografado em Maputo no jardim da casa de um casal muito amigo. Eu tinha um blog desde 2003, mais dedicado a Moçambique. Mas já tinha resmungado sobre uns dislates lusos – era a época de afirmação do entretanto defunto BE. O que logo havia sido suficiente para que um jornalista mariola chamado Rainha me afixasse no “top-ten” da direita blogal, arrolando-me do meio de fascistas, assim mesmo chamados… Imagine-se o meu ar, professor contratado por uma universidade pública moçambicana, ao ver-me na internet emparelhado a uns quaisquer blogs chamados “neofascistas de Arrentela” ou “neonazis de Almeirim”. Resmunguei entre palavrões peludos “o pequeno mundo dos esquerdalhos lisboetas, acampados entre o Campo Grande e Campolide” – nem de propósito, quando voltei a Lisboa estava o tal Rainha instalado no prestigiado ICS, ali à Biblioteca Nacional. “Cultos”, dizem-se. Enfim…

 

Em 2007, com este ar ainda ligeiramente encanecido e muito menos engelhado, já havia eu lido algumas peças jornalísticas e falado com alguns sérios amigos portugueses. Sabia quem era Sócrates. Sabia que era bem diferente de Soares (& Zenha), Sampaio ou Guterres, alguns dos quais haviam recebido o meu voto. Sobre o traste indivíduo fui blogando desde esse então e nos anos subsequentes. E lendo, muito também em blogs – gente até desesperada com o rumo nacional.

 

Mas também muitos defendendo-o, até à última. Na imprensa, nos blogs. Alguns transportando-se destes para a tal imprensa e, depois, para o poder político. E/ou para sinecuras. Costumo simbolizar essa mole com as gentes do blog “Jugular“, indefectíveis socratistas alcandorados sobre um pedestal de infinita arrogância (Palmira Silva, Vale de Almeida, Câncio, Galamba, e um enorme etc.).

 

Sócrates lá caiu, deixando o país qual trambolho. Foi para Paris “estudar”. Publicou a “sua” tese, posfaciada por Eduardo Lourenço, respeitoso para com o “Senhor Engenheiro José Sócrates” (sic) – trecho nunca abordado na exegese que os académicos do CES e associados ao Mestre fazem. Voltou a Portugal, rumo a Belém: palestrou sobre Rimbaud, pois transformado em erudito. Encetando uma tournée de “cultura”, pensada como adequada a um PR. Um antropólogo seu vassalo levou-o ao ISCTE para pavimentar uma qualquer sessão de magister dixit. Etc.

 

Eu já havia regressado à Pátria Amada, e à toca dos Olivais. Assistindo in loco a tudo aquilo: o seu pessoal na imprensa, os veteranos bloguistas (meio então já menos comum), a rapaziada das “redes sociais” (FB, Twitter), os velhos militantes aspergidos dos ares de Bad Münstereifel, os simpatizantes do “dá jeito ser do PS”, a malta das autarquias, todos rejubilavam, em frenesim laudatório. E de todos nós, os “outros”, avessos ao energúmeno, diziam sermos “ressentidos”, “ressabiados”. Doentes psicóticos, entenda-se…

 

Entretanto Costa, seu antigo nº 2, tomou a liderança do PS. Logo Ferro Rodrigues, ascendeu a chefe da bancada parlamentar. No seu primeiro discurso nessa condição, e ao invés da anterior direcção partidária, reclamou “o legado de José Sócrates”.

 

No dia seguinte a esse discurso parlamentar fui até à tasca do bairro, abanquei na mesa que me albergava naquele meu primeiro Inverno de “torna-viagem”, náufrago que estava. A tv estava sintonizada nas “notícias” e logo na primeira rodada percebi que Sócrates havia sido levado até à nossa vizinhança do Parque das Nações, para prestar declarações. Ficámos ali horas, rodadas e mais rodadas, à espera do que iria acontecer. Finalmente lá veio a (ansiada) notícia: o biltre ia dentro! Júbilo, ovação, maior do que a em qualquer futuro golo de Éder!!!

