
O sistema “VOLTA”
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Na semana passada foi aqui que vi o eclipse solar. Num local que por vezes frequento, aprazível e ainda não devastado pela turistificação lisboeta – é um verdadeiro couto de “irredutíveis lusitanos” mas nada xenófobos. Tem a incomensurável vantagem de manter o nome na nossa língua – é perto, por exemplo, de um famoso Champalimaud Centre for the Unknown (as pessoas têm tanto medo do cancro que aceitam esta vilania afixada), isto para não recorrer a mais dados da disseminada toponímia “globalizada” que polui as cercanias do Tejo lisboeta.
Tem ainda o chamariz de apresentar um cardápio português, mesmo se nada fundamentalista, pois polvilhado com os víveres da “comida do mundo” – como é obrigatório na gastronomia de um povo que sempre se lambuza com o longínquo bacalhau enquanto carrega a honra de ter inventado o sarapatel e de o ter exportado quando galgou os mares em busca de condimentos. Pode-se (pude) petiscar uma meia-desfeita do tal bacalhau com grão (a qual por vezes leva outro nome mais popular). E de explicar a um jovem britânico, que há alguns anos fez por assomar na minha família nisso sendo bem-vindo, o que é um “arroz malandrinho” sem estar preocupado com a epidemia do imperialista e insuportável risoto.
Tudo isto na vizinhança do Padrão – esse que alguns alienados “intelectuais” querem eliminar por ser dedicado aos Descobrimentos e advir do “Estado Novo”. E também do Mosteiro – esse que alguns alienados “intelectuais” se esquecem de querer eliminar, apesar de ser dedicado aos Descobrimentos, àquela viagem de Gama, e de grande parte daquilo ser um muito tardio acrescento, um pastiche digno da “patrimonialização” do tal “Estado Novo”. E ainda da Torre, que também não abjuram mesmo tendo ela sido um enorme e longo investimento para defesa náutica, apesar de agora bramirem contra despesas desse tipo.
Enfim, detalhes desses à parte – que sempre me ocorrem quando por lá ando – ali decorreu o fim de tarde, naquele tão excêntrico, pois interrupto, ocaso (que os grunhos, até políticos empossados, agora chamam sunset). Passei-o com família, a mais-que-tudo, mais amigo de sempre e seus gentilíssimos amigos. As duas esplanadas estavam cheias – mas não apinhadas -, a clientela feliz e divertida, na adequada pois educada discrição. E ia falando entre mesas, comentando o célere percurso dos astros, intermitentemente levantando-se para melhor o acompanhar, e até convocando os mais sentados para que não perdessem pitada…
(Entretanto lembrei o eclipse solar de 2001 em Moçambique, o primeiro do milénio, parcial em Maputo onde ficáramos, mas total na Zambézia e Tete para onde acorreram alguns amigos. Alguns que já cá não estão, “eclipsaram-se” murmurei na sua memória saudosa, com um humor deveras eclíptico.)
Foi um dia feliz, bem-humorado! Diante de algo – verdadeiramente natural, pois da Natureza – que não voltarei a ver. À saída hesitei sobre o meio de transporte a usar. Tamanha a boa disposição que decidi caminhar. Calcorreei desde aquela quase Praça do Império até à Praça Duque da Terceira, o verdadeiro Areeiro do Tejo pois o povo que mais ordena – como também o faz “ao da Portela” -, refuta-lhe o nome que os pindéricos decidiram atribuir-lhe. Mas ali ao Cais do Sodré descobri que a estação do metro está encerrada para obras… E segui até à Baixa-Chiado.
Já na carruagem consultei o telefone: andara 6,8 kms. “Nada mau para o sexagenário”, elogiei-me, ainda para mais àquela hora… lunar, num dia que até contara com umas saborosas caras de (claro) bacalhau almoçadas na bela Palmela. Já em casa uma querida cunhada instava-me, por telefone, a assistir à anunciada chuva de estrelas. Mas, apesar de tudo, deixei um “já não posso com uma gata pelo rabo”. Aguentaria se estivesse no campo – ou no “mato”, ripostou o antepassado antropólogo que por vezes ainda acorda… Agora aqui, na urbe luminosa? E deixei-me adormecer, ainda pensando “tenho de dizer à Carolina – e não só – que quando eu me eclipsar deverão brindar ao mote: “o tipo, pelo menos, um dia viveu um g’anda eclipse!!”.
Na manhã leio algumas mensagens telefónicas e bebo um café olhando as “redes sociais”. Alguns, amigos reais e interacções digitais, estão altivos, invectivando a superficialidade medíocre que nós-povo patenteámos, neste entusiasmo diante do eclipse, como se rebanho fôssemos diante do inútil. Enrolo o Amber Leaf, arreliado com a atitude sobranceirara desta gente. Pois se nem conseguem atentar numa tão rara obscurecedora intersecção dos astros, como podem compreender a constante bruma com que as palavras envolvem a nossa vida?
E, pequenos parvos – passe a redundância -, julgam-se esclarecidos. Iluminados. Mas são um verdadeiro ocaso – até mesmo sunset – de inteligência.
(Postal no dia para o meu “O Pimentel“)

