É caso para nos questionarmos se André Ventura andará a dormir.
Vox e Livre, a mesma luta
Paulo Sousa,
Uma manifestação de racismo, digamos, estrutural como esta, seria muito mais provável que tivesse origem no Chega do que no Livre. É certo que ambos os partidos militam no campeonato do populismo, mas depois de o PS nos ter tentado convencer que uma vaca podia voar (foi incrível como tantos papalvos engoliram, a sorrir, essa patranha) e de termos visto o Ventura de punho fechado a celebrar uma vitória da CGTP, temos de estar preparados para tudo. Um destes dias ainda veremos o Presidente da República fardado com as cores do Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, lá na frente, a dar a cara ao touro numa corrida à portuguesa no Campo Pequeno.
Calema é um duo musical – ouço-o agora, com algum fastio, pela primeira vez enquanto escrevo este postal – constituído por irmãos. A informação digital di-los santomenses e também com ascendência cabo-verdiana e portuguesa – aliás, esta última surge até um pouco implícita, pois um dos irmãos levou o nome de Fradique Mendes Ferreira…
Os Calema são cá imigrantes há cerca de duas décadas. Têm presença constante na televisão, e presumo que noutros órgãos de comunicação social. E vêm conseguindo um enorme sucesso popular – deles ouvi falar pela primeira vez quando no passado fizeram um espectáculo no Estádio da Luz com 55 mil espectadores.
É evidente que não irei aqui afiançar que os dois irmãos santomenses nunca terão sofrido, no nosso país, do desagrado alheio, oriundo de estuporados preconceitos raciais pois “que las hay las hay”… Mas aqui vivem há duas décadas, obtêm sucesso profissional e, espero, realização pessoal.
E também sei que há meios profissionais, em particular artísticos, onde essas cretinas barreiras raciais vão sendo menos presentes. O desporto é uma delas. A música é, desde há muito, uma outra. Há dias reli um delicioso livro Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal 1798-1802, no qual esse capelão da legação sueca deixa um belo retrato da época. Também ele homem do seu tempo, nada atreito aos negros [“ninguém é capaz de imaginar coisa mais horrenda que o contraste dos cabelos brancos sobre um rosto negro”], deixou algumas notas sobre os que ia encontrando, com algum desconforto, no nosso país.
Entre os quais… músicos: “à noite, depois do escuro, queimaram-se barricas de alcatrão, ao longo da praia de Setúbal, em honra de São Pedro, cuja solenidade se celebra no dia seguinte. Lançaram-se, também, foguetes e buscapés e nas varandas de muitas casas havia pequenos fogos de artifício. Os numerosos negros aqui residentes passam o dia em grupos diante das casas, dançando as suas danças características, que, sem serem bonitas, são, contudo, curiosas. Essas danças executam-se com o acompanhamento de uma música nacional muito feia. Com elas os negros realizam o duplo fim de mostrarem sua devoção e ganhar algum dinheiro.” (p. 59).
Talvez eu seja ingénuo, mas quero crer que os nossos valores predominantes não são já os do final de XVIII. E também presumo que aceitação dos negros na “Europa musical” se tenha sedimentado antes – e mais – do que noutras expressões profissionais devido à influência do jazz, como mostra o José Navarro de Andrade no seu belíssimo livro “Toque de Jazz”, que muito recomendo aos veraneantes… Ainda assim julgo que os “negros” – as pessoas insistem nesta categorização não só vetusta mas também radicalmente imbecil – não continuam por cá algemados à maldição de Cam.
O que implicará que, por implícitos obstáculos e explícitos malquereres que subsistam, haverá alguma abertura para a sua participação em actividades profissionais, e falo em particular das ligadas às expressões artísticas e intelectuais.
Há tempos passou-me pela frente uma edição da popular revista “Time Out”. Nela consta a divulgação laudatória de um editora exclusivamente dedicada aos negros, cuidadosamente ditos “pessoas negras” não fossem outros duvidar da “pessoalidade”.
Trata-se de uma empresa subordinada a uma ideologia exclusivista assente em critérios raciais – ainda que possam recorrer a serviços técnicos de “pessoas não negras” apenas publicam textos escritos e traduzidos por “pessoas negras”. E isto é aceite, divulgado e até louvado!
Entretanto, informa a empenhada responsável, anunciada como especialista em “leitura sensível” de português, ter produzido um “guia de estilo”, indexando os termos que a literatura (original ou traduzida) deve evitar. E através do qual também defende – publicamente – a racista regra da “one-drop”. Pois o tal “guia de estilo” “inclui termos a evitar, como a palavra “índio”, que deve ser substituída por “indígena”, “povos originários” ou “nativos”, ou “mulato”, “uma palavra extremamente ofensiva. Oferecemos como alternativa pessoa de ascendência mista, mestiça ou mesmo só pessoa negra” – ler bem este trecho, sff, que aqui está a maldita regra “one-drop” escarrapachada…
E tudo isto, ao que afiança, se deve a que Portugal “ainda tem muitas feridas abertas causadas pelo colonialismo e que, enquanto nação, nos recusamos a tratar e muitas vezes até a abordar”.
Ou seja, os Calema podem juntar-se à Catarina Furtado no horário nobre televisivo e encherem o estádio da Luz. Mas, pelos vistos, os escritores – ficcionistas, poetas, ensaístas – estão desconsiderados, tal e qual os acantonados e miseráveis negros músicos de Setúbal, tocando a sua “música nacional muito feia”. Em 1799.
E há gente que aplaude esta via, “intelectual” e “empresarial”. Que é puro racismo! É evidente que o apreço por esta miséria moral e intelectual é mero paternalismo. Essa doença senil do racismo.
(Este é uma parte da “gazeta” que deixo no meu “O Pimentel“, esta tendo levado o título “Um bimbo em Belém etc.”)

No final de uma manhã do mês passado recebi em casa a notícia da inesperada morte de um velho amigo. Acabrunhado fui até ao café das redondezas, na senda do abraço com alguns amigos comuns que por lá estivessem…
A ninguém encontrei. Fiquei ao balcão, de imperial na mão, em silêncio a resmungar a vida que segue tão preenchida pelas constantes mortes dos próximos (”habitua-te!”, dizem-me, como se isso valha para algo…). Na televisão (re)começou um noticioso. Notei a locutora, que abomino, aquela da longa cabeleira loura. O rodapé (que os grunhos chamam “oráculo”) indicava que a notícia tratava do julgamento do assassino de Henry Nowak, o rapaz inglês que no seu estertor gemeu “não consigo respirar”, colhendo a indiferença dos polícias que o rodeavam, preocupados com o queixume do seu verdugo, que invocava ter sofrido uma qualquer “microagressão” racista da sua vítima.
Ainda mais amargo do que me é costume murmurei mudo para a da cabeleira loura lá no ecrã: “não choras agora?, p… de m…”. Explico-me, esta é aquela que há seis anos incrementou a sua popularidade (os do “oráculo” chamam-lhe “ratings”) por ter chorado ao noticiar a morte do norte-americano Floyd, que gemeu “não consigo respirar” sob o inclemente joelho do polícia que o imobilizara durante sete minutos.
Como então escrevi, surpreendeu-me que a sensível da cabeleira loura não tivesse também chorado ao anunciar a morte, nessa mesma época, de Ihor Homeniuk, aquele ucraniano assassinado pela polícia fronteiriça portuguesa, após horas de sevícias em pleno aeroporto da Portela – ao qual agora alguns dão o nome do germanófilo, e ex-candidato a “generalíssimo” português, Delgado. Também me surpreendera – até porque a da cabeleira loura é oriunda da Ilha, assim porventura mais atenta às “minudências” de Moçambique – que não tivesse chorado devido à morte do moçambicano Abdul Razac. Assassinado nessa mesma época pela polícia da Beira, após horas de sevícias sofridas num esquadra policial, para a qual fora arrastado devido a ter protestado uma acção de alguns agentes: decorria um confinamento devido ao Covid, os polícias interromperam um jogo de futebol de rua, dispersaram a rapaziada, confiscaram a bola. E puseram-se a jogar, o que conduziu Razac ao (imprudente) protesto que lhe custou a vida.
Ontem, entre tantas evocações de Luís Represas (até a minha), no FB notei várias referências a um assassinato em Xinavane, no sul de Moçambique. Os filmes visíveis são brutais – e por isso não os “partilho” (quem tiver curiosidade, até mórbida, bastar-lhe-é fazer a busca “Xinavane” e logo encontrará). Uma grande operação policial, com imensos agentes que circundaram um restaurante onde estava um procurado criminoso (dito raptor, violador e homicida). Alguns agentes entraram na sala, quatro ou cinco apanharam-no e de imediato ele foi abatido com vários tiros, os polícias sairam deixando o cadáver, seu sangue esvaindo-se. Tudo isto filmado pelos telemóveis da clientela, tamanha a sensação de impunidade que os agentes policiais têm – a qual, como é óbvio, advém da prática comum.
Não vou elaborar sobre o que um episódio destes pode indiciar sobre a realidade moçambicana. Já o escrevi, deixei de perorar sobre a actualidade daquele país – nada ganho com isso e não tenho paciência para aturar os fascistas austrais que me vinham chatear sobre o assunto.
Mas é assunto do meu país que a televisiva cabeleira loura não venha chorar ao acompanhar a transmissão daqueles breves filmes, decertos apetitosos “Alerta …” para animar as “notícias”. Pois para esta gente, das cabeleiras louras aos calvos, tudo o que não corresponda ao molde “branco supremacista” (gringo) vs “racializado negro” (gringo) não convoca choraminguices.
“Que se lixe Xinavane”!, dizem. E rematam, tão progressistas e solidários se dizem, pensando “é entre “eles””!
De facto, mais vale a mira técnica do que esta gente.
Ontem deixei este postal sobre a polémica relativa ao “Odisseia” de Nolan, devida ao realizador ter escolhido uma actriz negra para representar o arquétipo Helena de Tróia. Lá me explico nisto de considerar isso perfeitamente normal, mais do que aceitável – até podiam ser todos negros, qual o problema? Pois não só Helena de Tróia não existiu como (qualquer) representação não exige similitudes de aparência de um realismo mimético (”Ran” de Kurosawa é o “Rei Lear” de Shakespeare e a rapaziada pró-CHEGA não anda para aí aos gritos com isso). Ou seja, Nolan tem toda a legitimidade para escolher participantes para o filme que não correspondam à tradicional imagem que temos sobre a Antiguidade Clássica, Helénica. E os protestos não têm cabimento.
Um amigo meu leu o postal. E logo me enviou um curioso texto. O qual apresenta um facto interessante sobre o filme. O cão escolhido para representar Argos, o fiel companheiro de Ulisses, aquele que reconhece o envelhecido globe-trotter aquando este aporta a Ítaca, é um podengo português. Escolhido porque esta raça (sim, para os cães “raça” é um conceito com substância real, diferentemente do que acontece sobre os homens, no qual não tem qualquer fundamentação biológica. Nem cultural..) já existia na Antiguidade homérica e naquela região.
Atente-se bem no paradoxo: para representar os cães há um cuidadoso cuidado “realista”. Mas para os homens até se faz gala em recusá-lo. Mais depressa se apanha um mariola demagogo do que um portador de deficiência crural…
Trump tinha quatro marionetas loiras. Agora, só tem duas. E, ou muito me engano, ou elas continuarão a diminuir.
As marionetas de Trump só fazem e dizem o que ele lhes comanda. Não significa, porém, que estejam nos seus cargos contrariadas. Por alguma razão, veneram Trump, buscam o seu elogio e dá-lhes um gozo enorme serem desagradáveis, na maneira como tratam os seus interlocutores.