 

Ontem, e até que enfim, Sócrates foi a tribunal – do qual presumo nunca sairá efectivamente condenado. A amada e respeitável democracia é isto: só ele está em tribunal!

 

Mas ela também permite outra dimensão: só ele está em tribunal. Mas em “julgamento” intelectual está toda a imensa tralha dos seus apoiantes, que dele foram indefectíveis: os tontos que “não perceberam”; os complacentes, “pois ele é de esquerda”; os coniventes, os do “sou do PS”; e os cúmplices, essa abjecta corte feita desses santos silva, vital moreira e tantos quejandos.

 

Muitos poderão discordar de mim. Mas terão de concordar numa realidade: eu não sou o quase-viçoso patente nesta fotografia. Já resto escombro, pois vinte anos passaram, 20 anos!!!, desde o evidente início disto.

 

E a responsabilidade disto, deste tanto tempo e de todos os efeitos de entretanto, é mesmo só dos seus apoiantes. Nem vale a pena adjectivá-los.

Treinador de bancada que não passa disso


Pedro Correia,

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Augusto Santos Silva, em recente entrevista à SIC Notícias, exibiu o seu maior desdém pelas candidaturas à Presidência da República já anunciadas. Em particular a de António José Seguro, antigo secretário-geral do PS.

Seguro, em vez de se refugiar em profundos cálculos afundado no sofá, como António Vitorino, ou fazer de conta que avança sem nunca dar um passo em frente, como vários outros socialistas, apresentou-se como candidato a Belém numa concorrida sessão pública nas Caldas da Rainha – cidade onde reside – em que faltaram lugares sentados para tantos que lá compareceram para lhe manifestar apoio.

 

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Vale a pena recapitular algumas frases que pronunciou nesta sessão, a 15 de Junho:

 

«Não preciso de aprender no cargo: chego preparado.»

«O País precisa de um Presidente que seja referência moral e não ruído mediático.»

«Agirei como Presidente que escuta antes de falar.»

«Precisamos de governos de projecto e não de governos de turno.»

«Governos a prazo conduzem Portugal a prazo.»

«Só a criação de riqueza pode trazer progresso, melhores salários e melhores pensões.»

«Consultarei o Conselho de Estado mas não me dispensarei de escutar o conselho do povo.»

«Não saio do meu conforto para fazer mais do mesmo: venho para mudar. Se fosse para ser mais do mesmo, haveria outros melhores do que eu.»

«Liderei [como deputado] a reforma que permitiu ao Parlamento exercer verdadeiro controlo político sobre os governos, designadamente com a realização de debates quinzenais com a presença do primeiro-ministro.»

«Sozinho, no plenário da Assembleia da República, levantei-me para votar contra a lei de financiamento dos partidos políticos que reduziu o controlo da entrada de dinheiro.»

«Quero ser um Presidente da República respeitado pelo exemplo.»

 

Questiono-me quais destas declarações terão provocado um esgar de repulsa a Santos Silva, levando-o a debitar a seguinte frase quase bombástica na mais recente das suas entrevistas: «Nenhum dos três candidatos que estão no terreno cumpre os requisitos mínimos que um Presidente da República de um país como Portugal deve ter.»

Notem bem: requisitos mínimos. Visando, em particular, o seu camarada de partido. Que, ao contrário dele, não fez parte do séquito de José Sócrates.

Caso para perguntar porque espera então o enfastiado Augusto para deixar de ser treinador de bancada e apresentar-se enfim a jogo. Noção de que é incapaz de mobilizar apoios ou simples receio de ir a votos?

Misoginia comunista e socialista


Pedro Correia,

Oiço gente próxima do PS e do PCP criticar o novo Governo por ter «menos mulheres em pastas ministeriais». Curiosas, estas críticas. Vindas de militantes ou simpatizantes de dois partidos que nunca tiveram lideranças femininas.

Vale a pena lembrar que o PCP existe há 104 anos e o PS já tem 52 anos. Tempo mais do que suficiente, em qualquer dos casos, para se aliviarem da ganga misógina que continua a dominá-los.