Já aqui referi o crescendo da criminalidade em Portugal. Muita dela praticada por imigrantes, de diversas origens – em especial brasileiros, usualmente (muito) tatuados e crentes da miríade evangélico-comercial, e indostânicos, estes de várias confissões, hindus, muçulmanos, sikhs e, quiçá, até budistas. Mas também por alguns dos nossos compatriotas, influenciados pelas más práticas alienígenas. Todos eles acicatados pela despreparação da nossa polícia, incapaz de proceder a acções fiscalizadoras e punitivas, pela inércia do nosso Estado, abstencionista de estratégias pedagógicas e mesmo legislativas. E seguem impantes, esses criminosos, flanando nas suas más práticas sobre a tradicional placidez que em todos nós habita, essa advinda dos nossos “brandos costumes”.
Revoltei-me com isto. Pois se o Estado, a polícia e os meus compatriotas mais jovens não actuam, imbuí-me de espírito “vigilante”, o da justiça por mãos próprias, a agora tão necessária “justiça popular”.
Aqui nos Olivais há uma personalidade já tradicional, um honestíssimo vendedor ambulante, fértil em mesuras e de finíssima retórica. Desse modo é sempre bem acolhido nos espaços públicos, e escutado na sua detalhada e simpática apresentação dos produtos que carrega, geringonças (digo-o sem conteúdo político) utilíssimas – porta-chaves inteligentes, canivetes multiusos, aparadores de orelhas e demais preciosos instrumentos.
Muito recentemente abordou-me numa esplanada. Nesse dia vendia também armas de repetição. Nem hesitei, tornei-o meu armeiro. Por apenas dez euros comprei-lhe este revólver. E ontem estreei-me “vigilante”. Na mesa onde decidi ler o meu livrito apus também a arma. Desde então à minha volta reinou o silêncio, timorato.
Mas não se pense que faço “bluff”. Se algum desses imigrantes – tatuados ou não – ou compatriotas usaram os telemóveis para ouvirem os grunhidos de “seriados”, abjectas cacofonias a que chamam música ou mesmo, e pior, conversarem altissonantes com entidades distantes, eu ripostarei. Ligarei este transístor no volume máximo!
(Antes no “Quotidiano” do meu “O Pimentel“)
A mulher, sentada num banco de jardim, fuma um cigarro. Tem óculos escuros, é de meia-idade.
Passo por ela, de calça de ganga e mochila a tiracolo.
Ela pergunta:
– Ó senhor, pode comprar-me um livro ou um quadro?
Estendo os braços, com as palmas das mãos para cima, e respondo no tom mais credível de que sou capaz:
– Não tenho dinheiro.
Prossigo a caminhada, em passo acelerado. Ainda a oiço:
– Mas parece ter!

