
A imprensa já esmiuçou o caso da derrotada candidatura do antigo governante socialista Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça. PS e PSD acordaram na sua eleição. O deputado Rui Rocha (IL) – antigo bloguista – recordou que Antunes havia tido uma participação activa no núcleo propagandístico digital de José Sócrates. E a Assembleia da República não o elegeu.
Entretanto, é muito interessante a jeremíada socialista “Tiago Antunes e a “maldição Sócrates”” da antiga directora do sempre empenhado “Público”, Bárbara Reis, uma contestação do repúdio parlamentar encetada com ênfase: “A minha alma está parva e a minha cabeça pergunta: até onde vai durar a “maldição Sócrates?”.
Reis defende o candidato por três razões: 1) na audição parlamentar prévia à eleição, ele usou um alfinete de peito (Reis usa o termo “pin” por razões que não explicita) com a imagem de uma prestigiada jurista americana, cuja biografia a jornalista condensa neste artigo; 2) aduz que ele trabalhara no núcleo socratista entre os seus 26 e 32 anos, deduz-se como se tal tivesse sido – e dado aquilo que agora (e já então, mas enfim…) se sabe do antigo primeiro-ministro – uma “irresponsabilidade” ou “devaneio” juvenil; 3) Reis afirma que todos os governos propagandeiam, e se Antunes nisso participou nada de estranho se deve concluir.
Sobre o broche que Antunes usou nada adianto, mas mal seria se os critérios de escolha para os cargos públicos fossem os adornos de cada candidato. Já sobre a “juventude” já tenho algo a dizer. Incorrecções ou disparates juvenis são outra coisa: roubar um cigarro no maço do pai, ou a este sacar o carro para uma passeata com amigos (ou amiga), beber demasiadas tequillas e vomitar na rua, faltar às aulas, não estudar o suficiente e reprovar num exame, acordar na cama com uma parceira desconhecida sem saber como aquilo aconteceu, vestir-se com despropósito para uma entrevista de emprego, usar drogas químicas “só para experimentar”, guiar sob influência, etc, pois há um enorme rol de disparates disponíveis. A maioria apenas merece … conselhos, alguns mesmo sanções morais. Outros, poucos, são crime: guiar sob influência será exemplo maior.
Mas como é evidente não se trata disso. Os mais veteranos, em particular (ex-)bloguistas – como o deputado Rui Rocha – e jornalistas, lembram-se do que foi uma verdadeira verdadeira rede de contra-informação. Que unia blogs anónimos e remunerados – o mais célebre foi o Câmara Corporativa, do “incógnito” “Miguel Abrantes” – com outros assinados de frenética actividade socratista (como o Jugular e tantos mais).. Que se dedicavam a uma espécie pré-robótica de produção de “fake news” conjuntamente com um desbragado espírito confrontacional, de arrogância extrema, face aos críticos do socratismo. Aquilo era uma barricada em torno do poder. Alguns dos seus agentes era remunerada de modo esconso, como se veio a comprovar. E tantos outros vieram a ser … recompensados: das simples avenças televisivas até postos governamentais, basta vasculhar os nomes dos “activistas” de então.
Sem rodeios, durante anos foi evidente a personalidade de Sócrates, os seus desmandos e o clientelismo vigente. Os colaboracionistas com aquele rumo, defendendo-o de modo indigno, devem ser inelegíveis para os cargos fundamentais do nosso ordenamento estatal. Independentemente das qualidades científico-académicas que possam ter. E dos adornos que usam.

E isto não se trata de uma “maldição”, como lacrimeja Bárbara Reis. Trata-se de uma desconfiança fundamentada. Face às opções pessoais desses colaboracionistas, gente de difícil regeneração. Mas também, talvez até mais, diante das práticas do Partido Socialista. O qual insiste em não se expurgar, não se regenerar, como o demonstra esta indicação de Antunes. O PS sob Costa, limitou-se a seguir um Socratismo 2.0, numa estratégia de apenas minorar os danos. Durante anos tentando proteger o próprio Sócrates. Até àquela semana de 2018 em que 3 dos seus próximos (Fernanda Câncio, João Galamba – ambos fervorosos bloguistas socratistas – e Carlos César) o vieram repudiar, uma “coincidência” demonstrativa que o partido decidira deitar borda fora o seu ex-líder, tornado demasiado lastro para a borrasca que semeara.