Os ataques dos ministros de António Costa a António José Seguro.


Luís Menezes Leitão,

Não há nada que mais me divirta do que assistir a antigos ministros de António Costa a atacar a candidatura presidencial de António José Seguro, precisamente o único socialista que até agora teve a coragem de assumir uma candidatura. Isto depois de os governos em que participaram terem conduzido o PS e o país ao abismo em apenas oito anos, enquanto que o seu líder partiu alegremente para um exílio dourado em Bruxelas, o que não o impede de querer condicionar por interpostas pessoas as escolhas do seu partido. É assim que primeiro surge Mariana Vieira da Silva a dizer que há dez anos que não se conhece uma ideia a António José Seguro. Depois vem o seu pai, José Vieira da Silva, a dizer que António José Seguro não tem o perfil desejável para ser apoiado pelo PS. Dá gosto ver uma tão grande convergências de posições entre pai e filha, apesar da diferença de gerações, o que talvez se possa explicar pelo facto de terem estado os dois ao mesmo tempo nos governos de António Costa, situação que causou perplexidade até no Parlamento Europeu. O que cabe perguntar é porque é que nenhum dos dois se candidata à presidência da república ou até a líder do partido, em vez de se manterem como treinadores de bancada. Enquanto o PS continuar neste estado não vai longe.

A insuportável birra do derrotado


Pedro Correia,

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Conduziu o PS à maior derrota de sempre, vendo o seu partido ultrapassado pelo Chega. Movido pelo ódio a Luís Montenegro, apostou tudo em derrubar o primeiro-ministro invocando o chamado “caso Spinumviva”, que os portugueses olimpicamente ignoraram. Fez orelhas moucas aos avisados conselhos que os membros do seu próprio núcleo duro lhe deram para não precipitar o país em eleições antecipadas que ninguém desejava e que auguravam o pior para os socialistas.

Depois de perder 900 mil votos, 20 pontos percentuais e mais de metade dos deputados em duas eleições para a Assembleia  da República em anos sucessivos (o PS tinha 120 deputados em 2022, baixou para 78 em 2024 e só tem 58 agora), depois de ver a AD liderada por Montenegro ultrapassar em assentos no hemiciclo todos os partidos da esquerda, confirma-se desde ontem, com o apuramento dos votos da emigração: os socialistas foram ultrapassados pelo Chega, sendo relegados para um inédito terceiro posto na hierarquia parlamentar.

Nunca antes tinha acontecido – nem com Mário Soares, nem com Vítor Constâncio, nem com Jorge Sampaio, nem com António Guterres, nem com Ferro Rodrigues, nem com José Sócrates, nem com António José Seguro, nem com António Costa.

 

E no entanto como reagiu Pedro Nuno Santos na noite eleitoral, confrontado com esta hecatombe? Como insuportável menino birrento e mimado. Sem um mea culpa, sem o reconhecimento de um erro, sem admitir que falhou em toda a linha, conduzindo o partido para uma espécie de beco sem saída.

Enredou-se em patéticos auto-elogios. Incapaz sequer de pronunciar a palavra derrota.

 

Parecia vogar num universo paralelo, escutando apenas hossanas de vassalos e os solos de violino dos aduladores (incluindo vários jornalistas) que o elegeram como campeão dos debates eleitorais nas legislativas em que fracassou. Esta análise detalhada do Pedro Santos Guerreiro não deixa lugar a dúvidas: há uma discrepância cada vez maior, em Portugal, entre quem vota e quem comenta nas televisões

Vale a pena lembrar aqui, para memória futura, as palavras de Pedro Nuno Santos. Estava tão fora da realidade, na noite de 18 de Maio, que quase parecia ter sido ele a sair vitorioso destas eleições.

Recordo-as nos parágrafos que se seguem.

 

«Honrei a história do partido.»

«Tenho muito orgulho no trabalho que fizemos.»

«Foi uma campanha alegre, entusiasmada, com a participação dum partido que estava unido, a apoiar-me.»

«Nós não provocámos estas eleições. Fizemos tudo quanto estava ao nosso alcance.»