O António Cabrita acaba de publicar uma ficção, romance-sátira sobre Moçambique, assim o disse (e fez). Lá compareci no “lançamento”, ao abraço devido. Depois li. Entretanto um amigo moçambicano pediu-me para lhe enviar um exemplar, comprei-o. Nas delongas para encontrar um portador para Maputo acabei por o dar a alguém interessado.
Agora a Lisboa chegou alguém disponível para lhe levar o livro. Acorri à livraria vizinha, de “cadeia” renomada. Aporto ao balcão para perguntar ao livreiro se o tem disponível. Mas dá-me uma “branca”, esqueço-me do título… Resta-me perguntar-lhe se “têm um livro de António Cabrita cujo título é qualquer coisa com pangolins“, informação que será suficiente para a pesquisa – o título é “Da Santidade na Perspectiva dos Pangolins”. Pressuroso e simpático o trabalhador (agora dito “colaborador”) investiga o assunto nos meandros da rede digital da sua afamada – e secular – “cadeia” empregadora.
E lamenta-se, “não temos nada desse autor” – o Cabrita tem vinte e tal livros publicados, já agora. E culmina, em cúmulo de solicitude, “é um cozinheiro?“… Agradeço-lhe, deixo-lhe o “boa noite” devido. E saio gemendo, até aflito: “coitados dos pangolins…“

Sento-me na esplanada, aguardo a minha mais querida conviva comensal. Peço a imperial e recomeço a leitura do breve Cela que trouxe. Na mesa ao lado, a quatro braçadas de mim, um casal de quarentões, ela feia de nascença, peluda e veienta também, ele dessa condição adquirida tal como o ventre que o acompanha. Diante deles vigora a travessa dos abomináveis caracóis, aparentando-se intermináveis. Ela sorve-os, sôfrega na sua irremediável feiura. Ele chupa-os, nisso tonitruante. Tento fulminá-lo com olhares, mas ele a isso está blindado pela gula.
Afinal acabam-se-lhes os petiscos. Grunhem, guturais, e chega-lhes à mesa uma dose de feijoada, o odor da molhanga escorre, eles deglutem, apaixonados.
Eu desespero..

Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas. De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal – talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários – e são tantos – parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito.
Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.
Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.

(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)
Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” – a clientela – a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e – no caso dos mais-velhos – pela infinitude de canais televisivos.
E também pelo lado da “oferta” – dos proprietários – não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço – vão de escada com postigo que seja – tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.
Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.
Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.
Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…
Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.
O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano – não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.
Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, e muitos outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda – nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.
À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.
O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.
E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, o “gosta de ler livros?” – que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.
Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.

(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)
Não sei se acontece o mesmo convosco. Eu quando estou numa fila de supermercado avalio pelas compras dos clientes à minha frente se sabem cozinhar ou não.
Se só vejo embalagens de fiambre e latas de atum, percebo de imediato que quem ali está não costuma dedicar-se à culinária. Se leva legumes, arroz, carne e temperos, percebe-se que se trata de alguém habituado a cozinhar.
Reparo nestes pormenores e procuro estabelecer um padrão das pessoas conforme a idade e o sexo. E vou concluindo que entre os homens são os mais jovens que cozinham enquanto nas mulheres a tendência dominante é ao contrário: verifico que elas vão deixando em grau crescente de se dedicar aos fogões e aos tachos, contrariando o que sucedia com as mães e avós.
Sobra para eles, claro. E lá se vão ajeitando como sabem e podem. São cada vez em maior número, é o que indicia a minha observação empírica. The times they are a-changin’.