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Mas Pam Bondi falhou. Mostrou bastante nervosismo, quando questionada pela Comissão de Justiça da Câmara, a 11 de Fevereiro passado. Várias vezes lhe faltaram os argumentos, socorrendo-se do chavão ser Trump o “melhor Presidente que os Estados Unidos já tiveram”. Além disso, cometeu uma gaffe monumental, ao segurar os seus papéis de maneira a ser possível ler o conteúdo. Numa das páginas, tinha o “Histórico de Busca de Jayapal Pramila”, com os documentos do caso Epstein que foram revistos por esta congressista democrata. E vários congressistas deste partido exigiram, no dia seguinte, a investigação do que consideram ser “espionagem” pelo governo das suas pesquisas do caso Epstein.
Na altura, Trump defendeu Pam Bondi. Surpreendeu-me, confesso. E pensei que o presidente tivesse decidido dar-lhe uma segunda oportunidade, na próxima sessão, a acontecer neste mês de Abril. Mas não. Ele apenas quis calar as vozes críticas, na altura. Trump tinha já o seu plano delineado e, aproveitando a semana santa, incluiu-a numa série de demissões.
Karoline Leavitt parece estar de pedra e cal. É exímia, tanto a desconversar, como a insultar. Bem ao gosto de Trump. É uma espécie de “Rita Matias à americana”, se bem que, no caso luso, se trate de uma política calculista, pronta a atacar o poder no seu partido, mal Ventura deixe de servir. Karoline Leavitt não tem aspirações dessas. Adora servir o seu ídolo.
A terceira loira, neste grupo de quatro, é a doce pastora evangélica Paula White-Cain, que elevou o pedófilo Trump ao nível de Cristo, num almoço de Páscoa. Bem, ela só é doce aparentemente, pois, na verdade, é uma fundamentalista religiosa, capaz de manipular tão bem, ou ainda melhor, do que qualquer aiatola. Mas depois da comparação exagerada, levando a Casa Branca a apagar o vídeo do seu discurso, não sei… Irá Trump deixá-la cair, apesar de ser sua colaboradora há vários anos? Veremos!
E quem é a quarta loira? Bem, a quarta loira, na verdade, não existe. Ou melhor, existia, mas foi apagada. Literalmente! Pelo menos, já não a encontro no Instagram, onde tinha mais de um milhão de seguidores.

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Chamava-se Jessica Foster, era militar e influenciadora, “a apoteose das fantasias do movimento MAGA, tudo concentrado num único canal, mas é obviamente IA: não há rasto que leve à origem das imagens, não há um historial sobre ela e há falhas visíveis”, afirmou Sam Gregory, director executivo da Witness — uma organização que investiga vídeos e deepfakes.

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Um produto da IA, sem estar assinalado como tal, enganando os seus seguidores, que acreditavam piamente na sua existência. Surgia sempre de uniforme e junto de políticos conhecidos.
E para que servem estas loiras?
Primeiro, servem para disfarçar a misoginia de Trump. O presidente machista pode assim mostrar que põe mulheres em cargos de responsabilidade, enquanto as controla como marionetas. E ai delas que o desiludam (como já vimos).
Segundo, elas têm de ser bonitas e loiras, a fim de captarem um determinado público: homens conservadores e patriotas, o núcleo duro dos votantes de Trump.

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Terceiro, cumprem o racismo norte-americano. Trump escolhe loiras também por serem o melhor garante de genes exclusivamente brancos. Há racismo em todo o lado, é certo. Mas a mentalidade norte-americana, no que à cor da pele diz respeito, difere da europeia.
Em 2020, Antonio Banderas foi nomeado para um Óscar, pela sua prestação no filme Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. Quando se soube da sua nomeação, houve uma polémica, na imprensa norte-americana, sobre se o nomeado era, ou não, uma “pessoa de cor”! O próprio Antonio Banderas disse, numa entrevista, que li há alguns anos (e não sei onde) que, quando chegou a Hollywood, lhe disseram para não alimentar grandes esperanças porque… não era branco! Era um “brown man”! Por acaso, ele tornou a aflorar o assunto, há dias, numa entrevista ao The Times.

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Isto quer dizer que também um actor português, em Hollywood, é um “brown man”. Imagino o que terão dito de Joaquim de Almeida, que é tão moreno como o Banderas. O “brown man” Ventura sabe disto? E nunca reclamou?
A explicação desta senhora, embora bem intencionada, roça o patético. Mas que fique claro: é-me indiferente a cor de pele de cada um, ou uma. Quis apenas dar um exemplo do racismo latente nos EUA e da sua ignorância em relação a outras nações e seus povos.
Se já fosse possível, não duvido que Trump poria também criações da IA em todas as funções, nas quais ele pensa poderem ser exercidas por mulheres. As humanas podem falhar.
Enfim, sempre as pode substituir por homens, como o amazing Todd Blanche, nas palavras da própria Pam Bondi.
Pergunto-me: se eu tivesse tido filhos, eles seriam “portugueses de sangue” na óptica de Venturas & Co.?