Após isso César continuou impante presidente do partido, Galamba ascendeu da Assembleia ao governo, e Câncio mantêm o posto honorário de “grande repórter”, mesmo tendo passado mais de uma década em esbanjo de arrogância e sem perceber o que se passava à sua volta. Ou seja, nenhum deles sofreu qualquer “maldição”. Tal como não a sofreu o próprio António Costa, veemente nº 2 do antigo primeiro-ministro – tanto que até coordenador da moção de estratégia “Defender Portugal, Construir o Futuro”, a de Sócrates ao congresso do PS em 2011, já tudo aquilo há muito que fedia.
Agora muitos discutem as nomeações de juízes para o Tribunal Constitucional. Pois então convém lembrar que em 2020 o PS de Costa – fiel a essa melíflua estratégia de “evolução na continuidade” – nele tentou colocar Vitalino Canas. Então escrevi sobre essa absurda candidatura, tanto pelo desajuste do candidato, alheado do sentir democrático, como pela sua profunda ligação ao socratismo – e deixo acima a fotografia, tirada no dia em que Sócrates saíra da prisão e se juntou aos seus íntimos. Vitalino Canas não foi eleito pelo parlamento não por causa de uma “maldição”. Mas devido a uma avaliação política, tal como agora Antunes o foi. Sobre a incompatibilidade entre a comunhão com o desmando socratista e a elevação necessária ao desempenho das funções políticas e jurídicas.
O “Público” e os socratistas não o percebem? Paciência. O importante será (ou apenas seria?) que o próprio PS o perceba. Mas esta indicação de Antunes faz duvidar que a autocrítica partidária tenha acontecido.
(Este é um dos 8 textos da minha Gazeta Semanal no meu blog)
ADENDA:
O Pedro Correia deixou em comentário esta memória sobre o candidato ao cargo de Provedor de Justiça. Mas antes de a replicar deixo esta nota: no “Expresso” de ontem Tiago Antunes escreve sobre este episódio. Depois de um longo auto-ditirambo termina “Assim não contem comigo“, devido a ter sofrido “campanhas persecutórias absolutamente infundadas e ridículas“. Mas na sua narração transparece uma mundividência política peculiar: diz que há 9 meses foi escolhido por acordo entre Carneiro e Montenegro. O qual não foi agora votado pelos deputados. Para Antunes isso significa que estes “desrespeitam acordos, brincam com o bom-nome das pessoas e alimentam campanhas persecutórias…”, o que é “lamentável“. Esta é concepção que o jurista e o político Antunes tem do exercício parlamentar, ser eleito para estar subjugado aos ditames do “chefe”. E o docente universitário nem dá conta do verdadeiro conteúdo antidemocrático do que escreve…
PEDRO CORREIA: Sobre Tiago Antunes escrevi três vezes no DELITO. Aproveito para lembrar essas ocasiões.
Quando ele, na altura blogonauta do “País Relativo” (sugestivo nome), procurou suavizar os inaceitáveis “corninhos” de Manuel Pinho, o ministro avençado pelo BES.
Quando ele, já na dependência directa de António Costa no governo pós-geringonça, teorizava sobre a necessidade de “assustar as pessoas” a pretexto da pandemia.
Quando ele procurou impor ao País restrições só possíveis em estado de emergência sem fundamento legal para o efeito nem o indispensável escrutínio parlamentar.
Nada deste passado o recomendaria hoje como Provedor de Justiça.
É por isso que a memória dos blogues é preciosa. É também por isso que ela não pode ser silenciada. Nem pensar.