O devaneio banhista, o “ir à praia”, foi uma “conquista de Abril”. A democracia da generalização do real direito a férias e a rendimentos, mesmo se parcos, suficientes para andanças lúdicas. E para os “reaccionários” – os venturianos avessos à “bandalheira” – que torçam o nariz a esta constatação: lembro-me de naquela época PREC chegarem as camionetas com o povo das até redondezas, estremenho ou ribatejano, trazido a conhecer o mar – o enclausurado de São Martinho do Porto. Pois havia sido assim a vida, arredada e paroquial, durante o caquético Estado Novo. Isso fez do “ir à praia” um valor fundamental da pátria actual, o de “viver bem” – e muito antes deste país de agora, no qual só alguns “velhos do Restelo” protestam com os “fumos do turismo”.
Nada tenho contra esse Abril. E muito menos contra o mar ou o areal, bem pelo contrário. Mas não vou à praia, em especial na dita “época balnear”. Veto-me essas investidas por razões pessoais, apenas minhas. Pois nesses locais encontra-se gente, por vezes mesmo imensa. A qual, ainda por cima, ali aparenta estar feliz. E muita dela, e em dramático crescendo, é tatuada. Acorrer a esses dantescos micro-infernos? Jamais…
Por vezes vozes amigas insistem comigo, trinam-me os benefícios da “praia” à saúde, a robustez advinda da absorção de minerais e do crescendo de espontâneas vitaminas. Seduzem-me com a opção de, armado com livros, pelo menos ficar a “apanhar os ares” nos “bares da praia”. Mas nesses estão as mesmas moles (até tatuadas, repito-o), demoníacas. Ali encostadas (e sempre felizes!) a músicas altissonantes – pois a raça balnear teme o som do mar, decerto que por memória genética da história trágico-marítima.
Por isso apenas de longe acompanho a polémica popular neste início da Balnear 2026: pode-se acampar com o chapéu-de-sol diante das espreguiçadeiras sombreadas alugadas? É um episódio da luta de classes, o povo industrioso contra o empresariado cúpido. Mas também de mundividências, até filosóficas, a oposição entre o individualismo liberal e o estatismo tentacular, permeável ao capital.
Nada posso opinar. Apenas recordar que em jovem “ia à praia”, lá em São Martinho do Porto. Havia as “barracas”, zonas concessionadas, cada qual gerida pelo “banheiro”. E depois, ao lado, um pouco a caminho dos “faróis” havia a área para os “chapéus-de-sol”. De quando em vez uns colocavam os seus diante das barracas. O mar não se revoltava, o céu não nos caía em cima da cabeça, os burgueses e os neo-burgueses – “Abril” bastante fez mudar aquele “bidé das marquesas” – não chamavam a polícia.
Enfim, a mim – pálido neste aquém-litoral – esta polémica dá-me uma comprovação: o Sol na moleirinha faz mal. Aos gentrificados que alugam a sombra e ao povo que a carrega. Entretanto, abonados seguem os “concessionários”, mariolas bem-postos e melhor articulados. Por isso recordo um postal já antigo, quando vim de férias a Portugal e – por amor – “fui à praia”. Uma nota prévia: presumo que os preços estejam (muito) desactualizado.
Mudar de vida? (27.07.2010)

Vamos à praia, à Costa da Caparica, a praia do povo. Ali chegados avançamos para o areal e procuramos alugar uma sombra. Está esgotada a oferta, temos de acorrer ao concessionário seguinte. Nesse ainda arranjamos local e abrigamo-nos muito juntos, ainda bem que somos um legítimo casal, pois a pouca palha mal amanhada quase nenhuma sombra produz. Pagamos 2 contos e quinhentos (os indígenas assimilados chamam-lhes 12, 5 euros). Descemos até à água, polar, e molhamos os pés. E logo regressamos à quasi-sombra onde nos unimos bem juntos, ainda que com algum pudor, em busca do tal refúgio contra a inclemência soalheira. Lemos algo, algo distraídos. Um pouco depois vamos petiscar ao bar de praia. Abarrotado, e no calor da esplanada tresanda a sardinhas assadas. Voltamos então ao concessionário vizinho, este com nome de flora local (”Palmeiras”). Nele o bar de praia também está cheio, e ali habita o bedum da molhanga do caracol cozido, mas ainda assim temos artes para ocupar uma mesa. Sôfrego bebo duas imperiais, a minha senhora um Sumol, para ela convocamos uma tosta de galinha enquanto eu me fico na tradicional mista. Pagamos mais de dois contos e novecentos (o dialecto regional chama-lhes 14 euros e tal). E, acabrunhados, recuamos para o carro, saímos do enorme e apinhadíssimo parque de estacionamento onde pagamos 700 escudos (os locais chamam-lhe 3,5 euros). Seis contos (trinta euros na “língua de pau” vigente) gastos para ir à praia. À praia do povo. Cheia.
Crise, dizem. Mudar de vida, dizem. Em Portugal.
E aqui deixo a tal “sombra” (a tal a dois contos e quinhentos por unidade). Um verdadeiro testemunho (meu) abonatório, para que não me acusem de mau-feitio.

(Postal também no meu “O Pimentel” – no qual antes deixei um texto demasiado longo para o Delito de Opinião, o “Os escravos na ONU” – aqui deixo a ligação para quem se possa interessar.)
Autocarro circula avenida adiante, com metade da lotação. Homens falam de bola, mulheres falam de doenças.