A fotografia é da manifestação de ontem promovida “contra o racismo”, e que teve bastante afluência. A imagem colhida é significante: à frente vem um – muito provavelmente português oriundo de Portugal – decano cabeludo, comunista. Como tal um defensor de regimes genocidas, sociocidas, ditatoriais, sobreexploratórios dos trabalhadores, repressores dos direitos individuais e colectivos, perseguidores de comunidades estrangeiras e imigrantes. A sua inserção nesta acção alheia ao PCP aventa que o proto-ancião pertence ou simpatiza ao arquipélago de grupelhos m-l, tornando-o pior ainda, um abjecto hipócrita que passou a sua já longa vida dizendo-se fiel a princípios exactamente inversos ao que defende. Se é ele uma contradição visual, um careca cabeludo, não o é intelectualmente, mas apenas um aldrabão ideológico. Tal como o são os seus correligionários – eu recordo o que passou despercebido, a actual coordenadora do BE atreveu-se a defender a teoria imperialista de Hitler na televisão e depois foi eleita ao posto de chefe da coligação de grupelhos, demonstrando o grau de abjecção dessa gente.
Atrás dele vêm inúmeros manifestantes cujos fenotipos indiciam serem estrangeiros ou ex-estrangeiros, provenientes do subcontinente indiano. São imigrantes, quase de certeza explorados pelos seus empregadores – alguns portugueses, muitos estrangeiros, até seus compatriotas. Estão ali mobilizados por comunistas portugueses, mais ou menos aburguesados – esta peça da Lusa é antológica, entrevistando o antigo candidato do MDP/CDE (um artista que agora se diz nada advindo do marxismo) Ricardo Sá Fernandes, que se lamenta de ter chegado atrasado à manifestação por ter “estado num almoço que acabou tarde“. Este tipo de gente anda há tanto tempo na berlinda que nem tem noção do seu ridículo.
E esse disparatado “manifestante” representa também o sentir dos feixes de “classe média” lisboeta que engrossaram a manifestação. Para esta gente – alguma viverá em condomínios, a maioria nas zonas “gentrificadas” – as preocupações com a segurança são coisa da “extrema-direita” e dos populistas do “Correio da Manhã”. São contra a polícia – lembra-lhes “a PIDE” mesmo que nunca a tenham visto e muito menos enfrentado. E são contra a existência de países, mesmo que não o percebam – só isso pode justificar que venham ladeando tipos que dizem “ninguém é ilegal“.
Os mobilizados de origem estrangeira estão ali “contra o racismo”, irados contra a polícia num processo político iniciado pela célebre rusga da rua do Benformoso. São explorados laboralmente? Por quem? São perseguidos pela legislação portuguesa? Por quais leis e suas interpretações? Pela polícia? Quantas detenções ilegais, quantos espancamentos, quantas violações de direitos, quantos atentados às suas propriedades cometeram os polícias?
Os polícias fizeram uma rusga na tal rua e encostaram os circunscritos à parede? Espancaram alguém, detiveram alguém ilegalmente, destrataram alguém?
1. No fim-de-semana passado aqui nos Olivais, na praça da Cidade do Luso, defronte à Escola Fernando Pessoa e aos dois restaurantes mais populares do bairro, houve uma rusga. Foram ali detidos cerca de 15 indivíduos – oriundos de Portugal, fregueses consabidos. Alguns algemados. Conta quem viu – entre risos – que um deles, personagem conhecida destas redondezas desde os “velhos tempos” da nossa juventude – e sempre arisco à estrita legalidade e às preocupações sanitárias -, tanto protestou que lá foi … desalgemado. Vamos manifestar-nos aqui no bairro?
2. Há algum tempo um polícia matou um cidadão na Cova da Moura. Um drama, irreparável. E sem qualquer justificação. Seguiram-se “desacatos” (como lhes chamou alguma imprensa) durante dias, com destruição de propriedade pública e, acima de tudo, privada, em protestos contra a polícia devido ao seu racismo generalizado – a vítima era negro, ou mulato (“afrodescendente” no trôpego linguajar de agora). No fim-de-semana seguinte houve uma manifestação em Lisboa, congregando algumas centenas de pessoas, na sua maioria moçambicanos, na sua esmagadora maioria negros – provocada pela situação política no seu país. A reportagem televisiva que vi encontrou-os no final da Av. Fontes Pereira de Melo, entrando no Marquês. Naquele sábado vespertino vinham enquadrados pela polícia – o trânsito automóvel não tinha sido cortado, apenas gerido segundo a passagem da manifestação. À entrada do Marquês os manifestantes entoaram a palavra de ordem “Isto é que é polícia!!!“. Nem um jornalista – nem um – pegou no assunto, que não dá jeito para o chinfrim dos esquerdalhos de “classe média”.
Ora se alguém quiser ser um abjecto demagogo – como o tal Sá Fernandes, não o Zé mas o mano, ou as Mortáguas ou os Tavares, mais o pateta cabeludo careca da fotografia – poderá dizer “estão a ver, os pretinhos moçambicanos gostam da nossa magnífica polícia”. Ou então pode ter a decência de contextualizar os fenómenos (no caso dos manifestantes moçambicanos era uma óbvia invectiva, comparativa, contra a feroz polícia do seu país, contrastante com a – efectiva – urbanidade da nossa).
3. Nem de propósito hoje, no dia seguinte à manifestação, na tal rua do Benformoso – onde parece que a polícia não deve entrar – “dois grupos de estrangeiros” (franceses gentrificadores?, norte-americanos em busca da Comporta?, espanhóis turistas?) envolvem-se em pleno dia numa rixa que originou sete feridos, causadas por “armas brancas” (naifas). Os tugas também fazem merda? Claro. É por isso que há rusgas…
Quanto à “classe média” lisboeta que vai às manifestações dos “bem-pensantes”, nem um deles se interrogará sobre si-mesmo, sobre a imbecilidade militante que prossegue. E descansadamente, neste domingo, seguirão ao “El Corte Inglés” (ou, alguns, ao São Jorge…). Pois lá, ao menos – e só aqui entre nós – não há imigrantes…