«Luís Montenegro não tem a idoneidade necessária para o cargo de primeiro-ministro e as eleições não alteraram esta realidade.»

«[Montenegro] lidera um governo que falhou a vários níveis no último ano.»

«Eu nunca poderia ser suporte deste Governo. Acho que o PS também não deveria apoiar alguém que não soube separar a política dos seus negócios.»

«Como disse Mário Soares, só é vencido quem desiste de lutar – e eu não desisti de lutar. Até breve e obrigado a todos.»

 

Em suma, levou com um piano de cauda em cima da cabeça e mesmo assim parece não ter aprendido nada. Merece, portanto, o que lhe aconteceu. Espero ao menos que no PS tenham aprendido com este fracasso.

Se assim for, terão de começar logo por isto: até breve, não. Até nunca.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

Dez anos depois, podemos concluir: a geringonça foi um péssimo negócio para o conjunto da esquerda portuguesa. Primeiro a esquerda radical ficou reduzida à expressão mais ínfima, vítima da hegemonia socialista. Agora é o próprio PS a afundar-se a pique, conduzido em navegação errática pelo mais incompetente secretário-geral da história do partido. O círculo fecha-se. É quase irónico lembrar hoje que António José Seguro foi apunhalado por António Costa em 2014 após vencer a eleição europeia com 31,1%. «Poucochinho», dizia então o actual presidente do Conselho Europeu. Desta vez não há punhais na sede do partido. Por ser desnecessário: Pedro Nuno Santos, derrotado nato, optou pelo haraquíri. Faz recuar o PS aos 23,4%, com o pior resultado em 40 anos, e sai de cena. Quem vier depois que trate de colar os cacos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

PS há dois meses: prenúncio do pesadelo


Pedro Correia,

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É fácil, demasiado fácil, fazer o totobola à segunda-feira. Sorrio ao ver alguns sábios surgidos por aí com certezas adquiridas sobre a eleição parlamentar de 18 de Maio – depois de ela ter acontecido. 

Ainda com um sorriso, lembro as notas que aqui deixei em tempo útil sobre o comportamento errático de Pedro Nuno Santos, líder sem talento nem capacidade para segurar o leme do PS. Foi a 25 de Março, na sequência imediata da eleição regional na Madeira – outra estrondosa derrota do efémero caudilho socialista.

Permitam-me a autocitação nos parágrafos que se seguem. Dois meses decorridos, creio vir muito a propósito.

 

Escrevi isto:

«A 18 de Maio a maioria dos eleitores portugueses penalizará os partidos que a 11 de Março chumbaram a moção de confiança apresentada pelo Governo na Assembleia da República.

Por motivos diversos que passo a resumir.

Sentem mais dinheiro de salários e pensões no bolso, foram aliviados na carga fiscal, viram 17 carreiras da administração pública requalificadas e valorizadas – professores, militares, diplomatas, polícias, bombeiros, médicos, enfermeiros, guardas prisionais, oficiais de justiça… Mas também encaram com maus olhos o derrube de um Executivo que estava apenas há onze meses em funções, sem conseguir provar o que verdadeiramente vale, e já desistiram de deslindar o enredo da Spinumviva, variante da telenovelização mexicana do famigerado “caso das gémeas”, agitada pelo Chega, com a comunicação social atrás, para no fim dar em nada. Serviu apenas para este partido, no tom boçalóide que o caracteriza, urrar contra o Presidente da República, a quem chama «traidor à pátria», enquanto hoje berra contra o «corrupto» Luís Montenegro.»

 

E mais isto:

«Para o triunfo eleitoral, Pedro Nuno Santos dispõe de via mais estreita do que Montenegro. Votou demasiadas vezes ao lado de André Ventura na AR. Teve um desempenho controverso e contestável como ministro – em questões tão diversas como a indemnização a uma ex-administradora da TAP e a localização do aeroporto. E tem sido incapaz de evitar fracturas no seu partido, como ficou patente nas recentes críticas de Fernando Medina e Pedro Siza Vieira ao voto do PS na moção de confiança.