![signs%20(05)[1].jpg](https://delitodeopiniao.pt/images/2026/20342182_yHHmJ.jpeg)
Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria – e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.
Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários – e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.
O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas “redes sociais” funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.
Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades “evoluídas”.
Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.
Quem não perceber isto nada percebe de essencial.
Como há-de o Estado – mesmo o Estado democrático – respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

Já noite, pois pós-jantar, sigo no metropolitano rumo ao aeroporto para, saudoso, colher um abraço filial. Após a Oriente o comboio esvazia-se, prenúncio do que virei a confirmar – a Portela em estado semi-Covid, calmaria talvez fruto de longínquos drones…
Na carruagem resta apenas uma pessoa, no banco ao meu lado. Segue sob o uniforme de “mulher da limpeza” – assim o anuncia nas costas o dístico, “agenderado”, em inglês -, ainda um pouco jovem num abaixo dos trintas. Sofre da doença que agora grassa, tão comum nos futebolistas “afrodescendentes” – como sói dizer-se -, naquilo do alto do toutiço alourado e o restante preto. Mas esta é branca, bisneta de malteses e ratinhos. Não é feiosa. Apenas desfeada por tudo isto que a acomete.
Em Moscavide pega no telefone, e fala com alguém – talvez a mãe ou uma amiga próxima. Grita, viscosa, exasperada, sotaque carregado, o nosso: vinha de um supermercado estacionado num qualquer centro comercial, a caixa automática que usara tivera algum problema. Pedira ajuda a uma funcionária, esta atendera-a de longe, sem sair do seu poiso, vozeando-lhe lhe as instruções para resolver a situação. E todos a tinham olhado! Por isso, pela afronta sentida, sofrida, desvairou-se e assim continua. Vocifera, repete-o, incessante, que “devia ter pedido o livro de reclamações”, não o fez pois “tenho que pegar”, mas afiança que descompôs a outra, a atrevida, até porque, frisa, e várias vezes, “também já trabalhei atrás de um balcão, sei como deve ser”… Esganiça-se, desgraçada por alguém ter falado com ela em voz alta… E eu ali, apenas a duas braçadas, sem mais ninguém na carruagem, como se insensível àquela berraria, não existo! Velho, sinto-me, pois já invisível, como o são (somos) quando já assim. A Portela aproxima-se, a mulher avança célere para porta, eu irei, suave, não vá o Diabo social tecê-las, até às costas dela. E, imparável, desabafa “eu queria era ter um bomba” “para dar cabo do planeta” (“admiradora do Cazuza?”, surpreendo-me para mim-mesmo mas logo concluo, mudo, “não, não pode ser”). As portas abrem-se e ela, antes do primeiro passo, constata – para a tal mãe, talvez, ou amiga íntima -, já rouca, “ó se calhar sou eu que não sou deste planeta!”. Dou-lhe dois ou três passos de avanço, claro, mas sossegando-me naquele laivo de autoconsciência, desesperada, a que, afinal, assisto.
No final de tarde seguinte de novo apanho o metro, vou fazer o jantar. Na mão levo um saco de plástico das compras, amarfanhado pelo uso e mal amanhado pela escassez de víveres: peitos de frango (em promoção), laranja para condimentar, bananas com evidência sensaborona, cebola, ervilhas, duas cenouras, tudo isso para o mero arroz, uma ou outra cerveja… Debaixo do braço segue uma também velha revista, francesa (uma hors-série “Être Français”), francesa, repito, trazida para com ela disfarçar a roupa puída e nada engomada que me envolve.
A carruagem vai quase cheia, entro para o meio do corredor, pouso o saco no chão para compor a pose da revista, encostando-a ao sovaco suado. Logo diante de mim se levanta uma mulher, jovem ainda, trintinha, não beldade mas bonita, dotada do nariz arrebitado que sempre convoca, cabelo bem preto, longo, baixa pelo meu queixo, vestida naquele preto da elegância remediada, que a aparenta bem torneada. Está a oferecer-me o lugar sentado, eu sorrio e agradeço-lho, recusando, claro. Ela insiste num olhar, mimoso de cálido, “por favor”. E nisso o sotaque denuncia-a brasileira… Torno a recusar, cavalheiro, versão gentil-homem, enquanto sinto “eu queria era ter uma bomba….”. E ela, imagine-se, repete-se num suave cantado “por favor, sente-se” sorrindo ao decano. Ocorre-me gritar “Vai para a tua terra!” mas apenas sussurro “Por favor, não me faça mais velho do que já sou!”. Ela baixa os olhos e senta-se. Eu aguento-me, hirto!
Não podemos continuar a deixar que estes imigrantes nos venham tomar os lugares (sentados). E agredir.
(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)
Ouvido no elevador: «É um spot muito cozy. Aquilo é um mix de coisas.»
– Está quieta com a perna!
– Que perna?
– A tua perna! Estás a abanar o sofá.
– Eu não estou a abanar a perna!
– Está bem. Pronto. Não se fala mais nisso. Tenho o telemóvel a tocar. Estou?
– Hã!?
– Senti o quê? Qual tremor de terra? A sério? Olha, afinal não foi a tua sobrinha!!
– Dois!