1. Fervilha o Whatsapp com o reenvio desta recomendação exarada pela Assembleia da República para que se alterem os processos de recrutamento de agentes da PSP e da GNR: mais pano para mangas para aqueles que “dizem o que é preciso ser dito“, e que “ninguém tem coragem para dizer“…
Esta (de facto) propaganda parlamentar articular-se-á com a polémica em curso sobre o putativo aumento da criminalidade. É certo que Portugal é um país muito seguro. Mas muitos reclamam sobre a degenerescência actual dessa situação. Os números parecem indicar isso, ainda que estas estatísticas (como tantas outras) sejam sempre discutíveis, e discutidas… O governo, e outros, negam essa realidade, situando-a apenas na crescente sensação de insegurança subjectiva.
2. Não nego a hipótese da actual decadência da efectiva segurança pública (ainda que aqui nos Olivais tudo decorra na paz do Senhor…). Mas talvez muito deste debate público se origine na tal sensação de “insegurança subjectiva”. Não creio que esta se deva à “imprensa”, como muitos dizem – pois a atracção pelo tópico “criminalidade” é algo antigo na comunicação social. Porventura será alimentada pelas recentes (e legítimas) demonstrações de incómodo laboral efectuadas pelas polícias. E pelo eco (legítimo, ainda que um pouco “aproveitador”) que o CHEGA foi fazendo disso.
Outro factor contribuirá para a tal “insegurança subjectiva”, velho como o mundo, e nada nosso monopólio. Pois o recente surto imigratório faz medrar um desconforto face ao estrangeiro mais excêntrico, aos aportados menos parecidos com “turistas”. É isso um erro de percepção: muita gente se arrepia, até cai num automático receio ali no metro ao ombrear com um uberista sikh ou trolha senegalês ou, já no restaurante, face a uma aparente vivandeira brasileira. Mas é uma reacção alienada – pois desconhecedora das verdadeiras condições de vida. Dado que as pessoas não se arrepiam aquando face a um qualquer facebuquista ou administrador não-executivo socialista, ou, pior ainda (“The horror, The horror“), se diante de um Medina ou uma Temido (nesta até votam em massa), gentes muito mais perigosas para a sua segurança pessoal, física e económica, actual e futura.
Também eu vou assim: há para aí um ano fui jantar com um bloguista do Delito de Opinião numa simpática esplanada em Alvalade. Cheguei antes e notei que ali estava Pedro Nuno Santos, então proto-chefe do PS. Resmunguei uns impropérios mudos e hesitei em telefonar ao amigo para mudarmos de sítio mas não o fiz, ele chegou e lá comemos, com gosto. Mas se no restaurante estivesse uma larga mesa advinda do “Chelas profundo”, em obrigatório alarido, eu não teria hesitado no desvio comensal. Mesmo sabendo ser Santos muito mais perigoso para o parco futuro que me resta do que qualquer xunga vizinha…
3. Enfim, seja lá como for, é plausível a necessidade da melhoria nos formatos da acção policial, como até indicia a “recomendação” parlamentar. Não sabia o que é o “policiamento comunitário” – só conhecia a realidade em Moçambique, e presumi (acertadamente) que fosse algo diferente. Fui ler um texto da antropóloga Susana Durão. Do qual retirei tratar-se de uma dupla acepção: uma actuação policial mais interactiva com as populações; uma participação dos cidadãos no esforço de policiamento, sua planificação e enquadramento, talvez uma espécie de quase “cidadão-agente”. O texto é de 2012, deixa entender que a via então em curso se centrava na acção dos agentes policiais. E vi ainda, muito em diagonal, o livro “Policiamento de Proximidade” do sociólogo Manuel Lisboa (que em tempos conheci quando cruzou Maputo) e Ana Lúcia Teixeira, também já com uma década. Enfim, de ambos os textos retirei que por cá se trata de um método de policiamento mais aproximado dos cidadãos, mais atento às preocupações destes. De certa forma é o “mais polícia na rua”, mais segurança subjectiva e, porventura, objectiva. Algo que todos defenderão, tantos os que clamam a “desgraça” securitária actual como os que desta descrêem.
4. Assim o que esta “recomendação” parlamentar convoca não é o questionamento sobre a justeza do “policiamento comunitário”. Mas a intervenção demonstra um pensamento pobre, e comprova ser já este pacificamente dominante, pois maioritário entre os partidos. Surgindo como se ungido pelas aparentes “boas causas” poucos criticam este rumo, esta crescente via do Estado em seccionar a população, postulando categorias sociais, instaurando-as nos censos e nas iniciativas estatais, promovendo quotas discriminatórias – agora até a elas apelando no recrutamento de agentes policiais. Tribalizando o país. Os partidos de esquerda anuem, claro – e os comunistas, principalmente os não-brejnevistas, pois esses mais atreitos ao “identitarismo”, têm sempre a expectativa (utopia) de transformarem essas categorias-em-si em categorias-para-si (“comunidades-em-si” em “comunidades-para-si”), essa velha aspiração marxista de incrementar o conflito social para instaurar uma nova era. Também o PSD aprova – e nem supreendente é isso, consabido o rusticismo desse partido. Do póstumo CDS resta o jazigo. E surpreende-me nada ler sobre o que a IL diz disto (mas também, se calhar, não deveria esperar muito). E sobra o que sobra…
Esta tétrica mediocridade política portuguesa demonstra-se nos pormenores. Note-se na formulação da recomendação. Não apenas a utilização do termo “comunidades” – por mais habitual que seja hoje em dia, ainda custa não ver alguém dizê-lo impregnado do velho evolucionismo, da crença da passagem de grupos de solidariedade mecânica (rigorosa comunhão) para solidariedade orgânica (de complementariedade diversificada), da ascensão histórica de “comunidades” (simples) a “sociedades” (complexas). Entenda-se bem, “comunidades” é o actual sinónimo ideológico da velha “tribo”, do cá esconso “clã”, da racista “raça”, do mais recente ademane “etnia”. A crença, e a proposta, é que cada membro de cada uma dessa(s) “identidade(s)” tem características comuns, anseios comuns e “precisa” de políticas estatais específicas para o seu “grupo”. Fazer ascender esta mediocridade à assinatura da 2ª figura do Estado apenas me convoca o desprezo.
Mas mais ainda, veja-se como escreve a AR e assina Aguiar Branco: “comunidades específicas” “incluindo” “pessoas LGBT+” – de que universo se está a falar, se nestes termos e se numa proposta destas? E “comunidades” (…) “migrantes” – quem as constitui? Açorianos vindos para o continente, os últimos alentejanos chegados às cercanias do Pinhal Novo? Ou seja, hipocritamente, a AR e o seu presidente Aguiar Branco querem elidir que falam de imigrantes. E há também as “comunidades” (…) “comunidades ciganas“. Votámos em quem escreve assim?
5. Para enfrentar esta tralha não tenho saberes suficientes nem talento particular (“engenho e arte”, para citar o poeta que o agora colunista do “Público” esqueceu quando era ministro da Cultura). Apenas consigo resmungar, para isso convocando alguns sublinhados meus, leituras antigas. Há umas décadas Hannah Arendt bombardeou correctamente a boa consciência europeia, anunciando-lhe que a democracia e o universalismo de cidadania aposto na defesa dos direitos humanos, inexistia nas situações coloniais. Isso deu azo a críticas a esse universalismo – “republicano”, diz-se em contextos mais francófonos. Depois outros apupos vieram à hipocrisia universalista dos “direitos humanos”. Há quem os ancore num anticolonialismo. Esquecendo (ou fazendo por esquecer) que a crítica à defesa dos “direitos humanos”, e seu concomitante universalismo, engrandeceu fundamentalmente por ter sido uma arma das ditaduras brejnevistas, grosso modo desde o Acordo de Helsínquia – já após o colonialismo, frise-se -, uma forma discursiva do comunismo combater as democracias.
O que se vive agora é o embate entre dois modelos de organização social, sempre vividos de forma algo ambígua. As sociedades ancoradas na laicidade, exemplificadas pela república francesa. Feita de cidadãos individuais – não que isso implique (como dizem os falsários detractores) que os cidadãos não tenham outras pertenças, mas sim que o Estado os considera por igual, sem mediadores, sem grupos intermédios. E as sociedades ancoradas no secularismo, mais ligadas ao mundo anglo-saxónico, nas quais os Estados reconhecem categorias sociais intermédias de pertença e através dessas diferenciam os cidadãos, cujo maior exemplo actual radica nos EUA.
Por cá os defensores desta última opção – normalmente agentes ambicionando estabelecer-se como “intelectuais orgânicos” (e remunerados) dessas projectadas “comunidades-em-si” – criticam violentamente a falsidade e a injustiça do modelo universalista (“francês”, para facilitar). E encontram – mesmo sendo de esquerdas radicais – virtudes no modelo particularista (“secular”, “americano”), uma contradição ideológica absurda, na qual não reparam nem quando saem à rua gritando contra as desgraças americanas…
6. “Lá fora” já alguns falaram sobre isto. Restrinjo-me a alguns dos tais meus sublinhados. Por exemplo, Zizek escreveu em 2004 (usando o termo “multiculturalismo” que desde então foi acriticamente criticado pelos “sábios” da moda): “O multiculturalismo é (…) a forma ideal deste capitalismo planetário, a atitude que, de uma espécie de posição global vazia, trata cada cultura local à maneira do colono que lida com uma população colonizada – como “indígenas” cujos costumes devem ser cautelosamente estudados e “respeitados” (…) é uma forma de racismo denegada, invertida, auto-referencial, um “racismo com distância”, respeita a identidade do Outro, concebendo-o como uma comunidade “autêntica” fechada sobre si mesma...” (Elogio da Intolerância, Relógio d’Água, 78). O antropólogo francês Jean-Loup Amselle – que não é um lepenista – disse “En participant a l’élaboration d’un modéle d’une France multiculturelle, les partisans comme les adversaires du métissage ont en commun de vouloir faire exister ces groupes en tant que tels, faisant de leur nomination une partie intégrante de leur devenir (…) La multiplication par l’État des ethnies au sein de la société française ne résoudra aucunement le racisme, elle metra au contraire en relief les tares du modèle français d’assimilation qui, on l’a vu, repose sur une base raciologique. Car ce n’est pas le modèle républicain qui s’oppose à la résolution du racisme dans notre pays, ce sont les insuffisances mêmes, son incapacité à être républicain jusqu’au bout, c’est-à-dire universel, qui l’empêchent d’exercer pleinement son devoir de hospitalité et équité.” (Lógiques Métisses, Payot, 1990, x-xi). E “Mais étrangement (…) la place de l’universalisme n’est occupée aujourd’hui que par une puissance déclinante – la France républicaine – de sorte que cette dernière a toutes les caractéristiques d’une curiosité culturelle alors que l’Empire multiculturel américain peut se présenter sous les traits d’une puissance universaliste. C’est en effet au nome de l’universalisation da la différence et en tant que strucutures d’accueil de toutes les singularités qu’une puissance globale comme les États-Unis peut faire valoir sa legitimité et prétendre au leadership mondial.” (L’Occident Décroché, Stock, 2008, 36-37). Etc.
Em Portugal, por cá? Os políticos pensam e escrevem como se vê. Na imprensa os colunistas preenchem …. colunas. Nas ciências sociais há os… socialistas (e maçónicos) e ainda os bloquistas. E os que esperam, anseiam, pelos subsídios. Como ser incómodo? E nisso vai plácida esta deriva, este “comboio descendente”, “todos à gargalhada”, em busca da etnia ou raça de cada um…
Adenda: para os não francófonos deixo tradução dos excertos (não venham os habituais resmungões protestar com a sua qualidade, pois são via Deep L.):
1. Ao participarem na elaboração de um modelo de França multicultural, os partidários e os opositores da mestiçagem têm em comum o desejo de fazer existir estes grupos enquanto tais, fazendo da sua nomeação parte integrante do seu futuro (…) A multiplicação pelo Estado dos grupos étnicos no seio da sociedade francesa não resolverá de modo algum o racismo; pelo contrário, porá em evidência os defeitos do modelo francês de assimilação que, como vimos, assenta numa base racial. Com efeito, não é o modelo republicano que impede a resolução do racismo no nosso país; são as suas insuficiências, a sua incapacidade de ser republicano até ao fim, isto é, universal, que o impedem de exercer plenamente o seu dever de hospitalidade e de equidade.
2. Mas, estranhamente (…), o lugar do universalismo é hoje ocupado apenas por uma potência em declínio – a França republicana -, pelo que esta última tem todas as caraterísticas de uma curiosidade cultural, enquanto o império multicultural americano pode apresentar-se sob a forma de uma potência universalista. De facto, é em nome da universalização da diferença, e como estruturas que acolhem todas as singularidades, que uma potência global como os Estados Unidos pode afirmar a sua legitimidade e reivindicar a liderança mundial.