Talvez mais tarde se diga que a eleição na Madeira funcionou como prenúncio. Não tardaremos a saber.»

 

Prefiro assim. Pronunciar-me antes, com os cenários todos em aberto. «Prever» o que já aconteceu não tem a menor graça.

As marés vão e vêm


Paulo Sousa,

Lembro-me bem da comédia que foi a geringonça para os socialistas. Então vocês não sabiam que o nosso regime é parlamentar? Não se vota para escolher o primeiro-ministro! Ah, vocês não sabiam! Mas pronto, agora já sabem. Cumprir as regras não escritas do regime? Para quê? O António Costa é que sabe andar nisto. Agora têm de amochar na oposição. É assim! Chama-se democracia. Embrulhem!

Escarnecer do adversário derrotado em democracia é muito mais civilizado do que o desmanche em postas em voga na Idade Média ou o fuzilamento como no caso da Fatah, mas as tradições de uma democracia decente devem ser respeitadas.

O apoucamento a que nos idos de 2015 a direita foi sujeita fez parte do jogo democrático, mas foi acrescido de uma taxa de arrogância razoavelmente elevada. Quantos dos que agora votaram Chega fazem parte dos que então tiveram de assistir à petulância dessa esquerda perante o montar da geringonça?

O algoritmo do Facebook de então ainda não o tinha tornado na rede social dos velhos. Lembro-me bem dos emojis sorridentes por todo o lado. O Passos para aqui, o Vítor Gaspar para ali, o escurinho até se portou bem, o irrevogável já foi, acabaram-se as maldades e a página da austeridade foi virada. Os resultados no estado dos serviços públicos e no estado do regime estão à vista

Não podemos despir ninguém da sua natureza humana, mas devíamo-nos lembrar que o pêndulo da história pode ser lento, mas é tão certo como a baixa-mar que se segue à maré cheia. Ventura e os seguidores da seita religiosa que fundou deviam lembrar-se disso. Importa saber perder, mas também é preciso saber ganhar, e isto não é exclusivo da política.

O espalhafato a que temos assistido nos últimos dias já está a render. Não sabemos quanto tempo durará a maré deles, mas lá chegará o dia em que os que agora escarnecem ficarão sem saber o que dizer às câmaras.

Confesso que também me alegrei com os afrontamentos do PS, não tanto pela menopausa em que parece ter entrado, mas pelo esbardalhamento do macho-alfismo que há muito exibiam – o wokismo que tanto proselitavam permite-me este jogo de palavras. É como se tivessem levantado voo no tempo de José Sócrates, conseguido fingir que iam em velocidade de cruzeiro com Costa e agora tivessem espetado os queixos no chão pela mão de Pedro Nuno Santos. Os resultados do dia 18, entre outras coisas, mostraram-nos que ripas a fingir que são tábuas nunca serão asas e as vacas nunca serão capazes de voar.

O caminho que o centrão agora enfrenta é muito estreito. Os erros acumulados durante décadas, em especial nos últimos anos, retirou-lhe qualquer margem de erro. Sem reformas substantivas e em prazo curto, tudo parece apontar para que o Chega venha a ser poder. Depois de Ventura mostrar que é tão incompetente como os outros e quão incapaz é o seu grupo parlamentar, rapidamente regressará à expressão que merece. Gostava de saber quem é que têm para preencher um Conselho de Ministros? É o tipo das malas para a Administração Interna? O Tânger Correia para os Negócios Estrangeiros? A Maria Vieira para a Cultura? O outro que angariava prostitutos menores on-line para a Educação? Espero estar enganado, mas cheira-me que aqueles que hoje batem com a mão no peito contra a privatização da RTP, um destes dias poderão ficar muito preocupados com o poder discricionário que o seu Conselho de Administração tem.

Esse dia chegando, o estrondo será inevitavelmente grande, mas já cá andamos vai para 900 anos e se já aguentámos (tivemos de aguentar por escolha de muitos) com José Sócrates, também aguentaremos com o “Escolhido por Deus para Salvar Portugal”. Livrar de isso coincidir com uma guerra.