Cada vez mais me acontece. Saio à rua e observo senhoras com falsos bebés ao colo, agarradas ao “rebento” com o maior desvelo.
Falsos por não serem bebés: são cães.
Lá vão elas passeio fora, com aparente receio de que o bicho lhes tombe para o chão.
Algumas, em vez de levarem o béu-béu nos braços, preferem transportá-lo em carrinhos de bebé. Vi há dias algo do género em estreia absoluta para mim: em vez de um rosto humano, arredondado e bochechudo, espreitava-me um focinho comprido e peludo debaixo da manta.
Permanecem por estudar com exactidão os efeitos devastadores do coronavírus em matéria comportamental. Mas há um ponto inquestionável: a relação das pessoas com o espaço urbano alterou-se muito desde a pandemia. Foi então que começaram a proliferar os estafetas – novo lúmpen citadino, oriundo do subcontinente indiano – devido ao pânico de muita gente perante o risco de contaminação em locais públicos: em vez de saírem, pagam para lhes levarem quase tudo à porta de casa.
Foi também então que cães e gatos reforçaram o seu estatuto como elementos fundamentais de companhia: ao contrário dos seres humanos, eles não eram transmissores de covid-19.
No contacto entre pessoas e animais, já vi de tudo um pouco e surpreendo-me com quase nada. Um colega de profissão – também meu bom amigo – levou certo dia uma atónita raposa para a redacção do jornal onde ambos trabalhávamos. Outro apresentou-nos um camaleão, seu animal doméstico preferido, orgulhosamente poisado no ombro do dono. No bairro onde vivo, passou por mim esbelta donzela levando um furão pela trela – rima e é verdade. Em Macau era frequente os velhotes passearem os passarinhos nas gaiolas, indiferentes ao olhar de espanto dos forasteiros recém-chegados da Europa. Eu próprio tive um periquito azul celeste que andava solto pela casa e se tornou atracção junto de quem nos visitava: era o Pavarotti, que ainda recordo com um rasto de nostalgia.
Mas confesso: faz-me confusão este recente hábito de transportar cães ao colo. Terão os animais perdido capacidade de locomoção também por efeito da pandemia?

Apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas. Espirituais, em regime de abundância. E materiais…
Ontem encontrei-me no Restelo com um casal de amigos, daqueles desde há quarenta anos. Nas despedidas levaram-me até ao carro e disparou ele “toma lá” um pacote precioso. No qual, entre outras pepitas, estava a tradução policopiada do “Defeating Communist Insurgency: Experiences from Malaya and Vietnam”, de Sir Robert Grainger Ker Thompson, um célebre especialista em contra-insurgência na Ásia, distribuída na Escola de Estudos Superiores da Força Aérea em 1969! E – com as páginas ainda por abrir!!! – os dois volumes de “África e o Comunismo”, de Alejandro Botzàris, publicados em 1959/1961 pela Junta de Investigações do Ultramar…
Ajoujado pelo júbilo recuei aos Olivais, na senda de companhia mimosa. Ao invés deparei-me com máscula camaradagem, a qual me presenteou com sacos bibliófilos. Nos quais constavam meia dúzia de obras de Jorge Amado que não estavam nas minhas estantes – cá em casa a “dissidência” do autor havia minorado o fervor leitor do Senhor meu pai, naquilo do consabido (e não tão errado…) “o Jorge Amado não é um grande escritor”, e a Senhora minha mãe era demasiado francófona para tais tropicalices; 25 volumes das Obras Escolhidas “do Camilo” – é assim que os propagandeados leitores de Camilo Castelo Branco se lhe referem -, para mim preciosos, pois aqui a prateleira do autor é composta por livros legados pelos bisavô e avô paternos, edições de Lello e Irmão, Lopes e Companhia, Civilização e assim, tudo lá do Porto, de finais de XIX e inícios de XX, alguns encadernados mas a maioria puídos, quase se desfazendo ao toque, efeitos dos ancestrais fervores leitores e da incúria do tempo… E uma outra preciosidade – se cá tenho a “Anna Karénina” traduzido do russo para a Relógio d’Água por António Pescada ( e nisto dá sempre para lembrar a atoarda de Mega Ferreira, que preferia as traduções de Tolstoi via francês) juntou-se-lhe agora o “Ana Karenine”, luxuosa edição da Estúdios Cor (75 escudos em 1959!!!!) traduzida por… José Saramago!
E várias outras curiosidades, entre as quais este quase célebre “Férias com Salazar”, pelo qual começarei a excursão – não que queira eu ter “Férias com Ventura”, afianço.
Em suma, e repito-me, apesar de mim-mesmo, pessoa a qual me escuso de adjectivar, os amigos continuam a cumular-me de dádivas…
Manhã cedo, assisto a uma cena de “luta de classes” no autocarro. Prova irrefutável de que Mariana Mortágua tem razão: Marx continua vivo.
Personagens: uma passageira angolana (preta) e um motorista brasileiro (branco) da Carris.
Ela, assim que entra no veículo, resmunga um protesto em voz bem audível.
Ele, sem paciência para reclamações, atira-lhe: «Vai para a tua terra!»
A passageira recém-chegada devolve-lhe o piropo sem um segundo de hesitação: «Vai tu para a tua!»
Está pujante, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa…

Lisboa, num supermercado. Fila grande em direcção à caixa. À minha frente, uma mulher fala em voz alta ao telemóvel. Demasiado alta. Com uma filha – deduzo pela “banda sonora”, muito mais monólogo do que conversa.
Entrou na fase da despedida. Mas, como tantas vezes acontece entre os portugueses, este adeus parece interminável.
– Tens comido? Ainda bem. Olha, espero ver-te no domingo. Sim. Tchau, tchau, tchau. Beijinhos, tchau.
A fila permanece imóvel. A mulher faz-se ouvir com crescente intensidade:
– Ah, espero que melhores da tua insónia. Bebe chá de tília! Sim, faz-te bem. Melhor do que um comprimido. Muito chazinho… Sim, de tília. TÍLIA. Não esqueças, ouve o que recomenda a tua mãe… Amargo? Nada amargo. Mas se achas amargo deita açúcar. Duas colheres, três colheres, vais vez que gostas. E faz-te bem. Relaxa, chama o sono.
Graças a Deus, a fila começa enfim a mover-se. Mas a mulher prossegue em tom mais alto, indiferente aos resmungos que já se escutam. Parece ter tomado Red Bull antes de rumar ao supermercado.
– É como eu te digo: precisas é de um bom chá de tília. Faz um bule de chá, bebe à vontade. Deita-lhe açúcar. Podes juntar mel. Eu gosto muito, sempre gostei… Sím, tília. TÍ-LI-A! Não percebeste?
Está quase a chegar a vez dela. Mas nada que a faça desligar o telemóvel. E o volume da voz aumenta ainda mais:
– Tchau, filha. Tchau, tchau… Ah… olha! em vez de tília, bebe antes camomila… Sim, camomila. Melhor ainda. Não é Camila, é camomila. CA-MO-MI-LA! Dá para dormir também. Acredita em mim. Muitos beijinhos, beijinhos, beijinhos.
Fechou a matraca. Parecia milagre ver aquelas compras enfim despejadas na passadeira junto à caixa. Por aquela altura, de chá de tília precisava eu. Tília ou camomila, tanto faz.