Ficou o país estupefacto com o desbragado triplo assassinato da semana passada, ocorrido na Penha de França. Bebo aqui nos Olivais um café com um “sobrinho” crescido em Bruxelas, o qual me diz ser este tipo de situações agora por lá recorrente, em particular em Anderlecht, devido à migração acontecida de grupos de “empreendedores” ligados ao comércio de drogas químicas, diz-se que ali advindos de Marselha. Não que associássemos este nosso infausto caso a algo similar, apenas referia ele, agora cá recém-chegado, a diferença entre o escândalo aqui sentido e a já rotineira forma de apreensão da violência de rua que passou a vigorar lá na Bélgica.
No dia seguinte na mesma esplanada foram-se agregando vizinhos, gastando um pouco do outonal sábado. Conversas muito variadas, e animadas. Nisso um dos presentes aflora como o mariola Ventura abocanhou politicamente o caso da Penha da França, não só agitando a sua “besta negra” cigana como até aventando – em cúmulo de despudor – a dúvida sobre o carácter político dos assassinatos, como se fossem um atentado avesso aos seus simpatizantes.
E a conversa segue, abordando as formas elípticas como a comunicação social e os sempre pressurosos “populares” convocados a prestarem declarações ao microfone foram referindo o assassino, seus acompanhantes e seu meio de origem. Ou seja, a elisão radical do termo “cigano” entre a locução dominante e a opção por formulações alusivas. Eu pouco seguira os noticiários mas reparara no tópico da pertença do criminoso a “famílias numerosas”, a utilização de uma estereótipo de parentesco (e co-residência) – quiçá sustentado por algum empiria, não o posso afiançar dado que nada tenho lido sobre dimensões actuais de parentelas e residências em Portugal. Mas é notório que há um expurgar pelos estratos “letrados”, e pelo o “povo” que vai à tv, da alusão pública a “ciganos”, ao invés do seu brandir pelos sectores mais direitistas. E, também, da sua presença nos discursos globais… se, e quando, em privado. E tudo isto, esta retórica higienizada, alimenta o tal mariola, o tipo “que diz as verdades”, “aquilo que mais ninguém tem coragem de dizer”…
Ali à mesa, no passo seguinte, uma senhora vizinha, educada e culta, diz asisadamente que concorda com essa abstenção da referência identitária, pois não se devem alimentar as generalizações abusivas. No que eu concordo totalmente, pois um desmando, um traço comportamental, uma característica psicológica de um qualquer indivíduo não deve ser atribuído a outros que com ele partilhem alguns traços comuns socioculturais e, ainda menos, fenotípicos (os genotípicos nem para aqui são chamados). Ou seja, implicitava a minha vizinha – tal como os múltiplos locutores ao longo dos últimos dias – que dizer ser este assassino um “cigano” é alimentar o preconceito, fomentar generalizações abusivas. Aplaudo. Até porque esta postura é o substrato de uma concepção liberal (que não associológica), o primado da autonomia individual – algo que é bem diferente de outras perspectivas dominantes, como a (demo-)cristã, as marxistas ou os agora muito viçosos secularismos “identitaristas” de extracção marxista, que presumem características comuns aos pertencentes a grupos socioculturais e por isso convocam políticas e posturas peculiares para cada um deles.
E sigo na verve. Recordando que há escassas semanas nas cercanias de Castelo de Vide um indivíduo sequestrou e disparou sobre duas mulheres. A imprensa logo o intitulou “espanhol” – identidade com a qual temos relações históricas complexas. Talvez não tanto naquela velha raia. Mas sim país afora. Ainda resmungamos os “Filipes”, apupamos o injustiçado defenestrado Miguel de Vasconcelos, tal como ainda sorrimos o “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Mas, muito mais importante, germina o sentir anti-turismo, resmunga-se o quase monopólio espanhol do querido olival. E não só o nosso ministro da Defesa veio agora agitar a “chaga” (para ele, pobre homem, sintoma que é da múmia mental CDS) de Olivença. E, para irmos à política, só um país politicamente incompetente é que continua com mesuras aos Borbón, ao PSOE ou ao VOX, face a décadas de desrespeito fluvial espanhol. Ou seja, não falta matéria-prima, histórica e actual, para acicatar o anti-espanholismo. Mas isso não impede que a imprensa escarrapache nos cabeçalhos ser “espanhol” o cadastrado sequestrador, e intentado violador e assassino.
Mais perto dos Olivais do que a Penha de França é Moscavide. E também por isso logo ali à mesa recordei um outro caso. Há quatro anos um indivíduo lá foi assassinado, uma horrível conclusão de uma questiúncula entre vizinhos. O energúmeno assassino expressou, antes e depois, a sua aversão aos negros – o assassinado, o actor Bruno Candé, era-o… O miserável, agora preso, é um antigo combatente na guerra colonial. Foi um rastilho. De imediato organizações e vária imprensa usaram o caso para afirmar um “racismo sistémico” português – ou seja, de um crime praticado por um indivíduo se generalizou predisposições e pressupostos para a globalidade dos seus compatriotas, dos que têm a sua “identidade”.
Logo na época notei pouco ter significado para os “bem-pensantes” que, logo no dia seguinte ao assassinato, tivesse o Sport Lisboa e Olivais – um clube popular, pobre, histórico pois 5ª filial do SLB, recordista de anos seguidos na velha III divisão de futebol – colocado na sua página um dorido “Morreu um dos nossos” – Candé seria associado, terá sido praticante desportivo. Denotativo de inclusão, inserção, até “sistémica” se se quiser… Mas nada disso contou (nem conta) nos discursos demagógicos. Como também não contavam (nem contam) perguntas de cariz mais sociológico: houve centenas de milhares de portugueses mobilizados para as guerras em África. (E, também, centenas de milhares de portugueses foram “retornados”). Foi afirmado aquele assassinato como um caso exemplar do “racismo sistémico” – entenda-se, universalizado, ainda que vivido de diferentes formas -, dos portugueses, e dito ser esse extremado entre antigos combatentes, estes também aventados como universo ainda dotado de armamento. Face a essa verdadeira hiper-generalização seria normal questionar, investigar, que formas organizadas ou avulsas houve entre essa gigantesca amálgama de antigos combatentes (e de antigos colonos) de perseguição armada, violenta, física ou moral, sobre os africanos ou seus descendentes que residiam ou vieram a residir em Portugal neste último meio século. Algo que sedimentasse aquela extrapolação do assassinato que o energúmeno cometera por causa de uma querela encetada devido a um cão… Perguntar isso para quê, pois como é possível duvidar que se um “português” assassina um “negro” todos nós “portugueses” somos racistas?
A conversa morreu ali, falta de empenho alheio, atitude totalmente legítima (“agora tenho de aturar este tipo?“, terá pensado a respeitável vizinha). Mais tarde, já em casa, vejo no Facebook um outro vizinho a partilhar um sentido texto de um jornalista sobre o crime da Penha da França. Nele se aventa que o assassino sofrerá de uma “adição”, um desequilíbrio contextualizador. Sorrio, triste. Também eu ao saber do acontecido pensei nisso, de imediato imaginei um “Scarface”, histriónico descompensado a la Al Pacino… Mas é importante identificar a ideologia que subjaz esta nova língua, e este anglicismo dessa é típico, de um sociologês (esse que entende que o contexto social causa e, quantas vezes, justifica os actos individuais, fazendo regredir a autonomia individual aos mínimos … quase biológicos).
Não vou explicar, prefiro ilustrar: imagine-se que eu deixo de fumar. Ao 5.º dia este meu vizinho Quim – também ele olivalense – vem ter comigo à esplanada. Depara-se comigo a protestar com o dono da casa porque a minha chávena de café não está bem quente!!! Dirá logo ele, o Quim, “calma, estás irritadiço devido ao teu vício do tabaco” e até se rirá, acalentando-me no meu esforço sanitário. Entretanto, ali mesmo, tomamos conhecimento de que aqui perto um qualquer “agarrado” deu uma pedrada num velhote para lhe roubar a carteira – coisa que hoje em dia no bairro já inexiste, felizmente, gentrificado e pacificado que está o “Olivais”. Dirá logo algum vizinho, ou talvez mesmo o Quim, que o ladrão sofre de uma “adição”. Assim seguindo eu, mero chato, com o culposo e pecaminoso “vício”, e o ladrãozeco, pobre vítima da tal “adição”.
Enfim, isto é uma conversa de café, sem grande coerência – excepto a do tal “racismo sistémico” de que padeço, pois sou de identidade “portuguesa”, e de “etnia” branca, dirão alguns… Desarrumada e até infindável. Mas fico ainda com um resmungo, até à próxima sessão de esplanada: continuem a pensar assim. E, acima de tudo, a falar assim… E um dia destes até os ciganos, fartos do que “parece”, votarão no Ventura.



Capa do diário francês Libération de domingo, 29 de Outubro
«A retórica é claramente de ódio a Israel e anti-semita. Os cartazes são de linguagem desumanizadora e de apoio à violência do Hamas. Vêem-se bandeiras do ISIS e da Al-Qaeda. Ninguém podia pedir maior apologia do terrorismo. Grita-se “morte aos judeus”, usam-se cartazes com a bandeira de Israel no lixo junto ao slogan “manter o mundo limpo”. Só quem considera os judeus não possuidores de dignidade humana por inteiro permanece numa manifestação onde se exibem tais opiniões.
Mas nem só de slogans em manifestações vive o anti-semitismo. Em Londres, os crimes motivados por anti-semitismo, desde o ataque do Hamas, cresceram 1350% (em termos homólogos). Uma sinagoga em Berlim foi atacada por dois cocktails Molotov. Na mesma Berlim, estrelas de David – o sinal, lembro para os mais novos, que os judeus eram obrigados a usar em braçadeiras no regime nazi – foram pintadas à porta de casas onde habitam judeus. A sinagoga do Porto foi vandalizada. Em Paris, foi queimada a porta do apartamento de um casal de judeus octogenários. (…) Em Barcelona um hotel foi atacado por manifestantes. A razão? É propriedade de um judeu. Em Toronto o alvo foi um restaurante. A razão? A mesma.
Este anti-semitismo é declarado e evidente. Atacam-se as pessoas, as casas, os negócios. Temos relatos de tudo isto vindos da Europa pelos anos 1930.»
Maria João Marques, no Público

Dizei aos que não crêem: “Sereis, sem dúvida, derrotados e reunidos no Inferno. O vosso lugar de descanso será o mais terrível”.»
Alcorão, 37: 171-173
Este 7 de Outubro será sempre conhecido como dia da infâmia em Israel. O dia da incursão de cerca de dois mil terroristas do Hamas em território israelita que provocou 1500 mortos e mais de três mil feridos, além de 300 pessoas de mais de 30 nacionalidades tomadas como “reféns”. Ignora-se se ainda estarão vivas.
Ainda nem uma das vítimas tinha sido enterrada, já havia por cá quem relativizasse o massacre, invertendo o ónus da culpa, que terá sido das vítimas. Seguindo a lógica daquele juiz desembargador que absolveu o violador alegando que a jovem violada usava uma saia demasiado curta e, portanto, estava mesmo a pedi-las…
Para tal gente toda a barbárie, singular ou colectiva, assenta neste axioma que desafia a lógica mais elementar. Inocentar os criminosos, culpar as vítimas. Daí, no próprio dia 7, não ter faltado logo quem estabelecesse equivalência moral entre a Alemanha nazi e o Estado judaico. Qual o efeito prático de tudo isto? Branquear a página mais negra da história humana, que se traduziu no assassínio sistemático e meticuloso de seis milhões de pessoas às ordens de um estado totalitário, onde qualquer dissidência equivalia a morte.
Não faltou até, nesta linha de raciocínio cada vez mais alucinada, quem metesse Gaza e Auschwitz no mesmo saco. Omitindo, desde logo, toda a cartilha xenófoba e racista do Hamas – declaração de ódio visceral não apenas ao Estado de Israel mas ao conjunto do povo judeu.
Esta cartilha está disponível na rede, para quem queira ficar elucidado.
Proclama coisas como estas:
«Não há solução para o problema palestino a não ser pela guerra santa. Iniciativas de paz, propostas e conferências internacionais são perda de tempo e uma farsa.»
«Os hipócritas não podem ser superiores aos crentes, e devem morrer em desgraça e aflição.»
«Os sionistas estiveram por detrás da I Guerra Mundial, por meio da qual obtiveram a destruição do Califado Islâmico, tiveram altos ganhos materiais, passaram a controlar numerosos recursos naturais, obtiveram a Declaração Balfour e criaram a Liga das Nações Unidas (assim no original), para poderem governar o mundo por meio dessa Organização. Estiveram, também, por detrás da II Guerra Mundial, através da qual juntaram um tremendo lucro com o comércio de materiais de guerra e abriram caminho para o estabelecimento do seu Estado.»
Destaco sobretudo esta:
«A hora do julgamento não chegará até que os muçulmanos combatam os judeus e terminem por matá-los e mesmo que os judeus se abriguem por detrás de árvores e pedras, cada árvore e cada pedra gritará: “Oh! Muçulmanos, Oh! Servos de Alá, há um judeu por detrás de mim, venham e matem-no!”»
Ao menos não enganam ninguém: dizem exactamente o que pensam – se é que podemos chamar pensamento a isto.
Tal como fez Hitler há cem anos, quando publicou esse execrável panfleto antijudaico chamado Mein Kampf. Sabemos muito bem o que aconteceu depois.
Jamais se repetirá. Os judeus não voltarão a deixar que o inimigo os conduza ao matadouro. Tenha esse inimigo o rótulo que tiver, chame-se ele como se chamar.
Faz amanhã 60 anos, um reverendo baptista de baixa estatura e vontade inquebrantável, militante anti-racista, pronunciou um dos melhores discursos do século XX. Martin Luther King culminou a gigantesca marcha de Washington, que congregou cerca de 250 mil pessoas, com a última de dez intervenções proferidas nas escadarias do Memorial Lincoln – local emblemático por evocar o presidente norte-americano que libertou os EUA da escravatura e pagou com a vida por isso.
Falando perante aquele que era então o mais vasto auditório de sempre no seu país, com as três estações de televisão nacionais transmitindo em directo, King começou o discurso lendo um texto que levava escrito, mas – segundo reza a lenda – quando já havia muitas pessoas a dispersar naquela tarde de 28 de Agosto de 1963, a cantora Mahalia Jackson incentivou-o em voz bem audível: «Fala-lhes do sonho, Martin!»
Ele largou os papéis, passando a falar de improviso. Destes dois momentos conjugados nasceu um discurso extraordinário, pontuado de referências bíblicas (com citações do Salmo XXX, 5 e do livro de Isaías, XL, 4-5) em defesa da igualdade racial e em sonoro protesto contra todos os actos de discriminação de que os cidadãos americanos de pele negra continuavam a ser alvo um século após a guerra civil, sobretudo nos estados do sul governados por caciques do Partido Democrático.
«Sonho que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos esclavagistas serão capazes de se sentar à mesa da fraternidade. Sonho que um dia até o Mississipi, um estado que sufoca sob o calor desértico da injustiça e da opressão, se transformará num oásis de justiça e liberdade. Sonho que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo seu carácter», declarou King nesta obra-prima da oratória política, peça essencial para a promulgação da legislação que reconheceria direitos civis a todos os norte-americanos, promulgada dez meses mais tarde pelo presidente Lyndon Johnson.
James Reston, um dos mais categorizados jornalistas do New York Times, fez a cobertura do acontecimento, no qual John Kennedy, então inquilino da Casa Branca, chegou a pensar participar antes de ter sido fortemente dissuadido pelos seus conselheiros, receosos de que a marcha pelos direitos raciais degenerasse em tumultos na capital dos Estados Unidos. Mas Reston, apesar do seu inegável instinto jornalístico, não foi capaz de descortinar a força mobilizadora do discurso do futuro Prémio Nobel da Paz, tendo-lhe reservado um modesto 19.º parágrafo na peça de reportagem que o mais influente diário norte-americano dedicou no dia seguinte à memorável manifestação de Washington – prova evidente de que nem sempre o jornalismo está em condições de ser o primeiro rascunho correcto dos livros de História.
Em 2023, com tantas segregações ainda em vigor – de modo explícito ou implícito – nos mais diversos locais do globo, faz falta uma nova Mahalia Jackson a incentivar: «Fala-lhes do sonho, Martin!» E faz falta, acima de tudo, um novo Luther King, transformando a resistência passiva e a não-violência em poderosos instrumentos de combate cívico em defesa dos direitos humanos, com a sua retórica de profeta iluminado, capaz de mobilizar incontáveis multidões através dos continentes só com o poder da palavra.

Um homem não deve ligar às imbecilidades que vai lendo na imprensa, em particular aquelas imbecilmente partilhadas nas redes sociais. Mas há tardes…
Há anos o “Público” publicou uma série de entrevistas pindéricas sobre o racismo – julgo que vieram passar a livro. Um afamado antropólogo socratista, entusiasmado, veio a escrever no mesmo jornal que elas “provavam” a existência local do fenómeno – uma deriva “positivista” que às vezes dá jeito, possibilitando que este tipo de gente publique no mesmo boletim que “vivemos num apartheid”. Li algumas dessas peças – e lembro a conversa com uma das entrevistadas, cientista social estrangeira que bem acima está desta tralha, que me contava dos rumos entrevistadores. Explícitos para aqueles, como ela (e até eu) sabem da gigantesca diferença (intelectual, moral, deontológica) entre pôr o informante/entrevistado a falar do que queremos ou a dizer o que queremos. Enfim, almoçávamos nós em esplanada lisboeta e perguntou-me ela se eu lera as entrevistas. Respondi eu que vira algumas, com menosprezo, lembrando que uma delas clamava o racismo português, tamanho que não havia negros nas telenovelas e nos frascos de shampoo… E que a vítima entrevistada não suportava tal coisa, a “invisibilidade” racista, tão letal que partira ela, artista, para a ecuménica Berlim. Rimo-nos, apesar de não estarmos em dias e eras de grandes boas disposições.
Mas este gemebundismo vingou. Há pouco tempo o esquerdalhismo orgasmou-se com as tranças rastafari de um apresentador de telejornais, dando-lhes estatuto fundacional. Depois outra apresentadora de notícias, dotada de cuidado e vasto cabelo “afro”, chorava a morte do norte-americano Floyd enquanto esquecia as mortes contemporâneas, às mãos de similares polícias, de indo-descendente na Beira e de eslavo no aeroporto de Lisboa. A tal “invisibilidade” “racista” reduzia-se… e não só assim.
Há algum tempo entrei na loja da Vodafone do Vasco da Gama. Notei que estava decorada com vários cartazes de risonhos clientes da empresa, na sua maioria negros – o trabalho que as grandes empresas dão a modelos, profissionais ou amadores, é uma forma de luta contra a “invisibilidade” “racista”. Presumo que nas telenovelas aconteça o mesmo. Sorri e comentei o facto com a minha companhia, a melhor que poderia querer. Para seu incómodo, que notar estas coisas pode parecer mal, “racismo” até…
Regresso ao início. Vejo no FB partilhas de um texto jornalístico de um consabido demagogo comunista, que ali chega por via de alguém que há décadas embrulha o seu vil otelismo assassino com berloques da “capela do Rato”. Somos agora racistas, diz esta gente, porque a PSP fez um anúncio para candidaturas usando a fotografia de um agente negro…
Há pessoas que aplaudem, “partilham”, “gostam” deste lixo. De gente. Eu nada digo. As minhas amadas filha e irmã proíbem-me de explicitar o que penso desta gentalha.
(Lamento mas não encontro uma versão incorporável no blog que contenha apenas as declarações de António Costa. Mas indo à página do canal CNN elas estão disponíveis aqui.)


(António)

(Augusto Cid)

(Augusto Cid)

(Leal da Câmara)

(Alonso)

(Vilhena, recriando Bordalo Pinheiro)

(Vilhena)

(Vilhena)

Razão tem a ex-deputada Katar Moreira, os portugueses são o cúmulo da desfaçatez. Urge cancelá-los! Ainda bem que ela não verá esta minha publicação, que decerto lhe despertaria (ainda mais) ira. Pois aqui se retrata o jantar de um português, “branco” ainda por cima – e por isso um dos tais da desfaçatez -, lisboeta em véspera de Santo António: uma (magnífica) moamba com funge (caracata, se se quiser, xima de mandioca para facilitar), que lhe foi ofertada pelo autor. Sendo este um outro “branco”, português, que nem nunca viveu em África. E ainda pior, tudo isto acontece em festa de Santo Padroeiro. Malvados colonos colonialistas, gulosos na sua tal desfaçatez. Enfim, brancos!
(no Nenhures)

Num postal recente usei o termo “esquerdalhada” (que me é habitual). E logo três amigos me enviaram mensagens, pois com ele incomodados. Nos comentários recebidos (no meu mural de Facebook) também surgiu algum desconforto – e mesmo imprecações. Naquela plataforma a ligação ao texto foi partilhada por outros – o que lhes agradeço – em cujos murais também notei algumas reacções desagradadas, até furiosas. Isto mostra a vigência de um sentimento pelo qual sobre os locutores de “esquerda” não se deve verbalizar menosprezo ou desrespeito pelas suas atrapalhadas ou aldrabadas opiniões.
Reacções ao invés das esperadas face à rapaziada da direita. Sobre esta há dois termos que vão surgindo: o mais raro “direitinhas” – em tempos consagrado em banda desenhada publicada no “Diário”, o jornal do PCP dirigido por Miguel Urbano Rodrigues -, mas que não vinga muito dado o tom pouco ferino que aquele sufixo sempre dá. E o mais habitual – e quase automático – “fascistas” (ou “faxos”), uma evidente desvalorização ética e intelectual.
Ou seja, se eu, ou outrem, diante dos dislates agora até algo habituais daqueles que se propõem decepar genitais alheios, hastear bandeiras nacionais em edifícios oficiais nas antigas colónias ou louvaminhar as inexcedíveis qualidades do colonialismo português (o qual “nunca existiu”, a crermos na douta bibliografia, titulada sem a ironia do texto que glosa), falar de “direitinhas”, de “fascistas” (ou mesmo de “fdp’s” por extenso, como fiz há pouco – quando o professor Ventura inculpou Costa de um duplo assassinato) não tenho ecos abespinhados. E isso não se restringe às peculiaridades do agora CHEGA. Pois sou tão velho que me lembro de ver o tal insulto “fascistas” atribuído a gente como… Franco Charais e Pezarat Correia. Ou António Barreto. E desde então Ferreira Leite ou Vítor Gaspar e um vasto etc. foram assim ditos, e também estrangeiros, estes até mesmo nazis, como Merkel ou Bento XVI. E tais epítetos não colhem apenas silêncios mas mesmo anuências – mesmo entre aqueles que os assumem como meras metáforas (e não são as invectivas, sarcásticas ou insultuosas, quase sempre metafóricas?).
Mas o apreço “neutral” pelo desapreço face à malta à direita é até mais abrangente: nenhum amigo se preocupa quando afloro eu – como aqui o fiz – os dizeres, de facto apenas onomatopaicos, dos negacionistas das alterações climáticas, estes sempre urrando que tal coisa é mito emanado do “marxismo cultural”, deístas pagãos que são, e nisso obtusos crentes de que da divindade Mercado nada de negativo pode brotar. “Sempre as houve”, “dizem que há aquecimento mas está a chover”, expectoram ainda que doutores e engenheiros. E mesmo que pais e avós extremosos das suas “boas famílias” fazem trocadilhos brejeiros com o nome da célebre jovem ecologista sueca, num verdadeiro Cialis deste senil imbecilismo “liberal”.
Tal como não li agravos quando propus o regresso ao útero materno dos energúmenos anti-vacinas do Covid-19 – como, por exemplo, aqui – saídos das grutas mais recônditas do reaccionarismo pimpão, desvairados avessos à intrusão estatal que lhes quis injectar químicos pois entendendo-a escrava das apetências lucrativas das farmacêuticas – ainda que depois não hesitem em encharcar-se (e às respectivas parentelas) das tão dispendiosas quimio e radioterapias que os Estados compram às tais farmacêuticas interesseiras para a eles – e seus próximos – prolongar as verborrágicas vidas. Ou ainda, para último exemplo, quando resmungo contra a rústica inintelectualidade de alguma direita portuguesa, incapaz de avisar um irritante, e de histriónica ignorância, casal nortenho de que a Escola tem mesmo como tarefa Educar Para a Cidadania.
Em suma, neste ambiente é aceitável, e até saudável, usar do sarcasmo para invectivar a “direita” mas é inaceitável, pois ofensivo, escarnecer da “esquerda”. Como se esta, e os seus fiéis, tenha uma universal virtude. Qual uma superior decência e uma acrescida potência.
É um traço interessante porque o pejorativo (e quantas vezes enojado) “esquerdalho” – e o correlativo “grupelho” – são termos que não têm um “pedigree” de “direita”. De facto, emanaram de uma força de esquerda, aplicados às moles de patetas m-l de então, essas que agora se apresentam sob as pestíferas vestes “identitaristas”: tratava-se do feixe de excitados sociopatas que o secretário-geral abordou no seu “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, entretanto travestido (ou transvestido, não sei…) num tal de “identitarismo”.
Também por isso esta expressão pejorativa não recai sobre o amplexo PCP. Não só por estas razões históricas mas ainda devido a dados estéticos: mesmo na sua decadente situação intelectual actual – longe vai a época em que o PCP tinha quadros como Luís Sá, Barros Moura, João Amaral, ou Vital Moreira a renovar Marx, para além da tutela de Cunhal, e fica-se agora pelos esparvoados tuítes do tão elogiado António Filipe – o “partido” tem alguma… “correcção formal”. Como se uma espécie de quadratura do quadrado, algo que o torna algo imune a algum tipo de críticas mais sarcásticas ou ríspidas: foi decerto por esse desvelo estético, nisso ético, que nesta era de tamanhas retóricas “cuidadoras” das “minorias etnoculturais” puderam os comunistas emanar um comunicado oficial – após a invasão russa da Ucrânia – louvando a excelência das políticas soviéticas relativas às “minorias [étnico-]nacionais” sem que tivessem sequer tremido o Carmo e a Trindade “identitarista”, “multicultural”.
Também, fora dos dizeres presentes no espectro partidário, não aplico, nem se costuma aplicar, este tipo de sarcasmo a discursos desenvolvimentistas – de facto muito ausentes da cena pública portuguesa. Mesmo que nestes abundem os utopismos e, bem pior, sejam frequentemente poluídos pela recepção das “causas” e linguajares típicos de alguns movimentos identitaristas ocidentais. É como se a adesão, sob variadas formas, ao ideário do “desenvolvimento humano” blinde algumas das vozes mais impensantes que sob ele se agregam, como por exemplo os palradores do “empoderamento”, que nem fabianos se percebem, ou os que mesclam a temática do “género” com as questões da sexualidade, imaginando que o mundo é uma Nova Inglaterra hollywoodesca.
De facto esta “esquerdalhada”, demagógica – e nisso desonesta – ou apenas tonta, e sempre histriónica, não é a “esquerda” mas apenas (plurais) feixes internos à “esquerda”. Por cá muito em voga e muito visíveis dada a descabida influência que têm na imprensa e nas universidades. E tendo alguns agentes de verve fácil muito escapa esta mole ao crivo crítico. Nessa pluralidade loquaz, e abrangência temática, torna-se algo difícil descrever (e assim definir) este cadinho de textos oriundos do “radicalismo pequeno-burguês de fachada identitarista” sem recorrer a laivos de alguns locutores, qual galeria de ilustrações, uma chinoiserie…
Mas fazê-lo acabará por ser desagradável. Pois não só eu não leio muitos desses constantes textos idolátricos – até os evito -, como à maioria daqueles a que chego faço-o por conselho de alguns cruéis amigos, malévolos nos seus verrinosos avisos “já viste o que fulano de tal botou?”. Ora isso tem um corolário, pois sou conduzido (deixo-me conduzir) a ler as trapalhadas botadas por gente que conheço ou com a qual tenho conhecimentos comuns, afinal uma pequena “lisboa” do Minho à Madeira. E assim o meu sacar da cimitarra, a volúpia assassina, pode parecer ad hominem. Quando não é, mas sim uma aversão higiénica face a destrambelhados argumentos colectivos individualmente expostos. E, por vezes, mas apenas no caso dos socratistas, um afã sociocida, portanto também colectivo.
Na realidade, mais do que avaliar da hipotética pertinência dos problemas sociais que são apontados ou das soluções que são propostas (quando o são) o que é mais notório é que neste eixo discursivo esquerdalho se tratam de expressões atitudinais, assentes numa vácua superficialidade embrulhada em retóricas histriónicas. O objectivo é sempre o de constituir “grupos”-para-si, entidades mobilizadas para o “activismo”, numa burguesa refracção do velho ideário da – agora – “luta das identidades” como “motor da história”. Mas ouvindo/lendo os pretensos “intelectuais orgânicos” o que logo se apreende é que na sua grandiloquência surgem como aquilo a que José Cutileiro aludiu no seu “Abril e Outras Transições”, nada mais do que discursos reconhecíveis como “when a man is talking rot”…
Há três trombos fundamentais nestas vias discursivas, que passo a a exemplificar usando alguns casos que vão vegetando na minha memória. Um é o culto do “construtivismo”, a académica ideia – pacífica em si mesma – de que as realidades sociais são socialmente construídas. E que nesses processos – o que é um bocadinho mais discutível – os formatos discursivos (os conteúdos linguísticos, para facilitar) são um material fundamental da edificação das lógicas e das mundividências, assim da miríade de valores e poderes presentes em cada sociedade. Há nisso uma espécie de linear determinismo, como se sociológico fosse, e que vem promovendo esta moda de depuração dos linguajares. Troque-se por miúdos: parece que o governo indiano – agora muito louvado na reemergência geopolítica dos BRICS, considerada fundamental pela esquerda radical para se combater a “episteme” obscurantista “ocidental” – acaba de retirar o evolucionismo darwiniano do ensino escolar. Em Portugal, membro da perversa hidra capitalista ocidental, esse ensino mantém-se, tal como os restantes itens da ciência contemporânea. No entanto para esta esquerda identitarista, prenhe de afã purificador da língua, tudo funciona como se o ensino (escolar e por outros meios) da ciência de nada sirva, pois continuamos a chamar “nascer do Sol” à alvorada e “pôr-do-sol” ao ocaso. Ou seja, crêem que apesar de alguns esforços pedagógicos as palavras nos condenam – neste caso à mundividência da crença geocêntrica, pois as amarras linguísticas nos farão pretéritos a Copérnico e Galileu.
Tal concepção nota-se no eixo feminista – em sentido amplo, a defesa da igualdade e equidade de mulheres e homens, algo que é historicamente uma matéria de “esquerda”. Um dia li no “Público” um artigo de uma cientista social – muito louvado pelas minhas colegas moçambicanas especialistas em questões de Género, decerto que por conhecerem a autora – a clamar contra o universal masculino gramatical, como sendo este um instrumento de reprodução da opressão falocrática. Reparei que a senhora tinha aposto como epígrafe o Magritte do “ceci n’est pas une pipe” – estava eu a viver na Bruxelas do artista, o que mais me chamou a atenção. Ora a autora feminista passava o artigo a defender que “cachimbo” deve ser cachimbo – no tal ditirambo contra as algemas gramaticais, as masmorras sintácticas e os cadafalsos semânticos que considera serem e promoverem os malvados poderes -, sem perceber a sua gritante contradição. Não pude evitar pensar, e por várias razões, que tudo aquilo (preocupações gramaticais, textinho ufano e aplausos dos cientistas apoiantes) era uma esquerdalhice tonta, típica da esquerdalhada. E é apenas um exemplo de incultura aplaudida pelas “elites” “intelectuais”, do ambiente geral cristalizado no patético uso das “Todes” ou “Todxs” e afins por burguesotes que assim se imaginam “radicais” e, mesmo, “cidadãos”. E o passo avante desta deturpada perspectiva “construtivista” é o que agora grassa, a vertigem censória, a purga que se faz aos textos do passado e os limites censórios àqueles ainda em produção, convocados a associarem-se a determinadas “sensibilidades” em voga…
Mas este rumo não passa apenas por patetices como este exemplo que dei. Há muita demagogia, no rumo de um verdadeiro aldrabismo. Um dos vectores interessantes nestes “construtivistas” de cardápio é o facto de associarem esta crença de que os termos têm – por si só – efeitos sociais (perversos) à vontade de instaurarem a discriminação oficial de categorias raciais, uma evidente contradição. O debate sobre políticas equitativas é salutar e fundamental. Uma das dimensões desse debate – o qual em Portugal é muito frágil por deficiência intelectual societária – é o que opõe o secularismo comunitarista da esquerda identitarista aos adeptos da laicidade universalista, defensores de uma cidadania republicana. Os primeiros querem fragmentar a população em entidades discretas de cariz “étnico” e “racial” (ainda que não as saibam definir) para promoverem “discriminações positivas”. Este é um debate interno à “esquerda” mas também com a “direita” e o “centro”.
Ora, também no famigerado “Público”, li há anos um artigo – de alguém que se subscrevia com o nome da instituição científica estatal que o emprega (ou seja, convocando o empregador para sedimentar as suas opiniões políticas, uma manobra rasteira…) – no qual se defendia o tal recenseamento “étnico-racial” afirmando “numa sociedade aberta o Estado deve poder perguntar tudo” e “cumpre aos cidadãos comprovar a razão de não quererem responder”. Ou seja, o Estado deve exigir às pessoas que se identifiquem e situem segundo classes “étnicas” e “raciais”, se pensem e actuem consoante tal, e sejam objecto de políticas estatais peculiares sob essa condição. Sendo assim a tal “sociedade aberta”. A mim, diante desta torpe manipulação da célebre expressão de Popper, crucial no ideário liberal, ocorreu-me o óbvio, que o artigo era uma esquerdalhada, abjecta demagogia, talvez típica do seu autor, decerto que disseminada entre os seus admiradores. E convém perceber que este fervor racialista – apresentado como factor de equidade – implica a utilização das tais palavras que manipulam as mentes (como sempre assumem em relação a outros assuntos). Assim sendo, para estes esquerdalhos eu estou errado quando digo “todos” ou “todas” e estou errado quando não digo “negros” e “amarelos” – como se houvesse discriminações a fazer e outras a evitar. No fundo, o que este esquerdalhismo quer é sedimentar, enquistar, entidades conflituantes. E entretanto evitar que um cozinheiro “branco” apresente uma receita de moamba na televisão – e a desfaçatez é a minha. E não a dos esquerdalhos que se congregam em torno destes dislates.
Um segundo trombo desta “esquerda” radicalizada é o seu evolucionismo, metástase do seu marxismo vulgar. Pois nela habita a crença de que as sociedades evoluem (se direccionam num sentido positivo, pois é preciso traduzir isto num país onde amiúde se ouve o oxímoro “evolução negativa”), num rumo relativamente pré-determinado, “progressista” dizia-se. Nesse marxismo vulgar vigente o tal trombo é a crença de que as sociedades ocidentais, as do capitalismo pérfido, esgotaram as suas capacidades de se transformarem e daí a necessidade de uma qualquer “transição”. A efectivação desta crença do actual “imobilismo” por “exaustão” social, conduzindo a um “atavismo”, tem agora um tópico em Portugal – para este “esquerdismo”, o tal “esquerdalhismo” folclórico, a sociedade portuguesa é um mero e malévolo epifenómeno do passado recuado.
Daí o surgimento, cinquenta anos depois das independências das antigas colónias, de uma série de paladinos da necessidade de afirmar o país como fruto de uma história escravista, como se esta moldasse o Portugal actual, lhe estivesse no âmago. A vontade é simples, transformar o ensino da História e a consciência nacional numa traumatizada versão de nós-próprios, de facto seguindo o desígnio de apoucar a identidade nacional, e nisso a comunidade nacional – pois esta dada a capitalismos e até conservadorismos. Um projecto até contraditório num país que nem tem um ensino patrioteiro nem alberga projectos de expansão nacionalista ou neo-colonial.
Parte deste rumo vem de uma até pungente condição, o facto de alguns intelectuais (historiadores e afins) terem dedicado parte das suas carreiras de investigação a temáticas da expansão portuguesa em África (e no Brasil) e de ansiarem por um estatuto de “intelectuais públicos”. Algo para o qual sentem (erradamente, diga-se) necessitar de capitalizar, usando-o linearmente, o que estudaram sobre séculos prévios, atribuindo as características que nesses identificam às realidades actuais. O interessante é que se forçam a presença actual das categorias existentes na sociedade portuguesa de antanho são incapazes, ou disso desinteressados – por alguns motivos ideológicos -, de vasculharem nas sociedades africanas actuais alguns vestígios dessa realidade escravista ali duradoura durante séculos.
O que demonstra que, por mais punitivos que queiram ser sobre o passado e o presente português, são incapazes de ultrapassar um traço típico nacional – o da distracção face a realidades outras, sempre centrados no nosso país (isto é algo que esmiucei num texto longo, “O Olhar Português“). Ou seja, estes doutos intelectuais, 50 anos depois das independências das colónias portuguesas, sobre África pouco ou nada dizem, apenas lhes importam os ecos (demoníacos ou gloriosos) da história pátria. E é isso que os torna “intelectuais públicos”, “críticos”. É evidente que há diferenças internas neste eixo de discursos, entre os que analisam a história portuguesa, na sequência do que fizeram alguns da geração anterior – quantas vezes seus mestres -, e os que se limitam a gesticular – como alguns que, também no “Público” (sempre o palco privilegiado deste coro), defendem a “intervenção” “anti-colonial” sobre o património artístico. Mas, e o que é uma deliciosa demonstração da pantomina desses autores, daqueles itens patrimoniais que estão na rua, pois isentam os itens alojados no interior de edifícios desses propósitos “intervencionistas”…
O terceiro trombo, evidentemente ligado aos anteriores, é a afirmação de que o nosso país é um extremo caso de racismo, que “Portugal vive num apartheid”, como clamava (no “Público”, claro) há anos um antropólogo defendendo a inenarrável Katar Moreira (a tal da moamba racializada). Talvez por isso possa ter eu visto uma activista, apresentada como senhora professora, na televisão defendendo o “Mamadu” – assim como um sindicalista em apoio à “Isabel” (Camarinha), um autarca ombreando com o “Rui” (Moreira), um académico louvando o “António” (Sousa Pereira), um camarada subscrevendo o “Francisco” (Louçã), etc. E nessa candura, até pungente, afirmando a pés juntos que o racismo é monopólio dos brancos, explicitando querer ensinar isso à audiência televisiva enquanto tentava balbuciar uma recensão oral de um qualquer “paper” onde aprendera a atoarda, tão “decolonial”. Pobre jovem senhora, com todos os sinais físicos e verbais da boa pessoa, cheia de boas intenções salvíficas, avatar de avoengas missionárias, nem sabia o que significava “uigures”! E ali estava defendendo, pedagógica, um conjunto de sábias (porque produtivas) patacoadas.
Esquerdalhada? É isto, entre inúmeros, constantes, exemplos, provindos de algumas almas caridosas ou mentes fabianas misturadas com uns mariolas “activistas” – estes sempre com “um olho no racializado, outro no burro“. De facto militantes da superficialidade, eles sim algemados à “atitude”. Que julgam certa ou isso lhes convém no mercado estatutário.
Há uns anos dediquei um postal a uma querida amiga, que senti demasiado sensível a alguma daquela verve esquerdalha. Tinha até a ideia de lhe dedicar uma série de postais, procurando demonstrar-lhe os chorrilhos de asneiras convictas que ia lendo por cá. Mas depois desisti, que há tanto mais em que pensar. Então, sobre a superficialidade esquerdalha e suas patéticas atitudes, ficou só aquele postal: “O Corredor“, minha memória de quando trabalhei na África do Sul. 30 anos depois o mundo mudou bastante. Mas não o esquerdalhismo, seus ademanes, trejeitos. E objectivos. Os quais são, como antes o foram, malévolos. Por mais roupagem garrida que traga.
No fundo, no fundo, a diferença é mais ou menos como olhar para este mural que encontrei patente na construção de um prédio de Bogotá: “Obrero Sexy”. Que cada um interprete à sua maneira. De modo mais ou menos em voga…
(Também no Nenhures)